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Sangramento uterino anormal e PALM-COEIN

A prova dá uma vinheta e pede a letra: classificar a causa pelo PALM-COEIN, reconhecer o sangramento fora dos parâmetros FIGO e conduzir o episódio agudo e o crônico — com dose, indicação de biópsia e escolha de manutenção.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Mulher de 48 anos procura a UBS com sangramento uterino anormal: ciclos irregulares há 6 meses e um episódio de sangramento após 4 meses de amenorreia. Exame especular sem lesões, útero de tamanho normal. Qual o próximo passo mais adequado na investigação?

02

Como esse tema cai

Sangramento uterino anormal (sua) é queixa de até um terço das consultas ginecológicas e caiu no vestibular da residência de um jeito muito específico: a banca descreve uma mulher que sangra, espalha pistas na vinheta — idade, padrão do ciclo, comorbidades, medicações, achado de ultrassom — e pede que você devolva uma letra do acrônimo PALM-COEIN. Quem decorou só a expansão do acrônimo erra, porque a questão não pergunta o que significa a sigla: pergunta qual categoria explica aquela paciente.

O segundo movimento cobrado é o vocabulário do Sistema FIGO 1: saber que menstruação normal vem a cada 24 a 38 dias, dura até 8 dias, varia até 7 a 9 dias entre o ciclo mais curto e o mais longo do ano, e que volume anormal é definido pela percepção da paciente — não por medida de laboratório. Termos consagrados como menorragia, metrorragia e 'sangramento uterino disfuncional' foram oficialmente aposentados pela FIGO, e as provas mais novas seguem a nomenclatura atual: sua como sintoma, sangramento menstrual volumoso (SMV) para o excesso de volume.

Por fim, a conduta — em dois tempos que a prova adora contrastar. No episódio agudo: estabilizar, excluir gestação e parar o sangramento com medicação (ácido tranexâmico, anticoncepcional combinado em dose de ataque ou progestagênio em dose alta), reservando cirurgia para a falha ou a instabilidade. No crônico: tratar a causa estrutural quando houver, e escolher a manutenção pela eficácia e pelo desejo reprodutivo — com o SIU de levonorgestrel no topo da lista. Doses, cortes de idade para biópsia endometrial e percentuais de redução do sangramento são exatamente o tipo de número que vira alternativa.

03

O que muda decisão

O vocabulário FIGO: o que é sangrar normal

Antes de classificar o anormal, a FIGO padronizou o normal — é o chamado Sistema 1. Menstruação normal tem frequência de 24 a 38 dias (do primeiro dia de um ciclo ao primeiro dia do seguinte), duração de até 8 dias, regularidade com variação de no máximo 7 a 9 dias entre o ciclo mais curto e o mais longo observados em 12 meses, e volume que a própria paciente percebe como normal. Sangramento intermenstrual — entre menstruações definidas — não existe no padrão normal: quando presente, é anormal, seja cíclico (previsível, por exemplo periovulatório) ou aleatório.

Repare no critério de volume: é subjetivo por definição. O corte clássico de 80 mL por ciclo existe e aparece em livro, mas é ferramenta de pesquisa — ninguém mede perda menstrual em mililitros no consultório. Na prática e na prova, sangramento menstrual volumoso (SMV) é aquele que a mulher refere como excessivo, tipicamente interferindo na vida física e social. Isso importa porque valida a queixa como critério suficiente para investigar e tratar.

O sua ainda se divide no tempo: crônico, quando presente na maior parte dos últimos 6 meses, e agudo, quando o episódio de sangramento é volumoso a ponto de exigir intervenção imediata para evitar perda sanguínea maior e instabilidade hemodinâmica — definição do protocolo da FEBRASGO. O agudo pode ser um evento isolado ou a agudização de um sua crônico. Essa divisão organiza a conduta: o agudo se trata antes de se explicar; o crônico se explica antes de se tratar.

A mesma revisão da FIGO aposentou a terminologia antiga: menorragia, hipermenorreia, metrorragia e 'sangramento uterino disfuncional' saíram do vocabulário oficial por serem usados de forma inconsistente. Hoje se descreve o sintoma (sua, SMV, sangramento intermenstrual) e se acrescenta a causa pela classificação etiológica — o Sistema 2, o PALM-COEIN.

PALM: as quatro causas estruturais

O acrônimo PALM-COEIN (FIGO, 2011, revisado em 2018) separa as causas em dois blocos: PALM, as estruturais — visíveis por imagem ou histologia — e COEIN, as não estruturais. A notação admite mais de uma categoria na mesma paciente (uma mulher pode ter mioma E disfunção ovulatória), e admite também o achado estrutural que não explica o sangramento — armadilha clássica que veremos adiante.

P de pólipo: proliferação epitelial endometrial ou endocervical, em geral benigna, que costuma se manifestar como sangramento intermenstrual ou de escape em ciclos regulares. O ultrassom levanta a suspeita; a histeroscopia confirma e já resolve com polipectomia.

A de adenomiose: glândulas e estroma endometriais dentro do miométrio. Pense nela na mulher acima dos 35-40 anos com SMV progressivo, dismenorreia importante e útero globalmente aumentado, amolecido e doloroso. O diagnóstico definitivo é histológico, mas a imagem (ultrassom transvaginal e, quando disponível, ressonância) assumiu o papel diagnóstico prático — espessamento assimétrico do miométrio, cistos miometriais, zona juncional borrada.

L de leiomioma: a causa estrutural mais prevalente. A FIGO subclassifica o mioma pela relação com a cavidade endometrial em tipos 0 a 8, e essa subclassificação despenca em prova: tipos 0 a 2 são submucosos (0 = totalmente intracavitário e pediculado; 1 = menos de 50% intramural; 2 = 50% ou mais intramural), o tipo 3 toca o endométrio mas é 100% intramural, o 4 é intramural puro, os tipos 5 a 7 são subserosos (7 = subseroso pediculado) e o 8 reúne os outros (cervical, parasita). Quem sangra são sobretudo os submucosos, que distorcem a cavidade — e são exatamente os candidatos à ressecção histeroscópica. Miomas híbridos recebem notação dupla (ex.: 2-5, atravessando da mucosa à serosa).

M de malignidade e hiperplasia: a categoria que não pode escapar. Hiperplasia e carcinoma de endométrio entram aqui, e a vinheta típica combina sua com os fatores de risco de estímulo estrogênico sem oposição — obesidade, anovulação crônica, diabetes, menopausa tardia, tamoxifeno, história familiar. É essa categoria que justifica a regra de biópsia endometrial que a prova cobra em número: no protocolo da FEBRASGO, amostrar o endométrio da mulher com sua acima dos 40 anos ou, em qualquer idade, com fatores de risco ou falha de tratamento.

Corte frontal do útero mostrando pólipo endometrial, adenomiose na parede posterior, miomas submucoso, intramural e subseroso, e área de endométrio espessado irregular.
As causas estruturais do PALM num único útero: pólipo pediculado na cavidade, adenomiose espessando a parede, miomas em três posições (submucoso, intramural e subseroso) e endométrio focalmente espessado — a suspeita de hiperplasia/malignidade.

COEIN: as causas não estruturais

C de coagulopatia: presente em 10% a 34% das mulheres com sangramento menstrual volumoso desde a menarca, sendo a doença de von Willebrand a mais comum. A prova cobra o gatilho de suspeição por história estruturada: SMV desde a menarca, hemorragia pós-parto, sangramento excessivo em cirurgia ou procedimento dentário, e sintomas hemorrágicos recorrentes (equimoses fáceis, epistaxes, gengivorragia) ou história familiar de sangramento. Rastreio positivo indica coagulograma e investigação dirigida — incluindo o estudo de von Willebrand — de preferência com avaliação hematológica conjunta. Na adolescente, é o diagnóstico a perseguir antes de atribuir tudo ao eixo imaturo.

O de disfunção ovulatória: a grande causa dos extremos reprodutivos — os primeiros anos pós-menarca, pela imaturidade do eixo hipotálamo-hipófise-ovário, e a transição menopausal. Fora dos extremos, pense em síndrome dos ovários policísticos, hipotireoidismo, hiperprolactinemia, estresse e variação ponderal importante. O padrão é o ciclo imprevisível: intervalos irregulares, meses sem menstruar e depois um sangramento volumoso e prolongado, porque o endométrio proliferou semanas sob estrogênio sem a oposição da progesterona que só o corpo lúteo daria. Desde 2022 a FIGO tem uma classificação própria para localizar a disfunção ovulatória (sistema HyPO-P: hipotálamo, hipófise, ovário, e a SOP como categoria à parte).

E de causa endometrial: o distúrbio primário da hemostasia local do endométrio — vasoconstrição deficiente, excesso de fibrinólise local. É diagnóstico de exclusão: mulher com SMV, ciclos regulares e ovulatórios, útero estruturalmente normal e coagulação sistêmica normal. Não há teste confirmatório de uso clínico; a categoria existe para nomear o SMV ovulatório sem outra explicação.

I de iatrogênica: sangramento atribuível a intervenção — o escape (spotting ou sangramento de disrupção) dos primeiros meses de anticoncepcional, sobretudo nos regimes contínuos e nos progestagênios isolados (implante, injetável, SIU); o DIU de cobre aumentando volume e cólica; anticoagulantes; e fármacos que perturbam a ovulação, como antipsicóticos e anticonvulsivantes. Na usuária de método hormonal que sangra, a conduta é primeiro perguntar por adesão, interações e tabagismo e tranquilizar nos primeiros 3 a 6 meses — não suspender o método de imediato nem sair pedindo histeroscopia.

N de não classificadas: o resto raro mas cobrado — malformação arteriovenosa uterina (sangramento súbito e volumoso, típico pós-curetagem ou pós-cesárea), istmocele (o defeito da cicatriz de cesárea, com sangramento pós-menstrual em borra) e hipertrofia miometrial. A vinheta de sangramento torrencial após curetagem recente é malformação arteriovenosa até prova em contrário — e curetar de novo é a resposta errada: o tratamento é embolização.

Investigação: da queixa à letra

Primeiro passo universal e eliminatório: excluir gestação. Beta-hCG antes de qualquer raciocínio classificatório, em qualquer idade reprodutiva — o PALM-COEIN só se aplica ao sangramento não gestacional. Junto vêm hemograma (anemia é consequência frequente e critério de gravidade), ferritina, e, guiados pela história: coagulograma com estudo dirigido quando o rastreio estruturado de coagulopatia é positivo, TSH e prolactina quando o padrão é anovulatório.

A ferritina merece parágrafo próprio, porque virou recomendação formal da FEBRASGO em 2022: o sua é a principal causa de deficiência de ferro e de anemia ferropriva na menstruante, o corte diagnóstico de deficiência é ferritina abaixo de 30 ng/mL (sensibilidade de 92% e especificidade de 98% fora de inflamação), e deve-se tratar a deficiência mesmo sem anemia — ferro oral como primeira via, endovenoso na falha ou intolerância. Tratar o sangramento e não repor o ferro é tratar metade da doença.

A imagem de primeira linha é o ultrassom transvaginal: separa o PALM do COEIN. Ele é muito sensível para lesão endometrial (96%), mas muito pouco específico (13,8%) — ou seja, um endométrio espessado ou heterogêneo ao ultrassom pede confirmação, não conclusão. A histeroscopia é o padrão para avaliar a cavidade: vê a lesão, permite biópsia guiada (sensibilidade de 94,4%) e trata pólipo e mioma submucoso no mesmo tempo. A histerossonografia é alternativa boa para cavidade, mas de disponibilidade limitada no Brasil.

A biópsia endometrial (por Pipelle, cureta de Novak, histeroscopia ou curetagem) não é para todas: é para quem tem risco de hiperplasia e câncer. No protocolo da FEBRASGO: idade acima de 40 anos, anovulação crônica, obesidade, diabetes, história familiar de câncer de endométrio, exposição a estrogênio sem oposição, uso de tamoxifeno — ou sua persistente apesar do tratamento, em qualquer idade. Guarde o número 40 com a fonte: é o corte do documento brasileiro, e há divergência internacional relevante (ver bloco de divergências).

SUA agudo: parar o sangramento

A cena é de pronto-socorro: sangramento volumoso em curso. A sequência do protocolo FEBRASGO nº 80/2021 começa pelo básico de qualquer emergência — sinais vitais, mucosas, nível de consciência. Cerca de 35% chegam anêmicas e 13,7% com hemoglobina abaixo de 10 g/dL; instável ou com perda importante: acesso venoso, cristaloide (preferência por Ringer lactato) e hemoderivados se necessário. Em paralelo: excluir gestação, história dirigida (padrão do ciclo, medicações — anticoagulante, hormônio, psicofármaco —, sintomas hemorrágicos) e exame especular, que quantifica o sangramento e afasta causa vaginal, cervical e mioma parido.

Controlada a cena, o sangramento se para com remédio — o tratamento de primeira linha do sua agudo é farmacológico, e cirurgia é exceção. No braço não hormonal: ácido tranexâmico, oral (1,5 a 4 g/dia, na prática 500 mg a 1 g de 8/8 horas por 3 a 5 dias) ou endovenoso (10 mg/kg de 8/8 horas, por 3 a 5 dias) — reduz a perda em um quarto a metade e pode ser associado ao tratamento hormonal; contraindicação relevante é a doença tromboembólica ativa. AINEs (ácido mefenâmico 500 mg de 8/8 ou 12/12 horas, ibuprofeno 800 mg de 8/8 horas) ajudam menos e funcionam melhor como coadjuvantes.

No braço hormonal — a primeira linha propriamente dita: anticoncepcional oral combinado monofásico com 30 µg de etinilestradiol, 1 comprimido de 6/6 a 8/8 horas até parar o sangramento (manter ao menos 2 dias), com desmame progressivo ou manutenção de 1 comprimido/dia por 3 a 6 semanas; reavaliar a resposta em 48 a 72 horas e antiemético liberado, porque náusea é o efeito colateral que derruba a adesão. Com contraindicação a estrogênio, progestagênio isolado em dose alta: noretisterona 5 a 15 mg/dia (ou 5 a 10 mg de 4/4 horas) ou acetato de medroxiprogesterona 60 a 120 mg/dia até cessar, ambos seguidos de manutenção por 3 a 6 semanas. O clássico internacional — estrogênio conjugado endovenoso 25 mg de 4/6 em 6 horas — não está disponível no Brasil; na doença de von Willebrand, a desmopressina é recurso específico.

Falhou a medicação, há instabilidade ou causa estrutural sangrando ativamente? Aí entra a escada invasiva: tamponamento intrauterino com sonda Foley nº 26 insuflada com 30 mL (mantida de 2 a 48 horas — ponte barata e eficaz, especialmente na adolescente com coagulopatia), curetagem ou, de preferência, histeroscopia (a curetagem é às cegas e pode não tratar a lesão focal), ablação endometrial, embolização de artérias uterinas (a escolha na malformação arteriovenosa) e, como última opção, histerectomia. Depois do controle, transicionar para manutenção — se a reavaliação ambulatorial não for próxima, manter a medicação por 3 ciclos para evitar recidiva.

SUA crônico: tratar a causa e escolher a manutenção

Com a etiologia definida, o tratamento do crônico segue duas trilhas. Causa estrutural: trata-se a estrutura — polipectomia histeroscópica para o pólipo; ressecção histeroscópica para o mioma submucoso (tipos 0 a 2); as demais apresentações de mioma e a adenomiose têm capítulos próprios de decisão entre tratamento hormonal, cirurgia conservadora e histerectomia; hiperplasia e câncer seguem seus protocolos específicos. Causa não estrutural (ou estrutural sem indicação cirúrgica): tratamento clínico, escolhido por eficácia, contracepção desejada e contraindicações.

A régua de eficácia que a prova cobra, nas faixas dos documentos da FEBRASGO: o SIU de levonorgestrel reduz o sangramento em 71% a 95% — é o tratamento clínico mais eficaz, e o NICE o coloca formalmente como primeira escolha no SMV sem patologia estrutural; progestagênio oral contínuo reduz até 87%; anticoncepcional combinado, 35% a 69%; ácido tranexâmico (usado só nos dias de fluxo), 26% a 54%; AINEs, 10% a 52%. Análogos do GnRH induzem amenorreia com eficácia alta, mas os efeitos hipoestrogênicos os reservam a situações específicas e uso limitado no tempo, tipicamente como ponte para cirurgia. Progestagênio cíclico só na fase lútea é esquema fraco e não deve ser oferecido como tratamento de SMV.

Quando o tratamento clínico falha ou não interessa e a prole está constituída, as opções definitivas: ablação endometrial (amenorreia em 40% a 50% em 1 ano; exige contracepção mantida e endométrio sem suspeita) e histerectomia — a única garantia de resolução, ao custo de cirurgia maior. A sequência esperada em prova é sempre a mesma: clínico eficaz primeiro, cirurgia conservadora quando a estrutura pede, histerectomia por último.

Feche o raciocínio com o ferro: reavaliar hemograma e ferritina após o controle do sangramento e repor até normalizar os estoques. E lembre o registro na classificação: a paciente sai da consulta com um rótulo completo — 'sua-SMV por AUB-L(SM), anemia ferropriva' diz o sintoma, a causa e a consequência em uma linha.

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Os dois sistemas FIGO: parâmetros do normal e PALM-COEIN

A FIGO organizou o SUA em dois sistemas complementares: o Sistema 1 define o que é menstruação normal (e, por exclusão, o que é SUA); o Sistema 2 — o PALM-COEIN — nomeia a causa. A prova cobra os dois: os números do normal e a letra da vinheta.

  1. 1Excluir gestação: beta-hCG antes de qualquer classificação
  2. 2Enquadrar a queixa no Sistema 1: frequência, duração, regularidade, volume, sangramento intermenstrual
  3. 3Definir o tempo: agudo (intervenção imediata) trata-se antes de explicar; crônico (maior parte dos últimos 6 meses) investiga-se antes de tratar
  4. 4Rastrear coagulopatia pela história estruturada e pedir hemograma + ferritina
  5. 5Ultrassom transvaginal: separa causa estrutural (PALM) de não estrutural (COEIN); histeroscopia confirma e trata a cavidade
  6. 6Biópsia endometrial se risco de hiperplasia/malignidade: >40 anos, anovulação crônica, obesidade, diabetes, estrogênio sem oposição, tamoxifeno, história familiar ou falha de tratamento
  7. 7Tratar a causa, escolher manutenção pela eficácia e repor ferro (ferritina <30 ng/mL = deficiência)

Miomas FIGO 0-2 — submucosos: os que sangram

Distorcem a cavidade endometrial: tipo 0 totalmente intracavitário e pediculado; tipo 1 com menos de 50% intramural; tipo 2 com 50% ou mais intramural. São os principais responsáveis por SMV e os candidatos à ressecção histeroscópica.

Miomas FIGO 3-4 — intramurais

Tipo 3 é 100% intramural mas toca o endométrio; tipo 4 fica todo dentro da parede, sem alcançar mucosa nem serosa. Podem contribuir para o sangramento, mas não são alvo de histeroscopia.

Miomas FIGO 5-7 — subserosos: quase nunca explicam o SUA

Deformam o contorno externo do útero (tipo 7 é pediculado para fora). Mulher com SMV e mioma apenas subseroso ao ultrassom NÃO teve a causa encontrada — a investigação continua. Tipo 8 reúne os outros (cervical, parasita); híbridos levam dupla notação, como 2-5.

Parâmetro (Sistema FIGO 1)NormalAnormal
Frequência24 a 38 dias<24 dias = frequente; >38 dias = infrequente; ausente = amenorreia
DuraçãoAté 8 dias>8 dias = prolongado
RegularidadeVariação de até 7 a 9 dias entre o ciclo mais curto e o mais longo em 12 mesesVariação maior = irregular
VolumePercebido como normal pela pacienteSMV: percebido como excessivo (o corte de 80 mL/ciclo é ferramenta de pesquisa, não critério clínico)
Sangramento intermenstrualAusentePresente — cíclico (previsível) ou aleatório

PALM-COEIN: a pista típica de cada letra na vinheta

CategoriaPista clássica da questão
P — PólipoSangramento intermenstrual ou de escape com ciclos regulares; imagem endocavitária focal ao USG
A — Adenomiose>35-40 anos, SMV + dismenorreia progressiva, útero aumentado difusamente, amolecido e doloroso
L — LeiomiomaSMV com útero aumentado e nodular; subclassificar 0-8 — submucoso (0-2) é o que sangra
M — Malignidade e hiperplasiaSUA + obesidade, anovulação crônica, diabetes, tamoxifeno; sempre biopsiar quando há risco
C — CoagulopatiaSMV desde a menarca + epistaxes, equimoses, gengivorragia, sangramento cirúrgico/dentário ou história familiar
O — Disfunção ovulatóriaCiclos imprevisíveis, meses de atraso seguidos de sangramento volumoso; pós-menarca, transição menopausal, SOP, tireoide, prolactina
E — EndometrialSMV com ciclos regulares e ovulatórios, útero e coagulação normais — diagnóstico de exclusão
I — IatrogênicaEscape em usuária de método hormonal (sobretudo progestagênio isolado), DIU de cobre, anticoagulante
N — Não classificadasMalformação arteriovenosa (sangramento torrencial pós-curetagem/cesárea), istmocele (sangramento pós-menstrual em borra)

Tratamento farmacológico do SUA agudo (Protocolo FEBRASGO nº 80/2021)

MedicaçãoAtaqueManutenção / observação
Ácido tranexâmico VO500 mg a 1 g de 8/8 h (1,5 a 4 g/dia), por 3 a 5 diasPode associar-se ao tratamento hormonal; contraindicado na doença tromboembólica ativa
Ácido tranexâmico EV10 mg/kg de 8/8 h, por 3 a 5 diasPreferir EV se internação/instabilidade
ACO monofásico (EE 30 µg + progestagênio)1 comprimido de 6/6 a 8/8 h até parar o sangramento (mínimo 2 dias)Desmame gradual ou 1 cp/dia por 3 a 6 semanas; reavaliar em 48-72 h; náusea é o efeito colateral esperado
Noretisterona5 a 15 mg/dia (ou 5 a 10 mg de 4/4 h) até cessar5 a 10 mg/dia por 3 a 6 semanas; escolha na contraindicação a estrogênio
Acetato de medroxiprogesterona60 a 120 mg/dia VO até cessar (disponibilidade oral limitada no Brasil)20 a 40 mg/dia por 3 a 6 semanas
AINE (coadjuvante)Ácido mefenâmico 500 mg 8/8 ou 12/12 h; ibuprofeno 800 mg 8/8 hMenor eficácia isolado; associar
Balão intrauterino (Foley nº 26, 30 mL)Tamponamento por 2 a 48 hPonte na falha clínica, útil na adolescente com coagulopatia

Eficácia dos tratamentos no SUA crônico (faixas FEBRASGO)

TratamentoRedução do sangramento
SIU de levonorgestrel71% a 95% — o clínico mais eficaz; primeira escolha do NICE no SMV sem lesão estrutural
Progestagênio oral contínuoAté 87% (amenorreia em 10-15% com esquemas orais)
Anticoncepcional combinado35% a 69%
Ácido tranexâmico (nos dias de fluxo)26% a 54%
AINEs10% a 52%
Ablação endometrialAmenorreia em 40% a 50% em 1 ano; exige prole constituída e endométrio sem suspeita

Biópsia endometrial no SUA (FEBRASGO): >40 anos ou, em qualquer idade, anovulação crônica, obesidade, diabetes, estrogênio sem oposição, tamoxifeno, história familiar de câncer de endométrio ou falha de tratamento. O corte etário diverge entre documentos — ver bloco de divergências.

Ultrassom transvaginal para lesão endometrial: sensibilidade 96%, especificidade 13,8% — achado anormal pede confirmação (histeroscopia com biópsia guiada: sensibilidade 94,4%).

Ferritina <30 ng/mL define deficiência de ferro (sensibilidade 92%, especificidade 98% fora de inflamação); tratar mesmo sem anemia, com ferro oral como primeira via (FEBRASGO 2022).

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Idade de corte para biópsia endometrial no SUA

FEBRASGO (Protocolo nº 80, 2021): acima de 40 anos

O protocolo brasileiro indica amostragem endometrial na mulher com SUA acima dos 40 anos, além de qualquer idade na presença de anovulação prolongada, obesidade, diabetes, estrogênio sem oposição, tamoxifeno ou história familiar de câncer de endométrio.

Protocolo FEBRASGO-Ginecologia nº 80, 2021

ACOG (Practice Bulletin nº 128, 2012): acima dos 45 anos

O documento americano indica amostragem endometrial de primeira linha na mulher com SUA acima dos 45 anos, reservando a biópsia abaixo dessa idade aos casos com exposição estrogênica sem oposição (como obesidade e anovulação crônica), falha de tratamento ou sangramento persistente.

ACOG Practice Bulletin nº 128, 2012, reafirmado em 2024 (Diagnosis of abnormal uterine bleeding in reproductive-aged women)

Na prova

Vinheta que nomeia FEBRASGO, cenário de SUS/ambulatório brasileiro ou alternativas com '40 anos' aponta o corte nacional; enunciado citando ACOG ou construído sobre '45 anos' denuncia o recorte americano. Quando a paciente da vinheta tem 41 a 44 anos SEM fatores de risco, a idade dela é exatamente a zona em que os dois documentos discordam — olhe as alternativas: a presença de '40' e '45' simultâneos indica que a banca quer a fonte que o enunciado nomeou.

Primeira linha no SMV crônico sem lesão estrutural

NICE (NG88, 2018/2021): SIU-LNG como primeira escolha formal

A diretriz britânica hierarquiza: oferecer primeiro o SIU de levonorgestrel a quem tem SMV sem patologia estrutural ou com mioma menor que 3 cm sem distorção de cavidade; tranexâmico, AINE ou hormonal combinado entram quando o SIU é recusado ou inadequado.

NICE NG88 — Heavy menstrual bleeding: assessment and management, 2018 (atualizada 2021)

FEBRASGO (RBGO 2017 e FPS nº 11/2022): individualizar entre as opções eficazes

Os documentos brasileiros reconhecem o SIU-LNG como o tratamento clínico mais eficaz (redução de 71% a 95%), mas não impõem ordem única: a escolha pondera desejo reprodutivo, necessidade contraceptiva, contraindicações, acesso e preferência — tranexâmico, AINE, combinado e progestagênios são todos opções legítimas de primeira abordagem.

Benetti-Pinto et al., RBGO 2017; FEBRASGO Position Statement nº 11, 2022

Na prova

Enunciado que pergunta 'a PRIMEIRA escolha' ou 'o tratamento MAIS eficaz' converge nos dois mundos para o SIU-LNG. Já a questão que cobra 'conduta inicial adequada' com alternativas plurais (tranexâmico, ACO) costuma seguir a lógica individualizadora brasileira — repare se a vinheta traz desejo de gestar (exclui SIU como resposta) ou necessidade contraceptiva (favorece).

Estrogênio endovenoso no SUA agudo

Referência americana (ACOG CO 557, 2013): estrogênio conjugado EV é opção de primeira linha

O documento americano lista estrogênio equino conjugado 25 mg EV a cada 4-6 horas entre as opções principais do sangramento agudo, com controle do sangramento em 72% dos casos.

ACOG Committee Opinion nº 557, 2013, citado no Protocolo FEBRASGO nº 80/2021

FEBRASGO (nº 80/2021): formulação indisponível no Brasil — ataque com ACO ou progestagênio oral

O protocolo brasileiro registra a eficácia do estrogênio EV mas explicita que a formulação não está disponível no país; a razão da divergência é disponibilidade, não discordância científica. O ataque brasileiro é feito com ACO monofásico 30 µg em dose fracionada ou progestagênio oral em dose alta.

Protocolo FEBRASGO-Ginecologia nº 80, 2021

Na prova

Alternativa com 'estrogênio conjugado endovenoso' em prova brasileira costuma ser distrator de realidade local: correta na literatura americana, impraticável no Brasil. Banca do MEC/cenário SUS espera o esquema com ACO ou progestagênio; se o enunciado citar explicitamente a ACOG ou um cenário fora do Brasil, o estrogênio EV passa a ser defensável.

06

Caso resolvido

Mulher de 42 anos, G2P2, procura o ambulatório por menstruações progressivamente mais volumosas há 8 meses, com coágulos e ciclos regulares a cada 28-30 dias, durando 9 dias. Nega sangramento intermenstrual e uso de medicações. Exame: mucosas hipocoradas, útero discretamente aumentado. Hb 10,1 g/dL, ferritina 12 ng/mL, beta-hCG negativo. Ultrassom transvaginal: nódulo miometrial hipoecoico de 28 mm distorcendo a cavidade endometrial, com cerca de 60% do volume intramural; endométrio regular.
achado
SMV crônico (mais de 6 meses) com ciclos regulares e ovulatórios, anemia ferropriva já instalada (Hb 10,1; ferritina 12) e lesão estrutural ao USG: mioma que distorce a cavidade, majoritariamente intramural.
classificação
SUA por AUB-L(SM): leiomioma submucoso FIGO tipo 2 — distorce a cavidade com 50% ou mais de componente intramural. A regularidade dos ciclos afasta AUB-O; a lesão estrutural encontrada explica o quadro e afasta AUB-E, que é diagnóstico de exclusão.
conduta
Tratamento da causa: ressecção histeroscópica do mioma (tipos 0 a 2 são os candidatos à via histeroscópica; no tipo 2 pode ser necessária ressecção em mais de um tempo). Enquanto aguarda: ácido tranexâmico nos dias de fluxo e reposição de ferro oral — a deficiência (ferritina <30) se trata sempre, e aqui já há anemia. Biópsia endometrial se houver fator de risco adicional ou falha após o tratamento; aos 42 anos com causa estrutural evidente, a prioridade é tratar a lesão.
07

Agora feche você

Adolescente de 17 anos, menarca aos 12, dá entrada no pronto-socorro com sangramento vaginal profuso há 10 dias. Refere que 'sempre menstruou muito' desde a menarca e que tem epistaxes frequentes. FC 108 bpm, PA 98x60 mmHg deitada, mucosas descoradas. Sangramento ativo ao especular, útero de tamanho normal. Hb 8,4 g/dL, plaquetas normais, beta-hCG negativo.
achado
SUA agudo em adolescente com anemia importante e taquicardia — perda significativa em curso. A história de SMV desde a menarca somada a epistaxes recorrentes é rastreio estruturado positivo para coagulopatia (presente em 10% a 34% desses casos; doença de von Willebrand é a mais comum).
conduta
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Onde a banca derruba

  1. 1Traduzir 'mioma ao ultrassom' como causa do sangramento Atrai porque a vinheta entrega uma lesão estrutural e o candidato fecha AUB-L sem olhar a posição. Mioma subseroso (tipos 5 a 7) raramente explica SMV — a paciente com sangramento e mioma apenas subseroso continua sem causa definida, e a resposta certa costuma ser prosseguir a investigação. O PALM-COEIN admite inclusive dupla classificação quando duas causas coexistem.
  2. 2Atribuir todo SUA da adolescente à imaturidade do eixo A disfunção ovulatória é de fato a causa mais comum pós-menarca — e é exatamente por isso que a banca esconde ali a coagulopatia. SMV desde a PRIMEIRA menstruação, epistaxes, gengivorragia, equimoses ou história familiar mudam o diagnóstico de trabalho para doença de von Willebrand e pedem coagulograma com estudo dirigido antes de rotular como fisiológico.
  3. 3Responder curetagem como tratamento inicial do SUA agudo Parece a atitude resolutiva do pronto-socorro, mas o tratamento de primeira linha do agudo é FARMACOLÓGICO (tranexâmico, ACO em dose de ataque ou progestagênio em dose alta). Curetagem e histeroscopia são segunda linha — falha clínica, instabilidade, causa estrutural — e, mesmo aí, a curetagem às cegas pode não tratar a lesão focal; o protocolo brasileiro manda priorizar a histeroscopia quando possível.
  4. 4Oferecer SIU-LNG ou ablação para parar o episódio agudo As opções mais eficazes do CRÔNICO viram distrator no AGUDO: o SIU de levonorgestrel é manutenção, não ataque — não se insere para estancar sangramento profuso em curso. O caminho é controlar com medicação e transicionar para a manutenção (aí sim, SIU, combinado ou progestagênio) depois da estabilização.
  5. 5Esquecer o beta-hCG porque 'a queixa é menstrual' O PALM-COEIN só existe para sangramento NÃO gestacional. Abortamento, gestação ectópica e doença trofoblástica sangram — e a banca adora colocar uma 'irregularidade menstrual' que era gravidez. Beta-hCG é o primeiro exame de todo SUA em idade reprodutiva, antes de qualquer letra.
  6. 6Tratar o sangramento e ignorar o ferro O SUA é a principal causa de deficiência de ferro na menstruante, e ferritina abaixo de 30 ng/mL já é deficiência mesmo com hemoglobina normal — com recomendação formal de tratar (ferro oral primeiro; EV na falha ou intolerância). A alternativa 'apenas observar, pois não há anemia' está errada na régua da FEBRASGO de 2022.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Sangramento uterino anormal na perimenopausa exige afastar hiperplasia/câncer de endométrio. A USG transvaginal para medir a espessura endometrial é o próximo passo de imagem, orientando a necessidade de biópsia. Iniciar hormônio às cegas pode mascarar patologia endometrial não investigada. Tranexâmico e alta tratam o sintoma sem excluir a causa maligna. A colpocitologia rastreia colo uterino, não endométrio, e não responde à queixa.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Recite o Sistema 1 sem consultar: frequência normal 24-38 dias, duração até 8 dias, variação de regularidade até 7-9 dias em 12 meses, volume pela percepção da paciente, intermenstrual sempre anormal. Depois soletre PALM-COEIN dando um exemplo clínico de cada letra e a pista de vinheta correspondente. Feche desenhando de memória os tipos de mioma 0 a 8 e marcando quais são submucosos.

em 30 dias

Monte a prescrição do SUA agudo de cabeça: tranexâmico VO e EV (doses e duração), ACO 30 µg de 6/8 em 8 horas até parar, noretisterona na contraindicação a estrogênio, balão de Foley como ponte. Liste quem biopsia o endométrio (corte FEBRASGO >40 anos + fatores; corte ACOG 45) e ordene os tratamentos do crônico por eficácia: SIU-LNG 71-95% > progestagênio contínuo até 87% > ACO 35-69% > tranexâmico 26-54% > AINE. Ferritina <30 = deficiência de ferro: repor sempre.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Mulher de 42 anos chega ao ambulatório com menstruações cada vez mais volumosas há 8 meses e cansaço progressivo. Conduza a consulta: caracterize o sangramento pelos parâmetros FIGO, examine, solicite e interprete os exames, classifique a causa e monte a conduta — sem esquecer o ferro. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Sangramento uterino anormal e PALM-COEIN — Preparatório para provas | OsceLabs