Ginecologia e ObstetríciaCiclo Menstrual, SUA e Endocrinologia Ginecológica

Síndrome dos ovários policísticos

Dois dos três critérios de Rotterdam, depois de excluir o resto. A prova cobra o número de folículos, o que fazer com a adolescente e a ordem dos remédios.

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Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Mulher de 30 anos com queixa de infertilidade há 2 anos, ciclos menstruais espaçados (intervalos de 45–60 dias), acne e hirsutismo (escore de Ferriman-Gallwey = 10). USG: ovários com múltiplos folículos pequenos e volume aumentado bilateralmente. TSH e prolactina normais; 17-OH-progesterona normal. De acordo com os critérios de Rotterdam, quantos e quais critérios essa paciente preenche, e qual o diagnóstico?

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Como esse tema cai

SOP é a endocrinopatia mais comum da mulher em idade reprodutiva: o Ministério da Saúde estima 6% a 19% dessa população, e a Febrasgo, 4% a 20%, com a maioria dos estudos convergindo em torno de 10%. Essa variação não é descuido dos autores: ela depende do critério diagnóstico adotado, e é exatamente aí que a prova mora.

O diagnóstico é de exclusão e se faz com dois dos três critérios de Rotterdam: alteração do ciclo menstrual, hiperandrogenismo (clínico ou laboratorial) e morfologia ovariana policística ao ultrassom. Não existe exame que feche sozinho o diagnóstico, e nenhum dos três critérios vale mais do que os outros. O erro mais cobrado é tratar o ultrassom como se fosse o exame confirmatório.

Três recortes rendem quase toda questão de residência sobre o tema. O primeiro é numérico: quantos folículos definem o ovário policístico — e a resposta mudou de mais de 12 para 20 ou mais, com o Ministério da Saúde e a Febrasgo hoje em documentos diferentes. O segundo é etário: adolescente entra por outra porta, e as duas réguas brasileiras discordam sobre usar ou não o ultrassom nessa faixa. O terceiro é terapêutico: a ordem dos medicamentos muda conforme a mulher quer ou não engravidar.

Fora da prova, o que sustenta a conduta é mais simples: quem não deseja gestar precisa de regularização do ciclo, controle do hiperandrogenismo cutâneo e proteção endometrial; quem deseja gestar precisa de indução de ovulação. Metformina não trata hirsutismo, ultrassom não trata nada, e mudança de estilo de vida é o primeiro passo dos dois lados.

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O que muda decisão

O que a síndrome é, antes de ser critério

SOP é anovulação crônica associada a hiperandrogenismo. O motor fisiopatológico tem duas alças que se retroalimentam. Na primeira, o excesso de androgênios altera a pulsatilidade do hormônio liberador de gonadotrofinas no hipotálamo, aumenta a liberação de hormônio luteinizante pela hipófise e cria uma predominância de LH sobre FSH que trava o recrutamento folicular: os folículos crescem até 2 a 9 mm e param, sem seleção do dominante e sem ovulação. Sem ovulação não há corpo lúteo, não há progesterona, e o endométrio fica sob estímulo estrogênico sem oposição.

Na segunda alça está a insulina. A hiperinsulinemia age sinergicamente ao LH nas células da teca, aumentando a produção ovariana de androgênios, e no fígado reduz a síntese da globulina carreadora de esteroides sexuais (SHBG). Menos SHBG significa maior fração de testosterona livre circulante — a mulher pode ter testosterona total pouco alterada e hiperandrogenismo clínico evidente. É por isso que a resistência insulínica, que não é critério diagnóstico, potencializa todas as manifestações da síndrome.

As consequências clínicas seguem essas duas alças. Da anovulação vêm a oligomenorreia, a subfertilidade e o risco endometrial. Do hiperandrogenismo vêm o hirsutismo, a acne, a seborreia e a alopecia de padrão androgênico. Da resistência insulínica vêm a obesidade central, a acantose nigricante, a esteatose hepática, a apneia do sono, a intolerância à glicose e a dislipidemia.

Um detalhe clínico que separa candidato treinado de candidato apressado: sinais de virilização — clitoromegalia, engrossamento da voz, calvície temporal, aumento de massa muscular — são infrequentes na SOP e devem levantar suspeita de neoplasia produtora de androgênios, ovariana ou adrenal. Virilização instalada em meses não é SOP até prova em contrário.

Os três critérios de Rotterdam, um a um

Critério 1 — alteração do ciclo menstrual. O PCDT do Ministério da Saúde define como 9 ciclos ou menos no período de um ano. A diretriz internacional de 2023 e o protocolo da Febrasgo de 2025 são mais detalhados e escalonam por tempo desde a menarca: no primeiro ano pós-menarca, ciclo irregular é normal; de 1 a menos de 3 anos pós-menarca, considera-se anormal ciclo menor que 21 ou maior que 45 dias; de 3 anos pós-menarca até a perimenopausa, ciclo menor que 21 ou maior que 35 dias, ou menos de 8 ciclos no ano. Qualquer ciclo isolado acima de 90 dias, a partir de um ano pós-menarca, já é anormal. Amenorreia primária aos 15 anos ou 3 anos após a telarca também entra.

Critério 2 — hiperandrogenismo. Pode ser clínico ou laboratorial, e um basta. Clínico: hirsutismo, acne ou alopecia androgênica. O hirsutismo é graduado pelo índice de Ferriman-Gallwey, e a Febrasgo adota somatório maior ou igual a 6 na maioria das etnias, com corte maior ou igual a 4 nas asiáticas orientais; a diretriz internacional trabalha com a faixa de 4 a 6 conforme a etnia. Pelo terminal, para contar, precisa ter mais de 0,5 cm e ser pigmentado. Laboratorial: elevação de pelo menos um androgênio. O PCDT aceita testosterona total, androstenediona ou sulfato de deidroepiandrosterona; a diretriz internacional prefere testosterona total e livre, esta última estimada pelo índice de androgênios livres, e recomenda dosagem por espectrometria de massas em tandem quando disponível, porque os imunoensaios comuns têm desempenho ruim na faixa feminina.

Critério 3 — morfologia ovariana policística ao ultrassom. Este é o critério cujo número mudou, e mudou porque os aparelhos mudaram. Está detalhado na próxima seção.

Um ponto que a prova adora esconder: nem relação LH/FSH, nem insulinemia de jejum, nem HOMA-ir, nem acantose nigricante são critérios diagnósticos de SOP. Servem para caracterizar o quadro metabólico, orientar tratamento e estimar risco — não para fechar o diagnóstico. A acantose nigricante, aliás, aparece em apenas cerca de 18% das mulheres com resistência insulínica.

O ultrassom: por que 12 virou 20

O Consenso de Rotterdam de 2003 definiu ovário policístico como mais de 12 folículos de 2 a 9 mm em pelo menos um ovário, ou volume ovariano maior ou igual a 10 cm³. Esse é o corte que o PCDT do Ministério da Saúde, publicado com base na portaria de 2019, adota até hoje — e o próprio PCDT reconhece, no texto, que a contagem sobe de mais de 12 para mais de 25 quando se usam aparelhos de maior resolução.

Foi exatamente esse o problema: com transdutores modernos de alta frequência, praticamente qualquer ovário jovem alcança 12 folículos, e o critério perdeu especificidade. A atualização internacional de 2023 fixou o corte em 20 ou mais folículos por ovário (follicle number per ovary), mantendo o intervalo de 2 a 9 mm; alternativamente, volume ovariano maior ou igual a 10 mL ou 10 ou mais folículos em uma única secção. O protocolo da Febrasgo de 2025 incorpora essa atualização e escreve o corte como 20 folículos ou mais em todo o ovário, ou 12 folículos em apenas uma secção, com diâmetro médio de 2 a 9 mm, e/ou volume ovariano maior ou igual a 10 cm³.

Detalhes técnicos que decidem questão: a via transvaginal é a mais acurada e é a preferida quando aceitável pela paciente. Ovário que contém folículo dominante (10 mm ou mais) ou corpo lúteo não deve ser considerado, e o exame precisa ser repetido — o PCDT é explícito nisso. Se houver cisto funcional, a Febrasgo orienta repetir no ciclo seguinte, na fase folicular precoce; em amenorreia, aguardar 30 a 60 dias.

Existe uma alternativa ao ultrassom, e ela também é ponto de divergência entre as réguas brasileiras. O hormônio antimülleriano correlaciona-se fortemente com a contagem de folículos antrais, e a diretriz internacional de 2023 passou a aceitá-lo como substituto do ultrassom para caracterizar a morfologia policística em adultas — nunca como teste único de diagnóstico. A Febrasgo acompanha, mas registra que o ponto de corte ainda não está bem estabelecido. O PCDT, escrito antes dessa atualização, conclui o oposto: como os estudos usaram técnicas distintas de quantificação e não estabeleceram cortes conclusivos, a dosagem não pode ser recomendada em substituição ao ultrassom.

Há ainda uma trava temporal que vale para os dois métodos: nem ultrassom nem hormônio antimülleriano devem ser usados antes de 8 anos da menarca, por baixa especificidade nessa fase.

Comparação em corte entre um ovário normal, com poucos folículos antrais de tamanhos diferentes e um folículo dominante, e um ovário policístico, com muitos folículos pequenos e uniformes dispostos em anel na periferia ao redor de um estroma central aumentado.
Morfologia ovariana policística: folículos pequenos e numerosos na periferia, estroma central aumentado, nenhum folículo dominante. O achado isolado não faz diagnóstico — é apenas um dos três critérios de Rotterdam, e são necessários dois.

Diagnóstico de exclusão: o que precisa ser afastado

SOP é diagnóstico de exclusão porque não tem teste próprio: os três critérios descrevem um fenótipo que outras doenças reproduzem. A lista de exclusão é curta, é sempre a mesma e é altamente cobrada.

Hiperprolactinemia, dosando prolactina. Doença tireoidiana, dosando TSH — a Febrasgo acrescenta T4 livre. Hiperplasia adrenal congênita de forma não clássica, por deficiência de 21-hidroxilase, dosando 17-alfa-hidroxiprogesterona. Tumores secretores de androgênios ou uso exógeno de anabolizantes, dosando testosterona total e livre e sulfato de deidroepiandrosterona. Síndrome de Cushing, apenas quando há suspeita clínica — a Febrasgo indica cortisol salivar noturno às 23 horas ou teste de supressão com 1 mg de dexametasona, e é explícita ao dizer que não há indicação de realização rotineira. O PCDT acrescenta FSH quando a suspeita for de insuficiência ovariana primária, e orienta encaminhar ao endocrinologista diante de suspeita de Cushing ou de tumor produtor de androgênios.

Timing importa: os exames hormonais devem ser colhidos entre o primeiro e o quinto dia do ciclo, ou em qualquer momento nas pacientes em amenorreia.

Ao mesmo tempo em que exclui, a primeira consulta já rastreia risco metabólico. O PCDT lista glicemia de jejum para todas e glicemia após sobrecarga de 75 g de glicose para obesas ou com história familiar de diabetes; colesterol total, HDL e triglicerídeos nas pacientes com suspeita de síndrome metabólica. A diretriz internacional de 2023 é mais agressiva: perfil lipídico completo para todas as mulheres com SOP no momento do diagnóstico, pressão arterial aferida anualmente, e o teste oral de tolerância à glicose com 75 g como o exame mais acurado para avaliar o status glicêmico independentemente do índice de massa corporal, reavaliado a cada 1 a 3 anos conforme os demais fatores de risco. Quem planeja gestar deve fazer o teste antes da gravidez; se não fez, faz na primeira consulta pré-natal e, de todo modo, entre 24 e 28 semanas.

A adolescente: a faixa onde as réguas brasileiras se separam

Depois da menarca, ciclo irregular e acne são achados da puberdade normal. O ovário da adolescente é multifolicular por fisiologia, e o ultrassom transabdominal — muitas vezes o único disponível — tem desempenho pior que o transvaginal, especialmente em adolescentes com obesidade. O resultado é um terreno fértil para sobrediagnóstico, e as duas réguas brasileiras resolveram o problema de maneiras opostas.

O PCDT do Ministério da Saúde, reconhecendo o baixo nível de evidência, optou por aumentar o rigor: recomenda aplicar às adolescentes — definidas como de 2 anos pós-menarca até 19 anos incompletos — o critério que exige a presença dos três componentes de Rotterdam, isto é, ciclos oligo/amenorreicos ou anovulatórios mais hiperandrogenismo clínico ou laboratorial mais morfologia ovariana policística, com as demais causas excluídas. O mesmo documento oferece uma saída pragmática: para evitar subdiagnóstico, é possível postergar o diagnóstico para depois dos 18 anos completos e, enquanto isso, tratar os sintomas como distúrbio menstrual e hirsutismo, independentemente do rótulo final.

A Febrasgo de 2025 e a diretriz internacional de 2023 fazem o contrário: retiram o ultrassom da equação. Para adolescentes, os critérios diagnósticos não devem incluir a morfologia ovariana ao ultrassom, e o hormônio antimülleriano tampouco deve ser usado. O diagnóstico é clínico — anovulação crônica associada a hiperandrogenismo clínico ou laboratorial — e deve ser revisto após 8 anos da menarca. Quando há acne, apenas os casos moderados a intensos contam; os critérios de hirsutismo são os mesmos das adultas.

A diretriz internacional criou ainda uma categoria intermediária útil na prática: a adolescente com características de SOP que não preenche os critérios recebe o rótulo de risco aumentado, com reavaliação programada até 8 anos pós-menarca. Isso vale especialmente para quem tinha as características antes de iniciar anticoncepcional combinado, para quem manteve as características e para quem ganhou peso significativo na adolescência.

A consequência prática vale para as duas réguas: adolescente com ciclo irregular e hirsutismo é tratada agora, com ou sem rótulo definitivo. Nenhum documento manda esperar oito anos para aliviar sintoma.

Tratamento de quem não deseja engravidar

O primeiro passo é sempre mudança de estilo de vida: atividade física regular, alimentação adequada, cessação de tabagismo e de uso abusivo de álcool. Perda de 5% a 10% do peso corporal está associada a melhora da obesidade central, do hiperandrogenismo e das taxas de ovulação — número que aparece igual no PCDT e no protocolo da Febrasgo. A diretriz internacional acrescenta que a intervenção deve ser recomendada a todas, inclusive às eutróficas, pelo efeito sobre adiposidade central e perfil lipídico.

O anticoncepcional hormonal combinado é a primeira linha medicamentosa para a mulher que não deseja gestar e apresenta irregularidade menstrual, com ou sem hirsutismo — inclusive quando não precisa de contracepção. Ele regulariza o ciclo, suprime a produção androgênica ovariana e protege o endométrio. O PCDT é explícito ao dizer que, considerando a evidência atual, qualquer combinado oferece supressão androgênica, proteção endometrial e regularização similares quando usado de forma cíclica; o combinado disponível no protocolo do SUS é etinilestradiol 0,03 mg mais levonorgestrel 0,15 mg, um comprimido por dia durante 21 dias por mês.

A diretriz internacional de 2023 e a Febrasgo acrescentam uma preferência de composição: começar com dose de etinilestradiol igual ou menor que 30 microgramas, ou estrogênio natural equivalente; a associação de 35 microgramas de etinilestradiol com 2 mg de ciproterona passa a ser segunda opção, pelo perfil de risco tromboembólico — mas quem já usa essa formulação e vai bem não precisa interrompê-la. A elegibilidade segue os critérios médicos da Organização Mundial da Saúde: obesidade grave, síndrome metabólica, hipertensão, hipertrigliceridemia e diabetes mal controlado ou com complicações crônicas podem tornar o risco maior que o benefício.

Quando há distúrbio menstrual sem hiperandrogenismo cutâneo, em mulher que não precisa de contracepção, a Febrasgo aceita progestagênio isolado para proteção endometrial, contínuo ou intermitente por 10 a 14 dias a partir do 15º dia do ciclo; o PCDT oferece acetato de medroxiprogesterona 10 mg por dia durante 10 a 12 dias do ciclo e noretisterona 0,35 mg por dia em uso contínuo. Se o padrão menstrual não se regularizar com progestagênio, volta-se ao combinado. O sistema intrauterino liberador de levonorgestrel é outra forma de proteger o endométrio, com a ressalva de possíveis efeitos cutâneos.

Para hirsutismo moderado a grave, associa-se antiandrogênio ao combinado. O PCDT define o acetato de ciproterona como antiandrogênio de escolha, por ser o único com indicação para SOP em bula, no esquema de 12,5 mg, 25 mg ou 50 mg por dia em regime 21/7, associado ao anticoncepcional; a Febrasgo cita ainda espironolactona 100 a 200 mg por dia e finasterida 2,5 a 5 mg por dia, esta última também útil na alopecia androgenética. Duas regras acompanham qualquer antiandrogênio: efeito clínico só é julgado após 6 meses, podendo o tratamento estender-se por 24 meses ou mais; e contracepção eficaz é obrigatória, porque antiandrogênio isolado pode causar distúrbio do desenvolvimento sexual em feto masculino. Se o combinado for contraindicado, o PCDT orienta associar o antiandrogênio à metformina nas pacientes com distúrbio metabólico, garantida a contracepção por outro método. Medidas cosméticas — depilação mecânica, fotodepilação a laser, luz intensa pulsada — são recomendadas desde o início, porque o tratamento sistêmico demora.

O braço metabólico: metformina, inositol e os análogos de GLP-1

A metformina melhora a sensibilidade à insulina, reduz a secreção ovariana de androgênios e pode restaurar a ciclicidade menstrual, com efeito maior quando somada à mudança de estilo de vida. No PCDT ela é tratamento de segunda linha da irregularidade menstrual, indicada às mulheres com alterações metabólicas nas quais a mudança de estilo de vida falhou, e é também a opção para quem tem contraindicação ao combinado ou não atingiu metas metabólicas com ele. O esquema começa com 500 mg por via oral após o jantar, aumentando 500 a 1.000 mg por semana até o máximo de 2,55 g por dia, dividida em 2 a 3 tomadas para melhorar a tolerância; na formulação de liberação prolongada, 1.000 mg uma a duas vezes ao dia. A diretriz internacional posiciona a metformina isolada para adultas com índice de massa corporal maior ou igual a 25 kg/m², visando desfechos antropométricos e metabólicos.

Duas advertências que a prova cobra. A primeira: metformina não trata hirsutismo — o PCDT afirma isso de forma direta, e seu uso não é recomendado para essa finalidade. A segunda: metformina não é contraceptiva e pode induzir ciclos ovulatórios, de modo que é preciso garantir contracepção em quem não deseja gestar.

O mioinositol, na dose de 4 a 8 g por dia, aparece no protocolo da Febrasgo como alternativa à metformina no tratamento da intolerância à glicose e da resistência insulínica; a diretriz internacional o coloca como opção baseada em preferência da paciente, reconhecendo dano limitado, possível melhora de medidas metabólicas e benefício clínico limitado. Não é substituto do estilo de vida.

As tiazolidinedionas são um ponto em que os documentos não coincidem. O PCDT não recomenda rosiglitazona nem pioglitazona em mulheres com SOP, por ausência de superioridade sobre a metformina, ganho de peso por retenção hídrica e potencial teratogênico. O protocolo da Febrasgo de 2025 ainda lista a pioglitazona, 15 a 45 mg por dia, entre os fármacos usados para corrigir a resistência insulínica. Em cenário de SUS, a régua que rege a dispensação é a do PCDT.

Para obesidade associada, a Febrasgo cita liraglutida 0,6 a 3 mg por dia por via subcutânea e semaglutida 0,25 a 2 mg por semana por via subcutânea, ou 3 a 14 mg por dia por via oral; a diretriz internacional inclui liraglutida, semaglutida e orlistate como opções somadas à intervenção de estilo de vida. A cirurgia bariátrica é opção para quem falha no controle clínico da obesidade, seguindo os critérios adotados no SUS, e a gravidez deve ser desaconselhada durante a fase de perda de peso, por pelo menos 12 meses após a cirurgia.

Quem deseja engravidar: indução da ovulação

A subfertilidade da SOP é anovulatória, e o tratamento é induzir ovulação depois de descartados outros fatores de infertilidade — o que inclui avaliar o parceiro e a permeabilidade tubária. Antes disso, aconselhamento pré-concepcional: controle de peso, cessação de tabaco e álcool, e as medidas preventivas indicadas a qualquer gestante.

A diretriz internacional de 2023 é categórica: o letrozol deve ser o tratamento farmacológico de primeira linha para indução de ovulação em mulheres inférteis anovulatórias com SOP, sem outros fatores de infertilidade. O protocolo da Febrasgo reconhece a posição — letrozol 2,5 a 7,5 mg por dia — e registra o obstáculo brasileiro: no Brasil, o uso do letrozol como indutor da ovulação é off-label, embora seja considerado fármaco de primeira linha por sociedades como a americana de medicina reprodutiva e a europeia de reprodução humana e embriologia, e reforçado pela atualização da diretriz internacional. O citrato de clomifeno, 50 mg por dia por cinco dias a partir do terceiro ao quinto dia do ciclo, com escalonamento na ausência de resposta ovulatória, é a alternativa registrada e a mais usada na rede pública.

Início mais precoce que o terceiro dia pode gerar desenvolvimento folicular múltiplo. A monitorização segue um roteiro: ultrassom antes da indução, sobretudo no primeiro ciclo; novo exame entre o 11º e o 13º dia para identificar o folículo pré-ovulatório; e outro após 48 a 72 horas para confirmar sinais de ovulação. Com folículo dominante de diâmetro médio maior ou igual a 18 mm, é facultativo usar gonadotrofina coriônica para desencadear a ovulação. A resposta se confirma dosando progesterona duas semanas após o último comprimido. Recomendam-se pelo menos três ciclos de tentativa a cada mudança de dose, e alcançada a dose ovulatória com fase lútea normal não há ganho em aumentá-la.

Se não houver resposta ovulatória com o indutor isolado, associa-se metformina ou mioinositol. Em mulheres com índice de massa corporal maior ou igual a 30 kg/m² nas quais não foi possível perder peso antes, essa associação melhora taxas de ovulação, gestação e nascidos vivos; o uso prévio de metformina isolada por pelo menos três meses, seguido de indução, é outra opção. Falhando os medicamentos, entram gonadotrofinas em dose inicial de 75 UI por dia e as técnicas de reprodução assistida. O drilling ovariano por videolaparoscopia permanece como opção de resgate, com efeito temporário; a ressecção cuneiforme dos ovários foi abandonada porque troca uma infertilidade endócrina por outra, tuboperitoneal, causada por aderências.

Vale registrar o limite de escopo: o PCDT do Ministério da Saúde não cobre indução de ovulação. Sua lista de fármacos tem apenas anticoncepcional combinado, progestagênios, ciproterona e metformina. Quem responde por indução de ovulação e reprodução assistida no SUS é o serviço especializado, por outra via — o que explica por que uma questão ambientada em unidade básica de saúde raramente terá letrozol como resposta.

Monitoramento e risco de longo prazo

Em uso de anticoncepcional combinado, o PCDT recomenda reavaliação após 3 meses e, depois, a cada 6 meses. Espera-se sangramento de privação nas pausas e redução progressiva do hirsutismo. Avaliam-se peso, índice de massa corporal e circunferência da cintura, além de eventos adversos como elevação da pressão arterial, desconforto mamário, cefaleia e varizes. A testosterona sérica, dosada anualmente, deve estar mais baixa que antes do tratamento. Fatores de risco cardiometabólicos são reavaliados anualmente, sobretudo em quem está apenas com mudança de estilo de vida, associada ou não a metformina. Quem usa espironolactona precisa de controle do potássio sérico.

O PCDT define quando encaminhar ao serviço especializado em endocrinologia: diagnóstico que não se firma, comorbidades metabólicas, hirsutismo grave, sinais de virilização ou testosterona acima de 2 desvios-padrão do valor de referência do método.

O tratamento é contínuo enquanto a mulher não deseja gestar. A taxa de recorrência do hirsutismo em até 6 meses após a suspensão chega a 80%. Em quem mudou o estilo de vida e perdeu peso, a metformina pode ser suspensa. Desejo de engravidar é indicação de suspensão, ainda que temporária.

Sobre câncer, o dado a decorar é um só: o câncer de endométrio é três vezes mais prevalente em mulheres com anovulação crônica, e o uso de anticoncepcional combinado por 4 a 12 anos reduz esse risco em 50% a 70%. Mama e ovário não parecem mais prevalentes na SOP, e o rastreamento dessas duas neoplasias segue o da população geral. A diretriz internacional acrescenta a outra metade da regra: as mulheres devem ser informadas do risco endometrial aumentado, mas o risco absoluto é baixo e rastreamento de rotina não está recomendado. Ou seja — protege-se o endométrio com ciclo regular ou progestagênio, não com ultrassom anual.

Sobre risco cardiovascular, convém não exagerar na prova. O PCDT registra que mulheres com SOP têm maior prevalência de fatores de risco — resistência insulínica, diabetes, hipertensão, dislipidemia, síndrome metabólica — mas que os estudos mais bem delineados não demonstram incidência aumentada da maioria dos desfechos duros, como infarto e doença arterial coronariana, sendo a evidência de baixa qualidade. Há evidência mais confiável associando SOP a maior risco de eventos tromboembólicos, mesmo ajustado para uso de contraceptivos e índice de massa corporal — informação relevante justamente na hora de escolher o combinado.

04

Critérios de Rotterdam, fenótipos e exclusões

Rotterdam exige dois de três critérios, depois de excluídas as outras causas de hiperandrogenismo e de oligo/amenorreia. A combinação dos critérios presentes define o fenótipo, e o fenótipo estima a carga metabólica. Os três consensos históricos diferem em quais critérios tornam obrigatórios.

  1. 1Caracterize o ciclo: menos de 8 a 9 ciclos por ano, ou intervalos menores que 21 ou maiores que 35 dias, contando os anos desde a menarca
  2. 2Procure hiperandrogenismo clínico (hirsutismo pelo Ferriman-Gallwey, acne, alopecia androgênica) e, se necessário, laboratorial (testosterona total e livre)
  3. 3Exclua as outras causas: prolactina, TSH, 17-alfa-hidroxiprogesterona, sulfato de deidroepiandrosterona e, só com suspeita clínica, rastreio de Cushing
  4. 4Peça o ultrassom apenas se ele for mudar a conduta: quando dois critérios já estão presentes, ele não é necessário — e não deve ser usado antes de 8 anos da menarca
  5. 5Confirme dois dos três critérios e nomeie o fenótipo (A a D)
  6. 6Rastreie o risco metabólico na mesma consulta: glicemia ou teste oral de tolerância à glicose, perfil lipídico e pressão arterial
  7. 7Defina a rota terapêutica pela pergunta que muda tudo: a mulher deseja engravidar agora?

Fenótipo A — hiperandrogenismo + anovulação + ovários policísticos

Fenótipo completo e o mais prevalente nos serviços de referência. Repercussão endócrina, reprodutiva e metabólica mais grave.

Fenótipo B — hiperandrogenismo + anovulação, sem ovários policísticos

Ultrassom normal não afasta o diagnóstico. Carga metabólica tão alta quanto a do fenótipo A: o que pesa é o hiperandrogenismo somado à anovulação.

Fenótipo C — hiperandrogenismo + ovários policísticos, com ciclos regulares

Chamado de fenótipo ovulatório. Repercussão metabólica intermediária, menor que a dos fenótipos com anovulação.

Fenótipo D — anovulação + ovários policísticos, sem hiperandrogenismo

Fenótipo não hiperandrogênico, o de menor repercussão metabólica. É o mais dependente do ultrassom — e, por isso, o mais sensível à mudança do corte de folículos.

Critério de RotterdamPCDT do Ministério da Saúde (2019)Febrasgo (2025) e diretriz internacional (2023)
Alteração do ciclo menstrual9 ciclos ou menos no período de um anoMenos de 21 ou mais de 35 dias, ou menos de 8 ciclos no ano, de 3 anos pós-menarca à perimenopausa; qualquer ciclo acima de 90 dias já é anormal
Hiperandrogenismo clínicoAcne, hirsutismo ou alopecia de padrão androgênicoHirsutismo pelo Ferriman-Gallwey maior ou igual a 6 na maioria das etnias (maior ou igual a 4 em asiáticas orientais); hirsutismo isolado já prediz hiperandrogenemia na adulta
Hiperandrogenismo laboratorialElevação de pelo menos um androgênio: testosterona total, androstenediona ou sulfato de deidroepiandrosteronaTestosterona total e livre (índice de androgênios livres), preferencialmente por espectrometria de massas em tandem
Morfologia ovariana ao ultrassomMais de 12 folículos de 2 a 9 mm em pelo menos um ovário, ou volume ovariano maior ou igual a 10 cm³20 folículos ou mais no ovário inteiro (ou 12 em uma secção), de 2 a 9 mm, e/ou volume maior ou igual a 10 cm³; via transvaginal é a mais acurada
Alternativa ao ultrassomHormônio antimülleriano não pode ser recomendado em substituição ao ultrassomHormônio antimülleriano aceito como alternativa em adultas, nunca como teste isolado e sem ponto de corte estabelecido
AdolescenteExige os três componentes, de 2 anos pós-menarca até 19 anos incompletos; pode-se postergar o diagnóstico para depois dos 18 anos e tratar os sintomasUltrassom e hormônio antimülleriano não entram; diagnóstico clínico (anovulação + hiperandrogenismo), revisto após 8 anos da menarca

Os três consensos diagnósticos e o que cada um torna obrigatório

ConsensoExigênciaEfeito prático
NIH (1990)Hiperandrogenismo e oligo/amenorreia, ambos obrigatórios; sem definição de ultrassomO mais restritivo: reconhece apenas os fenótipos A e B
Rotterdam (2003)Pelo menos dois dos três critériosO mais inclusivo e o adotado pelo Ministério da Saúde, pela Febrasgo e pela diretriz internacional de 2023; reconhece os quatro fenótipos
AE-PCOS Society (2009)Hiperandrogenismo obrigatório, associado a pelo menos um dos outros doisPosição intermediária: exclui o fenótipo D, não hiperandrogênico

Fenótipos de Rotterdam e carga metabólica

FenótipoHiperandrogenismoAnovulaçãoOvários policísticos ao ultrassomRepercussão metabólica
ASimSimSimMais grave
BSimSimNãoMais grave
CSimNãoSimIntermediária
DNãoSimSimMenor

Exames para excluir outras causas antes de firmar o diagnóstico

Condição a excluirExame
HiperprolactinemiaProlactina sérica
Doença tireoidianaTSH (com T4 livre, pela Febrasgo)
Hiperplasia adrenal congênita não clássica (deficiência de 21-hidroxilase)17-alfa-hidroxiprogesterona
Tumor secretor de androgênios ou uso exógeno de anabolizantesTestosterona total e livre; sulfato de deidroepiandrosterona
Síndrome de Cushing (somente com suspeita clínica; não é rotina)Cortisol salivar às 23 horas ou supressão com 1 mg de dexametasona
Insuficiência ovariana primária (quando suspeitada)FSH

O que o PCDT do SUS oferece, por objetivo terapêutico

ObjetivoMedicamento e esquema
Regularizar o ciclo e proteger o endométrio, com contracepçãoEtinilestradiol 0,03 mg + levonorgestrel 0,15 mg, 1 comprimido/dia por 21 dias ao mês
Proteger o endométrio sem estrogênioAcetato de medroxiprogesterona 10 mg/dia por 10 a 12 dias do ciclo, ou noretisterona 0,35 mg/dia contínua
Hirsutismo moderado a graveAcetato de ciproterona 12,5, 25 ou 50 mg/dia em regime 21/7, associada ao anticoncepcional oral ou a outro método contraceptivo
Comorbidade metabólica ou irregularidade menstrual de segunda linhaMetformina 500 mg/dia após o jantar, aumentando até 2,55 g/dia (ou 1.000 mg 1 a 2 vezes/dia na liberação prolongada)
Obesidade refratária ao tratamento clínicoCirurgia bariátrica, pelos critérios adotados no SUS

Se dois critérios já estão presentes, o ultrassom não muda o diagnóstico — e a diretriz internacional diz isso de forma explícita para o hormônio antimülleriano: em mulher com ciclo irregular e hiperandrogenismo, ele não é necessário.

Nem relação LH/FSH, nem insulinemia, nem HOMA-IR, nem acantose nigricante são critérios diagnósticos. Acantose aparece em cerca de 18% das mulheres com resistência insulínica.

Ovário com folículo dominante de 10 mm ou mais, ou com corpo lúteo, não deve ser contado: repete-se o exame no ciclo seguinte, em fase folicular precoce; em amenorreia, aguardam-se 30 a 60 dias.

A ciproterona aparece em esquemas diferentes nos dois documentos brasileiros: 21/7 associada ao combinado no PCDT, e 50 mg/dia do 5º ao 14º dia do ciclo no protocolo da Febrasgo. Em ambos, a associação a método contraceptivo eficaz é obrigatória.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Quantos folículos definem o ovário policístico

Mais de 12 folículos de 2 a 9 mm em pelo menos um ovário, ou volume maior ou igual a 10 cm³

É o corte original do Consenso de Rotterdam de 2003, mantido no protocolo brasileiro que rege a dispensação no SUS. O próprio documento reconhece que a contagem sobe para mais de 25 folículos com aparelhos de maior resolução, e orienta usar o volume ovariano quando a contagem acurada for difícil.

PCDT da Síndrome de Ovários Policísticos, Ministério da Saúde, com base na Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 6, de 2 de julho de 2019

20 folículos ou mais no ovário inteiro (ou 12 em uma única secção), de 2 a 9 mm, e/ou volume maior ou igual a 10 cm³

A elevação do corte responde ao ganho de resolução dos transdutores: com aparelhos modernos, o limiar de 12 folículos passou a incluir ovários normais, e o critério perdeu especificidade. O documento brasileiro de 2025 incorporou a atualização internacional de 2023.

Protocolo Febrasgo de Ginecologia nº 45 (Femina 2025;53(12):1390-7), que adota a atualização NHMRC/ASRM/ESHRE de 2023

Na prova

A diferença é de data, não de mérito: o protocolo do Ministério da Saúde foi escrito em 2019 e a atualização internacional saiu em 2023. Enunciado que cite nominalmente o PCDT, a dispensação pelo SUS ou o protocolo de 2019 está no corpo brasileiro mais antigo; enunciado que cite a Febrasgo, a diretriz internacional, o consenso de 2023 ou que descreva ultrassonografia transvaginal de alta resolução está no corpo atualizado. As alternativas denunciam o recorte: se aparecem 12 e 20 como opções distintas, a questão está testando qual documento o candidato tem na cabeça — e a menção nominal no enunciado resolve. Quando nenhuma referência é citada, olhe o cenário: unidade básica e protocolo do SUS puxam para o corpo brasileiro do PCDT.

Hormônio antimülleriano como alternativa ao ultrassom

Não recomendado em substituição ao ultrassom

A boa correlação entre os níveis do hormônio e a contagem de folículos antrais é reconhecida, mas os estudos avaliados usaram técnicas distintas de quantificação e não estabeleceram pontos de corte conclusivos para positividade — daí a recusa em incorporá-lo como critério.

PCDT da Síndrome de Ovários Policísticos, Ministério da Saúde (2019/2020)

Aceito como alternativa ao ultrassom em adultas, nunca como teste isolado

A atualização de 2023 passou a admitir o hormônio para definir a morfologia policística em adultas, com duas travas: não serve como teste único de diagnóstico e não deve ser usado antes de 8 anos da menarca. O documento brasileiro de 2025 acompanha, mas registra que o valor de corte ainda não está bem estabelecido.

Diretriz internacional baseada em evidências de 2023 (J Clin Endocrinol Metab 2023;108(10):2447-69) e Protocolo Febrasgo nº 45 (2025)

Na prova

Ambos os lados dizem a mesma coisa sobre o ponto de corte — que ele não está estabelecido — e tiram conclusões opostas: o documento de 2019 conclui pela não incorporação, e os de 2023 e 2025 concluem pela incorporação como alternativa. Vocabulário denuncia o recorte: enunciado que fale em substituto do ultrassom em adulta com dificuldade técnica de contagem folicular vem do corpo atualizado; enunciado ambientado em dispensação pelo SUS ou que liste os exames do protocolo do Ministério da Saúde vem do corpo de 2019. Distrator recorrente em qualquer dos mundos: usar o hormônio isoladamente para diagnosticar — nenhum documento admite isso.

Diagnóstico na adolescente: o ultrassom entra ou não

Exigir os três componentes de Rotterdam, incluindo o ultrassom, dos 2 anos pós-menarca aos 19 anos incompletos

A escolha por maior rigor parte do reconhecimento explícito de que a evidência é de baixo nível e de que os sinais da SOP se sobrepõem aos da puberdade normal. Como salvaguarda contra o subdiagnóstico, o mesmo documento autoriza postergar o diagnóstico para depois dos 18 anos completos e, enquanto isso, tratar os sintomas como distúrbio menstrual e hirsutismo.

PCDT da Síndrome de Ovários Policísticos, Ministério da Saúde (2019/2020)

Não usar morfologia ovariana ao ultrassom nem hormônio antimülleriano; diagnóstico clínico revisto 8 anos após a menarca

O ovário da adolescente é multifolicular por fisiologia e o exame transabdominal, comum nessa faixa, tem desempenho inferior ao transvaginal. Retirar a imagem do critério evita sobrediagnóstico; a contrapartida é a categoria de risco aumentado, para quem tem características sem preencher critérios, com reavaliação programada.

Protocolo Febrasgo nº 45 (2025) e diretriz internacional baseada em evidências de 2023

Na prova

Documento brasileiro contra documento brasileiro, e o alvo do rigor é oposto: o texto de 2019 sobe a barra exigindo os três critérios, o de 2025 baixa a barra tirando a imagem. Os dois evitam o mesmo erro por caminhos diferentes. O enunciado costuma entregar o recorte com a idade e o tempo pós-menarca: quando o texto informa quantos anos se passaram desde a menarca, está cobrando a régua dos 8 anos do corpo atualizado. Quando fala em protocolo do Ministério da Saúde ou em faixa de 2 anos pós-menarca até 19 anos, está no corpo de 2019. Em qualquer dos dois, tratar sintoma sem esperar rótulo é conduta comum às duas posições.

Primeira linha para indução de ovulação

Letrozol como primeira linha farmacológica

Recomendação categórica para mulheres inférteis anovulatórias com SOP sem outros fatores de infertilidade, na dose de 2,5 a 7,5 mg por dia por cinco dias. É a posição da diretriz internacional de 2023 e das sociedades americana e europeia de reprodução.

Diretriz internacional baseada em evidências de 2023 (J Clin Endocrinol Metab 2023;108(10):2447-69), reconhecida no Protocolo Febrasgo nº 45 (2025)

Citrato de clomifeno como fármaco registrado para a indicação no Brasil

O documento brasileiro de 2025 registra que o uso do letrozol como indutor da ovulação é off-label no Brasil, e mantém o citrato de clomifeno entre os indutores de uso corrente, iniciado do terceiro ao quinto dia do ciclo por cinco dias, com escalonamento na ausência de resposta ovulatória. O PCDT do Ministério da Saúde não cobre indução de ovulação: sua lista de fármacos tem apenas combinado, progestagênios, ciproterona e metformina.

Protocolo Febrasgo nº 45 (Femina 2025) e PCDT da Síndrome de Ovários Policísticos, Ministério da Saúde (2019/2020)

Na prova

Aqui a divergência não é de evidência — é de registro sanitário e de escopo de protocolo: a superioridade do letrozol é aceita nos dois lados, mas a indicação em bula no Brasil não acompanhou. Enunciado que cite a diretriz internacional, sociedades de reprodução ou ambiente de centro de reprodução assistida está no corpo internacional. Enunciado ambientado em unidade básica, ambulatório do SUS ou que pergunte qual fármaco tem indicação aprovada no país está no corpo brasileiro. As alternativas ajudam: se clomifeno e letrozol aparecem juntos, a palavra que decide costuma estar no enunciado (off-label, primeira linha, aprovado, disponível na rede).

06

Caso resolvido

Mulher de 27 anos procura a unidade básica de saúde por dificuldade para engravidar há 14 meses. Menarca aos 12 anos; desde então, menstrua a cada 50 a 70 dias, com 5 a 6 episódios por ano. Refere aumento de pelos no buço, queixo e região periareolar nos últimos anos, com necessidade de depilação quinzenal, e acne no dorso. Índice de massa corporal 31 kg/m², circunferência abdominal 96 cm, acantose nigricante em nuca. Sem galactorreia, sem estrias violáceas, voz e clitóris normais. Traz ultrassonografia transvaginal recente: ovário direito com 16 folículos de 2 a 8 mm e volume de 11,4 cm³; ovário esquerdo com 14 folículos e volume de 9,8 cm³.
achado
Dois critérios de Rotterdam já estão presentes de forma inequívoca: alteração do ciclo (5 a 6 ciclos por ano, intervalos acima de 35 dias) e hiperandrogenismo clínico (hirsutismo com necessidade de depilação frequente e acne). O diagnóstico não depende do terceiro.
leitura do ultrassom
A contagem de 16 folículos cai justamente na faixa em que as duas réguas discordam: preenche o critério pelo corte de mais de 12 do PCDT e não preenche pelo corte de 20 ou mais da Febrasgo e da diretriz internacional. Mas o volume ovariano direito de 11,4 cm³ ultrapassa 10 cm³, e esse limiar é idêntico nos dois documentos. De todo modo, com dois critérios já cumpridos, o exame não altera a conduta.
exclusão
Antes de firmar o diagnóstico, solicitar prolactina, TSH, 17-alfa-hidroxiprogesterona e testosterona total. Ausência de galactorreia, de estigmas cushingoides e de virilização torna improváveis prolactinoma, síndrome de Cushing e tumor produtor de androgênios; rastreio de Cushing não é rotina e só se faz com suspeita clínica.
risco metabólico
Obesidade, acantose nigricante e circunferência aumentada indicam rastreio metabólico na mesma consulta: teste oral de tolerância à glicose com 75 g — o exame mais acurado para o status glicêmico segundo a diretriz internacional, e previsto no PCDT para obesas ou com história familiar de diabetes — além de perfil lipídico e aferição da pressão arterial.
fenótipo
Hiperandrogenismo com anovulação, com ou sem morfologia policística: fenótipo A ou B. Ambos carregam a repercussão endócrina, reprodutiva e metabólica mais grave — o que reforça a prioridade da abordagem metabólica.
conduta
Ela deseja engravidar, e essa pergunta reordena tudo: nada de anticoncepcional combinado. Primeiro passo é mudança de estilo de vida com meta de perda de 5% a 10% do peso, associada a aconselhamento pré-concepcional (ácido fólico, cessação de tabaco e álcool). Descartados fatores masculino e tuboperitoneal, indica-se indução da ovulação — letrozol como primeira linha pela diretriz internacional, com a ressalva de ser off-label no Brasil, ou citrato de clomifeno, iniciando do terceiro ao quinto dia do ciclo por cinco dias. Com índice de massa corporal acima de 30 e sem perda de peso prévia, associar metformina ou mioinositol ao indutor melhora as taxas de ovulação, gestação e nascidos vivos. Encaminhar ao serviço especializado, já que indução de ovulação está fora do escopo do PCDT.
07

Agora feche você

Adolescente de 16 anos, menarca aos 13, trazida pela mãe por ciclos irregulares e pelos no rosto. Menstrua a cada 55 a 80 dias desde a menarca, com dois episódios de 4 meses sem menstruar no último ano. Ao exame: pelos terminais pigmentados em buço, queixo e linha alba, índice de Ferriman-Gallwey de 9; acne inflamatória moderada em face e dorso; índice de massa corporal 29 kg/m²; sem clitoromegalia, sem alteração de voz. Prolactina, TSH e 17-alfa-hidroxiprogesterona normais. A mãe pergunta se não seria melhor fazer o ultrassom para confirmar de uma vez.
achado
Estão presentes anovulação crônica (ciclos de 55 a 80 dias e dois períodos de amenorreia de 4 meses, muito além do limite de 90 dias para um ciclo isolado) e hiperandrogenismo clínico (Ferriman-Gallwey 9, acima do corte de 6, com acne moderada). As causas de exclusão principais já foram afastadas.
tempo pós-menarca
São 3 anos desde a menarca — bem menos que os 8 anos exigidos para que ultrassonografia e hormônio antimülleriano tenham especificidade aceitável.
conduta
08

Onde a banca derruba

  1. 1Tratar o ultrassom como exame confirmatório O achado de ovário policístico é um dos três critérios, e sozinho não diagnostica nada — mulheres sem SOP têm essa morfologia. Do outro lado, ultrassom normal não afasta o diagnóstico: o fenótipo B é justamente hiperandrogenismo com anovulação e ovários normais à imagem. Quando dois critérios já estão presentes, o exame não muda a conduta.
  2. 2Usar o corte de 12 folículos sem olhar de que documento veio a pergunta O número mudou de mais de 12 para 20 ou mais entre o protocolo do Ministério da Saúde, de 2019, e o protocolo da Febrasgo, de 2025, que incorporou a atualização internacional de 2023. Decorar um número só garante errar metade das questões. O que não mudou nos dois documentos é o volume ovariano de 10 cm³ e a faixa de 2 a 9 mm dos folículos — quando o enunciado dá o volume, ele costuma estar dando a saída.
  3. 3Pedir ultrassom ou hormônio antimülleriano na adolescente recém-menarca O ovário jovem é multifolicular por fisiologia, e os dois exames só têm especificidade aceitável 8 anos após a menarca. Pedi-los antes disso é fabricar sobrediagnóstico — e a adolescente carrega o rótulo por décadas.
  4. 4Prescrever metformina para hirsutismo A metformina reduz a secreção de androgênios, mas não exerce efeito sobre o hirsutismo, e o PCDT diz isso com todas as letras: seu uso não é recomendado para essa condição. Hirsutismo moderado a grave se trata com anticoncepcional combinado associado a antiandrogênio, mais medidas cosméticas.
  5. 5Confundir relação LH/FSH, insulinemia ou HOMA-IR com critério diagnóstico Nenhum dos três entra em Rotterdam. Servem para caracterizar o quadro metabólico e orientar tratamento. A alternativa que oferece a relação LH/FSH maior que 2 como critério é distrator clássico, e sobrevive porque o achado é comum na síndrome.
  6. 6Iniciar antiandrogênio sem contracepção garantida Antiandrogênio isolado pode causar distúrbio do desenvolvimento sexual em feto masculino. Por isso vem associado ao anticoncepcional combinado; se o combinado for contraindicado, é preciso um método eficaz alternativo — a metformina, que costuma entrar nesse cenário, não é contraceptiva e ainda pode restaurar ciclos ovulatórios.
  7. 7Julgar resposta do hirsutismo em 2 ou 3 meses O ciclo do pelo impõe o prazo: a avaliação de resposta se faz após pelo menos 6 meses, e o tratamento pode estender-se por 24 meses ou mais. Trocar de fármaco antes disso é trocar sem informação — e a recorrência após suspender chega a 80% em 6 meses.
  8. 8Rastrear câncer de endométrio de rotina na SOP O risco é real — o câncer de endométrio é três vezes mais prevalente na anovulação crônica — mas o risco absoluto é baixo e a diretriz internacional afirma que rastreamento de rotina não está recomendado. A proteção se faz com ciclo regularizado por combinado (que reduz o risco em 50% a 70% quando usado por 4 a 12 anos), progestagênio ou sistema intrauterino com levonorgestrel. Mama e ovário seguem o rastreamento da população geral.
  9. 9Ignorar virilização por já ter o rótulo de SOP Clitoromegalia, engrossamento de voz, calvície temporal e aumento de massa muscular são infrequentes na SOP e apontam para neoplasia produtora de androgênios, ovariana ou adrenal. O PCDT inclui virilização e testosterona acima de 2 desvios-padrão do valor de referência entre as indicações formais de encaminhamento ao especialista.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Correta: Rotterdam exige 2 de 3 critérios (oligo/anovulação; hiperandrogenismo clínico/laboratorial; ovários policísticos à USG), após exclusão de outras causas. A paciente tem os três (oligomenorreia, hirsutismo/acne, morfologia policística), com TSH/prolactina/17-OHP normais afastando diferenciais — logo, SOP. A relação LH/FSH não faz parte dos critérios de Rotterdam. Biópsia ovariana não é necessária. 17-OHP normal afasta hiperplasia adrenal não clássica.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

Sorteando as questões…

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Plano de revisão

em 7 dias

Recite os três critérios de Rotterdam e quantos são necessários; diga os dois cortes ultrassonográficos (o do PCDT de 2019 e o da Febrasgo de 2025) e o volume ovariano que os dois compartilham; liste os quatro exames de exclusão obrigatórios; e responda: qual é a primeira linha para quem não deseja gestar e qual é para quem deseja?

em 30 dias

Monte o algoritmo inteiro em voz alta a partir de uma frase: mulher de 24 anos com ciclos de 60 dias e hirsutismo. Percorra critérios, exclusões, fenótipo, rastreio metabólico e as duas rotas de tratamento com doses. Depois refaça a mesma paciente com 16 anos e 3 anos de menarca, e diga o que muda em cada régua brasileira. Por fim, explique por que metformina não trata hirsutismo e por que antiandrogênio nunca vai sozinho.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Mulher de 25 anos vem ao ambulatório de ginecologia queixando-se de menstruações muito espaçadas, que ocorrem a cada dois ou três meses desde a adolescência, e de aumento progressivo de pelos no rosto e no abdome, que a incomoda bastante. Ganhou 9 kg nos últimos dois anos. Não usa anticoncepcional e não deseja engravidar no momento. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Síndrome dos ovários policísticos — Preparatório para provas | OsceLabs