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Fator tubário na infertilidade: histerossalpingografia e a janela do ciclo

A histerossalpingografia decide o encaminhamento do casal infértil e não tem capítulo próprio em nenhuma apostila desta coleção; o protocolo municipal copia do nacional e troca uma palavra na mesma frase

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Mulher de 31 anos, nuligesta, com dois anos de infertilidade e antecedente de doença inflamatória pélvica tratada com internação aos 25 anos. Ciclos ovulatórios, espermograma do parceiro normal. A histerossalpingografia demonstra passagem livre do contraste para a cavidade peritoneal bilateralmente. Qual é a conduta mais adequada?

02

Como esse tema cai

Um casal chega à unidade básica depois de um ano tentando engravidar. A mulher tem ciclos regulares e o espermograma do parceiro é normal. O passo seguinte é a tuba — e é aqui que o texto brasileiro se divide em duas metades que não encaixam. O protocolo da federação de especialidade e o protocolo municipal que o copia escrevem a mesma janela do ciclo com as mesmas palavras, e depois discordam sobre quem pode pedir o exame, sobre o quanto ele enxerga e sobre a idade em que a investigação se antecipa.

Este capítulo trata da avaliação do fator tubário: a histerossalpingografia, seu dia certo, o que o contraste prova e o que ele não prova, a laparoscopia com cromotubagem como referência e as duas armadilhas que a prova mais explora — a tuba que parece ocluída e não está, e a tuba dilatada que muda o tratamento e que nenhum dos dois protocolos brasileiros chega a nomear.

Desenho esquemático do útero e das tubas com o meio de contraste preenchendo a cavidade e escorrendo pelas extremidades tubárias para a cavidade abdominal.
A prova de permeabilidade é a passagem livre até a cavidade abdominal, e não a imagem da tuba: contraste que para antes disso é achado a interpretar, nunca laudo de oclusão. O que o desenho mostra é o desfecho favorável, o único dos quatro que encerra a pergunta sobre o canal — e mesmo ele não encerra a investigação, porque canal aberto não é o mesmo que tuba capaz de captar o óvulo e transportá-lo.

A régua é curta e cai em prova de residência com frequência maior do que o espaço que ocupa nos protocolos. Vale a pena ler os dois documentos lado a lado, porque o que um deles apaga muda a conduta do outro.

Uma advertência de leitura, antes de começar. Os dois documentos brasileiros aqui usados não são normas federais: um é protocolo de sociedade de especialidade e o outro é protocolo de rede municipal. Isso importa porque a prova de residência costuma cobrar a régua clínica do primeiro, ao passo que a prova de revalidação e as questões com cenário de atenção primária costumam cobrar o fluxo do segundo. quando os dois discordam, o comando denuncia qual deles está sendo lido: enunciado que fale em níveis de atenção, autorização de internação ou encaminhamento entre serviços está na régua administrativa; enunciado que descreva apenas a paciente e o achado está na régua clínica. Este capítulo separa as duas em cada ponto de conflito.

03

O que muda decisão

A janela do ciclo que os dois documentos escrevem com as mesmas palavras

O protocolo da federação de especialidade, publicado em 2020, é explícito: a histerossalpingografia deve ser realizada na fase folicular do ciclo menstrual, do sexto ao décimo primeiro dia, com contraste iodado. O protocolo municipal de Belo Horizonte, de 2022, repete a frase quase caractere a caractere, mantendo o mesmo intervalo de dias.

A razão fisiológica sustenta a régua e é o que a prova cobra quando pergunta o porquê. Antes do sexto dia o sangramento ainda pode estar presente e coágulos criam falhas de enchimento que imitam pólipo e sinéquia. Depois do décimo primeiro dia o risco é outro e mais grave: a mulher pode já ter ovulado e concebido, e o exame injeta contraste sob pressão numa cavidade que pode conter uma gestação inicial. O endométrio proliferativo fino da fase folicular também é o que dá o melhor contorno de cavidade.

Repare no detalhe que separa quem leu de quem decorou: o documento municipal copia a frase e deixa cair as palavras contraste iodado. Não é economia inocente. O tipo de contraste é justamente o que diferencia a histerossalpingografia convencional da alternativa ecográfica que o documento de sociedade discute logo abaixo, e um protocolo de rede que não nomeia o meio deixa a escolha para a agenda do serviço.

Na prática, a orientação que se dá à paciente cabe em uma frase: marcar o exame para os primeiros dias depois que o sangramento cessar, e manter abstinência ou método de barreira desde a menstruação até a realização. Enunciado que traga uma paciente com atraso menstrual e pedido de histerossalpingografia está testando exatamente esta trava.

Vale registrar o que a janela não é. Ela não é uma recomendação de conforto, embora o exame realmente doa menos com o endométrio fino, nem uma exigência de qualidade de imagem que se possa flexibilizar por conveniência de agenda. Ela é uma trava de segurança com uma justificativa em cada ponta, e por isso não admite a solução intermediária que às vezes se ouve no serviço, que é marcar em qualquer dia e pedir um teste de gravidez na véspera. um teste negativo em gestação muito inicial não protege ninguém, e a fase folicular resolve o problema sem depender de exame nenhum.

A régua da idade que não fecha exatamente em trinta e cinco anos

O mesmo protocolo de sociedade define infertilidade como ausência de concepção após um ano de tentativa sem método contraceptivo, registra que alguns autores estendem o período para dois anos em casais jovens sem outros fatores de risco, e antecipa a propedêutica para seis meses em mulheres acima de trinta e cinco anos. Até aqui, nada de estranho.

O problema aparece na lista de recomendações finais do próprio arquivo. Ela escreve: as mulheres abaixo de trinta e cinco anos devem realizar a propedêutica se não tiverem alcançado gravidez após um ano; mulheres com idade superior a trinta e cinco anos devem procurar avaliação após seis meses. As duas cláusulas, juntas, deixam de fora exatamente uma idade — a mulher que tem trinta e cinco anos completos não pertence a nenhuma das duas linhas do documento que a orienta.

O protocolo municipal reproduz a mesma exclusão com uma terceira redação, mulheres com mais de trinta e cinco anos, e comete um segundo silêncio: lista a idade entre as situações que justificam investigar antes de um ano, mas não escreve depois de quantos meses. A rede municipal autoriza antecipar sem dizer o quanto.

O que fazer na prática e na prova é o mesmo: a fronteira é operacional, não biológica, e a queda de fertilidade que os dois documentos citam — cerca de onze por cento por ano após os trinta — é contínua. Diante de uma paciente de trinta e cinco anos exatos, investigar aos seis meses é a leitura segura, porque nenhuma das cláusulas a proíbe e a curva não faz degrau no aniversário. Alternativa que atribua a um dos dois documentos uma regra explícita para essa idade está inventando linha.

Há um detalhe adicional que costuma passar batido e que a mesma introdução escreve: alguns autores estendem o prazo para dois anos em casais jovens sem outros fatores de risco. Ou seja, o documento oferece três prazos diferentes na mesma página — vinte e quatro meses, doze meses e seis meses — e a variável que escolhe entre eles é a idade da mulher, com a fronteira que acabamos de ver não fechando. Na prova, o prazo de dois anos é quase sempre distrator, porque exige a conjunção de casal jovem e ausência de qualquer fator de risco, e as vinhetas costumam trazer pelo menos um.

Quem pode pedir: a escada de invasividade virada do avesso

O protocolo de sociedade organiza a propedêutica tubária em degraus e diz por quê: a laparoscopia, tendo em vista a sua natureza invasiva, é normalmente reservada como o último inquérito da propedêutica. Primeiro o exame contrastado, depois, se necessário, a cirurgia.

O protocolo municipal copia parágrafos inteiros desse texto e acrescenta duas frases administrativas próprias. Sobre a histerossalpingografia, escreve que o exame é solicitado nos níveis secundário e terciário. Sobre a videolaparoscopia, escreve que pode ser solicitada por qualquer médico da atenção primária, mediante autorização de internação cadastrada no centro de saúde.

O resultado é uma inversão fechada dentro de um só documento: o exame ambulatorial, barato e não cirúrgico sai das mãos de quem atende o casal, e o procedimento sob anestesia geral fica liberado para a mesma porta de entrada. A frase sobre a natureza invasiva, que justificava a ordem, é a que o documento municipal não copiou.

A circularidade se completa na lista da propedêutica do nível primário do próprio protocolo: exame ginecológico, espermograma, ultrassonografia transvaginal, dosagens hormonais e sorologias. O exame contrastado da tuba não está lá. E, no mesmo arquivo, o encaminhamento ao nível secundário exige que o casal já tenha realizado toda a propedêutica básica — que inclui um exame que o nível primário não pode pedir. Quem investiga não pode solicitar; quem pode solicitar só recebe depois de solicitado.

O mesmo item de encaminhamento traz ainda as duas faixas etárias que decidem o destino, e vale conferi-las porque, dessa vez, elas fecham. Diante de obstrução tubária, acima de trinta e cinco anos o casal vai para reprodução humana e até trinta e cinco anos vai para videolaparoscopia; diante de laqueadura prévia, o corte se desloca para trinta e sete anos, com o exame contrastado sendo pedido apenas na faixa mais jovem. São réguas administrativas, e a prova só as cobra quando o enunciado descreve explicitamente uma rede com níveis de atenção — mas mostram que o documento sabe escrever fronteiras que não deixam ninguém de fora quando quer.

O que o contraste prova, e a frase que o próprio protocolo escreve para limitá-lo

A leitura do exame tem quatro saídas, e o documento de sociedade as nomeia: não oclusão tubária, oclusão unilateral, oclusão bilateral e fluxo de contraste prejudicado, definido como o contraste que não é demonstrado além da porção ístmica da tuba. A quarta saída é a que mais confunde, porque não é sinônimo de oclusão: é uma descrição de até onde o contraste chegou.

O mesmo documento coloca o limite antes de qualquer número: a avaliação da permeabilidade é necessária, mas essa não é a única função tubária necessária para a concepção, e nenhum teste diagnóstico avalia todos os aspectos. Ele repete o alerta ao falar do padrão de referência: uma aparência normal não necessariamente reflete uma função normal.

Fileira de quatro esquemas de tuba uterina mostrando passagem completa do meio de contraste, passagem de um lado, ausência de passagem e interrupção precoce junto ao útero.
As quatro saídas do laudo em ordem crescente de bloqueio: a última não é oclusão, é a distância que o contraste percorreu antes de parar. Só a terceira fecha a via natural; a segunda muda o prognóstico sem mudar a conduta imediata; e a quarta convive com tuba pérvia, porque a junção com o útero é muscular e se contrai contra a injeção.

O que sustenta essa cautela é anatômico. O exame prova que existe um canal por onde o líquido passa; não prova que os cílios batem, que a musculatura peristaltiza, que as fímbrias captam o óvulo nem que as aderências peritubárias deixam a tuba alcançar o ovário. Permeável não é o mesmo que funcionante — e é por isso que a passagem livre bilateral não encerra a investigação de um casal que continua sem engravidar.

Duas sensibilidades incompatíveis para o mesmo exame, na mesma literatura brasileira

O protocolo de sociedade afirma que a sensibilidade da histerossalpingografia fica em torno de oitenta e cinco a cem por cento na identificação da oclusão tubária, e apoia a frase em quatro referências.

O artigo do hospital universitário de Porto Alegre, publicado na revista da associação médica em 2000, escreve o oposto e nomeia a fonte: segundo a revisão de Karande e colaboradores de 1995, a histerossalpingografia possui sensibilidade de sessenta e cinco por cento e especificidade de oitenta e três por cento na avaliação de doença tubária, com valores amplamente variáveis segundo a revisão dos mesmos autores. O título do trabalho citado é, literalmente, sobre o valor limitado do exame na avaliação do estado tubário.

São vinte a trinta e cinco pontos percentuais de diferença para o mesmo exame, na literatura do mesmo país, e o documento que orienta a rede cita apenas a faixa alta. Não há como conciliar por média: as duas afirmações usam padrões de referência e populações diferentes, e nenhuma das duas informa qual.

A consequência prática é direta e cai em prova como pegadinha de conduta. Se a sensibilidade real estiver perto de sessenta e cinco por cento, um exame normal não exclui doença tubária em quem tem fator de risco — antecedente de doença inflamatória pélvica, cirurgia pélvica prévia, endometriose suspeita. Nessas pacientes, a laparoscopia continua indicada apesar do contraste normal, e é exatamente o que o protocolo de sociedade lista como indicação do procedimento.

Tentar reconciliar os dois números por média foi a primeira saída tentada aqui, e foi abandonada. As duas afirmações não medem a mesma coisa: uma fala em identificação de oclusão tubária, a outra em avaliação de doença tubária, categoria mais ampla que inclui aderência peritubária e alteração de mobilidade — achados que o contraste não vê por definição. Uma diferença de pergunta não se dissolve num valor intermediário, e um número inventado no meio da faixa seria pior que as duas pontas. O que sobra ao candidato é reconhecer qual das duas o comando está pressupondo.

O padrão de referência que só descreve por fora

Os dois documentos concordam em um ponto: a laparoscopia com cromotubagem é o padrão de referência da permeabilidade tubária. O estudo do hospital universitário usou exatamente isso — azul de metileno injetado pelo colo e observação do extravasamento pelos óstios tubários peritoneais, com os cirurgiões cegos para os resultados dos outros dois exames.

Mas o protocolo de sociedade escreve a ressalva na mesma frase em que dá o título: videolaparoscopia e cromotubagem são descritas como padrão de referência, mas conseguem apenas uma descrição externa da relação entre útero, tubas e ovários. O padrão que a literatura elegeu enxerga a superfície e não o interior do canal.

Daí a assimetria de indicação que a prova adora. O procedimento cirúrgico não substitui o exame contrastado para ver a cavidade uterina e o trajeto interno da tuba; o exame contrastado não substitui o procedimento para ver aderências, focos de endometriose e a relação entre a fímbria e o ovário. Os dois olham coisas diferentes e a escolha entre eles não é uma escolha de acurácia.

O documento de sociedade acrescenta uma via de triagem sorológica que costuma ser esquecida: o título de anticorpos contra clamídia positivo associa-se a doença tubária e exige seguimento, ao passo que, se o teste for negativo, é improvável encontrar doença tubária na laparoscopia, entre sete e doze por cento. É um filtro barato antes de decidir por cirurgia.

A tuba que parece fechada e não está: espasmo, desvio e o falso bloqueio proximal

A oclusão que aparece junto ao corno uterino é a menos confiável de todas. A junção uterotubária é muscular e reage à injeção com espasmo, e o resultado no filme é indistinguível de obstrução verdadeira. É por isso que bloqueio proximal isolado pede repetição ou confirmação antes de virar diagnóstico, e nunca deve ser lido como indicação direta de fertilização.

O estudo brasileiro que comparou o exame contrastado com a alternativa ecográfica dá o retrato quantitativo do problema por outro caminho. Foram estudadas sessenta e uma tubas, porque uma paciente havia sido submetida a salpingectomia unilateral. Seis tubas não puderam sequer ser identificadas pelo método ecográfico e foram classificadas como inacessíveis; quatro delas eram, pelo exame contrastado, tubas pérvias apenas desviadas para cima, uma estava obstruída na porção distal e uma era pérvia com dilatação.

O ensinamento clínico é duplo. Primeiro: tuba não visualizada não é tuba ocluída — em quatro dos seis casos, a tuba que o método não conseguiu ver estava aberta. Segundo: a posição da tuba, e não sua patência, foi a causa mais comum de falha do exame, o que explica por que a repetição em outro dia do ciclo, com outra posição da paciente, resolve boa parte dos laudos duvidosos.

Há ainda o efeito que ninguém pede e todo mundo aproveita: a passagem do contraste desobstrui debris e muco e a taxa de gestação espontânea sobe nos meses seguintes ao exame. Isso não transforma o exame em tratamento, mas justifica esperar alguns ciclos antes de escalar a conduta em casal jovem com exame normal.

O reverso do espasmo também existe e é menos lembrado. A injeção é feita sob pressão e, se a paciente estiver com infecção genital baixa ativa ou tiver antecedente recente de doença inflamatória pélvica, o exame pode empurrar material para a cavidade e reativar o quadro. Por isso infecção ativa contraindica o exame e o antecedente pesa na decisão de dar cobertura antibiótica. O documento de sociedade não resolve essa pergunta: ele discute o valor da sorologia para clamídia como filtro antes da cirurgia, e não escreve conduta de profilaxia para o exame contrastado em si.

A tuba dilatada que muda o tratamento e que nenhum dos dois protocolos nomeia

Aqui está o silêncio mais consequente da literatura brasileira de rede. A palavra que descreve a tuba distalmente ocluída e cheia de líquido não aparece uma única vez no protocolo da federação de especialidade nem no protocolo municipal. Nos dois documentos somados, zero ocorrências. A palavra que descreve sua retirada cirúrgica também não aparece em nenhum dos dois.

O achado existe e os artigos brasileiros o descrevem sem dificuldade: o estudo de comparação identificou três casos, com o contraste preenchendo parcialmente uma tuba dilatada, concordantes entre os dois métodos. Ou seja, o achado é reconhecível nos dois exames e não depende de tecnologia indisponível.

A razão de a omissão importar é que ela muda a conduta, e não só o prognóstico. O líquido da tuba dilatada reflui para a cavidade uterina e reduz a taxa de implantação; por isso a decisão diante desse achado não é apenas encaminhar para reprodução assistida, é resolver a tuba antes de transferir embrião, por retirada ou por oclusão proximal. Um protocolo que nomeia apenas obstrução tubária como categoria única encaminha as duas situações para o mesmo lugar e perde a etapa intermediária.

Como isso cai na prova: o enunciado descreve obstrução distal bilateral com tuba dilatada em paciente que vai para fertilização, e a alternativa correta é a que resolve a tuba antes, não a que agenda a transferência. Alternativa que ofereça apenas o encaminhamento é a distratora que os protocolos de rede sustentariam.

A cavidade vem junto: o mesmo filme responde três perguntas com acurácias diferentes

O exame contrastado não avalia só a tuba; ele desenha a cavidade uterina no mesmo filme, e é aí que aparece a maior variação de desempenho. O estudo brasileiro com oitenta pacientes com dois ou mais abortos consecutivos comparou o exame com a histeroscopia como referência e separou os achados em três grupos: alterações da forma, sinéquias e lesões polipoides.

A concordância global com a histeroscopia foi de oitenta e cinco por cento para o exame contrastado, contra setenta e oito vírgula sete por cento para a ultrassonografia. Mas o número global esconde o que interessa. A concordância medida por coeficiente foi quase perfeita para alterações da forma e para sinéquias, com valores de zero vírgula noventa e zero vírgula oitenta e cinco, e baixa para lesões polipoides, zero vírgula vinte e três.

Três esquemas frontais da cavidade uterina mostrando alteração do formato, trave fibrosa atravessando a cavidade e pequena lesão arredondada projetada para dentro.
O mesmo filme responde às três perguntas com confiabilidade muito diferente: excelente para forma e trave, fraca para a lesão arredondada. É a razão de a imagem sugestiva de lesão projetada valer como indicação de histeroscopia e não como diagnóstico — de cerca de sete imagens dessas, uma se confirma quando a cavidade é finalmente olhada por dentro.

A acurácia para alterações da forma chegou a noventa e sete vírgula cinco por cento, com sensibilidade de cem por cento; para sinéquias, noventa e cinco por cento. Para lesões polipoides, a acurácia caiu para noventa e dois vírgula cinco por cento à custa de um valor preditivo positivo de catorze vírgula três por cento — de cada sete imagens sugestivas de pólipo, cerca de uma se confirma. Um estudo mais antigo, da mesma revista, já mostrava a mesma hierarquia com números próprios: sensibilidade de setenta por cento para o exame contrastado contra noventa por cento para a alternativa ecográfica com soro.

Como isso vira decisão, e o que a folha do laudo não diz

A sequência que resolve quase toda vinheta tem quatro passos. Primeiro, situar o momento: um ano de tentativa, ou seis meses se a idade puxa. Segundo, garantir que o espermograma e a avaliação da ovulação já foram feitos — o protocolo municipal é explícito em exigir a pesquisa do fator masculino e do fator tubário antes de tratar anovulação. Terceiro, marcar o exame contrastado na fase folicular. Quarto, ler o laudo pela categoria certa.

Na leitura, três reflexos evitam erro. Bloqueio junto ao útero é suspeita, não diagnóstico. Passagem livre bilateral não encerra a investigação em quem tem fator de risco tubário, porque a sensibilidade real pode estar bem abaixo da faixa que o protocolo cita. Tuba dilatada é decisão cirúrgica antes da transferência, mesmo que o protocolo de rede não use a palavra.

Os números que vale memorizar são poucos: janela do sexto ao décimo primeiro dia; quatro categorias de laudo; faixa de sensibilidade citada de oitenta e cinco a cem por cento contra sessenta e cinco por cento da revisão que a contesta; probabilidade de doença tubária na laparoscopia entre sete e doze por cento quando a sorologia para clamídia é negativa; valor preditivo positivo de catorze vírgula três por cento para lesão polipoide.

E o que a folha do laudo nunca diz, mas a prova espera que o candidato saiba: o exame mede um canal, não uma função; a tuba não visualizada pode estar aberta; e a decisão de operar antes de fertilizar depende de um achado que os dois documentos brasileiros de rede não escreveram.

04

As quatro saídas do laudo, da passagem livre ao contraste que para logo na saída

Os cartões seguem a ordem crescente de bloqueio, e o número de blocos cheios na base de cada cartão marca a posição na sequência. A quarta saída não é oclusão: é uma medida de até onde o contraste chegou.

Passagem livre dos dois lados, que prova canal e não prova função

O contraste enche a cavidade, percorre as duas tubas e escorre para a cavidade abdominal. O documento de sociedade chama a categoria de não oclusão tubária. Encerra a pergunta sobre o canal e não encerra a investigação: a mesma fonte adverte que aparência normal não reflete necessariamente função normal, e que a permeabilidade não é a única função tubária necessária para conceber.

Oclusão de um lado, que muda o prognóstico e raramente muda a conduta

Um lado deixa o contraste passar e o outro não. A gestação espontânea segue possível pelo lado pérvio, e o achado sozinho não indica fertilização. O que ele faz é subir o peso do antecedente: doença inflamatória pélvica prévia, cirurgia pélvica ou endometriose suspeita, somadas a este laudo, sustentam a indicação de laparoscopia.

Oclusão dos dois lados, o único laudo que fecha a via natural

Nenhum dos lados libera contraste para a cavidade abdominal. É o laudo que encaminha para reprodução assistida — com uma ressalva que os protocolos brasileiros de rede não escrevem: se a oclusão for distal e a tuba estiver dilatada, resolver a tuba precede a transferência embrionária, porque o líquido reflui para a cavidade e derruba a implantação.

Fluxo prejudicado, que é distância percorrida e não diagnóstico de oclusão

O contraste não é demonstrado além da porção ístmica. A junção uterotubária é muscular e responde à injeção com espasmo, de modo que o filme não distingue contração de obstrução. A leitura correta é suspeita a confirmar, com repetição em outro ciclo ou confirmação por laparoscopia, e nunca indicação direta de fertilização.

As quatro categorias são as do protocolo da federação de especialidade, que as nomeia na mesma frase em que descreve a técnica. O protocolo municipal copia a técnica e não copia as categorias: ele trabalha com uma categoria única, obstrução tubária, que é a que aparece nas regras de encaminhamento.

A quarta categoria é a única definida por uma referência anatômica e não pelo desfecho: o critério é o contraste não ultrapassar a porção ístmica. Por isso ela convive com tuba pérvia, e por isso não pode ser transcrita como oclusão no encaminhamento.

Tuba não visualizada é uma quinta situação, que os laudos costumam misturar com a terceira. No estudo brasileiro de comparação, das seis tubas não identificadas pelo método ecográfico, quatro estavam pérvias ao exame contrastado — a não visualização mediu posição, não patência.

A distinção entre oclusão proximal e distal não aparece nas categorias do exame contrastado, e aparece nas categorias da laparoscopia do mesmo protocolo. É a diferença que separa o laudo que pede repetição do laudo que pede cirurgia antes de fertilizar.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

A partir de que idade a propedêutica se antecipa, e o que acontece exatamente aos trinta e cinco anos

As mulheres abaixo de trinta e cinco anos de idade devem realizar a propedêutica se não tiverem alcançado uma gravidez após um ano de relações sexuais sem proteção; mulheres com idade superior a trinta e cinco anos devem procurar a avaliação após seis meses de tentativas sem sucesso.

Protocolo da federação de especialidade sobre propedêutica básica da infertilidade conjugal, Femina, volume 48, número 5, ano 2020, recomendações finais, item quatro

A propedêutica pode também ser antecipada para apenas seis meses de tentativa de gravidez em mulheres acima de trinta e cinco anos.

Mesmo protocolo, seção de introdução — terceira redação da mesma fronteira dentro do mesmo arquivo

A investigação antes de um ano está justificada nas seguintes situações: mulheres com mais de trinta e cinco anos; ciclos menstruais irregulares; história de doença inflamatória pélvica; diagnóstico ou suspeita de endometriose; cirurgias abdominais anteriores; problemas masculinos conhecidos.

Protocolo Infertilidade Conjugal da Secretaria Municipal de Saúde de Belo Horizonte, ano 2022, seção de abordagem do casal infértil — antecipa sem dizer em quanto

Na prova

Enunciado com paciente de trinta e cinco anos completos e seis a onze meses de tentativa está pedindo o vão. A alternativa correta costuma ser a que inicia a investigação, porque nenhuma cláusula a proíbe e a queda de fertilidade citada pelos dois documentos é contínua. Alternativa que atribua a qualquer dos dois documentos uma regra explícita para essa idade está inventando linha. Se o enunciado trouxer paciente de trinta e seis anos, a régua fecha e o prazo é de seis meses.

Quem pode solicitar o exame contrastado da tuba

Tendo em vista a sua natureza invasiva, a laparoscopia é normalmente reservada como o último inquérito na propedêutica.

Protocolo da federação de especialidade, Femina, volume 48, número 5, ano 2020, seção de fator tubário

A histerossalpingografia é solicitada nos níveis secundário e terciário; a videolaparoscopia pode ser solicitada por qualquer médico da atenção primária, mediante autorização para internação hospitalar cadastrada no centro de saúde.

Protocolo Infertilidade Conjugal de Belo Horizonte, ano 2022, item 2.1.1 — as duas frases administrativas que o documento acrescentou ao texto que copiou

Na prova

Comando que pergunte a conduta do médico da atenção primária diante de casal infértil com espermograma normal e ciclos regulares está lendo a régua clínica, e a resposta é solicitar o exame contrastado na fase folicular. Comando que descreva explicitamente uma rede com níveis de atenção e pergunte pelo fluxo administrativo está lendo a régua municipal. Alternativa que ofereça laparoscopia como primeiro passo é distratora nas duas leituras, porque as duas fontes reservam o procedimento para depois.

Quanto o exame contrastado enxerga de doença tubária

A sensibilidade desse exame é em torno de oitenta e cinco a cem por cento na identificação da oclusão tubária.

Protocolo da federação de especialidade, Femina, volume 48, número 5, ano 2020, seção de fator tubário

Segundo Karande e colaboradores, ano 1995, a histerossalpingografia possui uma sensibilidade de sessenta e cinco por cento e uma especificidade de oitenta e três por cento na avaliação de doença tubária, com valores amplamente variáveis segundo revisão dos mesmos autores.

Artigo do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, Revista da Associação Médica Brasileira, volume 46, número 4, ano 2000, introdução

Na prova

Enunciado que traga exame normal em paciente com antecedente de doença inflamatória pélvica e pergunte o próximo passo está testando se o candidato acredita na faixa alta. A alternativa correta é a que segue investigando por laparoscopia, e o protocolo de sociedade sustenta essa saída ao listar o antecedente entre as indicações do procedimento. Alternativa que declare doença tubária excluída pelo exame normal é a armadilha.

A alternativa ecográfica está ou não disponível no país

Recentemente, para evitar a radiação e o contraste iodado, foi desenvolvida a histerossonossalpingografia, que permite a triagem para a oclusão tubária utilizando a ultrassonografia. É uma alternativa eficaz, principalmente em mulheres que não podem ser submetidas ao exame convencional. Não é um método disponível em nosso meio.

Protocolo da federação de especialidade, Femina, volume 48, número 5, ano 2020, seção de fator tubário

A histerossonossalpingografia apresentou sensibilidade de noventa e três vírgula seis por cento, especificidade de setenta e cinco por cento e acurácia de noventa por cento; o tempo médio de execução do exame foi de doze minutos.

Estudo brasileiro publicado na Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia, volume 23, número 8, ano 2001 — vinte e nove anos antes do protocolo declarar o método indisponível no país

Na prova

Alternativa que descreva a triagem ecográfica da permeabilidade como recurso de rotina no serviço público brasileiro contraria o documento de sociedade mais recente. Alternativa que a descreva como técnica inexistente no Brasil contraria dois artigos brasileiros que a executaram e publicaram resultados. A leitura segura é a intermediária: método validado no país e sem disponibilidade de rotina, indicado sobretudo a quem não pode receber contraste iodado ou radiação.

O que fazer diante de tuba distalmente ocluída e dilatada antes da fertilização

Nenhuma ocorrência da palavra que nomeia a tuba dilatada, e nenhuma ocorrência da palavra que nomeia sua retirada cirúrgica, nos dois protocolos brasileiros consultados. As regras de encaminhamento trabalham com a categoria única obstrução tubária.

Medição própria sobre os textos extraídos do protocolo da federação de especialidade, ano 2020, e do protocolo municipal de Belo Horizonte, ano 2022

Identificamos três casos de tuba dilatada, em que o contraste preencheu parcialmente a tuba após a injeção do meio de contraste; os diagnósticos foram concordantes pelos dois métodos.

Estudo brasileiro na Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia, volume 23, número 8, ano 2001, seção de resultados — o achado é reconhecível e nomeado na literatura nacional

Na prova

Este é o item em que a leitura por protocolo de rede erra. O enunciado descreve obstrução distal bilateral com tuba dilatada e pergunta a conduta antes da transferência embrionária. A alternativa correta resolve a tuba antes; a distratora forte encaminha para reprodução assistida sem tocar na tuba, que é exatamente o que a categoria única dos documentos brasileiros de rede sustentaria.

06

Caso resolvido

Mulher de trinta e dois anos, sem gestações prévias, comparece à unidade básica de saúde com o parceiro após dezoito meses de tentativas sem contracepção. Ciclos menstruais regulares de vinte e oito a trinta dias, sem dismenorreia importante. Antecedente de doença inflamatória pélvica tratada aos vinte e seis anos, com internação. Exame ginecológico sem alterações, citopatológico em dia. Espermograma do parceiro normal. Ultrassonografia transvaginal com útero e ovários de aspecto habitual. Traz um pedido de histerossalpingografia feito na consulta anterior e pergunta em que dia deve marcar. Refere que a menstruação começou hoje.
O momento da investigação já passou, e por dois motivos
Dezoito meses de tentativa ultrapassam o limite de um ano que os dois documentos brasileiros usam para definir infertilidade. Além do tempo, o antecedente de doença inflamatória pélvica está na lista do protocolo municipal de situações que justificam investigar antes mesmo de completar um ano. A investigação não é precoce, está atrasada.
O dia de marcar, e a orientação que vai junto
A janela é do sexto ao décimo primeiro dia do ciclo, contado a partir do primeiro dia da menstruação que começou hoje. Como o sangramento começou, a marcação cai entre cinco e dez dias à frente. A orientação que acompanha é abstinência ou método de barreira desde agora até o exame, porque a trava da segunda metade do ciclo existe para não injetar contraste sob pressão numa gestação inicial.
Quem pede, na régua clínica e na régua de rede
Pela régua clínica do protocolo de sociedade, este é o próximo passo e ele antecede a laparoscopia, que fica reservada por sua natureza invasiva. Pela régua administrativa do protocolo municipal, o exame é solicitado nos níveis secundário e terciário, ao passo que a videolaparoscopia poderia ser pedida ali mesmo. A conduta correta é manter a ordem clínica e encaminhar para o exame, não inverter a escada porque a via burocrática do procedimento maior é mais curta.
O laudo volta com fluxo prejudicado à direita e passagem livre à esquerda
Fluxo prejudicado é a categoria em que o contraste não é demonstrado além da porção ístmica, e não é sinônimo de oclusão. Do lado direito, o achado é suspeita a confirmar. Do lado esquerdo, a passagem é livre. Com uma tuba comprovadamente pérvia, a gestação espontânea segue possível e não há indicação de reprodução assistida por este laudo.
Por que a investigação não termina aqui, apesar de uma tuba pérvia
O antecedente de doença inflamatória pélvica com internação é fator de risco tubário estabelecido, e a sensibilidade real do exame é contestada dentro da própria literatura brasileira — a faixa de oitenta e cinco a cem por cento do protocolo convive com a de sessenta e cinco por cento da revisão que ele não cita. Exame contrastado normal ou parcialmente alterado, nessa paciente, não exclui doença tubária.
A saída, e o que se explica ao casal
Indica-se laparoscopia com cromotubagem, que é o padrão de referência e que o protocolo de sociedade lista como indicada quando há alteração importante no exame contrastado e quando há cirurgia ou doença pélvica prévia. Explica-se ao casal que o procedimento vê o lado de fora das tubas, as aderências e a relação com o ovário, coisas que o contraste não mostra, e que o bloqueio da direita pode simplesmente não se confirmar.
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Agora feche você

Mulher de trinta e cinco anos completos procura a unidade básica com o parceiro após sete meses de tentativas. Ciclos regulares, sem antecedentes ginecológicos, sem cirurgias. Espermograma do parceiro normal. Ela diz que leu que só se investiga infertilidade depois de um ano e pergunta se deve esperar mais cinco meses. Um mês depois, com a investigação iniciada, o exame contrastado mostra oclusão distal bilateral, com as duas tubas dilatadas e retenção do contraste no seu interior, sem passagem para a cavidade abdominal.
Passo 1
Escreva as três redações da fronteira de idade — a da introdução do protocolo de sociedade, a das recomendações finais do mesmo arquivo e a do protocolo municipal — e mostre por que a paciente desta vinheta não cabe em nenhuma delas. Depois diga qual conduta você adota e com que justificativa, já que nenhuma cláusula a cobre.
Passo 2
Diga em que dia do ciclo o exame deveria ter sido marcado, qual é a fonte fisiológica de cada extremidade dessa janela e qual orientação contraceptiva acompanha a marcação.
Passo 3
Classifique o laudo em uma das quatro categorias que o protocolo de sociedade nomeia e explique por que a categoria escolhida é a única das quatro que fecha a via natural. Depois diga o que muda pelo fato de as tubas estarem dilatadas, e por que essa informação não está em nenhum dos dois protocolos brasileiros consultados.
Passo 4
Liste a conduta na ordem: o que se resolve antes, o que se faz depois, e qual é a alternativa distratora que um serviço guiado apenas pela categoria única de obstrução tubária escolheria.
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Onde a banca derruba

  1. 1Ler bloqueio junto ao útero como oclusão e indicar fertilização A junção uterotubária responde à injeção com espasmo, e o filme não separa contração de obstrução. O próprio protocolo nomeia essa saída como fluxo de contraste prejudicado, e não como oclusão. A conduta é repetir em outro ciclo ou confirmar por laparoscopia. Alternativa que salte do bloqueio proximal isolado para a reprodução assistida está pulando a etapa que o documento escreveu.
  2. 2Dar alta ao casal porque as duas tubas são pérvias A permeabilidade prova que existe canal e não prova captação, transporte ciliar nem ausência de aderência peritubária. O protocolo escreve isso duas vezes, em frases diferentes. Em paciente com antecedente de doença inflamatória pélvica, cirurgia pélvica ou suspeita de endometriose, o exame normal não encerra a investigação.
  3. 3Marcar o exame para a segunda metade do ciclo Depois do décimo primeiro dia a paciente pode já ter ovulado e concebido, e o exame injeta contraste sob pressão. A janela do sexto ao décimo primeiro dia é a única que os dois documentos brasileiros escrevem, e escrevem igual. Enunciado com atraso menstrual e pedido do exame está testando esta trava.
  4. 4Tratar tuba não visualizada como tuba ocluída No estudo brasileiro de comparação, seis tubas não foram identificadas pelo método ecográfico; quatro delas estavam pérvias ao exame contrastado, apenas desviadas para cima. Não visualizar mede posição e qualidade da janela, não patência. O laudo pede repetição, não diagnóstico.
  5. 5Confiar no laudo de pólipo do exame contrastado No estudo brasileiro com oitenta pacientes, a concordância para lesões polipoides foi baixa e o valor preditivo positivo ficou em catorze vírgula três por cento. Alterações da forma e sinéquias, no mesmo filme e no mesmo estudo, tiveram concordância quase perfeita. A imagem sugestiva de pólipo é indicação de histeroscopia, não diagnóstico.
  6. 6Adiar a investigação da mulher de trinta e cinco anos completos até completar um ano As duas cláusulas do protocolo de sociedade deixam essa idade de fora, e o protocolo municipal repete a exclusão sem dizer em quanto antecipa. Não há regra que proíba investigar aos seis meses, e a queda de fertilidade citada pelos dois documentos é contínua desde os trinta anos. Esperar por causa de um vão redacional é o erro.
  7. 7Levar o casal à laparoscopia antes do exame contrastado O protocolo de sociedade escreve que a natureza invasiva reserva o procedimento como último inquérito, e lista as indicações que o antecipam: exame contrastado com alteração importante, cirurgia pélvica anterior, infertilidade sem causa aparente, suspeita de endometriose e avaliação para reversão de laqueadura. Fora dessas, a ordem é contraste primeiro.
  8. 8Encaminhar tuba dilatada direto para transferência embrionária O líquido da tuba distalmente ocluída reflui para a cavidade e reduz a implantação. Resolver a tuba precede a transferência. Nenhum dos dois protocolos brasileiros consultados nomeia esse achado, e por isso a alternativa que apenas encaminha aparece como plausível — é a distratora construída sobre a categoria única de obstrução tubária.
  9. 9Tratar anovulação antes de fechar fator masculino e fator tubário O protocolo municipal é explícito: antes de iniciar o tratamento da anovulação, deve-se realizar a pesquisa do fator masculino e do fator tubário. Indução de ovulação em casal com obstrução tubária bilateral ou azoospermia é conduta que a prova cobra como erro de sequência, não como erro de fármaco.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

O exame contrastado normal não exclui doença tubária em paciente com antecedente de doença inflamatória pélvica, e a literatura brasileira sustenta essa cautela de duas maneiras. A faixa de sensibilidade citada pelo protocolo de sociedade, de 85% a 100%, convive na mesma literatura nacional com a revisão de Karande e colaboradores, que atribui ao exame sensibilidade de 65% e especificidade de 83% — e cujo título trata justamente do valor limitado do método. Além disso, o próprio protocolo escreve que a permeabilidade não é a única função tubária necessária à concepção e que aparência normal não reflete necessariamente função normal: o contraste prova canal, não capta óvulo, não move cílio e não vê aderência peritubária. O mesmo documento lista o antecedente de cirurgia ou doença pélvica entre as indicações do procedimento cirúrgico, que é o padrão de referência. Dar o fator por afastado, repetir o mesmo exame ou pular para reprodução assistida sem ver a pelve ignoram essa sequência; a investigação de reserva ovariana não responde à pergunta em pauta.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Sem consultar nada, escreva as quatro categorias de laudo do exame contrastado na ordem crescente de bloqueio e marque qual delas não é diagnóstico de oclusão, dizendo qual referência anatômica a define. Depois escreva a janela do ciclo com as duas justificativas fisiológicas, uma para cada extremidade. Por fim, escreva as duas sensibilidades que a literatura brasileira atribui ao mesmo exame e diga qual delas o protocolo de rede cita.

em 30 dias

Pegue a paciente do caso a completar, a de trinta e cinco anos exatos com oclusão distal bilateral e tubas dilatadas, e refaça a decisão inteira em voz alta: por que investigar aos sete meses apesar do vão redacional, em que dia marcar o exame, como classificar o laudo, o que resolver antes da transferência embrionária e por que essa etapa não aparece nos dois documentos brasileiros de rede. Depois troque um dado por vez — retire a dilatação das tubas, depois torne a oclusão unilateral, depois mova a oclusão para junto do útero — e diga em qual dos três a conduta deixa de ser cirúrgica.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Você atende no ambulatório de ginecologia de uma unidade básica de saúde. Chega um casal encaminhado pela equipe de saúde da família por dificuldade para engravidar. Conduza a consulta: colha o tempo de tentativa e o que antecipa a investigação, cheque o que já foi feito de cada lado do casal, explique em que dia do ciclo o exame da tuba precisa ser marcado e por quê, e diga com todas as letras o que esse exame prova e o que ele não prova. Se a paciente perguntar se um resultado normal significa que está tudo bem, responda com honestidade. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Fator tubário na infertilidade: histerossalpingografia e a janela do ciclo — Preparatório para provas | OsceLabs