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Endometriose

A régua brasileira mudou: diagnóstico presuntivo sem laparoscopia, DIU-LNG e desogestrel incorporados ao SUS e um PCDT novo (2026). A prova cobra o quadro clínico cíclico, o papel real da imagem, a escada hormonal e as indicações de cirurgia.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Mulher de 35 anos queixa-se de dismenorreia progressiva, dispareunia profunda e dor pélvica crônica cíclica há dois anos, com piora no período menstrual. Ao exame ginecológico, palpam-se nódulos dolorosos em fundo de saco posterior e retroversão uterina fixa. Qual é a hipótese diagnóstica mais provável?

02

Como esse tema cai

Endometriose é tema de peso máximo em ginecologia e o assunto acabou de trocar de régua no Brasil. Até pouco tempo, a resposta segura era "padrão-ouro: videolaparoscopia com biópsia". Hoje está errada duas vezes: o PCDT aprovado em 2026 e a ESHRE desde 2022 dizem que o diagnóstico começa clínico, a imagem confirma e mapeia, e o tratamento pode ser iniciado de forma empírica sem nenhuma cirurgia. Prova desatualizada ainda cobra a laparoscopia; prova bem feita cobra exatamente essa virada.

O que o avaliador quer saber: se você reconhece o quadro clínico cíclico (dismenorreia progressiva, dispareunia profunda, disquezia, disúria, infertilidade), se sabe o que a imagem consegue e não consegue ver (ela mapeia doença profunda e endometrioma, mas não exclui doença superficial), se monta a escada terapêutica na ordem certa (AINE + hormonal de primeira linha → análogo de GnRH → cirurgia) e se sai da escada na hora certa — a paciente que quer engravidar não recebe bloqueio hormonal.

Duas novidades de 2025 aparecem primeiro nas provas federais: o SUS incorporou o DIU de levonorgestrel 52 mg e o desogestrel 75 µg para endometriose. E uma pegadinha de fonte: o dienogeste, progestágeno mais lembrado da prática privada, foi avaliado e não incorporado pela Conitec — em cenário SUS ele não é resposta.

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O que muda decisão

A doença e suas três formas

Endometriose é a presença de tecido semelhante ao endométrio (glândula e/ou estroma) fora da cavidade uterina, gerando reação inflamatória crônica. É doença benigna, estrogênio-dependente e multifatorial — por isso acomete quase exclusivamente a menacme, com pico de incidência entre 25 e 34 anos; a pós-menopausa responde por só 2% a 4% dos casos. A teoria clássica de Sampson (menstruação retrógrada) explica a semeadura peritoneal: quase toda mulher reflui sangue pelas tubas, mas só ~10% desenvolvem a doença — entram aí o terreno imunológico, hormonal e a predisposição genética. Fatores de risco lembrados em prova: menarca precoce (antes dos 11 anos), ciclos curtos (menores que 27 dias) e história familiar.

A prevalência estimada é de 5% a 10% das mulheres em idade reprodutiva (FEBRASGO); o PCDT cita 6,4% no Brasil, chegando a 34,2% entre mulheres sintomáticas atendidas em ambulatório público. O dado mais cobrado, porém, é o atraso diagnóstico: em média sete anos entre o início dos sintomas e o diagnóstico — é esse atraso que a estratégia de tratamento empírico veio atacar.

A doença se apresenta em três formas, que podem coexistir: (1) peritoneal ou superficial — implantes na superfície do peritônio, a forma mais comum (~70% dos casos) e a que a imagem raramente enxerga; (2) ovariana — o endometrioma, cisto de conteúdo achocolatado por crescimento do tecido no parênquima do ovário; (3) profunda — lesão que penetra mais de 5 mm no retroperitônio ou na parede de órgão pélvico (ligamentos uterossacros, região retrocervical, septo retovaginal, retossigmoide, bexiga, ureter). Adenomiose — endométrio dentro do miométrio — é outra doença, com protocolo próprio.

Quadro clínico: dor que menstrua junto

O fio condutor do quadro é a ciclicidade: sintomas que pioram ou só existem no período menstrual. Os quatro grandes são dismenorreia progressiva (a cólica que piora ano após ano e deixa de responder a analgésico comum), dispareunia de profundidade (dor no fundo, sugerindo lesão retrocervical/uterossacra), disquezia (dor evacuatória catamenial, com ou sem sangramento nas fezes — doença em retossigmoide) e disúria cíclica (com hematúria ou polaciúria menstrual — doença vesical). Somam-se dor pélvica crônica acíclica, fadiga e infertilidade. Manifestações extrapélvicas são raras mas características quando catameniais: dor no ombro, pneumotórax catamenial, dor e abaulamento cíclicos em cicatriz cirúrgica.

O exame físico dirigido vale questão inteira. No especular, procurar nódulos ou rugosidades enegrecidas no fórnice vaginal posterior. No toque vaginal — a manobra fundamental é o toque do fundo de saco posterior —, nódulo endurecido e doloroso em região retrocervical ou ao longo dos ligamentos uterossacros sugere doença profunda; útero com mobilidade reduzida sugere aderências; anexo fixo, doloroso ou massa anexial sugere endometrioma. Exame físico normal não afasta: a forma superficial costuma não deixar marca palpável.

A associação com infertilidade é forte nos dois sentidos: 30% a 50% das mulheres com endometriose são inférteis e 25% a 50% das mulheres inférteis têm endometriose. O PCDT estima que a infertilidade acometa até 6,5 vezes mais as mulheres com a doença.

Ilustração da pelve feminina mostrando os principais sítios de endometriose: peritônio, ovário com endometrioma, região retrocervical e retossigmoide.
As três formas da doença nos seus sítios típicos: implantes peritoneais superficiais, endometrioma ovariano e lesões profundas em região retrocervical/uterossacra e retossigmoide.

Diagnóstico: o fim do padrão-ouro laparoscópico

A laparoscopia com visualização direta dos implantes já foi o padrão-ouro. O PCDT 2026 e a ESHRE 2022 enterraram essa exigência: diante de quadro clínico e exame físico sugestivos, recomenda-se considerar o diagnóstico presuntivo e discutir com a paciente duas estradas igualmente válidas — buscar confirmação adicional ou iniciar tratamento empírico. Não há evidência de superioridade de uma sobre a outra, e não há benefício em atrasar o alívio da dor esperando um achado cirúrgico confirmatório.

A imagem entra para confirmar e mapear, não para excluir. Os dois métodos de escolha são a ultrassonografia transvaginal com preparo intestinal e a ressonância magnética com protocolo dedicado — ambas dependentes de examinador experiente, varrendo sistematicamente útero, região retrocervical, ligamentos uterossacros, fórnice posterior, septo retovaginal, retossigmoide, apêndice, bexiga, ureteres e ovários. São excelentes para doença profunda e endometrioma e ruins para doença superficial — que é a forma de ~70% dos casos. Daí a regra de prova: imagem negativa não exclui endometriose.

Dois exames morreram nesse processo. O CA-125, historicamente pedido como "marcador", deve ser abandonado no diagnóstico — a recomendação é explícita no PCDT e na ESHRE (nenhum biomarcador sérico, endometrial ou de fluido é recomendado). E a biópsia com confirmação histológica deixou de ser obrigatória mesmo quando a laparoscopia é feita: a correlação entre o achado visual e a histologia é de 97% a 99%, e a biópsia negativa não exclui a doença. A laparoscopia diagnóstica fica reservada, pela FEBRASGO, a quem tem exames de imagem normais e falha do tratamento clínico; nela, o peritônio visualmente normal descarta o diagnóstico.

Para iniciar tratamento empírico pelo SUS, o PCDT define critérios objetivos: dismenorreia ou dispareunia progressivas por mais de 6 meses, em idade reprodutiva, sem causa orgânica aparente e sem resposta a AINEs; ou dor pélvica crônica com exame físico ou imagem compatíveis (ou com as demais causas excluídas).

Tratamento hormonal de primeira linha

O objetivo do tratamento clínico é controlar a dor e a progressão criando anovulação e hipoestrogenismo relativo — não se espera que a lesão desapareça nem que a doença se cure. Os hormonais reduzem a dor contra placebo e são equivalentes entre si; a escolha é por perfil de contraindicação, adesão e disponibilidade. AINEs ficam como alívio sintomático: não têm evidência de efeito específico sobre a doença.

Primeira linha no SUS (PCDT 2026): o contraceptivo oral combinado etinilestradiol 0,03 mg + levonorgestrel 0,15 mg (esquema de 21 dias com pausa de 7 — a FEBRASGO registra que não há consenso entre uso contínuo e cíclico); o acetato de medroxiprogesterona oral 10 mg 3 vezes ao dia contínuo ou injetável 150 mg IM a cada 12-13 semanas; o desogestrel 75 µg/dia contínuo, incorporado em 2025 (Portaria sectics/MS nº 43/2025); e o DIU de levonorgestrel 52 mg, incorporado em 2025 (Portaria sectics/MS nº 41/2025) com uma condição que a prova pode cobrar: é opção para quem tem contraindicação ou não adesão ao contraceptivo oral combinado. Cada inserção vale por 5 anos.

Os progestágenos isolados são a saída natural quando o estrogênio do combinado é proibido: enxaqueca com aura, tabagismo após os 35 anos, hipertensão não controlada, trombofilia, antecedente tromboembólico ou cardiovascular, amamentação. O preço é o impacto ósseo: uso prolongado reduz estrogênio circulante e altera a densidade mineral óssea de forma transitória — quem usa medroxiprogesterona, desogestrel ou análogo de GnRH por mais de 6 meses deve ser avaliada quanto a esse risco.

Na prática privada circulam progestágenos que a prova pode oferecer como distrator de cenário SUS: o dienogeste 2 mg e o acetato de noretisterona 10 mg foram avaliados e não incorporados pela Conitec (Relatório nº 1003/2025) — o desogestrel foi o escolhido. A FEBRASGO também lista o implante subcutâneo de etonogestrel como opção de progestágenio de longa duração; tampouco está no SUS para essa indicação.

Segunda linha: análogos do GnRH (e o add-back obrigatório)

Falhou ou recidivou após 6 meses de primeira linha? A segunda linha do SUS são os análogos (agonistas) do GnRH — gosserrelina (3,6 mg SC mensal ou 10,8 mg trimestral), leuprorrelina e triptorrelina (3,75 mg IM mensal ou 11,25 mg trimestral). Eles dessensibilizam a hipófise e produzem hipogonadismo hipogonadotrófico: uma menopausa farmacológica reversível, com a eficácia e os efeitos colaterais que isso implica — fogachos, secura vaginal e perda óssea acelerada.

Duas regras de ouro que a banca adora: o tempo de uso é limitado a 6 meses; e a Terapia de Adição Hormonal (add-back — doses baixas de progestágeno, estrogênio ou ambos) é recomendada para todas as pacientes em uso de análogo, desde o início e independentemente de sintomas, porque previne a perda de massa óssea sem anular o efeito terapêutico. Quem permanece sintomática após 6 meses vai para avaliação em serviço especializado, não para renovação automática da receita.

O danazol, androgênio fraco, tem eficácia semelhante à das demais opções, mas ficou reservado à falha de todos os outros tratamentos: causa efeitos masculinizantes por vezes irreversíveis (engrossamento de voz, hirsutismo, alopecia) e exige monitorização de plaquetas e função hepática e renal a cada 4-6 meses. A ESHRE 2022 posiciona ainda os antagonistas do GnRH orais como segunda linha — classe sem incorporação no SUS.

Cirurgia: para quem, quando e como

A cirurgia é indicada quando os sintomas são graves ou incapacitantes e nas situações que o PCDT lista: ausência de resposta ao tratamento empírico; endometrioma maior que 4 cm ou em crescimento; distorção da anatomia pélvica; sinais de suboclusão ou obstrução intestinal; lesão ureteral com dilatação; e infertilidade associada. A FEBRASGO desenha as indicações absolutas de forma um pouco diferente — endometrioma maior que 6 cm e lesão de ureter, íleo, apêndice ou retossigmoide com sinais de suboclusão (o apêndice entra porque imagem não diferencia endometriose de tumor neuroendócrino). A divergência de corte do endometrioma está detalhada adiante.

A via preferencial é a videolaparoscopia, e o princípio é um só: excisão completa de todos os focos com restauração da anatomia pélvica. Na doença intestinal há três técnicas, escolhidas pela lesão: shaving (raspagem do nódulo sem abrir todas as camadas), ressecção discoide (nódulo de até 3 cm, retirando a parede anterior do reto em disco) e ressecção segmentar com anastomose (lesões maiores que 3 cm ou duas ou mais lesões). No endometrioma, a técnica de escolha é a cistectomia com exérese da cápsula — reduz recidiva e melhora dor e taxas de gestação em comparação com drenagem e coagulação — sempre com a ressalva de minimizar dano à reserva ovariana.

A cirurgia definitiva — histerectomia com ou sem salpingooforectomia bilateral, com excisão de todos os focos — fica para doença grave com sintomas incapacitantes refratários a tudo e prole constituída; séries não controladas mostram taxas de cura de ~90%.

No pós-operatório da cirurgia conservadora, o PCDT recomenda manter o bloqueio hormonal: análogo de GnRH por 6 meses (3 meses não reduziram recidiva; 6 sim) e, depois, contraceptivo combinado ou progestágeno por período indefinido, até surgir desejo de gestar. Análogo antes da cirurgia, para "encolher" a doença, não tem benefício demonstrado em desfecho que importe.

Endometriose e infertilidade: saia da escada hormonal

Aqui mora a pegadinha mais reprovadora do tema: bloqueio hormonal não trata infertilidade. PCDT, FEBRASGO e ESHRE dizem o mesmo — a supressão ovariana não melhora taxa de gestação e rouba tempo reprodutivo; quem deseja engravidar não recebe contraceptivo, por óbvio que pareça. A conduta se decide entre cirurgia e reprodução assistida, pesando idade, tempo de infertilidade, reserva ovariana, dor associada e os demais fatores do casal (permeabilidade tubária, sêmen).

Nos estágios iniciais (I e II), a laparoscopia com exérese dos focos — e não apenas diagnóstica — melhora as taxas de gestação. Na doença avançada (III e IV), a cirurgia é opção sem consenso, com trabalhos sugerindo melhora do resultado da FIV quando precedida de excisão completa; a decisão é individualizada e de serviço especializado. Falhou a cirurgia ou o prognóstico é ruim de saída? Fertilização in vitro.

No endometrioma da paciente infértil, operar não é automático: a cistectomia trata a dor e reduz recidiva, mas custa reserva ovariana. Indica-se cirurgia no cisto volumoso, na dúvida diagnóstica, na dor não controlada ou quando o cisto atrapalha o acesso aos folículos na captação oocitária — fora disso, preserva-se o ovário e segue-se para a reprodução assistida.

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A escada terapêutica do PCDT 2026

O SUS organiza o tratamento da dor por endometriose em degraus. Sobe-se um degrau por falha ou recidiva documentada — e sai-se da escada inteira quando o objetivo vira gestação.

  1. 1Suspeita clínica (dor cíclica progressiva + exame físico) → AINE para alívio + imagem dirigida (USG TV com preparo intestinal ou RM). Imagem negativa não exclui.
  2. 2Primeira linha (empírica, sem laparoscopia): COC etinilestradiol+levonorgestrel OU progestágeno (medroxiprogesterona, desogestrel) por 6 meses; DIU-LNG 52 mg se contraindicação ou não adesão ao COC.
  3. 3Falha ou recidiva após 6 meses → segunda linha: análogo do GnRH (gosserrelina, leuprorrelina ou triptorrelina) por NO MÁXIMO 6 meses, sempre com add-back.
  4. 4Sintomas graves refratários, endometrioma > 4 cm ou em crescimento, suboclusão intestinal, ureter dilatado ou infertilidade → cirurgia (excisão completa por videolaparoscopia).
  5. 5Pós-operatório da cirurgia conservadora: análogo do GnRH por 6 meses e, depois, COC ou progestágeno por tempo indefinido, até o desejo de gestar.
  6. 6Desejo de gestação em qualquer degrau → suspender bloqueio hormonal e decidir entre cirurgia (estágios I-II: exérese melhora fertilidade) e reprodução assistida.

1ª linha — COC ou progestágeno

Empírica, começa na atenção primária: COC (EE 0,03 + LNG 0,15 mg), medroxiprogesterona oral ou depósito, desogestrel 75 µg contínuo, DIU-LNG 52 mg (se contraindicação/não adesão ao COC). Avaliar resposta em 6 meses.

2ª linha — análogo do GnRH

Falha ou recidiva documentada: gosserrelina, leuprorrelina ou triptorrelina (mensal ou trimestral), máximo 6 meses, add-back para todas desde o início. Danazol só após falha geral, com monitorização.

3º degrau — cirurgia

Refratariedade ou indicação anatômica (endometrioma > 4 cm/crescimento, suboclusão, ureter dilatado) ou infertilidade: excisão completa por videolaparoscopia; definitiva (histerectomia ± anexectomia) só com prole constituída e falha de tudo.

Medicamento (SUS, PCDT 2026)EsquemaLugar na escada
Etinilestradiol 0,03 mg + levonorgestrel 0,15 mg1 cp/dia por 21 dias, pausa de 71ª linha
Acetato de medroxiprogesterona oral10 mg 3x/dia, contínuo1ª linha
Acetato de medroxiprogesterona injetável150 mg IM a cada 12-13 semanas1ª linha
Desogestrel (incorporado em 2025)75 µg/dia, contínuo, sem pausas1ª linha
DIU de levonorgestrel 52 mg (incorporado em 2025)1 inserção a cada 5 anos1ª linha, se contraindicação ou não adesão ao COC
Gosserrelina3,6 mg SC mensal ou 10,8 mg trimestral2ª linha, máx. 6 meses, com add-back
Leuprorrelina ou triptorrelina3,75 mg IM mensal ou 11,25 mg trimestral2ª linha, máx. 6 meses, com add-back
Danazol400 mg/dia VO em 2 tomadas (até 800 mg)Reserva: falha dos demais; vigiar plaquetas, fígado e rim

Fora do SUS (a prova usa como distrator de cenário)

OpçãoQuem recomendaSituação no SUS
Dienogeste 2 mg/diaFEBRASGO nº 78/2021 (progestágeno contínuo)NÃO incorporado — Relatório CONITEC nº 1003/2025
Acetato de noretisterona 10 mgFEBRASGO nº 78/2021NÃO incorporado — mesmo relatório
Implante subcutâneo de etonogestrelFEBRASGO nº 78/2021 (longa duração)Sem incorporação para endometriose
Antagonistas orais do GnRHESHRE 2022 (segunda linha)Sem incorporação

Add-back não é opcional: recomendada para toda paciente em análogo do GnRH, desde o início, para prevenir perda de massa óssea — independentemente de fogachos.

Medroxiprogesterona, desogestrel ou análogo do GnRH por mais de 6 meses: avaliar risco de perda de densidade mineral óssea.

AINEs são alívio sintomático; não modificam a doença e não contam como 'linha' de tratamento.

Análogo do GnRH pré-operatório para reduzir implantes não melhora desfecho e não é recomendado; no pós-operatório, 6 meses de análogo reduzem recidiva (3 meses não).

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Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Endometrioma: o corte que indica cirurgia é 4 cm ou 6 cm?

PCDT 2026 (Ministério da Saúde): > 4 cm ou em crescimento

Entre as indicações de tratamento cirúrgico, o PCDT lista 'endometriomas em crescimento ou maiores que 4 cm', ao lado de suboclusão intestinal, lesão ureteral com dilatação e falha do tratamento empírico.

PCDT da Endometriose, Portaria Conjunta nº 54/2026

FEBRASGO 2021: indicação absoluta só acima de 6 cm

O fluxograma de dor pélvica do protocolo nº 78 reserva a cirurgia de cara para 'endometrioma ovariano > 6 cm' e lesões de ureter, íleo, apêndice ou retossigmoide com sinais de suboclusão; abaixo disso, tratamento clínico primeiro e cirurgia só na falha.

Protocolo FEBRASGO-Ginecologia nº 78/2021

Na prova

Vinheta ancorada no SUS ou que nomeia o PCDT usa o corte de 4 cm; enunciado que reproduz o fluxograma da FEBRASGO (ou cita 'indicação absoluta') usa 6 cm. Endometrioma de 5 cm assintomático cai exatamente na zona cinzenta — em questão bem construída, o resto do enunciado (crescimento no intervalo, dor refratária, desejo reprodutivo) é que decide, não o número isolado. As alternativas denunciam o recorte: se uma opção fala em 'crescimento documentado', o examinador está lendo o PCDT.

Dienogeste: primeira escolha da prática privada, ausente do SUS

FEBRASGO 2021: dienogeste entre os progestágenos contínuos de primeira linha

O protocolo lista noretindrona, desogestrel e dienogeste como opções orais contínuas, além de medroxiprogesterona de depósito, DIU-LNG e implante de etonogestrel — sem hierarquia entre eles.

Protocolo FEBRASGO-Ginecologia nº 78/2021

CONITEC 2025: desogestrel sim, dienogeste e noretisterona não

Ao avaliar os progestágenos orais com registro na Anvisa, a CONITEC recomendou incorporar o desogestrel e NÃO incorporar dienogeste e acetato de noretisterona — os progestágenos têm eficácia semelhante entre si, e a decisão pendeu para a opção de menor custo. Restrição econômica, não demérito clínico.

Relatório de Recomendação CONITEC nº 1003/2025; Portaria SECTICS/MS nº 43/2025

Na prova

Cenário UBS, farmácia do SUS ou programa público: as opções disponíveis são COC, medroxiprogesterona, desogestrel e DIU-LNG — dienogeste em alternativa é distrator. Cenário de consultório privado ou enunciado que pergunta genericamente 'opção terapêutica válida': dienogeste é legítimo, com aval da FEBRASGO. O vocabulário também entrega: 'incorporado', 'disponível na rede' e 'PCDT' apontam para o mundo SUS.

Análogo do GnRH antes da FIV: 3 meses ou nada?

FEBRASGO 2021: até 3 meses de análogo antes da FIV pode melhorar taxas

O protocolo afirma que a única medicação capaz de auxiliar as taxas de gestação são os análogos do GnRH usados por até três meses, especificamente antes da fertilização in vitro — posição herdada da diretriz europeia de 2014, vigente quando o texto foi escrito.

Protocolo FEBRASGO-Ginecologia nº 78/2021 (citando ESHRE 2014)

ESHRE 2022: não recomendado — benefício incerto

A atualização europeia retirou a recomendação: a administração prolongada de análogo do GnRH antes da reprodução assistida para melhorar nascidos vivos não é recomendada, por benefício incerto. O documento brasileiro é anterior à virada (2021 contra 2022).

ESHRE guideline: endometriosis, 2022

Na prova

Questão que cita a ESHRE ou usa bibliografia pós-2022 espera 'não há benefício demonstrado'. Questão montada sobre o texto da FEBRASGO ainda pode dar como correta a supressão de 3 meses pré-FIV. Atenção ao verbo: 'recomendação atual da diretriz europeia' torna a supressão errada; 'segundo o protocolo da FEBRASGO' a torna defensável. O que nunca muda de lado: supressão hormonal fora do contexto pré-FIV não trata infertilidade em nenhum documento.

06

Caso resolvido

Mulher, 29 anos, nuligesta, procura a UBS por cólica menstrual há 3 anos, com piora progressiva e falta ao trabalho nos últimos ciclos. Relata dor profunda à relação sexual e dor para evacuar durante a menstruação. Já usou ibuprofeno regularmente, sem controle. Nega desejo reprodutivo atual; sem comorbidades. Exame especular sem lesões; ao toque, nódulo endurecido e doloroso em fundo de saco posterior, útero pouco móvel. Ultrassonografia transvaginal com preparo intestinal: nódulo retrocervical de 1,8 cm acometendo ligamento uterossacro esquerdo e endometrioma ovariano esquerdo de 2,5 cm.
achado
Dismenorreia progressiva incapacitante + dispareunia profunda + disquezia catamenial refratárias a AINE, com nódulo doloroso ao toque do fundo de saco posterior — o tripé clínico da endometriose profunda, confirmado pela imagem dirigida (nódulo retrocervical + endometrioma).
diagnóstico
Endometriose profunda com componente ovariano. Não há necessidade de videolaparoscopia nem de biópsia para 'fechar' o diagnóstico — clínica + imagem especializada bastam. CA-125 não entra.
conduta
Tratamento clínico de primeira linha: COC (etinilestradiol + levonorgestrel) ou progestágeno (desogestrel 75 µg/dia contínuo ou medroxiprogesterona) por 6 meses, com AINE de resgate. Sem indicação cirúrgica: dor ainda não desafiou a primeira linha, endometrioma de 2,5 cm (abaixo de qualquer corte), sem suboclusão nem ureter dilatado.
seguimento
Reavaliar em 6 meses. Falha ou recidiva → análogo do GnRH com add-back (máximo 6 meses) e encaminhamento ao serviço especializado. Se surgir desejo de gestar, suspender o bloqueio e reavaliar o caminho (cirurgia vs reprodução assistida).
07

Agora feche você

Mulher, 33 anos, tentando engravidar há 20 meses, sem sucesso. Dismenorreia moderada. Espermograma do parceiro normal, ciclos regulares, histerossalpingografia com tubas pérvias. Ultrassonografia transvaginal com preparo intestinal: endometrioma ovariano direito de 3 cm, sem doença profunda. Reserva ovariana adequada para a idade. O ginecologista da unidade sugere 'organizar o ciclo' com contraceptivo combinado contínuo por 6 meses antes de encaminhar.
achado
Infertilidade primária de 20 meses + endometrioma de 3 cm com restante da propedêutica do casal normal — infertilidade associada à endometriose.
análise da proposta
A sugestão de contraceptivo por 6 meses é exatamente o erro clássico: supressão ovariana não melhora fertilidade em nenhum protocolo (PCDT, FEBRASGO, ESHRE) e desperdiça 6 meses de janela reprodutiva de uma mulher de 33 anos.
conduta
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Onde a banca derruba

  1. 1"A imagem veio normal, então não é endometriose" Atrai porque em quase todo o resto da medicina imagem negativa tranquiliza. Aqui não: ~70% dos casos são de doença superficial, que ultrassom e ressonância raramente enxergam. Imagem serve para confirmar e mapear doença profunda e endometrioma — nunca para excluir. Clínica típica + imagem normal = tratamento empírico mesmo assim.
  2. 2Pedir CA-125 para diagnosticar (ou 'rastrear') Era hábito antigo e ainda enfeita alternativa. PCDT e ESHRE são taxativos: nenhum biomarcador — CA-125 incluído — deve ser usado para diagnosticar ou afastar endometriose. O exame sobe em mioma, adenomiose, DIP e até na menstruação normal.
  3. 3Esperar a laparoscopia para começar a tratar A questão descreve quadro clássico e oferece 'videolaparoscopia com biópsia' como resposta-reflexo de década passada. A regra atual: diagnóstico presuntivo clínico + imagem, tratamento empírico de primeira linha, e laparoscopia reservada a imagem normal com falha do tratamento — ou já com intenção terapêutica. Biópsia negativa nem sequer exclui a doença.
  4. 4Tratar infertilidade com contraceptivo ou análogo 'para acalmar a doença' Soa fisiologicamente plausível — menos inflamação, mais gravidez — e está errado nos três documentos: supressão ovariana não aumenta taxa de gestação e adia a solução real (cirurgia nos estágios iniciais ou reprodução assistida). Único nicho ainda em disputa: 3 meses de análogo imediatamente antes da FIV, que a FEBRASGO 2021 cita e a ESHRE 2022 deixou de recomendar.
  5. 5Análogo do GnRH sem prazo e sem add-back A alternativa que prescreve gosserrelina 'por 12 meses' ou 'add-back apenas se sintomas' erra duas vezes: o limite são 6 meses, e a adição hormonal é para todas, desde o início, para blindar o osso — sem apagar o efeito sobre a dor.
  6. 6Drenar e cauterizar o endometrioma (ou operar todos eles) Dois erros espelhados: quando a cirurgia está indicada, a técnica é exérese da cápsula — drenagem com coagulação recidiva mais e ajuda menos na dor e na gestação; mas indicar cistectomia para todo endometrioma, especialmente na infértil com cisto pequeno, sacrifica reserva ovariana sem necessidade.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Dismenorreia progressiva, dispareunia profunda, dor cíclica e nódulos dolorosos em fundo de saco posterior com útero fixo são clássicos de endometriose. A doença inflamatória pélvica aguda cursa com febre, dor aguda e corrimento, não dor cíclica crônica. O mioma submucoso causa sangramento uterino aumentado, não nódulos em fundo de saco. O câncer de ovário costuma ser insidioso, com massa anexial e sintomas tardios. A cistite intersticial cursa com sintomas urinários, não nódulos pélvicos.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

Sorteando as questões…

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Plano de revisão

em 7 dias

Refaça de cabeça: os quatro sintomas cíclicos que levantam a suspeita; por que imagem e biópsia negativas não excluem; a primeira linha do SUS (COC, medroxiprogesterona, desogestrel, DIU-LNG e a condição deste último); e as duas regras do análogo do GnRH (6 meses, add-back para todas).

em 30 dias

Monte a conduta de três pacientes: dor típica com imagem normal (tratamento empírico), dor refratária a 6 meses de COC (análogo com add-back e serviço especializado) e infertilidade com endometrioma de 3 cm (nada de bloqueio hormonal — cirurgia seletiva ou FIV). Depois recite as indicações cirúrgicas do PCDT e o corte divergente do endometrioma (4 cm vs 6 cm).

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Mulher de 29 anos chega ao ambulatório com cólica menstrual incapacitante há 3 anos, dor profunda na relação e dor para evacuar quando menstrua — 'já tomei todo anti-inflamatório que existe'. Conduza: caracterize a dor, faça o exame físico dirigido, decida que imagem pedir e monte o plano — inclusive o que responder quando ela perguntar se precisa 'fazer a cirurgia para ter certeza'. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Endometriose — Preparatório para provas | OsceLabs