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Câncer gástrico: o que ressecar e até onde dissecar

O diagnóstico já veio na endoscopia. O que a prova cobra é a extensão — total ou subtotal, D1 ou D2, quantos centímetros de margem e quantos linfonodos precisam vir na peça.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Homem, 58 anos, tabagista, procura atendimento por epigastralgia e perda de 9 kg em 3 meses. A endoscopia digestiva alta evidencia lesão ulcerada infiltrativa no corpo gástrico e a biópsia confirma adenocarcinoma. À microscopia, observam-se células com escassa coesão, permeando difusamente a parede gástrica, muitas com aspecto em "anel de sinete" e ausência de formação glandular. O estadiamento com tomografia e ultrassonografia endoscopica indica lesão T3, sem metástases à distância, e o paciente é encaminhado para gastrectomia com intenção curativa. Considerando a classificação histológica de Lauren e seu impacto na estratégia cirúrgica, assinale a conduta cirúrgica mais adequada quanto à margem proximal.

02

Como esse tema cai

A vinheta de câncer gástrico quase nunca pede o diagnóstico: ele chega pronto, escrito no laudo da endoscopia com biópsia. O que a prova pede é a segunda decisão, a que separa quem estudou de quem leu o assunto por cima — a extensão. Gastrectomia total ou subtotal. Linfadenectomia D1 ou D2. Quantos centímetros de margem proximal. Quantos linfonodos precisam vir na peça para que o estadiamento valha. E, cada vez mais, o que o SUS paga em doença avançada.

São quatro documentos com pesos diferentes, e reconhecer qual deles o enunciado está usando resolve metade das questões. As Diretrizes Diagnósticas e Terapêuticas do Adenocarcinoma de Estômago, aprovadas pela Portaria Conjunta SAS/SCTIE nº 3, de 15 de janeiro de 2018, são a régua nacional: é por elas que a regulação autoriza e o hospital habilitado cobra. As diretrizes da Associação Brasileira de Câncer Gástrico, publicadas em duas partes em 2020 e 2021, são a leitura da sociedade cirúrgica brasileira e trazem um dado que quase ninguém usa — o percentual de concordância de cada declaração. As diretrizes japonesas, hoje na 7ª edição, são a origem das regras de margem e das listas de estações que os dois documentos brasileiros reproduzem. E a Portaria sectics/MS nº 33, de 12 de maio de 2025, mudou o final da história em doença avançada.

Vale registrar a data: em 14 de agosto de 2026, a Consulta Pública SCTIE/MS nº 85 submeteu à sociedade civil a proposta de um Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Adenocarcinoma de Estômago, com vinte dias de prazo para contribuições. Enquanto essa proposta é apreciada, quem regula, autoriza e responde prova continua trabalhando com o texto de 2018 — proposta em consulta pública é documento sob exame, não norma.

Este capítulo começa depois da biópsia. Quem endoscopar na dispepsia, quais são os sinais de alarme, como se pesquisa e se erradica o Helicobacter pylori e como se vigia a gastrite atrófica com metaplasia estão no capítulo de doença ulcerosa péptica da apostila de Gastroenterologia; o encaminhamento a partir da atenção primária está no capítulo de sinais de alarme da apostila de Oncologia. Aqui entram a classificação de Lauren, o TNM da 8ª edição, a ressecção endoscópica, a extensão da gastrectomia, a extensão da linfadenectomia, o tratamento peri-operatório e o que se faz quando não há mais cura a oferecer.

03

O que muda decisão

Lauren não é classificação de patologista — é aviso de margem

O adenocarcinoma responde por mais de 90% das neoplasias malignas do estômago, e as Diretrizes de 2018 usam "câncer gástrico" como sinônimo dele — linfomas, sarcomas e outros padrões histológicos têm evolução e tratamento diferentes e ficam fora do documento. Dentro do adenocarcinoma, a divisão que a prova cobra é a de Lauren, e ela separa dois tumores que só têm o nome em comum.

O tipo intestinal é o mais diferenciado, acomete mais homens, sobretudo idosos, e evolui principalmente a partir de lesões pré-malignas — é o desfecho final da sequência que começa na gastrite crônica pelo Helicobacter pylori e passa por atrofia, metaplasia intestinal e displasia. O tipo difuso apresenta-se com padrão infiltrativo, com extensão submucosa e metástases precoces, acomete mais mulheres em idade jovem e do tipo sanguíneo A, e está associado a pior prognóstico. Essas são as palavras das Diretrizes, e cada uma delas tem consequência cirúrgica.

"Extensão submucosa" quer dizer que o tumor caminha por baixo de uma mucosa que parece normal, e por isso a borda que o endoscopista vê não é a borda que existe. Daí sai a regra de margem: para tumores T2 ou mais profundos, o documento japonês recomenda pelo menos 3 cm de margem proximal quando o crescimento é expansivo (tipos macroscópicos 1 e 2) e 5 cm quando é infiltrativo (tipos 3 e 4). Não é o estádio T que decide entre 3 e 5 — é o padrão de crescimento. As Diretrizes brasileiras de 2018 reproduzem essa condicional de forma literal: "2 cm para os tumores T1, de 3 cm para T2 ou mais profundos com padrão de crescimento expansivo e de 5 cm para padrão de crescimento infiltrativo".

"Metástases precoces" tem duas consequências. A primeira é que o tumor difuso é aquele em que a carcinomatose peritoneal aparece com estadiamento por imagem ainda tranquilizador — é a indicação clássica de laparoscopia de estadiamento com citologia oncótica do lavado. A segunda é que a peça grande nem sempre resolve: em lesões difusas, a biópsia de congelação da margem deixa de ser luxo e vira parte da operação, porque o exame macroscópico do cirurgião falha justamente nesse padrão.

E há um terceiro tipo, hereditário, que muda tudo: o câncer gástrico difuso hereditário por mutação germinativa do gene CDH1, que codifica a caderina-E. As Diretrizes de 2018 listam a gastrectomia profilática nesses pacientes entre as indicações de gastrectomia total, e a declaração 36 da ABCG a recomenda com 100% de concordância entre os especialistas. O motivo é mecanístico e está escrito no comentário: os tumores desta doença nascem na mucosa mas crescem por baixo dela, mantendo a mucosa de aspecto normal na endoscopia — o que explica por que lesões malignas antes não identificadas aparecem nas peças de gastrectomia profilática.

Duas notas de epidemiologia que ancoram o resto. A Estimativa do INCA para o triênio 2026-2028 projeta 22.530 casos novos de câncer de estômago por ano no Brasil, com taxa ajustada de 7,39 por 100 mil — o quinto tumor mais frequente do país excluído o de pele não melanoma, e o quarto entre os homens, com 5,4% dos casos novos masculinos. E a distribuição não é homogênea: a Região Norte tem as maiores taxas ajustadas, 11,78 por 100 mil em homens e 5,46 em mulheres. Já as Diretrizes de 2018 registram o contraste prognóstico que justifica o capítulo inteiro: mais de 50% dos pacientes com câncer inicial na porção distal podem ser curados quando o tumor é totalmente ressecado, contra menos de 20% nos tumores proximais, mesmo iniciais.

Corte esquemático da parede gástrica em dois painéis: à esquerda um tumor expansivo de bordas nítidas contido acima da camada muscular; à direita um tumor infiltrativo que se espalha lateralmente pela submucosa muito além da lesão visível na superfície.
O padrão de crescimento é o que fixa a margem. Para tumores T2 ou mais profundos, a regra japonesa reproduzida pelas Diretrizes brasileiras de 2018 pede 3 cm de margem proximal no crescimento expansivo e 5 cm no infiltrativo.

O TNM da 8ª edição e o único ponto em que ele é contraintuitivo

O estadiamento adotado é o da 8ª edição do sistema TNM da AJCC/UICC — assim dizem as Diretrizes de 2018 e assim diz a declaração 10 da ABCG, com 100% de concordância. O T segue as camadas da parede, e vale decorá-lo pela anatomia e não pela numeração: T1 invade a lâmina própria ou a muscular da mucosa (T1a) ou a submucosa (T1b); T2 invade a muscular própria; T3 invade a subserosa; T4 perfura a serosa (T4a) ou invade estruturas adjacentes (T4b).

O N é onde mora a pegadinha, e é o que mudou na 8ª edição. Ele conta o número de linfonodos regionais acometidos, não a estação em que estão: N1 é 1 a 2 linfonodos; N2, de 3 a 6; N3, 7 ou mais, subdividido em N3a de 7 a 15 e N3b de 16 ou mais. A separação entre 7-15 e mais de 15 é exatamente a correção que a 8ª edição trouxe — o comentário da ABCG registra que ela veio para corrigir as imperfeições e as disparidades nas curvas de sobrevida dos estádios IIIB e IIIC, que na 7ª edição não separavam essas duas faixas.

A consequência lógica raramente é dita em voz alta, e cai em prova: se o N é contagem, então a operação determina o estádio. Um paciente operado com dissecção pobre pode sair com dois linfonodos positivos entre seis examinados e receber um N1 que ele talvez não tivesse se vinte e cinco tivessem sido dissecados. Não se trata de erro de patologia — trata-se de migração de estádio por amostragem, e é a razão pela qual toda a discussão sobre número mínimo de linfonodos é uma discussão sobre confiabilidade do estadiamento, e não sobre estética da peça.

Uma aritmética curta que ajuda a fixar as duas coisas: o corte de N3b é 16 ou mais linfonodos positivos, e o mínimo recomendado de linfonodos examinados para estadiar também é 16. Ou seja, quem examina exatamente 16 linfonodos só consegue chegar a N3b se todos os 16 forem positivos. Qualquer coisa abaixo disso, e o N3b passa a ser inalcançável por construção — não porque o paciente não o tenha, mas porque a peça não permite dizê-lo.

O agrupamento por estádios é a última camada, e é o tipo de tabela que se consulta, não se decora inteira. Vale reter os extremos e a lógica: EC 0 é Tis N0 M0; EC ia é T1 N0 M0; o EC IV é qualquer T, qualquer N, com M1; e tudo entre Ib e IIIC é a combinação de profundidade com contagem linfonodal, com um mesmo T podendo cair em quatro estádios diferentes conforme o N. O bloco de critérios traz a grade completa.

Sobre o estadiamento por imagem, três frases resolvem. O método principal é a tomografia computadorizada de tórax, abdome e pelve — declaração 4 da ABCG, 100% de concordância. PET-CT e ressonância magnética ficam para casos selecionados, com 100% de concordância também: o PET-CT tem baixa taxa de detecção no câncer inicial e nos tumores de células em anel de sinete, mucinosos e pouco diferenciados, que são metabolicamente menos ativos. E a laparoscopia de estadiamento com citologia do lavado peritoneal entra quando a tomografia não afasta carcinomatose ou quando se planeja tratamento multimodal — a citologia é positiva em 7% a 10% dos pacientes sem metástase peritoneal visível, e essa positividade sozinha muda o tratamento e o prognóstico.

Quando o endoscópio basta — e por que a régua brasileira é mais estreita

A ressecção endoscópica só faz sentido quando a chance de metástase linfonodal é desprezível, porque ela remove o tumor e não remove linfonodo nenhum. O documento japonês formaliza isso: indicação absoluta é aquela em que a possibilidade de o tumor abrigar metástase linfonodal é menor que 1%, situação em que se espera da ressecção endoscópica efeito terapêutico equivalente ao da ressecção cirúrgica.

Existe um critério em que os três documentos concordam, e é o que mais cai: adenocarcinoma de tipo diferenciado, sem achados de ulceração, com invasão clinicamente diagnosticada como T1a e diâmetro de até 2 cm. Esse é o único que pode ser feito por mucosectomia (EMR) ou por dissecção submucosa endoscópica (ESD). A declaração 13 da ABCG o reproduz com 100% de concordância, e as Diretrizes de 2018 o nomeiam como a indicação padrão da sociedade japonesa.

A 7ª edição japonesa acrescenta três situações que são indicação absoluta apenas para ESD, não para mucosectomia: tipo diferenciado sem ulceração e T1a com diâmetro maior que 2 cm, sem teto de tamanho; tipo diferenciado com ulceração, T1a, de até 3 cm; e tipo indiferenciado sem ulceração, T1a, de até 2 cm. Repare no terceiro: o tumor indiferenciado deixou de ser exclusão automática na régua japonesa vigente, desde que seja T1a, não ulcerado e de até 2 cm.

A régua brasileira não acompanhou até aí, e é isso que a prova nacional cobra. A declaração 14 da ABCG, com 92% de concordância, trata invasão da submucosa, ulceração, tipo difuso e tamanho maior que 2 cm como critérios de exceção, a serem adotados apenas em pacientes de alto risco cirúrgico — e o comentário explica por quê: nessas situações a abordagem endoscópica não reproduz os resultados do tratamento cirúrgico radical, e fica reservada a quem não tem condição para a cirurgia ou a recusa. As Diretrizes de 2018, por sua vez, admitem como tratamento exclusivo o adenocarcinoma bem diferenciado ou intestinal quando a lesão está restrita à mucosa e não apresenta úlcera, independentemente da extensão; restrita à mucosa com úlcera e no máximo 30 mm; ou restrita à submucosa superficial, sem úlcera e no máximo 30 mm.

Uma discordância de unidade merece registro porque pode custar uma questão. As Diretrizes brasileiras definem essa submucosa superficial como "sm1, invasão da submucosa até 300 micra". O documento japonês define SM1 como invasão submucosa menor que 500 micrômetros a partir da muscular da mucosa. São valores diferentes para a mesma sigla, e o número que a régua nacional publica é 300.

Três condições valem para qualquer ressecção endoscópica e costumam ser o distrator: ela precisa ser em monobloco, com margens de segurança laterais E em profundidade, e realizada em centro especializado, com grande número de atendimentos e resultados validados e apresentados periodicamente. Ressecção fragmentada não cumpre o critério, e a peça precisa permitir ao patologista dizer profundidade, tipo histológico, ulceração e invasão linfovascular — que são exatamente os itens de que depende a decisão seguinte, a de completar ou não com gastrectomia.

Total ou subtotal: quem decide é a margem

A cirurgia é o tratamento do câncer gástrico sempre que exequível e o único que isoladamente pode curar. As Diretrizes de 2018 dão o número que enquadra a conversa: cerca de 85% dos pacientes com esse diagnóstico são candidatos à cirurgia, e metade desses pode ter o tumor ressecado. Definem também o que conta como operação: ressecção de pelo menos dois terços do estômago associada à dissecção linfonodal. Cirurgia ampliada é o nome do que vai além disso — ressecção de outros órgãos, ou dissecção linfonodal que excede a D2.

A escolha entre total e subtotal não é preferência de escola. É consequência da margem. Quando as margens recomendadas podem ser obtidas preservando a junção esofagogástrica e um segmento remanescente de estômago, a gastrectomia distal é o procedimento de escolha; nos outros casos, gastrectomia total. Dito de outro modo: mede-se a distância que o tumor exige, testa-se se ela cabe sem comer a cárdia, e a resposta define a operação. A declaração 22 da ABCG diz a mesma coisa por outro caminho, com 96% de concordância — gastrectomia subtotal nos tumores distais ou nos casos em que a margem proximal entre tumor e transição esofagogástrica é de pelo menos 5 cm.

As margens, então, em ordem de uso. Para T1, margem macroscópica de 2 cm. Para T2 ou mais profundos, 3 cm no padrão de crescimento expansivo e 5 cm no infiltrativo. Quando essas regras não puderem ser satisfeitas, o documento japonês manda examinar por congelação toda a espessura da margem proximal de ressecção — e a declaração 24 da ABCG, com 94% de concordância, exige a congelação nos tumores que invadem o esôfago distal.

Há um número que circula muito e precisa de etiqueta: a declaração 23 da ABCG recomenda margem proximal de pelo menos 8 cm nos tumores difusos. Ela existe, é brasileira, e é citável — mas obteve 72% de concordância, abaixo dos 80% que o próprio consenso definiu como limiar. É uma declaração que não alcançou consenso, e apresentá-la como regra é ir além do que o documento sustenta.

Fora da margem, as Diretrizes de 2018 listam outras três indicações de gastrectomia total: acometimento e consequente ressecção do pâncreas e do baço; tumores infiltrativos; e a gastrectomia profilática na mutação do CDH1. A declaração 25 da ABCG acrescenta os tumores proximais e os tumores iniciais multicêntricos, com 100% de concordância — e o comentário justifica o segundo: o câncer gástrico inicial multicêntrico sincrônico aparece em 3% a 15% dos casos, e por isso todo diagnóstico de câncer inicial pede avaliação minuciosa de todo o estômago antes de decidir a extensão.

Duas condutas antigas que hoje são distrator. A esplenectomia deixou de ser rotina: a declaração 26 da ABCG, com 96% de concordância e nível de evidência A, a reserva para tumores avançados da grande curvatura do estômago proximal, quando há invasão do baço ou acometimento linfonodal evidente do hilo esplênico. O ensaio randomizado multicêntrico que sustenta isso incluiu 505 pacientes em gastrectomia total por tumor de terço superior sem invasão da grande curvatura — 254 com esplenectomia e 251 sem — e mostrou mais morbidade e mais perda sanguínea com a esplenectomia, sem ganho de sobrevida. E o dreno abdominal profilático: as Diretrizes de 2018 registram que inexiste evidência de benefício da colocação profilática de dreno no pós-operatório de gastrectomia, e a declaração 47 da ABCG, que propunha o dreno de rotina, ficou em 70% de concordância com grau de recomendação 3 — o próprio comentário conclui que os dados da literatura não sustentam o uso rotineiro.

Sobre a via, a resposta atual é laparoscopia com ressalva por estádio e por sítio. As declarações 37 e 38 da ABCG dão nível de evidência A e grau 1 à gastrectomia subtotal laparoscópica no câncer inicial (98% de concordância) E no câncer avançado (92%) de terço distal. Para a gastrectomia total laparoscópica, a concordância cai conforme o cenário: 90% no câncer inicial de terço superior, mas apenas 76% no avançado de terço superior, com grau de recomendação 2b — e o comentário é explícito ao dizer que a validade oncológica nesse cenário ainda não foi provada. Plataforma robótica, pela declaração 41, tem as mesmas indicações e os mesmos resultados da laparoscopia.

D1, D1+ e D2 são listas de estações — não são quantidades

É o ponto em que mais se erra por vocabulário. D1, D1+ e D2 não são quantidades de linfonodos: são listas nominais de estações, e a lista muda conforme a gastrectomia realizada. O comentário da declaração 19 da ABCG diz isso com todas as letras — a linfadenectomia não diz respeito ao número de linfonodos, mas às localizações dissecadas.

Na gastrectomia distal, o documento japonês define D1 como as estações 1, 3, 4sb, 4d, 5, 6 e 7; D1+ como o D1 acrescido de 8a e 9; e D2 como o D1 acrescido de 8a, 9, 11p e 12a. Na gastrectomia total, D1 são as estações 1 a 7; D1+ é o D1 mais 8a, 9 e 11p; e D2 é o D1 mais 8a, 9, 11p, 11d e 12a. Traduzindo a geografia: o D1 é o anel perigástrico, colado à parede; o D2 acrescenta o que corre com os vasos nomeados — artéria hepática comum, tronco celíaco, artéria esplênica e artéria hepática própria.

Repare no que não está na lista de D2 da gastrectomia total: a estação 10, do hilo esplênico. Essa é a mudança que explica o desaparecimento da esplenectomia de rotina — a dissecção da estação 10, com ou sem esplenectomia, hoje é classificada como D2+, cirurgia não padronizada, considerada apenas para câncer de estômago proximal que invade a grande curvatura. As outras extensões além do D2 seguem a mesma lógica: estação 14v na doença distal com metástase para a estação 6, estações 12b e 12p, dissecção para-aórtica.

A resposta brasileira à pergunta "D1 ou D2" é a declaração 17 da ABCG: em tumores em estádio Ib a III (T2-4, qualquer N), a linfadenectomia D2 é indicada. Ela saiu com 98% de concordância, nível de evidência A e grau de recomendação 1 — a combinação mais forte de todo o documento. Para o outro extremo, a declaração 16 recomenda, nos T1b que não preenchem critério endoscópico, o D1 nos tumores bem diferenciados menores que 1,5 cm e o D1+ nos indiferenciados menores que 1,5 cm; ela ficou em 76% de concordância, abaixo do limiar de consenso.

A história por trás dessa recomendação é o que torna o tema pedagógico, e o comentário da ABCG a conta inteira. Os dois grandes ensaios randomizados ocidentais, o holandês e o britânico, falharam em demonstrar benefício da D2 por causa da alta mortalidade operatória no braço D2 — 9,7% no holandês e 13,5% no britânico —, o que derrubou a curva de sobrevida do grupo logo no início do seguimento. A causa dessa mortalidade foi identificada: a pancreatectomia distal e a esplenectomia, então incluídas na D2 padrão por serem consideradas necessárias à dissecção adequada. Com quinze anos de seguimento, o ensaio holandês mostrou que a D2 se associou a menor recidiva locorregional e a menos mortes por câncer gástrico do que a D1. Ou seja: o que estava errado não era a extensão da dissecção — eram os dois órgãos que se tirava junto.

Extensões além da D2 ficam para casos selecionados — declaração 21, 92% de concordância, grau 2b. O comentário registra que o termo D3 vem sendo substituído por "dissecção linfonodal para-aórtica", e que a remoção sistemática dos linfonodos de nível N3 foi em boa medida abandonada depois dos resultados do ensaio JCOG 9501.

Vista anterior do estômago com os grupos linfonodais desenhados em dois anéis: o interno colado às curvaturas gástricas e o externo acompanhando as artérias em direção ao tronco celíaco, à hepática comum e à esplênica proximal, cada anel contornado por uma linha tracejada.
A extensão da linfadenectomia é definida por listas de estações, não por contagem. O anel interno corresponde ao D1 — perigástrico —, e o D2 acrescenta as estações que acompanham os vasos nomeados.

Dezesseis para estadiar, vinte e cinco para dizer que foi D2

Se D1 e D2 são estações, o número de linfonodos é outra pergunta — e ela tem duas respostas com finalidades diferentes, que a prova adora misturar.

A primeira é sobre estadiamento. As Diretrizes de 2018 escrevem que um ponto de corte ideal não foi definido, mas que pelo menos 16 linfonodos deveriam ser ressecados para permitir um adequado estadiamento. É o mesmo número que a classificação da AJCC/UICC recomenda. Aqui cabe um aviso de leitura: a declaração 18 da ABCG está impressa como "mínimo de 15 linfonodos", mas o comentário que vem logo abaixo dela, na mesma página, escreve "pelo menos 16", e é 16 o número que a régua nacional publica e que o estudo citado pelo próprio comentário usa como corte. O número a levar para a prova é 16.

O estudo que sustenta esse corte é o de Verlato, citado pela ABCG: linfadenectomia limitada, com menos de 16 linfonodos removidos, associou-se a estadiamento inadequado em 54,4% dos pacientes — mais da metade —, taxa que despencou nos pacientes submetidos a linfadenectomia mais extensa. Não é um detalhe de qualidade: é a diferença entre saber e não saber em que estádio o paciente está, o que decide a adjuvância.

A segunda resposta é sobre qualidade da operação. A declaração 19 da ABCG diz que a linfadenectomia D2 recomenda pelo menos 25 linfonodos ressecados, e o raciocínio é reverso: respeitada a padronização das estações, é improvável que uma D2 bem feita renda menos de 25 linfonodos. O número não é a meta — é o resultado esperado de ter dissecado as estações certas, e serve como aferição a posteriori. Ela ficou em 76% de concordância, abaixo do limiar, e por isso vale como parâmetro e não como exigência.

As Diretrizes de 2018 acrescentam um dado que evita simplificação: alguns estudos sugerem relação proporcional entre o número de linfonodos ressecados e a sobrevida, e esse benefício foi observado mesmo em números elevados, como 40 linfonodos. E fecham com honestidade sobre a fonte da recomendação — a recomendação quanto à técnica deve se basear na experiência do especialista em identificar o paciente que mais se beneficiará, bem como em sua própria habilidade como cirurgião. Junto disso vem a advertência de segurança: o acréscimo de pancreatectomia distal e de esplenectomia, o pequeno número de casos por cirurgião ao ano e a falta de treinamento específico parecem estar associados a aumento de mortalidade.

Um último passo, prático e frequentemente esquecido, fecha o ciclo: a declaração 20 da ABCG recomenda, com 90% de concordância, que ao final de cada operação um membro da equipe cirúrgica envie a peça ao patologista com todas as estações linfonodais separadas e identificadas. Peça enviada em bloco, sem dissecção das estações, dificulta a contagem, diminui a qualidade aferível da própria cirurgia e pode comprometer o estadiamento — e, por consequência, a indicação de adjuvância.

O que vem antes e depois da cirurgia — e o que o SUS paga por isso

A maioria dos pacientes com ressecção completa tem alto risco de recidiva quando o comprometimento vai além da parede (T3 ou T4) ou há acometimento linfonodal (qualquer N). É esse risco que sustenta o tratamento peri-operatório, e as Diretrizes de 2018 organizam a discussão em três desenhos diferentes que precisam ser mantidos separados na cabeça.

O primeiro é a quimioterapia peri-operatória: ciclos antes e ciclos depois da cirurgia. O estudo MAGIC estabeleceu o modelo — seis ciclos de epirrubicina, cisplatina e fluorouracila infusional, três antes e três depois da cirurgia, com benefício em sobrevida livre de doença e em sobrevida global comparado a cirurgia exclusiva. Outros esquemas de dois ou três medicamentos com uma fluoropirimidina e um derivado de platina mostraram benefício semelhante. A ABCG registra que o ensaio de fase III FLOT4, comparando o esquema com quatro drogas (fluorouracila, folinato de cálcio, oxaliplatina e docetaxel) ao esquema do MAGIC, emergiu como o estudo de melhores resultados — e destaca um ponto metodológico que muda a leitura: a qualidade da linfadenectomia, muito criticada nos estudos ocidentais anteriores de quimioterapia peri-operatória, foi adequada no FLOT4.

O segundo desenho é o que não se faz: quimioterapia prévia à cirurgia como tratamento exclusivo, isto é, neoadjuvante sem a metade pós-operatória. As Diretrizes de 2018 são categóricas — não demonstrou efeito significativamente benéfico e não deve ser utilizada. Quem marca "neoadjuvância isolada" está confundindo o desenho peri-operatório com um desenho que foi testado e descartado.

O terceiro é a quimiorradioterapia adjuvante, para quem foi operado sem quimioterapia prévia e cujo anatomopatológico confirma estádio Ib ou mais. O ensaio que a sustenta mostrou sobrevida global de 36 meses no grupo tratado contra 27 meses no de cirurgia exclusiva, e os dados de dez anos confirmaram o impacto. Mas as duas limitações desse ensaio são exatamente o que a prova cobra: pela leitura da ABCG, apenas 9% dos pacientes receberam dissecção D2; e, pela leitura das Diretrizes de 2018, apenas 31% tinham tumores T1 ou T2 e apenas 16% eram N0 — o que limita a aplicação dos resultados ao grupo de menor risco de recidiva. Daí a declaração 56 da ABCG, com 82% de concordância: a radioterapia adjuvante é recomendada nos casos com indicação de quimioterapia adjuvante que não tiveram dissecção linfonodal adequada. Em quem teve D2 adequada, acrescentar radioterapia à quimioterapia não mostrou benefício em sobrevida livre de doença.

Uma nota de leitura sobre a adjuvância isolada. A declaração 55 da ABCG indica quimioterapia adjuvante para pacientes em estádio Ib operados sem quimioterapia peri-operatória, com 80% de concordância — exatamente no limiar. O comentário que a acompanha, porém, fala de estádios II e III, e os dois ensaios que ele invoca, o ACTS-GC e o classic, foram conduzidos nessas faixas: no ACTS-GC, a sobrevida livre de doença em 5 anos foi de 65% com o adjuvante contra 53% na cirurgia isolada, e a sobrevida global, de 71,7% contra 61,1%. O benefício da adjuvância em II e III está bem documentado; a extensão ao Ib é a parte da declaração que os números citados não cobrem.

Antes de qualquer um desses tratamentos entra um passo que vale nível de evidência A e 100% de concordância na declaração 12 da ABCG: paciente que perdeu mais de 10% do peso habitual nos últimos 6 meses deve receber alguma forma de terapia nutricional antes de começar o tratamento — o comentário fala em 7 a 14 dias de aporte nos casos de desnutrição moderada e grave, e lembra que a caquexia acomete de 50% a 80% dos pacientes oncológicos e responde por cerca de 20% das mortes.

E, do lado da regulação, um detalhe que só existe no documento nacional e que separa candidato de candidato. As Diretrizes de 2018 listam três procedimentos da tabela do SUS, com faixas de estadiamento diferentes: quimioterapia paliativa do adenocarcinoma de estômago avançado (doença metastática ou recidivada), código 03.04.02.004-4; quimioterapia pré-operatória, código 03.04.04.017-7, para estádio de II até IV sem metástase (M0); e quimioterapia pós-operatória, código 03.04.05.025-3, para estádio de Ib até IV sem metástase (M0). A assimetria é literal e proposital: o pré-operatório começa no estádio II, o pós-operatório começa no Ib.

Doença avançada: o que mudou depois que a régua nacional foi escrita

Em doença avançada, o tratamento sistêmico paliativo é melhor do que medidas de suporte exclusivas — isso está nas Diretrizes de 2018 e na declaração 57 da ABCG, com 94% de concordância e nível de evidência A. O esquema recomendado é de dois quimioterápicos, sendo um deles uma fluoropirimidina (fluorouracila ou capecitabina) e o outro um derivado de platina; a inclusão de um terceiro não tem benefício claro. Havendo resposta clínica inicial, o tratamento se mantém enquanto houver benefício clínico inequívoco sem toxicidade inaceitável.

É aqui que a régua nacional envelheceu, e o candidato precisa saber a data. O texto de 2018, discutindo trastuzumabe em tumores gástricos avançados com superexpressão de HER2, conclui que o benefício dos antineoplásicos-alvo é incerto e que, portanto, esses medicamentos não são recomendados naquelas Diretrizes. Em 12 de maio de 2025, a Portaria sectics/MS nº 33 tornou pública a decisão de incorporar ao SUS o trastuzumabe para o tratamento de adultos com câncer de estômago ou da junção esofagogástrica, avançado ou metastático, HER2+ e não tratados anteriormente — primeira linha. A portaria fixa ainda o prazo máximo de 180 dias, previsto no art. 25 do Decreto nº 7.646/2011, para as áreas técnicas efetivarem a oferta.

A consequência prática é direta: a pesquisa de HER2 no adenocarcinoma gástrico avançado deixou de ser exame sem desdobramento no sistema público e passou a definir elegibilidade a um tratamento de primeira linha. Enunciado que reproduza a frase de 2018 como se fosse a régua de hoje está citando um trecho superado por norma posterior e específica — e a proposta de novo Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Adenocarcinoma de Estômago entrou em consulta pública em 14 de agosto de 2026, o que sinaliza que o texto de 2018 está no fim do seu ciclo.

A cirurgia, na doença metastática, muda de finalidade e encolhe de indicação. As Diretrizes de 2018 a colocam a serviço do controle de sintomas — dor, sangramento ou obstrução. A declaração 32 da ABCG, com 100% de concordância, diz o mesmo: em pacientes M1, a ressecção gástrica paliativa pode ocasionalmente ser realizada nos casos de obstrução, sangramento ou perfuração. E a declaração 33 fecha a porta do lado oposto, com 86% de concordância: ressecção gástrica paliativa em paciente assintomático não é indicada como primeira abordagem — o ensaio randomizado regatta não mostrou benefício da cirurgia citorredutora como primeira conduta em metastáticos assintomáticos, comparada ao tratamento quimioterápico exclusivo.

Duas modalidades que aparecem em alternativa e precisam de rótulo correto. A cirurgia de conversão — quimioterapia seguida de cirurgia para alcançar ressecção R0 em lesão inicialmente irressecável ou marginalmente ressecável — é aceita pela declaração 27 com 98% de concordância, mas com nível de evidência C, e o comentário registra que apenas cerca de 30% dos pacientes que iniciam a quimioterapia de conversão chegam de fato a ser operados. Já a quimioterapia intraperitoneal hipertérmica (HIPEC) tem posição explícita na declaração 59, com 86% de concordância: deve ser usada apenas em protocolos de pesquisa, por ainda não haver evidência consistente do seu real benefício.

Fecha o capítulo o seguimento, e ele é modesto de propósito. As Diretrizes de 2018 registram que inexistem evidências de que exames de laboratório ou de imagem, inclusive a endoscopia, devam ser feitos regularmente para diagnóstico precoce de recidiva, e recomendam consultas de 3 a 6 meses no primeiro e no segundo anos e, depois, a cada 6 a 12 meses por um período longo, já que recidivas tardias ocorrem. A ABCG dá o contraponto que evita o extremo oposto: a declaração que propunha não seguir os pacientes obteve apenas 18% de concordância, e a que propunha seguir por ultrassonografia abdominal, 38% — as duas rejeitadas. Seguir, sim; por ultrassonografia de rotina, não.

04

As três réguas da extensão

Antes de escolher a operação, identifique qual documento o enunciado está usando. As Diretrizes de 2018 regulam o que o SUS autoriza e paga; as diretrizes da ABCG dizem o que a cirurgia brasileira recomenda, com o percentual de concordância impresso ao lado de cada declaração; o documento japonês é a origem das regras de margem e das listas de estações. Onde os três concordam, a resposta é segura; onde discordam, o cenário do enunciado decide.

  1. 1Leia a profundidade antes de tudo. T1a diferenciado, não ulcerado e de até 2 cm é o único cenário em que a resposta pode ser endoscópica nos três documentos.
  2. 2Se é cirúrgico, calcule a margem: 2 cm no T1; 3 cm no T2 ou mais profundo com crescimento expansivo; 5 cm quando o crescimento é infiltrativo. Não é o T que separa 3 de 5 — é o padrão de crescimento.
  3. 3Teste a margem contra a anatomia. Se ela cabe preservando a junção esofagogástrica e um segmento de estômago, gastrectomia subtotal distal; se não cabe, gastrectomia total. Tumor proximal, difuso multicêntrico e mutação de CDH1 já entram como total.
  4. 4Escolha a linfadenectomia pelo estádio: em IB a III (T2-4, qualquer N), D2 — declaração de maior força de todo o documento brasileiro, com 98% de concordância e nível de evidência A.
  5. 5Confira a peça: pelo menos 16 linfonodos para que o estadiamento valha, e cerca de 25 como resultado esperado de uma D2 bem feita. Envie as estações separadas e identificadas.
  6. 6Decida o tratamento sistêmico pelo desenho, não pelo nome: peri-operatório (antes E depois) tem benefício; neoadjuvância isolada, não. Quem foi operado sem quimioterapia prévia e tem estádio IB ou mais entra na discussão de adjuvância, com radioterapia associada quando a dissecção linfonodal foi inadequada.
  7. 7Em M1, a cirurgia serve a sintoma — obstrução, sangramento, perfuração. Em paciente assintomático, a ressecção não é a primeira abordagem. E, se HER2 for positivo, o trastuzumabe está incorporado ao SUS em primeira linha desde maio de 2025.

Restrito à mucosa (T1a)

Diferenciado, sem ulceração e até 2 cm é indicação absoluta de ressecção endoscópica nos três documentos — em monobloco, com margens laterais e profunda, em centro especializado.

Submucosa ou além (T1b a T4)

Sai do alcance do endoscópio: gastrectomia com ressecção de pelo menos dois terços do estômago e dissecção linfonodal. A profundidade também muda a margem exigida.

Tumor distal com margem que cabe

Se a margem exigida é obtida preservando a junção esofagogástrica e um segmento de estômago, gastrectomia subtotal distal. É o cenário de melhor prognóstico.

Tumor proximal, difuso ou multicêntrico

Gastrectomia total. Também é ela quando há ressecção de pâncreas e baço, em tumores infiltrativos e na gastrectomia profilática por mutação do CDH1.

Onde os três documentos concordam e onde não

DecisãoDiretrizes MS — Portaria Conjunta SAS/SCTIE nº 3/2018ABCG — diretrizes 2020 e 2021 (concordância)Diretrizes japonesas — 7ª edição
Margem proximal2 cm no T1; 3 cm no T2 ou mais profundo com crescimento expansivo; 5 cm no infiltrativoSubtotal quando a margem proximal até a transição esofagogástrica é de pelo menos 5 cm (96%); pelo menos 8 cm nos difusos (72%, abaixo do limiar de consenso)2 cm macroscópicos no T1; 3 cm no expansivo (tipos 1 e 2) e 5 cm no infiltrativo (tipos 3 e 4), com congelação quando a regra não puder ser cumprida
Extensão da gastrectomiaPelo menos dois terços do estômago; distal quando a margem é obtida preservando a junção esofagogástrica; total nos demaisSubtotal nos distais (96%); total nos proximais e nos iniciais multicêntricos (100%)Total ou distal conforme a margem; gastrectomia proximal e ressecção segmentar seguem como investigacionais
LinfadenectomiaLiteratura descrita como inconclusiva entre D2 e D1; sem evidência de benefício em sobrevida global, com maior benefício nas análises de subgrupo de risco intermediário (EC II e III)D2 indicada em estádios IB a III, T2-4 qualquer N (98%, nível de evidência A, grau 1)Listas de estações por tipo de gastrectomia; além de D2, cirurgia não padronizada
Número de linfonodosPelo menos 16 para estadiamento adequado; sem ponto de corte ideal definido; benefício observado mesmo com 40Declaração impressa como 15, com o comentário da mesma página escrevendo 16 (92%); pelo menos 25 esperados numa D2 (76%)O documento define estações, não contagem
Ressecção endoscópicaBem diferenciado ou intestinal, em monobloco: restrito à mucosa sem úlcera (qualquer extensão); com úlcera até 30 mm; ou sm1 sem úlcera até 30 mmDiferenciado, T1a, menor que 2 cm e não ulcerado (100%); submucosa, úlcera, difuso e maior que 2 cm são exceção, só em alto risco cirúrgico (92%)Absoluta: diferenciado, sem ulceração, T1a e até 2 cm (EMR ou ESD). Só por ESD: diferenciado sem úlcera acima de 2 cm; diferenciado com úlcera até 3 cm; indiferenciado sem úlcera até 2 cm
EsplenectomiaRecomendada em T3 ou T4 de grande curvatura e quando a linfadenectomia deve abranger os linfonodos esplênicosApenas em tumor avançado da grande curvatura do estômago proximal, com invasão do baço ou acometimento evidente do hilo esplênico (96%, nível A)Estação 10 fora do D2; sua dissecção, com ou sem esplenectomia, é D2+ e reservada ao tumor proximal que invade a grande curvatura
Antineoplásico-alvo em doença avançadaO texto de 2018 não os recomenda — superado, para o trastuzumabe, pela Portaria SECTICS/MS nº 33, de 12 de maio de 2025Não é objeto das declarações de 2020-2021Fora do recorte usado neste capítulo

TNM 8ª edição: o T pelas camadas, o N pela contagem

CategoriaDefinição
T1Invade a lâmina própria ou a muscular da mucosa (T1a) ou a submucosa (T1b)
T2Invade a muscular própria
T3Invade a subserosa
T4Perfura a serosa (T4a) ou invade estruturas adjacentes (T4b)
N11 a 2 linfonodos regionais acometidos
N23 a 6 linfonodos regionais acometidos
N3a7 a 15 linfonodos regionais acometidos
N3b16 ou mais linfonodos regionais acometidos

Agrupamento por estádios (AJCC 8ª edição, M0)

N0N1N2N3aN3b
T1IAIBIIAIIBIIIB
T2IBIIAIIBIIIAIIIB
T3IIAIIBIIIAIIIBIIIC
T4aIIBIIIAIIIAIIIBIIIC
T4bIIIAIIIBIIIBIIICIIIC

Estações por nível de dissecção (7ª edição japonesa)

GastrectomiaD1D1+D2
DistalEstações 1, 3, 4sb, 4d, 5, 6 e 7D1 mais 8a e 9D1 mais 8a, 9, 11p e 12a
TotalEstações 1 a 7D1 mais 8a, 9 e 11pD1 mais 8a, 9, 11p, 11d e 12a
ProximalEstações 1, 2, 3a, 4sa, 4sb e 7D1 mais 8a, 9 e 11pD1 mais 8a, 9, 11p e 11d

Quimioterapia do adenocarcinoma de estômago na tabela do SUS

ProcedimentoCódigoFaixa de estadiamento
Quimioterapia paliativa — adulto03.04.02.004-4Doença avançada: metastática ou recidivada
Quimioterapia prévia (neoadjuvante/citorredutora) — adulto03.04.04.017-7Estádio de II até IV sem metástase (M0)
Quimioterapia pós-operatória (adjuvante) — adulto03.04.05.025-3Estádio de IB até IV sem metástase (M0)

As diretrizes da ABCG imprimem, ao lado de cada declaração, o percentual de concordância dos especialistas, e o próprio método define consenso em pelo menos 80%. Declaração abaixo desse valor é declaração que NÃO alcançou consenso — caso da margem de 8 cm nos difusos (72%), dos 25 linfonodos na D2 (76%), do dreno de rotina (70%) e da esofagectomia transtorácica como padrão no Siewert II (64%). Citá-las como regra é ir além do que o documento sustenta.

As 24 declarações da parte 1 e as 43 da parte 2 somam as 67 do II Consenso Brasileiro de Câncer Gástrico, submetidas a 57 especialistas. Em apenas 10 delas (15%) houve concordância de 100%.

A declaração 18 da ABCG está impressa como mínimo de 15 linfonodos e o comentário logo abaixo escreve pelo menos 16. As Diretrizes do Ministério da Saúde escrevem 16, e é 16 o corte usado pelo estudo que o próprio comentário invoca. O número a levar para a prova é 16.

As Diretrizes de 2018 definem a submucosa superficial como sm1 com invasão de até 300 micra; o documento japonês define SM1 como invasão menor que 500 micrômetros a partir da muscular da mucosa. São valores diferentes para a mesma sigla, e a régua nacional publica 300.

Portaria e diretriz têm funções diferentes: a Portaria Conjunta SAS/SCTIE nº 3/2018 define diagnóstico, tratamento e regulação; a Portaria SECTICS/MS nº 33/2025 incorpora uma tecnologia específica. Norma posterior e específica prevalece sobre o parágrafo genérico do documento antigo — é por isso que o trastuzumabe está no SUS apesar da frase de 2018.

A junção esofagogástrica tem regra própria e não é objeto central deste capítulo: o documento japonês registra que, para tumores cujo centro está a até 2 cm da junção, não há consenso sobre o tipo de ressecção nem sobre a extensão da linfadenectomia. Na ABCG, o Siewert I e o Siewert III têm declarações com 92% e 96% de concordância, e o Siewert II ficou em 64% — é a maior controvérsia do tema.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

D1 ou D2 na doença localmente avançada

Literatura descrita como inconclusiva

A literatura disponível sobre a efetividade e a segurança da linfadenectomia mais extensa (D2 ou mais) contra a limitada (D1) é inconclusiva. Não há evidência de benefício em sobrevida global com a linfadenectomia mais extensa, mas o grupo que mais se beneficia nas análises de subgrupo é o de risco intermediário (EC II e III). A recomendação quanto à técnica deve se basear na experiência do especialista e em sua própria habilidade como cirurgião.

Ministério da Saúde. Diretrizes Diagnósticas e Terapêuticas do Adenocarcinoma de Estômago (Portaria Conjunta SAS/SCTIE nº 3, de 15 de janeiro de 2018)

D2 é o padrão em IB a III

Em tumores em estádio IB a III (T2-4, qualquer N), a linfadenectomia D2 é indicada — 98% de concordância, nível de evidência A, grau de recomendação 1. O comentário registra que a maior mortalidade dos ensaios holandês e britânico se deveu à pancreatectomia distal e à esplenectomia então incluídas na D2, e que o seguimento de quinze anos do ensaio holandês mostrou menor recidiva locorregional e menos mortes por câncer gástrico com a D2.

Associação Brasileira de Câncer Gástrico. Diretrizes, parte 2 (ABCD Arq Bras Cir Dig. 2021;34(1):e1563), declaração 17

Estações, não graus de agressividade

O nível de dissecção é definido por listas nominais de estações e varia conforme o tipo de gastrectomia. Na distal, D2 é o D1 mais as estações 8a, 9, 11p e 12a; na total, o D1 mais 8a, 9, 11p, 11d e 12a. Gastrectomia com linfadenectomia além do D2 é classificada como cirurgia não padronizada.

Japanese Gastric Cancer Association. Japanese gastric cancer treatment guidelines 2025 (7th edition). Gastric Cancer. 2026;29(2):271

Na prova

A diferença não é científica, é cronológica e institucional: o documento do Ministério da Saúde é de 2018 e resume uma literatura em que os dois grandes ensaios ocidentais tinham resultado negativo; as diretrizes da sociedade cirúrgica são de 2021 e já incorporam o seguimento de quinze anos do ensaio holandês e a queda da mortalidade operatória com treinamento e centralização. Como identificar o recorte: enunciado que cite a portaria, a regulação, a autorização do procedimento ou que use as palavras 'evidência inconclusiva' está no mundo do documento de 2018; enunciado que descreva a conduta do cirurgião, cite a ABCG ou o consenso brasileiro, ou que fale em padrão de tratamento com intenção curativa, está no mundo da D2. Na prática de banca, a resposta que quase sempre pontua é a D2 em EC IB a III — é a declaração de maior força do documento brasileiro mais recente, e a que corresponde ao acordo internacional atual.

Até onde o endoscópio pode ir no câncer gástrico inicial

Indicação absoluta e ampliada por categorias

Indicação absoluta para mucosectomia ou ESD: adenocarcinoma de tipo diferenciado, sem achados de ulceração, cT1a, de até 2 cm. Indicação absoluta apenas para ESD: diferenciado sem ulceração, cT1a, maior que 2 cm; diferenciado com ulceração, cT1a, até 3 cm; e indiferenciado sem ulceração, cT1a, até 2 cm. Indicação absoluta é definida como aquela em que a possibilidade de metástase linfonodal é menor que 1%.

Japanese Gastric Cancer Association. Japanese gastric cancer treatment guidelines 2025 (7th edition). Gastric Cancer. 2026;29(2):271

Fora do critério clássico, só em alto risco cirúrgico

A ressecção endoscópica é indicada em adenocarcinoma bem diferenciado, restrito à mucosa (T1a), menor que 2 cm no maior eixo e não ulcerado — 100% de concordância. Lesões iniciais com invasão da submucosa, ulceradas, de tipo difuso e maiores que 2 cm são critérios de EXCEÇÃO, a serem adotados apenas em pacientes de alto risco cirúrgico — 92% de concordância.

Associação Brasileira de Câncer Gástrico. Diretrizes, parte 1 (ABCD Arq Bras Cir Dig. 2020;33(3):e1535), declarações 13 e 14

Critério nacional, com o sm1 em 300 micra

A ressecção endoscópica, em monobloco e com margens de segurança laterais e em profundidade, pode ser tratamento exclusivo do adenocarcinoma bem diferenciado ou intestinal desde que: a lesão esteja restrita à mucosa e não apresente úlcera, independentemente da extensão; restrita à mucosa com úlcera e no máximo 30 mm; ou restrita à submucosa superficial (sm1, invasão de até 300 micra), sem úlcera e no máximo 30 mm.

Ministério da Saúde. Diretrizes Diagnósticas e Terapêuticas do Adenocarcinoma de Estômago (Portaria Conjunta SAS/SCTIE nº 3, de 15 de janeiro de 2018)

Na prova

A causa da diferença é de população e de volume: as indicações ampliadas japonesas nasceram em serviços com rastreamento sistemático, altíssimo volume e diagnóstico endoscópico de precisão, e os documentos brasileiros escrevem para um país onde a maioria dos casos chega avançada e o número de centros com esse volume é pequeno. Como identificar o recorte: enunciado com paciente de alto risco cirúrgico, comorbidade grave ou recusa de cirurgia está pedindo o critério de exceção; enunciado que descreva lesão diferenciada, não ulcerada, T1a e menor que 2 cm está no terreno em que os três documentos concordam, e a resposta é ressecção endoscópica; enunciado que apresente tumor indiferenciado ou lesão submucosa como candidato natural ao endoscópio está usando régua japonesa em cenário brasileiro. Alternativa que ofereça ressecção fragmentada erra em qualquer régua — o requisito de monobloco é comum aos três.

Terapia-alvo no adenocarcinoma gástrico avançado dentro do SUS

Antineoplásicos-alvo não recomendados

Depois de citar o ensaio randomizado que demonstrou benefício em sobrevida global com trastuzumabe em tumores gástricos avançados com superexpressão de HER2, o texto conclui que uma revisão sistemática de 2016 reafirma ser incerto o benefício desses medicamentos em primeira linha sobre sobrevida ou qualidade de vida, com evidências suficientes de aumento de efeitos adversos, e que por isso esses antineoplásicos não são recomendados nestas Diretrizes.

Ministério da Saúde. Diretrizes Diagnósticas e Terapêuticas do Adenocarcinoma de Estômago (Portaria Conjunta SAS/SCTIE nº 3, de 15 de janeiro de 2018)

Trastuzumabe incorporado em primeira linha

Fica incorporado ao SUS o trastuzumabe para o tratamento de adultos com câncer de estômago ou da junção esofagogástrica, avançado ou metastático, HER2+ e não tratados anteriormente (1ª linha), conforme Protocolo Clínico do Ministério da Saúde. As áreas técnicas têm prazo máximo de 180 dias para efetivar a oferta.

Ministério da Saúde. Portaria SECTICS/MS nº 33, de 12 de maio de 2025 (DOU de 15/05/2025)

A régua nacional em reescrita

Foi submetida à manifestação da sociedade civil a proposta de Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Adenocarcinoma de Estômago, com prazo de 20 dias para contribuições fundamentadas. Até que a proposta seja apreciada e aprovada, o documento em vigor continua sendo o aprovado pela Portaria Conjunta SAS/SCTIE nº 3, de 2018.

Ministério da Saúde. Consulta Pública SCTIE/MS nº 85, de 14 de agosto de 2026

Na prova

Aqui a divergência é entre um documento e o seu próprio futuro: o parágrafo de 2018 e a portaria de 2025 vêm do mesmo Ministério, e o segundo é posterior e específico. Reconhecer o recorte é simples e depende só da data que o enunciado deixa escapar. Vinheta que cite as Diretrizes de 2018 pelo nome ou pelo número da portaria conjunta, ou que discuta a régua de regulação e os códigos da tabela do SUS, está no texto antigo; vinheta que traga um resultado de pesquisa de HER2 no laudo, ou que pergunte o que o SUS oferece hoje em primeira linha, está pedindo a portaria de 2025. Enunciado que ofereça terapia-alvo em doença NÃO metastática ou fora da primeira linha está fora do objeto da incorporação em qualquer leitura.

06

Caso resolvido

Homem de 64 anos, encaminhado com endoscopia digestiva alta que mostra lesão ulcerovegetante de 4 cm no antro, a 8 cm da transição esofagogástrica, com biópsia revelando adenocarcinoma tubular moderadamente diferenciado, tipo intestinal de Lauren, de padrão macroscópico expansivo. Tomografia de tórax, abdome e pelve: espessamento parietal antral com invasão da subserosa, dois linfonodos perigástricos aumentados, sem doença a distância. Peso estável, sem disfagia, capacidade funcional preservada, sem comorbidade descompensada. A equipe planeja levá-lo à cirurgia sem tratamento sistêmico prévio.
profundidade
Invasão da subserosa é T3 — está muito além do alcance do endoscópio. A ressecção endoscópica exige lesão restrita à mucosa (T1a); aqui ela nem entra na conversa.
margem exigida
T2 ou mais profundo com padrão de crescimento EXPANSIVO pede pelo menos 3 cm de margem proximal. Não são 5 cm: os 5 cm são do padrão infiltrativo. Com o tumor a 8 cm da transição esofagogástrica, 3 cm de margem cabem com folga.
extensão da gastrectomia
A margem é obtida preservando a junção esofagogástrica e um segmento remanescente de estômago, então a gastrectomia distal é o procedimento de escolha — ressecando pelo menos dois terços do estômago. Tumor avançado não é, por si, indicação de gastrectomia total.
linfadenectomia
T3 com linfonodos suspeitos cai na faixa IB a III, em que a D2 é indicada: nesta gastrectomia distal, o D1 (estações 1, 3, 4sb, 4d, 5, 6 e 7) acrescido de 8a, 9, 11p e 12a. Sem esplenectomia e sem pancreatectomia distal — foi esse pacote que produziu a mortalidade dos ensaios ocidentais.
aferição da peça
Pelo menos 16 linfonodos precisam vir examinados para que o estadiamento valha; cerca de 25 é o resultado esperado de uma D2 bem feita. A peça segue ao patologista com as estações separadas e identificadas.
depois da cirurgia
Como foi operado sem quimioterapia prévia, entra na discussão de adjuvância se o anatomopatológico confirmar estádio IB ou mais — e a radioterapia se soma à quimioterapia justamente nos casos em que a dissecção linfonodal NÃO foi adequada, o que não deve ser o caso aqui. Pela tabela do SUS, a quimioterapia pós-operatória cobre de IB até IV sem metástase.
07

Agora feche você

Mulher de 41 anos, sem comorbidades, com dor epigástrica e saciedade precoce há quatro meses e perda de 9 kg. Endoscopia: pregas gástricas espessadas e rígidas em corpo e fundo, com mucosa de aspecto pouco alterado e distensibilidade reduzida; biópsias profundas mostram adenocarcinoma com células pouco coesas, tipo difuso de Lauren, padrão macroscópico infiltrativo. Tomografia de tórax, abdome e pelve sem doença a distância e sem ascite. A mãe faleceu aos 47 anos por câncer gástrico e uma tia materna foi operada de câncer gástrico aos 52. A paciente pesa 52 kg e pesava 61 kg há seis meses. A equipe de cirurgia pergunta qual operação indicar e o que precisa ser feito antes.
achado
Tipo difuso de Lauren, crescimento infiltrativo, acometendo corpo e fundo difusamente, em mulher jovem — e com dois parentes de primeiro e segundo grau com câncer gástrico em idade precoce.
o que a histologia impõe
O tipo difuso caminha por baixo de uma mucosa de aspecto normal: a borda que o endoscopista vê não é a borda que existe. Para T2 ou mais profundo com crescimento infiltrativo, a margem proximal recomendada é de 5 cm, e a biópsia de congelação da margem deixa de ser opcional.
conduta
08

Onde a banca derruba

  1. 1Ler a margem pelo estádio T em vez de pelo padrão de crescimento É o erro mais elegante do tema, porque a versão errada é quase certa. A regra japonesa, reproduzida literalmente pelas Diretrizes de 2018, condiciona os 3 e os 5 cm ao PADRÃO DE CRESCIMENTO em tumores T2 ou mais profundos: 3 cm no expansivo, 5 cm no infiltrativo. Não é 3 cm para T2 e 5 cm para T3/T4. Um T4a expansivo pede 3 cm; um T2 infiltrativo pede 5 cm. Só o T1 tem número fixo: 2 cm.
  2. 2Tratar D1 e D2 como quantidades de linfonodos D1, D1+ e D2 são listas nominais de estações, e a lista muda conforme a gastrectomia seja distal, total ou proximal. Alternativa que define D2 como 'ressecção de mais de 25 linfonodos' inverte causa e efeito: os 25 são o resultado esperado de ter dissecado as estações certas, não a definição. Quem confunde os dois também erra a pergunta seguinte, sobre o mínimo de 16 para estadiar.
  3. 3Indicar gastrectomia total porque o tumor é grande ou avançado Tamanho e estádio não decidem a extensão — a margem decide. Se a margem exigida pode ser obtida preservando a junção esofagogástrica e um segmento de estômago, a gastrectomia distal é o procedimento de escolha, mesmo em tumor avançado, e vem acompanhada de D2 do mesmo jeito. O que empurra para a total é a margem que não cabe, o tumor proximal, o infiltrativo, o multicêntrico inicial, a necessidade de ressecar pâncreas e baço e a mutação do CDH1.
  4. 4Acoplar esplenectomia e pancreatectomia distal à D2 Esse pacote é justamente o que fez os ensaios holandês e britânico falharem, com mortalidade operatória de 9,7% e 13,5% no braço D2. A estação 10, do hilo esplênico, não faz parte do D2 da gastrectomia total na régua japonesa vigente — dissecá-la é D2+. A esplenectomia ficou restrita a tumor avançado da grande curvatura proximal com invasão do baço ou hilo esplênico acometido, e o ensaio de 505 pacientes mostrou mais morbidade sem ganho de sobrevida fora dessa situação.
  5. 5Responder 'quimioterapia neoadjuvante' quando o desenho certo é peri-operatório As Diretrizes de 2018 escrevem que a quimioterapia prévia à cirurgia COMO TRATAMENTO EXCLUSIVO não demonstrou efeito significativamente benéfico e não deve ser utilizada. O que tem benefício é o desenho peri-operatório — ciclos antes E depois, três e três no modelo do MAGIC. A alternativa que oferece só a metade de antes descreve um desenho testado e descartado, e a que oferece só a metade de depois descreve outra coisa: adjuvância em quem foi operado de saída.
  6. 6Estender a quimiorradioterapia adjuvante a quem teve D2 adequada O ensaio que sustenta a quimiorradioterapia adjuvante (36 contra 27 meses de sobrevida global) tinha apenas 9% dos pacientes com dissecção D2. A leitura correta é a da declaração 56 da ABCG: a radioterapia entra nos casos com indicação de quimioterapia adjuvante que NÃO tiveram linfadenectomia adequada. Em quem recebeu D2 adequada, acrescentar radioterapia à quimioterapia não mostrou benefício em sobrevida livre de doença.
  7. 7Oferecer ressecção gástrica paliativa a metastático assintomático Parece atitude e é distrator. Na doença M1, a cirurgia serve ao controle de sintoma — obstrução, sangramento ou perfuração —, com 100% de concordância na ABCG. Para o paciente assintomático, o ensaio REGATTA não mostrou benefício da ressecção como primeira abordagem comparada à quimioterapia exclusiva, e a declaração correspondente é explícita ao dizer que ela não é indicada nesse cenário.
  8. 8Repetir que o SUS não oferece terapia-alvo no câncer gástrico Era verdade quando as Diretrizes foram escritas, em 2018, e o próprio documento diz que esses antineoplásicos não são recomendados. Deixou de ser em 12 de maio de 2025, quando a Portaria SECTICS/MS nº 33 incorporou o trastuzumabe para adultos com câncer de estômago ou da junção esofagogástrica, avançado ou metastático, HER2+ e não tratados anteriormente, em primeira linha. Pesquisar HER2 na doença avançada passou a ter consequência no sistema público.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

A vinheta descreve células em anel de sinete, baixa coesão celular e ausência de formação glandular com infiltração difusa: é o tipo DIFUSO de Lauren. Esse subtipo dissemina-se de forma infiltrativa e submucosa (skip lesions), com limites microscopicamente mal definidos, exigindo margem proximal mais ampla (recomenda-se ≥ 5 cm) e, com frequência, gastrectomia total para assegurar margem livre. Correta por reconhecer o subtipo difuso e a necessidade de margem ampliada. Errada: o quadro histológico é difuso, não intestinal (o intestinal forma glândulas e cresce de forma expansiva, permitindo margem de ~2 cm). Errada: a classificação de Lauren influencia diretamente a extensão da margem/ressecção. Errada: o difuso tem disseminação submucosa, e margem de 3 cm é insuficiente para esse subtipo. Errada: margem de 1 cm é inadequada em câncer gástrico infiltrativo e compromete o resultado oncológico.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Escreva de memória as três margens e o que as separa: 2 cm no T1; 3 cm no T2 ou mais profundo com crescimento EXPANSIVO; 5 cm no INFILTRATIVO — e repita em voz alta que não é o T que separa 3 de 5. Em seguida os dois números de linfonodo com suas finalidades: 16 para que o estadiamento valha, 25 como resultado esperado de uma D2. Feche recitando o N do TNM pela contagem: N1 de 1 a 2, N2 de 3 a 6, N3a de 7 a 15, N3b 16 ou mais.

em 30 dias

Refaça o caso da mulher de 41 anos e diga em voz alta por que a operação é total e por que a laparoscopia de estadiamento vem antes. Depois liste as estações de D1 e de D2 na gastrectomia distal e na total, e diga onde está — e onde não está — a estação 10. Termine explicando por que os ensaios holandês e britânico foram negativos e por que isso hoje não derruba a D2. Se travar, releia só a tabela das três réguas e o bloco de divergências.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Homem de 58 anos chega ao ambulatório de cirurgia do aparelho digestivo trazendo o laudo de uma endoscopia feita há duas semanas: lesão ulcerada de 3 cm na pequena curvatura do corpo gástrico, biópsia com adenocarcinoma. Veio sozinho, não leu o laudo até o fim e quer saber se vai precisar tirar o estômago inteiro, se vai poder comer depois e se isso tem cura. Colha a história, identifique o que ainda falta para estadiar e explique a ele, em linguagem clara e sem prometer o que ainda não se sabe, como a decisão sobre a extensão da cirurgia será tomada. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Câncer gástrico: o que ressecar e até onde dissecar — Preparatório para provas | OsceLabs