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Dor pélvica crônica: quatro aparelhos, três relógios e a laparoscopia que responde sem mudar nada

Dois capítulos desta apostila mandam a aluna para cá e param. O de dismenorreia diz que, com imagem negativa, o caso segue para avaliação multidisciplinar da dor pélvica crônica; o de sangramento uterino anormal escreve que a adenomiose tem capítulo próprio de decisão. O de doença inflamatória pélvica conta a dor crônica como sequela em quase metade das mulheres em sete anos e encerra o assunto ali. Este capítulo é o endereço que faltava.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Mulher, 41 anos, multípara (G4P4), queixa-se de dor pélvica crônica em peso há cerca de 2 anos, localizada em baixo ventre, que piora ao longo do dia, com o ortostatismo prolongado e após relações sexuais, e que alivia ao deitar-se. Nega relação da dor com o ciclo menstrual. Ao exame observam-se varizes em face interna de coxas e vulva. O exame especular e o toque bimanual são pouco elucidativos; o útero tem tamanho normal e não há massas anexiais palpáveis. A ultrassonografia com Doppler transvaginal demonstra veias parauterinas dilatadas (>5 mm), tortuosas, com fluxo lento e refluxo à manobra de Valsalva. Qual é a hipótese diagnóstica mais compatível com o quadro?

02

Como esse tema cai

Este capítulo trata da dor pélvica não cíclica que dura pelo menos seis meses na mulher adulta, é intensa o bastante para atrapalhar as atividades habituais e exige tratamento. Não trata da dor pélvica aguda, que é problema de pronto-socorro e tem quadro próprio no protocolo federal; não trata da dismenorreia, que é cíclica por definição e tem capítulo nesta apostila; e não trata da endometriose, que já tem dono aqui. Trata do que sobra quando essas três saem — que é a maior parte.

A vaga foi aberta por escrito por três vizinhos. O capítulo de dismenorreia manda a aluna para cá duas vezes: diz que, com imagem negativa, o caso vai para avaliação multidisciplinar da dor pélvica crônica, e escreve que a adenomiose está detalhada no capítulo de sangramento uterino anormal. Chegando lá, o capítulo de sangramento anormal devolve a bola: escreve que a adenomiose tem capítulo próprio de decisão entre tratamento hormonal, cirurgia conservadora e histerectomia. O mioma tem esse capítulo. A adenomiose não tinha. É uma remissão que aponta para um endereço vazio.

O terceiro vizinho é o de doença inflamatória pélvica, e a cessão dele é a mais dura: conta que 42,7 por cento das mulheres referiram dor pélvica crônica sete anos depois do primeiro episódio, registra que nenhuma intervenção posterior recupera trompa perdida, e encerra. O número é da sequela; o manejo dela não está em lugar nenhum. Some-se a isso o modo como o tema chega na prova — a doença que a alternativa correta nomeia quase nunca aparece escrita no enunciado — e o capítulo se justifica sozinho.

03

O que muda decisão

A definição tem um número, e o fluxograma federal abre um buraco embaixo dele

A revisão brasileira que o próprio Ministério da Saúde cita como referência define dor pélvica crônica como dor não cíclica com duração de pelo menos seis meses, suficientemente intensa para interferir em atividades habituais e que necessita de tratamento clínico ou cirúrgico. O estudo qualitativo de 2024 repete a régua com as mesmas palavras: dor que persiste por pelo menos seis meses. Duas fontes, dezoito anos de distância, o mesmo piso inclusivo.

O fluxograma federal escreve outra coisa. Ele bifurca a mulher com dor no andar inferior do abdome em dois ramos e rotula as saídas pela duração: menor que três meses de um lado, maior que seis meses do outro. Nenhum ramo recebe a mulher com quatro ou cinco meses de dor. E o sinal do lado crônico é de maior estrito, não de maior ou igual, o que deixa de fora também a mulher com exatamente seis meses — justamente o piso que a definição citada inclui.

O buraco não é decorativo: é o intervalo em que a mulher já saiu da urgência e ainda não entrou no roteiro de dor crônica, que é onde a peregrinação começa. Na prova o efeito é a favor de quem lê com atenção. Enunciado com oito meses está dentro dos dois critérios e a pergunta vai ser outra. Com menos de três meses, o roteiro é o de dor aguda e o primeiro passo é o teste de gravidez. Com um número entre três e seis, a resposta esperada é a que continua investigando, não a que rotula nem a que opera.

Quatro aparelhos, e a coluna sem número é a que decide se vale operar

A revisão de 2006 organiza as causas num quadro com quatro sistemas e imprime a participação de três: gastrintestinal cerca de 37 por cento, urológico cerca de 31 por cento, genital cerca de 20 por cento. O quarto é o musculoesquelético, e entra com a lista completa de diagnósticos — síndromes miofasciais, espasmo do assoalho pélvico, inadequação postural, fibromialgia, síndrome do piriforme, hérnia de disco, neuralgias — e sem porcentagem nenhuma. Trinta e sete mais trinta e um mais vinte dão oitenta e oito; o resto, doze por cento, é o tamanho implícito da coluna que ficou sem número.

O resumo do mesmo artigo escreve que procedimentos como a laparoscopia só devem ser indicados a pacientes selecionadas, principalmente após excluir síndrome do intestino irritável e dor miofascial. Uma das duas exclusões é a coluna sem número. E o aparelho que o ginecologista examina por hábito, o genital, é o menor dos três numerados: um quinto das causas. Os dois que respondem por mais de dois terços do problema não se avaliam com espéculo.

O editorial de 2009, assinado por três dos mesmos autores mais um, existe para promover a coluna sem número, e o faz com uma frase que a prova aproveita: em clínicas especializadas é comum encontrar pacientes submetidas a várias cirurgias, com diagnósticos repetidos de endometriose e aderências, que não melhoraram — e nas quais a avaliação cuidadosa encontra como causa primária a dor miofascial de assoalho pélvico e parede abdominal. Duas causas cirúrgicas foram tratadas; a causa real não tinha número na tabela.

Quatro barras sobre a mesma base: três preenchidas em alturas decrescentes e uma apenas tracejada, com o topo aberto.
As três primeiras colunas do quadro de causas trazem porcentagem; a quarta traz a lista de doenças e nenhum número. A altura que falta é o resto da conta.

Três faixas de prevalência para o mesmo país, e um percentual que atravessa dezoito anos

A revisão de 2006 imprime dois números que não são o mesmo: 3,8 por cento em mulheres de 15 a 73 anos, e 14 a 24 por cento em mulheres em idade reprodutiva. O estudo de 2024 imprime um terceiro: no Brasil, a prevalência varia de 11,5 a 19 por cento. As três faixas se cruzam sem coincidir — a interseção das duas últimas é de 14 a 19, e cada uma tem um trecho que a outra não cobre.

O denominador explica quase tudo, e é isso que a prova cobra. O 3,8 inclui um bloco grande de mulheres na pós-menopausa, faixa em que a doença é menos frequente; estreitar o denominador para a idade reprodutiva multiplica o resultado por algo entre 3,7 e 6,3 vezes. Não é doença diferente, é população diferente — e as duas aparecem na mesma frase, sem aviso de que a régua mudou no meio.

Um número atravessa as duas safras sem mudar. A revisão escreve que cerca de 60 por cento das mulheres com a doença nunca receberam diagnóstico específico, e que 20 por cento nunca realizaram qualquer investigação; o estudo de 2024 escreve que a ausência de diagnóstico preciso é a regra, cerca de 60 por cento, citando fonte diferente. Antes de chamar isso de confirmação cruzada, vale reconciliar: é a mesma afirmação migrando de citação em citação, não duas medições independentes. Em mil mulheres de 15 a 73 anos, são 38 doentes, 23 sem nome para a doença e 8 que nunca fizeram o primeiro exame.

O parâmetro que decide tudo e nenhuma fonte imprime

A revisão de 2006 imprime três frações de uso de serviço, na mesma frase e sem comentário: a dor pélvica crônica responde por 40 a 50 por cento das laparoscopias ginecológicas, por 10 por cento das consultas ginecológicas e por aproximadamente 12 por cento das histerectomias. Postas lado a lado, elas dizem o que nenhuma diz sozinha.

A conta é de divisão. Quarenta a cinquenta sobre dez dá quatro a cinco: relativamente ao espaço que ocupa no ambulatório, o tema ocupa quatro a cinco vezes mais espaço na sala de laparoscopia. Doze sobre dez dá 1,2: na histerectomia, a doença aparece quase na proporção em que aparece na consulta. A faca diagnóstica está muito sobre-representada; a definitiva quase não está. Isso descreve um tema que é operado para ser visto, não para ser resolvido.

O inverso também não está impresso e sai do cruzamento com o protocolo federal, que registra um terço com pelve normal nas casuísticas de laparoscopia por essa indicação. Se a dor pélvica crônica é a indicação de quarenta a cinquenta por cento de todas as laparoscopias ginecológicas, então entre 13,3 e 16,7 por cento delas terminam com pelve normal numa mulher com esse diagnóstico — uma em cada seis a sete cirurgias diagnósticas do serviço inteiro. E o mesmo documento diz que a laparoscopia é segunda linha, indicada em cerca de 18 por cento das doentes.

Os três terços, e por que o exame que responde não muda o prognóstico

O protocolo federal desdobra os três terços com franqueza incomum: as casuísticas devolvem um terço com pelve normal, um terço com endometriose e um terço com aderências. Em seguida avalia cada um. Sobre a endometriose, diz que ela não é tratada só com cirurgia, porque muitas lesões são microscópicas e nem são visualizadas à laparoscopia. Sobre as aderências, escreve que a lise não modifica o prognóstico em relação à dor pélvica crônica.

Somadas, as três avaliações são desconfortáveis: um terço sem achado, um terço com achado que a cirurgia não resolve sozinha, um terço com achado cuja correção não muda o desfecho. O documento não escreve essa soma — escreve as três parcelas em marcadores consecutivos do mesmo quadro. O contraponto honesto é que a exceção citada para a endometriose existe e está impressa, a retirada de ambos os ovários, e que o próprio texto a rejeita pela função endócrina na idade reprodutiva.

Repare também na renormalização, porque ela vira alternativa. No quadro de causas o aparelho genital é 20 por cento; na casuística cirúrgica, endometriose e aderências somam dois terços dos achados. A participação do genital praticamente triplica quando o denominador deixa de ser mulheres com a doença e passa a ser mulheres operadas. A faca acha ginecologia porque só olha onde o ginecologista enxerga. O estudo de 2024 chega ao mesmo lugar por outro caminho: generalizar a laparoscopia aumentaria custo e morbidade sem influenciar a qualidade de vida, e a endometriose, presente em cerca de um terço, já é contemplada quando se induz amenorreia — a dor piora no perimenstrual em 80 por cento dos casos.

Seis semanas contra seis meses: o relógio da bexiga corre antes

O protocolo de sociedade define síndrome dolorosa vesical como sensação desagradável percebida na bexiga — dor, pressão ou desconforto — associada a urgência e noctúria, há mais de seis semanas, na ausência de infecção ou de outra causa identificável. Seis semanas. O fluxograma federal coloca essa mesma doença dentro do ramo crônico, isto é, atrás de uma porta de mais de seis meses.

A consequência é aritmética e é clínica. A mulher com quatro meses de dor vesical já preenche integralmente o critério da sociedade e ainda não chegou ao ramo do documento federal onde o diagnóstico dela está listado. O relógio mais curto desautoriza o mais longo: há diagnóstico fechado, com tratamento padronizado, esperando atrás de uma régua feita para outra pergunta.

O discriminador de vinheta é uma frase do próprio protocolo: na bexiga hiperativa a paciente urina para evitar incontinência; na síndrome dolorosa vesical ela urina para aliviar a dor. Somem-se a piora com o enchimento vesical e a urocultura negativa obrigatória; dispareunia acompanha em até 60 por cento dos casos. E um detalhe de leitura de faixa: sobre a lesão de Hunner, o documento escreve que alguns autores relatam 11 a 16 por cento e outros, 5 a 57 por cento, explicando a divergência pela falta de uniformidade dos critérios. A segunda faixa contém a primeira inteira — quando duas faixas se engolem assim, a mais estreita não é mais precisa, é apenas mais recortada.

A mesma manobra em direções contrárias entre duas síndromes

O capítulo de incontinência urinária desta mesma coleção ensina que o treinamento dos músculos do assoalho pélvico é primeira linha nas duas formas de incontinência e acrescenta, com todas as letras, que não tem contraindicação nem efeito colateral na mulher. O protocolo de síndrome dolorosa vesical escreve o contrário para a doença dele: fisioterapia é indicada a quem tem pontos-gatilho, e exercícios de fortalecimento do tipo Kegel devem ser evitados.

As duas frases não se contradizem: aplicam-se a mecanismos opostos, e é esse o item que separa quem decorou de quem entendeu. Na incontinência de esforço o problema é um assoalho fraco, e fortalecer resolve. Na dor pélvica de componente miofascial o problema é um assoalho hipertônico, com pontos-gatilho, e fortalecer realimenta o ciclo de espasmo e dor. A conduta ali é relaxamento, alongamento e liberação.

O mesmo protocolo traz outra régua que anda nos dois sentidos. Sobre líquidos, escreve que pacientes cuja dor piora com o enchimento vesical podem melhorar com restrição, e que aquelas cuja dor piora porque a urina está concentrada podem se beneficiar do aumento da ingestão. É a mesma variável com sinais opostos, decidida pelo mecanismo que a mulher relata. Vale registrar ainda uma régua que deixou de existir: diferentemente de orientações anteriores, que seguiam seis linhas hierárquicas de tratamento, não há mais necessidade de obedecer a essa ordem — começa-se pelo conservador, com uma exceção nomeada, a paciente com lesão de Hunner.

Adenomiose: a órfã, medida só dentro do útero que já foi retirado

O protocolo de sociedade define adenomiose pela histologia: invasão do endométrio no miométrio, além de 2,5 milímetros, ou no mínimo um campo microscópico de grande aumento distante da camada basal, com glândulas e estroma circundados por hiperplasia e hipertrofia miometriais. E declara que, classicamente, a confirmação é feita em espécimes de histerectomia — o que amarra tudo o que vem depois a um denominador muito particular.

Os números mostram o custo desse denominador. O documento escreve que a incidência real permanece desconhecida e que os dados variam de 1 a 70 por cento, com média de 20 a 30 por cento dos espécimes. A faixa vai de um a setenta, setenta vezes do piso ao teto, e a média anunciada fica abaixo do meio aritmético da própria faixa, que seria 35,5. Há ainda uma aritmética de sintomas: sangramento aumentado e dismenorreia atingem 65 por cento dos casos e a doença é assintomática em cerca de um terço — somados, 98,3 por cento. Sobra menos de dois por cento, e é ali que o próprio texto coloca dispareunia e dor pélvica crônica, como sintomas menos comuns. O documento não declara exclusividade entre as categorias, então o resíduo é leitura dos números impressos.

A imagem tem duas réguas e um vazio embaixo. Na ultrassonografia transvaginal, primeira linha por custo e disponibilidade, sensibilidade até 82 por cento e especificidade até 84 por cento — as duas apresentadas como teto. Na ressonância, zona juncional acima de 12 milímetros é diagnóstica e entre 8 e 12 é sugestiva se houver outros sinais; abaixo de oito não há regra impressa. E a zona juncional varia com o ciclo e aumenta com a idade, o que o próprio documento admite reduzir a acurácia.

Duas observações fecham, e as duas caem em prova. O tratamento clínico é inteiramente de supressão hormonal e o protocolo escreve que não há nenhum medicamento específico para a doença; entre os fatores de risco listados aparece o uso prévio de contraceptivos hormonais, ao lado de menarca precoce, ciclos curtos, multiparidade, abortamento e manipulações uterinas. E a cirurgia conservadora, para doença focal, melhora 80 por cento da dismenorreia e 50 por cento do sangramento: dois sintomas da mesma doença, uma cirurgia, trinta pontos de diferença. A associação com endometriose é registrada como 20 a 80 por cento, faixa larga demais para sustentar afirmação categórica.

A sigla que perdeu uma letra, e as doses que mudaram no caminho

O protocolo de adenomiose situa a doença na classificação da Federação Internacional de Ginecologia e Obstetrícia para sangramento uterino anormal e escreve o acrônimo assim: PALM-COIN. A sigla correta tem uma letra a mais, o E de endometrial. No texto inteiro do arquivo, a forma com E aparece zero vezes e a forma sem E aparece uma. É uma letra que caiu num documento oficial, no acrônimo que o capítulo vizinho desta apostila usa como espinha — e a adenomiose é justamente o A dessa sigla.

O protocolo federal de 2016 traz o quadro mais prático do tema, e ele começa fora da farmácia: manda procurar violência doméstica, intrafamiliar e sexual, que podem ser crônicas e estar camufladas; vida sexual insatisfatória e anorgasmia; conflitos familiares; vulnerabilidade social; e traumas. Depois vêm atividade física, dieta com fibras, psicoterapia e práticas integrativas. A farmacologia tem duas camadas: amitriptilina 25 a 50 miligramas à noite, com ressalva para sobrepeso e obstipação, e fluoxetina 20 miligramas ao dia, indicada justamente às obstipadas e com sobrepeso; e, para refratários, gabapentina, carbamazepina, pregabalina, codeína ou tramadol.

A adaptação estadual do Distrito Federal reproduz esse quadro e o encurta em silêncio. Mantém os dois antidepressivos com as mesmas doses e suprime a camada refratária inteira. Mantém os três terços e o percentual de indicação palavra por palavra. E troca uma dose: onde o federal prescreve noretisterona oral 10 miligramas por dia para supressão menstrual, o estadual escreve 0,35 miligrama, que é a dose da minipílula contraceptiva — vinte e oito vezes menos do mesmo fármaco, na mesma indicação.

Há ainda um erro de endereço impresso no documento federal, e ele acerta justamente a causa órfã. No quadro de dor pélvica crônica, quatro linhas mandam ver o Quadro 10, considerações gerais sobre o tratamento; a linha da síndrome da bexiga dolorosa manda ver o Quadro 3, com o mesmo título — e o Quadro 3 do documento é outro assunto. A adaptação estadual, ao copiar, não corrigiu o número: apagou a remissão daquela linha. O ponteiro errado virou ponteiro nenhum. Some-se a isso o teto do tricíclico, que é de 50 miligramas no documento federal e de 75 miligramas no de sociedade, e a hidroxizina, que a tabela do mesmo protocolo imprime como 10 a 50 e o texto ao lado descreve como 25 a 50.

Dois documentos ligados por uma seta; o da direita repete só parte das faixas do da esquerda e tem uma linha tracejada que termina no vazio.
A adaptação estadual copia o quadro federal, mantém as faixas de cima e deixa de fora as duas últimas: a camada dos refratários some, e o ponteiro que apontava errado é apagado em vez de corrigido.

Onde o resultado vive, e como o tema chega na prova

Duas pesquisas brasileiras da mesma linha mostram como a resposta muda quando muda o desfecho medido. O estudo transversal de 2014 mediu sintoma depressivo em cinquenta mulheres encaminhadas pela rede básica: média de idade 41,6 anos, 98 por cento economicamente ativas, escore médio de 17,4 no inventário de Beck e 58 por cento com sintomas depressivos — vinte e nove das cinquenta. Os inteiros fecham: 52 por cento com dor intensa e 48 por cento com dor moderada são vinte e seis e vinte e quatro, sem ninguém na categoria leve.

Duas leituras de número merecem cuidado nesse artigo. A duração diz 52 por cento com menos de cinco anos e 30 por cento com mais de onze: somam 82 por cento e deixam 18 por cento, nove mulheres, na faixa intermediária que o resumo não imprime. E o mesmo 52 por cento aparece duas vezes, para dois fatos sem relação — dor intensa e menos de cinco anos de doença. São vinte e seis de cada vez, e nada indica que sejam as mesmas vinte e seis. Já o desvio-padrão de 9,4, idêntico para idade e para o escore de Beck, é coincidência de dígito entre variáveis de unidades diferentes, e registrá-la como achado seria pior do que ignorá-la.

O estudo qualitativo de 2024 escolheu outro desfecho: o que separa quem recebe alta ambulatorial de quem segue em acompanhamento. Quatorze mulheres, sete e sete, um funil que fecha. Do lado da alta apareceram melhora do estado emocional e das condições financeiras, resolução de conflitos matrimoniais, a oportunidade de se expressar e de conversar com outras pacientes, além de medicamentos e de alguns procedimentos. O cirúrgico entra na lista, e entra por último.

O padrão de cobrança é o inverso do que a aluna espera: no acervo de prova, as causas órfãs chegam nomeadas na alternativa e quase nunca no enunciado — adenomiose, congestão pélvica, bexiga dolorosa, Fitz-Hugh-Curtis. A vinheta entrega só a cena. Dor em peso que piora em pé e ao fim do dia aponta congestão pélvica; dor que piora ao encher e alivia ao urinar, com urocultura negativa, aponta bexiga dolorosa; sangramento volumoso progressivo com útero globoso e amolecido aponta adenomiose; e dor de ponto fixo na parede que aumenta à contração da musculatura aponta síndrome miofascial. Esse último sinal separa parede de víscera sem nenhum equipamento.

Duas réguas horizontais empilhadas com trechos sólidos de comprimentos diferentes e um vão pontilhado entre as duas marcas, com linhas que terminam no vazio.
Duas réguas de tempo para a mesma mulher: a da bexiga fecha cedo, a da dor pélvica só fecha muito depois, e entre as duas marcas fica um intervalo em que o diagnóstico já existe e o roteiro ainda não começou.
04

Os quatro aparelhos, na ordem em que o quadro os imprime

Os cartões seguem a ordem decrescente das porcentagens do quadro de causas, e o quarto é o único que a fonte lista sem número. A ordem importa porque ela é o inverso da ordem em que o ginecologista costuma examinar: o aparelho que ele domina é o terceiro, e o que decide se a cirurgia era necessária é o que não tem número.

Primeiro — aparelho digestivo, cerca de 37 por cento

A maior fatia isolada. Síndrome do intestino irritável em primeiro lugar, com o critério que o protocolo federal reproduz: desconforto abdominal ou dor pélvica por pelo menos doze semanas, não necessariamente consecutivas, nos últimos doze meses, com pelo menos dois dos três aspectos — alívio com a defecação, início associado a mudança na frequência das evacuações, início associado a mudança na forma e consistência das fezes. Entram também doença inflamatória intestinal, doença diverticular, hérnias, constipação e obstrução intermitente. O tratamento inicial é dieta, identificação de gatilhos e controle de sintoma.

Segundo — aparelho urinário, cerca de 31 por cento

Quase tão grande quanto o digestivo, e o que mais engana em vinheta ginecológica. A síndrome dolorosa vesical fecha com seis semanas de dor, pressão ou desconforto vesical mais sintomas urinários, sem infecção comprovada — e o traço que a distingue da bexiga hiperativa é o motivo da micção: aliviar dor, não evitar perda. Urocultura negativa é obrigatória; piúria com cultura negativa manda descartar clamídia, ureaplasma e tuberculose. Cistoscopia não é necessária para o diagnóstico, e estudo urodinâmico não é rotina. Entram ainda infecção recorrente, urolitíase e síndrome uretral.

Terceiro — aparelho genital, cerca de 20 por cento

Um quinto das causas, e a única coluna que o ginecologista examina por hábito. Divide-se em extrauterinas — endometriose, doença inflamatória pélvica e sua sequela aderencial, massas anexiais, congestão pélvica, distopias — e intrauterinas, com a adenomiose à frente, mais estenose cervical, pólipos, miomas e dispositivo intrauterino. É a coluna que a laparoscopia enxerga, e por isso a que aparece inflada nas casuísticas cirúrgicas: dois terços dos achados operatórios contra um quinto das causas na população.

Quarto — aparelho musculoesquelético, sem número no quadro

A lista vem completa — síndromes miofasciais, espasmo do assoalho pélvico, inadequação postural, fibromialgia, síndrome do piriforme, hérnia de disco, neuralgias ilioinguinal, ílio-hipogástrica e genitofemoral — e a porcentagem não vem. Por subtração das três anteriores, o resto é doze por cento. É a coluna que o resumo do mesmo artigo manda excluir antes de indicar laparoscopia, e a que o editorial de 2009 acusa de estar por trás das mulheres já operadas duas e três vezes sem melhora. O sinal de exame que a identifica é a dor de parede que aumenta quando a paciente contrai a musculatura abdominal.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Quantos meses de dor fazem o diagnóstico — e a bexiga tem relógio próprio

Pelo menos seis meses, com o piso incluído

A revisão brasileira define dor pélvica crônica como dor pélvica não menstrual ou não cíclica, com duração de pelo menos seis meses, suficientemente intensa para interferir em atividades habituais e que necessita de tratamento clínico ou cirúrgico. O estudo qualitativo de 2024 repete a mesma redação: dor na região da pelve que persiste por pelo menos seis meses, sendo intensa e angustiante, podendo ser intermitente, recorrente e não cíclica.

Nogueira, Reis e Poli Neto, 2006, introdução; Jesus e cols., 2024, introdução

Mais de seis meses, com o piso excluído — e nada entre três e seis

O fluxograma federal bifurca a mulher com dor no andar inferior do abdome em dois ramos rotulados por duração: menor que três meses para o ramo agudo e maior que seis meses para o ramo crônico. O intervalo entre três e seis meses não recebe ramo, e o sinal de maior estrito deixa de fora a mulher com exatamente seis meses de dor — que é o piso que o próprio documento cita como referência.

Ministério da Saúde e Instituto Sírio-Libanês, 2016, Fluxograma 10

Seis semanas, quando a dor é da bexiga

A síndrome dolorosa vesical é definida por sensação desagradável percebida na bexiga, associada a sintomas urinários como aumento da frequência, urgência e noctúria, há mais de seis semanas, na ausência de infecção ou de outras causas identificáveis. É um diagnóstico que fecha em seis semanas e que o fluxograma federal lista dentro do ramo de mais de seis meses.

Protocolo Febrasgo de Ginecologia n. 47, 2025, introdução

Na prova

Trate seis meses ou mais de dor não cíclica com impacto funcional como critério fechado, e leia com atenção quando o enunciado der um número entre três e seis: ali o avaliador está testando se você sabe que o fluxograma federal não cobre esse intervalo, e a alternativa esperada é a que continua investigando, não a que rotula nem a que encaminha para cirurgia. Se a vinheta for de sintoma vesical com urocultura negativa, o prazo que vale é o de seis semanas, e a duração menor não afasta o diagnóstico.

Qual é a prevalência, e sobre qual população

3,8 por cento, dos quinze aos setenta e três anos

A prevalência estimada é de 3,8 por cento em mulheres de 15 a 73 anos, superior à da enxaqueca, da asma e da dor nas costas. O mesmo parágrafo acrescenta que a prevalência varia de 14 a 24 por cento em mulheres na idade reprodutiva, sem sinalizar que o denominador mudou entre uma frase e a seguinte.

Nogueira, Reis e Poli Neto, 2006, introdução

11,5 a 19 por cento, no Brasil

A dor pélvica crônica é mais comum em mulheres e, no Brasil, a prevalência em mulheres varia de 11,5 a 19 por cento. A faixa brasileira se sobrepõe apenas parcialmente à faixa de idade reprodutiva da revisão anterior: a interseção é de 14 a 19 por cento, e cada uma das duas tem um trecho que a outra não cobre.

Jesus e cols., 2024, introdução

Na prova

Antes de comparar dois percentuais de prevalência, verifique a faixa etária do denominador: a alternativa que parece contraditória costuma estar apenas medindo outra população. Em vinheta de ambulatório de ginecologia, a ordem de grandeza esperada é a da idade reprodutiva, não a da faixa ampla; e a afirmação de que a doença é rara é sempre distrator, porque as três faixas publicadas a colocam acima da enxaqueca e da asma.

Laparoscopia diagnóstica: exame que responde ou exame que resolve

Indicada, e em minoria bem delimitada

A laparoscopia é listada como segunda linha, quando as outras intervenções terapêuticas falharam, e está indicada em cerca de 18 por cento das pacientes com dor pélvica crônica. O mesmo quadro registra que as casuístias operatórias devolvem um terço com pelve normal, um terço com endometriose e um terço com aderências pélvicas.

Ministério da Saúde e Instituto Sírio-Libanês, 2016, Quadro 10

Generalizá-la aumenta custo e morbidade sem mudar qualidade de vida

A busca por diagnóstico específico exigiria indicação de laparoscopia em todas essas mulheres, aumentando custo e morbidade, sem influenciar na qualidade de vida das pacientes. O principal diagnóstico orgânico comprovadamente relacionado, a endometriose, aparece em cerca de um terço delas e já é contemplado pelo tratamento quando se induz amenorreia medicamentosa.

Jesus e cols., 2024, introdução

Só depois de excluir o que a laparoscopia não vê

Procedimentos cirúrgicos específicos, tais como a laparoscopia, deveriam ser indicados somente para pacientes selecionadas, após excluir principalmente síndrome do intestino irritável e dor de origem miofascial. As duas exclusões nomeadas estão em sistemas que a óptica não alcança.

Nogueira, Reis e Poli Neto, 2006, resumo

Na prova

Não marque laparoscopia como próximo passo em vinheta de dor pélvica crônica ambulatorial, por mais que a mulher já tenha feito exames de imagem normais. Ela é segunda linha declarada, entra depois da falha das outras intervenções, e o enunciado precisa dizer que houve essa falha. Quando duas alternativas mandam investigar e uma delas acrescenta operar sem justificar, a que não opera é a esperada.

Fortalecer o assoalho pélvico: primeira linha ou conduta a evitar

Primeira linha nas duas formas de incontinência, sem contraindicação

O treinamento dos músculos do assoalho pélvico é primeira linha tanto na incontinência de esforço quanto na de urgência, não tem contraindicação nem efeito colateral na mulher, e o resultado depende da continuidade dos exercícios. A afirmação é feita para o assoalho deficiente, que é o mecanismo da perda urinária.

Protocolo brasileiro de incontinência urinária, conforme o capítulo de uroginecologia desta coleção

A evitar na síndrome dolorosa vesical

Fisioterapia pélvica é indicada para as pacientes que apresentam pontos sensíveis ou pontos-gatilho no assoalho pélvico, e exercícios de fortalecimento do tipo Kegel devem ser evitados. A recomendação é feita para o assoalho hipertônico, em que a contração repetida realimenta o ciclo de espasmo e dor.

Protocolo Febrasgo de Ginecologia n. 47, 2025, tratamento comportamental e não farmacológico

Na prova

Leia o mecanismo antes de escolher a fisioterapia. Se a vinheta descreve perda de urina ao esforço ou urgência, a alternativa esperada é treinamento dos músculos do assoalho pélvico. Se descreve dor pélvica com pontos-gatilho, assoalho hipertônico ou dor que piora à contração da parede, a alternativa esperada é relaxamento e liberação miofascial, e a que prescreve exercício de fortalecimento é o distrator.

Até onde titular a amitriptilina, e qual noretisterona prescrever

Teto de cinquenta, na atenção básica

Entre os antidepressivos tricíclicos, amitriptilina de 25 a 50 miligramas por noite, quando se identifica componente emocional ou conflituoso, ou quando não há causa aparente, evitando-se em pacientes com sobrepeso e obstipação crônica relevante. O mesmo quadro reserva anticonvulsivantes e opioides para os casos refratários às condutas anteriores.

Ministério da Saúde e Instituto Sírio-Libanês, 2016, Quadro 10

Teto de setenta e cinco, no serviço que assume a doença vesical

Inicia-se com a dose de 25 miligramas ao deitar-se, aumentando semanalmente, se necessário, para 50 e, no máximo, 75 miligramas, com resultados avaliados após pelo menos um mês. Um ensaio randomizado, duplo-cego e controlado por placebo mostrou maior efetividade na dose de 50 miligramas, com efeitos colaterais limitando o uso.

Protocolo Febrasgo de Ginecologia n. 47, 2025, terapia oral

Dez miligramas no documento federal, e um terço de miligrama na cópia estadual

Para supressão menstrual na dor de endometriose, o documento federal prescreve noretisterona oral de 10 miligramas por dia em uso contínuo. A adaptação estadual, que se declara adaptada desse mesmo documento e reproduz os demais números do quadro, escreve noretisterona 0,35 miligrama em uso contínuo — a dose da minipílula contraceptiva, vinte e oito vezes menor.

Ministério da Saúde e Instituto Sírio-Libanês, 2016, Quadro 9; Secretaria de Estado de Saúde do Distrito Federal, 2021, item 9A

Na prova

Escolha o teto pelo cenário: vinheta de unidade básica com dor pélvica crônica sem diagnóstico fechado pede o teto de cinquenta miligramas; vinheta de síndrome dolorosa vesical já rotulada e em titulação pede o teto de setenta e cinco. E desconfie de alternativa que traga noretisterona em dose de minipílula para suprimir menstruação: a dose de supressão do protocolo federal é uma ordem de grandeza maior.

06

Caso resolvido

Mulher de 38 anos, auxiliar de limpeza, comparece à unidade básica encaminhada pela terceira vez em dois anos por dor no baixo ventre. Refere dor em peso no hipogástrio há cerca de dez meses, presente na maior parte dos dias, sem relação clara com a menstruação, que piora ao fim do expediente e melhora quando ela se deita. Refere também urgência miccional e necessidade de urinar várias vezes ao dia e duas a três vezes à noite, com alívio da dor logo depois de urinar. Já usou três esquemas de antibiótico para infecção urinária nos últimos oito meses; traz duas uroculturas anteriores negativas. Ciclos regulares de vinte e oito dias, fluxo habitual, dismenorreia leve que cede com analgésico comum. G2P2, duas cesarianas. Ultrassonografia transvaginal de quatro meses atrás sem alterações. Ao exame, abdome flácido, dor à palpação de um ponto fixo em fossa ilíaca direita, próximo à cicatriz de Pfannenstiel; ao toque, colo sem dor à mobilização, anexos livres, útero de volume e consistência normais, e dor à palpação da parede vesical anterior.
primeiro, feche o rótulo pela régua do tempo e do ritmo
Dez meses de duração, dor não cíclica, presente na maior parte dos dias e com impacto sobre a jornada de trabalho. Os três elementos da definição estão no enunciado: pelo menos seis meses, não menstrual e intensa o bastante para interferir nas atividades habituais. O rótulo de dor pélvica crônica está fechado antes de qualquer exame, e o caso já entrou, pela duração, no ramo crônico do fluxograma federal.
segundo, retire da mesa o que a vinheta já afastou
Ciclos regulares, fluxo habitual e dismenorreia leve que cede com analgésico comum afastam o quadro de sangramento uterino anormal com dismenorreia progressiva que caracterizaria adenomiose. Útero de volume e consistência normais reforça. Colo sem dor à mobilização e anexos livres afastam o quadro agudo de doença inflamatória pélvica. A ultrassonografia normal não afasta nada, e não deve ser lida como se afastasse.
terceiro, leia o motivo pelo qual ela urina
A paciente urina com frequência e a dor alivia depois da micção. Esse é o discriminador impresso no protocolo de sociedade: na bexiga hiperativa a mulher urina para evitar perder urina; na síndrome dolorosa vesical ela urina para aliviar a dor. Somem-se as duas uroculturas negativas e os três cursos de antibiótico sem resolução, e o critério da síndrome dolorosa vesical está preenchido — inclusive o de tempo, que exige apenas seis semanas.
quarto, examine a parede antes de concluir que a dor é de dentro
Existe um ponto fixo e doloroso na parede abdominal, junto de uma cicatriz de Pfannenstiel, em mulher com duas cesarianas. A manobra que decide é pedir que ela contraia a musculatura abdominal e repalpar o ponto: se a dor aumenta com a contração, a origem é de parede; se diminui, é visceral. Duas séries citadas no editorial brasileiro apontam a cesariana e a incisão de Pfannenstiel como fontes de dor crônica.
quinto, aceite que há mais de uma causa e não escolha uma só
O caso tem componente vesical e componente miofascial de parede, e a coexistência é a regra, não a exceção. O editorial de 2009 registra que a interação e a sobreposição entre dor miofascial e os achados clássicos de intestino irritável e de síndrome dolorosa vesical são muito frequentes, e que trinta a cinquenta por cento das mulheres com dor pélvica crônica têm comprometimento vesical. Fechar um único diagnóstico aqui é o erro.
sexto, investigue o que o quadro de considerações gerais manda investigar
Antes de prescrever, o protocolo federal pede busca ativa de violência doméstica, intrafamiliar e sexual, de vida sexual insatisfatória, de conflitos com familiares ou parceiro, de vulnerabilidade social e econômica, e de traumas familiares. Pede também rastreio de ansiedade e depressão, e a série brasileira de cinquenta mulheres justifica: cinquenta e oito por cento tinham sintomas depressivos ao inventário de Beck, com escore médio de dezessete vírgula quatro.
sétimo, trate as duas frentes com o que a rede tem
Para a bexiga: orientação comportamental, evitar cafeína, cítricos, condimentos e bebidas gaseificadas, treinamento vesical, e ajuste de líquidos conforme o mecanismo relatado — restringir se a dor piora ao encher, aumentar se piora com urina concentrada. Para a parede: fisioterapia dirigida a ponto-gatilho, com relaxamento e não com exercício de fortalecimento. Amitriptilina à noite atende as duas frentes; na unidade básica, de vinte e cinco a cinquenta miligramas.
oitavo, decida quando encaminhar e o que não fazer agora
Não há indicação de laparoscopia neste momento: ela é segunda linha, depende de falha das intervenções clínicas e alcança cerca de dezoito por cento das doentes. Também não há indicação de novo antibiótico, com duas uroculturas negativas. O encaminhamento se justifica se a dor vesical não responder ao manejo conservador, para o serviço que titula a amitriptilina até setenta e cinco miligramas e discute cistoscopia para excluir doença intravesical ou buscar lesão de Hunner.
07

Agora feche você

Mulher de 44 anos, dois partos vaginais, procura o ambulatório de ginecologia com queixa de menstruações muito volumosas há cerca de um ano e meio, com coágulos e troca frequente de absorvente, associadas a cólica menstrual de intensidade crescente que hoje a impede de trabalhar em dois ou três dias de cada ciclo. Refere ainda, nos últimos meses, desconforto pélvico em outros dias do mês, de menor intensidade, e dor durante a relação sexual. Nega sintomas urinários e nega alteração do hábito intestinal. Ao exame, útero aumentado de volume de forma difusa, de contorno regular, amolecido e doloroso à mobilização; anexos livres. Hemoglobina de 9,8 gramas por decilitro. Ultrassonografia transvaginal descreve útero aumentado, com heterogeneidade difusa do miométrio, assimetria entre as paredes anterior e posterior e pequenos cistos anecoicos miometriais, sem nódulos miomatosos.
Passo 1
Qual é o diagnóstico mais provável e quais três dados do exame físico e da ultrassonografia o sustentam? Explique por que o quadro não é de miomatose uterina, citando o achado que separa as duas.
Passo 2
Esta paciente preenche o critério de dor pélvica crônica? Responda usando os três elementos da definição e diga qual deles é o que gera dúvida neste caso.
Passo 3
Se a ressonância for solicitada, que espessura de zona juncional fecharia o diagnóstico e qual faixa apenas o sugere? Diga também por que a mesma medida perde acurácia conforme a idade e o momento do ciclo.
Passo 4
Compare esta paciente com a mulher do caso resolvido em três eixos: ritmo da dor em relação ao ciclo, aparelho envolvido e primeira linha de tratamento. Explique por que a mesma classe de fármaco não serve às duas.
Passo 5
A paciente diz que não pretende engravidar, mas recusa cirurgia. Que opções de tratamento clínico o protocolo de sociedade lista, e qual delas tem o melhor perfil para quem quer preservar o útero? Justifique citando o efeito adverso inicial esperado e quanto tempo ele costuma durar.
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Onde a banca derruba

  1. 1Procurar o nome da doença no enunciado antes de raciocinar No acervo de questões de prova, as causas órfãs deste tema aparecem quase exclusivamente na alternativa e quase nunca no enunciado: adenomiose, síndrome da congestão pélvica, síndrome da bexiga dolorosa e síndrome de Fitz-Hugh-Curtis chegam nomeadas como opção de resposta, enquanto a vinheta entrega só a cena. Quem espera ler o nome para começar a pensar chega à lista sem hipótese e escolhe pelo termo que soa familiar. O caminho correto é fechar o padrão pela clínica — duração, ritmo, aparelho, o que piora e o que alivia — e só então procurar o nome entre as alternativas.
  2. 2Indicar laparoscopia porque os exames de imagem vieram normais Imagem normal em dor pélvica crônica não é indicação de cirurgia, é resultado esperado na maioria. A laparoscopia é segunda linha declarada, entra depois da falha das intervenções clínicas, e cobre cerca de dezoito por cento das doentes. Um terço das que operam tem pelve normal, e nos outros dois terços o próprio documento federal registra que a cirurgia não resolve sozinha o achado. Vinheta ambulatorial sem relato de falha terapêutica prévia não autoriza a alternativa cirúrgica.
  3. 3Exigir seis meses para diagnosticar síndrome dolorosa vesical O prazo de seis meses é da dor pélvica crônica; o da bexiga é de seis semanas. A mulher com dois ou três meses de dor vesical que piora ao encher e alivia ao urinar, com urocultura negativa, já preenche o critério da sociedade — e a alternativa que adia o diagnóstico esperando completar meio ano está errada por régua, não por clínica. O fluxograma federal lista a bexiga dolorosa dentro do ramo crônico, o que reforça o engano em quem lê só o fluxograma.
  4. 4Prescrever exercício de fortalecimento do assoalho para toda queixa pélvica O treinamento dos músculos do assoalho pélvico é primeira linha na incontinência urinária e é conduta a evitar na síndrome dolorosa vesical, porque o mecanismo é oposto: ali o assoalho está fraco, aqui está hipertônico e com pontos-gatilho. A mesma lógica vale para a dor miofascial de assoalho. A conduta correta nesses casos é relaxamento, alongamento e liberação, com fisioterapia dirigida a ponto-gatilho.
  5. 5Ler a incidência de adenomiose como se fosse prevalência na população A faixa de um a setenta por cento e a média de vinte a trinta por cento são medidas em espécimes de histerectomia, isto é, em úteros que já foram retirados por alguma indicação. Transportar esses números para a mulher do ambulatório é trocar o denominador sem avisar. O mesmo protocolo declara que a incidência real permanece desconhecida, e que a variação vem da ausência de padronização dos critérios diagnósticos histológicos.
  6. 6Tratar o útero aumentado como sinônimo de mioma Mioma dá útero aumentado e nodular, com contorno irregular; adenomiose dá útero globalmente aumentado, de contorno regular, amolecido e doloroso à mobilização, geralmente em mulher acima dos trinta e cinco a quarenta anos com sangramento volumoso progressivo e dismenorreia importante. A consistência e a regularidade do contorno são o dado que separa os dois no exame físico, e é justamente esse dado que a vinheta imprime quando a resposta é adenomiose.
  7. 7Somar as três porcentagens do quadro de causas e achar que dão cem Digestivo trinta e sete, urinário trinta e um e genital vinte somam oitenta e oito. O quarto aparelho, o musculoesquelético, entra no quadro com a lista completa de diagnósticos e sem porcentagem. O resto, doze por cento, é implícito. Quem trata a soma como completa conclui que o aparelho genital responde por um quinto de um universo fechado, quando na verdade a coluna que falta é justamente a que o resumo do artigo manda excluir antes de operar.
  8. 8Ignorar violência e sofrimento psíquico porque a queixa é orgânica O quadro de considerações gerais do protocolo federal abre pedindo atenção a violência doméstica, intrafamiliar e sexual, que podem ser crônicas e estar camufladas, a vida sexual insatisfatória, a conflitos familiares, a vulnerabilidade social e a traumas — antes de qualquer fármaco. A série brasileira de cinquenta mulheres encontrou sintomas depressivos em cinquenta e oito por cento, e o estudo qualitativo identificou melhora emocional e resolução de conflitos entre os fatores associados à alta ambulatorial. Não é conteúdo acessório do tema: é o primeiro item do quadro.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Correta: dor pélvica não cíclica, em peso, agravada por ortostatismo e coito e aliviada pelo decúbito, em multípara, com varizes vulvares/de coxa e veias parauterinas dilatadas com refluxo ao Doppler, define a síndrome da congestão pélvica (insuficiência venosa pélvica). Endometrioma dá dor tipicamente cíclica e cisto anexial de conteúdo em vidro fosco à USG, ausente aqui. Mioma cursaria com útero aumentado/nódulos miometriais e sangramento aumentado, e o útero é normal. Torção anexial é dor aguda/intensa com náuseas e massa anexial dolorosa, incompatível com quadro arrastado de 2 anos. Aderências relacionam-se a antecedente cirúrgico e dor não têm o padrão postural venoso nem o achado Doppler descrito.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Sem consultar nada, escreva: (1) os três elementos da definição de dor pélvica crônica e o número de meses, dizendo se o piso é inclusivo; (2) os quatro aparelhos do quadro de causas, com as três porcentagens impressas e o valor que sobra para o quarto; (3) a frase que separa síndrome dolorosa vesical de bexiga hiperativa pelo motivo da micção; (4) por que treinamento do assoalho pélvico é primeira linha em uma síndrome e conduta a evitar na outra; e (5) os três terços da casuística de laparoscopia, com o comentário que o documento federal faz sobre cada um deles.

em 30 dias

Pegue a paciente do caso resolvido — 38 anos, dez meses de dor em peso no hipogástrio, urgência e noctúria com alívio ao urinar, duas uroculturas negativas, ponto doloroso fixo junto a cicatriz de Pfannenstiel — e reescreva o raciocínio em oito linhas, sem consultar o capítulo. Depois altere um dado de cada vez e diga o que muda na conduta: (a) a duração passa a ser de quatro meses; (b) as uroculturas passam a ser positivas; (c) a dor no ponto de parede diminui, em vez de aumentar, quando ela contrai a musculatura abdominal; (d) o exame passa a mostrar útero globoso, amolecido e doloroso, com sangramento volumoso progressivo. Ao final, escreva de memória os dois tetos de amitriptilina e a que cenário cada um pertence.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Você está no ambulatório de ginecologia de uma unidade do Sistema Único de Saúde que tem ultrassonografia transvaginal, laboratório e acesso a fisioterapia pélvica, com encaminhamento possível para serviço de referência. A paciente já passou por outros dois profissionais pela mesma queixa e chega desconfiada de que vão dizer de novo que não tem nada. Conduza a consulta inteira: caracterize a dor pelo tempo, pelo ritmo e pelo que a piora e a alivia; percorra os quatro aparelhos, não só o genital; faça o exame físico incluindo a parede abdominal e a manobra de contração; investigue os fatores que o quadro de considerações gerais manda procurar antes de qualquer receita; e feche com um plano que ela entenda, dizendo o que você não vai pedir e por quê. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Dor pélvica crônica: quatro aparelhos, três relógios e a laparoscopia que responde sem mudar nada — Preparatório para provas | OsceLabs