Cirurgia GeralCirurgia de Cabeça e Pescoço

Nódulo de tireoide

A prova cobra a cadeia inteira — TSH, ultrassom, quem se pune, Bethesda, conduta. O erro que ela arma é sempre o mesmo: escolher o nódulo a puncionar pelo tamanho, ignorando o padrão da imagem.

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Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Mulher de 42 anos apresenta nódulo cervical anterior indolor, de crescimento lento, percebido há 3 meses. Ao exame: PA 120x78 mmHg, FC 76 bpm; nódulo tireoidiano de 2 cm, móvel à deglutição, sem linfonodomegalia. TSH normal. A ultrassonografia descreve nódulo sólido, hipoecogênico, com microcalcificações e margens irregulares (classificação de alto risco). Qual é o próximo passo diagnóstico mais adequado?

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Como esse tema cai

Nódulo de tireoide é achado de rotina; câncer de tireoide é evento raro dentro dele. O INCA estima 16.450 casos novos por ano no triênio 2026-2028 — 3.140 em homens e 13.310 em mulheres, taxa de 7,68 por 100 mil —, oitava neoplasia mais frequente do país fora da pele não melanoma e quinta entre as mulheres. A prova não cobra o câncer em si: cobra a cadeia de decisão que separa o nódulo que se investiga do nódulo que se acompanha.

A cadeia tem seis elos — nódulo, TSH, ultrassom, indicação de punção, Bethesda, conduta — e a questão costuma quebrar um deles de propósito. O quebrado com mais frequência é o quarto. Numa tireoide multinodular, o nódulo de 3 cm espongiforme é o menos suspeito da glândula e o de 9 mm sólido, acentuadamente hipoecoico e com microcalcificações é exatamente o que precisa da agulha. Quem pune o maior erra a questão e, na vida real, erra o diagnóstico.

As réguas brasileiras vigentes são o PCDT do carcinoma diferenciado, de 2014, e o consenso do Departamento de Tireoide da SBEM, de 2013. Ambas são anteriores à diretriz da ATA de 2015 — que é a que liberou a lobectomia no tumor de 1 a 4 cm — e ao Bethesda de 2023, que recalculou o risco de cada categoria. Por isso boa parte das divergências deste capítulo é de data, não de mérito: são documentos escritos em anos diferentes olhando para a mesma evidência em estágios diferentes.

Este é o capítulo cirúrgico do tema. A função tireoidiana entra como primeiro passo da investigação e sai de cena; o peso está em quem se opera, quanto se tira, o que se faz com o pescoço e o que se acompanha depois.

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O que muda decisão

Nódulo é regra; câncer é exceção

Nódulo tireoidiano é clinicamente evidente em cerca de 4% a 7% das mulheres e em torno de 1% dos homens adultos. Quando o método de detecção é a ultrassonografia, a prevalência explode: o PCDT registra a faixa de 4% a 50%, dependendo do exame usado e da idade da população. Malignidade aparece em cerca de 10% dos nódulos em adultos e em até 26% em crianças.

O nódulo impalpável descoberto por acaso em uma tomografia, uma ressonância ou uma carótida — o incidentaloma — tem a mesma chance de malignidade de um nódulo palpável do mesmo tamanho. A forma como o nódulo foi encontrado não altera a régua de investigação; o que altera é o padrão dele na imagem.

Alto risco clínico de malignidade, no consenso brasileiro, é: história pessoal ou familiar de câncer de tireoide, exposição a radiação na infância ou adolescência, e nódulo descoberto como captação focal em FDG-PET. Ao exame físico, pesam consistência endurecida, fixação a estruturas cervicais, crescimento rápido, linfonodo palpável e disfonia — esta última obriga a pensar em paralisia de corda vocal por comprometimento do laríngeo recorrente, que é achado de doença invasiva.

Há um pano de fundo que explica por que as réguas modernas subiram o corte de punção em vez de baixá-lo: o aumento de incidência das últimas décadas é quase todo de tumores pequenos, sem aumento correspondente de mortalidade. Puncionar mais não salvou mais gente; produziu mais cirurgia. A régua atual existe para achar o câncer que importa, não todo câncer que existe.

O primeiro exame é o TSH — e ele pode encerrar a investigação

Todo paciente com nódulo tireoidiano dosa TSH na avaliação inicial. Esse é o primeiro exame em qualquer das réguas: a ATA, o consenso da SBEM e o PCDT dizem a mesma coisa. E o motivo não é avaliar função por avaliar função: é separar, logo na entrada, o nódulo autônomo do resto.

Se o TSH vier subnormal ou suprimido, o exame seguinte é a cintilografia tireoidiana com radioisótopo (de preferência iodo-123), e não a punção. Se a cintilografia mostrar um nódulo hipercaptante — o nódulo quente —, ele sai da fila da agulha. Nódulo hiperfuncionante excepcionalmente alberga malignidade; o que ele tem é um problema de função, tratado com radioiodo terapêutico, com cirurgia dirigida à hiperfunção ou com antitireoidiano, conforme o caso.

Existe um segundo motivo, mais concreto, para não puncionar o nódulo quente, e é o que a prova gosta de cobrar de forma indireta: a citologia de um nódulo autônomo costuma vir hipercelular, com arranjo microfolicular, e é lida como neoplasia folicular — categoria IV do Bethesda. Ou seja, a punção desnecessária devolve um resultado que empurra o paciente para uma tireoidectomia que a cintilografia teria evitado. Puncionar antes de dosar o TSH é trocar um problema endocrinológico por um problema oncológico falso.

Se o TSH for normal ou elevado, a cintilografia não entra. Ela não distingue benigno de maligno em nódulo normo ou hipocaptante — a maioria dos nódulos, malignos e benignos, é fria — e só adiciona custo e radiação. Vale registrar o oposto do reflexo comum: TSH mais alto, ainda dentro da normalidade, é fator preditivo independente de malignidade em quem tem doença nodular, achado que o PCDT sustenta na coorte de 1.500 pacientes de Boelaert.

Dois exames que não entram na investigação do nódulo: tireoglobulina, que sobe na maioria das doenças tireoidianas e é insensível e inespecífica para câncer; e calcitonina de rotina, que o consenso brasileiro reserva para quem tem suspeita clínica ou história familiar de carcinoma medular ou de neoplasia endócrina múltipla tipo 2. A ATA de 2015 registra que não há evidência suficiente para recomendar nem para desaconselhar a calcitonina de rotina — o que, na prática de prova, significa que ela não é o primeiro exame.

Ultrassom: o que faz um nódulo virar suspeito

Ultrassonografia cervical em todo paciente com nódulo conhecido ou suspeitado, e sempre com varredura dos linfonodos do pescoço. Não é o ultrassom da tireoide: é o do compartimento cervical inteiro. Essa varredura é o que muda conduta com mais frequência, porque um linfonodo suspeito reclassifica o caso independentemente do tamanho do nódulo.

Os achados de suspeição são cinco, e vale decorá-los como lista: hipoecogenicidade acentuada em nódulo sólido; microcalcificações (focos ecogênicos puntiformes, os corpos psamomatosos do papilífero); margens irregulares — infiltrativas, microlobuladas ou espiculadas; forma mais alta que larga no corte transversal; e extensão extratireoidiana. A ATA acrescenta um sexto: calcificação periférica rompida, com pequeno componente de partes moles extrusivo. Nenhum deles isolado tem valor preditivo positivo alto o bastante para decidir sozinho — é a combinação que estratifica.

Do outro lado da régua ficam os sinais que empurram para benignidade: nódulo puramente cístico, padrão espongiforme (aquele agregado de microcistos ocupando mais da metade do volume), halo periférico completo e regular, macrocalcificação periférica íntegra em casca de ovo, e vascularização predominantemente periférica ao Doppler. O PCDT registra o contraste com o carcinoma diferenciado, que costuma ter vascularização periférica e central, com predomínio da central.

O linfonodo suspeito merece parágrafo próprio porque é o achado que quebra a lógica do tamanho. Reacional: ovalado, com razão eixo curto sobre eixo longo abaixo de 0,5 a 0,7, hilo hiperecogênico central preservado, ecotextura uniforme, terço superior do pescoço. Suspeito de metástase: arredondado (razão acima de 0,5 a 0,7), perda do hilo, estrutura heterogênea, calcificações finas, degeneração cística, terço inferior do pescoço — níveis IV, V e VI. Diante de linfonodo suspeito, a conduta é puncionar o linfonodo, com dosagem de tireoglobulina no líquido de lavagem da agulha, que aumenta muito o rendimento do exame.

A ATA organiza os achados em cinco padrões, cada um com um risco estimado de malignidade: alta suspeição, de 70% a 90%; suspeição intermediária, de 10% a 20%; baixa suspeição, de 5% a 10%; muito baixa suspeição, abaixo de 3%; e benigno — cístico puro —, abaixo de 1%. Guardar esses cinco números é o que permite responder às questões que descrevem o nódulo em vez de nomeá-lo.

Ultrassonografia transversal da tireoide mostrando nódulo sólido hipoecoico, mais alto que largo, de margens irregulares e com focos ecogênicos puntiformes.
O padrão de alta suspeição reunido num só nódulo: sólido e acentuadamente hipoecoico, mais alto que largo, margens irregulares e focos ecogênicos puntiformes. Risco estimado de malignidade de 70% a 90% — punção a partir de 1 cm.

Quem se punciona: o tamanho depende do padrão

Esta é a tabela do capítulo. A punção aspirativa por agulha fina é sempre guiada por ultrassom e o corte de tamanho que a indica não é fixo: ele desce conforme o padrão da imagem sobe de suspeição. Na ATA de 2015, punciona-se a partir de 1 cm nos padrões de alta e de intermediária suspeição, a partir de 1,5 cm na baixa suspeição e a partir de 2 cm na muito baixa — com a ressalva de que, nesta última, acompanhar sem puncionar também é conduta razoável. Nódulo puramente cístico não se pune.

O consenso brasileiro de 2013 chega nos mesmos três números por outro caminho, descrevendo o nódulo em vez de nomear o padrão: punção a partir de 10 mm no nódulo sólido hipoecoico, a partir de 15 mm no sólido iso ou hiperecoico, e a partir de 20 mm no complexo ou espongiforme — em todos os três casos mesmo sem nenhum achado suspeito associado. Abaixo de 5 mm não se pune. Entre 5 e 10 mm, pune-se apenas quem tem alto risco clínico de malignidade ou nódulo suspeito na imagem; e para o nódulo abaixo de 10 mm sem invasão aparente e sem linfonodo suspeito, acompanhar com ultrassom e adiar a punção até que ele ultrapasse os 10 mm é conduta aceitável.

Que as duas réguas — a americana de 2015 e a brasileira de 2013 — cheguem a 1 cm, 1,5 cm e 2 cm de forma independente é a melhor notícia deste capítulo: é o trio de números a decorar, e ele responde à maioria das questões de indicação de punção.

Duas situações rompem o corte de tamanho e mandam puncionar em qualquer diâmetro: invasão extratireoidiana aparente e linfonodo cervical suspeito. Nesta segunda, quem recebe a agulha é o linfonodo.

No bócio multinodular a lógica é a mesma, aplicada nódulo a nódulo. Cada nódulo acima de 1 cm carrega risco independente de malignidade, de modo que mais de um pode precisar de punção; e a escolha de quem punciona primeiro é feita pelo padrão ultrassonográfico com o respectivo corte de tamanho, nunca pelo maior diâmetro. A ressalva da ATA: se nenhum nódulo tem padrão de alta ou intermediária suspeição e vários nódulos semelhantes de baixa ou muito baixa suspeição confluem sem parênquima normal entre eles, a chance de malignidade é baixa e é razoável aspirar os maiores (a partir de 2 cm) ou simplesmente seguir sem punção. O consenso brasileiro registra o dado que sustenta tudo isso: a probabilidade de câncer não difere entre quem tem nódulo único e quem tem nódulos múltiplos.

Existe uma terceira régua muito usada nos laudos de radiologia: o ACR TI-RADS, que soma pontos por composição, ecogenicidade, forma, margem e focos ecogênicos, e classifica de TR1 a TR5. Ele importa aqui por dois motivos: o laudo que chega ao aluno na prova frequentemente vem nessa linguagem, e os cortes de tamanho dele não são os mesmos — o TR3, minimamente suspeito, só é puncionado a partir de 2,5 cm.

Bethesda: seis categorias, seis condutas

A terceira edição do Sistema Bethesda, de 2023, manteve as seis categorias, simplificou os nomes (cada categoria passou a ter um nome único), harmonizou a nomenclatura com a classificação de tumores da tireoide da OMS de 2022 e — o que mais interessa para a prova — recalculou o risco de malignidade de cada categoria com os dados publicados desde 2017.

Os números vigentes, como risco médio e faixa esperada: categoria I, não diagnóstica, 13% (5% a 20%); categoria II, benigna, 4% (2% a 7%); categoria III, atipia de significado indeterminado, 22% (13% a 30%); categoria IV, neoplasia folicular, 30% (23% a 34%); categoria V, suspeita de malignidade, 74% (67% a 83%); categoria VI, maligna, 97% (97% a 100%).

As condutas usuais que a própria edição de 2023 associa a cada categoria: repetir a punção guiada por ultrassom na I; acompanhamento clínico e ultrassonográfico na II; repetir a punção, teste molecular, lobectomia diagnóstica ou vigilância na III; teste molecular ou lobectomia diagnóstica na IV; teste molecular, lobectomia ou tireoidectomia quase total na V; e lobectomia ou tireoidectomia quase total na VI.

Três notas de leitura que separam quem decorou de quem entendeu. Primeira: esses percentuais vêm de nódulos que foram operados, o que é um viés de seleção grosseiro — quem tem citologia benigna raramente vai à cirurgia, e por isso o risco real da categoria II, medido por seguimento longo, é de 1% a 2%, e não 4%. Segunda: se a neoplasia folicular não invasiva com núcleos de aspecto papilífero (a NIFTP, que hoje não é contada como carcinoma) for excluída da conta, a categoria III cai para cerca de 16%, a IV para 23% e a V para 65%. Terceira: a edição de 2023 desencoraja o laudo que traz só o número romano — o relatório deve nomear a categoria, com o número entre parênteses se quiser.

Números antigos ainda circulam em material de estudo e em documento oficial. O PCDT de 2014 reproduz o quadro da primeira edição do Bethesda, de 2009: não diagnóstica 1% a 4%, benigna 0% a 3%, atipia de significado indeterminado 5% a 15%, neoplasia folicular 15% a 30%, suspeita de malignidade 60% a 75% e maligna 97% a 99%. A categoria III é a que mais mudou entre as edições — saiu de uma faixa de 5% a 15% para uma média de 22%. Isso não é detalhe de erudição: é a diferença entre tratar a categoria III como quase benigna e tratá-la como um nódulo com um em cada cinco de chance de ser câncer.

Quando repetir a punção. Amostra inadequada (categoria I) manda repetir em 3 a 6 meses, sempre guiada por ultrassom, e a repetição resolve boa parte dos casos. Se o resultado insatisfatório persistir, o consenso brasileiro indica cirurgia em quem tem alta suspeita clínica ou ultrassonográfica ou nódulo acima de 2 cm; nódulo de até 2 cm com baixa suspeita nos dois planos é acompanhado. Citologia benigna também pode voltar à agulha: cresceu mais de 50% do volume inicial durante o seguimento, repete-se a punção.

Indeterminado: as categorias III e IV

As categorias indeterminadas são o ponto em que a citologia deixa de decidir e a decisão volta para o clínico. Na III, o consenso brasileiro manda repetir a punção com intervalo de 3 a 6 meses; se o resultado indeterminado persistir, indica cirurgia para quem tem alta suspeita clínica ou ultrassonográfica ou nódulo acima de 2 cm, e acompanhamento para o nódulo de até 2 cm com baixa suspeita nos dois planos.

Na IV — neoplasia folicular —, a citologia não consegue, por natureza, distinguir adenoma de carcinoma folicular: essa diferença mora na invasão capsular e vascular, que só a peça cirúrgica mostra. Daí a lobectomia ser chamada de diagnóstica. Há uma exceção brasileira útil: quando a citologia sugere neoplasia folicular, a cintilografia com radioiodo volta a ter papel, porque um nódulo hipercaptante nessa situação não precisa ser retirado. Nódulo hipocaptante com essa citologia segue sendo indicação de cirurgia.

Os testes moleculares existem para reduzir cirurgia diagnóstica. Painéis que investigam BRAF, RAS, RET/PTC, fusões e outras alterações têm dois usos: um resultado negativo com alto valor preditivo negativo permite acompanhar em vez de operar, e um resultado positivo pode definir a extensão da cirurgia já de saída. A ATA de 2015 os coloca como alternativa legítima à repetição da punção nas categorias III e IV, e o consenso brasileiro registra que eles podem alterar as recomendações anteriores de cirurgia.

A realidade de acesso é o que muda a resposta no Brasil. O PCDT registra, com todas as letras, que o uso desses marcadores está restrito a alguns centros de pesquisa no país — não é procedimento incorporado ao SUS. Na rede pública, portanto, o caminho real diante de uma categoria III ou IV é repetir a punção ou operar, e a cirurgia é a lobectomia diagnóstica.

Quando a citologia é indeterminada e mesmo assim a cirurgia já nasce total: doença nodular bilateral, associação com irradiação prévia, citologia suspeita para malignidade, ou citologia indeterminada em nódulo acima de 4 cm — ou de até 4 cm com alta suspeita clínica ou ultrassonográfica. A lógica é evitar a segunda cirurgia: se a totalização seria recomendada caso o nódulo se revelasse maligno, faz-se a total de uma vez.

Extensão da cirurgia e o que se faz com o pescoço

Três faixas organizam a decisão de quanto tirar. Tumor acima de 4 cm, extensão extratireoidiana macroscópica (T4 clínico), linfonodo clinicamente acometido (cN1) ou metástase à distância (cM1): tireoidectomia total ou quase total, com remoção de toda a doença macroscópica primária, salvo contraindicação. Tumor abaixo de 1 cm, intratireoidiano e cN0: lobectomia, quando houver indicação cirúrgica — e a lobectomia isolada é tratamento suficiente para carcinoma pequeno, unifocal, intratireoidiano, na ausência de irradiação prévia de cabeça e pescoço, de carcinoma familiar e de metástase cervical detectável. Entre 1 e 4 cm, sem extensão extratireoidiana e cN0: é a faixa em que as réguas se separam, e ela tem seu lugar próprio mais adiante.

A escolha não é neutra em nenhuma das direções. A tireoidectomia total permite a ablação com radioiodo, torna a tireoglobulina interpretável como marcador e elimina o risco de doença no lobo remanescente — o papilífero é multifocal com frequência. Em troca, cobra hipoparatireoidismo transitório e às vezes definitivo, risco de lesão do nervo laríngeo recorrente e levotiroxina para o resto da vida. A lobectomia devolve muitos pacientes à vida sem reposição hormonal, mas custa a possibilidade de usar radioiodo e complica o seguimento por tireoglobulina.

Totalização — a complementação da tireoidectomia depois de uma cirurgia parcial — é decidida pelos dados do anatomopatológico e pelo risco individual de uma segunda intervenção. O consenso brasileiro dispensa a complementação no carcinoma papilífero clássico unifocal de até 1 cm, esporádico, sem acometimento linfonodal nem invasão extratireoidiana aparentes; e também no carcinoma folicular minimamente invasivo e na variante folicular encapsulada do papilífero sem invasão vascular, até 2 cm.

O pescoço tem regra própria, e ela separa terapêutico de profilático. Esvaziamento terapêutico do compartimento central (nível VI) acompanha a tireoidectomia total sempre que houver linfonodo central clinicamente acometido; esvaziamento dos compartimentos laterais (níveis II a V) quando houver metástase lateral comprovada — e essa dissecção reduz risco de recorrência. Esvaziamento central profilático, no papilífero com pescoço clinicamente negativo, deve ser considerado quando o tumor primário é avançado (T3 ou T4) ou quando há linfonodo lateral clinicamente acometido, ou ainda quando a informação for usada para planejar terapia adicional; e é dispensável nos tumores pequenos (T1 ou T2), não invasivos e clinicamente sem linfonodo. O consenso brasileiro é mais restritivo: não há dado consistente de que a dissecção eletiva do compartimento central reduza recidiva, e ela aumenta o risco de hipoparatireoidismo transitório e definitivo.

Antes de operar, ultrassonografia cervical em todo mundo, mesmo no paciente assintomático e sem linfonodo palpável, avaliando multicentricidade do tumor, metástase linfonodal e invasão extratireoidiana. Tomografia ou ressonância com contraste endovenoso entram como adjuntos apenas na suspeita clínica de doença avançada — tumor primário invasivo, linfonodo volumoso ou múltiplo. PET/CT não faz parte do estadiamento inicial de rotina.

Comparação anatômica entre lobectomia, com o lobo contralateral preservado, e tireoidectomia total, com destaque para os nervos laríngeos recorrentes e as paratireoides.
O que está em jogo na extensão da cirurgia: a total permite radioiodo e torna a tireoglobulina interpretável, ao preço do risco dobrado sobre paratireoides e laríngeos recorrentes e da reposição hormonal definitiva.

Estadiamento e risco de recidiva: a idade é o divisor

O carcinoma diferenciado de tireoide é o único tumor sólido em que a idade do paciente entra dentro do TNM. Na oitava edição da AJCC, em vigor, o corte é 55 anos — subiu dos 45 anos da sétima edição.

Abaixo de 55 anos existem apenas dois estágios: I para qualquer T, qualquer N, sem metástase à distância; e II para qualquer T, qualquer N, com metástase à distância. Um paciente de 40 anos com metástase pulmonar é estágio II — e essa é uma das perguntas de estadiamento mais cobradas do tema, porque contraria a intuição de que metástase à distância é sempre estágio IV.

De 55 anos em diante, a escada aparece: estágio I para T1 ou T2 com N0 ou Nx; estágio II para T1 ou T2 com N1, e para T3a ou T3b com qualquer N; estágio III para T4a; IVA para T4b; e IVB para qualquer T com metástase à distância. Nas categorias T, guarde os cortes: T1a até 1 cm, T1b acima de 1 até 2 cm, T2 acima de 2 até 4 cm, T3a acima de 4 cm limitado à tireoide, T3b com invasão macroscópica só dos músculos pré-tireoidianos, T4a invadindo tecidos adjacentes incluindo laringe, traqueia, esôfago ou nervo laríngeo recorrente, e T4b invadindo fáscia pré-vertebral ou envolvendo carótida ou vasos mediastinais.

Um alerta de leitura: o PCDT de 2014 ainda traz o estadiamento com o corte de 45 anos, porque é anterior à oitava edição. É o mesmo paciente recebendo estágios diferentes conforme o documento que a questão adotou.

O TNM prevê mortalidade; ele não prevê recidiva — e é a recidiva que decide radioiodo, alvo de TSH e intensidade do seguimento. Para isso existe a estratificação de risco da ATA, aplicada depois da cirurgia. Os três estratos de 2015 viraram quatro em 2025: baixo risco, abaixo de 10% de risco de recidiva; intermediário-baixo, de 10% a 15%; intermediário-alto, de 16% a 30%; e alto, acima de 30%.

No papilífero, conforme a diretriz da SBOC de 2026, entram no baixo risco os T1 e T2 de até 4 cm, unifocais, sem linfonodo (ou com até cinco micrometástases de até 2 mm) e com margens negativas. No intermediário-baixo, os T3a, e os T1 e T2 com multifocalidade unilateral, extensão extratireoidiana microscópica, linfonodo central acima de 2 mm ou mais de cinco linfonodos comprometidos. No intermediário-alto, os que têm multifocalidade bilateral acima de 1 cm, linfonodo lateral clinicamente evidente menor que 3 cm, histologia agressiva, invasão vascular, ou dois ou mais fatores do estrato anterior. E no alto risco, T3a com extensão extratireoidiana microscópica, T3b, T4, tumor pouco diferenciado ou de alto grau, ressecção macroscópica incompleta, linfonodo clínico de 3 cm ou mais, extensão extranodal e metástase à distância.

Iodo, TSH e tireoglobulina: o depois

Radioiodo só faz sentido depois de tireoidectomia total — é uma das razões pelas quais a extensão da cirurgia importa. No baixo risco, a ablação de rotina do remanescente não é recomendada; no alto risco, o radioiodo adjuvante é indicado de rotina, assim como diante de metástase à distância; nos dois estratos intermediários, a decisão é individualizada. O consenso brasileiro dá um critério operacional bonito para dispensar a ablação no baixo risco: tireoglobulina estimulada de até 1 ng/mL depois da cirurgia. No muito baixo risco, a ablação não está indicada.

As atividades, conforme o PCDT: de 30 a 100 mCi para ablação de remanescente em paciente de risco baixo ou intermediário sem suspeita de doença residual microscópica; no mínimo 100 mCi quando há suspeita de doença microscópica residual ou variante histológica agressiva; e não menos que 200 mCi diante de doença residual macroscópica ou metástase à distância, respeitado o limite de radiotoxicidade medular.

O preparo tem duas peças. A primeira é elevar o TSH, por suspensão da levotiroxina (hipotireoidismo endógeno) ou por TSH recombinante humano — que é o preparo indicado em quem tem cardiopatia, pneumopatia, doença aterosclerótica, insuficiência renal, depressão grave, idade avançada ou incapacidade de elevar o TSH endógeno. A meta na preparação é TSH acima de 30 mUI/L. A segunda é a dieta pobre em iodo, abaixo de 50 mcg por dia, por pelo menos duas semanas antes. Sete a dez dias depois da dose, todos fazem pesquisa de corpo inteiro pós-dose, que às vezes revela metástase até então desconhecida e muda o plano.

O alvo de TSH na levotiroxina segue o risco: abaixo de 0,1 mUI/L no alto risco; de 0,1 a 0,5 no risco intermediário; e de 0,5 a 2 no baixo risco com tireoglobulina indetectável. Baixo risco com tireoglobulina baixa mas detectável fica em 0,1 a 0,5. Quem foi tratado só com lobectomia e está sem doença fica com TSH entre 0,5 e 2 — e pode nem precisar de hormônio. O alvo é reavaliado com o tempo, não perpetuado: supressão prolongada custa massa óssea, sobretudo em mulheres depois da menopausa, e altera morfologia e função cardíacas, sobretudo em idosos.

A tireoglobulina é o marcador do seguimento, e nunca se dosa sozinha: o anticorpo antitireoglobulina precisa vir junto, no mesmo ensaio e de preferência no mesmo laboratório ao longo de todo o seguimento, porque a presença do anticorpo derruba falsamente o valor da tireoglobulina nos métodos imunométricos. Em quem fez tireoidectomia total sem ablação, ou menos que uma tireoidectomia total, o que se valoriza é a tendência: tireoglobulina em elevação ao longo do tempo é suspeita de doença. Ultrassonografia cervical em 6 a 12 meses depois da cirurgia e depois periodicamente; linfonodo suspeito a partir de 8 a 10 mm no menor diâmetro é puncionado, com tireoglobulina no lavado da agulha.

A reavaliação de 6 a 12 meses classifica a resposta ao tratamento inicial em três faixas, e é ela que reajusta tudo daí em diante. Resposta excelente: tireoglobulina suprimida e estimulada indetectáveis, ultrassonografia cervical sem alterações e imagem negativa. Resposta aceitável: tireoglobulina suprimida abaixo de 1 ng/mL e estimulada entre 1 e 10 ng/mL, ou linfonodos estáveis abaixo de 1 cm, ou imagem com alteração inespecífica. Resposta incompleta: tireoglobulina suprimida acima de 1 ng/mL ou estimulada acima de 10 ng/mL, tireoglobulina em elevação, ou doença persistente ou nova em imagem.

Quando o iodo deixa de funcionar, muda o jogo. Os critérios de iodorrefratariedade que a diretriz da SBOC adota: pelo menos uma lesão mensurável sem captação de iodo-131; pelo menos uma lesão que progrediu dentro de 12 meses da última dose apesar de ter captado; ou dose cumulativa acima de 600 mCi. A partir daí entram inibidores de tirosina quinase — lenvatinibe em primeira linha, com sorafenibe como alternativa e cabozantinibe após falha —, mantendo o TSH suprimido abaixo de 0,1, e a testagem somática por sequenciamento passa a valer a pena, porque fusão de NTRK ou de RET abre terapia dirigida.

Medular, anaplásico, gestante e criança

O carcinoma medular vem das células parafoliculares, não do epitélio folicular, e por isso quebra as três ferramentas do capítulo: não capta iodo, de modo que o radioiodo não tem papel; não produz tireoglobulina, de modo que o marcador de seguimento passa a ser a calcitonina, acompanhada do CEA. De 20% a 25% dos casos são hereditários, por mutação do proto-oncogene RET, dentro da neoplasia endócrina múltipla tipo 2A, da tipo 2B ou do medular familiar — o que torna a pesquisa germinativa de RET obrigatória em todo medular, e obriga a excluir feocromocitoma antes de levar o paciente ao centro cirúrgico, sob pena de crise hipertensiva intraoperatória. A cirurgia é tireoidectomia total com esvaziamento do compartimento central, mesmo sem linfonodo detectável. Na investigação do nódulo, a calcitonina só entra com suspeita clínica ou história familiar de medular ou de neoplasia endócrina múltipla tipo 2.

O carcinoma anaplásico é 1% a 2% dos carcinomas de tireoide e tem sobrevida global mediana de 4 meses, com cerca de 20% dos pacientes vivos em um ano. A apresentação é inconfundível: massa cervical de crescimento rápido, endurecida, fixa, frequentemente com rouquidão, disfagia e dispneia — e a via aérea é a emergência do caso, não o estadiamento. Pode surgir da transformação de um carcinoma diferenciado ou coexistir com ele. A mutação BRAF V600E aparece em 25% a 40% dos tumores e deve ser pesquisada em todos, por sequenciamento ou imuno-histoquímica, com fluxo rápido, porque a combinação de dabrafenibe e trametinibe muda o curso da doença nos mutados. Por definição, todo anaplásico é estágio IV ao diagnóstico: IVA quando restrito à tireoide sem linfonodo, IVB com linfonodo ou invasão local, IVC com metástase à distância.

Na gestante, duas coisas saem da mesa: cintilografia com radioisótopos e radioiodo, ambos contraindicados. A punção, essa, pode ser feita normalmente na eutireoidiana e na hipotireoidiana. Se o TSH estiver espontaneamente suprimido e assim permanecer além das 16 semanas, adia-se a punção para depois do parto e da lactação, quando a cintilografia poderá ser feita se o TSH continuar baixo. Gestante com nódulo volumoso, invasão aparente ou linfonodo suspeito é puncionada de pronto.

Carcinoma papilífero diagnosticado no começo da gestação é acompanhado por ultrassom. Opera-se durante a gestação se houver crescimento significativo antes das 24 a 26 semanas ou se aparecer linfonodo cervical suspeito; se a doença estiver estável na metade da gestação, ou se o diagnóstico vier na segunda metade, a cirurgia espera o parto. Quando é preciso operar grávida, a janela é o segundo trimestre — no primeiro, aumenta o risco de abortamento; no terceiro, o de prematuridade. Quem vai aguardar deve ficar com o TSH abaixo de 0,5 mUI/L. E, depois de radioiodo, evita-se gravidez por 6 a 12 meses.

Na criança, o nódulo é mais raro e mais frequentemente maligno — o PCDT registra malignidade em até 26%. A régua da punção muda de eixo: indica-se punção em todo nódulo sólido ou parcialmente sólido acima de 1 cm, independentemente das características de imagem, e abaixo de 1 cm diante de achado suspeito ou fator de risco clínico. O Bethesda pediátrico tem risco maior na mesma categoria: 28% na III e 50% na IV, contra 22% e 30% no adulto — razão pela qual o indeterminado vai para a cirurgia com mais frequência em criança. Metástase linfonodal e até pulmonar ao diagnóstico são comuns e, ainda assim, o prognóstico permanece excelente.

04

Do nódulo à conduta: as réguas que a prova cobra

Três réguas se encaixam em série. A imagem decide quem recebe a agulha; a citologia decide quem vai à cirurgia; o anatomopatológico decide quanto se tira e o que se acompanha depois. Trocar a ordem é o que produz o erro — e a troca mais comum é deixar o diâmetro decidir o que só o padrão pode decidir.

  1. 1Nódulo detectado à palpação ou em qualquer exame de imagem: dosar TSH e pedir ultrassonografia cervical com varredura dos linfonodos do pescoço.
  2. 2TSH subnormal ou suprimido: cintilografia. Nódulo hipercaptante sai da fila da punção — trata-se a hiperfunção. TSH normal ou elevado: cintilografia não entra.
  3. 3Classificar o padrão ultrassonográfico do nódulo e procurar linfonodo suspeito. O padrão define o corte de tamanho; o tamanho não define o padrão.
  4. 4Puncionar, sob guia ultrassonográfica, o nódulo que atinge o corte do seu padrão — e o linfonodo suspeito, com tireoglobulina no líquido de lavagem da agulha.
  5. 5Ler o resultado como categoria de Bethesda e aplicar a conduta da categoria: acompanhar, repetir a punção, testar ou operar.
  6. 6Operado: estadiar pelo TNM (idade de corte de 55 anos), classificar o risco de recidiva, decidir radioiodo, fixar o alvo de TSH e seguir com tireoglobulina, anticorpo antitireoglobulina e ultrassonografia cervical.

TR1 · 0 ponto

Cístico puro. Risco de malignidade de até 2%. Não se pune em nenhum tamanho.

TR2 · 2 pontos

Não suspeito: espongiforme ou cístico com septos finos. Até 2%. Também não se pune.

TR3 · 3 pontos

Minimamente suspeito: sólido isoecoico ou hiperecoico, mais largo que alto, margem lisa. Cerca de 5%. Punção a partir de 2,5 cm; seguimento a partir de 1,5 cm.

TR4 · 4 a 6 pontos

Moderadamente suspeito: sólido hipoecoico, ou com um foco ecogênico puntiforme. De 5% a 20%. Punção a partir de 1,5 cm; seguimento a partir de 1 cm.

TR5 · 7 pontos ou mais

Altamente suspeito: sólido muito hipoecoico, mais alto que largo, margem irregular ou extensão extratireoidiana, microcalcificações. Ao menos 20%. Punção a partir de 1 cm; seguimento a partir de 0,5 cm.

Padrão ultrassonográfico, risco e corte de punção (ATA, 2015)

PadrãoO que o defineRisco de malignidadePunção a partir de
Alta suspeiçãoNódulo sólido hipoecoico (ou o componente sólido hipoecoico de um nódulo parcialmente cístico) com pelo menos um destes: margem irregular, microcalcificações, forma mais alta que larga, calcificação periférica rompida com componente extrusivo, extensão extratireoidiana70% a 90%1 cm
Suspeição intermediáriaNódulo sólido hipoecoico de margem lisa, sem microcalcificação, sem extensão extratireoidiana e sem forma mais alta que larga10% a 20%1 cm
Baixa suspeiçãoNódulo sólido isoecoico ou hiperecoico, ou parcialmente cístico com área sólida excêntrica, sem nenhum achado dos padrões acima5% a 10%1,5 cm
Muito baixa suspeiçãoNódulo espongiforme ou parcialmente cístico, sem nenhum achado dos padrões acimaabaixo de 3%2 cm — acompanhar sem puncionar também é razoável
BenignoNódulo puramente cístico, sem componente sólidoabaixo de 1%não se pune

Indicações de punção no consenso brasileiro (SBEM, 2013)

SituaçãoConduta
Nódulo abaixo de 5 mmPunção não indicada
Nódulo a partir de 5 mmPuncionar se houver alto risco clínico de malignidade ou nódulo suspeito ao ultrassom
Nódulo sólido hipoecoico a partir de 10 mmPuncionar, mesmo sem outros achados suspeitos
Nódulo sólido iso ou hiperecoico a partir de 15 mmPuncionar, mesmo sem outros achados suspeitos
Nódulo complexo ou espongiforme a partir de 20 mmPuncionar, mesmo sem outros achados suspeitos
Invasão extratireoidiana aparentePuncionar em qualquer tamanho
Linfonodo suspeito ao ultrassomPuncionar o linfonodo, com tireoglobulina no lavado da agulha
Nódulo hipercaptante ou puramente císticoFora da tabela: não se pune

ACR TI-RADS: pontos, categoria e corte de tamanho

CategoriaPontosRiscoPunçãoSeguimento
TR1 — benigno0até 2%não indicadanão indicado
TR2 — não suspeito2até 2%não indicadanão indicado
TR3 — minimamente suspeito3cerca de 5%a partir de 2,5 cma partir de 1,5 cm
TR4 — moderadamente suspeito4 a 65% a 20%a partir de 1,5 cma partir de 1 cm
TR5 — altamente suspeito7 ou mais20% ou maisa partir de 1 cma partir de 0,5 cm

Bethesda 2023 (3ª edição): risco de malignidade e conduta

CategoriaRisco médio (faixa)Conduta usual
I — Não diagnóstica13% (5% a 20%)Repetir a punção guiada por ultrassom
II — Benigna4% (2% a 7%)Acompanhamento clínico e ultrassonográfico
III — Atipia de significado indeterminado22% (13% a 30%)Repetir a punção, teste molecular, lobectomia diagnóstica ou vigilância
IV — Neoplasia folicular30% (23% a 34%)Teste molecular ou lobectomia diagnóstica
V — Suspeita de malignidade74% (67% a 83%)Teste molecular, lobectomia ou tireoidectomia quase total
VI — Maligna97% (97% a 100%)Lobectomia ou tireoidectomia quase total

Alvo de TSH depois do tratamento inicial (ATA, 2015)

SituaçãoTSH alvo (mUI/L)
Alto risco de recidivaabaixo de 0,1
Risco intermediário0,1 a 0,5
Baixo risco, tireoglobulina indetectável0,5 a 2
Baixo risco, tireoglobulina baixa mas detectável0,1 a 0,5
Baixo risco tratado só com lobectomia, sem doença0,5 a 2 — o hormônio pode nem ser necessário
Preparo para o radioiodoacima de 30

Os cortes de 1 cm, 1,5 cm e 2 cm são os mesmos na ATA de 2015 e no consenso brasileiro de 2013, por caminhos independentes — é o trio de números a decorar. O TI-RADS é a régua que se afasta, exigindo 2,5 cm no TR3.

Os percentuais do Bethesda vêm de nódulos que foram levados à cirurgia. Como quase ninguém opera citologia benigna, o risco real da categoria II, medido por seguimento longo, fica entre 1% e 2%, e não nos 4% da tabela.

Excluída a NIFTP da conta de malignidade, a categoria III cai para cerca de 16%, a IV para 23% e a V para 65%.

O PCDT de 2014 reproduz o quadro da primeira edição do Bethesda (2009), com 5% a 15% na categoria III e 60% a 75% na V. A categoria III é a que mais mudou entre as edições — e é a que mais aparece em questão.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Lobectomia ou tireoidectomia total no carcinoma papilífero de 1 a 4 cm, sem extensão extratireoidiana e com pescoço clinicamente negativo

ATA, desde 2015 — a lobectomia é opção legítima nessa faixa

Para tumor acima de 1 cm e abaixo de 4 cm, sem extensão extratireoidiana e sem evidência clínica de metástase linfonodal, a cirurgia inicial pode ser bilateral (tireoidectomia total ou quase total) ou unilateral (lobectomia); a lobectomia isolada pode ser tratamento inicial suficiente em carcinoma papilífero e folicular de baixo risco. A equipe ainda pode optar pela total para viabilizar o radioiodo ou facilitar o seguimento.

ATA 2015, Recomendação 35(B), mantida no escopo cirúrgico da atualização de 2025

Réguas brasileiras vigentes (2013 e 2014) — tireoidectomia total acima de 1 cm

A tireoidectomia total é o procedimento de escolha no paciente com diagnóstico pré-operatório de carcinoma papilífero, e a lobectomia fica reservada ao papilífero clássico, unifocal, de até 1 cm, esporádico e sem acometimento linfonodal ou invasão extratireoidiana aparentes. O PCDT diz o mesmo: acima de 1 cm, o tratamento inicial é a tireoidectomia total, salvo contraindicação.

Consenso do Departamento de Tireoide da SBEM (2013), Recomendação 28; PCDT do Carcinoma Diferenciado da Tireoide, Portaria SAS/MS nº 7/2014, item 6.1

Na prova

É divergência de data antes de ser divergência de mérito: os dois documentos brasileiros são de 2013 e 2014, anteriores à diretriz que abriu a lobectomia nessa faixa, em 2015. O recorte se identifica por três pistas. Citação nominal de PCDT, SUS, Ministério da Saúde ou consenso da SBEM no enunciado puxa o corpo brasileiro. Cenário de centro terciário, decisão compartilhada com o paciente, menção a risco de hipoparatireoidismo ou preferência por evitar levotiroxina definitiva puxa o corpo internacional. E as próprias alternativas denunciam: se uma opção oferece lobectomia e outra oferece total para o mesmo tumor de 2 cm cN0, a questão está construída sobre esta divergência e o desempate vem do documento que ela citou.

Bethesda III (atipia de significado indeterminado): repetir a punção, testar molecularmente ou operar

Consenso da SBEM (2013) — repetir a punção primeiro, e operar por critério de tamanho e suspeição

Diante de lesão folicular ou atipia de significado indeterminado, repete-se a punção com intervalo de 3 a 6 meses. Persistindo o resultado, a cirurgia é indicada em quem tem alta suspeita clínica ou ultrassonográfica de malignidade ou nódulo acima de 2 cm; nódulo de até 2 cm com baixa suspeita clínica e ultrassonográfica é acompanhado.

Consenso do Departamento de Tireoide da SBEM (2013), Recomendação 11

Bethesda 2023 e ATA 2015 — quatro caminhos abertos, escolhidos caso a caso

A conduta usual da categoria III é repetir a punção, fazer teste molecular, indicar lobectomia diagnóstica ou manter vigilância. A ATA acrescenta que a repetição da punção e o teste molecular servem para refinar a estimativa de risco em lugar de partir direto para vigilância ou cirurgia, e que a preferência informada do paciente e a viabilidade do exame entram na decisão.

Bethesda 2023 (3ª edição), Tabela 2; ATA 2015, Recomendação 15

Na prova

O que separa os dois mundos aqui é acesso, e o próprio PCDT registra o motivo: no Brasil o uso de marcadores moleculares está restrito a alguns centros de pesquisa, e o teste não é procedimento incorporado ao SUS. Cenário de rede pública, unidade secundária, regulação de fila ou paciente em serviço credenciado remove o teste molecular do cardápio e deixa duas saídas — repetir a punção ou operar. Cenário de centro terciário, medicina de precisão, ou alternativa que cite um painel de mutações pelo nome, indica que a questão está no corpo internacional. Note também o efeito do número: com o risco recalculado em 22%, a categoria III deixou de ser tratável como quase benigna.

Microcarcinoma papilífero (até 1 cm, sem invasão e sem linfonodo): vigilância ativa ou cirurgia

ATA 2015 — vigilância ativa é alternativa aceitável em casos selecionados

Diante de citologia diagnóstica de malignidade a cirurgia é geralmente recomendada, mas a vigilância ativa pode ser considerada como alternativa à cirurgia imediata em tumores de risco muito baixo — microcarcinoma papilífero sem metástase clinicamente evidente, sem invasão local e sem evidência citológica convincente de doença agressiva —, e também em paciente com alto risco cirúrgico. A própria diretriz registra a limitação: nenhum achado clínico ou molecular isolado separa com segurança o microcarcinoma que vai progredir do que não vai.

ATA 2015, Recomendação 12

Réguas brasileiras (2013 e 2014) — o microcarcinoma é operado, com lobectomia

O consenso brasileiro trata o papilífero clássico unifocal de até 1 cm como a situação em que a lobectomia é suficiente e em que a complementação da tireoidectomia pode ser dispensada — ou seja, o desfecho continua sendo cirúrgico, apenas menos extenso. O PCDT segue a mesma linha, admitindo lobectomia em tumor de até 1 cm (T1a), unifocal, intratireoidiano, sem história familiar ou irradiação prévia e sem metástase. A vigilância ativa não aparece como conduta nesses documentos.

Consenso do Departamento de Tireoide da SBEM (2013), extensão da tireoidectomia; PCDT do Carcinoma Diferenciado da Tireoide (2014), item 6.1

Na prova

Esta é a divergência mais viva do tema, e as alternativas costumam denunciá-la sozinhas: uma opção que ofereça acompanhamento ultrassonográfico seriado de um carcinoma já diagnosticado só existe no mundo da vigilância ativa. Enunciado com paciente idoso, comorbidade grave, alto risco cirúrgico ou recusa explícita de cirurgia empurra para vigilância. Enunciado com nódulo justacapsular, próximo à traqueia ou ao trajeto do laríngeo recorrente, com qualquer linfonodo alterado ou com citologia sugerindo variante agressiva, retira o caso do grupo elegível — e os critérios de elegibilidade são justamente o que a questão testa.

O corte de tamanho para puncionar: ATA e consenso brasileiro contra o ACR TI-RADS

ATA 2015 e consenso da SBEM (2013) — 1 cm, 1,5 cm e 2 cm conforme o padrão

Punção a partir de 1 cm no nódulo sólido hipoecoico (alta e intermediária suspeição), a partir de 1,5 cm no sólido iso ou hiperecoico (baixa suspeição) e a partir de 2 cm no espongiforme ou complexo (muito baixa suspeição), com a ressalva de que neste último acompanhar sem puncionar é conduta aceitável. Abaixo de 1 cm, só com alto risco clínico, invasão aparente ou linfonodo suspeito.

ATA 2015, Recomendação 8 e Tabela 6; Consenso do Departamento de Tireoide da SBEM (2013), Tabela 3

ACR TI-RADS (2017) — cortes escalonados por pontuação, com 2,5 cm no TR3

A punção é indicada a partir de 1 cm no TR5, de 1,5 cm no TR4 e de 2,5 cm no TR3; TR1 e TR2 não são puncionados em nenhum tamanho. Abaixo desses limiares, o sistema prevê seguimento ultrassonográfico a partir de 0,5 cm no TR5, 1 cm no TR4 e 1,5 cm no TR3.

ACR Thyroid Imaging, Reporting and Data System (Tessler et al., J Am Coll Radiol, 2017)

Na prova

As duas réguas coincidem no extremo suspeito (1 cm) e se afastam no extremo tranquilo, onde o TI-RADS é mais conservador — 2,5 cm contra 1,5 cm no nódulo minimamente suspeito. O vocabulário do enunciado entrega o recorte: laudo que diz TR3, TR4 ou TR5 está falando a língua do sistema de radiologia; enunciado que descreve o nódulo com as palavras hipoecoico, espongiforme, mais alto que largo, ou que nomeia alta e baixa suspeição, está na língua da ATA e do consenso brasileiro. O motivo da diferença também é útil: o TI-RADS foi construído para reduzir punção desnecessária em nódulo pouco suspeito, e por isso sobe o limiar exatamente ali.

A idade que divide o estadiamento: 45 ou 55 anos

AJCC 8ª edição (2017) — o corte é 55 anos

Abaixo de 55 anos, o carcinoma diferenciado só tem estágio I (sem metástase à distância) e estágio II (com metástase à distância). De 55 anos em diante abre-se a escada completa, de I a IVB. A mudança nasceu da constatação de que a mortalidade dos pacientes mais jovens é muito baixa mesmo com doença avançada, e o corte anterior superestadiava esse grupo.

AJCC Cancer Staging Manual, 8ª edição, reproduzido na diretriz da SBOC 2026 (Tireoide: carcinoma diferenciado e anaplásico)

PCDT do Ministério da Saúde (2014) — o corte é 45 anos

O protocolo nacional divide os pacientes em abaixo e acima de 45 anos, seguindo a edição do TNM vigente quando foi escrito, e monta os estágios sobre esse corte. É o documento que regula autorização de procedimento e fluxo no SUS, e permanece com a redação de 2014.

PCDT do Carcinoma Diferenciado da Tireoide, Portaria SAS/MS nº 7/2014, Quadros 2 e 3

Na prova

Aqui a causa da diferença é simples e vale dizer: o documento nacional é de 2014 e a oitava edição do TNM é de 2017 — não é discordância técnica, é defasagem de atualização. O impacto prático aparece num paciente entre 45 e 55 anos, que pode receber estágios diferentes conforme a régua. A pista está no enunciado: menção a PCDT, portaria, regulação do SUS ou autorização de procedimento aponta para o corte de 45 anos; menção a AJCC, TNM 8ª edição, estadiamento oncológico ou diretriz de sociedade aponta para 55. Regra geral que ajuda: prova oficial do MEC tende à conduta e ao vocabulário do SUS; outras bancas dependem do que as alternativas revelam.

06

Caso resolvido

Mulher de 46 anos, assintomática, traz uma ultrassonografia cervical pedida em check-up de rotina. TSH 2,1 mUI/L. O laudo descreve três nódulos: um de 3,2 cm no lobo direito, espongiforme; um de 1,4 cm no istmo, sólido isoecoico, com halo completo e regular; e um de 0,9 cm no lobo esquerdo, sólido, acentuadamente hipoecoico, mais alto que largo, com focos ecogênicos puntiformes. Há ainda um linfonodo de 1,1 cm no nível IV à esquerda, arredondado, sem hilo hiperecogênico.
achado
TSH normal, o que tira a cintilografia da jogada: ela não distingue benigno de maligno em nódulo normocaptante. A tireoide tem três nódulos e um linfonodo alterado, e o maior nódulo é o menos suspeito de todos.
classificação
Nódulo de 3,2 cm espongiforme: padrão de muito baixa suspeição, risco abaixo de 3%. Nódulo de 1,4 cm isoecoico com halo: baixa suspeição, risco de 5% a 10%, e o corte de punção desse padrão é 1,5 cm — ele não alcança. Nódulo de 0,9 cm sólido, acentuadamente hipoecoico, mais alto que largo e com microcalcificações: três achados de suspeição somados, padrão de alta suspeição, risco de 70% a 90%.
decisão de punção
O nódulo de 0,9 cm ficaria abaixo do corte de 1 cm se estivesse sozinho — mas não está. O linfonodo do nível IV é arredondado e perdeu o hilo: é suspeito de metástase, e linfonodo suspeito rompe o critério de tamanho e manda puncionar em qualquer diâmetro. Punciona-se o nódulo de 0,9 cm e o linfonodo, este com dosagem de tireoglobulina no líquido de lavagem da agulha. O nódulo de 3,2 cm não recebe agulha.
citologia
Nódulo: categoria VI de Bethesda, carcinoma papilífero — risco de malignidade de 97%. Linfonodo: positivo, com tireoglobulina elevada no lavado. O pescoço deixou de ser clinicamente negativo.
cirurgia
Metástase linfonodal clinicamente evidente coloca o caso na primeira faixa da decisão cirúrgica, independentemente de o tumor ter 9 mm: tireoidectomia total com esvaziamento terapêutico do compartimento central, acrescido do esvaziamento lateral esquerdo (níveis II a V) pela metástase comprovada no nível IV. Antes de operar, ultrassonografia cervical dedicada para mapear multicentricidade, compartimentos comprometidos e invasão.
depois
Estadiamento: paciente de 46 anos, abaixo do corte de 55 — sem metástase à distância, é estágio I, mesmo com N1b. O estágio, porém, não decide o seguimento: quem decide é o risco de recidiva, e linfonodo lateral clinicamente evidente abaixo de 3 cm coloca o caso no estrato intermediário-alto (16% a 30%). Radioiodo adjuvante é decisão individualizada nesse estrato; o alvo de TSH fica entre 0,1 e 0,5 mUI/L; e o seguimento se faz com tireoglobulina, anticorpo antitireoglobulina e ultrassonografia cervical em 6 a 12 meses.
07

Agora feche você

Homem de 58 anos procura ambulatório por nódulo cervical anterior notado há cerca de um ano, indolor, que ele percebe ao se barbear. Refere palpitações ocasionais, insônia e perda de 3 kg no período. Ao exame, nódulo de aproximadamente 2,5 cm no lobo direito, móvel à deglutição, de consistência elástica, sem linfonodos palpáveis, sem disfonia. TSH 0,08 mUI/L, T4 livre no limite superior da normalidade. Ultrassonografia: nódulo sólido isoecoico de 2,5 cm, margens regulares, halo completo, sem microcalcificações, vascularização periférica; sem linfonodos suspeitos.
achado
Nódulo único de 2,5 cm, com sintomas de tireotoxicose leve e TSH suprimido com T4 livre no limite alto — quadro compatível com autonomia funcional. O padrão ultrassonográfico é de baixa suspeição: sólido isoecoico, margens regulares, halo completo, sem microcalcificação e com vascularização periférica.
raciocínio
Pelo tamanho e pelo padrão, este nódulo atingiria o corte de punção: 2,5 cm num padrão de baixa suspeição passa dos 1,5 cm da ATA e dos 15 mm da tabela do consenso brasileiro. Mas há um passo antes do corte de tamanho, e ele já foi disparado pelo resultado laboratorial.
conduta
08

Onde a banca derruba

  1. 1Puncionar o maior nódulo do bócio multinodular É o erro mais cobrado do tema, e ele é intuitivo: nódulo maior parece mais perigoso. Só que o risco de câncer não difere entre quem tem nódulo único e quem tem nódulos múltiplos, cada nódulo acima de 1 cm carrega risco independente, e a escolha se faz pelo padrão ultrassonográfico com o respectivo corte de tamanho. O espongiforme de 3 cm tem risco abaixo de 3%; o sólido hipoecoico de 1 cm com microcalcificação tem de 70% a 90%.
  2. 2Puncionar antes de ter o TSH na mão Atrai porque o nódulo é o que incomoda e a agulha parece o caminho direto. O preço é concreto: no nódulo autônomo, a citologia costuma vir hipercelular e microfolicular, é lida como neoplasia folicular e empurra para cirurgia um paciente que precisava apenas de tratamento da hiperfunção. O TSH é o primeiro exame porque é ele que retira o nódulo quente da fila.
  3. 3Pedir cintilografia com TSH normal A cintilografia parece um exame de imagem a mais, e imagem a mais parece cuidado. Mas ela só responde a uma pergunta — o nódulo é hiperfuncionante? — e, com TSH normal ou elevado, a resposta já é conhecida. A maioria dos nódulos, benignos e malignos, é fria: o exame não separa nada e ainda irradia.
  4. 4Usar tireoglobulina para investigar o nódulo O nome soa a marcador tumoral de tireoide, e é — mas só depois da tireoidectomia. Antes da cirurgia, a tireoglobulina sobe na maioria das doenças tireoidianas e é insensível e inespecífica para câncer. O lugar dela é o seguimento pós-operatório, sempre acompanhada do anticorpo antitireoglobulina.
  5. 5Tratar Bethesda II como assunto encerrado A categoria benigna tem risco de 1% a 2% no seguimento longo, o que autoriza acompanhar — não abandonar. Crescimento acima de 50% do volume inicial durante o seguimento manda repetir a punção, e o mesmo vale para o nódulo que passa a preencher critérios de punção que antes não preenchia.
  6. 6Ler Bethesda III como indicação automática de cirurgia Os 22% de risco assustam e a palavra atipia soa a diagnóstico. Mas o caminho da categoria III é repetir a punção, testar molecularmente, operar ou vigiar — e a repetição resolve boa parte dos casos. Operar todo indeterminado é justamente o que o sistema de classificação foi criado para evitar.
  7. 7Estadiar como IV o jovem com metástase à distância Em qualquer outro tumor sólido, metástase à distância é estágio IV; e é exatamente esse automatismo que a questão explora. No carcinoma diferenciado de tireoide, abaixo de 55 anos existem apenas os estágios I e II — com metástase à distância, o paciente é estágio II. A idade é fator dentro do TNM, e só nesse tumor.
  8. 8Confundir macrocalcificação em casca de ovo com microcalcificação As duas são calcificação e aparecem juntas na mesma frase do laudo, mas apontam para lados opostos. Macrocalcificação periférica íntegra é sinal de benignidade; microcalcificações puntiformes são corpos psamomatosos do papilífero. E há a versão traiçoeira: calcificação periférica rompida, com pequeno componente de partes moles extrusivo, entra no padrão de alta suspeição.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Nódulo tireoidiano com características ultrassonográficas de alto risco (hipoecogênico, microcalcificações, margens irregulares) e tamanho ≥1 cm tem indicação de punção aspirativa por agulha fina (PAAF) para definição citológica. Tireoidectomia sem citologia é conduta precipitada. Cintilografia é útil quando o TSH está suprimido (nódulo hiperfuncionante), não com TSH normal. Anti-TPO investiga tireoidite autoimune, não malignidade nodular. Seguimento apenas para nódulos de baixo risco.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Refaça a cadeia de cabeça, sem consultar: nódulo, TSH, ultrassom, corte de punção, Bethesda, conduta. Depois escreva os trios de números: 1 cm, 1,5 cm e 2 cm para punção conforme o padrão; 13, 4, 22, 30, 74 e 97 por cento para as seis categorias do Bethesda; e o que fazer quando o TSH vem suprimido.

em 30 dias

Pegue três laudos de ultrassom de tireoide (reais ou inventados) e, para cada um, decida em voz alta quem se pune e por quê. Em seguida, responda estas quatro: tumor de 2 cm cN0 sem invasão — lobectomia ou total, e por qual documento; paciente de 48 anos com metástase pulmonar — qual estágio; Bethesda III que se repete e persiste em nódulo de 1,5 cm com baixa suspeição — qual conduta na rede pública; e alvo de TSH em paciente de alto risco.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Mulher de 52 anos chega ao ambulatório de cabeça e pescoço encaminhada da unidade básica por nódulo cervical anterior percebido há oito meses, indolor, que ela diz ter crescido. Nega disfonia, disfagia e dispneia. Traz TSH normal e uma ultrassonografia que descreve nódulo sólido de 2,1 cm no lobo esquerdo, hipoecoico, de margens microlobuladas, com focos ecogênicos puntiformes, além de um linfonodo de 0,9 cm no nível III à esquerda, arredondado e sem hilo. Conduza a consulta: colha a história dirigida (irradiação prévia de cabeça e pescoço, história familiar de câncer de tireoide, sintomas compressivos), examine o pescoço e a voz, decida o que puncionar e explique à paciente o que vem depois de cada resultado possível. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Nódulo de tireoide — Preparatório para provas | OsceLabs