Cirurgia GeralCirurgia do Aparelho Digestivo

Hérnia inguinal e femoral

Duas perguntas resolvem quase toda questão de hérnia da virilha: o saco saiu por onde, e essa hérnia pode esperar? A anatomia responde a primeira; encarcerada contra estrangulada responde a segunda.

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Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Homem de 55 anos vai à UBS com queixa de abaulamento na região inguinal direita que surge ao esforço e desaparece em decúbito, há 6 meses, sem dor. Ao exame, palpa-se hérnia inguinal redutível, sem sinais de sofrimento. Nega náuseas, vômitos ou dor. Qual a conduta mais adequada?

02

Como esse tema cai

Para o que a prova cobra, hérnia da virilha se resume a duas perguntas. A primeira é anatômica: o saco passou por onde? Medial ou lateral aos vasos epigástricos inferiores? Acima ou abaixo do ligamento inguinal? A resposta separa indireta, direta e femoral — e é ela que decide o risco, não o tamanho do abaulamento. A segunda é temporal: essa hérnia espera ou vai para o centro cirúrgico agora? A resposta separa encarcerada de estrangulada — e é ela que decide se você pode ou não encostar a mão no abaulamento.

O resto (qual tela, qual via, quantos centímetros de sobreposição) é refinamento. Cai, e o capítulo entrega os números, mas quase nunca é o que faz errar. O que faz errar é tratar hérnia femoral encarcerada de idosa como obstrução intestinal a esclarecer e pedir tomografia enquanto a alça necrosa; ou reduzir manualmente um saco com alça isquêmica, ver o abaulamento sumir e dar alta.

A ordem aqui é a da decisão real: anatomia primeiro, porque é ela que classifica; depois quem opera e quando; depois com o quê; e por último a urgência, que é onde o candidato perde ponto. A urgência mora neste capítulo por um motivo anatômico, não editorial: a femoral é a hérnia que estrangula, e ela é uma hérnia da virilha.

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O que muda decisão

Um buraco, três saídas: o orifício miopectíneo

A virilha tem uma só área frágil, o orifício miopectíneo de Fruchaud, delimitado acima pelo arco do oblíquo interno e do transverso, medialmente pela bainha do reto, lateralmente pelo iliopsoas e abaixo pelo pécten do púbis com o ligamento de Cooper. Dentro dessa moldura, a única barreira real é a fáscia transversalis. O ligamento inguinal atravessa esse orifício e o divide em dois andares: acima dele saem as hérnias inguinais, abaixo sai a femoral. Entender que é um buraco único com três portas explica de imediato por que uma tela que cobre o orifício inteiro resolve as três, e por que um reparo que fecha só uma porta deixa as outras abertas.

A primeira porta é o triângulo de Hesselbach, cujos limites são a borda lateral do músculo reto abdominal medialmente, os vasos epigástricos inferiores lateralmente e o ligamento inguinal inferiormente. O assoalho desse triângulo é a fáscia transversalis. Hérnia que empurra esse assoalho e sai por ali é direta, por definição.

A segunda porta é o anel inguinal profundo, situado lateralmente aos vasos epigástricos inferiores. Hérnia que entra por ali segue o funículo espermático no homem e o ligamento redondo na mulher, percorre o canal inguinal e pode alcançar o escroto ou o grande lábio. É a indireta.

A terceira porta é o canal femoral, o compartimento mais medial da bainha femoral, abaixo do ligamento inguinal. Seus limites são rígidos em três lados: à frente o ligamento inguinal, atrás o ligamento pectíneo (de Cooper), medialmente o ligamento lacunar (de Gimbernat) e lateralmente a veia femoral. Um anel estreito cercado por três estruturas fibrosas inextensíveis é a definição mecânica de armadilha — e é toda a explicação para o comportamento clínico da hérnia femoral.

O marco de superfície que separa os dois andares na beira do leito é o tubérculo púbico. Hérnia inguinal, direta ou indireta, emerge acima e medial ao tubérculo. Hérnia femoral emerge abaixo e lateral a ele. A ressalva vale a pena decorar: uma femoral volumosa pode cavalgar sobre o ligamento inguinal e parecer inguinal. Na dúvida, em mulher, trate como femoral.

Ilustração da região inguinal direita mostrando o orifício miopectíneo com suas três saídas: o anel inguinal profundo lateral aos vasos epigástricos inferiores, o triângulo de Hesselbach medial a eles e o canal femoral abaixo do ligamento inguinal.
Um só ponto frágil, três portas de saída. Os vasos epigástricos inferiores separam a indireta (lateral) da direta (medial); o ligamento inguinal separa as duas da femoral (abaixo).

Direta, indireta, femoral: como separar e o que muda

A indireta é lateral aos vasos epigástricos inferiores, entra pelo anel profundo e caminha dentro do funículo. Tem origem congênita, na persistência do conduto peritoniovaginal, e é a mais comum em ambos os sexos e em todas as faixas etárias. É a que desce ao escroto.

A direta é medial aos vasos, sai pelo triângulo de Hesselbach empurrando a fáscia transversalis, é adquirida e degenerativa, típica do homem mais velho. Tem colo largo, e colo largo encarcera pouco. Como regra prática, não desce ao escroto.

A femoral está abaixo do ligamento inguinal, no canal femoral, medial à veia femoral. É cerca de 4 vezes mais frequente em mulheres do que em homens, segundo a SBH. Isso não significa que seja a hérnia mais comum da mulher — a hérnia mais frequente na mulher continua sendo a inguinal indireta. O que a femoral tem de particular é o comportamento, não a frequência.

As manobras clássicas de exame físico para separar direta de indireta (compressão do anel profundo, dedo invaginando o canal) têm acurácia baixa. E, mais importante que isso: não mudam a conduta. Direta e indireta são operadas do mesmo jeito, com a mesma tela, no mesmo tempo cirúrgico. A distinção que realmente muda conduta é inguinal contra femoral, porque a femoral opera com prioridade e não entra em espera vigiada.

Duas classificações caem. A da Sociedade Europeia de Hérnia (EHS) codifica sítio e tamanho: letra L para lateral (indireta), M para medial (direta) e F para femoral; número 1 para orifício abaixo de 1,5 cm, 2 para 1,5 a 3 cm e 3 para acima de 3 cm ou múltipla; e sufixo indicando primária ou recidivada. Uma M3, portanto, é uma direta com anel maior que 3 cm — e é justamente a situação em que se recomenda fixar a tela na TEP e na TAPP. A de Nyhus é a que mais aparece em prova brasileira: tipo I é indireta com anel profundo normal; tipo II é indireta com anel alargado e assoalho íntegro; tipo IIIA é direta; tipo IIIB é indireta grande que já compromete a parede posterior, incluindo as escrotais, as deslizantes e a hérnia em pantalona; tipo IIIC é femoral; e tipo IV é recidivada, com os subtipos A a D para direta, indireta, femoral e mista.

O diagnóstico é clínico. Ultrassonografia e tomografia entram em três situações: dor inguinal sem abaulamento palpável, paciente obeso ou já operado em que o exame físico não conclui, e suspeita de complicação. Fora disso, imagem não acrescenta.

Por que a femoral é a hérnia perigosa

Os números do Registro Sueco de Hérnia fecham essa discussão. Das hérnias femorais operadas, 35,9% foram operações de urgência, contra 4,9% das inguinais. Entre as femorais de urgência, 22,7% precisaram de ressecção intestinal. A operação femoral de urgência associou-se a mortalidade 10 vezes maior que a da população geral, enquanto a femoral eletiva não teve excesso de mortalidade nenhum. Mulheres chegaram à urgência mais que homens: 40,6% contra 28,1%. E o WSES identifica a hérnia femoral como fator independente de necessidade de ressecção intestinal na hérnia inguinocrural encarcerada, com razão de chances de 8,31.

A explicação é a anatomia da seção anterior: um anel estreito com três paredes fibrosas rígidas não cede quando a alça edemacia. O que entra e incha não sai, e a compressão venosa vira compressão arterial em poucas horas.

Há um agravante clínico. A femoral costuma ser pequena, em paciente idosa e frequentemente magra, e passa despercebida no exame de rotina. Ela não se apresenta como abaulamento incômodo; ela se apresenta como obstrução intestinal. Toda obstrução de delgado em paciente sem laparotomia prévia obriga a examinar dirigidamente as duas regiões inguinocrurais antes de qualquer outra hipótese — hérnia é a primeira causa de obstrução em abdome virgem de cirurgia, e brida sem cirurgia prévia não existe.

A consequência prática cabe em uma frase: hérnia femoral diagnosticada é hérnia femoral operada, com prioridade. Não há espaço para conduta expectante.

Quem opera, quando, e o que fazer com a assintomática

Hérnia sintomática opera. Não há discussão, não há alternativa clínica, não há cinta que trate hérnia — a faixa herniária não corrige o defeito, não previne encarceramento e ainda pode macerar a pele e dificultar o reparo.

A pergunta real é a hérnia inguinal assintomática ou oligossintomática do homem. Os ensaios que sustentam a espera vigiada mostram que ela é segura: o risco de evento agudo é de 0,2 por 100 pessoas-ano e, em 5 anos de seguimento, apenas 2,4% operaram por acidente herniário. Mas os mesmos estudos mostram que ela adia, não evita: cerca de 50% cruzam para a cirurgia em 5 anos e 68% em 10 anos, quase sempre porque desenvolveram sintoma. A SBH é ainda mais direta e estima que aproximadamente 70% ficam sintomáticos em 2 anos.

A conduta que decorre desses números: no homem assintomático com baixo risco cirúrgico, o reparo eletivo é oferecido, porque ele vai operar de qualquer modo e é melhor operar mais jovem, eletivo e sem urgência do que anos depois com mais comorbidade. A espera vigiada fica para o paciente comórbido ou de alto risco anestésico, e nesse caso os sinais de encarceramento e o serviço de referência são orientados explicitamente.

Três exceções fecham o assunto. Hérnia femoral não espera, em nenhum sexo, em nenhuma idade. Mulher com hérnia inguinocrural opera, e opera por via posterior, pelo motivo detalhado adiante. E dor inguinal sem abaulamento não é indicação de operação exploradora: confirme por imagem e descarte as outras causas de dor inguinal antes de indicar reparo, porque operar dor sem hérnia costuma produzir dor pós-operatória sem melhora.

Técnica: o que escolher e por quê

Tela é a regra. A recomendação é forte em todos os documentos, brasileiros e internacionais, porque reduz recidiva de forma consistente. A atualização de 2023 do HerniaSurge apenas abriu uma janela estreita: reparo sem tela pode ser sugerido após seleção cuidadosa e decisão compartilhada, se houver expertise. Não é a conduta padrão.

O Lichtenstein é o reparo anterior de referência: tela plana sobre o assoalho, fixada ao ligamento inguinal e à aponeurose do oblíquo externo, com abertura para o funículo. A SBH registra recidiva abaixo de 4% em cirurgiões de menor volume e abaixo de 2% em serviços de alto volume. O detalhe técnico que cai: a tela deve ter no mínimo 6 por 14 cm e ultrapassar o tubérculo púbico medialmente em 2 cm. Isso não é capricho — a recidiva mais comum do Lichtenstein é justamente junto ao púbis, e ela nasce de tela curta.

As vias laparoendoscópicas, TEP (totalmente extraperitoneal) e TAPP (transabdominal pré-peritoneal), cobrem todo o orifício miopectíneo com uma única tela, que a SBH recomenda com no mínimo 15 cm no eixo longitudinal e 10 a 12 cm no vertical. Entregam menos dor no pós-operatório precoce, menos dor crônica e retorno mais rápido. Exigem anestesia geral e curva de aprendizado longa: cerca de 50 a 100 casos para a TAPP e 100 a 250 para a TEP.

Há cenários em que a via posterior é claramente superior e devem ser decorados: hérnia bilateral, hérnia recidivada após reparo anterior, mulher com hérnia inguinocrural e hérnia femoral. Nos quatro, a razão é a mesma — uma via que expõe o orifício miopectíneo inteiro em um campo só.

Na recidivada vale a regra da troca de plano, recomendada tanto pelo HerniaSurge quanto pela SBH: reparo anterior prévio, aborde por trás; reparo posterior prévio, aborde por diante. Operar duas vezes no mesmo plano cicatricial aumenta lesão de estruturas e dor crônica.

Entre as técnicas sem tela, a Shouldice é a melhor: reparo da parede posterior em planos, com fio monofilamentar. Fica reservada a quem domina a técnica e a cenários em que a tela não é opção; recidiva mais que o Lichtenstein. A McVay, ou reparo do ligamento de Cooper, sutura o tendão conjunto ao ligamento pectíneo e é o único reparo aberto sem tela que fecha também o espaço femoral — por isso foi historicamente a escolha para hérnia femoral e para campo contaminado, em que a tela sintética está proscrita. Exige incisão relaxante na bainha do reto para não ficar sob tensão, e é justamente essa tensão que explica sua recidiva maior que a do Lichtenstein. Hoje tem papel restrito, mas é a técnica que a questão está descrevendo quando pede reparo sem tela que corrija também o defeito femoral.

Detalhes que a prova gosta: na TEP e na TAPP, a fixação da tela é dispensável na maioria dos casos, e recomenda-se fixar nas M3 (direta grande, acima de 3 cm) para reduzir recidiva; quando fixar, prefira cola ou selante a grampo, porque grampo dói mais. Antibioticoprofilaxia não está indicada de rotina no reparo eletivo, aberto ou videoendoscópico, em paciente de risco médio e ambiente de baixo risco — a SBH abre exceção para asa 3 e 4, com cefalosporina de primeira geração. Tricotomia não muda taxa de infecção; se for feita, que seja imediatamente antes, com máquina de corte. Para inguinotomia, a melhor anestesia é a local, desde que o cirurgião domine a técnica, por ter menos complicações imediatas.

Retorno às atividades: o paciente retoma a vida normal assim que não sentir dor ao fazê-la, o que costuma acontecer entre 2 e 7 dias. Peso acima de 10 kg e exercício intenso ficam suspensos por 4 a 6 semanas. Não existe base para atestado padronizado de 30 dias nem para repouso prolongado.

E a complicação que mais importa não é a recidiva: é a dor crônica. Dor moderada a grave persistindo por 3 meses ou mais ocorre em 10% a 12% dos operados. É o principal motivo pelo qual a atualização de 2023 do HerniaSurge elevou a via laparoendoscópica a recomendação forte na hérnia primária unilateral.

A urgência: encarcerada, estrangulada e a mão do plantonista

Três estados, três condutas. Redutível é a hérnia cujo conteúdo volta com pressão suave ou com o decúbito. Encarcerada é a irredutível sem comprometimento vascular — pode obstruir ou não. Estrangulada é a irredutível com isquemia do conteúdo. A terceira é a que mata, e a diferença entre a segunda e a terceira é clínica, não radiológica.

Os sinais que fazem suspeitar de estrangulamento: dor contínua e desproporcional ao tamanho da hérnia, abaulamento tenso e muito doloroso à palpação, eritema ou equimose da pele que o recobre, febre, taquicardia, sinais de irritação peritoneal, leucocitose. O WSES acrescenta, com grau 1C, que síndrome da resposta inflamatória sistêmica, achados de tomografia com contraste, lactato, creatinofosfoquinase e D-dímero predizem estrangulamento.

Vale conhecer o desempenho do exame de imagem para não se apoiar nele. O achado de realce parietal reduzido na tomografia tem sensibilidade de 56% e especificidade de 94%. Traduzindo: tomografia que mostra isquemia praticamente confirma, mas tomografia normal não exclui nada. Pedir imagem para decidir se opera um paciente que já tem sinais clínicos de estrangulamento só produz atraso.

A conduta na suspeita de estrangulamento é operação imediata, recomendação de grau 1C do WSES, com a observação de que atraso diagnóstico além de 24 horas aumenta significativamente a mortalidade. Ressuscitação volêmica, sonda nasogástrica e antibiótico correm em paralelo com a ida ao centro cirúrgico, não antes dela.

A redução manual, ou taxis, é permitida na hérnia encarcerada sem nenhum sinal de estrangulamento e com poucas horas de evolução. A técnica é analgesia, decúbito dorsal com Trendelenburg, compressa fria sobre a hérnia por alguns minutos e pressão suave, contínua e sustentada sobre o colo — nunca pressão brusca sobre o corpo da hérnia. Ela é formalmente proibida diante de qualquer sinal de estrangulamento, de peritonite ou de evolução prolongada, porque reduzir alça necrótica devolve intestino morto para dentro do abdome e cria peritonite fechada.

Existe uma armadilha específica com nome próprio: a redução em massa. O saco herniário inteiro retorna ao espaço pré-peritoneal levando junto a alça, que continua estrangulada no colo do saco. O abaulamento desaparece, o paciente parece aliviado, o plantonista comemora — e a alça segue isquêmica. Por isso taxis bem-sucedida não é alta. O paciente fica internado em observação, e dor persistente, obstrução ou piora depois da redução indicam laparoscopia diagnóstica, que o WSES recomenda com grau 2B justamente para avaliar viabilidade de alça após redução espontânea de hérnia inguinal estrangulada. Reduziu e evoluiu bem: o reparo com tela é feito na mesma internação, não em consulta eletiva daqui a meses, porque hérnia que encarcerou uma vez encarcera de novo.

Sobre usar tela na urgência, o WSES estratifica pela classificação de ferida do CDC. Classe I, limpa, com encarceramento sem estrangulamento e sem ressecção: tela sintética recomendada, grau 1A. Classe II, limpa-contaminada, o que inclui ressecção intestinal sem extravasamento grosseiro de conteúdo: tela sintética pode ser usada, sem aumento de morbidade de ferida em 30 dias e com menor recidiva, independentemente do tamanho do defeito, também grau 1A. Classes III e IV, contaminada e suja, com perfuração, peritonite ou abscesso: no paciente estável, reparo primário se o defeito for menor que 3 cm e, se a sutura direta não for factível, tela biológica (grau 2C); no paciente instável, tratamento aberto para prevenir síndrome compartimental abdominal. A via laparoscópica é aceitável no reparo de encarcerada na ausência de estrangulamento e sem suspeita de necessidade de ressecção; havendo essa suspeita, prefira o acesso pré-peritoneal aberto (grau 2C).

Duas apresentações merecem atenção porque enganam. A hérnia de Richter pinça apenas a borda antimesentérica da alça: a luz continua pérvia, o paciente elimina gases e fezes, não vomita, não distende — e o segmento pinçado necrosa do mesmo jeito. Ausência de obstrução não afasta estrangulamento, e a Richter é mais frequente justamente na femoral, de anel pequeno e rígido. A hérnia obturadora aparece na idosa magra e emagrecida, com obstrução intestinal sem massa palpável e dor irradiada para a face medial da coxa que piora com rotação interna do quadril, o sinal de Howship-Romberg. Completam a lista de epônimos de conteúdo a hérnia de Littre, que contém divertículo de Meckel, e a de Amyand, que contém o apêndice cecal dentro do saco inguinal.

Dois cortes esquemáticos do colo de uma hérnia: à esquerda, toda a circunferência da alça está presa no anel, com distensão a montante; à direita, apenas a borda antimesentérica está pinçada, com a luz intestinal livre.
À esquerda, o estrangulamento clássico, que obstrui. À direita, a hérnia de Richter: só a borda antimesentérica é pinçada, o paciente continua eliminando gases e fezes — e aquele segmento necrosa do mesmo jeito.
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Da massa inguinocrural à decisão

O algoritmo abaixo vale para qualquer hérnia da virilha e é sempre percorrido na mesma ordem: primeiro se reduz ou não, depois se há isquemia, e só então o que fazer com a mão. Inverter a ordem é como o candidato perde a questão.

  1. 1O abaulamento reduz com pressão suave ou em decúbito? Se sim, é redutível: programe reparo eletivo. Hérnia femoral, mesmo redutível, entra com prioridade alta e não em espera vigiada.
  2. 2Não reduz: procure ativamente sinais de estrangulamento — dor contínua desproporcional, hérnia tensa e muito dolorosa, eritema ou equimose da pele, febre, taquicardia, irritação peritoneal, leucocitose, lactato elevado.
  3. 3Algum sinal presente: centro cirúrgico imediato. Não tente reduzir. Não peça tomografia para decidir se opera — realce parietal reduzido tem sensibilidade de apenas 56%, e exame normal não exclui isquemia.
  4. 4Nenhum sinal e poucas horas de evolução: analgesia, Trendelenburg, compressa fria e taxis suave, contínua e sustentada sobre o colo do saco.
  5. 5Taxis falhou: cirurgia de urgência.
  6. 6Taxis funcionou: internar e observar. A redução em massa devolve o saco com a alça ainda estrangulada no colo, e o abaulamento desaparece enquanto a alça necrosa. Dor persistente, obstrução ou piora após a redução indicam laparoscopia diagnóstica.
  7. 7Evoluiu bem após a redução: reparo com tela na mesma internação, não em consulta eletiva meses depois.

Inguinal indireta

Lateral aos vasos epigástricos inferiores, entra pelo anel inguinal profundo e caminha dentro do funículo ou do ligamento redondo. Origem congênita. É a mais comum em ambos os sexos e em qualquer idade, e a única que alcança o escroto ou o grande lábio. EHS: L. Nyhus: I, II ou IIIB conforme o anel e a parede posterior.

Inguinal direta

Medial aos vasos epigástricos inferiores, empurra a fáscia transversalis pelo triângulo de Hesselbach — limitado pela borda lateral do reto, pelos vasos epigástricos inferiores e pelo ligamento inguinal. Adquirida, do homem mais velho. Colo largo, portanto encarcera pouco, e como regra não desce ao escroto. EHS: M. Nyhus: IIIA.

Femoral

Abaixo do ligamento inguinal, pelo canal femoral, medial à veia femoral, com o ligamento de Cooper atrás e o lacunar medialmente. Anel estreito e rígido em três lados. Cerca de 4 vezes mais frequente em mulheres. 35,9% são operadas de urgência contra 4,9% das inguinais, e 22,7% dessas urgências precisam de ressecção intestinal. Nunca entra em espera vigiada. EHS: F. Nyhus: IIIC.

Encarcerada e estrangulada

Encarcerada é irredutível sem isquemia; estrangulada é irredutível com isquemia. A diferença é clínica: dor desproporcional, hérnia tensa, eritema ou equimose da pele, febre, taquicardia, irritação peritoneal, leucocitose, lactato alto. Estrangulou, opera imediatamente (WSES 1C) e a taxis está proibida. Encarcerada limpa, sem sinal e com poucas horas, admite taxis — seguida de internação, nunca de alta.

TipoRelação com os vasos epigástricos inferioresOrifício e trajetoPerfil típicoOperação de urgência
Inguinal indiretaLateralAnel inguinal profundo, dentro do funículo ou do ligamento redondo; pode alcançar escroto ou grande lábioQualquer idade; a mais comum em ambos os sexosBaixa — 4,9% do conjunto das inguinais no registro sueco
Inguinal diretaMedialTriângulo de Hesselbach, empurrando a fáscia transversalis; colo largoHomem mais velho; adquirida, degenerativaMuito baixa — colo largo raramente encarcera
FemoralNão se aplica: está abaixo do ligamento inguinalCanal femoral, medial à veia femoral; colo estreito e rígido em três lados4 vezes mais frequente em mulheres; idosa, frequentemente magraAlta — 35,9%, com ressecção intestinal em 22,7% delas e mortalidade 10 vezes maior
ObturadoraNão se aplica: sai pelo canal obturadorCanal obturador, sob o músculo pectíneo; não é palpável na virilhaIdosa magra e emagrecida; sinal de Howship-RombergAlta — costuma se apresentar já como obstrução intestinal

Marco de superfície: a inguinal emerge acima e medial ao tubérculo púbico; a femoral, abaixo e lateral. Uma femoral volumosa pode cavalgar o ligamento inguinal e imitar inguinal — em mulher, na dúvida, trate como femoral.

Separar direta de indireta no exame físico não muda a conduta: as duas recebem o mesmo reparo. A distinção que muda conduta é inguinal contra femoral, porque a femoral opera com prioridade.

Obstrução de delgado em paciente sem laparotomia prévia obriga exame dirigido das duas regiões inguinocrurais antes de qualquer outra hipótese. Brida sem cirurgia prévia não existe.

O diagnóstico é clínico. Imagem entra em três situações: dor inguinal sem abaulamento, paciente obeso ou já operado, e suspeita de complicação.

Quatro cenários fecham para a via posterior nas duas diretrizes, brasileira e internacional: bilateral, recidivada após reparo anterior, mulher com hérnia inguinocrural e hérnia femoral.

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Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Conduta expectante na hérnia inguinal assintomática do homem

HerniaSurge 2018: a espera vigiada é segura

O risco de evento agudo é de 0,2 por 100 pessoas-ano e, em 5 anos, apenas 2,4% dos pacientes operaram por acidente herniário. A espera vigiada é explicitamente considerada segura no homem assintomático ou oligossintomático, com evidência de alta qualidade.

HerniaSurge Group, International guidelines for groin hernia management, Hernia 2018.

SBH 2019: cerca de 70% ficam sintomáticos em 2 anos

A observação é alternativa segura sobretudo para o homem com comorbidades, mas cerca de 70% desenvolvem sintomas em 2 anos e acabam precisando de cirurgia. Os próprios ensaios de espera vigiada mostram cruzamento para a operação em cerca de 50% em 5 anos e 68% em 10 anos.

Orientações da Sociedade Brasileira de Hérnia, Rev Col Bras Cir 2019, com dados de cruzamento do HerniaSurge 2018.

Na prova

As duas leituras não se contradizem: a espera é segura, mas adia. O recorte do avaliador aparece antes das alternativas. Enunciado que cita nominalmente o HerniaSurge, ou que usa o vocabulário 'espera vigiada', 'evento agudo', 'oligossintomático', está no mundo em que chamar a observação de segura é descrição fiel do documento. Enunciado que descreve homem jovem, ASA 1, trabalhador braçal, com fila cirúrgica e linguagem de 'oferecer o reparo eletivo' está no mundo da diretriz brasileira, que insiste no cruzamento para cirurgia. Cenário de UBS e SUS empurra para a observação por fila e disponibilidade de sala — isso é restrição de recurso, não superioridade de evidência, e vale identificar como tal. O distrator que não existe em nenhum dos dois mundos é a cinta herniária: nenhum documento a admite como tratamento. E há um limite compartilhado pelas duas fontes: hérnia femoral e mulher com hérnia inguinocrural ficam fora da espera vigiada, de modo que alternativa que estenda a expectante a esses dois casos é incompatível com ambas. Prova oficial do MEC tende a conduta SUS; nas demais bancas, o recorte se revela pelo que as alternativas oferecem.

Primeira escolha técnica na hérnia inguinal primária unilateral

SBH 2019: Lichtenstein como reparo aberto de referência

O Lichtenstein é o reparo aberto de referência, com recidiva abaixo de 4% em cirurgiões de menor volume e abaixo de 2% em serviços de alto volume. As vias videolaparoscópicas são igualmente seguras e eficazes e oferecem menos dor precoce, mas custam mais e têm curva de aprendizado longa (50 a 100 casos na TAPP, 100 a 250 na TEP).

Orientações da Sociedade Brasileira de Hérnia, Rev Col Bras Cir 2019.

HerniaSurge 2023: via laparoendoscópica passou a recomendação forte

Na atualização de 2023, a recomendação da via laparoendoscópica na hérnia primária unilateral, em qualquer sexo, subiu de fraca para forte, com 84% de consenso, por menor incidência de dor pós-operatória e de dor crônica — condicionada à disponibilidade de cirurgião com expertise específica e de recursos.

Stabilini C, van Veenendaal N, et al., Update of the international HerniaSurge guidelines, BJS Open 2023.

Na prova

A divergência é menor do que parece, porque o próprio documento de 2023 condiciona a recomendação forte a expertise e recursos — e é exatamente essa condicionante que costuma não se cumprir na rede pública brasileira, por custo de material e de vídeo e por curva de aprendizado. Dizer isso é informação econômica, não juízo de qualidade. Como identificar o recorte: enunciado que descreve hospital terciário, cirurgião com experiência em videocirurgia, discussão de dor crônica e retorno precoce ao trabalho está lendo a atualização internacional; enunciado que descreve hospital geral, mutirão, anestesia local, custo e material disponível está lendo o documento brasileiro. O distrator que só existe em um dos mundos é o reparo sem tela (Shouldice), que aparece quando o cenário nega tela — em ambiente com tela disponível, ele não é a leitura de nenhuma das duas fontes. E os quatro cenários de consenso entre elas (bilateral, recidivada após reparo anterior, mulher e femoral) não sinalizam divergência nenhuma: nos quatro, as duas apontam para a via posterior.

Tela sintética em campo com ressecção intestinal na hérnia estrangulada

WSES 2017: tela sintética também em ferida limpa-contaminada (1A)

Em ferida classe II do CDC (limpa-contaminada), o que inclui ressecção intestinal sem extravasamento grosseiro, o reparo com tela sintética pode ser realizado sem aumento da morbidade de ferida em 30 dias e com risco significativamente menor de recidiva, independentemente do tamanho do defeito. Recomendação de grau 1A.

WSES, 2017 update of the guidelines for emergency repair of complicated abdominal wall hernias, World J Emerg Surg 2017.

SBH 2019: tela apenas em ferida limpa

Telas devem ser utilizadas em cirurgia de hérnia encarcerada ou estrangulada quando a ferida operatória for considerada limpa. Havendo contaminação, com perfuração intestinal, peritonite ou abscesso, o uso de telas deve ser evitado.

Orientações da Sociedade Brasileira de Hérnia, Rev Col Bras Cir 2019.

Na prova

O recorte se lê no vocabulário do enunciado. Questão que descreve o campo pela classificação de ferida do CDC, que usa o termo 'limpa-contaminada' e que menciona ressecção sem extravasamento grosseiro está reproduzindo o documento de urgência do WSES, em que a faixa de tela sintética é mais larga. Questão que cita nominalmente a Sociedade Brasileira de Hérnia, ou que descreve o campo apenas como 'contaminado' sem estratificar, está no documento nacional, mais restritivo. O distrator que só existe em um dos mundos é a tela biológica: ela pertence à estratificação internacional e é material caro e de disponibilidade limitada na rede pública, o que explica por que a saída descrita no Brasil para campo sujo com defeito pequeno costuma ser o reparo primário abaixo de 3 cm. Duas balizas valem nas duas leituras: peritonite fecal estabelecida nunca comporta tela sintética, e paciente instável recebe tratamento aberto. Prova oficial do MEC tende a conduta SUS; nas demais bancas, o documento que a banca está seguindo aparece no vocabulário antes de aparecer no gabarito.

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Caso resolvido

Mulher de 74 anos, magra, sem cirurgia abdominal prévia, chega ao pronto-socorro com dor abdominal em cólica há 18 horas, vômitos e parada de eliminação de gases e fezes há 12 horas. Abdome distendido, timpânico, ruídos hidroaéreos aumentados, sem descompressão dolorosa. Radiografia de abdome mostra alças de delgado distendidas com níveis hidroaéreos. Ao exame dirigido, palpa-se massa endurecida de 2 cm, muito dolorosa e irredutível, abaixo e lateralmente ao tubérculo púbico à direita, com discreto eritema da pele. FC 104 bpm, PA 118 por 70 mmHg, temperatura axilar 37,8 graus, leucócitos 15.400 por mm3, lactato 2,6 mmol/L.
achado
Obstrução de delgado em idosa sem laparotomia prévia. A causa mais provável é hérnia, não brida — brida exige cirurgia anterior. O exame dirigido das duas regiões inguinocrurais é obrigatório antes de qualquer outra hipótese, e foi ele que fez o diagnóstico.
achado
Massa irredutível abaixo e lateral ao tubérculo púbico: hérnia femoral encarcerada. Em mulher, a femoral é cerca de 4 vezes mais frequente do que em homem, e é a hérnia que mais chega ao centro cirúrgico de urgência — 35,9% das femorais operadas, contra 4,9% das inguinais.
achado
Taquicardia, febre baixa, eritema da pele, leucocitose e lactato de 2,6 configuram suspeita de estrangulamento. Não é preciso ter todos: qualquer combinação desses sinais já muda a conduta.
conduta
Taxis está proibida. Reduzir uma alça já isquêmica devolve intestino inviável para dentro do abdome e cria peritonite fechada, sem o alívio de ter tirado a alça de dentro do anel.
conduta
Não peça tomografia para decidir se opera. O realce parietal reduzido tem sensibilidade de apenas 56%: um exame normal não exclui isquemia e só consome tempo. A indicação cirúrgica já está posta pela clínica.
conduta
Ressuscitação volêmica, sonda nasogástrica, antibiótico e operação imediata, recomendação de grau 1C do WSES. Atraso além de 24 horas aumenta significativamente a mortalidade, e esta paciente já está com 18 horas de evolução.
conduta
Acesso preferencial: inguinotomia ou via pré-peritoneal aberta, que permite ampliar o anel, inspecionar a alça e ressecar se necessário. O WSES desaconselha começar por laparoscopia quando há suspeita de necessidade de ressecção.
conduta
Alça viável e campo limpo (CDC I): tela sintética, grau 1A. Ressecção com anastomose e sem extravasamento grosseiro (CDC II): tela sintética ainda admitida, grau 1A. Peritonite fecal estabelecida (CDC III ou IV): reparo primário se o defeito for menor que 3 cm ou tela biológica; paciente instável recebe tratamento aberto.
conduta
O orifício femoral é corrigido no mesmo tempo cirúrgico. Não existe hérnia femoral operada de urgência que sai da sala sem o defeito fechado.
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Agora feche você

Homem de 38 anos, pedreiro, com abaulamento inguinal direito conhecido há 2 anos que sempre reduzia espontaneamente ao deitar. Há 5 horas, após levantar peso no trabalho, o abaulamento deixou de reduzir. Refere dor local moderada, sem vômitos, eliminando gases normalmente. Ao exame: massa inguinal de 5 cm acima e medialmente ao tubérculo púbico, dolorosa à palpação, sem endurecimento pétreo, pele de coloração normal, sem eritema. Abdome flácido, sem distensão, sem descompressão dolorosa, ruídos hidroaéreos presentes. FC 82 bpm, PA 126 por 78 mmHg, afebril. Leucócitos 9.100 por mm3, lactato 1,2 mmol/L.
achado
Hérnia inguinal previamente redutível que se tornou irredutível há 5 horas, desencadeada por esforço. Isso é encarceramento.
achado
Localização acima e medial ao tubérculo púbico confirma que é inguinal, e não femoral.
achado
Ausência de eritema, de febre, de taquicardia, de irritação peritoneal, de distensão, de leucocitose e de lactato elevado. Não há nenhum sinal de estrangulamento, e a evolução é curta.
conduta
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Onde a banca derruba

  1. 1Achar que hérnia que sumiu é hérnia resolvida Na redução em massa, o saco herniário volta inteiro para o espaço pré-peritoneal levando junto a alça, que continua estrangulada no colo. O abaulamento desaparece e o paciente melhora aparentemente, enquanto o intestino necrosa. Taxis bem-sucedida interna e observa; dor persistente ou obstrução depois da redução indica laparoscopia diagnóstica.
  2. 2Confiar em tomografia normal para excluir estrangulamento O realce parietal reduzido na tomografia com contraste tem especificidade de 94%, mas sensibilidade de apenas 56%. Exame que mostra praticamente confirma; exame que não mostra não exclui nada. Com sinais clínicos de estrangulamento, a indicação cirúrgica já está feita e pedir imagem só atrasa — e atraso acima de 24 horas aumenta a mortalidade.
  3. 3Exigir obstrução para diagnosticar estrangulamento Na hérnia de Richter apenas a borda antimesentérica da alça fica pinçada no anel. A luz permanece pérvia, então o paciente elimina gases e fezes, não vomita e não distende — e o segmento pinçado necrosa igual. É mais frequente na femoral, cujo anel é pequeno e rígido. Hérnia pequena, tensa e desproporcionalmente dolorosa em idosa é indicação cirúrgica, não alta.
  4. 4Gastar o exame físico separando direta de indireta As manobras têm acurácia baixa e, sobretudo, não mudam nada: direta e indireta recebem o mesmo reparo, com a mesma tela, no mesmo tempo cirúrgico. A distinção que muda conduta é inguinal contra femoral — porque a femoral opera com prioridade, nunca entra em espera vigiada e, na mulher, indica via posterior.
  5. 5Tratar toda hérnia complicada como contraindicação absoluta à tela A regra do WSES é por classe de ferida, não pelo rótulo de encarcerada ou estrangulada. Ferida limpa e limpa-contaminada, inclusive com ressecção intestinal sem extravasamento grosseiro, admitem tela sintética com grau 1A. Só campo francamente contaminado ou sujo proíbe: aí é reparo primário se o defeito for menor que 3 cm, ou tela biológica.
  6. 6Prescrever repouso de 30 dias depois de herniorrafia eletiva A orientação é retomar as atividades assim que elas não doerem, o que acontece tipicamente entre 2 e 7 dias. A única restrição com prazo é peso acima de 10 kg e exercício intenso, por 4 a 6 semanas. Repouso prolongado não reduz recidiva e atrasa o retorno ao trabalho sem benefício.
  7. 7Operar dor inguinal sem hérnia Dor inguinal sem abaulamento palpável exige confirmação por imagem e exclusão de outras causas antes de qualquer indicação cirúrgica. Explorar sem hérnia documentada troca uma dor por outra: dor crônica moderada a grave depois de reparo inguinal ocorre em 10% a 12% dos operados e é a complicação mais relevante da cirurgia eletiva, mais que a recidiva.
  8. 8Usar tela curta no Lichtenstein A recidiva mais comum do Lichtenstein é junto ao púbis, e ela nasce de tela que não chega lá. A tela deve ter no mínimo 6 por 14 cm e ultrapassar o tubérculo púbico medialmente em 2 cm. Nas vias videoendoscópicas o equivalente é tela de pelo menos 15 cm no eixo longitudinal e 10 a 12 cm no vertical, para cobrir o orifício miopectíneo inteiro.
  9. 9Esquecer que existe reparo aberto que fecha o espaço femoral Quando o cenário proíbe tela sintética — campo contaminado ou sujo — e o defeito é femoral, a técnica que resolve os dois problemas é a McVay, que sutura o tendão conjunto ao ligamento pectíneo (de Cooper) e fecha também o canal femoral. Shouldice repara a parede posterior, mas não o espaço femoral. A McVay exige incisão relaxante na bainha do reto, sob pena de ficar sob tensão e recidivar.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Hérnia inguinal redutível e assintomática tem tratamento cirúrgico eletivo (herniorrafia) via encaminhamento para o cirurgião — não há urgência sem encarceramento/estrangulamento. Redução manual de urgência só se aplica a hérnia encarcerada, ausente aqui. Laparotomia de urgência Inadequada: sem complicação. Cinta abdominal não é tratamento definitivo e não previne complicações.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Refaça de cabeça os três limites do triângulo de Hesselbach e os quatro limites do canal femoral, e diga em voz alta o que separa indireta, direta e femoral em relação aos vasos epigástricos inferiores e ao ligamento inguinal. Depois responda sem consultar: quais sinais proíbem a taxis, e o que se faz com o paciente cuja taxis deu certo.

em 30 dias

Reconstrua os números de decisão: 35,9% de urgência na femoral contra 4,9% na inguinal, com ressecção intestinal em 22,7%; 0,2 evento agudo por 100 pessoas-ano na espera vigiada, com 50% de cruzamento em 5 anos e 68% em 10; recidiva do Lichtenstein abaixo de 2% em alto volume; tela mínima de 6 por 14 cm ultrapassando o púbis em 2 cm; dor crônica em 10% a 12%. Depois percorra a regra de tela na urgência por classe de ferida do CDC, do limpo ao sujo, diga os quatro cenários que fecham para via posterior e explique por que a hérnia de Richter estrangula sem obstruir.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Idosa de 76 anos, magra, chega ao pronto-socorro com dor abdominal em cólica, vômitos e parada de eliminação de gases há 16 horas. Nunca operou o abdome. O abdome está distendido e timpânico, e a radiografia mostra níveis hidroaéreos em delgado. Conduza a anamnese, faça o exame físico dirigido que fecha o diagnóstico em menos de um minuto, decida se essa hérnia pode ser reduzida à beira do leito e justifique o tempo até o centro cirúrgico. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Hérnia inguinal e femoral — Preparatório para provas | OsceLabs