Ginecologia e ObstetríciaCiclo Menstrual, SUA e Endocrinologia Ginecológica

Amenorreia primária e secundária

Três réguas de idade que não coincidem, duas ordens de exame que convivem no Brasil e um compartimento que nenhuma classificação de anovulação enxerga

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Adolescente de 15 anos é levada à consulta por ainda não ter apresentado a menarca. Ao exame, apresenta desenvolvimento normal de mamas e pelos pubianos. Qual é o termo que define a ausência de menstruação em uma mulher que nunca menstruou? Assinale a alternativa correta.

02

Como esse tema cai

Este capítulo trata da investigação da amenorreia, e só dela: como se decide que a ausência de menstruação já merece nome, em que ordem os exames entram, o que cada resultado fecha e o que ele apenas estreita. O tema da matriz junta a forma primária e a secundária porque a banca também junta — o mesmo enunciado que descreve uma adolescente que nunca menstruou cobra o raciocínio que uma mulher de trinta anos com ciclos interrompidos exige.

O que fica de fora está de fora de propósito. O tratamento de cada causa encontrada pertence ao capítulo dela: a síndrome dos ovários policísticos tem o seu, com os critérios de Rotterdam; o climatério tem o seu, com o critério temporal dos doze meses; a hiperprolactinemia com descarga papilar e o corte de prolactina do protocolo brasileiro estão no capítulo de fisiologia do ciclo menstrual, que também já mapeia cada pista clínica ao andar do eixo; e as causas obstrutivas aparecem no capítulo de dismenorreia pela dor que provocam. Aqui elas voltam por outra porta — como diagnósticos que se apresentam sem sangramento.

A unidade deste capítulo é o roteiro. Ele existe porque três documentos brasileiros e internacionais em circulação simultânea discordam sobre a idade que define a forma primária, sobre o momento em que a gonadotrofina entra e sobre se os testes dinâmicos ainda se fazem. O aluno que decora um roteiro só acerta enquanto a banca ler o mesmo documento que ele leu.

03

O que muda decisão

Um sintoma, e três réguas de idade que não coincidem

O glossário do sistema de classificação de distúrbios ovulatórios da Federação Internacional de Ginecologia e Obstetrícia é explícito ao definir amenorreia: um sintoma, a ausência de sangramento menstrual em menina ou mulher nos anos reprodutivos. Não é diagnóstico, não é doença e não é o nome do compartimento que falhou. A consequência prática aparece na leitura do enunciado: quando a pergunta é qual o diagnóstico mais provável, a resposta nunca é amenorreia — ela é o achado que trouxe a paciente até a pergunta.

A forma secundária tem duas cláusulas no quadro de classificação do protocolo brasileiro de 2025, e elas não são alternativas de estilo. A primeira exige ausência de menstruação por, no mínimo, três ciclos em mulher que menstruava de forma regular. A segunda exige um período total de seis meses quando a paciente relata ciclo irregular. Quem decide qual cláusula vale não é o tempo decorrido, é a regularidade prévia — e é por isso que a primeira pergunta da anamnese é como eram os ciclos antes, não há quanto tempo eles pararam.

O mesmo artigo abre a introdução com uma redação mais curta: ausência de menstruação por três meses consecutivos após a menarca ou em mulher que já tenha tido ciclos menstruais. Para a mulher de ciclos regulares as duas redações coincidem, porque três ciclos de vinte e oito a trinta dias somam perto de três meses. A diferença morde exatamente quem tem intervalos longos: a mulher que menstruava a cada quarenta e cinco dias completa três meses sem sangrar tendo perdido dois ciclos, e o quadro lhe dá seis meses enquanto a introdução já a chamaria de amenorreica. O quadro é a peça que governa, porque é ele que a própria classificação apresenta como critério.

Na forma primária o quadro traz três cláusulas, e a terceira é a que quase ninguém guarda. Vale amenorreia primária a ausência de menstruação após os 13 anos sem desenvolvimento de caracteres sexuais secundários, após os 15 anos com desenvolvimento adequado deles, e ainda até três anos após o início do desenvolvimento das mamas, se isso ocorreu antes dos 10 anos de idade. A terceira cláusula não é redundante nem nasce nas outras duas: ela pode disparar antes.

Vale fazer a conta com duas meninas. A que teve telarca aos nove anos e seis meses fecha os três anos aos doze anos e seis meses, e já está dentro da definição. A que teve telarca aos dez anos e dois meses fica fora da terceira cláusula, porque a telarca não veio antes dos dez, e espera a régua dos quinze. Oito meses de diferença no início das mamas produzem dois anos e meio de diferença no momento em que o rótulo cai — e a idade cronológica, sozinha, não avisa nada disso.

A terceira régua é a que mais circula no Brasil e é a mais antiga. O protocolo de atenção básica do Ministério da Saúde, de 2016, traz na caixa de decisão do seu fluxograma de atraso menstrual os limites de 16 e 14 anos; um roteiro brasileiro de investigação da amenorreia primária publicado em 2018 abre o resumo com a mesma dupla, ausência de menstruação após os 14 anos sem caracteres sexuais secundários ou após os 16 anos com eles. A mesma adolescente de quinze anos com mamas desenvolvidas é amenorreica por um documento e caso de espera por outro.

Cinco compartimentos que somam cem, e a base que a prova esconde

O artigo brasileiro de 2025 reparte as causas da amenorreia secundária em cinco compartimentos. As hipotalâmicas respondem por 35%, e a maioria delas é funcional. A hipófise anterior responde por 17%, com os prolactinomas à frente. As ovarianas são a maioria isolada, com cerca de 40%, e nelas a síndrome dos ovários policísticos e a insuficiência ovariana prematura lideram. As anormalidades do trato genital ficam com cerca de 7%, quase todas aderências intrauterinas e estenose do canal endocervical. Tireoide, suprarrenal e doenças sistêmicas fecham com 1%.

Some: trinta e cinco, mais dezessete, mais quarenta, mais sete, mais um. Cem exatos. A soma fechada é a prova de que os cinco números partilham a mesma base, e a base está escrita na primeira frase — são causas não fisiológicas. Gravidez, lactação e menopausa estão fora da conta. Quem lê quarenta por cento de causa ovariana como quarenta por cento das amenorreias contradiz a conclusão do próprio artigo, que manda sempre considerar a hipótese de gravidez diante de um caso de amenorreia.

Recalcular sobre a população dá a dimensão certa. A prevalência da amenorreia secundária não associada a causas fisiológicas é de aproximadamente 3% a 4%. Aplicando as frações a essa base, as causas ovarianas alcançam de 1,2% a 1,6% das mulheres; as hipotalâmicas, de 1,05% a 1,4%; e as do trato genital, de 0,21% a 0,28%, algo entre duas e três em cada mil. Os sete por cento parecem desprezíveis na fatia e não são desprezíveis no ambulatório: correspondem a cerca de uma em cada catorze investigações que chegam ao fim sem causa fisiológica.

Dentro de cada compartimento a lista importa porque ela é o cardápio dos distratores. No hipotálamo, além da forma funcional, entram doenças inflamatórias ou infiltrativas — linfoma, craniofaringioma, histiocitose de células de Langerhans, sarcoidose — e trauma do sistema nervoso central. Na hipófise, adenomas funcionantes e não funcionantes, craniofaringiomas, meningiomas, cistos, infarto e infiltração. No ovário, doenças autoimunes com infiltrado linfocitário, quimioterapia e radioterapia, pré-mutação do cromossomo X frágil, anormalidades cariotípicas, tumores e causas cirúrgicas. No trato genital, aderências e estenose. Nas sistêmicas, diabetes tipo 1 e doença celíaca aparecem nomeadas.

Duas ordens de exame convivem no Brasil, e elas não param no mesmo lugar

O quadro de exames iniciais do protocolo de 2025 tem quatro linhas e cabe numa coleta: teste de gravidez, gonadotrofina folículo-estimulante, prolactina e tireotrofina. A conclusão do artigo repete a lista, acrescentando que a gravidez já deve estar afastada. A leitura é imediata: gravidez explica tudo; tireotrofina anormal sugere disfunção tireoidiana; prolactina elevada abre hiperprolactinemia; gonadotrofina elevada levanta hipogonadismo hipergonadotrófico. Vale reparar no que a lista não tem: o estradiol não está entre os exames iniciais nem na conclusão do artigo, embora o fluxograma do mesmo texto traga um nó de decisão perguntando se ele está baixo, e a interpretação escrita use a combinação de gonadotrofina reduzida com estradiol reduzido para nomear o hipogonadismo hipogonadotrófico. O quadro e o fluxograma não pedem a mesma coisa, e quem segue apenas o quadro chega ao nó sem o exame que ele exige.

O fluxograma brasileiro de atenção básica ordena diferente. Ele começa por prolactina e tireotrofina apenas. Se ambas vierem normais, o passo seguinte é o teste da progesterona. Se não houver sangramento, vem o teste com estrogênio mais progesterona. E só quando esse segundo teste produz sangramento é que a dosagem de gonadotrofina entra. Para a mulher cujo ovário está falhando, a gonadotrofina é o exame que fecha o caso — e ele está no fim de uma fila.

A conta do tempo é o que transforma a diferença de ordem em diferença de consequência. A nota do próprio fluxograma sugere observar seis meses antes de iniciá-lo. O teste da progesterona usa acetato de medroxiprogesterona de 5 a 10 mg por dia durante 5 a 10 dias, e o sangramento é lido entre 3 e 10 dias após o término, o que consome até vinte dias. O teste seguinte usa etinilestradiol de 30 microgramas com levonorgestrel por 21 dias, mais a espera do sangramento, cerca de um mês. Somados aos cento e oitenta dias iniciais, dão perto de 231 dias, algo como sete meses e três semanas até a primeira dosagem de gonadotrofina.

Pelo outro documento a mesma mulher chega à gonadotrofina no momento em que recebe o nome de amenorreica, por volta dos noventa dias. Como o resultado elevado precisa ser confirmado quatro semanas depois, o rótulo de insuficiência ovariana prematura fica defensável por volta do dia cento e dezoito, cerca de quatro meses. A distância entre confirmar o diagnóstico por um caminho e apenas pedir o exame pelo outro é de cerca de três meses e três semanas.

Duas linhas do tempo paralelas sobre um mesmo eixo em dias. Na de cima, o protocolo de 2025 pede a gonadotrofina no dia 90 e confirma o diagnóstico no dia 118. Na de baixo, o fluxograma da atenção básica encadeia observação de 180 dias, teste da progesterona e teste com estrogênio e progestagênio, e só pede a gonadotrofina no dia 231. Uma chave liga os dois pontos e marca cerca de três meses e três semanas de diferença.
A mesma mulher chega à dosagem de gonadotrofina no dia 118 por um documento e no dia 231 pelo outro — a distância é criada pela ordem dos exames, não pela doença.

Antes de acusar o documento brasileiro de lentidão, é preciso ler o título do item: o fluxograma longo é o da amenorreia secundária sem causa evidente na avaliação clínica inicial. O fluxograma anterior, o da ausência de menstruação com gravidez descartada, desvia para investigação focada qualquer hipótese diagnóstica forte firmada na anamnese e no exame — e sintomas de hipoestrogenismo, fogachos e perda de lubrificação vaginal estão explicitamente na lista que aponta falência ovariana. O atraso só existe para quem chega sem pista.

E é precisamente essa mulher que a nota de rodapé do fluxograma de 2025 descreve. O nó que pergunta se o estradiol está baixo carrega um asterisco avisando que o valor pode ser variável na insuficiência ovariana prematura precoce e na amenorreia hipotalâmica funcional durante a recuperação. Quem depende da pista clínica para encurtar o caminho depende justamente do sinal que ainda não apareceu.

O que a gonadotrofina decide, e o que ela não decide sozinha

Gonadotrofina folículo-estimulante elevada indica que a anormalidade compromete a função ovariana, e abre duas hipóteses: insuficiência ovariana prematura ou disgenesia gonadal. Duas regras vêm coladas a esse resultado e são cobradas com frequência. A primeira: o exame deve ser repetido pelo menos uma vez, após quatro semanas, antes de se atribuir o diagnóstico de insuficiência ovariana prematura. A segunda: em pacientes com idade inferior a 30 anos, o cariótipo deve ser obrigatoriamente solicitado.

A combinação de gonadotrofina reduzida com estradiol reduzido identifica o hipogonadismo hipogonadotrófico e joga a lesão para hipotálamo ou hipófise, sendo a amenorreia hipotalâmica funcional a causa mais comum. Há um segundo passo pouco lembrado: quando esse padrão vem acompanhado de anormalidade em exames séricos não hormonais, como função renal ou hepática, a investigação precisa se voltar para doença crônica. O eixo suprimido pode ser o mensageiro de uma doença sistêmica que ninguém procurou.

Gonadotrofina e estradiol normais mandam procurar hiperandrogenismo subclínico. Se houver, a síndrome dos ovários policísticos entra em cena, com testosterona elevada e ovários de volume aumentado — 10 centímetros cúbicos ou padrão policístico em um ou ambos os ovários — e é obrigatório investigar as causas menos comuns de hiperandrogenemia, sobretudo a hiperplasia adrenal congênita de forma tardia e o tumor secretor de androgênio. Se não houver, o caminho termina em defeito estrutural do trato de saída, e a investigação passa a ser de imagem e de endoscopia, não mais de hormônio.

Há uma armadilha de laboratório que o próprio documento internacional registra e que desmonta a leitura mecânica do par de gonadotrofinas. Em mulheres com amenorreia hipotalâmica e baixo peso, o hormônio luteinizante costuma estar suprimido enquanto a gonadotrofina folículo-estimulante fica com frequência na faixa normal. E mulheres com síndrome dos ovários policísticos frequentemente têm ambos na faixa normal. Valor normal de gonadotrofina não afasta nem uma coisa nem outra.

O teste da progesterona: de onde veio, o que mede, por que saiu

O teste não é folclore de cursinho: ele foi a espinha de uma classificação. Uma segunda monografia da Organização Mundial da Saúde, publicada em 1976, apresentou um algoritmo apoiado em três leituras — se a prolactina estava elevada ou normal, qual a resposta ao desafio com progestágeno para avaliar estrogenização, e se a gonadotrofina folículo-estimulante estava elevada ou normal — e desses três eixos derivou sete grupos. O teste dinâmico era um dos três pilares que definiam a que grupo a paciente pertencia.

O que ele significa quando dá certo está escrito na nota do fluxograma brasileiro: sangramento entre 3 e 10 dias após o término da medicação indica que a paciente tem secreção estrogênica adequada e não apresenta obstrução do trato genital, de modo que a alteração está apenas na pulsatilidade. Um resultado positivo, portanto, não nomeia doença nenhuma — ele elimina duas famílias inteiras de causa de uma vez, o hipoestrogenismo e a obstrução.

O problema é o resultado negativo, e ele é triplo. A ausência de sangramento pode significar ambiente hipoestrogênico, incapacidade do endométrio de responder mesmo a um ambiente com estrogênio, ou fluxo de saída obstruído. É por isso que existe o segundo teste, com estrogênio somado ao progestágeno: ele separa a obstrução das outras duas, porque, se não houver sangramento nem depois dele, a obstrução do trato genital passa a ser a hipótese forte. E há um atalho de imagem que antecipa a resposta — a ausência de sangramento de privação é previsível quando o exame ultrassonográfico mostra endométrio atenuado.

A posição atual está escrita com todas as letras no artigo de 2025: tanto resultados falso-positivos quanto falso-negativos podem ocorrer, e, apesar da importância histórica do teste, muitas entidades não recomendam mais a sua realização, porque as abordagens diretas resultam em diagnóstico mais rápido e preciso. Repare no que a frase não diz. Ela não diz que o fluxograma do Ministério da Saúde foi revogado, não nomeia as entidades, e não retira do documento brasileiro a força de norma da porta de entrada.

A amenorreia primária se resolve por duas perguntas, não por uma

O roteiro da forma primária tem dois eixos e não um. O primeiro é se há útero à ultrassonografia. O segundo é se há caracteres sexuais secundários, com as mamas como marcador principal. Cruzados, produzem quatro quadrantes, e cada quadrante tem um exame que decide — nunca o mesmo. Quem tenta resolver tudo pelo par de gonadotrofinas erra os dois quadrantes em que o útero está ausente.

Mamas desenvolvidas com útero ausente é o quadrante das duas síndromes que a banca adora colocar lado a lado. A agenesia mülleriana, conhecida pelo nome composto de Mayer, Rokitansky, Küster e Hauser, cursa com cariótipo 46,XX, ovários presentes e testosterona em faixa feminina. A insensibilidade androgênica completa cursa com cariótipo 46,XY e testosterona em faixa masculina. As duas dão vagina em fundo cego e mamas bem desenvolvidas. O par que separa é cariótipo com testosterona, e nenhum outro; pelos pubianos e axilares escassos e massas inguinais empurram a suspeita para a insensibilidade, mas não substituem o exame.

Mamas ausentes joga a decisão para a gonadotrofina. Elevada, aponta disgenesia gonadal, e aí a baixa estatura com pescoço alado e tórax em escudo nomeia a síndrome de Turner. Reduzida ou normal, aponta causa central: atraso constitucional, síndrome de Kallmann quando há anosmia, tumor, radiação, deficiência nutricional e estresse. Os dois ramos exigem condutas opostas, e a única coisa que os distingue com segurança está no laboratório.

Útero presente com mamas desenvolvidas e dor pélvica cíclica é o quadrante da obstrução, e é o único que se resolve à inspeção. O abaulamento azulado na região himenal que se acentua com a manobra de Valsalva nomeia o hímen imperfurado; o septo vaginal transverso não se vê e se identifica com a introdução de um cotonete no canal vaginal, técnica que o capítulo de dismenorreia detalha. Aqui o ponto é outro: a mesma anomalia que chega àquele capítulo como dor chega a este como ausência de menarca, e a inspeção da genitália externa resolve antes de qualquer hormônio.

A lista de causas da forma primária no fluxograma de 2025 é mais larga que os quatro quadrantes e vale como cardápio de distratores: imaturidade do eixo, insensibilidade ao androgênio, hiperandrogenismo por síndrome dos ovários policísticos, hiperplasia adrenal congênita de início tardio ou tumor ovariano e adrenal, doença da tireoide, síndrome de Cushing, causas estruturais, medicamentos, disgenesia gonadal, galactosemia, doença autoimune, radiação, ataxia-telangiectasia, tumor e síndrome de Kallmann. Gravidez encabeça a lista também aqui.

O compartimento que nenhuma classificação de anovulação enxerga

Em 2022 a Federação Internacional de Ginecologia e Obstetrícia publicou um sistema novo de classificação dos distúrbios ovulatórios, construído por processo de consenso em seis continentes. Ele tem quatro categorias primárias: tipo I, hipotálamo; tipo II, hipófise; tipo III, ovário; e tipo IV, síndrome dos ovários policísticos. A sigla que o resume separa deliberadamente a quarta das outras três, porque a síndrome não reside em um único local anatômico. Uma segunda camada estratifica cada categoria anatômica pelo mecanismo, resumida por um mnemônico de nove letras.

O documento faz também um acerto de contas histórico que vale mais que o sistema novo para quem estuda para prova. A classificação de três grupos que quase toda a literatura atribui à Organização Mundial da Saúde está descrita no guia britânico de infertilidade publicado em 2004, com referência a um manual da Organização de 1993 — e o texto registra que aquele manual não contém classificação alguma de distúrbios ovulatórios. A atribuição está errada na origem, e sobreviveu quarenta anos de repetição em monografias e capítulos de livro, sem discussão científica ou consenso, como o próprio artigo observa.

Vale acompanhar o que migra. No sistema de três grupos, o primeiro reúne hipogonadismo hipogonadotrófico, insuficiência hipofisária e também hiperprolactinemia; no sistema de 2022 um prolactinoma é tipo II, hipófise. O segundo grupo é considerado, pela maioria, composto sobretudo de mulheres com síndrome dos ovários policísticos; no sistema novo a síndrome ganha categoria própria, o tipo IV. O terceiro grupo é consistentemente insuficiência ovariana primária, e é o único que fica onde estava, no tipo III. Dois dos três mudam de casa.

E há o buraco. A monografia de 1976 tinha um grupo IV dedicado a distúrbios congênitos ou adquiridos do trato genital. O sistema de três grupos abandonou esse compartimento, e o sistema de 2022, por ser uma classificação de distúrbios ovulatórios, também não tem onde colocá-lo. Aqueles cerca de sete por cento da amenorreia secundária que vêm de aderências intrauterinas e estenose cervical — uma em cada catorze investigações — ficam fora dos dois. É por isso que o fluxograma brasileiro de 2025 termina num nó de considerar defeito estrutural que se alcança por exclusão, sem assinatura hormonal própria.

Fecha o raciocínio uma frase curta do mesmo documento: o termo distúrbio ovulatório não é sinônimo de anovulação. Classificar uma amenorreia por esse sistema pressupõe que o distúrbio ovulatório já foi diagnosticado — ele organiza a causa depois que ela existe, não substitui a investigação que descobre se ela existe.

Nomes que mudaram, e um setor que não mudou junto

Ao transcrever a descrição original do terceiro grupo, o artigo de 2022 escreve falência ovariana primária e emenda entre parênteses um aviso de que hoje isso se chama insuficiência ovariana primária. A intervenção é uma regra de leitura: ela ensina a entender o texto antigo com o vocabulário novo. O que ela não faz é licenciar escrita nova com o vocabulário velho — citar corretamente um documento de 1973 não autoriza laudar em 2026 com o nome que aquele documento usava.

O descompasso é visível no material brasileiro em circulação. O protocolo de atenção básica de 2016 chama o achado de falência ovariana no quadro de causas e, no fluxograma, encaminha a mulher com menos de 40 anos e gonadotrofina elevada com o rótulo de menopausa precoce. O artigo de 2025 chama a mesma entidade de insuficiência ovariana prematura do resumo à conclusão. Mesma paciente, mesmo achado laboratorial, três nomes em documentos que convivem nas estantes das unidades básicas.

A escolha do nome tem consequência operacional, e ela está no próprio algoritmo. Um achado que se chamasse falência dispensaria confirmação; o algoritmo que usa insuficiência exige repetir a gonadotrofina após quatro semanas antes de atribuir o diagnóstico, porque o achado pode ser transitório. A regra de repetição é o desdobramento prático de não tratar o resultado como definitivo, e o documento internacional registra que a redação antiga reflete a metodologia de dosagem, hoje superada, da época em que foi escrita.

Há uma segunda substituição na mesma família, menos conhecida e igualmente ignorada: a federação internacional descontinuou o termo oligomenorreia, substituído em seu sistema de sangramento uterino anormal por parâmetros de frequência menstrual. O material brasileiro continua usando oligomenorreia rotineiramente, inclusive para nomear o padrão que os fluxogramas separam. Na prova, o vocabulário do enunciado é a pista de qual documento o avaliador está lendo.

Contracepção, fármacos e o relógio de espera

O quadro de causas do protocolo brasileiro abre com a amenorreia por uso de anticoncepcionais e é honesto quanto ao terreno: há controvérsia em relação à associação de anticoncepcionais orais com amenorreia, mas se sugere suspender o uso caso ela ocorra. Já com o acetato de medroxiprogesterona de depósito não há controvérsia — ele causa amenorreia na maioria das mulheres após seis meses de uso, e essa amenorreia é reversível após a suspensão.

Os prazos de retorno são o que a prova cobra, e são três números distintos. Depois da cessação do anticoncepcional oral a menstruação geralmente retorna em dois meses, podendo ser necessário esperar até seis. Depois da interrupção do injetável trimestral pode ser necessário até um ano. E o fluxograma que antecede a investigação manda considerar suspender e observar por pelo menos seis meses, oferecendo método contraceptivo não hormonal nesse intervalo — a mulher que espera o ciclo voltar não está infértil enquanto espera.

Cruzar esses prazos com a definição evita a investigação precipitada. A mulher que interrompeu o injetável trimestral há três meses e não menstruou está dentro do comportamento esperado do próprio método, e não do fluxograma de amenorreia secundária sem causa evidente — porque a causa está evidente. O fluxograma de ausência de menstruação com gravidez descartada só a encaminha para a investigação hormonal se ela não menstruar depois do período de observação.

Fecha o roteiro farmacológico a lista de medicamentos que elevam a prolactina, e ela existe para ser perguntada antes de qualquer imagem: fenotiazínicos, antidepressivos e metoclopramida no quadro brasileiro, com antipsicóticos, anticonvulsivantes e opiáceos acrescentados pelo artigo de 2025. O corte de prolactina que o protocolo brasileiro usa e a diferença entre dosar por amenorreia e dosar por descarga papilar estão no capítulo de fisiologia do ciclo menstrual, que trata o assunto por inteiro.

As pistas que sequestram o roteiro

O roteiro de anamnese do artigo de 2025 é uma lista de gatilhos, e cada item existe para tirar a paciente da fila padrão. Antecedente sexual e sintomas de gravidez. Fatores de estilo de vida: dietas restritivas, exercícios vigorosos, atitudes rígidas ou negativas sobre o peso e presença de estressores da vida. Galactorreia ou uso de medicamentos associados a hiperprolactinemia. Sintomas vasomotores e outros de hipoestrogenismo. Sinais de hiperandrogenemia. Dor pélvica cíclica ou histórico de procedimento endometrial ou cervical, indicando possível obstrução. Sintomas de distúrbios autoimunes e de outras doenças crônicas.

Três sintomas funcionam como alarme e mudam a ordem da investigação: anosmia, cefaleia e alteração no campo visual indicam distúrbio do hipotálamo ou da hipófise. O exame físico é completo e tem alvos: aferição da pressão, peso, estatura e índice de massa corporal, sinais de hiperandrogenismo, acantose nigricans, pesquisa de fluxo papilar e sinais de deficiência de estrogênio. Perda extrema de peso deve ser registrada como achado, não como comentário.

O quadro de exames adicionais casa achado com exame e é a peça que a banca usa para montar a alternativa quase certa. Cefaleia, déficits neurológicos focais, trauma do sistema nervoso central, história de hemorragia pós-parto ou prolactina elevada pedem exame axial, tomografia ou preferencialmente ressonância de sela túrcica e crânio. Hiperandrogenismo pede testosterona total, 17-hidroxiprogesterona e sulfato de deidroepiandrosterona. Histórico de manipulação do colo ou do corpo do útero, ou de endometrite, pede ultrassonografia transvaginal, histerossonografia, histerossalpingografia e histeroscopia.

O documento brasileiro acrescenta uma trava de segurança que não está no artigo: quando não há sangramento após o teste da progesterona, é preciso descartar doença neoplásica do sistema nervoso central por exame de imagem antes de fazer o diagnóstico de amenorreia hipotalâmica. A regra existe porque o rótulo hipotalâmico é o mais fácil de colar em mulher jovem, magra e estressada — e é justamente nela que um tumor de linha média pode estar produzindo o mesmo padrão hormonal.

04

Quadros de decisão

Três quadros resolvem a maioria dos enunciados de amenorreia: a régua de idade por documento, o par de exames que localiza o compartimento e o cruzamento dos dois eixos da forma primária. O fluxo abaixo é o caminho do protocolo brasileiro de ginecologia endócrina de 2025, que é o mais curto dos dois em circulação.

  1. 1Classificar: primária se nunca houve menarca, secundária se houve. A régua de idade da primária e a cláusula de regularidade prévia da secundária decidem se já cabe nome.
  2. 2Afastar gravidez. É a primeira e obrigatória etapa, e nenhuma outra a precede.
  3. 3Coleta inicial da forma secundária: gonadotrofina folículo-estimulante, prolactina e tireotrofina, na mesma requisição.
  4. 4Tireotrofina anormal: avaliar e tratar a doença da tireoide antes de prosseguir. Prolactina elevada: repetir e, se persistir, investigar a hipófise.
  5. 5Gonadotrofina elevada: repetir após quatro semanas antes de rotular, e solicitar cariótipo se a paciente tiver menos de 30 anos.
  6. 6Gonadotrofina normal ou reduzida com estradiol baixo: hipogonadismo hipogonadotrófico, com a forma hipotalâmica funcional à frente; procurar doença crônica se houver alteração em exame não hormonal.
  7. 7Gonadotrofina e estradiol normais: procurar hiperandrogenismo. Havendo, considerar síndrome dos ovários policísticos e afastar hiperplasia adrenal tardia e tumor secretor. Não havendo, considerar defeito estrutural do trato de saída.
  8. 8Na forma primária, cruzar presença de útero à ultrassonografia com presença de caracteres sexuais secundários antes de pedir hormônio.

As réguas de idade da amenorreia primária, por documento

Documento e anoSem caracteres sexuaisCom caracteres sexuaisCláusula extra
Protocolo brasileiro de ginecologia endócrina, 2025Após os 13 anosApós os 15 anosAté três anos após a telarca, se ela ocorreu antes dos 10 anos
Protocolos da Atenção Básica: Saúde das Mulheres, 2016Caixa de decisão citando 14 anosCaixa de decisão citando 16 anosNenhuma
Roteiro brasileiro de investigação da amenorreia primária, 2018Após os 14 anosApós os 16 anosNenhuma

O par de exames que localiza o compartimento

GonadotrofinaEstradiolCompartimentoHipótese que abrePasso seguinte
ElevadaBaixoOvárioInsuficiência ovariana prematura ou disgenesia gonadalRepetir após quatro semanas; cariótipo se menos de 30 anos
Reduzida ou normalBaixoHipotálamo ou hipófiseAmenorreia hipotalâmica funcional; doença crônica; lesão centralRever peso, exercício e estresse; imagem se houver alarme
NormalNormalOvário funcionante ou trato de saídaSíndrome dos ovários policísticos, se houver hiperandrogenismoTestosterona, 17-hidroxiprogesterona e sulfato de deidroepiandrosterona; sem hiperandrogenismo, defeito estrutural
Não dosada aindaNão dosadoTireoide ou hipófiseDisfunção tireoidiana ou hiperprolactinemiaTratar a tireoide; repetir a prolactina e investigar a hipófise

Amenorreia primária pelos dois eixos

MamasÚtero à ultrassonografiaHipótesesExame que separa
DesenvolvidasAusenteAgenesia mülleriana ou insensibilidade androgênica completaCariótipo com testosterona sérica
DesenvolvidasPresente, com dor cíclicaHímen imperfurado, septo vaginal transverso, obstrução altaInspeção da genitália externa e ultrassonografia
AusentesPresenteDisgenesia gonadal ou causa centralGonadotrofina folículo-estimulante
DesenvolvidasPresente, sem dorCausas que também dão a forma secundária, gravidez incluídaTeste de gravidez e a coleta inicial da forma secundária

Os cinco percentuais etiológicos somam cem porque partilham a mesma base — causas não fisiológicas. Gravidez, lactação e menopausa estão fora da conta, e o distrator clássico aplica a fatia ovariana de quarenta por cento a todas as amenorreias.

Três ciclos e três meses coincidem em quem menstruava regularmente e divergem em quem tinha ciclos longos. A cláusula que vale para ciclo irregular é a dos seis meses.

A cláusula dos três anos após a telarca só se aplica quando a telarca ocorreu antes dos 10 anos. Fora dessa condição vale a régua dos 15 anos, e a diferença entre as duas pode passar de dois anos.

O cariótipo da forma primária não é exame de segunda linha nos quadrantes sem útero: ele é o exame que separa as duas únicas hipóteses, e fenótipo feminino perfeito não o dispensa.

Valor normal de gonadotrofina não afasta amenorreia hipotalâmica em mulher de baixo peso, em que o hormônio luteinizante costuma cair antes, nem afasta síndrome dos ovários policísticos.

O estradiol não aparece na lista de exames iniciais de nenhum dos dois documentos, mas é exigido pelo nó de decisão do fluxograma de 2025 e pela interpretação escrita do hipogonadismo hipogonadotrófico. Peça-o junto na primeira coleta.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Com que idade a ausência de menarca vira amenorreia primária

Régua brasileira de 2025: 13 e 15 anos, com uma terceira cláusula

O quadro de classificação define amenorreia primária como ausência de menstruação após os 13 anos sem desenvolvimento de caracteres sexuais secundários ou após os 15 anos com desenvolvimento adequado deles, e acrescenta a hipótese de até três anos após o início do desenvolvimento das mamas, quando este ocorreu antes dos 10 anos de idade.

Simões RS et al. Amenorreia secundária: algoritmo diagnóstico. Femina, 2025;53(2):138-143, Quadro 1.

Régua de porta de entrada e de material didático: 14 e 16 anos

A caixa de decisão do fluxograma de atraso menstrual do protocolo de atenção básica opera com os limites de 16 e 14 anos, encaminhando à investigação apenas quem os ultrapassa. Um roteiro brasileiro de investigação da amenorreia primária de 2018 usa a mesma dupla no resumo e na introdução: após os 14 anos sem caracteres sexuais secundários, ou após os 16 anos com o desenvolvimento destes.

Brasil. Ministério da Saúde; Instituto Sírio-Libanês. Protocolos da Atenção Básica: Saúde das Mulheres, 2016, Fluxograma 2, p. 27. Ronchetti MR et al. Amenorreia primária: fluxograma de investigação, 2018, resumo e introdução.

Na prova

O enunciado avisa qual régua vale de duas maneiras. A primeira é explícita: quando ele cita a sociedade de especialidade ou a normatização de ginecologia endócrina, a régua é a de 13 e 15; quando cita o protocolo de atenção básica, o fluxograma ou a unidade básica de saúde, a de 14 e 16 está em jogo. A segunda é a idade escolhida para a vinheta: aos 15 anos com mamas desenvolvidas, a banca está justamente na faixa em que os documentos discordam, e é isso que a pergunta quer. Aos 17 anos não há divergência nenhuma, e a pergunta é outra. Quando a idade cai na faixa disputada e o enunciado não nomeia documento, a única leitura defensável é investigar, porque nenhum dos dois textos proíbe investigar mais cedo — os dois apenas dizem a partir de quando não se pode mais adiar.

Em que momento a gonadotrofina folículo-estimulante entra na investigação

Na primeira coleta, junto de prolactina e tireotrofina

O quadro de exames laboratoriais indicados no processo inicial de investigação da amenorreia secundária lista quatro itens: teste de gravidez, gonadotrofina folículo-estimulante, prolactina e tireotrofina. A conclusão do artigo repete a lista para a maioria das pacientes.

Simões RS et al. Femina, 2025;53(2):138-143, Quadro 2 e conclusão.

Só depois dos dois testes dinâmicos

O fluxograma da amenorreia secundária sem causa evidente na avaliação clínica inicial começa por prolactina e tireotrofina. Com ambas normais, segue para o teste da progesterona; sem sangramento, para o teste com estrogênio mais progesterona; e a dosagem de gonadotrofina aparece apenas no ramo em que esse segundo teste produz sangramento.

Brasil. Ministério da Saúde; Instituto Sírio-Libanês. Protocolos da Atenção Básica: Saúde das Mulheres, 2016, Fluxograma 4, p. 29, e notas de rodapé.

Na prova

Procure a palavra que ancora o enunciado num documento. Protocolo do Ministério da Saúde, atenção básica, fluxograma, unidade básica: a ordem cobrada é prolactina e tireotrofina primeiro, e a alternativa que pede gonadotrofina na primeira coleta está antecipando etapa. Ambulatório de ginecologia endócrina, sociedade de especialidade, algoritmo diagnóstico: a coleta inicial já traz gonadotrofina. Quando o enunciado não nomeia documento e descreve mulher com sintomas vasomotores, os dois caminhos convergem, porque a pista clínica desvia para investigação focada nos dois. O único caso realmente disputado é o da mulher sem pista nenhuma — e aí a pergunta que a banca está fazendo é qual documento o candidato leu.

O teste da progesterona ainda faz parte da investigação

Sim, e é o eixo do fluxograma da porta de entrada

O teste organiza o fluxograma inteiro, com dose e janela de leitura escritas em nota: acetato de medroxiprogesterona de 5 a 10 mg por dia, durante 5 a 10 dias, por via oral, com sangramento entre 3 e 10 dias após o término indicando secreção estrogênica adequada e ausência de obstrução do trato genital. O segundo teste usa etinilestradiol de 30 microgramas com levonorgestrel por 21 dias.

Brasil. Ministério da Saúde; Instituto Sírio-Libanês. Protocolos da Atenção Básica: Saúde das Mulheres, 2016, Fluxograma 4, p. 29, notas de rodapé.

Não para muitas entidades, apesar da importância histórica

A seção de testes dinâmicos registra que tanto resultados falso-positivos quanto falso-negativos podem ocorrer e que, apesar da sua importância histórica, muitas entidades não recomendam mais a realização desses testes, uma vez que as abordagens descritas anteriormente podem resultar em diagnóstico mais rápido e preciso.

Simões RS et al. Femina, 2025;53(2):138-143, seção Testes dinâmicos.

Na prova

A divergência não é sobre o que o teste significa — nisso os dois documentos concordam, e o significado é cobrável em qualquer enunciado. É sobre se ele deve ser feito. Quando a pergunta é o que o sangramento após progestágeno demonstra, a resposta é sempre estrogenização adequada e trato de saída pérvio, venha de que documento vier. Quando a pergunta é qual o próximo passo, o documento citado decide. E quando o enunciado descreve o teste já feito e negativo, o passo seguinte é o mesmo nos dois: acrescentar estrogênio, porque a ausência de sangramento tem três leituras e só esse segundo teste separa a obstrução das outras duas.

Como se chama a falência da função ovariana antes dos 40 anos

Insuficiência ovariana prematura, na nomenclatura corrente

O artigo de 2025 usa insuficiência ovariana prematura do resumo à legenda do fluxograma. O documento internacional de 2022, ao transcrever a descrição original do grupo correspondente, escreve falência ovariana primária e emenda entre parênteses que hoje isso é conhecido como insuficiência ovariana primária, acrescentando que a redação antiga ilustra a metodologia de dosagem já superada daquele período.

Simões RS et al. Femina, 2025;53(2):138-143. Munro MG et al. The FIGO ovulatory disorders classification system. Int J Gynecol Obstet, 2022;159(1):1-20, seção 2.2.

Falência ovariana e menopausa precoce, no protocolo em vigor na atenção básica

O quadro de causas nomeia a entidade como falência ovariana e manda encaminhar ao ginecologista ou endocrinologista para avaliar menopausa precoce quando a idade é inferior a 40 anos. O fluxograma repete os dois termos nos nós terminais do ramo de gonadotrofina elevada.

Brasil. Ministério da Saúde; Instituto Sírio-Libanês. Protocolos da Atenção Básica: Saúde das Mulheres, 2016, Fluxograma 4, p. 29, e Quadro 6, p. 30-31.

Na prova

Substância e rótulo se separam aqui. Quando a alternativa correta descreve gonadotrofina elevada com estradiol baixo antes dos 40 anos, ela está certa com qualquer um dos três nomes, e trocar o nome não muda a conduta: confirmar em nova dosagem e investigar a etiologia. Quando o enunciado pede o termo da normatização vigente ou a nomenclatura atual, o nome passa a ser o objeto da pergunta, e aí insuficiência é a única defensável. O erro a evitar é o inverso: descartar uma alternativa clinicamente correta porque ela usa o nome antigo num enunciado que não perguntou o nome.

06

Caso resolvido

Mulher de 27 anos, nuligesta, procura a unidade básica por ausência de menstruação há cinco meses. Menarca aos 12 anos, ciclos regulares de 29 dias até o episódio atual. Oito meses antes fez curetagem por abortamento incompleto de dez semanas, com febre no pós-procedimento tratada ambulatorialmente. Nega galactorreia, fogachos, secura vaginal, cefaleia, alteração visual, variação de peso, exercício extenuante e uso de qualquer medicamento ou contraceptivo. Exame físico sem alterações: índice de massa corporal de 23, sem acne, hirsutismo ou acantose. Exame ginecológico normal. Teste de gravidez negativo, confirmado por dosagem sérica.
O nome já cabe
Ela menstruava de forma regular, e a cláusula que vale nesse caso é a dos três ciclos. Com cinco meses sem sangrar, a definição está cumprida com folga, e a discussão sobre observar seis meses antes de iniciar o fluxograma não se aplica: aquela observação é para quem tem uma causa provável na história, e a história aqui aponta para o lado oposto do fluxograma padrão.
A pista que reordena tudo
Curetagem com febre no pós-procedimento é exatamente o achado que o quadro de exames adicionais liga à investigação do útero: histórico de manipulação do corpo do útero e de endometrite pede ultrassonografia transvaginal, histerossonografia, histerossalpingografia e histeroscopia. O fluxograma anterior, o da ausência de menstruação com gravidez descartada, também nomeia história de aborto séptico, doença inflamatória pélvica, endometrite, radioterapia ou curetagem como pista de amenorreia por fator uterino. Os dois documentos concordam em tirar essa paciente da fila hormonal.
O que os hormônios mostrariam, e por que não fecham nada
Se a coleta inicial fosse feita, gonadotrofina, prolactina, tireotrofina e estradiol viriam normais, porque o eixo está intacto — o que falta é o alvo. No fluxograma de 2025 esse é literalmente o nó terminal de considerar defeito estrutural, alcançado por exclusão depois de afastado o hiperandrogenismo. Nenhum padrão hormonal aponta para lá; o que aponta é a história.
Pelo caminho do protocolo de atenção básica
Seguido à risca sem a pista, o fluxograma daria prolactina e tireotrofina normais, teste da progesterona sem sangramento e teste com estrogênio mais progesterona também sem sangramento — e é justamente essa dupla negativa que o documento rotula como fator uterino, especialmente síndrome de Asherman. Chega ao mesmo lugar, com dois ciclos de medicação e cerca de sete semanas a mais. A leitura correta da pista clínica encurta o caminho nos dois documentos.
O que se pede, e o que não se pede
Ultrassonografia transvaginal primeiro, pela disponibilidade, e histeroscopia como exame que confirma e trata as aderências no mesmo tempo. Cariótipo não tem indicação: a regra que o torna obrigatório abaixo dos 30 anos está amarrada à gonadotrofina elevada, que não é o caso. Ressonância de sela não tem indicação: não há cefaleia, alteração de campo visual, hemorragia pós-parto nem prolactina elevada.
Como isso se escreve no prontuário
Amenorreia secundária é o sintoma; a hipótese é sinéquia intrauterina pós-curetagem com endometrite, ou seja, causa de trato genital, o compartimento que responde por cerca de sete por cento das causas não fisiológicas. Nenhuma das duas classificações de distúrbio ovulatório em circulação tem categoria para ela, e isso não é falha do raciocínio clínico: é o desenho dos sistemas, que classificam ovulação e não menstruação.
07

Agora feche você

Adolescente de 15 anos e 4 meses é levada pela mãe ao ambulatório porque nunca menstruou. Telarca aos 11 anos e 2 meses. Ao exame: estatura no percentil 60 para a idade, mamas em estágio 4 de Tanner, pelos pubianos e axilares escassos, genitália externa feminina sem alterações, vagina em fundo cego de curta profundidade. Nega dor pélvica de qualquer tipo, cíclica ou não. A ultrassonografia pélvica não identifica útero; há duas estruturas ovaladas em topografia inguinal bilateral. A mãe conta que uma tia materna também nunca menstruou e foi operada na adolescência.
Primeiro
Diga se a idade já autoriza chamar o quadro de amenorreia primária segundo cada uma das duas réguas em circulação no Brasil, e explique por que a cláusula dos três anos após a telarca não decide nada neste caso.
Segundo
Nomeie os dois diagnósticos compatíveis com mamas desenvolvidas e útero ausente, e diga qual par de exames os separa. Explique por que a ausência de dor pélvica cíclica, sozinha, já afasta um terceiro grupo de hipóteses.
Terceiro
Interprete os pelos escassos e as estruturas inguinais. Diga o que cada resultado possível do par de exames faria com a hipótese, incluindo o valor esperado de testosterona em cada uma.
Quarto
Justifique por que a dosagem isolada de gonadotrofina folículo-estimulante não resolveria este caso, apoiando-se no que o roteiro dos dois eixos diz sobre o quadrante em que a paciente caiu.
08

Onde a banca derruba

  1. 1Responder amenorreia à pergunta pelo diagnóstico O glossário internacional define amenorreia como sintoma: ausência de sangramento menstrual em menina ou mulher nos anos reprodutivos. Vinheta: mulher de 29 anos, sem menstruar há cinco meses, teste de gravidez negativo, exame normal; a pergunta é o diagnóstico mais provável. Quem marca amenorreia secundária respondeu com o nome do sintoma que o enunciado já deu — a resposta esperada nomeia o compartimento ou a doença.
  2. 2Usar uma classificação de anovulação como classificação de amenorreia O sistema de 2022 classifica distúrbios ovulatórios e tem quatro categorias, sem lugar para o trato genital; a monografia de 1976 tinha um grupo dedicado a distúrbios congênitos ou adquiridos do trato genital, e ele desapareceu no caminho. Vinheta: mulher com aderências intrauterinas após curetagem, gonadotrofina e estradiol normais. Quem tenta encaixá-la numa das quatro categorias marca hipotálamo por eliminação, e o compartimento certo simplesmente não está na lista.
  3. 3Atribuir à Organização Mundial da Saúde a classificação de três grupos O documento de 2022 registra que o guia britânico de infertilidade de 2004 descreve três grupos referenciando um manual da Organização de 1993, e que esse manual não contém classificação alguma de distúrbios ovulatórios. Vinheta: alternativa que abre com a expressão grupo correspondente da classificação da Organização Mundial da Saúde. A atribuição está errada na origem, e o candidato que a memoriza como verdade oficial perde a chance de perceber que a categoria da paciente mudou de casa no sistema novo.
  4. 4Aplicar a cláusula dos três anos a qualquer menina A terceira cláusula da definição só vale quando o desenvolvimento das mamas começou antes dos 10 anos de idade. Vinheta: menina de 13 anos com telarca aos 10 anos e 6 meses, sem menarca; a alternativa que a chama de amenorreica por já terem passado três anos ignora a condição de entrada e antecipa em dois anos uma investigação que a régua dos 15 anos ainda não autoriza.
  5. 5Rotular insuficiência ovariana prematura na primeira dosagem O algoritmo exige repetir o exame pelo menos uma vez, após quatro semanas, antes de atribuir o diagnóstico. Vinheta: mulher de 33 anos com gonadotrofina de 62 e estradiol de 18, sintomas vasomotores. A alternativa que já inicia terapia hormonal com o rótulo fechado pula a confirmação; a que repete em quatro semanas e pede cariótipo cumpre as duas regras que vêm coladas ao achado.
  6. 6Dispensar o cariótipo porque o fenótipo é feminino perfeito A insensibilidade androgênica completa cursa com fenótipo feminino, mamas bem desenvolvidas e vagina em fundo cego. Vinheta: adolescente de 16 anos, mamas em estágio 5, pelos pubianos escassos, útero ausente à ultrassonografia. A alternativa que pede apenas gonadotrofinas não separa insensibilidade de agenesia mülleriana, porque as duas cursam com mamas desenvolvidas — o par que decide é cariótipo com testosterona.
  7. 7Achar que estradiol normal afasta insuficiência ovariana O nó que pergunta pelo estradiol baixo carrega nota avisando que o valor pode ser variável na insuficiência ovariana prematura precoce e na amenorreia hipotalâmica funcional durante a recuperação. Vinheta: mulher de 31 anos com gonadotrofina elevada e estradiol de 42. A alternativa que descarta o compartimento ovariano pelo estradiol normal contraria o rodapé do próprio fluxograma.
  8. 8Ler a caixa impressa do fluxograma de 2016 ao pé da letra A caixa de decisão está impressa como menos de 16 anos e sem traços sexuais secundários, ou menos de 14, com a resposta afirmativa levando a aguardar até a menarca. Lida assim, ela manda esperar justamente a adolescente sem qualquer desenvolvimento, que é a mais urgente; o par de limites que circula no material brasileiro do mesmo período investiga aos 14 quem não tem caracteres e aos 16 quem tem, e o quadro de 2025 antecipa os dois. Vinheta: menina de 14 anos e 8 meses sem qualquer telarca. A conduta defensável é investigar, e a alternativa de aguardar até os 16 é a que a redação impressa sugere e que nenhum outro documento sustenta.
  9. 9Investigar a usuária de injetável trimestral como amenorreia secundária O injetável trimestral causa amenorreia na maioria das mulheres após seis meses de uso, e pode ser necessário até um ano para o retorno da menstruação depois da suspensão. Vinheta: mulher de 25 anos que interrompeu o método há quatro meses e não menstruou. A alternativa que abre a coleta hormonal trata como sem causa evidente um caso em que a causa está escrita na história.
  10. 10Aplicar as porcentagens etiológicas a todas as amenorreias As frações de 35%, 17%, 40%, 7% e 1% somam cem porque partilham a base de causas não fisiológicas — gravidez, lactação e menopausa estão fora. Vinheta: alternativa afirmando que a causa mais comum de amenorreia secundária é ovariana, com quarenta por cento. Dentro da base certa a frase é verdadeira; aplicada a todas as amenorreias ela contradiz a primeira linha da conclusão do mesmo artigo, que manda sempre considerar gravidez.
  11. 11Fechar amenorreia hipotalâmica sem imagem quando não houve sangramento O quadro de causas do protocolo brasileiro é expresso: quando não há sangramento após o teste da progesterona, é preciso descartar doença neoplásica do sistema nervoso central por exame de imagem antes de fazer o diagnóstico de amenorreia hipotalâmica. Vinheta: corredora de 22 anos, índice de massa corporal de 17, sem sangramento ao progestágeno. A alternativa que já prescreve apoio psicossocial e reavaliação em seis meses pula a trava que existe exatamente para esse perfil.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

A ausência de menstruação em mulher que nunca menstruou é chamada de amenorreia primária (classicamente definida como ausência de menarca aos 15-16 anos com caracteres sexuais secundários presentes, ou aos 13-14 anos na ausência de caracteres). A amenorreia secundária é a interrupção da menstruação em mulher que já menstruava. A oligomenorreia é o aumento do intervalo entre os ciclos. A hipomenorreia é a redução do volume menstrual. A menometrorragia é o sangramento aumentado e irregular.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Sete dias depois, recupere de memória seis coisas. As três cláusulas da amenorreia primária no quadro de 2025, com a condição de entrada da terceira. As duas cláusulas da forma secundária e o que decide qual delas vale. Os quatro exames da coleta inicial e a diferença de ordem em relação ao fluxograma de atenção básica. As duas regras que vêm coladas à gonadotrofina elevada, com o prazo e a idade de corte. As duas hipóteses de mamas desenvolvidas com útero ausente e o par de exames que as separa. E os cinco percentuais etiológicos com a base sobre a qual eles incidem.

em 30 dias

Trinta dias depois, resolva cinco cenários antes de conferir. Adolescente de 15 anos com mamas em estágio 4 e sem menarca: já é amenorreia primária, e segundo qual documento. Mulher de 33 anos com gonadotrofina de 62 e estradiol de 18: qual o próximo passo e por que ele é duplo. Mulher de 22 anos, corredora, sem sangramento após progestágeno: o que o protocolo brasileiro exige antes do rótulo hipotalâmico. Mulher de 27 anos com amenorreia após curetagem com febre: qual compartimento, e por que nenhuma classificação de distúrbio ovulatório o contém. Mulher de 25 anos que parou o injetável trimestral há quatro meses: por que ela não entra no fluxograma de causa não evidente. Depois, refaça a conta dos dias até a primeira dosagem de gonadotrofina pelos dois caminhos e diga de quanto é a diferença.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

No ambulatório de ginecologia ou na unidade básica, três perguntas transformam este capítulo em leitura de realidade. Diante de uma queixa de atraso menstrual, pergunte como eram os ciclos antes — é a resposta que escolhe entre a cláusula dos três ciclos e a dos seis meses, e ela costuma não estar registrada em prontuário nenhum. Diante de uma solicitação de exames por amenorreia, veja se a gonadotrofina foi pedida junto com a prolactina ou depois dela, e pergunte ao preceptor qual documento o serviço segue: a diferença de ordem vale meses na vida da paciente. E diante de uma adolescente que nunca menstruou, procure o útero na ultrassonografia antes de olhar qualquer hormônio — o roteiro tem dois eixos, e o primeiro é anatômico. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Amenorreia primária e secundária — Preparatório para provas | OsceLabs