Cirurgia GeralCirurgia de Cabeça e Pescoço

Bócio e hipertireoidismo: quem vai para a mesa

Bócio, hipertireoidismo e indicações de tireoidectomia

A prova raramente pergunta se é hipertireoidismo — pergunta se a tireoide está captando, qual das três terapias cabe naquele paciente e quanto de glândula se retira. Errar a extensão da ressecção e dar iodo antes da tionamida são os dois tropeços clássicos.

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Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Mulher de 42 anos com palpitações, perda de 6 kg, tremores e insônia há 2 meses. Exame: FC 118 bpm, exoftalmia bilateral, bócio difuso com sopro, tremor fino de extremidades. Exames: TSH < 0,01 mUI/L, T4 livre elevado, anticorpo anti-receptor de TSH (TRAb) positivo. Qual é o diagnóstico e o achado que o confirma?

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Como esse tema cai

Tireoide grande e tireoide acelerada são dois problemas distintos que costumam aparecer no mesmo pescoço, e a prova explora exatamente a confusão entre eles. Bócio é volume: pode ser eutireóideo, hipotireóideo ou hipertireóideo, e o que o leva à sala de cirurgia é quase sempre o que ele comprime ou o que ele esconde, não o que ele secreta. Hipertireoidismo é função: pode existir com glândula quase normal ao exame, e o que decide a conduta é a etiologia.

O passo que separa quem acerta de quem chuta é anterior a tudo: nem toda tireotoxicose é hipertireoidismo. Tireotoxicose é a síndrome do excesso de hormônio circulante; hipertireoidismo é a produção aumentada pela glândula. Tireoidite subaguda, tireotoxicose factícia e tireotoxicose por amiodarona tipo II fazem tireotoxicose sem hiperfunção — e nessas o antitireoidiano é inútil. A captação de radioiodo é o exame que corta esse nó, e a vinheta que informa captação baixa está entregando o diagnóstico.

O hipertireoidismo não tem protocolo clínico e diretrizes terapêuticas do Ministério da Saúde em nenhuma faixa etária. O documento nacional de referência é o consenso do Departamento de Tireoide da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, de 2013, e é dele que saem os protocolos municipais e estaduais da rede. O que o Ministério da Saúde produziu sobre o tema foi decisão de medicamento: a incorporação do tiamazol em 2021 e a lista da Rename — e é aí que mora a diferença entre o que a diretriz recomenda e o que a farmácia do SUS entrega.

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O que muda decisão

Bócio: o volume, a graduação e o que faz um pescoço grande virar indicação cirúrgica

Bócio é o aumento da glândula tireoide, e a definição operacional mais usada em campo é comparativa: considera-se bócio quando cada lobo lateral tem volume maior que a falange terminal do polegar do próprio paciente examinado. A partir daí a graduação da Organização Mundial da Saúde tem só três degraus — grau 0, sem bócio palpável ou visível; grau 1, palpável mas não visível com o pescoço em posição normal; grau 2, aumento claramente visível com o pescoço em posição normal. Nódulos numa glândula que no restante não está aumentada entram no grau 1.

A própria fonte que publica essa escala avisa que ela erra: a sensibilidade e a especificidade da palpação são baixas nos graus 0 e 1, com alta variação entre examinadores. Isso não a torna inútil — ela nasceu para inquérito populacional de deficiência de iodo, e é ali que serve. Para decidir cirurgia, o que vale é o volume medido por imagem e, sobretudo, o que o volume está fazendo com as estruturas vizinhas.

O bócio vai para a mesa por quatro motivos, e nenhum deles é o número em si. O primeiro é compressão: disfagia, dispneia — em especial em decúbito —, rouquidão por acometimento do nervo laríngeo recorrente, ou sinal de Pemberton, o rubor e a turgência jugular que aparecem quando o paciente eleva os braços e o bócio funciona como rolha no estreito torácico. O segundo é a extensão retroesternal: o bócio mergulhante ou intratorácico não se resolve com punção nem com radioiodo, porque cresce num compartimento sem saída. O terceiro é a suspeita de malignidade — nódulo com citologia indeterminada ou maligna dentro do bócio. O quarto é a disfunção que não se controla clinicamente.

O tamanho isolado, sem compressão e sem nódulo suspeito, não é indicação por si. Mas volume grande é fator de fracasso do tratamento clínico e do radioiodo: bócio volumoso reduz a chance de remissão com antitireoidiano e responde pior à dose de iodo radioativo, o que empurra a decisão para a cirurgia por um caminho indireto — o de quem já sabe que as outras duas rotas vão falhar.

Desenho do pescoço em vista anterior com bócio multinodular volumoso de extensão retroesternal, comprimindo e desviando a traqueia, deslocando o esôfago para trás e contornando o nervo laríngeo recorrente no sulco traqueoesofágico.
O bócio mergulhante cresce para dentro do estreito torácico, um compartimento sem saída: a traqueia se desvia e se estreita, o esôfago é empurrado para trás e o nervo laríngeo recorrente fica esticado no sulco traqueoesofágico. É o cenário em que a compressão manda na conduta, e não o valor do TSH.

Tireotoxicose não é hipertireoidismo — e a captação separa as duas

Tireotoxicose é a síndrome clínica do excesso de hormônio tireoidiano circulante, venha ele de onde vier. Hipertireoidismo é o subgrupo em que a glândula está sintetizando e liberando hormônio a mais. A distinção não é acadêmica: o antitireoidiano bloqueia síntese, de modo que ele só funciona onde há síntese aumentada. Numa tireoidite destrutiva, o hormônio que circula é o que estava estocado e vazou com a destruição do folículo; bloquear a síntese não muda nada.

A captação de radioiodo em 24 horas é o exame que divide o campo. Captação normal ou elevada aponta para doença de Graves, bócio multinodular tóxico, adenoma tóxico, doença trofoblástica, adenoma hipofisário secretor de TSH e resistência aos hormônios tireoidianos. Captação baixa ou ausente aponta para tireoidite indolor (silenciosa), tireoidite subaguda de De Quervain, tireoidite aguda, tireoidite induzida por amiodarona, tireotoxicose iatrogênica, ingestão factícia de hormônio, struma ovarii e metástases extensas de carcinoma folicular. Nas duas últimas a fonte de hormônio é ectópica, e por isso a tireoide do pescoço não capta.

A captação é contraindicada na gestação e na lactação. Dois outros contextos a derrubam falsamente: uso recente de contraste iodado nos 30 a 60 dias anteriores e dieta muito rica em iodo. Quando a captação não pode ser feita ou não elucida, a ultrassonografia com Doppler entra como alternativa — e é particularmente útil para separar os dois tipos de tireotoxicose por amiodarona.

A cintilografia tem papel mais estreito que a captação. Ela mostra a distribuição do marcador: difusa e homogênea no Graves, heterogênea no bócio multinodular tóxico, e um foco único hipercaptante com o restante da glândula suprimido no adenoma tóxico. Essa última imagem é a que a prova cobra, porque muda a conduta duas vezes: nódulo hipercaptante praticamente não é câncer e não se punciona, e a ressecção que se faz nele não é a mesma que se faz no bócio multinodular.

O diagnóstico em três degraus: TSH, hormônio, etiologia

O primeiro degrau é o TSH. Na tireotoxicose de origem tireoidiana ele está baixo ou indetectável, e essa é a triagem. O segundo degrau é a dosagem simultânea de T4 livre e T3: elevação de um deles ou dos dois confirma a tireotoxicose. Nas fases iniciais da doença de Graves e do adenoma funcionante pode haver elevação isolada de T3 com T4 livre normal — a chamada T3-tireotoxicose, que passa batido em quem só pede T4 livre.

TSH alto ou inapropriadamente normal com hormônios elevados não é tireotoxicose primária: aponta para adenoma hipofisário secretor de TSH ou síndrome de resistência aos hormônios tireoidianos, dois diagnósticos raros que a prova usa como pegadinha de leitura de exame.

O terceiro degrau é a etiologia. Quando o quadro reúne tireotoxicose moderada a grave, bócio difuso e oftalmopatia de início recente, o diagnóstico de doença de Graves se estabelece com razoável segurança sem exame adicional — essa é a primeira recomendação do consenso brasileiro, e ela existe justamente para o aluno não pedir cintilografia em quem já tem o diagnóstico na mesa. Fora dessa tríade, o caminho é a captação, a cintilografia se há nódulo, e o TRAb.

O TRAb é positivo em cerca de 95% dos casos de doença de Graves. O quanto ele deve ser pedido é justamente onde as réguas se afastam, e o assunto está no bloco de divergências. O que não se discute é a indicação em três situações: gestante com doença de Graves atual ou pregressa, para estimar o risco de tireotoxicose neonatal por passagem transplacentária de anticorpo; diagnóstico diferencial da tireotoxicose gestacional do primeiro trimestre; e paciente eutireóideo com oftalmopatia.

Um detalhe de acompanhamento que vale ponto: iniciado o tratamento, quem guia o ajuste de dose é o T4 livre, não o TSH. O TSH pode permanecer suprimido por vários meses depois de o paciente já estar eutireóideo, e quem titula pelo TSH acaba subtratando.

As três terapias e o que o SUS entrega

A doença de Graves tem três tratamentos, e dois deles são definitivos. O antitireoidiano é a rota inicial na maioria dos casos porque é o único que persegue remissão da doença autoimune: 30% a 50% dos pacientes remitem depois de 12 a 24 meses de tratamento. O radioiodo e a tireoidectomia não buscam remissão — buscam eliminar tecido funcionante, e por isso o desfecho esperado dos dois é o hipotireoidismo definitivo.

No bócio multinodular tóxico e no adenoma tóxico a lógica é outra e a prova troca a ordem de propósito. Não há autoimunidade para remitir: o antitireoidiano só controla enquanto é tomado, de modo que ele é preparo, não tratamento. Nesses dois diagnósticos, o tratamento definitivo é radioiodo ou cirurgia, e o consenso brasileiro coloca a cirurgia como primeira opção.

O radioiodo é simples, seguro e barato, com resposta satisfatória — hipotireoidismo ou eutireoidismo — em 80% a 90% dos casos. É contraindicado na gestação, na lactação e diante de lesão suspeita ou confirmada de câncer de tireoide. Hipertireoidismo que persiste seis meses depois da dose indica considerar uma segunda dose, e no bócio multinodular tóxico e no adenoma tóxico a dose terapêutica fica na faixa de 150 a 200 µCi por grama de tecido, corrigida para a captação de 24 horas.

A metade brasileira dessa história é de disponibilidade. As duas tionamidas registradas no país são a propiltiouracila e o tiamazol, também chamado de metimazol. O consenso de 2013 já colocava o tiamazol como primeira escolha e restringia a propiltiouracila a hipertireoidismo grave, crise tireotóxica e primeiro trimestre de gestação — mas, até 2021, a propiltiouracila era o único antitireoidiano do componente básico do SUS. A incorporação do tiamazol veio pela Portaria SCTIE/MS nº 65, de 23 de setembro de 2021, com decisão nominalmente restrita a crianças e adolescentes. A Rename 2024 lista os dois no Componente Básico: tiamazol em comprimidos de 5 mg e 10 mg e propiltiouracila em comprimido de 100 mg.

Tionamida: dose pelo T4 livre, tempo pelo TRAb, e os dois efeitos que fazem parar

A dose inicial se escolhe pelo grau de elevação do T4 livre, não pelo peso nem pela impressão clínica. O protocolo municipal de São Paulo organiza a régua em três faixas medidas em múltiplos do limite superior da normalidade, e é a tabela mais prática do tema. Em tireotoxicose leve a moderada, o consenso brasileiro trabalha com 10 a 30 mg de tiamazol em tomada única diária; no hipertireoidismo grave, 40 a 60 mg por dia. A tomada única é possível no tiamazol e não na propiltiouracila, cuja meia-vida curta obriga a fracionar — motivo prático que pesou na decisão de incorporação.

O eutireoidismo chega em seis a oito semanas na maioria dos pacientes. A partir daí a dose cai progressivamente até manutenção, entre 5 e 10 mg por dia de tiamazol ou 50 a 100 mg por dia de propiltiouracila. O tratamento se estende por 12 a 18 meses e se interrompe com TSH e TRAb normais; TRAb ainda alto ao fim desse período é o sinal de que a suspensão vai custar recidiva.

Bócio volumoso, tabagismo, oftalmopatia e TRAb persistentemente alto reduzem a chance de remissão. Necessidade de doses altas para manter o controle ao longo do tratamento é o outro marcador prático: quem não consegue baixar a dose dificilmente vai remitir, e esse paciente já deve ser encaminhado para conversa sobre tratamento definitivo.

Os efeitos adversos vêm em dois andares. Os leves — rash, prurido, urticária, artralgia — ocorrem em 1% a 5%, podem ser tratados com anti-histamínico sem suspender a droga e, se preciso, admitem troca de uma tionamida pela outra, com reação cruzada em até 50% dos casos. Os graves ocorrem em torno de 1%: agranulocitose (0,1% a 1,0%), hepatite tóxica — mais associada à propiltiouracila —, vasculite, síndrome lúpus-like, anemia aplástica e trombocitopenia.

A regra que a prova cobra é a do efeito grave: suspender imediatamente e não reintroduzir, e não trocar por outra tionamida. Quem teve agranulocitose com tiamazol não passa a tomar propiltiouracila; passa a discutir radioiodo ou cirurgia. Todo paciente que inicia tionamida precisa sair da consulta sabendo que febre, dor de garganta e icterícia são motivo de procurar atendimento e dosar hemograma e transaminases no mesmo dia.

Duas situações invertem a escolha da droga. Na gestação, a propiltiouracila é a preferida no primeiro trimestre, pela menor passagem placentária e pelo risco de aplasia cútis e outras malformações com o tiamazol; após o primeiro trimestre volta-se ao tiamazol. Na crise tireotóxica, a propiltiouracila também é preferida, por bloquear a conversão periférica de T4 em T3 em doses altas.

A operação: preparo, extensão e as três complicações

O preparo tem um objetivo único: entrar na sala eutireóideo. O estresse cirúrgico, a anestesia e a manipulação da glândula desencadeiam crise tireotóxica no paciente ainda tóxico, e é essa a razão de a antitireoidiano vir antes da agenda. Controlada a função com tionamida, associada ou não a betabloqueador, entra o iodeto por sete a dez dias antes da operação, para reduzir o fluxo sanguíneo intraglandular, a vascularização e a perda sanguínea no intraoperatório: solução saturada de iodeto de potássio a 50 mg por gota, uma gota três vezes ao dia, ou solução de Lugol a 6 mg por gota, cinco a dez gotas três vezes ao dia.

A ordem importa e é fonte permanente de erro. O iodeto bloqueia a liberação do hormônio já formado, mas também é substrato: administrado antes do bloqueio da síntese, alimenta a glândula. Iodo sempre depois da tionamida — na preparação eletiva e na crise tireotóxica.

A extensão da ressecção segue a etiologia. Na doença de Graves e no bócio multinodular tóxico, tireoidectomia total: deixar tecido residual devolve o hipertireoidismo em 5% a 20% dos casos, enquanto a recidiva após tireoidectomia total é praticamente nula. No adenoma tóxico, lesão única, faz-se lobectomia total, com extensão da ressecção pelo istmo até o lobo contralateral — retirar a glândula inteira ali é overtreatment, porque o lobo são está suprimido, não doente, e volta a funcionar.

Volume de cirurgião é variável de desfecho, não detalhe de currículo: o consenso brasileiro qualifica como experiente o cirurgião com mais de 100 tireoidectomias por ano, e a diretriz europeia repete a exigência de alto volume anual. Nas mãos certas, a tireoidectomia total é procedimento de baixo risco; fora delas, as complicações mudam de patamar.

As três complicações que a prova cobra são hipocalcemia, lesão do nervo laríngeo recorrente e hematoma cervical. A hipocalcemia por hipoparatireoidismo aparece nas primeiras horas como parestesia perioral e de extremidades e câimbras, com sinais de Chvostek e de Trousseau; o cálcio sérico deve ser monitorado e a suplementação oral de cálcio com calcitriol reduz a necessidade de cálcio endovenoso. Paratireoide removida acidentalmente se autotransplanta em músculo cervical. A disfunção do recorrente se investiga com laringoscopia e mobilidade das pregas vocais. O hematoma cervical expansivo é a emergência da enfermaria: comprime a via aérea e se abre à beira do leito, sem esperar centro cirúrgico.

Depois da tireoidectomia total, a reposição com levotiroxina começa no dia seguinte à cirurgia — o hipotireoidismo aqui é o desfecho pretendido, não uma complicação.

Crise tireotóxica: a ordem dos fármacos é a pergunta

O diagnóstico de crise tireotóxica é clínico, e nenhum exame o confirma: a função tireoidiana tem o mesmo padrão do hipertireoidismo sem crise. Diante da suspeita, trata-se como se fosse. Os gatilhos são conhecidos: suspensão abrupta do antitireoidiano, cirurgias tireoidianas e não tireoidianas, infecção, cetoacidose diabética e eventos vasculares.

O escore de Burch e Wartofsky organiza cinco eixos — temperatura, sistema nervoso central, trato gastrintestinal e fígado, frequência cardíaca com fibrilação atrial e insuficiência cardíaca somadas à parte, e a presença de fator desencadeante. Somados os pontos, escore acima de 45 é altamente sugestivo, de 25 a 45 sustenta o diagnóstico e abaixo de 25 o torna improvável. A taquicardia habitual passa de 140 batimentos por minuto.

O tratamento tem quatro classes e uma sequência. Betabloqueador para bloquear o efeito adrenérgico — propranolol é o mais usado, 60 a 80 mg por via oral a cada quatro a seis horas, ou por via endovenosa nos casos que não toleram a oral; diltiazem quando o betabloqueador é contraindicado. Tionamida para bloquear a síntese, com preferência pela propiltiouracila, 200 a 400 mg a cada quatro a seis horas. Só depois, o iodo inorgânico para bloquear a liberação do que já está pronto: Lugol 4 a 10 gotas a cada seis a oito horas ou solução saturada de iodeto de potássio 5 gotas a cada seis horas. E glicocorticoide para reduzir a conversão periférica e cobrir a reserva adrenal diminuída: hidrocortisona 100 mg a cada oito horas ou dexametasona 2 mg a cada seis horas, por via endovenosa.

O suporte é em terapia intensiva, com hidratação endovenosa, reposição de tiamina e correção da hipertermia — evitando salicilato, que desloca o hormônio das proteínas carreadoras e aumenta a fração livre. O fator desencadeante é tratado de forma agressiva. Quando o paciente não responde ou não tolera as tionamidas, a tireoidectomia total entra como resgate: prepara-se por cinco a sete dias com betabloqueador, glicocorticoide e solução de iodo, e opera-se entre o oitavo e o décimo dia.

As tionamidas têm vias alternativas quando a via oral não está disponível — enema e supositório de propiltiouracila, supositório e preparo endovenoso de tiamazol. É informação de segunda linha, mas resolve a pergunta do paciente comatoso ou em vômitos incoercíveis.

As situações que mudam a régua

Gestante. O radioiodo é contraindicado em toda a gestação e na lactação. A tireoidectomia é raramente indicada — reservada a reação adversa grave às duas tionamidas ou à paciente não aderente — e, quando necessária, é feita no segundo trimestre, entre a 22ª e a 24ª semana. O alvo do tratamento clínico é manter o T4 livre na faixa superior da normalidade ou discretamente acima, com a menor dose possível; titular pelo T3 materno produz hipotireoidismo fetal. O TRAb deve ser dosado entre a 20ª e a 24ª semana em mulher com doença de Graves atual ou pregressa. Amamentar é permitido em uso de tionamida, com no máximo 300 mg por dia de propiltiouracila ou 20 a 30 mg por dia de tiamazol.

Criança e adolescente. O tiamazol é a droga de escolha e a propiltiouracila deve ser evitada, pela hepatotoxicidade e pela vasculite descritas nessa faixa. A dose de tiamazol fica entre 0,2 e 0,5 mg/kg por dia, com máximo de 30 mg. O radioiodo é evitado abaixo dos cinco anos. Quando se opera, a conduta aceita é a tireoidectomia total, pelo risco de recidiva da ressecção parcial. A duração do tratamento clínico nessa faixa é ponto de divergência entre os documentos.

Oftalmopatia de Graves. Ela ocorre em cerca de metade dos pacientes com doença de Graves e tem expressão clínica importante em 20% a 30%. O radioiodo piora a órbita: há progressão ou surgimento de oftalmopatia em 15% a 39% dos tratados, risco maior em quem já tinha doença ocular, em doença moderada a grave ativa e em tabagistas — e prevenível com prednisona oral 0,5 mg/kg por dois a três meses. A tireoidectomia não parece alterar o curso da órbita. Na oftalmopatia grave com risco à visão, trata-se o hipertireoidismo com tionamida e adia-se radioiodo ou cirurgia até melhora ocular.

Amiodarona. A tireotoxicose induzida pelo fármaco tem dois tipos com tratamentos opostos. O tipo I é síntese e liberação excessivas em glândula previamente doente: trata-se com doses altas de tionamida. O tipo II é tireoidite destrutiva: trata-se com glicocorticoide, e a retirada da amiodarona às vezes basta. Nas formas mistas ou enquanto a diferenciação não fecha, combinam-se as duas. A tireoidectomia total entra quando o controle precisa ser imediato — crise tireotóxica, insuficiência cardíaca grave ou arritmia intratável.

Hipertireoidismo subclínico. TSH suprimido com T4 livre e T3 normais. Com TSH abaixo de 0,1, trata-se quem tem mais de 65 anos, cardiopatia, osteoporose, quem está na pós-menopausa e quem tem sintomas; abaixo dos 65 anos e sem comorbidade, considera-se tratar. Com TSH entre 0,1 e 0,4, o mesmo grupo de risco entra em considerar tratar, e o paciente jovem sem comorbidade fica em vigilância.

Tireoidites e tireotoxicose factícia. Na tireotoxicose das tireoidites, o tratamento é apenas betabloqueador; contraste iodado pode ser considerado nos quadros mais graves. Na factícia, o diagnóstico se sustenta na ausência de bócio, na tireoglobulina indetectável e na captação baixa — e o tratamento é suspender a ingestão e usar betabloqueador.

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Do bócio à mesa: quem opera, o que se retira

O fluxo abaixo é a sequência que a vinheta costuma percorrer, e as tabelas são os quatro conjuntos de números que a prova cobra: a graduação do bócio, a divisão da tireotoxicose pela captação, a dose inicial da tionamida pelo T4 livre e o escore da crise tireotóxica. A tabela de indicações cirúrgicas é a que fecha o capítulo, porque nela a etiologia manda na extensão da ressecção.

  1. 1TSH baixo ou indetectável com T4 livre e/ou T3 elevados: está confirmada a tireotoxicose. TSH alto ou inapropriadamente normal com hormônios altos aponta para hipófise ou resistência hormonal.
  2. 2Tireotoxicose moderada a grave com bócio difuso e oftalmopatia de início recente: doença de Graves, sem necessidade de exame etiológico adicional.
  3. 3Fora dessa tríade, medir a captação de radioiodo em 24 horas — captação baixa retira o antitireoidiano da mesa. Se há nódulo, cintilografia; se a captação é contraindicada, ultrassonografia com Doppler.
  4. 4Definida a etiologia, escolher entre tionamida, radioiodo e cirurgia. No Graves, a tionamida é a rota inicial; no bócio multinodular tóxico e no adenoma tóxico, ela é preparo e o definitivo é radioiodo ou cirurgia.
  5. 5Havendo indicação cirúrgica, atingir o eutireoidismo com tionamida e só então iniciar o iodeto por sete a dez dias antes da operação.
  6. 6Escolher a extensão pela etiologia: tireoidectomia total no Graves e no bócio multinodular tóxico; lobectomia total com istmo no adenoma tóxico.
  7. 7No pós-operatório, procurar hipocalcemia, avaliar mobilidade das pregas vocais e iniciar levotiroxina no dia seguinte quando a ressecção foi total.

Grau 0 — sem bócio

Tireoide não palpável e não visível. É o normal da escala da OMS, e a própria fonte registra que a palpação erra muito neste grau e no seguinte, por variação entre examinadores.

Grau 1 — palpável, não visível

Bócio que se palpa mas não se vê com o pescoço em posição normal. Nódulo em glândula que no restante não está aumentada também cai aqui.

Grau 2 — visível de frente

Aumento claramente visível com o pescoço em posição normal e compatível com tireoide aumentada à palpação. É o volume que costuma vir acompanhado de compressão — e é a compressão, não o grau, que indica a cirurgia.

SituaçãoExtensão da ressecçãoPor que essa extensão
Doença de Graves com indicação cirúrgicaTireoidectomia totalDeixar remanescente devolve o hipertireoidismo em 5% a 20%; após a total, a recidiva é praticamente nula e a necessidade de reoperação é quase zero
Bócio multinodular tóxicoTireoidectomia totalA autonomia está distribuída em vários focos — remanescente é recidiva programada; é a primeira opção de tratamento no consenso brasileiro
Adenoma tóxico (nódulo único hipercaptante)Lobectomia total, estendida pelo istmo até o lobo contralateralLesão única com o restante da glândula suprimido, não doente; o lobo contralateral volta a funcionar depois da retirada do autônomo
Bócio mergulhante ou intratorácicoTireoidectomia totalCresce em compartimento sem saída; punção e radioiodo não resolvem compressão de traqueia e esôfago
Nódulo suspeito ou maligno dentro de bócio tóxicoTireoidectomia total, após normalizar a função com tionamidaA conduta passa a ser oncológica; operar tóxico é risco de crise tireotóxica
Gestante sem controle com tionamida ou com reação adversa grave às duas drogasTireoidectomia total no 2º trimestre, entre a 22ª e a 24ª semanaRadioiodo é contraindicado na gestação; o 2º trimestre é a janela de menor risco obstétrico
Crise tireotóxica refratária ao tratamento clínicoTireoidectomia total de resgate, entre o 8º e o 10º diaPreparo de 5 a 7 dias com betabloqueador, glicocorticoide e solução de iodo antes de levar à sala

Captação de radioiodo em 24 horas: as duas colunas que a prova troca

Captação normal ou elevada (há hipertireoidismo)Captação baixa ou ausente (tireotoxicose sem hiperfunção)
Doença de GravesTireoidite indolor (silenciosa)
Bócio multinodular tóxicoTireoidite subaguda (de De Quervain) e tireoidite aguda
Adenoma tóxicoTireoidite induzida por amiodarona
Doença trofoblásticaTireotoxicose iatrogênica e ingestão factícia de hormônio
Adenoma hipofisário secretor de TSHStruma ovarii
Resistência aos hormônios tireoidianosMetástases extensas de carcinoma folicular da tireoide

Dose inicial da tionamida pelo grau de elevação do T4 livre

T4 livre (múltiplos do limite superior da normalidade)Tiamazol (metimazol)Propiltiouracila
1 a 1,5×5 a 10 mg/dia100 a 200 mg/dia
1,5 a 2×10 a 20 mg/dia200 a 400 mg/dia
2 a 3×30 a 40 mg/dia600 a 800 mg/dia
Manutenção, após o eutireoidismo (6 a 8 semanas)5 a 10 mg/dia50 a 100 mg/dia

Crise tireotóxica: escore de Burch-Wartofsky

EixoAchadoPontos
Termorregulação37,2 a 37,7 °C5
Termorregulação37,8 a 38,2 °C10
Termorregulação38,3 a 38,8 °C15
Termorregulação38,9 a 39,2 °C20
Termorregulação39,3 a 39,9 °C25
Termorregulação40,0 °C ou mais30
Sistema nervoso centralLeve (agitação)10
Sistema nervoso centralModerado (delírio, psicose, letargia extrema)20
Sistema nervoso centralGrave (convulsões, coma)30
Gastrintestinal e hepáticoModerado (diarreia, náuseas, vômitos, dor abdominal)10
Gastrintestinal e hepáticoGrave (icterícia não explicada)20
Frequência cardíaca99 a 109 bpm5
Frequência cardíaca110 a 119 bpm10
Frequência cardíaca120 a 129 bpm15
Frequência cardíaca130 a 139 bpm20
Frequência cardíaca140 bpm ou mais25
Fibrilação atrialPresente10
Insuficiência cardíacaLeve (edema de membros inferiores)5
Insuficiência cardíacaModerada (crepitantes em bases)10
Insuficiência cardíacaGrave (edema pulmonar)15
Fator desencadeantePresente10
Leitura do totalAcima de 45, altamente sugestivo; 25 a 45, sustenta o diagnóstico; abaixo de 25, improvável

As faixas de temperatura do escore de Burch-Wartofsky foram construídas em graus Fahrenheit (99 a 99,9; 100 a 100,9; 101 a 101,9; 102 a 102,9; 103 a 103,9; 104 ou mais). Convertidas para Celsius com uma casa decimal, os limites de 102,9 °F e 103 °F caem os dois em 39,4 °C, e a versão em português do consenso brasileiro reproduz a sobreposição, com 39,4 aparecendo como topo de uma faixa e piso da seguinte. A tabela acima usa 38,9 a 39,2 e 39,3 a 39,9 para eliminar a ambiguidade; um paciente com exatamente 39,4 °C não deve ser usado para decidir entre 20 e 25 pontos.

O consenso brasileiro escreve a última faixa térmica como 'maior que 40,0 °C', enquanto o escore original usa 'igual ou maior que 104 °F', isto é, 40,0 °C incluído. A diferença de sinal fica registrada e não se uniformiza: em prova, temperatura de exatamente 40,0 °C não é o dado que decide o escore.

A tabela de dose por T4 livre do protocolo municipal de São Paulo traz a primeira faixa impressa como '1-15X o LSN'. O valor é impossível e é contradito pela própria tabela, cuja segunda faixa começa em 1,5×: a faixa correta é de 1 a 1,5 vez o limite superior da normalidade, e é assim que ela aparece acima.

A graduação de bócio da OMS em três degraus nasceu para inquérito populacional de deficiência de iodo, não para decisão cirúrgica. Para operar, o que conta é compressão, extensão retroesternal, suspeita de malignidade e disfunção não controlada.

Iodeto sempre depois da tionamida, tanto no preparo eletivo quanto na crise: administrado antes do bloqueio da síntese, o iodo é substrato e não freio.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Qual antitireoidiano o paciente adulto recebe no SUS

Tiamazol como primeira escolha, propiltiouracila restrita

A propiltiouracila fica reservada a hipertireoidismo grave, crise tireotóxica e primeiro trimestre de gestação; fora disso, a droga é o tiamazol, por perfil de segurança e por permitir tomada única diária. A diretriz europeia vai adiante e indica metimazol ou carbimazol em todo paciente não gestante que optar por tratamento medicamentoso.

Consenso brasileiro do Departamento de Tireoide da SBEM, 2013 (Recomendação 8); ETA Guideline for the Management of Graves' Hyperthyroidism, 2018 (Recomendação 6)

Propiltiouracila como o antitireoidiano historicamente disponível na rede

Até setembro de 2021 a propiltiouracila era o único medicamento para hipertireoidismo disponível no SUS, pelo componente básico. O tiamazol foi incorporado pela Portaria SCTIE/MS nº 65, de 23 de setembro de 2021, com decisão que nomeia crianças e adolescentes; a Rename 2024 lista as duas drogas no Componente Básico, tiamazol 5 mg e 10 mg e propiltiouracila 100 mg.

Conitec, Relatório de Recomendação nº 667/2021; Rename 2024 (Portaria GM/MS nº 6.324/2024)

Na prova

A causa da diferença é de incorporação e disponibilidade, não de evidência: a régua clínica brasileira já preferia o tiamazol em 2013, e a rede levou oito anos para tê-lo. Enunciado ambientado em unidade básica, farmácia do SUS, dispensação ou 'medicamento disponível na rede' está pedindo o corpo de documento do Ministério da Saúde. Enunciado que cita a sociedade nominalmente, ou que descreve o paciente sem falar em disponibilidade, está no corpo da diretriz. As alternativas denunciam o recorte: se uma delas fala em fracionamento de dose ao dia, o texto está pensando em propiltiouracila; se fala em tomada única, em tiamazol.

Duração do tratamento com antitireoidiano na criança e no adolescente

Doze a dezoito meses, podendo chegar a dois anos

O tratamento deve ser mantido por pelo menos 12 a 18 meses, admitindo-se até dois anos em crianças, com o objetivo de remissão. A metanálise citada pelo documento aponta 12 a 18 meses como duração ótima.

Consenso brasileiro do Departamento de Tireoide da SBEM, 2013 (Recomendação 28)

Vinte e quatro a trinta e seis meses

Na criança com doença de Graves, recomenda-se um curso de 24 a 36 meses de metimazol, mais longo que os 12 a 18 meses do adulto, com argumentos publicados a favor de uso estendido tanto em adultos quanto em crianças.

ETA Guideline for the Management of Graves' Hyperthyroidism, 2018

Régua brasileira de dose pediátrica

A dose inicial de tiamazol é de 0,4 a 0,8 mg/kg/dia, com máximo de 30 mg/dia em tomada única, reduzida em 30% a 50% após duas a quatro semanas se houver melhora clínica e laboratorial.

Conitec, Relatório de Recomendação nº 667/2021

Na prova

A causa aqui é de data: cinco anos separam os dois documentos, e o europeu incorpora a literatura de uso estendido que veio depois. Vocabulário entrega o recorte — 'metimazol' e 'carbimazol' são o léxico do texto europeu, 'tiamazol' é o léxico dos documentos brasileiros de incorporação. Questão que pede prazo com o paciente adulto está no terreno consensual de 12 a 18 meses; o prazo mais longo aparece quando o enunciado fixa criança ou adolescente e cita a sociedade europeia.

TRAb na investigação da tireotoxicose: exame de casos selecionados ou ferramenta de primeira linha

Casos selecionados

A dosagem do TRAb é raramente necessária para o diagnóstico de hipertireoidismo de Graves e está indicada apenas em situações definidas: gestante com doença de Graves atual ou pregressa, diagnóstico diferencial da tireotoxicose gestacional do primeiro trimestre e indivíduo eutireóideo com oftalmopatia. O diagnóstico etiológico se apoia na captação de radioiodo.

Consenso brasileiro do Departamento de Tireoide da SBEM, 2013 (Recomendações 3 e 4)

Ferramenta sensível e específica de primeira linha

A medida do TRAb é ferramenta sensível e específica para diagnóstico rápido e acurado, e para o diagnóstico diferencial, da tireotoxicose de Graves; o mesmo documento a usa como marcador de decisão para suspender o antitireoidiano ao fim de 12 a 18 meses.

ETA Guideline for the Management of Graves' Hyperthyroidism, 2018 (Recomendações 1, 7 e 8)

Na prova

A causa é combinação de data e de acesso ao ensaio: o documento brasileiro é de 2013 e organiza a investigação em torno da captação, exame de medicina nuclear com distribuição desigual no país; o europeu é de 2018 e parte de laboratório de terceira geração disponível. Cenário de rede pública, atenção especializada ambulatorial ou 'exame disponível no serviço' puxa a régua brasileira. Enunciado que oferece TRAb entre as alternativas de investigação inicial de bócio difuso com oftalmopatia está testando outra coisa: nessa tríade, nenhum dos dois documentos exige exame etiológico adicional.

Intervalo entre radioiodo e gestação

Evitar em quem planeja engravidar em menos de quatro a seis meses

O tratamento com radioiodo deve ser evitado em mulheres que planejam engravidar em período inferior a quatro a seis meses. Em paralelo, o mesmo documento lista, entre as indicações absolutas de cirurgia, a mulher que planeja gravidez dentro de seis a doze meses.

Consenso brasileiro do Departamento de Tireoide da SBEM, 2013 (Recomendação 11 e item de indicação cirúrgica)

Adiar a concepção por pelo menos seis meses, em ambos os sexos

A concepção deve ser adiada por pelo menos seis meses após o radioiodo, tanto para mulheres quanto para homens. Gestação e amamentação são contraindicações absolutas ao radioiodo.

ETA Guideline for the Management of Graves' Hyperthyroidism, 2018 (Recomendações 21 e 22)

Na prova

As duas posições respondem a perguntas próximas mas distintas — uma delimita quando não usar radioiodo, a outra quanto esperar depois de usá-lo — e a faixa brasileira ainda muda de largura conforme o documento a esteja usando para contraindicar o iodo ou para indicar a cirurgia. Por isso a prova raramente cobra o número: cobra a direção. O que é comum aos dois é que gestação e lactação contraindicam o radioiodo e que desejo de gestar em prazo curto empurra a decisão para a cirurgia. Alternativa que ofereça radioiodo a gestante é distrator em qualquer dos dois mundos.

06

Caso resolvido

Homem de 61 anos procura ambulatório de cirurgia de cabeça e pescoço com aumento cervical de crescimento lento há doze anos, que piorou no último ano. Refere engasgos com sólidos e dispneia quando se deita de lado esquerdo, além de perda de 6 kg e palpitações. Ao exame, massa cervical anterior visível com o pescoço em posição neutra, móvel à deglutição, de superfície irregular, que se estende abaixo da fúrcula esternal; ao elevar os braços acima da cabeça, fica pletórico e com turgência jugular. TSH 0,01 mUI/L, T4 livre 2,2 vezes o limite superior da normalidade. Cintilografia mostra captação heterogênea, com múltiplos focos hipercaptantes entremeados por áreas frias. Tomografia de pescoço e tórax confirma extensão retroesternal com desvio e estreitamento traqueal.
achado
Bócio grau 2 da escala da OMS — visível com o pescoço em posição normal — com extensão retroesternal, sinal de Pemberton positivo e sintomas compressivos de traqueia e esôfago.
etiologia
Captação heterogênea com focos hipercaptantes e áreas frias é o padrão do bócio multinodular tóxico, não do Graves, cuja captação é difusa e homogênea. A idade avançada e a história de bócio de longa data que passou a produzir hormônio reforçam o diagnóstico.
por que não radioiodo
Bócio mergulhante cresce em compartimento sem saída: o radioiodo não devolve calibre traqueal em tempo útil e o edema pós-dose pode piorar a compressão. Além disso, o bócio multinodular tóxico não remite com tionamida — nele o antitireoidiano é preparo, não tratamento.
preparo
Tiamazol até o eutireoidismo, monitorando pelo T4 livre e não pelo TSH, que segue suprimido por meses; betabloqueador para os sintomas adrenérgicos; e, nos sete a dez dias que antecedem a operação, solução de Lugol ou solução saturada de iodeto de potássio — sempre depois de a tionamida já estar em curso.
conduta
Tireoidectomia total. No bócio multinodular a autonomia está distribuída em vários focos, e ressecção parcial é recidiva programada. No pós-operatório, procurar parestesia perioral e sinais de Chvostek e Trousseau, avaliar mobilidade das pregas vocais e iniciar levotiroxina no dia seguinte.
07

Agora feche você

Mulher de 34 anos em tratamento de doença de Graves com tiamazol 20 mg/dia há sete semanas chega ao pronto-socorro com febre de 38,6 °C e odinofagia intensa há dois dias. Nega tosse e coriza. Ao exame, orofaringe hiperemiada com exsudato, sem placas típicas, e sem outros focos. Hemograma: leucócitos 1.900/mm³ com neutrófilos 280/mm³, hemoglobina e plaquetas normais. TSH 0,03 mUI/L, T4 livre no limite superior da normalidade. Não há bócio volumoso, não há sintomas compressivos e a paciente não tem oftalmopatia.
achado
Febre e odinofagia em paciente em uso de tionamida, com neutrófilos abaixo de 500/mm³: agranulocitose induzida pela droga, o efeito adverso grave que ocorre em 0,1% a 1,0% dos tratados.
conduta
08

Onde a banca derruba

  1. 1Dar Lugol antes da tionamida O iodeto atrai como preparo porque 'reduz vascularização' e a frase gruda. Só que ele bloqueia a liberação do hormônio pronto, não a síntese: administrado numa glândula sem a síntese bloqueada, é substrato e pode agravar a tireotoxicose. Iodo depois da tionamida, sempre — no preparo eletivo e na crise.
  2. 2Prescrever tionamida para tireotoxicose com captação baixa A vinheta de tireoidite subaguda vem com dor cervical, febre e tireotoxicose, e o reflexo é bloquear a síntese. Mas ali o hormônio que circula é o que vazou do folículo destruído: não há síntese aumentada para bloquear. O tratamento é betabloqueador, e a captação baixa no enunciado é o aviso.
  3. 3Fazer lobectomia no bócio multinodular tóxico Parece proporcional retirar 'o lado doente'. No multinodular, porém, a autonomia está espalhada por focos que a cintilografia mostra em toda a glândula, e o remanescente devolve o hipertireoidismo em 5% a 20% dos casos. A lobectomia é do adenoma tóxico, que é lesão única.
  4. 4Puncionar o nódulo hipercaptante O algoritmo do nódulo tireoidiano é tão treinado que o aluno o aplica antes de olhar a função. Com TSH suprimido, a cintilografia vem antes: nódulo quente praticamente não é câncer, e puncioná-lo só gera citologia indeterminada e conduta desnecessária. A punção fica para o nódulo normo ou hipocaptante.
  5. 5Trocar de tionamida depois de um efeito adverso grave A troca é legítima — e frequente — nos efeitos leves, como rash e prurido, ainda que haja reação cruzada em até metade dos casos. Depois de agranulocitose, hepatite tóxica ou vasculite, não: a droga é suspensa, não se reintroduz, e a outra tionamida não entra no lugar. O caminho passa a ser radioiodo ou cirurgia.
  6. 6Levar à sala o paciente ainda tóxico Bócio compressivo com dispneia dá sensação de urgência e empurra para a operação imediata. A anestesia e a manipulação da glândula, porém, são gatilhos clássicos de crise tireotóxica. Salvo obstrução de via aérea que não permita espera, o eutireoidismo vem antes — e é ele que o preparo com tionamida, betabloqueador e iodeto persegue.
  7. 7Titular a dose pelo TSH O TSH é o exame que abre o caso e por isso parece ser o que o acompanha. Depois de iniciada a tionamida, ele pode permanecer suprimido por vários meses mesmo com o paciente já eutireóideo. Quem ajusta dose pelo TSH mantém o paciente sobretratado; o parâmetro de seguimento é o T4 livre.
  8. 8Indicar radioiodo na oftalmopatia ativa O radioiodo resolve a tireoide e parece resolver o paciente. Mas há progressão ou surgimento de oftalmopatia em 15% a 39% dos tratados, com risco maior em quem já tinha doença ocular, em doença moderada a grave ativa e em tabagistas. Na forma grave com risco à visão, radioiodo e cirurgia são adiados até melhora ocular.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

A associação de tireotoxicose (TSH suprimido, T4 livre alto), bócio difuso com sopro, oftalmopatia (exoftalmia) e TRAb positivo é patognomônica de doença de Graves, causa autoimune mais comum de hipertireoidismo. O bócio multinodular tóxico não cursa com oftalmopatia nem TRAb, e a cintilografia mostra múltiplos nódulos quentes. Hashimoto costuma causar hipotireoidismo, com anti-TPO. O adenoma tóxico tem nódulo único hipercaptante, sem oftalmopatia ou TRAb. Na tireotoxicose factícia a tireoglobulina é baixa e não há bócio nem oftalmopatia.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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10

Plano de revisão

em 7 dias

Tireotoxicose com captação baixa não recebe tionamida. Extensão da ressecção pela etiologia: total no Graves e no bócio multinodular tóxico, lobectomia com istmo no adenoma tóxico. Iodeto sempre depois da tionamida, sete a dez dias antes de operar. Efeito adverso grave a uma tionamida não autoriza trocar pela outra.

em 30 dias

Refaça o fluxo do zero: TSH baixo, hormônio alto, captação — e só então a escolha entre as três terapias. Recite a graduação de bócio da OMS em três degraus e diga por que ela não decide cirurgia. Reconstrua as seis indicações absolutas de tireoidectomia na doença de Graves. Percorra o escore de Burch-Wartofsky pelos cinco eixos e diga a sequência das quatro classes de fármaco na crise, com o iodo em terceiro lugar. Feche com as diferenças brasileiras: qual tionamida o SUS entregou até 2021 e o que a Rename 2024 lista hoje.

11

Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Mulher de 47 anos, tabagista, chega ao ambulatório com perda de 9 kg em quatro meses, palpitações, insônia e olhos que 'estão saltando'. O marido conta que ela ficou irritadiça. Ao exame: pescoço com aumento difuso, simétrico, com sopro à ausculta da glândula; frequência cardíaca de 118 bpm, pressão 150 x 70 mmHg, tremor fino de extremidades, pele quente e úmida, retração palpebral e proptose bilateral com hiperemia conjuntival. TSH indetectável, T4 livre 3,1 vezes o limite superior da normalidade. Colha a história, conduza o exame do pescoço e da órbita, defina a etiologia e proponha o tratamento inicial e a rota definitiva mais adequada a esta paciente. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Bócio, hipertireoidismo e indicações de tireoidectomia – Bócio e hipertireoidismo: quem vai para a mesa — Preparatório para provas | OsceLabs