Cirurgia GeralCirurgia de Cabeça e Pescoço

Tumores de glândula salivar: o nódulo que a régua da boca não estadia

Tumores de glândulas salivares (parótida)

A regra dos oitenta não fecha em nenhuma das três pernas, a chance de malignidade sobe conforme a glândula encolhe, e o laudo citológico que mais assusta não é o duvidoso — é o que veio sem material.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Homem de 55 anos com aumento progressivo e indolor da região pré-auricular direita há 8 meses. Ao exame: massa firme, móvel, de cerca de 3 cm na glândula parótida, sem paralisia facial e sem linfonodomegalia. A punção aspirativa sugere tumor benigno de células mistas. Qual é a conduta cirúrgica MAIS apropriada?

02

Como esse tema cai

Este capítulo trata do nódulo de glândula salivar — a massa pré-auricular indolor que cresce devagar e a que já veio com paralisia facial. Entram a régua de frequência por glândula, o que separa adenoma pleomórfico de tumor de Warthin antes da agulha, o Sistema de Milão e sua escala de risco, e por que a conduta cirúrgica é parotidectomia com dissecção do nervo, nunca enucleação. Sai o estadiamento do carcinoma espinocelular de cabeça e pescoço.

O capítulo de câncer de boca e das vias aerodigestivas superiores manda este assunto para cá por escrito, e o faz duas vezes. Primeiro ao registrar que as Diretrizes Diagnósticas e Terapêuticas aprovadas pela Portaria nº 516/2015 excluem do escopo, por texto expresso, as neoplasias malignas de glândulas salivares. Depois ao nomear a armadilha — estadiar uma massa de parótida pela tabela do carcinoma espinocelular é sair do protocolo — sem dizer qual é a régua certa. Aqui está a régua.

Àquele capítulo este devolve o número que falta ao seu próprio alerta. Ele adverte que os 17.190 casos novos anuais que o Instituto Nacional de Câncer estima para a cavidade oral são o agrupamento C00-C10 inteiro, e que quem lê esse número como sendo só de boca está contando glândula salivar e orofaringe junto. A fatia salivar dá para medir: o registro hospitalar do próprio instituto contou 4.283 tumores malignos de glândulas salivares maiores em catorze anos, 306 por ano — cerca de 1,8% da manchete, com a ressalva de que se compara contagem de registro hospitalar com número estimado. O grosso da diluição é orofaringe.

E há uma segunda devolução, mais incômoda. O código C07-C08 cobre só as glândulas maiores; tumor de glândula salivar menor é codificado pelo sítio da boca onde nasceu, dentro de C00-C06. Numa coorte de 5.739 tumores salivares, as glândulas menores concentraram 930 dos 1.988 malignos — 46,8%. Uma estratificação perfeita de C07-C08 continuaria deixando quase metade dos cânceres de glândula salivar fora da conta que os chama pelo nome. O estadiamento, a Portaria e as janelas de encaminhamento seguem sendo daquele capítulo; a agulha e o nervo facial são deste.

03

O que muda decisão

A regra dos oitenta não fecha em nenhuma das três pernas

O mnemônico que todo mundo carrega diz que 80% dos tumores de glândula salivar estão na parótida, que 80% dos tumores de parótida são benignos e que 80% dos benignos de parótida são adenoma pleomórfico. A maior série multicêntrica publicada permite refazer as três contas com os numeradores na mão. São 5.739 tumores de quinze centros de patologia espalhados pelas regiões da Organização Mundial da Saúde, coletados entre 2006 e 2019.

Primeira perna. Benignos por sítio: parótida 2.582, glândulas menores 899, submandibular 265, sublingual 5. Malignos por sítio: menores 930, parótida 828, submandibular 189, sublingual 41. Somando por glândula, a parótida fica com 3.410 tumores, ou 59,4% de 5.739. Não são 80%; são pouco menos de três em cinco. A prosa do artigo imprime 3.406 para a parótida, quatro casos a menos, mas a aritmética diz qual versão venceu: as maiores somam 3.410 mais 454 da submandibular mais 46 da sublingual, o que dá exatamente os 3.910 que o próprio texto declara para as glândulas maiores, e 3.910 mais 1.829 fecham nos 5.739. O percentual de 59% sobrevive à correção.

Segunda perna. Dos 3.410 tumores de parótida, 2.582 eram benignos: 75,7%. Aqui a regra chega perto, e é a única das três que dá para defender arredondando.

Terceira perna. Dos 2.582 benignos de parótida, 1.736 eram adenoma pleomórfico: 67,2%. Contra todos os tumores de parótida, benignos e malignos, o adenoma pleomórfico responde por 1.736 de 3.410, ou 50,9%. A resposta de prova para o tumor mais frequente da parótida continua sendo adenoma pleomórfico, mas o número que a acompanha não é 80% nem 70% — é metade. Guarde o hábito antes do número: a pergunta é sempre por qual denominador, porque o mesmo tumor vale 70% dos benignos, 67% dos benignos de parótida e 51% de tudo que nasce ali.

Três pares de barras comparados a uma linha tracejada em 80 por cento. Parótida entre todos os tumores salivares, 59,4 por cento, 3.410 de 5.739. Benignos entre os tumores de parótida, 75,7 por cento, 2.582 de 3.410. Adenoma pleomórfico entre os benignos de parótida, 67,2 por cento, 1.736 de 2.582, e 50,9 por cento sobre todos os tumores de parótida.
Refeitas com os numeradores da maior série, as três pernas do mnemônico dão 59,4%, 75,7% e 67,2% — e o adenoma pleomórfico é metade, não 80%, de tudo que nasce na parótida.

Quanto menor a glândula, maior a chance de ser maligno — e onde a regra falha

A segunda regra clássica é o gradiente: a chance de um tumor salivar ser maligno cresce à medida que a glândula encolhe. Ela também dá para recalcular da mesma coorte, glândula por glândula, dividindo os malignos pelo total de cada sítio.

Parótida: 828 malignos em 3.410, 24,3%. Submandibular: 189 em 454, 41,6%. Glândulas menores: 930 em 1.829, 50,8%. Sublingual: 41 em 46, 89,1%. O gradiente existe e é grande — um nódulo de sublingual tem quase quatro vezes a chance de ser maligno que um de parótida.

Mas o gradiente não é monotônico pelo tamanho da glândula. A sublingual, que é maior que qualquer glândula salivar menor isolada, apresenta risco maior do que o conjunto das menores: 89,1% contra 50,8%. A régua honesta não é o tamanho, é a ordem observada — sublingual, depois menores, depois submandibular, depois parótida. E há uma ressalva de tamanho de amostra que muda o peso da frase: a sublingual entrou com 46 casos no total, contra 3.410 da parótida. Um sítio com 46 observações carrega incerteza que a parótida não carrega, e o enunciado que oferece um número exato para a sublingual está oferecendo precisão que a série não tem.

A inversão que a prova adora vem em seguida. Qual glândula tem mais tumores malignos? Em proporção, a sublingual. Em número absoluto, a parótida, com 828 malignos — mais do que submandibular e sublingual somadas, que dão 230. A parótida é ao mesmo tempo a que menos maligniza e a que produz mais câncer, porque é onde quase tudo nasce. Confundir proporção com contagem transforma a resposta certa na errada sem que a vinheta mude uma vírgula.

Dois brasis no mesmo país: por que a série gaúcha acha metade da malignidade

Uma série brasileira de quinze anos do Hospital de Clínicas de Porto Alegre revisou 2.168 tumores de cabeça e pescoço entre 1995 e 2010 e encontrou 243 de glândula salivar, dos quais 109 tinham prontuário completo. A distribuição por glândula: parótida 73, submandibular 8, palato 16, outros sítios menores 12 — os quatro somam 109.

Refazendo a taxa de malignidade sítio a sítio: parótida 9 malignos em 73, 12,3%. Glândulas menores 10 em 28, 35,7%. Maiores 14 em 81, 17,3%. O gradiente aparece de novo, na mesma direção, mas a parótida gaúcha é metade da parótida da coorte internacional — 12,3% contra 24,3%. Nenhuma das duas está errada. O que muda é de onde vieram os casos: um arquivo de patologia oral recebe a biópsia do palato e do lábio, e o serviço de cabeça e pescoço recebe a peça de parotidectomia. O denominador é a casuística, não a doença.

A mesma diferença de porta explica a divergência mais cobrada do tema. Naquela série, o tumor maligno mais frequente foi o carcinoma adenoide cístico, com 14 dos 24 malignos, ou 58,3%. Na coorte internacional, foi o carcinoma mucoepidermoide, com 508 dos 1.988, ou 26%. Não são medições em conflito: são populações diferentes. O adenoide cístico tem predileção por glândulas menores, e onde as menores dominam o arquivo, ele sobe.

O artigo gaúcho também mostra, sem querer, como o denominador engana quem escreve. A introdução cita a literatura para dizer que os tumores salivares representam de 3 a 6% de todos os tumores da região de cabeça e pescoço. A própria casuística do artigo, na frase seguinte, é de 243 em 2.168 — 11,2%, quase o dobro do teto citado. A explicação é a mesma de sempre: o que está no denominador não são os cânceres de cabeça e pescoço do país, são as peças que chegaram àquele laboratório.

Adenoma pleomórfico e tumor de Warthin: o que separa os dois antes da agulha

Uma coorte cirúrgica de 271 tumores de glândula salivar maior, todos com ultrassonografia, punção e histologia final, permite montar o retrato dos dois benignos que dominam a parótida. Foram 231 benignos, 103 adenomas pleomórficos e 90 tumores de Warthin.

O tumor de Warthin é do homem que fuma: 92,2% dos 90 casos eram homens, 65,6% fumantes, idade média 59,6 anos. É praticamente só de parótida — 89 dos 90 —, é o que mais aparece em mais de um nódulo (28,9% contra 3,9% do adenoma pleomórfico) e é o que mais tem componente cístico (56,7% contra 13,6%). O adenoma pleomórfico é de mulher mais jovem: 65,1% mulheres, só 13,6% fumantes, idade média 46,5 anos, 96,1% com nódulo único e 86,4% sólido à ultrassonografia. Na elastografia por onda de cisalhamento, é o mais duro dos quatro grupos, com média de 58,4 quilopascal.

A série gaúcha dá um detalhe de idade que a coorte cirúrgica não dá: dos 16 tumores de Warthin, nenhum abaixo dos 41 anos — nove entre 41 e 60, sete acima de 61. Warthin em vinhetas de paciente jovem é sinal de que a banca quer outra coisa.

Uma divergência com consequência de prova: a coorte multicêntrica de 5.739 casos registra os 623 tumores de Warthin como exclusivos da parótida, com essa palavra. A coorte cirúrgica de 271 tem um Warthin de submandibular, 1 em 90. Para a vinheta, a diferença é irrelevante — Warthin fora da parótida é raridade. Para a alternativa que usa a palavra exclusivo, não é: a série maior sustenta o absoluto e a série menor o contradiz, e o aluno tem de saber que o certo é praticamente exclusivo.

O condicional que se inverte: onde o Warthin passa na frente

A frase o adenoma pleomórfico é o tumor mais comum da parótida é verdadeira na população geral e falsa em algumas populações inteiras. Um centro de veteranos militares americanos revisou 278 punções de massa parotídea e ficou com 246 lesões benignas depois de excluir 30 malignidades e 2 amostras de tecido normal. Dessa população, 91% eram homens e 73% fumantes, atuais ou passados.

O resultado inverte o mnemônico: o tumor de Warthin foi o mais comum, com 45% (110 dos 246), e o adenoma pleomórfico ficou em segundo, com 16% (39 dos 246). Uma série anterior no mesmo tipo de serviço, com 141 veteranos e apenas 32% de tabagistas, achou Warthin em 52% e adenoma pleomórfico em 40% — a ordem se manteve invertida, mas a distância encolheu junto com a prevalência do cigarro. A regra clássica, portanto, não é uma afirmação sobre a parótida: é uma afirmação sobre a prevalência de tabagismo da população que chega ao serviço.

O artigo confirma o mecanismo com o dado individual: entre os puncionados, 85,3% dos Warthins tinham mais de dez maços-ano, contra 51,4% dos que tinham tecido linfocitário, cisto ou adenoma pleomórfico. No grupo operado, 84,8% contra 50,0%.

Há uma sutileza de contagem no mesmo artigo que vale a pena ver por dentro. O grupo operado teve 42 Warthins pela histologia, mas a análise de maços-ano usa 46 — porque a regra dita é pacientes cuja punção ou a histologia indicou Warthin. Trocar esse ou por um e derruba o denominador para 42 e muda os percentuais. Vale a leitura do enunciado tanto quanto vale a do artigo: em critério composto, a conjunção é dado, não estilo.

O subgrupo que foi escolhido pelo próprio exame

Ainda no estudo dos veteranos, uma diferença dentro da mesma casuística merece nome próprio. Entre os pacientes que fizeram só punção, o adenoma pleomórfico apareceu em 9,5% (15 de 158). Entre os que foram operados, em 27,3% (24 de 88). O mesmo tumor, na mesma instituição, no mesmo período, quase três vezes mais frequente de um lado da porta cirúrgica.

Isso não é biologia. O grupo cirúrgico não é uma amostra da população: é o subconjunto selecionado depois da punção, e selecionado justamente pelo resultado da punção. Quem recebe laudo de adenoma pleomórfico é encaminhado à cirurgia porque essa lesão cresce, recidiva se mal ressecada e pode sofrer transformação maligna. Quem recebe laudo de Warthin pode ser observado. A frequência de adenoma pleomórfico entre os operados mede a política de indicação cirúrgica do serviço, não a frequência do tumor.

O reconhecimento desse desenho é o que impede dois erros opostos na prova. O primeiro é ler a série cirúrgica como epidemiologia e concluir que adenoma pleomórfico é mais comum do que realmente é naquela população. O segundo é ler a série de punções como se fosse casuística de sala e subestimar quanto do bloco cirúrgico é adenoma pleomórfico.

A mesma armadilha reaparece no principal artigo brasileiro do tema. Ele mede sobrevida com dados do registro de câncer de São Paulo e encontra, na análise univariável, que escolaridade de até oito anos e custeio público associavam-se a maior risco de morte. As duas variáveis saíram do modelo final, e o rodapé da tabela explica por quê: foram removidas nas análises de sensibilidade porque a robustez do modelo melhorou. É uma escolha metodológica legítima e declarada, mas quem lê só a conclusão sai achando que desigualdade social não pesou. O que o artigo mostra é que ela pesou na conta simples e não sobreviveu ao ajuste.

O Sistema de Milão: a régua que a parótida ganhou

A citopatologia da glândula salivar tem, desde 2018, o equivalente ao que o sistema Bethesda é para a tireoide: um relatório em categorias, cada uma com risco de malignidade associado e conduta sugerida. São seis categorias, com a quarta dividida em duas. A segunda edição, de 2023, publica os riscos de referência.

Categoria I, não diagnóstica: 15%. Categoria II, não neoplásica: 11%. Categoria III, atipia de significado indeterminado: 30%. Categoria IVa, neoplasia benigna: menos de 3%. Categoria IVb, neoplasia de potencial maligno incerto: 35%. Categoria V, suspeita de malignidade: 83%. Categoria VI, maligna: mais de 98%.

A ordem dessa lista guarda a pegadinha inteira do tema. A categoria I, a amostra que não deu para ler, carrega risco maior que a categoria II e cinco vezes o da categoria IVa. Não diagnóstico não é sinônimo de benigno, e a conduta diante dela é repetir a punção, de preferência guiada por imagem, não liberar o paciente. Vinheta que oferece seguimento clínico para material insuficiente está oferecendo a alternativa que a régua reprova.

Duas cautelas sobre a própria régua. A primeira é que os extremos são publicados como desigualdades abertas — menos de 3% e mais de 98% —, e desigualdade aberta deixa o valor exato órfão: uma série que encontrar 3,0% na categoria IVa não está nem dentro nem fora do intervalo de referência. A segunda é que a dispersão entre séries é enorme. Numa tabela comparativa que reúne 31 estudos publicados entre 2016 e 2024, quinze deles — quase metade — relatam risco de malignidade da categoria IVa acima dos 3% que a edição de referência imprime como teto, chegando a 11,1%. O número de referência é um ponto de partida, não uma medição do seu serviço.

O que a acurácia da punção não conta

A punção aspirativa por agulha fina da glândula salivar é publicada com números excelentes, e eles são verdadeiros dentro de um recorte que quase nunca aparece na frase de resumo. Vale abrir dois estudos.

Na coorte cirúrgica de 271 casos, comparar a categoria IVa contra as categorias V e VI deu sensibilidade de 86,67%, especificidade de 98,84% e acurácia de 97,87%. As três contas refazem exatas: 13 de 15, 171 de 173 e 184 de 188. O que o recorte esconde está no denominador: dos malignos com citologia disponível, 1 caiu na categoria I, 3 na II, 19 na III, 2 na IVa e 1 na IVb. Só 13 dos 39 foram para V ou VI. A sensibilidade de 86,67% é a sensibilidade entre os casos em que a citologia se comprometeu com um lado — sobre todos os malignos puncionados, a proporção que a citologia apontou como maligna foi de 33,3%.

O segundo estudo, com 248 punções e 101 com histologia, publica sensibilidade de 76,5%, especificidade e valor preditivo positivo de 100% e valor preditivo negativo de 95,3%. O valor preditivo negativo só fecha se as três amostras não diagnósticas forem retiradas da conta: 101 menos 3 dá 98, que se distribuem em 13 verdadeiros positivos, 4 falsos negativos e 81 verdadeiros negativos, e 81 sobre 85 dá 95,3%. Com as três de volta, o número muda. Dois artigos independentes, o mesmo artefato: a acurácia da punção é publicada depois de apagar as punções que falharam.

O mesmo estudo mostra outra troca de natureza do número. A categoria II teve risco de malignidade de 0% — nenhum dos 12 casos com histologia era câncer. Mas 8 desses 12 eram tumor de Warthin, isto é, neoplasias rotuladas como não neoplásicas. Risco de malignidade zero e risco de estar errado de 67% convivem na mesma linha da mesma tabela. Risco de malignidade responde vai matar; não responde acertou o diagnóstico.

O nervo facial não mede tamanho: mede comportamento

Paralisia facial em paciente com massa de parótida é o achado que muda o capítulo. Não é sinal de tumor grande nem de tumor comprimindo o nervo: benignos de parótida crescem empurrando, e paralisia por compressão de lesão benigna é excepcional. Paralisia significa invasão, e invasão significa malignidade até prova em contrário.

A régua clínica que separa antes de qualquer exame vem descrita em série brasileira e é curta. Tumor benigno é insidioso, de crescimento lento, com curso médio de três a seis anos, sem aderência aos planos profundos, com superfície de cor normal. Tumor maligno cresce rápido, muitas vezes com menos de um ano de evolução, adere a planos profundos e pode ulcerar. Dor é a característica mais sugestiva de malignidade, e a linfonodomegalia cervical ipsilateral fecha o quadro.

Os achados de imagem que a coorte cirúrgica isolou por regressão logística vão na mesma direção e valem a memorização por serem poucos. Depois do ajuste, só dois sobreviveram como preditores independentes de malignidade: ecotextura heterogênea, com razão de chances de 3,78, e calcificação, com razão de chances de 14,84. Do lado protetor, forma oval e forma lobulada, com razões de 0,10 e 0,13. Margem indistinta, presente em 55% dos malignos contra 10,8% dos benignos, foi forte na análise simples e perdeu significância no modelo ajustado — é achado que preocupa, não achado que decide.

A ordem prática, portanto, é sempre a mesma. Nódulo de parótida de crescimento lento, sem dor, sem paralisia, com nervo funcionando: caminho eletivo, imagem e punção. Nódulo com paralisia facial, dor, aderência, crescimento rápido ou linfonodo cervical: a suspeita já é de câncer, e o que se organiza é o diagnóstico e o estadiamento — que, para carcinoma de glândula salivar, não é a tabela do carcinoma espinocelular das vias aerodigestivas.

Por que se opera um adenoma pleomórfico e se pode observar um Warthin

A conduta cirúrgica do nódulo benigno de parótida tem uma resposta e uma proibição, e as duas caem em prova. A resposta é parotidectomia — superficial quando a lesão está no lobo superficial — com identificação e preservação do nervo facial. A proibição é a enucleação. Retirar o nódulo pela superfície, sem margem de glândula ao redor, deixa para trás as projeções que o adenoma pleomórfico emite através de uma cápsula incompleta, e é o mecanismo clássico da recidiva multinodular, que reoperada custa nervo facial.

O motivo de fundo para não deixar o adenoma pleomórfico no lugar aparece na estatística de malignidade. Na coorte de 5.739 tumores, o carcinoma ex adenoma pleomórfico responde por 215 dos 1.988 malignos, ou 10,8% — o quarto maligno mais frequente, à frente do carcinoma de células acinares. Cada um desses casos começou como uma lesão benigna que ficou onde estava. A transformação maligna é um evento de anos, e é exatamente por isso que a idade do paciente e a expectativa de vida entram na conversa.

O tumor de Warthin corre por outra régua. A transformação maligna é considerada praticamente inexistente, e a literatura sobre ela é dominada por casos em que a punção inicial errou o diagnóstico. Com laudo citológico confiável, a cirurgia deixa de ser obrigatória e passa a ser opção compartilhada, reservada a incômodo estético, infecções de repetição, dor local ou crescimento. Não é conduta expectante genérica: é conduta expectante com diagnóstico citológico firmado.

Dois números ajudam a sustentar a conversa com o paciente. No serviço de veteranos, a concordância entre punção e histologia final foi de 87,5%, com 77 acertos em 88 peças. E a parotidectomia foi bem tolerada: sialocele ou fístula salivar em 8% e deiscência de ferida em 5%, sem recidiva no período observado. O paciente que pergunta se dá para esperar merece as duas informações — que a agulha acerta em quase nove de dez e que a cirurgia, quando indicada, é de complicação baixa.

O câncer de glândula salivar no Brasil: histologia manda, estádio manda mais

O maior levantamento brasileiro do tema cruza duas bases públicas: o Integrador de Registros Hospitalares de Câncer, do Instituto Nacional de Câncer, com 4.283 pacientes, e o registro do estado de São Paulo, com 1.238 e seguimento mediano de 8,4 anos, ambos entre 2005 e 2018. Só tumores malignos de glândulas maiores, com o carcinoma espinocelular excluído de propósito para não contar metástase de pele ou de mucosa.

O perfil nacional: idade média de 57,5 anos, ligeiro predomínio masculino (51,0%), parótida como sítio primário em 74,9% e submandibular em 14,4%. As histologias se distribuem quase por igual entre quatro blocos — carcinomas adeno e ductais 23,5%, bifásicos 21,2%, mucoepidermoide 20,4% — mais um bloco de 27,8% sem outra especificação, que é a maior categoria isolada e a pior notícia do levantamento.

A sobrevida em cinco anos separa as histologias de forma brutal: carcinoma de células acinares 88%, mucoepidermoide 66%, bifásicos 65%, adeno e ductais 51%, sem outra especificação 35%. No modelo ajustado, tomando o acinar como referência, o risco de morte foi 3,15 vezes maior para os sem especificação, 2,58 para adeno e ductais, 2,29 para mucoepidermoide e 2,10 para bifásicos.

Mas o estádio pesa mais que a histologia. Comparado com doença inicial, o estádio III multiplicou o risco por 1,73, os estádios IVA e IVB por 4,14 e o IVC por 8,45. E a doença chega tarde: no registro paulista, 40,9% estavam em estádio I ou II, 20,6% em III, 29,1% em IVA ou IVB e 9,3% em IVC. A quem estranhar o último número: o texto do artigo imprime 5,7% nesse parágrafo, mas 5,7% é o valor da coorte nacional, e a soma denuncia a troca — 40,9 mais 20,6 mais 29,1 mais 5,7 dá 96,3, enquanto com 9,3 a itemização fecha em 99,9. É o mesmo numerador com o denominador do outro registro.

04

As réguas, em ordem de uso

Três tabelas resolvem quase toda vinheta de nódulo salivar: a que diz quanto risco cada categoria citológica carrega, a que diz onde a malignidade mora por glândula, e a que separa os dois benignos que disputam a parótida.

  1. 1Diante de massa em região parotídea, a primeira pergunta é clínica e não custa nada: há paralisia facial, dor, aderência a planos profundos, crescimento em menos de um ano ou linfonodo cervical? Qualquer um desses tira o caso da via eletiva benigna.
  2. 2Sem sinais de alarme, a sequência é ultrassonografia e punção aspirativa por agulha fina. Ecotextura heterogênea (razão de chances 3,78) e calcificação (razão de chances 14,84) foram os únicos preditores independentes de malignidade na regressão; forma oval ou lobulada joga a favor de benignidade.
  3. 3Leia o laudo pelo Sistema de Milão, não pela impressão do patologista. Categoria não diagnóstica carrega risco de referência de 15% — maior que o da categoria não neoplásica e cinco vezes o da neoplasia benigna. Diante dela, repita a punção guiada por imagem; não libere o paciente.
  4. 4Categoria de neoplasia benigna com laudo de adenoma pleomórfico: parotidectomia com identificação e preservação do nervo facial. Enucleação está proibida — deixa as projeções da cápsula incompleta e produz recidiva multinodular.
  5. 5Categoria de neoplasia benigna com laudo de tumor de Warthin: a cirurgia deixa de ser obrigatória. Reserve-a para incômodo estético, infecção de repetição, dor ou crescimento, e compartilhe a decisão. Transformação maligna é praticamente inexistente.
  6. 6Categorias de atipia, potencial incerto, suspeita ou malignidade: o caso é oncológico. Organize imagem seccional e a discussão de estadiamento e tratamento — e não use a tabela do carcinoma espinocelular de cabeça e pescoço, que exclui glândulas salivares por texto expresso das diretrizes brasileiras.
  7. 7Nódulo em glândula salivar menor ou em sublingual muda a probabilidade a priori: metade dos tumores de glândulas menores e quase nove em dez dos de sublingual são malignos, contra um em quatro na parótida.
  8. 8Fechado o diagnóstico de carcinoma, dois eixos governam o prognóstico: a histologia (sobrevida em cinco anos de 88% no acinar a 35% nos sem especificação) e o estádio, que pesa mais — risco de morte 8,45 vezes maior no estádio IVC que no inicial.

Sistema de Milão: risco de malignidade de referência (2ª edição, 2023)

CategoriaO que o laudo dizRisco de malignidadeConduta
INão diagnóstica — material insuficiente ou não interpretável15%Repetir a punção, de preferência guiada por imagem
IINão neoplásica11%Correlação clínica e seguimento; repuncionar se a lesão persistir ou crescer
IIIAtipia de significado indeterminado30%Repetir a punção ou investigar por imagem; considerar cirurgia diagnóstica
IVaNeoplasia benignamenos de 3%Cirurgia eletiva no adenoma pleomórfico; decisão compartilhada no Warthin
IVbNeoplasia de potencial maligno incerto35%Cirurgia com planejamento oncológico
VSuspeita de malignidade83%Tratar como câncer até prova em contrário
VIMalignamais de 98%Estadiamento e tratamento oncológico

Onde a malignidade mora, recalculado dos numeradores (5.739 tumores, 15 centros)

GlândulaBenignosMalignosTotalProporção maligna
Parótida2.5828283.41024,3%
Submandibular26518945441,6%
Sublingual5414689,1%
Salivares menores8999301.82950,8%
Total3.7511.9885.73934,6%

Adenoma pleomórfico contra tumor de Warthin (271 tumores operados)

TraçoAdenoma pleomórfico (n=103)Tumor de Warthin (n=90)
Sexo65,1% mulheres92,2% homens
Tabagismo13,6% fumantes65,6% fumantes
Idade média46,5 anos59,6 anos
Glândula71,8% parótida98,9% parótida (89 de 90)
Número de nódulos96,1% único28,9% múltiplos
Arquitetura à ultrassonografia86,4% sólido56,7% cístico
Rigidez à elastografia58,4 kPa — a maior dos grupos43,6 kPa
Transformação malignaExiste: 215 dos 1.988 malignos da coorte multicêntricaPraticamente inexistente

O código C07-C08 da Classificação Internacional de Doenças cobre apenas as glândulas salivares maiores. Tumor de glândula salivar menor é codificado pelo sítio da boca em que nasceu, dentro de C00-C06 — e as glândulas menores concentraram 46,8% de todos os malignos salivares na maior série multicêntrica publicada.

As Diretrizes Diagnósticas e Terapêuticas do câncer de cabeça e pescoço aprovadas pela Portaria SAS/MS nº 516/2015 cobrem cinco sítios — cavidade oral, orofaringe, nasofaringe, hipofaringe e laringe — e deixam de fora, por texto expresso, as neoplasias de glândulas salivares e as de cavidade nasal e seios paranasais, porque raramente são carcinoma espinocelular.

O risco de malignidade de uma categoria citológica não é a taxa de acerto do laudo. Numa série de 248 punções, a categoria não neoplásica teve risco de malignidade de 0% e, ainda assim, 8 de 12 casos verificados eram tumor de Warthin — neoplasias chamadas de não neoplásicas.

As medidas de acurácia da punção salivar costumam ser calculadas depois de excluir as amostras não diagnósticas. Em duas séries independentes a conta só fecha com essa exclusão, e a sensibilidade sobre todos os malignos puncionados é bem menor do que a publicada.

Tumor de Warthin praticamente não aparece antes dos 40 anos: numa série brasileira com 16 casos, nenhum tinha menos de 41 anos. Homem, fumante, acima dos 50, nódulo às vezes cístico e às vezes múltiplo é o retrato inteiro.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Qual é o tumor maligno mais frequente de glândula salivar

Carcinoma mucoepidermoide

Na maior série multicêntrica publicada, com 1.988 tumores malignos de quinze centros, o mucoepidermoide respondeu por 26% (508 casos), seguido do adenoide cístico com 17% (336). Foi o mais frequente em quase todos os centros, com a exceção da África.

Alsanie I, Rajab S, Cottom H, et al. Distribution and Frequency of Salivary Gland Tumours: An International Multicenter Study. Head Neck Pathol. 2022;16(4):1043-1054, Tabela 1 e seção Malignant Tumours.

Carcinoma adenoide cístico

Na série de quinze anos do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, o adenoide cístico respondeu por 58,3% dos malignos (14 de 24), contra 20,8% do mucoepidermoide (5 de 24), que empatou com o carcinoma de células acinares.

Vasconcelos AC, Nör F, Meurer L, et al. Clinicopathological analysis of salivary gland tumors over a 15-year period. Braz Oral Res. 2016;30:e2, Tabelas 1 e 2.

Na prova

As duas medições estão certas e o que as separa é a porta de entrada. O adenoide cístico tem predileção por glândulas salivares menores, e o arquivo de patologia oral recebe a biópsia de palato e lábio; o serviço de cabeça e pescoço recebe a peça de parotidectomia. Para identificar o recorte do avaliador, olhe o denominador que o enunciado monta: enunciado que fala em tumores de glândulas maiores ou cita registro hospitalar está com o mucoepidermoide; enunciado que fala em lesão de palato ou em casuística de estomatologia está com o adenoide cístico. E guarde a razão, não só as duas respostas.

O tumor de Warthin é exclusivo da parótida

Exclusivo

A coorte multicêntrica de 5.739 tumores registra que os 623 tumores de Warthin foram exclusivos da parótida, usando essa palavra e sem nenhum caso em outra glândula.

Alsanie I, Rajab S, Cottom H, et al. Head Neck Pathol. 2022;16(4):1043-1054, seção Benign Tumours: 'Warthin tumours were exclusive to the parotid gland'.

Praticamente exclusivo

A coorte cirúrgica de 271 tumores de glândula salivar maior registra 89 dos 90 tumores de Warthin na parótida e um na submandibular — 98,9% e não 100%.

Estudo de ultrassonografia multiparamétrica, elastografia e Sistema de Milão em 271 tumores de glândulas salivares maiores. Front Oncol. 2026, tabela de comparação entre glândula parótida e submandibular.

Na prova

A diferença clínica é nula e a diferença de prova é total, porque a palavra exclusivo é absoluta. Alternativa que afirma que o Warthin nunca ocorre fora da parótida está apoiada na série maior e contrariada pela menor; alternativa que diz praticamente restrito à parótida é defensável em qualquer banca. Diante de duas alternativas que dizem a mesma coisa com força diferente, prefira a que não usa absoluto — e reserve o absoluto para quando o enunciado citar explicitamente a fonte que o sustenta.

Tumor de Warthin assintomático com citologia firmada: operar ou observar

Observar é conduta legítima

Como o risco de transformação maligna é considerado praticamente inexistente e a literatura sobre ela é dominada por erros de diagnóstico da punção inicial, a cirurgia pode ser reservada a incômodo estético, infecções prévias ou de repetição, e dor ou desconforto local, com decisão compartilhada.

Abarca L, Green L, Wang R, Hernandez DJ, et al. Tobacco exposure linked to Warthin's tumor being the most common benign parotid neoplasm in Veterans. Sci Prog. 2025;108(4), discussão.

Operar é seguro e resolve a dúvida

No mesmo serviço, a parotidectomia teve complicação baixa — sialocele ou fístula salivar em 8% (7 de 88) e deiscência em 5% —, sem nenhuma recidiva no período observado, e resolve a ansiedade do paciente com nódulo ávido em tomografia por emissão de pósitrons, achado comum e benigno no Warthin.

Abarca L, Green L, Wang R, Hernandez DJ, et al. Sci Prog. 2025;108(4), resultados de complicações e discussão sobre avidez em tomografia por emissão de pósitrons.

Na prova

As duas posições estão no mesmo artigo, o que já avisa que a decisão é de preferência e não de evidência. Para o paciente à sua frente, o que decide é a confiança no laudo citológico e o que o incomoda. Para identificar o recorte do avaliador, procure no enunciado o que ele escolheu descrever: enunciado que sublinha assintomático, idoso, comorbidades e citologia de Warthin está pedindo conduta expectante; enunciado que cita crescimento, infecção prévia, dor ou dúvida diagnóstica está pedindo cirurgia. Enunciado que oferece observação para adenoma pleomórfico está pedindo outra coisa — e a resposta ali é sempre cirúrgica.

06

Caso resolvido

Homem de 68 anos, aposentado, tabagista de 40 maços-ano, procura o ambulatório por aumento de volume na região pré-auricular direita, percebido há cerca de 14 meses. Refere que o nódulo às vezes parece maior e às vezes menor, sem dor, sem febre, sem emagrecimento e sem trismo. Ao exame: massa de 3,2 cm na cauda da parótida direita, móvel, indolor, de consistência amolecida em parte da lesão, sem alteração da pele sobrejacente. Mímica facial simétrica e completa nos cinco ramos. Sem linfonodomegalia cervical palpável. À ultrassonografia, lesão bem delimitada, oval, hipoecoica, com componente cístico ocupando mais da metade do volume, sem calcificações, com padrão vascular avascular. Punção aspirativa por agulha fina laudada segundo o Sistema de Milão como categoria IVa, neoplasia benigna, com descrição de células oncocíticas e fundo linfoide.
1. O retrato epidemiológico já aponta o diagnóstico
Homem, 68 anos, tabagista pesado, nódulo em cauda de parótida com componente cístico maior que a metade e tamanho que flutua. Na coorte cirúrgica de 271 tumores, o tumor de Warthin era 92,2% masculino, 65,6% tabagista, com idade média de 59,6 anos, 98,9% de localização parotídea e 56,7% de arquitetura cística — contra 13,6% de tabagistas, 65,1% de mulheres, média de 46,5 anos e 86,4% de arquitetura sólida no adenoma pleomórfico. A descrição citológica de células oncocíticas com fundo linfoide fecha o quadro.
2. O que a ausência de sinais de alarme compra
Mímica facial completa nos cinco ramos, ausência de dor, ausência de aderência, ausência de linfonodo cervical e ausência de calcificação à ultrassonografia. Nenhum dos dois preditores independentes de malignidade da regressão logística está presente — a ecotextura não é o achado dominante e não há calcificação, que era o preditor de maior peso, com razão de chances de 14,84. A forma oval, ao contrário, foi protetora, com razão de chances de 0,10. O caso está na via eletiva benigna.
3. Como se lê a categoria IVa
A categoria de neoplasia benigna do Sistema de Milão carrega risco de malignidade de referência abaixo de 3% — o menor de toda a escala, abaixo inclusive da categoria não neoplásica, que tem 11%, e muito abaixo da não diagnóstica, que tem 15%. Vale a cautela de leitura: quinze de 31 séries publicadas entre 2016 e 2024 relatam risco acima desses 3% para essa mesma categoria, chegando a 11,1%. O laudo tranquiliza, mas não é um zero.
4. A conduta que a citologia autoriza, e por que ela é diferente da do outro benigno
Com laudo citológico de tumor de Warthin em paciente assintomático, a cirurgia deixa de ser obrigatória. O risco de transformação maligna é considerado praticamente inexistente, e a indicação passa a ser incômodo estético, infecções de repetição, dor local ou crescimento. Se o mesmo laudo dissesse adenoma pleomórfico, a resposta seria outra: cirurgia, porque aquela lesão emite projeções através de uma cápsula incompleta e porque o carcinoma ex adenoma pleomórfico respondeu por 215 dos 1.988 malignos da coorte multicêntrica, ou 10,8%.
5. O que dizer ao paciente, e o que documentar
Explique que a agulha acertou o diagnóstico em quase nove de cada dez peças operadas na série mais próxima deste perfil — concordância de 87,5%, 77 de 88 —, que o nódulo não vira câncer e que a cirurgia existe como opção, não como obrigação. Se ele optar por operar, informe que a parotidectomia teve sialocele ou fístula salivar em 8% e deiscência em 5% naquela série. E registre um detalhe que evita susto futuro: o tumor de Warthin é ávido em tomografia por emissão de pósitrons, e um exame feito por outro motivo pode acender esse nódulo sem que isso signifique malignidade.
07

Agora feche você

Mulher de 41 anos, sem comorbidades, não tabagista, procura atendimento por aumento de volume na região parotídea esquerda, notado há cerca de 5 meses, com crescimento perceptível no último mês. Refere dor local surda, contínua, que a acorda à noite. Ao exame: massa de 3,5 cm na parótida esquerda, endurecida, pouco móvel, aderida a planos profundos, com desvio da rima labial para a direita ao sorrir e fechamento palpebral incompleto à esquerda. Palpa-se linfonodo cervical ipsilateral de 2 cm, endurecido, no nível II. A ultrassonografia mostra lesão de forma irregular, margens indistintas, ecotextura heterogênea, arquitetura sólida e calcificações grosseiras de permeio.
achado
Cinco meses de evolução com aceleração no último mês, dor local que desperta, massa endurecida e aderida, paralisia facial periférica homolateral com fechamento palpebral incompleto, linfonodo cervical ipsilateral endurecido, e uma ultrassonografia com forma irregular, margem indistinta, ecotextura heterogênea, arquitetura sólida e calcificação.
o que isso caracteriza
É o retrato inverso ao do nódulo benigno, item por item. Tumor benigno de parótida é insidioso, com curso médio de três a seis anos, indolor, móvel, sem aderência; tumor maligno cresce em menos de um ano, adere a planos profundos e pode doer — e a dor é descrita como a característica clínica mais sugestiva de malignidade. A paralisia facial não é compressiva: lesões benignas crescem empurrando, e paresia significa invasão do nervo. À imagem, os dois únicos preditores independentes de malignidade da regressão logística estão presentes: ecotextura heterogênea (razão de chances 3,78) e calcificação (razão de chances 14,84); a forma irregular esteve em 50% dos malignos contra 10,0% dos benignos, e a margem indistinta em 55% contra 10,8%.
o que fazer agora
Este caso não é mais nódulo de parótida: é carcinoma de glândula salivar até prova em contrário, com nervo facial acometido e linfonodo cervical suspeito. O que se organiza é confirmação histológica e estadiamento com imagem seccional, e a discussão em serviço com cirurgia de cabeça e pescoço. Duas travas: não se usa a régua de estadiamento das diretrizes brasileiras de câncer de cabeça e pescoço, que excluem glândulas salivares por texto expresso; e não se propõe enucleação nem parotidectomia sem planejamento oncológico. Vale ainda lembrar o que o prognóstico depende: no maior levantamento brasileiro, a sobrevida em cinco anos variou de 88% no carcinoma de células acinares a 35% nos carcinomas sem outra especificação, e o estádio pesou mais que a histologia — risco de morte 4,14 vezes maior nos estádios IVA e IVB e 8,45 vezes no IVC, comparados com doença inicial.
08

Onde a banca derruba

  1. 1A regra dos oitenta usada como número, e não como ordem de grandeza O enunciado pergunta a proporção de tumores salivares que nasce na parótida e oferece 80%. Refeita a conta na maior série disponível, a parótida ficou com 3.410 de 5.739, ou 59%; dos tumores de parótida, 75,7% eram benignos; e dos benignos de parótida, 67,2% eram adenoma pleomórfico. Das três pernas do mnemônico, só a do meio chega perto. Use-o para lembrar a ordem — parótida domina, benigno domina, adenoma pleomórfico domina — e desconfie de qualquer alternativa que traga o oitenta como medida.
  2. 2Dois percentuais iguais lidos como duas frequências iguais O tumor de Warthin é 17% dos benignos e o carcinoma adenoide cístico é 17% dos malignos. Os dois dezessetes aparecem lado a lado na mesma frase do mesmo resumo e escondem denominadores que diferem quase pela metade: são 623 casos de Warthin contra 336 de adenoide cístico na mesma coorte. Percentual sem denominador não é frequência, é fração — e a diferença aqui são 287 pacientes.
  3. 3Citologia não diagnóstica lida como citologia tranquilizadora A vinheta traz punção com material insuficiente e oferece seguimento clínico semestral. A categoria não diagnóstica do Sistema de Milão carrega risco de malignidade de referência de 15% — acima da categoria não neoplásica, que tem 11%, e cinco vezes o da neoplasia benigna, que tem menos de 3%. Amostra que não deu para ler pede nova punção, de preferência guiada por imagem, e não alta ambulatorial.
  4. 4Massa de parótida estadiada pela tabela do carcinoma espinocelular O enunciado descreve tumor de parótida e oferece uma alternativa que aplica a régua de estadiamento das diretrizes brasileiras de câncer de cabeça e pescoço. Essas diretrizes cobrem cavidade oral, orofaringe, nasofaringe, hipofaringe e laringe, e excluem por texto expresso as neoplasias de glândulas salivares, justamente porque raramente são carcinoma espinocelular. Aplicar aquela tabela a uma massa de parótida é sair do protocolo, e a alternativa é errada por norma, não por evidência.
  5. 5Acurácia da punção citada sem o recorte que a produziu A alternativa afirma que a punção salivar tem sensibilidade próxima de 90%. Em duas séries independentes, os índices de desempenho só fecham depois de retirar as amostras não diagnósticas da conta: numa delas, o valor preditivo negativo publicado de 95,3% corresponde a 81 de 85, e 85 é o total menos as três amostras que falharam. Na outra, a sensibilidade de 86,67% tem denominador 15, formado apenas pelos casos em que a citologia se comprometeu — sobre todos os malignos puncionados, a proporção apontada como maligna foi de 33,3%.
  6. 6Paralisia facial interpretada como efeito de compressão A vinheta traz massa parotídea volumosa com paresia da hemiface e oferece explicação mecânica, do tipo tumor grande comprimindo o nervo. Tumores benignos de parótida crescem empurrando estruturas, e paralisia por compressão é excepcional. O nervo facial não mede volume: mede comportamento. Paralisia significa invasão, e invasão significa malignidade até prova em contrário — com linfonodo cervical ipsilateral, mais ainda.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Massa parotídea firme, móvel, indolor, com facial preservado e citologia de células mistas é adenoma pleomórfico (tumor de células mistas). O tratamento é a parotidectomia superficial com preservação do nervo facial, que remove a lesão com margem adequada e reduz recidiva. A enucleação simples eleva muito a taxa de recidiva por ruptura capsular. Parotidectomia total com sacrifício do facial é mutiladora e injustificada em tumor benigno sem invasão. Radioterapia exclusiva não é tratamento de tumor benigno ressecável. Só observar mantém risco de crescimento e de transformação maligna a longo prazo.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

Sorteando as questões…

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Plano de revisão

em 7 dias

Três denominadores e uma escala. Denominador um: a parótida tem 59% dos tumores salivares, 75,7% dos seus são benignos e 67,2% desses são adenoma pleomórfico — a regra dos oitenta é ordem, não medida. Denominador dois: a chance de malignidade sobe da parótida (24,3%) para a submandibular (41,6%), para as glândulas menores (50,8%) e para a sublingual (89,1%), mas a parótida continua produzindo mais câncer em número absoluto do que submandibular e sublingual somadas. Denominador três: o código C07-C08 só enxerga glândulas maiores, e quase metade dos malignos salivares nasce nas menores. A escala é o Sistema de Milão, e a linha que engana é a primeira: não diagnóstica tem 15% de risco, maior que a não neoplásica. Conduta: adenoma pleomórfico se opera com parotidectomia e preservação do nervo, nunca por enucleação; Warthin com citologia firmada pode ser observado. Paralisia facial é invasão até prova em contrário.

em 30 dias

Refaça as contas sem consultar. Some 2.582 mais 828 e diga por que o total da parótida da coorte multicêntrica é 3.410 e não os 3.406 que o texto imprime — e o que a soma das glândulas maiores prova. Divida 41 por 46 e diga por que esse 89,1% merece uma ressalva que os 24,3% da parótida não merecem. Diga qual dos dois dezessetes vale mais pacientes, e quantos. Recomponha o valor preditivo negativo de 95,3% a partir de 101 casos com histologia e diga quantos foram apagados para ele fechar. Explique por que o adenoma pleomórfico é 9,5% das punções e 27,3% das cirurgias no mesmo serviço, e por que isso não é biologia. E diga por que 5,7% e 9,3% são o mesmo numerador com o denominador de registros diferentes, e qual das duas itemizações fecha em cem.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Agora atenda: homem de 63 anos, pedreiro aposentado, fumante desde os 17 anos, chega ao ambulatório dizendo que apareceu um caroço embaixo da orelha direita há mais ou menos um ano e que a esposa insistiu para ele procurar médico. Ele acha que não é nada porque não dói. Colha a história do tempo de evolução, do ritmo de crescimento e do tabagismo; examine a glândula e, antes de qualquer exame, teste os cinco ramos do nervo facial e palpe as cadeias cervicais; explique por que uma agulha fina vem antes de qualquer cirurgia e o que o resultado dela pode e não pode liberar — e diga a ele, em português, o que muda se o laudo vier com um nome ou com outro. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Tumores de glândulas salivares – Tumores de glândula salivar: o nódulo que a régua da boca não estadia — Preparatório para provas | OsceLabs