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Miomatose uterina

A prova dá uma mulher que sangra, um laudo de ultrassonografia e um projeto reprodutivo — e cobra que você transforme os três em UMA conduta: expectante, medicamento, histeroscopia, cirurgia ou embolização. Desde janeiro de 2026, o SUS tem duas armas novas (ácido tranexâmico e DIU-LNG) e a banca sabe disso.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Mulher de 41 anos, com prole constituída, queixa-se de sangramento menstrual intenso há 1 ano, com anemia (Hb 9,4 g/dL). Ultrassonografia transvaginal mostra útero aumentado com múltiplos miomas intramurais, o maior de 4 cm, sem componente submucoso e sem distorção da cavidade endometrial. Deseja preservar o útero e não deseja mais gestar. Já usou anticoncepcional oral combinado sem melhora. Qual é a opção terapêutica mais adequada para o controle do sangramento?

02

Como esse tema cai

O mioma é o tumor benigno mais comum do aparelho reprodutor feminino, e é exatamente por isso que a prova não pergunta 'o que é' — pergunta 'o que fazer'. As questões se concentram em quatro decisões: reconhecer que a maioria das portadoras não precisa de tratamento nenhum; localizar o nódulo pela classificação FIGO e ligar cada localização ao seu sintoma (submucoso sangra, subseroso comprime); escolher a conduta cruzando três variáveis — sintoma, desejo reprodutivo e tamanho/localização; e não cair nas armadilhas de sempre: operar assintomática, tratar mioma com análogo de GnRH 'para sempre', colocar DIU hormonal em cavidade deformada e culpar o mioma por uma infertilidade que não é dele.

Há um motivo para este capítulo ser mais atual do que o costume: a régua brasileira está trocando de mãos neste exato momento. O PCDT vigente é de 2017 e só admitia tratamento medicamentoso quando havia contraindicação à cirurgia. Em 8 de janeiro de 2026, a Portaria SCTIE/MS nº 101 incorporou ao SUS o ácido tranexâmico e o DIU de levonorgestrel 52 mg para o sangramento intenso do leiomioma, e em abril de 2026 a Conitec pôs em consulta pública o novo PCDT, que assume a classificação FIGO, aceita medicamento como opção inicial e reabilita a embolização das artérias uterinas com ressalvas. Banca que cobra 'conduta no SUS' vai beber dessa transição — e este capítulo ensina os dois lados dela, com os anos de cada documento.

O peso é alto em todas as trilhas: vinheta de sangramento uterino anormal com achado ultrassonográfico é clássico de acesso direto, e a decisão histeroscopia × histerectomia × embolização por desejo reprodutivo é figurinha carimbada de segunda fase e de prova oral.

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O que muda decisão

O tumor de quase todas: epidemiologia e história natural

Leiomiomas (miomas, fibromas) são tumores benignos monoclonais originados do músculo liso do miométrio. A prevalência depende de quem procura e como: estudos ultrassonográficos encontram miomas em até 70% das mulheres brancas e 80% das negras entre 35 e 49 anos, mas só 30% a 50% das portadoras desenvolvem sintomas — a maioria carrega o tumor sem saber e sem precisar saber. As sintomáticas concentram-se na 4ª e 5ª décadas, com pico de incidência próximo aos 50 anos.

Os fatores de risco contam uma história hormonal: idade reprodutiva avançada, menarca precoce e menopausa tardia (mais ciclos, mais estímulo), obesidade, história familiar, hipertensão e dieta rica em carne vermelha aumentam o risco; multiparidade e uso de anticoncepcional oral combinado protegem. Etnia é o fator mais cobrado: mulheres negras têm mais miomas, mais cedo, mais volumosos e mais sintomáticos. O crescimento é dependente de esteroides gonadais — por isso o mioma é doença do menacme, cresce na gestação e involui espontaneamente após a menopausa. Crescimento novo depois da menopausa não é comportamento de mioma e obriga a pensar em diagnóstico diferencial, incluindo leiomiossarcoma.

A degeneração é o preço do crescimento: quando o tumor ultrapassa seu suprimento vascular, sofre necrose parcial. A forma clássica da gestação é a degeneração vermelha (rubra), por infarto hemorrágico do nódulo — dor aguda localizada sobre o mioma, às vezes com febre baixa e leucocitose, tipicamente no segundo trimestre. A conduta é conservadora, com analgesia; operar mioma na gestação é exceção reservada a emergências, e a torção de mioma subseroso pediculado é a principal delas.

Classificação FIGO: o endereço decide o sintoma e a via

A classificação da FIGO (Munro e colaboradores), adotada pelo novo PCDT, numera o mioma de 0 a 8 conforme a relação com endométrio e serosa. A lógica é uma régua que atravessa a parede uterina: 0, 1 e 2 são submucosos (0 = intracavitário pediculado; 1 = menos de 50% intramural; 2 = 50% ou mais intramural); 3 e 4 são intramurais (3 = 100% intramural mas tocando o endométrio; 4 = intramural puro); 5, 6 e 7 são subserosos (5 = 50% ou mais intramural; 6 = menos de 50% intramural; 7 = subseroso pediculado); 8 é o resto (cervical, parasita). O híbrido que atravessa a parede inteira ganha dois números — '2-5' é o mioma que toca a cavidade e a serosa ao mesmo tempo.

Decorar a tabela vale pouco sem a correlação clínica, que é o que a prova cobra. Submucoso (0-2) é o que mais sangra e o que mais atrapalha a fertilidade, porque deforma a cavidade endometrial — e é também o único que a histeroscopia alcança. Intramural (3-4) sangra e dá volume. Subseroso (5-7) quase não altera menstruação: seu idioma é compressão — bexiga na frente (polaciúria, urgência), reto atrás (constipação), e o pediculado (7) é o que torce. Essa mesma régua decide contracepção intrauterina: mioma que deforma a cavidade (submucoso ou intramural deformante) contraindica o DIU-LNG e aumenta expulsão e falha.

No sangramento uterino anormal, o mioma é o L do PALM-COEIN (Protocolo Febrasgo nº 80): causa estrutural, visível ao exame de imagem. A Febrasgo lembra o detalhe que derruba candidato — encontrar um mioma na ultrassonografia não prova que ele é a causa do sangramento. Um subseroso pediculado não explica hipermenorreia; antes de pendurar a culpa nele, o resto do PALM-COEIN precisa ser varrido.

Corte coronal do útero com nódulos de mioma em todas as posições da classificação FIGO: intracavitário pediculado, submucoso, intramural, subseroso e subseroso pediculado.
A régua FIGO atravessa a parede: 0-2 submucosos (sangram e atrapalham fertilidade), 3-4 intramurais (sangram e dão volume), 5-7 subserosos (comprimem), 8 os demais. O número é o endereço — e o endereço decide a via de tratamento.

Quadro clínico: sangue, volume e reprodução

O sintoma cardinal é o sangramento uterino aumentado — menstruação abundante e/ou prolongada, no padrão que a FIGO chama de sangramento menstrual intenso (a definição laboratorial clássica é perda igual ou maior que 80 mL por ciclo; na clínica, vale o volume que a própria mulher refere como excessivo). A consequência silenciosa é a anemia ferropriva, que deve ser procurada com hemograma em toda paciente que sangra. Quem mais sangra é o submucoso; tamanho é fator secundário.

O segundo bloco de sintomas é de massa: dor ou peso pélvico, aumento do volume abdominal, polaciúria e urgência por compressão vesical, raramente constipação por compressão retal. Dor aguda é exceção e significa complicação — degeneração ou torção de pedículo, com dor localizada, febre, leucocitose e até irritação peritoneal, simulando abdome agudo.

No terreno reprodutivo, a ovulação não é afetada, mas o mioma — sobretudo o que deforma a cavidade — se associa a abortamento, implantação anômala da placenta, sangramento de terceiro trimestre, trabalho de parto pré-termo, apresentação pélvica, rotura prematura de membranas, retenção placentária e mais cesariana. O PCDT faz uma ressalva de ouro para a prova: em paciente cuja queixa é infertilidade, mioma e infertilidade podem ser diagnósticos paralelos, não causa e efeito — a investigação do casal (fator ovulatório, tubário e masculino) continua obrigatória antes de atribuir a culpa ao nódulo.

Diagnóstico: toque, ultrassonografia e quando pedir ressonância

A suspeita nasce no exame físico: útero aumentado, de contornos irregulares (bosselado), endurecido e móvel ao toque bimanual — a mobilidade preservada ajuda a diferenciar de processos infiltrativos e aderenciais. A confirmação é de imagem: a ultrassonografia transvaginal é o método de primeira escolha, com sensibilidade de 95% a 100%, complementada pela via abdominal quando o útero é volumoso demais para a janela vaginal.

A ressonância magnética não é exame de rotina. Ela entra em cenários definidos: útero muito volumoso ou com múltiplos nódulos que a ultrassonografia não consegue mapear, planejamento pré-operatório de miomectomia, diferenciação entre mioma e adenomiose e suspeita de degeneração atípica ou de leiomiossarcoma. A histeroscopia enxerga a cavidade — é o padrão para caracterizar o componente intracavitário do submucoso e já pode ser terapêutica no mesmo tempo.

Completam a avaliação o hemograma (anemia ferropriva) e a exclusão das demais causas de sangramento do PALM-COEIN conforme a clínica: teste de gravidez em idade fértil, TSH, prolactina e coagulograma quando a história sugerir, e biópsia endometrial ou histeroscopia quando houver suspeita de doença endometrial. Dois nãos importantes: não existe rastreamento de mioma em assintomática, e o achado incidental não cria obrigação de seguimento radiológico seriado — a vigilância da assintomática é clínica, com imagem apenas quando indicada.

Tratamento clínico: do nada ao análogo, passando pela novidade de 2026

A primeira decisão terapêutica é não tratar: mioma assintomático não requer tratamento específico, apenas vigilância periódica — em qualquer tamanho que não gere sintoma nem outra indicação. Esse princípio atravessa o PCDT de 2017, a proposta de 2026 e qualquer banca séria.

Para a sintomática que quer preservar o útero ou evitar cirurgia, o arsenal clínico se divide em não hormonal e hormonal. No não hormonal: AINEs para dor e redução parcial do fluxo, e o ácido tranexâmico — antifibrinolítico usado só nos dias de fluxo (1 g, 3 a 4 vezes ao dia, por 3 a 5 dias), que reduz a perda menstrual em torno de 25% a 40% contra placebo nos ensaios que embasaram a incorporação. Ele não mexe em hormônio, não reduz o volume do mioma e não afeta fertilidade; é contraindicado com tromboembolismo ativo e exige cautela em alto risco trombótico. Pela Portaria nº 101/2026, entrou no SUS para sangramento intenso do leiomioma em quem é inelegível ou refratária ao tratamento hormonal.

No hormonal: contraceptivo oral combinado (etinilestradiol 0,03 mg + levonorgestrel 0,15 mg é o disponível no SUS) e progestagênios (medroxiprogesterona oral 2,5 a 10 mg/dia ou injetável trimestral) controlam o sangramento, mas não reduzem o volume do mioma. O DIU-LNG 52 mg — a outra incorporação de 2026, para quem é elegível à terapia hormonal — libera levonorgestrel direto no endométrio, reduz fluxo e anemia com eficácia sustentada por até 8 anos, e na contribuição da Febrasgo à consulta pública chega a reduzir o fluxo em até 95%. Sua fronteira é anatômica: cavidade uterina deformada por mioma (submucosos FIGO 0-2 ou intramural deformante) contraindica o dispositivo, por expulsão e falha.

Os análogos do GnRH (gosserrelina, leuprorrelina, triptorrelina — mensais ou trimestrais, injetáveis) são a artilharia: induzem hipogonadismo hipogonadotrófico, amenorreia e redução de 25% a 80% do volume uterino, com efeito máximo em cerca de 12 semanas. O preço é a menopausa química — fogachos e perda óssea — e a regra de devolução: suspendeu, o volume volta. Por isso o uso isolado se limita a 6 meses e o papel real é de ponte: preparo pré-operatório por até 3 meses quando o útero é muito volumoso ou é preciso recuperar a hemoglobina antes de operar. Com add-back therapy (estrogênio isolado ou com medroxiprogesterona), que preserva o benefício e amansa os efeitos adversos, o uso pode se estender até 1 ano, com densitometria ao final. Lá fora já existem antagonistas orais de GnRH (relugolix em combinação, linzagolix) aprovados por EMA e FDA — no Brasil, sem registro na Anvisa e fora do SUS.

Tratamento cirúrgico e embolização: quem opera, quem preserva, quem emboliza

A miomectomia é a cirurgia de quem quer manter o útero — por desejo reprodutivo ou por escolha. A via segue o endereço FIGO: submucoso com componente predominantemente intracavitário sai por histeroscopia, sem corte; intramural e subseroso pedem laparoscopia ou laparotomia. A laparoscopia dói menos e tem metade da morbidade febril da cirurgia aberta, sem aumentar recidiva. O ônus da preservação é a recorrência: cerca de 50% desenvolvem novos miomas em 5 anos e 11% a 26% precisarão de nova cirurgia maior — número de miomas é o principal fator prognóstico. Para quem tem prole completa e sangra, a ablação endometrial (isolada ou com a miomectomia histeroscópica) é opção minimamente invasiva, com apenas 8% de reintervenção em 6 anos.

A histerectomia é o único tratamento definitivo — elimina sintoma e recorrência — e é a recomendação para prole completa com sintomas significativos, múltiplos miomas e desejo de resolução. Quando o útero permite, a via vaginal é a preferencial (menos tempo cirúrgico, menos febre, menos internação); a laparoscópica ganha espaço no útero volumoso; a abdominal perde para as duas em quase todos os desfechos. Total ou subtotal são igualmente eficazes, exceto no mioma cervical, que exige a total.

A embolização das artérias uterinas (EAU) oclui bilateralmente o suprimento do mioma com microesferas, por acesso femoral ou radial: o nódulo infarta e encolhe, o útero fica. Comparada à cirurgia, oferece menos internação e retorno mais rápido às atividades — ao custo de mais recorrência e mais reintervenção nos anos seguintes. Aqui a régua brasileira virou de lado: o PCDT 2017 a tratava como procedimento experimental e não a recomendava; a proposta de 2026 a descreve como alternativa para quem quer evitar cirurgia, contraindicada apenas em gestação, infecção ativa e suspeita de malignidade. No desejo reprodutivo, a hierarquia da proposta é explícita: quem pode fazer miomectomia e quer engravidar deve ser operada preferencialmente; a EAU fica para quando a anatomia não permite miomectomia, houve miomectomia prévia, o risco cirúrgico é alto ou a paciente recusa cirurgia — sempre após conversa franca sobre a incerteza reprodutiva do método.

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Da imagem à conduta: a régua FIGO e o arsenal do SUS

Toda questão de mioma se resolve com a mesma sequência: confirme que o mioma é mesmo o culpado, localize-o na régua FIGO, pese sintoma contra projeto reprodutivo e só então escolha a arma — que, no SUS de 2026, inclui duas recém-chegadas.

  1. 1Sintoma? Assintomática → vigilância clínica periódica; nenhum tratamento, nenhuma imagem seriada obrigatória.
  2. 2Sangra? Hemograma para anemia + varrer o resto do PALM-COEIN antes de culpar o mioma (gravidez, tireoide, coagulopatia, endométrio conforme a clínica).
  3. 3Localize na FIGO pela ultrassonografia transvaginal; ressonância só para mapeamento pré-miomectomia, útero muito volumoso, dúvida com adenomiose ou suspeita de sarcoma.
  4. 4Quer engravidar (ou preservar o útero)? Submucoso FIGO 0-2 → miomectomia histeroscópica; intramural/subseroso sintomático → miomectomia laparoscópica ou aberta; análogo de GnRH por até 3 meses antes se útero enorme ou anemia a corrigir.
  5. 5Sem desejo reprodutivo imediato e cavidade normal? Tratamento clínico: DIU-LNG 52 mg se elegível a hormônio; tranexâmico nos dias de fluxo se inelegível ou refratária; COC/progestagênio como alternativas.
  6. 6Prole completa + sintomas significativos ou falha do resto → histerectomia (vaginal preferencial); ablação endometrial como opção menos invasiva para sangramento.
  7. 7Quer evitar cirurgia e não planeja gestar já → EAU é alternativa (recorrência maior); em quem quer gestar e pode ser operada, miomectomia vem antes.

Submucoso (FIGO 0-2) — o que sangra

Deforma a cavidade: hipermenorreia, anemia, abortamento e infertilidade. É o território da histeroscopia — e a contraindicação anatômica do DIU-LNG.

Intramural (FIGO 3-4) — o que cresce na parede

Sangra e dá volume. Se não deforma a cavidade, ainda aceita DIU-LNG; se deforma, trate como submucoso. Miomectomia é por laparoscopia ou laparotomia.

Subseroso (FIGO 5-7) — o que comprime

Quase não altera a menstruação: comprime bexiga e reto e dá peso pélvico. O pediculado (7) é o que torce e vira abdome agudo. Não explica infertilidade nem hipermenorreia.

Tipo FIGODefiniçãoTradução clínica
0Intracavitário, pediculadoTodo dentro da cavidade; ressecção histeroscópica direta
1Submucoso com menos de 50% intramuralHisteroscopia em tempo único na maioria
2Submucoso com 50% ou mais intramuralHisteroscopia exige cirurgião experiente; às vezes dois tempos
3100% intramural, tocando o endométrioFronteira: intramural que se comporta como submucoso no sangramento
4Intramural puroSangramento e volume; via laparoscópica/laparotômica se cirurgia
5Subseroso com 50% ou mais intramuralComponente de parede relevante
6Subseroso com menos de 50% intramuralSintomas compressivos
7Subseroso pediculadoO que torce — dor aguda cirúrgica
8Outros (cervical, parasita)Cervical exige histerectomia total se histerectomia
2-5 (híbrido)Toca cavidade e serosa, menos de metade em cadaPlanejamento por ressonância antes de operar

Arsenal do SUS para o leiomioma (PCDT 2017 + Portaria nº 101/2026 e proposta de PCDT 2026)

TratamentoEsquemaPapelLimite que a prova cobra
Ácido tranexâmico1 g, 3-4x/dia, 3-5 dias, só no fluxoSangramento intenso em inelegível/refratária a hormônio (incorporado em 8/1/2026)Não reduz volume do mioma; contraindicado em tromboembolismo ativo
DIU-LNG 52 mg1 dispositivo, troca em até 8 anosSangramento intenso em elegível a hormônio (incorporado em 8/1/2026)Contraindicado se o mioma deforma a cavidade (FIGO 0-2); mais expulsão
COC (EE 0,03 + LNG 0,15 mg) / medroxiprogesterona 2,5-10 mg/dia VO ou 150 mg IM 12/12-13 semanasUso contínuoControle de fluxo em quem pode/prefere via sistêmicaNão reduzem o volume do mioma
Análogo de GnRH (gosserrelina 3,6/10,8 mg; leuprorrelina e triptorrelina 3,75/11,25 mg)Mensal ou trimestral, injetávelPonte: pré-operatório (até 3 meses) para reduzir volume e corrigir anemiaIsolado, máximo 6 meses; com add-back (estrogênio ± medroxiprogesterona), até 1 ano com densitometria ao final; volume retorna ao suspender
Miomectomia (histeroscópica / laparoscópica / aberta)Sintomática que quer preservar útero ou gestarRecorrência: ~50% novos miomas em 5 anos; 11-26% reoperam
Histerectomia (vaginal preferencial)Definitivo: prole completa + sintomas significativosÚnico tratamento sem recorrência
Embolização das artérias uterinasAlternativa para evitar cirurgia (proposta 2026); era 'experimental' no PCDT 2017Mais reintervenção; no desejo de gestar, miomectomia primeiro

Sangramento menstrual intenso: a definição laboratorial clássica usada nos ensaios é perda igual ou maior que 80 mL por ciclo; na prática e na definição FIGO, vale o relato da própria mulher de fluxo excessivo.

Análogo de GnRH reduz o volume uterino em 25% a 80%, com efeito máximo em cerca de 12 semanas — e devolução integral do volume após a suspensão.

A perda óssea do análogo é reversível: a densitometria retorna ao basal 6 a 9 meses após o fim do tratamento.

Antagonistas orais de GnRH (relugolix combinado, linzagolix) existem na Europa e nos EUA, mas não têm registro na Anvisa — em prova de conduta SUS, a resposta continua sendo os análogos injetáveis.

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Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Embolização das artérias uterinas: experimental ou alternativa legítima?

PCDT vigente (2017): não recomendada

O protocolo em vigor considera os resultados inconsistentes, cita mais reintervenções, complicações tardias e prejuízo à função ovariana, e classifica a EAU como procedimento a ser visto com cautela, 'experimental' — fora do protocolo do SUS.

PCDT Leiomioma de Útero, Portaria Conjunta SAS/SCTIE nº 11/2017

Proposta de PCDT (consulta pública, abril/2026): alternativa com ressalvas

A minuta descreve a EAU como opção minimamente invasiva para quem deseja evitar cirurgia, contraindicada apenas em gestação, infecção ativa e suspeita de malignidade. Registra que a Society for Interventional Radiology deixou de tratar o desejo reprodutivo como contraindicação absoluta, mas mantém a miomectomia como primeira escolha para quem quer gestar e pode ser operada.

Relatório preliminar do PCDT Leiomioma de Útero, CP nº 30/2026 (Conitec)

Na prova

Olhe o ano e o cenário do enunciado. Questão ancorada no 'protocolo vigente do Ministério da Saúde' até a publicação do novo PCDT descreve a EAU fora do SUS; enunciado que cite a consulta pública de 2026, radiologia intervencionista ou 'alternativa para preservar o útero sem cirurgia' está no mundo novo. Alternativas que tratam desejo reprodutivo como contraindicação absoluta à EAU denunciam recorte antigo; as que hierarquizam 'miomectomia antes de EAU em quem quer gestar' conversam com a minuta de 2026.

Ácido tranexâmico no sangramento do mioma: primeira linha ampla ou nicho do inelegível a hormônio?

Febrasgo (Protocolo nº 80, 2026): opção de primeira linha no SUA

No fluxograma do sangramento uterino anormal da Febrasgo, o tranexâmico aparece entre as primeiras opções médicas, tanto no sangramento agudo quanto no crônico, ao lado de AINE, hormonal combinado e SIU-LNG — sem exigir falha prévia de hormônio.

Febrasgo. Sangramento uterino anormal. Protocolo nº 80. Femina 2026;54(3):227-35

Portaria nº 101/2026 e Conitec: uso restrito no leiomioma do SUS

A incorporação ao SUS delimita o público: pessoas com leiomioma e sangramento intenso inelegíveis ou refratárias ao tratamento hormonal — no fluxo público, o hormônio elegível vem antes e o tranexâmico entra como via não hormonal de quem não pode ou não respondeu. A restrição nasce do desenho da avaliação econômica da incorporação, não de dúvida sobre eficácia.

Portaria SCTIE/MS nº 101, de 8/1/2026; Relatório de Recomendação Conitec nº 1.066/2025

Na prova

Enunciado de conduta na UBS/SUS com menção a protocolo do Ministério tende a cobrar a letra da incorporação (tranexâmico para inelegível ou refratária a hormônio); enunciado de consultório ou que cite a Febrasgo aceita tranexâmico como primeira linha direta, inclusive combinado. O vocabulário 'inelegível ou refratária ao tratamento hormonal' é assinatura da Portaria nº 101 — se aparecer numa alternativa, o recorte é o do SUS.

Análogos injetáveis ou antagonistas orais de GnRH?

Estado da arte internacional: antagonistas orais registrados

Relugolix em combinação com estradiol e noretindrona tem registro na EMA e no FDA desde 2021, e linzagolix na EMA desde 2022, com avaliações favoráveis do NICE (2022 e 2024) — antagonistas orais, sem o efeito flare inicial e com posologia mais cômoda que os injetáveis.

Monitoramento do horizonte tecnológico, Relatório Conitec nº 1.066/2025 (dados EMA/FDA/NICE)

Brasil: análogos injetáveis seguem sendo a opção

Nenhum antagonista oral tem registro na Anvisa para essa indicação, e nenhum foi incorporado ao SUS. A causa é regulatória e de disponibilidade — sem registro não há sequer avaliação de incorporação — e não uma discordância sobre a eficácia da classe. No SUS ficam gosserrelina, leuprorrelina e triptorrelina.

Relatório Conitec nº 1.066/2025 (situação regulatória Anvisa, atualizada em junho/2025)

Na prova

Vinheta que oferece 'antagonista oral de GnRH' como conduta disponível no SUS está errada por disponibilidade, não por farmacologia. Em prova brasileira de conduta, a supressão hipofisária do mioma se faz com análogo injetável; o antagonista oral aparece legitimamente em questão conceitual de farmacologia ou em cenário explícito de medicina privada/internacional.

06

Caso resolvido

Mulher de 34 anos, negra, nuligesta, deseja engravidar no próximo ano. Refere menstruações de 9 dias 'encharcando o absorvente de hora em hora' há 8 meses e cansaço progressivo. Exame: útero discretamente aumentado, móvel, contornos regulares. Hb 9,4 g/dL, ferritina baixa; beta-hCG negativo, TSH normal. Ultrassonografia transvaginal: nódulo miometrial hipoecoico de 3,2 cm abaulando a cavidade endometrial, com cerca de 40% do volume dentro da parede; restante do miométrio homogêneo.
achado
Sangramento menstrual intenso e prolongado + anemia ferropriva com útero quase normal ao toque: padrão de mioma que sangra sem dar volume — pensar em submucoso. A imagem confirma: nódulo abaulando a cavidade com menos de 50% intramural.
classificação
FIGO 1 (submucoso, componente intramural menor que 50%). É o tipo que mais sangra e o que mais interfere na fertilidade — e o único endereço que a histeroscopia alcança inteiro.
exclusão
PALM-COEIN varrido: gravidez e tireoide excluídas, sem história de coagulopatia (menorragia só há 8 meses, sem sangramentos em outros sítios), endométrio será visto diretamente na histeroscopia. O mioma pode ser responsabilizado.
conduta
Miomectomia histeroscópica — trata o sangramento e devolve a cavidade ao projeto reprodutivo. DIU-LNG está contraindicado (cavidade deformada) e histerectomia nem entra em pauta. Enquanto aguarda: ferro para a anemia; se o serviço demorar ou a Hb precisar subir antes da cirurgia, análogo de GnRH por até 3 meses é a ponte prevista no protocolo.
seguimento
Após a ressecção completa, liberar a gravidez conforme recuperação; sem necessidade de vigilância radiológica seriada. Recorrência existe (novos miomas em ~50% em 5 anos após miomectomia) — nova queixa, nova avaliação.
07

Agora feche você

Mulher de 42 anos, dois filhos, laqueada, chega com menstruações volumosas há 1 ano e Hb 10,8 g/dL. Não quer 'passar por cirurgia de jeito nenhum'. Sem tabagismo, sem hipertensão, sem história tromboembólica. Ultrassonografia transvaginal: mioma intramural de 3,8 cm (FIGO 4) sem deformar a cavidade endometrial, endométrio regular de 8 mm.
achado
Sangramento intenso atribuível a mioma intramural, com cavidade endometrial preservada e sem contraindicação a hormônio.
elegibilidade
Elegível à terapia hormonal (sem critério de contraindicação a progestagênio) e com anatomia favorável a dispositivo intrauterino: cavidade não deformada, confirmada por imagem.
conduta
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Onde a banca derruba

  1. 1Operar (ou tratar) o mioma assintomático A alternativa 'miomectomia profilática' seduz porque o nódulo 'pode crescer'. Mioma assintomático não se trata em nenhum tamanho isolado — vigilância clínica. Também não exige ultrassonografia seriada obrigatória: o achado incidental não cria doença.
  2. 2DIU-LNG em cavidade deformada A banca monta a paciente perfeita para hormônio e esconde um submucoso FIGO 2 no laudo. Mioma que deforma a cavidade contraindica o DIU-LNG (expulsão, sangramento persistente, falha) — a elegibilidade do dispositivo é anatômica antes de ser hormonal.
  3. 3Análogo de GnRH como tratamento definitivo Reduzir 25% a 80% do volume parece resolver — mas o volume retorna integralmente à suspensão, e o hipoestrogenismo limita o uso isolado a 6 meses. Análogo é ponte para a cirurgia (até 3 meses no pré-operatório, para encolher útero e corrigir anemia), não destino. Uso além disso exige add-back e teto de 1 ano.
  4. 4Culpar o mioma pela infertilidade errada Subseroso de 4 cm não explica infertilidade nem hipermenorreia. Antes de indicar miomectomia 'para engravidar', confira o endereço FIGO (quem atrapalha é o que deforma a cavidade) e complete a investigação do casal — os diagnósticos podem ser paralelos, não causa e efeito.
  5. 5Chamar de mioma o que cresce na pós-menopausa Mioma é doença do menacme e involui com a queda hormonal. Útero nodular que cresce após a menopausa, dor nova ou degeneração atípica na imagem pedem ressonância e suspeita de leiomiossarcoma — não uma receita de 'acompanhar em 6 meses'.
  6. 6Operar mioma na gestação (ou na dor da degeneração rubra) Dor aguda sobre o mioma no segundo trimestre com febre baixa e leucocitose discreta é degeneração vermelha: analgesia e conduta conservadora. Cirurgia na gestação é exceção de emergência (torção de pediculado, abdome agudo) — miomectomia eletiva espera o puerpério remoto.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Miomas intramurais sem distorção da cavidade em mulher que deseja preservar o útero e controlar o sangramento têm no SIU-levonorgestrel uma excelente opção clínica, reduzindo o volume menstrual e tratando a anemia. Histerectomia contraria o desejo de preservar o útero, não sendo primeira escolha. GnRH contínuo indefinido causa hipoestrogenismo/perda óssea e é usado por curto prazo. Ablação/ressecção histeroscópica trata miomas submucosos, não intramurais sem componente na cavidade. Embolização + miomectomia imediata não é a estratégia de primeira linha aqui.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

Sorteando as questões…

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Plano de revisão

em 7 dias

Reconstrua de memória a régua FIGO 0-8 desenhando um útero em corte e posicionando cada número; depois responda sem consultar: quem sangra, quem comprime, quem torce, quem contraindica DIU-LNG e quem a histeroscopia alcança. Confira na tabela e refaça o que errou.

em 30 dias

Monte a árvore de conduta completa em voz alta a partir de três pacientes-tipo: a assintomática de achado incidental, a que sangra e quer engravidar (submucoso), e a de prole completa refratária a tratamento clínico. Inclua onde entram tranexâmico e DIU-LNG (Portaria nº 101/2026), o papel-ponte do análogo de GnRH e quando a embolização é alternativa legítima — citando qual documento sustenta cada resposta.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Mulher de 38 anos chega à UBS com menstruação 'que não acaba mais' há 10 meses, absorvente trocado de hora em hora e cansaço aos esforços. Conduza: caracterize o sangramento, examine, decida que exames pedir, classifique o achado e monte a conduta — inclusive o que responder quando ela perguntar se 'precisa tirar o útero' e se 'o DIU hormonal resolve'. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Miomatose uterina — Preparatório para provas | OsceLabs