Cirurgia GeralCirurgia de Cabeça e Pescoço

Câncer de boca e das vias aerodigestivas superiores

Câncer de cavidade oral e vias aerodigestivas superiores

A lesão que não cicatriza chega à mesa em estágio avançado porque ninguém a biopsiou. Aqui está o que vem depois do encaminhamento: quem biopsia, qual imagem, qual régua de estadiamento o SUS assinou — e onde ela já não é a régua do mundo.

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Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Homem de 60 anos, tabagista e etilista, apresenta lesão ulcerada em borda lateral de língua há 2 meses, endurecida e dolorosa, com um linfonodo cervical ipsilateral endurecido e móvel de 2 cm no nível II. Ao exame: PA 132x84 mmHg, FC 80 bpm. A biópsia da lesão lingual confirma carcinoma espinocelular. Qual exame é mais indicado para o estadiamento locorregional antes do planejamento terapêutico?

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Como esse tema cai

A queixa que abre este capítulo já foi respondida em outro. O capítulo de diagnóstico precoce da apostila de Oncologia ensina a reconhecer a lesão de mucosa que não cicatriza, a rouquidão de três semanas e o linfonodo cervical que não some, e ensina para onde mandar cada um deles. O que ele não diz — porque não é dele — é o que acontece depois que o paciente chega. Quem biopsia, com o quê, qual imagem pedir, com que régua o tumor é estadiado, e o que muda no tratamento entre um tumor de 3 cm de língua e um de 3 cm de laringe. É esse trecho da trajetória que a prova de cirurgia cobra.

A régua nacional tem nome e número: as Diretrizes Diagnósticas e Terapêuticas do Câncer de Cabeça e Pescoço, aprovadas pela Portaria SAS/MS nº 516, de 17 de junho de 2015, ainda publicadas pelo Ministério da Saúde como o documento vigente do tema. Elas cobrem cinco sítios — cavidade oral, orofaringe, nasofaringe, hipofaringe e laringe — e deixam de fora, explicitamente, as neoplasias de glândulas salivares e as de cavidade nasal e seios paranasais, que raramente são carcinoma espinocelular. Saber o que a diretriz não cobre vale tanto quanto saber o que ela cobre.

O ponto em que a régua brasileira e a internacional se separaram tem data. O estadiamento do DDT é o TNM por tamanho: T1 até 2 cm, T2 de 2 a 4 cm, T3 acima de 4 cm. Desde 2018 a 8ª edição do AJCC estadia a cavidade oral também pela profundidade de invasão, com cortes em 5 mm e 10 mm, e acrescenta a extensão extranodal ao N. As duas convivem no Brasil: a autorização de procedimento no SUS roda na régua do DDT, o laudo do patologista de um serviço universitário costuma vir na do AJCC. Uma questão que fala em profundidade de invasão está na régua internacional; uma que fala em regulação de acesso e autorização está na nacional.

E há o relógio, que é de lei e não de diretriz. A Lei nº 12.732/2012 dá 60 dias para o primeiro tratamento, contados do dia em que o diagnóstico é firmado em laudo patológico — não da consulta, não da suspeita, não do encaminhamento. O § 3º, incluído pela Lei nº 13.896/2019, dá 30 dias para os exames de elucidação quando a principal hipótese é neoplasia maligna. O erro típico não é errar o número: é errar de onde ele começa a contar.

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O que muda decisão

O tamanho do problema, e o rótulo que engana

A Estimativa 2026 do INCA projeta 17.190 casos novos de câncer da cavidade oral por ano em cada ano do triênio de 2026 a 2028, com risco estimado de 7,98 por 100 mil habitantes. São 12.260 casos em homens, a 11,68 por 100 mil homens, e 4.930 em mulheres, a 4,46 por 100 mil mulheres. Excluídos os tumores de pele não melanoma, é o sétimo tipo mais incidente do país. A mortalidade tem ordem de grandeza própria: em 2023 morreram 7.172 pessoas por cânceres de cavidade oral, glândulas salivares e orofaringe — 5.486 homens e 1.686 mulheres.

O rótulo, porém, é mais largo do que parece, e essa é a primeira armadilha do tema. O que o INCA chama de câncer da cavidade oral é o agrupamento C00-C10 da CID-10, e a própria metodologia do documento explica que ele reúne três blocos com comportamento distinto: lábios e cavidade oral (C00-C06), glândulas salivares (C07-C08) e orofaringe (C09-C10). Os três foram agrupados por tradição estatística e separados na análise porque as características anatômicas, histológicas e terapêuticas são diferentes — tumor de lábio e boca ligado a fumo e álcool, tumor de glândula salivar sem essa associação direta, e tumor de orofaringe cada vez mais ligado ao HPV, com perfil demográfico próprio. Quem lê 17.190 como sendo só de boca está contando glândula salivar e orofaringe junto.

O padrão geográfico é o do tabagismo, e ele inverte a intuição de quem espera que doença de pobre seja doença do Norte e do Nordeste. Entre homens, a taxa é maior no Sudeste (14,07 por 100 mil homens, quarto tipo mais incidente na região) e no Sul (13,89, quinto), e menor no Norte (4,77, sexto), com Centro-Oeste (10,16) e Nordeste (9,57) no meio. Entre mulheres as taxas são de um terço a metade das masculinas em toda região, e o tipo cai para a décima primeira posição no Sudeste e a décima sexta no Sul.

Os fatores de risco vêm em ordem e com um detalhe que a prova gosta. O tabagismo é o mais importante, com risco atribuível de 50% em estudos prospectivos longitudinais, segundo as Diretrizes. Depois vem o álcool, e a interação entre os dois é supra-aditiva — o risco do fumante que bebe é maior do que a soma dos riscos isolados, e não é isso que uma alternativa distraída diz. Seguem-se, na lista das Diretrizes: dieta pobre em frutas cítricas e vegetais e rica em carne vermelha, carne processada e frituras; má saúde bucal e doença periodontal com perda de elementos dentários; doença do refluxo gastroesofágico, fator de risco para faringe e laringe; comportamento sexual, com coitarca precoce, multiplicidade de parceiros e sexo oral; e infecção pelos tipos oncogênicos 16 e 18 do HPV. Para o câncer de lábio especificamente, o INCA nomeia outro agente: a exposição solar prolongada sem proteção.

A histologia é quase monolítica e simplifica a leitura de qualquer laudo. O carcinoma espinocelular — também chamado escamocelular ou epidermoide — responde por mais de 90% dos casos diagnosticados, e é a partir dele que toda a diretriz é escrita. Quando o laudo vier com adenocarcinoma, melanoma, linfoma ou sarcoma, o caso saiu do trilho do carcinoma espinocelular de cabeça e pescoço e vai para outro protocolo.

Corte sagital de cabeça e pescoço com a via aerodigestiva superior desenhada como um corredor contínuo, em que cinco regiões de mucosa aparecem em cores planas distintas, sem rótulos, e uma cadeia de pequenas formas arredondadas desce pela lateral do pescoço ao lado do corredor.
Cinco sítios num corredor só. É por isso que o mesmo agente — fumo e álcool — produz doenças com nomes e prognósticos diferentes, e por isso um tumor de qualquer um deles drena para a mesma cadeia lateral do pescoço.

Duas listas brasileiras de encaminhamento, e o prazo que muda entre elas

As Diretrizes de 2015 têm lista própria de encaminhamento urgente, e ela não é a mesma que a atenção primária usa hoje. São treze itens, no item 5 do documento, e a maior parte deles trabalha com janela de três semanas: placas ou manchas brancacentas ou eritematosas na mucosa oral que persistam por mais de três semanas, em qualquer localização, particularmente se indolores; ulceração da mucosa oral ou orofaringe por mais de três semanas; edema da mucosa oral por mais de três semanas; disfagia por mais de três semanas; rouquidão por mais de três semanas; linfadenomegalia cervical por mais de três semanas; e secreção nasal serosanguinolenta unilateral por mais de três semanas.

Os outros seis itens não têm relógio, e são os que se esquecem. Mobilidade dentária inexplicada, não associada a doença periodontal — o dente que amolece sem que a gengiva explique. Dor ou desconforto persistente na garganta, particularmente se unilateral ou há mais de quatro semanas: repare que aqui a janela é de quatro, não de três. Paralisia facial, hipoestesia ou dor facial grave. Tumorações orbitais. Otalgia sem evidência de anormalidade ao exame físico e à otoscopia — a dor de ouvido com ouvido normal é dor referida de orofaringe ou hipofaringe até prova em contrário. E o estridor laríngeo, único item que a própria diretriz marca como de encaminhamento imediato.

O Manual de Diagnóstico Precoce em Oncologia para a Atenção Primária, publicado pelo Ministério da Saúde em 2025 em versão preliminar, redesenhou essa lista a partir do guia inglês de encaminhamento por suspeita de câncer e das diretrizes escocesas, e é a régua que a APS aplica hoje. Nele, a lesão de mucosa oral encolheu de janela: ulcerações e lesões brancas ou vermelhas que não cicatrizam por mais de duas semanas já entram como alta suspeição. Os demais sinais mantiveram as três semanas — linfonodomegalia cervical ou supraclavicular, rouquidão ou mudança de voz, disfagia e odinofagia —, e o estridor continua indo para a emergência.

Dentro do próprio manual de 2025 a lesão de mucosa oral aparece com três prazos diferentes, e vale conhecer os três porque cada um governa uma ação distinta: duas semanas para caracterizar alta suspeição, quinze dias para que o cirurgião-dentista biopsie ou encaminhe à estomatologia, e mais de três semanas para o encaminhamento à cirurgia de cabeça e pescoço ou à otorrinolaringologia de lesão suspeita em mucosa oral, língua, tonsilas ou orofaringe. O intervalo útil para decorar, portanto, é de duas a três semanas — e a resposta segura numa questão que não identifica a fonte é a que fala em lesão que não cicatriza em duas a três semanas, não a que crava um algarismo.

Duas regras operacionais do manual de 2025 valem mais do que a lista inteira porque decidem conduta na porta. A primeira: em adenomegalia cervical persistente, pede-se ultrassonografia de pescoço com doppler, mas o encaminhamento ao especialista não fica condicionado ao resultado — os dois correm em paralelo. A segunda: quando a lesão oral é compatível com leucoplasia, eritroplasia ou ulceração que não cicatriza, quem biopsia é o cirurgião-dentista da própria atenção primária; se não houver profissional capacitado, o paciente vai imediatamente ao centro de especialidades odontológicas ou à unidade de referência. Esperar o resultado do exame de imagem para encaminhar é o atraso mais comum do tema, e as Diretrizes já registravam em 2015 que o gargalo do diagnóstico tardio está no acesso ao serviço especializado.

O diagnóstico é histopatológico — e a punção não substitui a biópsia

A sequência diagnóstica das Diretrizes é curta e tem ordem. Exame clínico com nasoscopia e laringoscopia, e biópsia tumoral. É a biópsia que fecha o diagnóstico, e o documento é explícito ao dizer que o planejamento terapêutico deve ser feito com base principalmente na histopatologia do tumor, não apenas em resultados de exame citopatológico. Citologia informa; histologia decide.

Existe uma situação em que a punção entra primeiro, e é a que a prova adora: quando não há tumor primário visível. Diante de massa cervical sem primário aparente, a diretriz indica punção aspirativa por agulha fina ou biópsia da massa, seguida de novo exame locorregional sob anestesia e de biópsias adicionais, se necessário. A ordem importa — a massa cervical de adulto com fatores de risco é metástase de carcinoma espinocelular até prova em contrário, e a busca pelo primário oculto é feita sob anestesia, olhando de novo os cinco sítios.

Quando o carcinoma espinocelular não mostra diferenciação escamosa evidente, a diretriz aceita inferi-lo por imuno-histoquímica, com dois padrões nomeados: coexpressão de antígeno epitelial de membrana, proteína p63 e citoqueratinas 5-6, em qualquer intensidade, em tumor TTF-1-negativo; ou coexpressão de antígeno epitelial de membrana com expressão difusa de p63 e citoqueratinas 5-6, independentemente do status do TTF-1. Não é para decorar o painel; é para reconhecer que a distinção entre carcinoma espinocelular pouco diferenciado e outras neoplasias da região é imuno-histoquímica, e não morfológica pura.

Dois grupos ficam fora do escopo por razão histológica, e a diretriz diz isso com todas as letras. As neoplasias de cavidade nasal e seios paranasais — em que os tipos mais frequentes são o estesioneuroblastoma (47%), o adenocarcinoma (24%) e o carcinoma indiferenciado (22%), com prognóstico ruim mesmo com o melhor tratamento — e as neoplasias malignas de glândulas salivares, que raramente são carcinoma espinocelular. Ambos seguem por outro caminho.

Os exames endoscópicos adicionais têm indicação restrita, e essa restrição cai em prova. Endoscopia digestiva alta e broncoscopia ficam reservadas para doentes com sintomas sugestivos de acometimento adicional do trato aerodigestivo — não são rastreio de rotina de segundo primário em todo paciente com carcinoma espinocelular de cabeça e pescoço, embora o risco de segundo tumor primário nesse grupo seja reconhecidamente alto, sobretudo em quem fuma e bebe.

A imagem: quem faz tomografia, quem faz ressonância e por que a PET-CT ficou de fora

A regra de escolha é anatômica. A tomografia computadorizada é mais sensível que o exame físico e que os métodos endoscópicos para definir o tamanho do tumor e sua relação com estruturas críticas profundas. A ressonância magnética é mais precisa que a tomografia na detecção de lesões superficiais, não é prejudicada por amálgama dental e é o método de eleição para tumores da orofaringe e da cavidade oral. É também superior à tomografia na extensão perineural ou perivascular, na invasão de cartilagens da laringe e no tumor suspeito de acometer mandíbula, base do crânio, coluna cervical ou órbita.

O tórax entra em todos os casos, mas em dois níveis. Radiografia de tórax é indicada na avaliação inicial de todos os doentes; tomografia de tórax com contraste é recomendada nos casos de doença avançada — estágio III ou IV ao diagnóstico —, pelo maior risco de metástases e de outro tumor sincrônico do trato aerodigestivo. Cintilografia óssea entra na suspeita clínica de acometimento ósseo. Ultrassonografia ou tomografia de abdome entra na icterícia, na alteração de enzimas hepáticas, na visceromegalia ou na dor abdominal — e não como estadiamento de rotina.

A PET-CT com fluordesoxiglicose é o exame que a diretriz recusa, e a recusa é fundamentada. Não porque o desempenho seja ruim: a própria diretriz cita uma metanálise de seis estudos com sensibilidade de 83% a 89% e especificidade de 89% a 96%. A razão é a dificuldade de interpretar os resultados nos dois sentidos. Positivo, porque há absorção fisiológica alta, nódulo benigno de tireoide, paralisia de nervo craniano unilateral, inflamação, irradiação e procedimento cirúrgico recente. Negativo, porque há falso-negativo em lesão vizinha a estruturas de alto metabolismo, obscurecimento por artefato dental e tumores de baixa avidez. Área hipermetabólica depois da irradiação confere pior prognóstico, mas não há demonstração de que intervir com base nesse achado produza mais controle da doença.

A tomografia tem uma armadilha própria na mandíbula, e ela vale para quem lê o laudo. Patologia dentária, inflamação periodontal e alterações de paciente desdentado podem ser confundidas com invasão óssea; artefato de prótese dental atrapalha, e a ressonância entra como alternativa quando a tomografia fica comprometida. Na ressonância, o erro simétrico existe: artefato de deslocamento químico e alteração inflamatória podem ser lidos como invasão de medula óssea mandibular.

Um detalhe técnico ganhou peso desde que a profundidade de invasão entrou no estadiamento internacional. A medida radiológica da profundidade não é a mesma coisa que a espessura do tumor, e nem sempre coincide com a medida do patologista — edema e inflamação peritumorais podem imitar tecido tumoral na imagem. Em tumores de língua e assoalho de boca, a ressonância com contraste é preferida justamente por resolver melhor esse ponto.

Estadiamento: a régua que o SUS assinou

O estadiamento das Diretrizes é o TNM da União Internacional Contra o Câncer, e para a cavidade oral ele é puramente dimensional. T1 é tumor de até 2 cm no maior diâmetro; T2, maior que 2 cm e até 4 cm; T3, acima de 4 cm. T4a é o tumor que invade estruturas adjacentes — cortical óssea mandibular ou maxilar, musculatura extrínseca da língua (genioglosso, hioglosso, palatoglosso e estiloglosso), seio maxilar ou pele da face. T4b é o que invade espaço mastigatório, placa pterigoide ou base do crânio, ou encarcera a artéria carótida interna.

O N, nessa régua, também é só tamanho e lateralidade. N1 é metástase linfonodal única, ipsilateral, de até 3 cm. N2 reúne três situações no mesmo rótulo: linfonodo único ipsilateral maior que 3 cm e até 6 cm; metástase contralateral de até 6 cm; ou metástases em múltiplos linfonodos, todos de até 6 cm. N3 é linfonodo acima de 6 cm. O agrupamento em estágios é o que fecha a conta: estágio I é T1N0; II é T2N0; III é T3N0 ou qualquer T1 a T3 com N1; IVA é T4a com N0 ou N1, ou qualquer T1 a T4a com N2; IVB é T4b com qualquer N, ou T1 a T4a com N3; IVC é qualquer coisa com M1.

Repare no que esse agrupamento faz: um tumor de 1,5 cm de língua — T1 — com um único linfonodo ipsilateral de 2 cm salta direto para estágio III. Não é o tamanho do tumor que determina o estágio; é o pior dos três eixos. Essa é a conta que mais erra em prova, porque a vinheta descreve um tumor pequeno e o candidato responde estágio I sem olhar o pescoço.

Os sítios de faringe e laringe têm particularidades que a diretriz enumera e que valem por si. A orofaringe repete o T dimensional da cavidade oral, com um acréscimo: T3 inclui o tumor que acomete a face lingual da epiglote. A nasofaringe muda tudo — o T é por extensão anatômica, não por centímetros (T1 restrito à nasofaringe, T2 com acometimento parafaríngeo, T3 com estruturas ósseas ou seio paranasal, T4 com extensão intracraniana, nervos cranianos, hipofaringe, órbita, espaço mastigatório ou fossa infratemporal), e o N é por lateralidade e pela fossa supraclavicular (N1 unilateral até 6 cm acima da fossa supraclavicular, N2 bilateral até 6 cm, N3a acima de 6 cm, N3b em linfonodo da fossa supraclavicular). Na laringe, o T se subdivide por região — supraglote, glote e subglote — e o eixo que manda é a mobilidade da corda vocal: mobilidade normal é T1, mobilidade reduzida é T2 e fixação é T3.

A hipofaringe tem o T mais fácil de confundir, porque mistura dois critérios na mesma linha: T1 é tumor limitado a uma região anatômica da hipofaringe ou com até 2 cm; T2 é o que acomete mais de uma região anatômica ou estrutura contígua, ou mede mais de 2 cm e até 4 cm, sem fixação da hemilaringe; T3 é acima de 4 cm, ou com fixação da hemilaringe, ou com invasão do esôfago. Quem decora só o centímetro perde o caso do tumor pequeno que já cruzou duas regiões.

A régua que o mundo usa, e o que ela acrescentou

Desde 1º de janeiro de 2018, a 8ª edição do sistema do American Joint Committee on Cancer estadia a cavidade oral com dois eixos, não um: o maior diâmetro e a profundidade de invasão. A profundidade é definida como a distância perpendicular da membrana basal da mucosa normal mais próxima até o ponto mais profundo de infiltração tumoral, medida em milímetros — e é conceitualmente diferente da espessura do tumor. Tumor exofítico, que cresce para fora, pode ter espessura grande e profundidade pequena; tumor endofítico pode ter profundidade considerável com espessura limitada, e prognóstico pior.

Os cortes são dois, e a regra prática é que cada 5 mm de profundidade sobe uma categoria de T até o teto de 10 mm. T1 é tumor de até 2 cm com profundidade de até 5 mm. T2 é tumor de até 2 cm com profundidade acima de 5 mm e até 10 mm, ou tumor de mais de 2 cm e até 4 cm com profundidade de até 10 mm. T3 é tumor de mais de 2 cm e até 4 cm com profundidade acima de 10 mm, ou tumor de mais de 4 cm com profundidade de até 10 mm. T4a passa a incluir o tumor de mais de 4 cm com profundidade acima de 10 mm, além da invasão de estruturas adjacentes.

Duas mudanças menores completam o quadro e explicam por que os textos divergem. A invasão da musculatura extrínseca da língua saiu do T4a na 8ª edição — continua no texto do DDT brasileiro de 2015, que é da edição anterior. E a erosão superficial do osso ou do alvéolo dentário por tumor gengival, isoladamente, não qualifica T4 em nenhuma das duas.

No N, a novidade tem nome próprio: extensão extranodal. Na 8ª edição, N1 é linfonodo único ipsilateral de até 3 cm sem extensão extranodal; N2a é único ipsilateral de mais de 3 cm e até 6 cm sem extensão extranodal; N2b são múltiplos ipsilaterais, todos de até 6 cm, sem extensão extranodal; N2c são bilaterais ou contralaterais, todos de até 6 cm, sem extensão extranodal; N3a é linfonodo acima de 6 cm sem extensão extranodal; e N3b é linfonodo com extensão extranodal clinicamente evidente, de qualquer tamanho. A extensão extranodal patológica sobe a categoria nodal em um degrau.

A orofaringe recebeu tratamento à parte, e essa é a divergência que mais aparece em questão de atualização. Em 2018 o carcinoma espinocelular de orofaringe HPV-positivo foi incluído como entidade separada na 8ª edição UICC/AJCC, com rebaixamento do estadiamento clínico e recomendação de agrupar a doença de orofaringe pela presença ou ausência de infecção por HPV. As Diretrizes brasileiras de 2015 listam o HPV entre os fatores de risco, mas estadeiam a orofaringe com um único conjunto de critérios, sem separar por status viral. É a mesma doença lida por duas réguas de anos diferentes.

Dois cortes lado a lado da mesma mucosa, com uma linha horizontal marcando a membrana basal. À esquerda, tumor que cresce para fora e mergulha pouco abaixo da linha, com um colchete curto medindo essa parte. À direita, tumor pouco elevado que mergulha muito abaixo da linha, com um colchete longo medindo essa parte. Os dois tumores têm volume parecido e colchetes de comprimentos bem diferentes.
Profundidade de invasão não é espessura. Mede-se da membrana basal da mucosa normal mais próxima até o ponto mais profundo do tumor — e é por isso que o tumor que cresce para fora pode ser raso, enquanto o que parece pequeno na superfície pode ser o mais fundo dos dois.

Tratamento: o sítio decide a modalidade, o estágio decide o arranjo

Na doença localizada — estágio I ou II —, cada sítio tem uma resposta preferencial nas Diretrizes, e decorar essas cinco linhas resolve uma família inteira de questões. Cavidade oral: ressecção cirúrgica com margem de segurança de pelo menos 1 cm. Orofaringe: cirurgia ou radioterapia, porque o controle locorregional é similar — e a diretriz registra que essa equivalência vem de estudos retrospectivos, sem ensaio randomizado comparando as duas. Nasofaringe: irradiação do sítio primário e da drenagem linfática, com cirurgia usada excepcionalmente para doença residual. Hipofaringe: mesma coisa, irradiação como tratamento de eleição. Laringe: irradiação para preservação do órgão no estágio I, e no estágio II quando o paciente não é elegível a cirurgia, ou cirurgia.

A laringe merece parágrafo próprio porque a diretriz nomeia as operações. As conservadoras são cordectomia, laringectomia frontal, lateral e frontolateral, epiglotectomia e laringectomia parcial supraglótica; as radicais são a laringectomia supracricoide com cricohioidepiglotepexia, a laringectomia quase total e a laringectomia total. A escolha segue apresentação clínica, condições do doente e preferência dele. Em tumor de glote e supraglote pode caber ressecção endoscópica por laser de CO2.

Na doença avançada — estágio III ou IV — a lógica se inverte por sítio. Cavidade oral é geralmente cirúrgica, seguida ou não de radioterapia adjuvante. Orofaringe, mais propensa a chegar avançada, costuma ser tratada por irradiação isolada ou radioquimioterapia. Nasofaringe é radioquimioterapia. Hipofaringe e laringe são cirúrgicas — laringectomia total com faringectomia parcial ou faringolaringectomia na hipofaringe, laringectomia quase total ou total na laringe —, com a alternativa de cirurgias de preservação de órgão desde que haja acompanhamento multiprofissional.

Duas indicações fecham a decisão adjuvante e são a resposta de muita questão. Se o tumor é ressecável: cirurgia com finalidade radical seguida de radioterapia ou radioquimioterapia pós-operatória, e a radioquimioterapia é preferível quando o resultado da cirurgia é de alto risco para recidiva — extensão tumoral extracapsular nodal ou ressecção R1. Se o tumor é irressecável, se há intenção de preservar órgão, ou se o resultado funcional previsto torna injustificável uma cirurgia mutilante: radioquimioterapia. O esquema, sempre que indicado, é preferencialmente baseado em platina, em monoterapia ou com fluoropirimidina.

Depois da radioquimioterapia, a conduta no pescoço tem regra de tempo. Havendo suspeita clínica ou radiológica de doença residual linfonodal, indica-se dissecção. Nos que atingiram resposta clínica completa, a conduta é expectante — mesmo em doença que era clinicamente N2 ou N3 no início. E quando a linfadenectomia for indicada, o procedimento é feito entre 4 e 12 semanas após a radioquimioterapia, janela escolhida por ficar entre os efeitos adversos agudos e os crônicos da irradiação, para reduzir complicação cirúrgica.

O pescoço: quatro nomes de esvaziamento e uma indicação mínima

A nomenclatura dos esvaziamentos cervicais é vocabulário obrigatório, e a diretriz a define por subtração a partir de três estruturas não linfáticas: o músculo esternocleidomastóideo, a veia jugular interna e o nervo acessório espinhal. O esvaziamento cervical radical retira os linfonodos dos cinco níveis mais as três estruturas. O radical modificado preserva uma ou mais delas, e tem três variantes numeradas pela preservação: tipo I preserva o nervo acessório; tipo II preserva o nervo acessório e a jugular interna; tipo III preserva as três.

O esvaziamento seletivo é outra coisa: preserva grupos de linfonodos que o radical removeria. Também tem três variantes, e essas se nomeiam pelos níveis. O supra-omo-hióideo retira os níveis I a III. O lateral, os níveis II a IV. O posterior, os níveis II a V. E há o radical estendido, que acrescenta linfonodos adicionais — occipitais ou parotídeos — ou estruturas não linfáticas fora do escopo do radical.

A indicação mínima é a frase que mais rende ponto. A incidência de invasão linfonodal é alta nos carcinomas de cavidade oral, orofaringe e hipofaringe mesmo no estágio inicial, e por isso a diretriz recomenda realizar minimamente esvaziamento supra-omo-hióideo em todos os casos cirúrgicos desses três sítios. Não é conduta reservada ao pescoço clinicamente positivo — é esvaziamento eletivo do pescoço clinicamente negativo, justificado pela taxa de metástase oculta.

Dois acréscimos anatômicos completam a regra. Tumor primário de língua pode dar metástase isolada para o nível IV, sem passar pelos níveis acima — as chamadas skip metastases —, e por isso a ressecção desse nível deve ser considerada nesses casos. E o esvaziamento bilateral entra em duas situações: no tratamento eletivo de tumores que acometem estruturas da linha média, e em pacientes com metástase cervical ipsilateral clinicamente manifesta.

Na laringe com pescoço clinicamente N0, a regra é diferente e mais econômica: esvaziamento seletivo lateral ou posterior nos casos de doença T2 supraglótica com acometimento epilaríngeo, T3 e T4 supraglóticas e T4 glóticas. Pode-se omitir o nível IV, pelo risco de fístula quilosa e de paralisia do nervo frênico, dado o baixo risco de metástase oculta ali; e a ressecção eletiva do nível I fica reservada aos casos clinicamente suspeitos. Por fim, a pesquisa de linfonodo sentinela não é recomendada nestas Diretrizes — não por ineficácia, mas porque a técnica exige cortes seriados com morfologia convencional e imuno-histoquímica, e a análise transoperatória por congelação ou imprint não é suficiente.

O relógio da lei, a rede que trata e o que o SUS decidiu não incorporar

A Lei nº 12.732, de 22 de novembro de 2012, é a norma que a prova cobra por número. O art. 2º garante ao paciente com neoplasia maligna o primeiro tratamento no SUS em prazo de até 60 dias contados a partir do dia em que for firmado o diagnóstico em laudo patológico, ou em prazo menor conforme a necessidade terapêutica registrada em prontuário. O § 1º define o que conta como início: realização de terapia cirúrgica, ou início de radioterapia, ou início de quimioterapia. Marcar consulta com o oncologista não cumpre o prazo.

O segundo prazo é mais novo e menos lembrado. O § 3º, incluído pela Lei nº 13.896, de 30 de outubro de 2019, determina que nos casos em que a principal hipótese diagnóstica seja a de neoplasia maligna, os exames necessários à elucidação devem ser realizados no prazo máximo de 30 dias, mediante solicitação fundamentada do médico responsável. São dois relógios distintos: 30 dias até o diagnóstico, 60 dias do diagnóstico até o tratamento. O manual de diagnóstico precoce de 2025 acrescenta uma meta assistencial mais apertada para a etapa anterior a ambos: o acesso ao especialista deve ocorrer em no máximo 30 dias, idealmente em até 15.

A rede que executa isso tem desenho próprio nas Diretrizes. Hospitais gerais com serviço de cirurgia de cabeça e pescoço, otorrinolaringologia ou cirurgia oncológica podem fazer diagnóstico, estadiamento e tratamento cirúrgico do carcinoma espinocelular de cabeça e pescoço, desde que atuem em cooperação técnica, referência e contrarreferência com hospitais habilitados como unidade de assistência de alta complexidade em oncologia com serviço de radioterapia, ou como centro de assistência de alta complexidade em oncologia. São esses últimos que tratam, cirúrgica e clinicamente, doentes em todos os estágios.

Sobre medicamento, a diretriz de 2015 já nascia com uma exclusão e um alerta, e ambos continuam de pé. A quimioterapia adjuvante do carcinoma epidermoide de cabeça e pescoço foi excluída da tabela de procedimentos do SUS pela própria Portaria nº 516/2015, e o cetuximabe havia sido recusado pelas portarias SCTIE/MS nº 57/2013 e nº 23/2015. Nove anos depois, a questão voltou à mesa com uma droga a mais. A Portaria sectics/MS nº 41, de 19 de setembro de 2024, publicada no Diário Oficial da União de 20 de setembro de 2024, determina em seu art. 1º: não incorporar, no âmbito do Sistema Único de Saúde - SUS, os regimes de tratamento com cetuximabe ou pembrolizumabe para carcinoma espinocelular de cabeça e pescoço recidivado ou metastático.

A leitura correta dessa portaria evita dois erros opostos. Ela não diz que as drogas são ineficazes — o art. 2º prevê expressamente que a matéria pode voltar a nova avaliação se forem apresentados fatos novos. E ela não é uma nota de rodapé: é o que mantém intacto, quase uma década depois, o parágrafo do DDT que oferece alternativas de agente único sensibilizante à radiação ao paciente incapaz de receber platina. Numa questão sobre conduta no SUS, imunoterapia para carcinoma espinocelular de cabeça e pescoço recidivado ou metastático é distrator.

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Da lesão que não cicatriza ao estágio, com a régua certa na mão

Três decisões independentes, e a prova cobra as três separadamente: quando encaminhar, com que exame fechar o diagnóstico e por qual régua estadiar. A tabela do T existe porque a resposta muda conforme o documento citado no enunciado — o das Diretrizes brasileiras de 2015 mede só o diâmetro; o internacional, desde 2018, mede diâmetro e profundidade.

  1. 11. Diante de lesão de mucosa oral que não cicatriza, conte o tempo. Entre duas e três semanas sem cicatrizar, a lesão é para biopsiar — e não para repetir antifúngico ou trocar a prótese e reavaliar em um mês.
  2. 22. Quem biopsia primeiro é o cirurgião-dentista da própria unidade, quando há profissional capacitado. Sem ele, o encaminhamento é imediato ao centro de especialidades odontológicas ou à estomatologia.
  3. 33. Não condicione encaminhamento a exame. Em adenomegalia cervical, a ultrassonografia com doppler e o encaminhamento correm em paralelo.
  4. 44. No serviço especializado, o diagnóstico se faz com exame clínico com nasoscopia e laringoscopia mais biópsia tumoral. A citologia informa; o planejamento terapêutico se apoia na histopatologia.
  5. 55. Massa cervical sem primário visível: punção aspirativa por agulha fina ou biópsia da massa, depois novo exame locorregional sob anestesia e biópsias adicionais.
  6. 66. Estadie a extensão com tomografia ou ressonância de pescoço com contraste mais radiografia de tórax. A ressonância é o método de eleição em cavidade oral e orofaringe. Tomografia de tórax com contraste entra no estágio III ou IV. PET-CT não entra.
  7. 77. Rode o TNM e agrupe. Lembre que o estágio segue o pior dos três eixos: tumor pequeno com um linfonodo ipsilateral de 2 cm já é estágio III.
  8. 88. Escolha a modalidade pelo sítio antes de escolher pelo estágio. Cavidade oral é cirurgia com margem de 1 cm; nasofaringe e hipofaringe localizadas são irradiação; laringe inicial admite preservação de órgão.
  9. 99. Opere o pescoço junto. Em cavidade oral, orofaringe e hipofaringe cirúrgicas, minimamente esvaziamento supra-omo-hióideo, mesmo com pescoço clinicamente negativo. Bilateral se o tumor cruza a linha média ou se há metástase ipsilateral manifesta.
  10. 1010. Acerte os dois relógios da lei: 30 dias para os exames de elucidação quando a hipótese principal é neoplasia maligna, e 60 dias para o primeiro tratamento, contados do laudo patológico — não da consulta.
IIIIIIIVV

Os cinco níveis do pescoço

Toda a nomenclatura de esvaziamento se escreve sobre esses cinco níveis, e a faixa do esternocleidomastóideo é o divisor: os níveis I a IV ficam à frente dela, o nível V atrás, no triângulo posterior. Tumor de cavidade oral metastatiza primeiro para I e II; o supra-omo-hióideo, que é a indicação mínima nos casos cirúrgicos, retira I a III. Primário de língua tem regra extra: pode dar metástase isolada para o nível IV, sem passar pelos de cima.

radicalmodificadoseletivoECMVJINASníveisI-VI-VI-IIIcheio = retirado · claro = preservado

O que sai em cada esvaziamento

O radical retira os cinco níveis mais as três estruturas não linfáticas: esternocleidomastóideo, jugular interna e nervo acessório espinhal. O radical modificado preserva uma ou mais delas — tipo I preserva o acessório, tipo II o acessório e a jugular, tipo III as três. O seletivo preserva níveis: supra-omo-hióideo I a III, lateral II a IV, posterior II a V.

maior diâmetroaté 2 cm2 a 4 cm> 4 cm≤ 5 mm5-10 mm> 10 mmT1T2T3T2T2T3?T3T4a

O T da cavidade oral na régua de 2018

Duas dimensões, não uma. Um tumor de 1,8 cm com 7 mm de profundidade é T2, e um de 3 cm com 12 mm de profundidade é T3 — na régua brasileira de 2015 os dois seriam classificados só pelo diâmetro, T1 e T2. A célula tracejada marca a combinação que a revisão consultada não categoriza: tumor de até 2 cm com profundidade acima de 10 mm não é alcançado por nenhum dos enunciados de T que ela publica.

Cavidade oral: o T e o N nas duas réguas

CategoriaDiretrizes Diagnósticas e Terapêuticas (Portaria SAS/MS nº 516/2015)AJCC 8ª edição, vigente para diagnósticos desde 1º/1/2018
T1Tumor de até 2 cm no maior diâmetroTumor de até 2 cm com profundidade de invasão de até 5 mm
T2Tumor maior que 2 cm e até 4 cmAté 2 cm com profundidade acima de 5 e até 10 mm; ou de 2 a 4 cm com profundidade de até 10 mm
T3Tumor acima de 4 cmDe 2 a 4 cm com profundidade acima de 10 mm; ou acima de 4 cm com profundidade de até 10 mm
T4aInvade cortical óssea mandibular ou maxilar, musculatura extrínseca da língua, seio maxilar ou pele da faceAcima de 4 cm com profundidade acima de 10 mm, ou invasão de cortical óssea, seio maxilar ou pele da face. A musculatura extrínseca da língua saiu do critério
T4bInvade espaço mastigatório, placa pterigoide ou base do crânio, ou encarcera a carótida internaMesmo critério
N1Linfonodo único ipsilateral de até 3 cmLinfonodo único ipsilateral de até 3 cm, sem extensão extranodal
N2Único ipsilateral de mais de 3 e até 6 cm; ou contralateral de até 6 cm; ou múltiplos de até 6 cmSeparado em N2a (único ipsilateral de 3 a 6 cm), N2b (múltiplos ipsilaterais de até 6 cm) e N2c (bilaterais ou contralaterais de até 6 cm), todos sem extensão extranodal
N3Linfonodo acima de 6 cmN3a: acima de 6 cm sem extensão extranodal. N3b: qualquer linfonodo com extensão extranodal clinicamente evidente
Erosão óssea superficial por tumor gengivalNão qualifica T4 isoladamenteNão qualifica T4 isoladamente

Modalidade preferencial por sítio, segundo as Diretrizes de 2015

SítioDoença localizada (estágio I ou II)Doença avançada (estágio III ou IV)
Cavidade oralRessecção cirúrgica com margem de pelo menos 1 cmGeralmente cirúrgico, seguido ou não de radioterapia adjuvante
OrofaringeCirurgia ou radioterapia — controle locorregional similar, por estudos retrospectivosEm geral irradiação isolada ou radioquimioterapia
NasofaringeIrradiação do primário e da drenagem linfática; cirurgia só para doença residualRadioquimioterapia, com irradiação do primário e da drenagem
HipofaringeIrradiação do primário e da drenagem linfática; cirurgia só para doença residualCirúrgico: laringectomia total com faringectomia parcial ou faringolaringectomia
LaringeIrradiação para preservar o órgão no estágio I e no II não elegível a cirurgia, ou cirurgia conservadora ou radical; laser de CO2 na glote e supragloteCirúrgico: laringectomia quase total ou total, com alternativa de preservação de órgão se houver equipe multiprofissional
Qualquer sítio, depois da cirurgiaRadioterapia isolada como tratamento definitivo do localizadoRadioquimioterapia pós-operatória preferível se extensão extracapsular nodal ou ressecção R1

Encaminhar: o sinal, a janela e o destino

SinalJanela (Diretrizes 2015 / Manual de Diagnóstico Precoce 2025)Destino
Ulceração ou lesão branca ou vermelha em mucosa oral que não cicatrizaMais de 3 semanas na diretriz de 2015; mais de 2 semanas no manual de 2025, que usa 15 dias para a biópsia e 3 semanas para o especialista cirúrgicoO cirurgião-dentista da própria unidade biopsia; sem profissional capacitado, centro de especialidades odontológicas ou estomatologia
Edema de mucosa oral persistenteMais de 3 semanas (diretriz de 2015)Serviço especializado
Mobilidade dentária inexplicada, sem doença periodontalSem janela — encaminha de saídaServiço especializado
Rouquidão persistente ou mudança de vozMais de 3 semanas nos dois documentosOtorrinolaringologia
Disfagia ou odinofagia persistentesMais de 3 semanas nos dois documentosOtorrinolaringologia
Dor ou desconforto de garganta, sobretudo unilateralMais de 4 semanas (diretriz de 2015)Serviço especializado
Linfadenomegalia cervical ou supraclavicular sem diagnósticoMais de 3 semanas nos dois documentosCirurgia de cabeça e pescoço. A ultrassonografia com doppler corre em paralelo, sem condicionar o encaminhamento
Secreção nasal serosanguinolenta unilateralMais de 3 semanas (diretriz de 2015)Serviço especializado
Otalgia com exame físico e otoscopia normaisSem janela — encaminha de saídaServiço especializado
Paralisia facial, hipoestesia ou dor facial grave; tumoração orbitalSem janela — encaminha de saídaServiço especializado
Estridor laríngeoImediato nos dois documentosEmergência

O rótulo cavidade oral da Estimativa do INCA cobre o agrupamento C00-C10, que inclui glândulas salivares (C07-C08) e orofaringe (C09-C10). Os 17.190 casos novos por ano do triênio 2026-2028 são desse agrupamento inteiro, e não apenas da boca. Uma questão que oferece esse número como incidência de câncer de boca está ampliando o escopo da fonte.

As Diretrizes de 2015 cobrem cinco sítios — cavidade oral, orofaringe, nasofaringe, hipofaringe e laringe. As neoplasias de glândulas salivares e as de cavidade nasal e seios paranasais estão fora do escopo por texto expresso, porque raramente são carcinoma espinocelular.

Nas Diretrizes, a janela de três semanas cobre quase toda a lista de encaminhamento, mas a dor ou desconforto de garganta tem janela de quatro semanas. Trocar quatro por três nesse item é o erro de leitura mais fácil da lista.

Cinco itens da lista de encaminhamento não têm prazo nenhum: mobilidade dentária inexplicada sem doença periodontal, paralisia facial ou hipoestesia ou dor facial grave, tumoração orbital, otalgia com otoscopia normal e estridor. Os quatro primeiros encaminham de saída; o estridor vai para a emergência.

Dentro do Manual de Diagnóstico Precoce de 2025, a lesão de mucosa oral aparece com três prazos: duas semanas para alta suspeição, quinze dias para a biópsia odontológica e mais de três semanas para o encaminhamento à cirurgia de cabeça e pescoço. O documento traz a marca de versão preliminar em todas as páginas.

O manual de 2025 diz que a cavidade oral ocupa a oitava posição entre os tipos mais incidentes e a tireoide a sétima, citando a Estimativa 2023. Na Estimativa 2026 as duas posições aparecem trocadas: cavidade oral em sétimo e tireoide em oitavo. É mudança de edição, não contradição entre os documentos.

A recusa da PET-CT nas Diretrizes não se apoia em mau desempenho: o próprio texto cita sensibilidade de 83% a 89% e especificidade de 89% a 96% numa metanálise de seis estudos. A razão é a dificuldade de interpretar tanto o positivo quanto o negativo, e a falta de demonstração de que agir sobre o achado produza mais controle da doença.

A pesquisa de linfonodo sentinela não é recomendada nas Diretrizes por uma razão operacional: exige cortes seriados com morfologia convencional e imuno-histoquímica, e a análise transoperatória por congelação ou imprint não substitui isso.

Endoscopia digestiva alta e broncoscopia não são rastreio de rotina de segundo primário: ficam reservadas a doentes com sintomas sugestivos de acometimento adicional do trato aerodigestivo.

A quimioterapia adjuvante do carcinoma epidermoide de cabeça e pescoço foi excluída da tabela de procedimentos do SUS pela própria Portaria nº 516/2015, no art. 4º. Não é omissão da diretriz: é revogação expressa.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Quantas semanas de lesão oral que não cicatriza obrigam a biópsia

Três semanas

Placas ou manchas brancacentas ou eritematosas na mucosa oral que persistam por mais de três semanas, em qualquer localização, particularmente se indolores, e ulceração da mucosa oral ou orofaringe que persista por mais de três semanas, são critérios de encaminhamento urgente a serviço especializado.

Diretrizes Diagnósticas e Terapêuticas do Câncer de Cabeça e Pescoço, item 5, alíneas a e b (Portaria SAS/MS nº 516, de 17 de junho de 2015).

Duas semanas

Ulcerações e lesões brancas e/ou vermelhas na mucosa oral que não cicatrizam por mais de duas semanas já caracterizam alta suspeição. O mesmo documento manda o cirurgião-dentista biopsiar lesões compatíveis com leucoplasia, eritroplasia ou ulceração que não cicatriza em quinze dias, e reserva o prazo de mais de três semanas para o encaminhamento à cirurgia de cabeça e pescoço ou à otorrinolaringologia.

Manual de Diagnóstico Precoce (Alta Suspeição) em Oncologia para a Atenção Primária à Saúde, seção 3.1, Ministério da Saúde, 2025, versão preliminar.

Na prova

Os dois documentos são do mesmo ministério, e a diferença tem explicação de origem: o manual de 2025 se declara inspirado no guia inglês de encaminhamento por suspeita de câncer, enquanto a diretriz de 2015 é anterior. Como identificar o recorte do avaliador: se o enunciado cita as Diretrizes Diagnósticas e Terapêuticas, regulação de acesso ou autorização de procedimento, a janela é de três semanas; se descreve a equipe de saúde bucal ou a atenção primária decidindo biopsiar, o corte é de duas semanas ou quinze dias. Quando o enunciado não identifica a fonte, a alternativa segura é a que fala em lesão que não cicatriza em duas a três semanas — nenhuma banca sustenta um algarismo único num tema em que o próprio manual usa três.

Por qual régua se estadia o tumor de cavidade oral no Brasil

Só o maior diâmetro

T1 é tumor de até 2 cm no maior diâmetro; T2, maior que 2 cm e até 4 cm; T3, acima de 4 cm. A invasão da musculatura extrínseca da língua figura entre os critérios de T4a. É essa a régua nacional, de caráter obrigatório para as secretarias de saúde na regulação do acesso assistencial, autorização, registro e ressarcimento dos procedimentos.

Diretrizes Diagnósticas e Terapêuticas do Câncer de Cabeça e Pescoço, item 4.3.1, e art. 1º, parágrafo único, da Portaria SAS/MS nº 516/2015.

Diâmetro e profundidade de invasão

Desde 1º de janeiro de 2018, o T da cavidade oral combina o maior diâmetro com a profundidade de invasão, com cortes em 5 mm e 10 mm, e a invasão da musculatura extrínseca da língua foi removida como critério. No N, a extensão extranodal entrou na classificação e cria a categoria N3b.

LEE, D. H.; BAE, Y. J. AJCC 8th Edition Staging of Oral Cavity Cancer: Radiologic Evaluation. Journal of the Korean Society of Radiology, 2026, acesso aberto.

Na prova

As duas convivem no mesmo hospital brasileiro: a autorização de procedimento roda na régua nacional, e o laudo do patologista costuma vir na internacional. Como identificar o recorte do avaliador: qualquer enunciado que informe profundidade de invasão em milímetros, ou que fale em extensão extranodal como categoria, está na régua de 2018 — nenhum desses dados existe na de 2015. Enunciado que fale em regulação, autorização de procedimento ou tabela do SUS está na nacional. E quando a vinheta só oferece centímetros, as duas réguas coincidem em quase todas as faixas, e a dúvida costuma ser falsa.

O carcinoma de orofaringe HPV-positivo é uma doença à parte

Mesma doença, mesmo estadiamento

O HPV, nos tipos oncogênicos 16 e 18, figura entre os fatores de risco do carcinoma espinocelular de cabeça e pescoço, ao lado do tabagismo, do álcool, da dieta, da má saúde bucal, do refluxo e do comportamento sexual. O estadiamento da orofaringe, porém, é um só, com um único conjunto de critérios T, N e de agrupamento, sem separação por status viral.

Diretrizes Diagnósticas e Terapêuticas do Câncer de Cabeça e Pescoço, itens 2 e 4.3.2 (Portaria SAS/MS nº 516/2015).

Entidade separada desde 2018

O carcinoma espinocelular de orofaringe HPV-positivo foi incluído como entidade separada na 8ª edição do manual de estadiamento UICC/AJCC em 2018, com rebaixamento do estadiamento clínico, e passou a ser recomendado agrupar a doença de orofaringe na prática clínica conforme a presença ou a ausência da infecção.

HU, Q. et al. Systematic evaluation and meta-analysis of the prognosis of down-staging human papillomavirus-positive oropharyngeal squamous cell carcinoma. PeerJ, v. 12, e17391, 2024, acesso aberto.

Na prova

Os dois lados descrevem o mesmo fato biológico — o tumor HPV-positivo tem prognóstico melhor — e discordam apenas sobre traduzir isso em categoria de estadiamento. Como identificar o recorte do avaliador: enunciado que descreve paciente mais jovem, sem tabagismo e sem etilismo, com tumor de tonsila ou de base de língua e linfonodo cístico está cobrando o eixo HPV; se a pergunta for de prognóstico ou de perfil epidemiológico, a resposta é a entidade separada. Se a pergunta for pela conduta ou pela classificação no SUS, a régua nacional não separa, e a modalidade de tratamento da orofaringe segue a mesma tabela para os dois.

O ganho da radioquimioterapia pós-operatória sobre a radioterapia isolada

A direção que a diretriz publica

A radioquimioterapia pós-operatória, comparada à radioterapia isolada, está associada a maior controle da doença locorregional e a menor risco de morte, e é em particular preferível se os resultados da cirurgia forem de alto risco para recidiva: presença de extensão tumoral extracapsular nodal ou ressecção R1.

Diretrizes Diagnósticas e Terapêuticas do Câncer de Cabeça e Pescoço, item 6.2, alínea a (Portaria SAS/MS nº 516/2015).

O intervalo impresso não fecha com a estimativa

A mesma frase publica razão de risco de 0,77 com intervalo de confiança de 95% de 0,66 a 0,80. Para uma medida de razão, o intervalo é simétrico em escala logarítmica, de modo que a estimativa pontual deveria ser a média geométrica dos limites — e a média geométrica de 0,66 e 0,80 é 0,73, não 0,77. Um limite superior de 0,90 devolveria exatamente 0,77.

Conferência aritmética sobre os próprios números do item 6.2 das Diretrizes Diagnósticas e Terapêuticas do Câncer de Cabeça e Pescoço (Portaria SAS/MS nº 516/2015).

Na prova

Nenhuma banca vai cobrar o limite superior desse intervalo, e por isso a leitura útil é a da direção, não a do algarismo. Como identificar o recorte do avaliador: a questão desse trecho pergunta pela indicação, não pela magnitude — o que se cobra é que extensão extracapsular nodal e ressecção R1 são as duas situações em que a quimioterapia entra junto com a radioterapia no pós-operatório. Se uma alternativa oferecer um intervalo de confiança preciso extraído dessa diretriz, desconfie dela antes de desconfiar do resto.

06

Caso resolvido

Homem de 58 anos, pedreiro, fumante de 40 maços-ano e etilista diário, procura a unidade básica em 4 de maio queixando-se de uma ferida na borda lateral direita da língua que apareceu há cerca de dois meses e não fecha. Já usou bochecho e pomada indicados na farmácia. Refere que a dentadura inferior não assenta mais e que há três semanas sente dor no ouvido direito, embora nunca tenha tido otite. Ao exame: úlcera de bordas elevadas e endurecidas medindo cerca de 2,5 cm na borda lateral direita da língua, com área esbranquiçada adjacente; otoscopia direita rigorosamente normal; palpa-se linfonodo submandibular direito de cerca de 2 cm, endurecido, indolor e móvel. Não há trismo, a língua protrai na linha média e não há lesão contralateral.
Passo 1
Três itens da lista de encaminhamento estão presentes ao mesmo tempo: ulceração de mucosa oral que persiste por mais de três semanas, desajuste protético inexplicado e otalgia com otoscopia normal. Os dois últimos não têm janela de tempo na diretriz — encaminham de saída. O caso não pede mais uma semana de observação.
Passo 2
A otalgia direita com otoscopia normal é o achado que amarra o quadro: é dor referida da língua e da orofaringe, e o exame local negativo aumenta a suspeição. Não se pede audiometria nem se trata otite.
Passo 3
O diagnóstico se faz por biópsia da lesão, com exame clínico completo incluindo nasoscopia e laringoscopia. A punção do linfonodo não é o caminho aqui, porque há tumor primário visível: a punção entra quando o primário não aparece. A citologia não substitui a histopatologia no planejamento.
Passo 4
O estadiamento por imagem é ressonância de pescoço com contraste — método de eleição em cavidade oral, sem prejuízo por amálgama — mais radiografia de tórax. PET-CT não entra. Tomografia de tórax com contraste passa a ser indicada se o estadiamento fechar em III ou IV.
Passo 5
Pela régua das Diretrizes, tumor de 2,5 cm é T2 (maior que 2 e até 4 cm) e linfonodo único ipsilateral de 2 cm é N1. T2N1M0 agrupa em estágio III, e não em II — o item de estágio III recolhe T1 a T3 com N1. Pela régua de 2018 seria preciso a profundidade de invasão para confirmar o T; se ela vier acima de 10 mm, o tumor sobe para T3.
Passo 6
Doença avançada de cavidade oral é tratamento geralmente cirúrgico: ressecção com margem de pelo menos 1 cm, com esvaziamento cervical no mesmo tempo — minimamente supra-omo-hióideo, e considerando o nível IV por ser primário de língua. Radioterapia ou radioquimioterapia adjuvantes conforme o resultado da peça; a radioquimioterapia é preferível se houver extensão extracapsular nodal ou ressecção R1.
Passo 7
Os relógios: os exames de elucidação correm em até 30 dias, e o primeiro tratamento deve começar em até 60 dias contados do dia do laudo patológico. Se a biópsia sair em 20 de maio, o prazo legal se esgota em 19 de julho — e só cirurgia, radioterapia ou quimioterapia iniciadas contam como tratamento começado.
07

Agora feche você

Mulher de 47 anos, nunca fumou e não bebe, professora, é encaminhada ao ambulatório de cirurgia de cabeça e pescoço por um nódulo cervical direito de 3,5 cm, indolor, de consistência amolecida, notado há cerca de dois meses e sem regressão após dois cursos de antibiótico. Nega perda de peso, febre e sudorese noturna. A ultrassonografia com doppler descreveu formação cervical direita de nível II, com área cística central. Ao exame da cavidade oral não há úlcera, placa branca ou vermelha, e a língua tem mobilidade normal. A orofaringe é de difícil visualização pelo reflexo, e a paciente refere apenas leve desconforto ao engolir há uns dois meses, sem odinofagia franca.
O que caracterizar
Nódulo cervical persistente por mais de três semanas, sem diagnóstico e sem resposta a antibiótico, em adulta acima de 40 anos. Componente cístico em linfonodo de nível II num pescoço de adulto tem leitura própria e não autoriza o rótulo de cisto branquial sem investigação.
O que pedir
Defina qual é o exame que fecha o diagnóstico quando o tumor primário não está visível, qual a sequência que a diretriz prescreve em seguida, e qual imagem de estadiamento cabe aqui.
O que não pedir
Há um exame de estadiamento que a diretriz recusa expressamente e que costuma ser a primeira alternativa oferecida no caso de primário oculto. Identifique-o e saiba dizer por que a recusa não é por desempenho.
O que muda no perfil
Explique por que a ausência de tabagismo e etilismo, longe de afastar a hipótese, aponta um eixo etiológico específico — e o que esse eixo muda no estadiamento conforme a régua adotada.
08

Onde a banca derruba

  1. 1Responder estágio I porque o tumor é pequeno O agrupamento segue o pior dos três eixos, não o T. Um carcinoma de 1,5 cm de borda de língua — T1 — com um único linfonodo submandibular ipsilateral de 2 cm — N1 — é estágio III, pelo item que reúne T1 a T3 com N1. A vinheta descreve a lesão com riqueza e menciona o linfonodo de passagem, e é essa assimetria de atenção que produz o erro. Antes de agrupar, escreva os três eixos separados.
  2. 2Tratar a lesão branca por mais um mês antes de biopsiar Leucoplasia, eritroplasia e úlcera que não cicatriza são desordens potencialmente malignas, e o relógio delas se conta em semanas, não em meses. As Diretrizes encaminham em três semanas; o manual da atenção primária de 2025 caracteriza alta suspeição em duas e manda biopsiar em quinze dias. Trocar a prótese, prescrever antifúngico e reavaliar em trinta dias é a conduta que produz o diagnóstico em estágio avançado que a própria diretriz aponta como o padrão brasileiro.
  3. 3Pedir PET-CT no estadiamento inicial As Diretrizes recusam a PET-CT com fluordesoxiglicose na avaliação inicial e registram a deliberação negativa da comissão nacional de incorporação. O estadiamento é tomografia ou ressonância de pescoço com contraste mais radiografia de tórax; tomografia de tórax com contraste entra no estágio III ou IV. Vale lembrar por que a recusa não é por desempenho: a própria diretriz cita sensibilidade de 83% a 89% e especificidade de 89% a 96%, e recusa pela dificuldade de interpretar o resultado nas duas direções.
  4. 4Fechar o diagnóstico com citologia As Diretrizes dizem que o planejamento terapêutico deve ser feito com base principalmente na histopatologia do tumor, não apenas em resultados de exame citopatológico. A punção aspirativa por agulha fina tem lugar definido e restrito: massa cervical sem tumor primário visível, e mesmo ali ela é seguida de novo exame locorregional sob anestesia com biópsias adicionais. Puncionar a lesão primária visível em vez de biopsiá-la é trocar o exame que decide pelo que apenas informa.
  5. 5Esperar o resultado do exame para encaminhar Em adenomegalia cervical persistente, o manual de 2025 é explícito: solicita-se ultrassonografia de pescoço com doppler, mas o referenciamento ao especialista não fica condicionado ao resultado e deve ser feito em paralelo. O mesmo vale para a punção guiada, cuja solicitação não deve atrasar o acesso ao especialista. As Diretrizes de 2015 já registravam que o gargalo do diagnóstico tardio está justamente no acesso ao serviço especializado.
  6. 6Achar que pescoço clinicamente negativo dispensa esvaziamento A incidência de invasão linfonodal é alta em cavidade oral, orofaringe e hipofaringe mesmo no estágio inicial, e por isso as Diretrizes recomendam realizar minimamente esvaziamento cervical supra-omo-hióideo em todos os casos cirúrgicos desses três sítios. É esvaziamento eletivo, de pescoço N0, justificado pela taxa de metástase oculta. Em primário de língua, considera-se ainda o nível IV, pela possibilidade de metástase isolada que salta os níveis acima.
  7. 7Contar os 60 dias a partir da consulta ou do encaminhamento A Lei nº 12.732/2012 conta os 60 dias do primeiro tratamento a partir do dia em que o diagnóstico for firmado em laudo patológico. Antes disso corre outro relógio, de 30 dias, incluído pela Lei nº 13.896/2019, para os exames de elucidação quando a principal hipótese é neoplasia maligna. E o início do tratamento só se considera efetivado com cirurgia, radioterapia ou quimioterapia — consulta agendada com o oncologista não cumpre o prazo.
  8. 8Oferecer imunoterapia no SUS para doença recidivada ou metastática A Portaria SECTICS/MS nº 41, de 19 de setembro de 2024, determina não incorporar ao SUS os regimes com cetuximabe ou pembrolizumabe para carcinoma espinocelular de cabeça e pescoço recidivado ou metastático. Não é uma lacuna antiga: é uma reanálise de 2024 que manteve a resposta das decisões de 2013 e 2015 sobre o cetuximabe. Nas questões que perguntam pela conduta disponível na rede pública, essa é alternativa errada por norma, não por evidência.
  9. 9Ler 17.190 casos como incidência de câncer de boca O número da Estimativa 2026 do INCA corresponde ao agrupamento C00-C10 da CID-10, que reúne lábios e cavidade oral, glândulas salivares e orofaringe. A própria metodologia do documento explica a estratificação e a justifica: os três blocos têm características anatômicas, histológicas e terapêuticas distintas, com o de orofaringe crescentemente ligado ao HPV. Citar o número cheio como incidência da boca amplia o escopo da fonte.
  10. 10Somar os riscos do fumo e do álcool As Diretrizes registram que a magnitude do risco devido à interação entre consumo de álcool e tabagismo sugere efeito supra-aditivo, com os maiores riscos entre indivíduos de alto consumo simultâneo dos dois. Uma alternativa que descreve a associação como aditiva, ou que trata o álcool como fator menor no fumante, está abaixo do que a fonte nacional afirma. O tabagismo isolado já carrega risco atribuível de 50% em estudos prospectivos longitudinais.
  11. 11Aplicar a diretriz a tumor de parótida ou de seio maxilar As Diretrizes excluem do escopo, por texto expresso, as neoplasias malignas de glândulas salivares e as de cavidade nasal e seios paranasais, porque raramente são carcinoma espinocelular. Nas fossas nasais e seios, os tipos mais frequentes que o documento nomeia são o estesioneuroblastoma, o adenocarcinoma e o carcinoma indiferenciado. Estadiar e tratar uma massa de parótida pela tabela do carcinoma espinocelular de cabeça e pescoço é sair do protocolo.
  12. 12Ignorar a otalgia com otoscopia normal A otalgia sem evidência de anormalidade ao exame físico e à otoscopia está na lista de encaminhamento urgente das Diretrizes, e sem janela de tempo. Ouvido dolorido com ouvido normal em adulto tabagista é dor referida da orofaringe ou da hipofaringe até prova em contrário — e é um dos poucos sintomas em que o exame local negativo aumenta a suspeição em vez de diminuí-la.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

No CEC de cavidade oral, o estadiamento locorregional (extensão do tumor e linfonodos cervicais) é feito com TC com contraste (ou RM) de pescoço, complementada com TC de tórax para rastreio de metástase/segundo primário. USG abdominal não avalia o sítio primário nem o pescoço adequadamente. Cintilografia óssea só se houver suspeita de metástase óssea. RM de crânio isolada não estadia o pescoço. Radiografia de face não define extensão tumoral nem linfonodos.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Recite, sem olhar, as quatro portas do capítulo. Primeira: a lista de encaminhamento das Diretrizes em três blocos — os que têm janela de três semanas (placa branca ou vermelha, ulceração, edema de mucosa, disfagia, rouquidão, linfonodo cervical, secreção nasal serosanguinolenta unilateral), o de quatro semanas (dor de garganta, sobretudo unilateral) e os cinco sem prazo (mobilidade dentária inexplicada, paralisia ou hipoestesia ou dor facial grave, tumoração orbital, otalgia com otoscopia normal e estridor, esse último imediato). Segunda: o diagnóstico é biópsia, e a punção só entra quando o primário não aparece. Terceira: o T da cavidade oral em 2 e 4 cm na régua nacional, e em 2 e 4 cm cruzados com 5 e 10 mm de profundidade na régua de 2018, com a extensão extranodal criando o N3b. Quarta: os dois relógios da Lei nº 12.732/2012 — 30 dias para os exames de elucidação, 60 dias do laudo patológico ao primeiro tratamento.

em 30 dias

Pegue três vinhetas de cabeça e pescoço de provas anteriores e faça quatro coisas em cada uma antes de olhar as alternativas. Primeiro, escreva os três eixos do TNM em linhas separadas e só então agrupe — e confira se o estágio que você escreveu segue o pior dos eixos, e não o T. Segundo, identifique o sítio e diga de cor a modalidade preferencial dele no estágio I ou II e no III ou IV: cavidade oral cirúrgica com margem de 1 cm, nasofaringe e hipofaringe localizadas irradiadas, laringe inicial com preservação de órgão. Terceiro, decida o pescoço: em cavidade oral, orofaringe e hipofaringe cirúrgicas, supra-omo-hióideo mínimo mesmo com N0; nível IV a considerar em primário de língua; bilateral se cruza a linha média ou há metástase ipsilateral manifesta. Quarto, procure no enunciado a pista de qual régua está em jogo — profundidade de invasão em milímetros e extensão extranodal significam régua de 2018; regulação, autorização e tabela do SUS significam a Portaria nº 516/2015. Feche a rodada dizendo em voz alta as duas exclusões de escopo da diretriz: glândulas salivares e cavidade nasal com seios paranasais.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Homem de 61 anos, aposentado, chega ao ambulatório de cirurgia de cabeça e pescoço trazido pela filha, com um encaminhamento da unidade básica que diz apenas ferida na boca há 3 meses. Ele fuma desde os 15 anos, bebe cachaça todo dia e já trocou de dentadura duas vezes neste ano porque nenhuma assenta. Fala arrastado e evita mostrar a língua. Conduza a consulta: caracterize a lesão e o pescoço, decida quem biopsia e com que urgência, peça o estadiamento correto sem pedir o exame que a diretriz recusa, agrupe o TNM e explique a ele — e à filha, que quer saber quanto tempo vai demorar — os dois prazos que a lei garante. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.