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Hérnias ventrais

A hérnia da virilha se decide pela anatomia de um orifício. A ventral se decide por três medidas: onde está o defeito, quantos centímetros ele tem de largura e quanto de abdome mora fora do abdome. Dessas três medidas saem a técnica, o preparo e o prognóstico.

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Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Homem, 55 anos, submetido a laparotomia mediana por peritonite há 2 anos, procura ambulatório queixando-se de abaulamento na linha média do abdome sobre a cicatriz cirúrgica, que aumenta ao tossir e ao esforço e desaparece quando se deita. Nega dor, náuseas, vômitos ou alteração do hábito intestinal. Ao exame, palpa-se falha na aponeurose ao longo da cicatriz, com conteúdo facilmente redutível, sem sinais inflamatórios. Qual é o diagnóstico?

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Como esse tema cai

Hérnia ventral é toda hérnia da parede abdominal anterior fora da virilha. Divide-se em dois grupos com etiologias diferentes: as primárias, que saem por pontos de fragilidade que já existem (umbilical, epigástrica, de Spiegel, lombar), e a incisional, que sai por onde alguém já cortou. A incisional domina o assunto porque é frequente, é cara, recidiva e é a única que a equipe cirúrgica cria.

A prova cobra este tema em três camadas. A primeira é de nomenclatura: a classificação da Sociedade Europeia de Hérnia (EHS), que localiza o defeito (M1 a M5 na linha média, L1 a L4 lateralmente) e mede a largura (W1, W2, W3). A segunda é de técnica: tela sim, em qual plano, e por que fechar a linha média em vez de fazer ponte com a tela. A terceira é de contexto: a hérnia umbilical da criança, que quase sempre fecha sozinha, e a do cirrótico com ascite, que é uma doença diferente com números próprios.

Há um erro de raciocínio que atravessa o tema todo e vale antecipar: julgar a hérnia pelo tamanho do abaulamento. O que decide técnica e preparo é a largura do defeito aponeurótico e a proporção entre o volume do saco e o volume da cavidade — e defeito estreito pode carregar saco enorme. Abaulamento é o que o paciente mostra; defeito é o que a tomografia mede.

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O que muda decisão

A família das ventrais, e por que a incisional domina

Hérnia incisional aparece em 12,8% dos pacientes 2 anos depois de uma incisão mediana — número ponderado da diretriz de fechamento de parede das sociedades europeia e americana. A revisão brasileira do Colégio Brasileiro de Cirurgiões estima prevalência de até 5% na população geral e de 4% a 15% entre os operados por laparotomia. Seja qual for o recorte, é a complicação tardia mais frequente da laparotomia e um problema de saúde pública com custo alto e repetido, porque recidiva.

Os fatores de risco se repetem em todas as séries e vale saber separá-los em dois grupos, porque a prova gosta da distinção. Os do paciente: obesidade, tabagismo, diabetes descompensado, desnutrição, doença pulmonar obstrutiva crônica, uso de corticoide, doença do tecido conjuntivo, idade avançada e aneurisma de aorta abdominal (a associação com colagenopatia é tão forte que o aneurisma virou população-alvo de tela profilática). Os do ato cirúrgico: infecção de sítio cirúrgico, incisão mediana, técnica inadequada de fechamento aponeurótico, reoperação e emergência.

As primárias têm outra história. A umbilical do adulto é adquirida, ligada a obesidade, gravidez, ascite e diástase dos retos, e é comuníssima: procurada por ultrassonografia, aparece em até 25% da população. A epigástrica sai pela linha alba entre o apêndice xifoide e a cicatriz umbilical, costuma ser pequena e frequentemente contém só gordura pré-peritoneal. A de Spiegel sai pela linha semilunar e é rara e traiçoeira. A lombar, mais rara ainda, sai pelos trígonos de Grynfeltt (superior) ou de Petit (inferior).

Um alerta de vocabulário que cai: diástase dos retos não é hérnia. Não há defeito aponeurótico, não há anel, não encarcera e não é indicação cirúrgica por si. É afastamento das bainhas dos retos com linha alba íntegra, porém alargada. Ela importa aqui por dois motivos: é fator de risco de hérnia umbilical e é fator de risco de recidiva depois do reparo com sutura simples.

A linguagem da EHS: onde está e quantos centímetros tem

A classificação da EHS de 2009 é a linguagem comum das hérnias ventrais e cai literalmente. Para as incisionais, a parede é dividida em zonas. Na linha média: M1 subxifoide, do apêndice xifoide até 3 cm caudalmente; M2 epigástrica, de 3 cm abaixo do xifoide até 3 cm acima da cicatriz umbilical; M3 umbilical, de 3 cm acima a 3 cm abaixo da cicatriz; M4 infraumbilical, de 3 cm abaixo da cicatriz até 3 cm acima do púbis; M5 suprapúbica, do púbis até 3 cm cranialmente. Lateralmente: L1 subcostal, L2 flanco, L3 ilíaca e L4 lombar.

O segundo eixo é a largura, e é ele que muda a conduta. W1 é defeito com menos de 4 cm; W2, de 4 a 10 cm; W3, 10 cm ou mais. Largura tem definição exata: a maior distância horizontal entre as margens laterais do defeito. Não é o comprimento da cicatriz, não é o diâmetro do abaulamento e não é o volume do saco. Quando há vários orifícios na mesma cicatriz, a largura é medida entre as bordas mais laterais do conjunto, não de um buraco só. A classificação registra ainda se a hérnia é primária ou recidivada.

Para as hérnias primárias, o mesmo documento usa outra régua: localização mediana (epigástrica e umbilical) ou lateral (Spiegel e lombar), e diâmetro pequeno abaixo de 2 cm, médio de 2 a 4 cm e grande acima de 4 cm.

Vale conhecer também a classificação SWR de Chevrel e Rath, ainda citada no Brasil, que combina sítio (M ou L), largura (W1 abaixo de 5 cm, W2 de 5 a 10, W3 de 10 a 15 e W4 acima de 15) e recidiva (A ou B). Ela não substituiu a da EHS, mas explica por que a mesma hérnia pode receber rótulos W diferentes em textos distintos: os pontos de corte não são os mesmos. Quando a questão trouxer o número em centímetros, você classifica pela régua que ela nomear.

Por que isso importa na prática, e não só na prova: W1 e W2 são o território da diretriz de hérnia mediana da EHS, em que a linha média fecha sem técnica avançada e o problema é escolher o plano da tela. W3, ou defeito com mais de 8 cm de largura, é o território em que a linha média pode não fechar — e aí o planejamento muda de natureza.

Esquema frontal da parede abdominal dividido em uma faixa mediana com cinco zonas empilhadas, centrada na cicatriz umbilical, e colunas laterais com quatro zonas de cada lado.
O mapa da EHS. Na faixa mediana, de cima para baixo: subxifoide, epigástrica, umbilical, infraumbilical e suprapúbica. Nas colunas laterais, de cima para baixo: subcostal, flanco, ilíaca e lombar.

Prevenção: a hérnia incisional nasce no fechamento da laparotomia

Esta seção existe porque a diretriz de fechamento de parede das sociedades europeia e americana transformou o fechamento da laparotomia em conteúdo cobrável — e porque é o único ponto do tema em que dá para evitar a doença em vez de tratá-la.

A primeira decisão é a incisão. A recomendação é evitar a mediana quando houver alternativa, inclusive para retirada de peça cirúrgica: o sítio mediano foi o de maior risco de hérnia entre os locais de extração, com razão de chances de 4,1. E a via laparoscópica reduz o desfecho na origem: 4,3% de hérnia incisional contra 10,1% da cirurgia aberta.

A segunda é a técnica de sutura, e aqui os números são precisos. Small bites significa pegar de 5 a 9 mm da borda, incorporando só a aponeurose, com pontos a cada 5 mm, em sutura contínua com fio de absorção lenta, atingindo razão de pelo menos 4 para 1 entre o comprimento de fio gasto e o comprimento da ferida. O ensaio STITCH comparou essa técnica com a de pegadas largas e encontrou 5,6% de hérnia incisional em 1 ano contra 18,0%, além de menos infecção de sítio cirúrgico (5,2% contra 10,2%). Repare no que a técnica não é: não é dar pontos mais apertados. Pegada pequena com fio sobrando distribui tensão; pegada grande estrangula a aponeurose e é ela que corta.

A terceira é a tela profilática. Depois de laparotomia mediana eletiva em paciente de alto risco, a colocação de tela sintética permanente pode ser considerada — risco relativo de 0,35 para hérnia incisional (IC 95% 0,21 a 0,57). As duas populações em que os ensaios mostram o efeito mais claro são o aneurisma de aorta abdominal (22% de hérnia em 2 anos sem tela contra 6% com tela) e a obesidade (21% contra 6%). É recomendação fraca, com evidência de baixa qualidade — o que significa que a alternativa de prova que a apresenta como obrigatória em toda laparotomia está errada pelo excesso, e não pelo conceito.

Reparo da incisional: tela, plano e fechamento da linha média

Três decisões, nessa ordem: usar tela, escolher o plano, fechar a linha média.

Tela é regra, não recurso para a recidiva. A diretriz de hérnia incisional mediana da EHS faz recomendação forte para o reparo com tela, e o número é grande: recidiva de 11,8% com tela contra 30,4% com sutura simples, razão de chances de 0,31 (IC 95% 0,21 a 0,44). Ou seja, quase um em cada três reparos por sutura volta a herniar.

O plano é a decisão técnica central, e também tem recomendação forte: tela no plano retromuscular, termo que engloba o retrorretal e o pré-peritoneal e corresponde à técnica de Rives-Stoppa. Os números justificam por dois desfechos diferentes: recidiva de 2,1% no retrorretal contra 7,2% no onlay, e seroma de 13,8% contra 33,3%. O onlay é mais simples e mais barato, e por isso segue muito praticado — mas é o plano com pior desempenho nos dois eixos ao mesmo tempo, o que torna difícil defendê-lo por outro motivo que não a disponibilidade de material e de tempo cirúrgico.

A via pode ser aberta, laparoscópica ou robótica conforme o paciente, a hérnia e a experiência da equipe. Na comparação disponível, o reparo intraperitoneal laparoscópico (IPOM) recidivou 10% contra 6% do retrorretal aberto, diferença sem significância estatística (OR 0,62, IC 0,31 a 1,25). Traduzindo para a prova: o IPOM não é erro técnico, é opção sem superioridade demonstrada — e tela intraperitoneal exige barreira antiaderente, material caro, o que pesa no cenário público brasileiro.

Fechar a linha média é recomendação forte, e a ponte de tela (bridging, deixar o defeito aberto com a tela cobrindo o vão) deve ser evitada: recidiva de 4,2% com fechamento fascial contra 6,8% com ponte. Além do número, há a razão funcional — restaurar a linha média devolve à parede a função de conter, que é o que o paciente perdeu.

Por fim, o preparo, que na cirurgia eletiva de parede rende mais do que em quase qualquer outra operação: cessação de tabagismo com pelo menos 4 semanas de antecedência, controle glicêmico com alvo de HbA1c abaixo de 7,0% e perda de peso, com a maior parte dos serviços operando eletivamente com IMC abaixo de 30. E, para a hérnia incisional assintomática, a espera vigiada é defensável: o risco de acidente herniário agudo é de 1% no primeiro ano e 2,5% em 5 anos. Mas ela adia mais do que resolve — 21,9% cruzam para a cirurgia já em 3 meses e 32,7% em 4 anos.

Corte transversal da parede abdominal anterior mostrando as camadas da pele ao peritônio e três posições possíveis para a tela: sobre a aponeurose anterior, atrás do músculo reto e dentro da cavidade.
Onde a tela fica muda o resultado: no plano retromuscular a recidiva é de 2,1% e o seroma de 13,8%, contra 7,2% e 33,3% no onlay.

Quando a linha média não fecha: perda de domicílio e separação de componentes

Existe um ponto em que a hérnia deixa de ser um defeito a fechar e passa a ser um problema de volume. O nome disso é perda de domicílio: o conteúdo já não cabe no abdome, e forçá-lo de volta eleva a pressão intra-abdominal de forma aguda, com repercussão respiratória e hemodinâmica — a síndrome compartimental abdominal.

Como se antecipa isso? Não pelo abaulamento. A diretriz de hérnia mediana da EHS lista os preditores de necessidade de separação de componentes: largura de defeito acima de 8 cm, área do defeito acima de 164 cm2, razão entre a largura dos retos e a do defeito abaixo de 1,34 e índice de secção transversa acima de 0,146. A revisão brasileira do Colégio Brasileiro de Cirurgiões acrescenta as réguas volumétricas: no método de Tanaka, saco e cavidade são estimados como elipsoides pela tomografia (volume aproximadamente igual a 0,52 vezes os três diâmetros), e razão de 25% ou mais entre o conteúdo do saco e o conteúdo abdominal define perda de domicílio; pelo critério de Sabbagh, razão entre volume da hérnia e volume peritoneal abaixo de 20% prediz fechamento simples, e acima disso é preciso planejar relaxamento. A mesma revisão adverte que o tamanho isolado do defeito é preditor pouco confiável, porque defeito estreito pode conter saco volumoso.

A separação anterior de componentes, descrita por Ramirez, secciona a aponeurose do oblíquo externo lateralmente à linha semilunar e desliza o bloco muscular para a linha média. O ganho unilateral clássico é de 5 cm no epigástrio, 10 cm na cintura e 3 cm na região suprapúbica — por isso ela resolve bem o defeito da faixa média e resolve pouco o suprapúbico. O preço é o descolamento amplo do subcutâneo, com morbidade de ferida em torno de 20% na técnica clássica, reduzida a cerca de 2% nas variantes que poupam as perfurantes.

A separação posterior com liberação do músculo transverso do abdome (TAR) faz o relaxamento por dentro: abre a bainha posterior, secciona o transverso e estende o plano retromuscular lateralmente, criando um espaço contínuo e amplo que acomoda tela grande sem descolar a pele. É a técnica que reúne as duas coisas que a diretriz pede — fechamento da linha média e tela retromuscular — em defeitos que não fechariam de outro modo.

Quando nem isso basta, entram os adjuvantes de preparo descritos na literatura brasileira: pneumoperitônio progressivo pré-operatório, que dilata a cavidade em sessões antes da operação, e a toxina botulínica na musculatura lateral, que alonga e relaxa os flancos. Vale registrar que o WSES considera a separação de componentes uma opção útil e de baixo custo para grandes hérnias medianas da parede abdominal, com grau 1B — o que importa no cenário em que material caro não está disponível.

Umbilical: a da criança não é a do adulto, e a do cirrótico é outra doença

A hérnia umbilical da criança é um evento do desenvolvimento e quase sempre se resolve sozinha. Está presente em 15% a 23% dos recém-nascidos, chegando a 84% nos prematuros de 1.000 a 1.500 g e a 26,6% em crianças afro-americanas, e cai para 2% a 10% ao final do primeiro ano. Mais de 90% fecham espontaneamente até os 5 anos, e o fechamento pode ocorrer até bem mais tarde. O tamanho do anel prediz: defeito abaixo de 1 cm fecha com muito mais frequência do que o de 1,5 cm ou mais. O encarceramento é raro, entre 0,07% e 2,77%.

A conduta na criança assintomática é, portanto, observar. Opera-se quando o defeito persiste aos 5 anos, quando há protrusão volumosa que não melhorou até os 2 anos, e sempre que houver sintomas, encarceramento, erosão da pele, ascite ou diálise peritoneal. Encaminhar lactente assintomático ao cirurgião pediátrico é a conduta que a prova costuma marcar como erro.

No adulto, a lógica inverte: a hérnia umbilical é adquirida e não regride. As diretrizes conjunta europeia e americana recomendam tela para reduzir recidiva, com a ressalva honesta de que a evidência é fraca abaixo de 1 cm, faixa em que a sutura pode ser considerada em decisão compartilhada. O ensaio de referência, em defeitos de 1 a 4 cm, mostrou 4% de recidiva com tela plana pré-peritoneal contra 12% com sutura. Os detalhes técnicos que caem: tela plana no plano pré-peritoneal, com sobreposição de 3 cm nos defeitos de 1 a 4 cm; fechamento do defeito quando se usa tela plana; fio de absorção lenta ou inabsorvível, nunca de absorção rápida; antibiótico em dose única perioperatória quando há tela; e laparoscopia considerada nos defeitos acima de 4 cm ou em paciente com risco aumentado de infecção de ferida, aí com sobreposição de pelo menos 5 cm. Otimização: tabagismo suspenso por 4 a 6 semanas e perda de peso até IMC abaixo de 35.

O cirrótico com ascite é um capítulo à parte, e é o que mais cai. A hérnia umbilical aparece em cerca de 20% dos cirróticos com ascite, contra cerca de 2% da população adulta geral, porque a ascite mantém pressão intra-abdominal elevada de forma crônica. O erro clássico é adiar o reparo por medo de operar cirrótico e esperar a complicação — e a complicação aqui é grave: na hérnia umbilical rota, a mortalidade do manejo conservador fica entre 60% e 80%, contra 6% a 20% da herniorrafia de urgência.

A sequência que os números sustentam é outra. Primeiro se controla a ascite, porque é ela que determina o resultado: com ascite não controlada, a recidiva foi de 45% (22 de 49 pacientes); com ascite controlada, de 4% (2 de 47). Depois se opera eletivamente, com tela, que teve 2,7% de recidiva contra 14,2% sem tela, ao custo de mais complicação de ferida. E há uma exceção de agenda: se o transplante hepático está previsto para os próximos 3 a 6 meses, o reparo é feito durante o transplante. Sinais de que não dá mais para esperar: pele afilada, ulcerada ou com drenagem de ascite pela cicatriz — nesse ponto a rotura é questão de tempo.

Epigástrica, Spiegel e as que não se palpam

A hérnia epigástrica sai pela linha alba entre o apêndice xifoide e a cicatriz umbilical. Costuma ser pequena, frequentemente contém apenas gordura pré-peritoneal e é classicamente dolorosa de forma desproporcional ao tamanho, porque o anel estreito comprime a gordura herniada. Pode ser múltipla, o que explica a recidiva aparente de quem foi operado de um orifício e continua com outro ao lado. O reparo segue a mesma regra da umbilical: tela plana pré-peritoneal, com a mesma janela de decisão compartilhada nos defeitos abaixo de 1 cm.

A hérnia de Spiegel é rara — 0,12% a 2% das hérnias da parede abdominal — e merece atenção desproporcional à frequência por dois motivos. O primeiro é que não se palpa: ela sai pela linha semilunar, no nível ou abaixo da linha arqueada, e fica interparietal, sob a aponeurose íntegra do oblíquo externo, de modo que até metade dos casos passa despercebida ao exame físico. Paciente com dor localizada na borda lateral do reto, sem massa palpável, é a apresentação típica; a tomografia é o exame mais confiável. O segundo motivo é o comportamento: cerca de 27% encarceram, porque as bordas do defeito são rígidas. A consequência prática é direta — Spiegel diagnosticada é Spiegel operada, sem espera vigiada, e o reparo laparoscópico tem menor morbidade e menor tempo de internação.

As lombares completam o quadro: saem pelo trígono superior, de Grynfeltt, ou pelo inferior, de Petit. São raras, costumam se apresentar como abaulamento no flanco e podem ser confundidas com lipoma ou com abaulamento pós-traumático.

Uma nota sobre a ventral complicada, que segue a mesma lógica da hérnia da virilha. Encarcerada sem estrangulamento e sem suspeita de necessidade de ressecção admite abordagem laparoscópica; havendo essa suspeita, o acesso pré-peritoneal aberto é preferível (WSES, grau 2C). Quanto à tela, vale a estratificação por classe de ferida do CDC: sintética em ferida limpa e em limpa-contaminada, inclusive com ressecção intestinal (grau 1A nas duas); em campo contaminado ou sujo, reparo primário se o defeito for menor que 3 cm e tela biológica se a sutura não for factível (grau 2C), com tratamento aberto no paciente instável.

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Da hérnia ventral à técnica

O caminho é sempre o mesmo e tem três perguntas em ordem fixa: o paciente pode operar agora, onde está o defeito, e quantos centímetros ele tem de largura. As duas primeiras definem se há operação; a terceira define qual operação. Pular a medida da largura é o que faz o candidato escolher a técnica errada.

  1. 1Há encarceramento com sinais de estrangulamento (dor desproporcional, pele com eritema ou equimose, febre, taquicardia, irritação peritoneal, lactato alto)? Se sim, centro cirúrgico. A tela depois se decide pela classe de ferida do CDC, não pelo rótulo de encarcerada.
  2. 2Sem urgência: a hérnia é sintomática? Assintomática admite espera vigiada — acidente agudo de 1% no primeiro ano e 2,5% em 5 anos — com a informação honesta de que 21,9% cruzam para a cirurgia em 3 meses e 32,7% em 4 anos.
  3. 3Vai operar eletivo: otimize antes, porque é aqui que o preparo rende. Tabagismo suspenso por mais de 4 semanas, HbA1c abaixo de 7,0%, perda de peso (IMC abaixo de 30 na maioria dos serviços para a incisional; abaixo de 35 na umbilical e epigástrica).
  4. 4Classifique pela EHS: localização (M1 a M5 na linha média, L1 a L4 lateral) e largura, medida como a maior distância horizontal entre as margens do defeito. Peça tomografia quando a largura ou o volume mudarem o planejamento.
  5. 5Defeito abaixo de 4 cm (W1) ou de 4 a 10 cm (W2), com linha média fechável: tela em plano retromuscular (retrorretal ou pré-peritoneal, Rives-Stoppa) e fechamento do defeito. Sem ponte de tela.
  6. 6Defeito com 10 cm ou mais (W3), largura acima de 8 cm, ou volumetria com razão saco/cavidade de 25% ou mais: planeje relaxamento — separação posterior com liberação do transverso (TAR) ou separação anterior de componentes —, e considere adjuvantes de preparo como pneumoperitônio progressivo e toxina botulínica.
  7. 7Hérnia umbilical ou epigástrica primária: tela plana pré-peritoneal com 3 cm de sobreposição nos defeitos de 1 a 4 cm, fechando o defeito; abaixo de 1 cm a sutura entra em decisão compartilhada; acima de 4 cm ou com alto risco de ferida, considere a via laparoscópica com sobreposição de ao menos 5 cm.
  8. 8Contexto muda tudo em dois casos: criança com umbilical assintomática observa até os 4 a 5 anos; cirrótico com ascite controla a ascite primeiro e opera eletivo com tela — ou repara junto do transplante, se ele estiver previsto para 3 a 6 meses.

W1 — defeito abaixo de 4 cm

A faixa mais comum e a mais simples. A linha média fecha sem manobra adicional e o problema é só escolher o plano da tela: retromuscular, com fechamento do defeito. Na umbilical e na epigástrica primárias, o equivalente é a tela plana pré-peritoneal com 3 cm de sobreposição — e abaixo de 1 cm a sutura ainda cabe em decisão compartilhada.

W2 — defeito de 4 a 10 cm

Ainda no território da diretriz de hérnia mediana: tela retromuscular com recomendação forte e fechamento da linha média. É a faixa em que a escolha do plano mais pesa no resultado, porque o onlay recidiva 7,2% contra 2,1% do retrorretal e faz seroma em 33,3% contra 13,8%.

W3 — defeito de 10 cm ou mais

Fora do escopo da diretriz de hérnia mediana, que trata dos casos em que a linha média fecha sem técnica avançada. Aqui o planejamento vem antes da técnica: tomografia com medida de largura e volumetria, e preparo para relaxamento miofascial. Largura acima de 8 cm é o preditor mais usado de necessidade de separação de componentes.

Perda de domicílio

Critério de volume, não de largura: razão de 25% ou mais entre o conteúdo do saco e o conteúdo abdominal na volumetria de Tanaka; pelo critério de Sabbagh, razão abaixo de 20% entre volume da hérnia e volume peritoneal prediz fechamento simples. Forçar a redução sem preparo eleva a pressão intra-abdominal e pode causar síndrome compartimental. Entram pneumoperitônio progressivo e toxina botulínica.

HérniaOnde saiQuem temComportamentoReparo de referência
IncisionalDefeito aponeurótico na cicatriz de laparotomia, mais comum na mediana12,8% em 2 anos após incisão mediana; obeso, tabagista, diabético, infecção de ferida préviaCresce com o tempo; acidente agudo de 1% no primeiro ano e 2,5% em 5 anosTela em plano retromuscular (Rives-Stoppa) com fechamento da linha média; separação de componentes se a largura passar de 8 cm
Umbilical do adultoAnel umbilical, na linha albaAdquirida; obesidade, gravidez, ascite, diástase dos retos; até 25% da população ao ultrassomNão regride; anel estreito encarceraTela plana pré-peritoneal com 3 cm de sobreposição, fechando o defeito; sutura só abaixo de 1 cm, em decisão compartilhada
Umbilical da criançaAnel umbilical ainda em fechamento15% a 23% dos recém-nascidos; até 84% nos de 1.000 a 1.500 gMais de 90% fecham sozinhas até os 5 anos; encarceramento de 0,07% a 2,77%Observação até 4 a 5 anos; opera se persistir aos 5 anos, se houver sintoma, encarceramento, ascite, diálise peritoneal ou erosão de pele
EpigástricaLinha alba, entre o apêndice xifoide e a cicatriz umbilicalAdulto; pico de 51 a 70 anos em homens e de 41 a 50 em mulheresPequena, muitas vezes só com gordura pré-peritoneal, dolorosa fora de proporção; pode ser múltiplaMesma regra da umbilical: tela plana pré-peritoneal, fechando o defeito
De SpiegelLinha semilunar, no nível ou abaixo da linha arqueada; interparietal sob o oblíquo externo0,12% a 2% das hérnias da parede abdominalNão se palpa em até metade dos casos; cerca de 27% encarceramReparo ao diagnóstico, sem espera vigiada; laparoscópico com menor morbidade e menor internação

Largura, na EHS, é a maior distância horizontal entre as margens laterais do defeito — não é o comprimento da cicatriz nem o diâmetro do abaulamento. Havendo vários orifícios na mesma cicatriz, mede-se entre as bordas mais laterais do conjunto.

Defeito estreito pode conter saco volumoso: por isso a decisão sobre relaxamento miofascial se apoia em volumetria, e não no tamanho aparente da hérnia.

Diástase dos retos não é hérnia: não há defeito aponeurótico e não encarcera. Importa como fator de risco de hérnia umbilical e de recidiva depois de sutura simples.

Ponte de tela (bridging) sobre o defeito aberto é o que se evita: fechar a fáscia recidivou 4,2% contra 6,8% da ponte, e devolve à parede a função de conter.

Na ventral complicada vale a mesma estratificação de ferida da hérnia da virilha: tela sintética em ferida limpa e limpa-contaminada (1A nas duas); campo contaminado ou sujo pede reparo primário abaixo de 3 cm ou tela biológica (2C), com tratamento aberto no instável.

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Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Quantos centímetros definem uma hérnia primária pequena, média e grande

EHS 2009: pontos de corte em 2 e 4 cm

Na classificação de hérnias primárias e incisionais da parede abdominal, as primárias (epigástrica, umbilical, Spiegel e lombar) são agrupadas por diâmetro em pequena abaixo de 2 cm, média de 2 a 4 cm e grande acima de 4 cm.

Muysoms FE et al., Classification of primary and incisional abdominal wall hernias, Hernia 2009.

EHS/AHS 2020: pontos de corte em 1 e 4 cm

O grupo da diretriz de hérnia umbilical e epigástrica registra que não há classificação satisfatória de tamanho para essas hérnias e adota, para o próprio documento, pequena de 0 a 1 cm, média acima de 1 até 4 cm e grande acima de 4 cm — sugerindo formalmente que um novo consenso seja construído.

Henriksen NA et al., Guidelines for treatment of umbilical and epigastric hernias from the EHS and AHS, BJS 2020.

Na prova

Não há contradição de mérito: são dois documentos da mesma sociedade com finalidades diferentes, e o de 2020 diz explicitamente que a régua anterior não servia para o que ele precisava decidir. O recorte se identifica pelo verbo do enunciado. Questão que pede para classificar uma hérnia, que cita nominalmente a classificação da Sociedade Europeia de Hérnia ou que aparece ao lado das letras M e L e das faixas W, está na régua de 2009, com cortes em 2 e 4 cm. Questão que discute o que fazer — usar tela ou suturar, qual sobreposição — está na diretriz de 2020, e ali o número que carrega decisão é 1 cm, porque é abaixo dele que a sutura entra em decisão compartilhada. O distrator que denuncia a régua trocada é a alternativa que chama de 'pequena' uma hérnia de 1,5 cm em uma questão sobre técnica, ou de 'média' a mesma hérnia em uma questão sobre nomenclatura. Quando o enunciado traz o diâmetro em centímetros e nomeia o documento, o rótulo se resolve sozinho; quando não nomeia, o tema da pergunta indica qual régua a banca está usando.

Tela na hérnia umbilical pequena do adulto

EHS/AHS 2020: tela para reduzir recidiva, sutura admitida abaixo de 1 cm

É recomendado usar tela no reparo de hérnias umbilicais e epigástricas para reduzir a recidiva, sem aumento de infecção de sítio cirúrgico nem de dor pós-operatória. O reparo por sutura pode ser considerado em decisão compartilhada nos defeitos pequenos, abaixo de 1 cm, faixa em que a evidência é reconhecidamente limitada.

Henriksen NA et al., EHS/AHS umbilical and epigastric hernia guidelines, BJS 2020.

Prática declarada: sutura simples segue majoritária nos defeitos pequenos

Em levantamento internacional sobre a adesão a essas mesmas diretrizes, apenas cerca de 22% dos cirurgiões relataram usar tela de rotina em hérnias umbilicais e epigástricas com defeito de 1 cm ou menos — ou seja, a conduta declarada na ponta diverge da recomendação escrita justamente nessa faixa.

Guidelines for Treatment of Umbilical and Epigastric Hernias From the European and Americas Hernia Societies — A Web-Based Survey on Surgeons' Opinion, Journal of Abdominal Wall Surgery 2022.

Na prova

Esta divergência é entre um documento e a prática que ele mesmo mediu, e a faixa em que ela existe é estreita: defeitos de 1 cm ou menos. O que decide o recorte é o número que o enunciado dá. Defeito de 2, 3 ou 4 cm não é zona cinzenta em documento nenhum — ali a tela plana pré-peritoneal com 3 cm de sobreposição é o que as duas sociedades descrevem, com ensaio mostrando 4% contra 12% de recidiva. Defeito de 0,5 ou 1 cm é a faixa em que a alternativa que fala em decisão compartilhada e sutura com fio inabsorvível reproduz o texto da diretriz. Cenário importa: em serviço público com tela de disponibilidade irregular e em procedimento ambulatorial de baixa complexidade, a sutura na hérnia pequena é o que a rede oferece — restrição de material e de custo, não superioridade técnica, e vale nomear isso como tal. Dois distratores denunciam leitura errada em qualquer cenário: fio de absorção rápida, que a diretriz rejeita explicitamente, e antibiótico prolongado, quando o que se descreve é dose única perioperatória e apenas quando há tela.

Plano e via da tela na hérnia incisional mediana

EHS 2023: plano retromuscular com recomendação forte

A tela deve ser posicionada no plano retromuscular — termo que engloba o retrorretal e o pré-peritoneal —, com recomendação forte. A comparação direta mostra recidiva de 2,1% no retrorretal contra 7,2% no onlay e seroma de 13,8% contra 33,3%, e o defeito fascial deve ser fechado, evitando-se a ponte de tela.

European Hernia Society, Midline incisional hernia guidelines, BJS 2023.

IPOM laparoscópico: 10% contra 6% de recidiva, sem significância

Na comparação entre reparo intraperitoneal laparoscópico e retrorretal aberto, a recidiva foi de 10% contra 6%, diferença sem significância estatística (OR 0,62, IC 95% 0,31 a 1,25). A mesma diretriz admite que a via seja aberta, laparoscópica ou robótica conforme o paciente, a hérnia e a experiência da equipe.

European Hernia Society, Midline incisional hernia guidelines, BJS 2023 — seção de via de acesso.

Na prova

Cuidado com o que está de fato em disputa: a divergência é sobre a VIA (aberta contra laparoscópica), não sobre o PLANO. O plano retromuscular tem recomendação forte e não tem contraparte; o onlay perde nos dois desfechos medidos ao mesmo tempo, recidiva e seroma, de modo que ele não é a 'versão possível' da recomendação — é o plano com pior desempenho. Como ler o recorte: enunciado que descreve tela com barreira antiaderente, fixação com tacks, robô ou material específico está no mundo do IPOM; enunciado que descreve dissecção do espaço retrorretal, incisão da bainha posterior e fechamento da linha média está no mundo do Rives-Stoppa. O peso brasileiro aqui é econômico e explícito: tela intraperitoneal exige barreira antiaderente e custa muito mais, e por isso o reparo aberto retromuscular é o que a rede pública sustenta em escala — o que, neste caso, coincide com o plano que a diretriz recomenda com força. Prova oficial do MEC tende a conduta SUS; nas demais bancas, o material citado no enunciado costuma entregar a via que a banca tem em mente.

Hérnia umbilical do cirrótico com ascite: quando operar

Controlar a ascite e reparar eletivamente, com tela

A recidiva foi de 45% (22 de 49) com ascite não controlada contra 4% (2 de 47) com ascite controlada, e de 2,7% com tela contra 14,2% sem tela. A mortalidade da hérnia rota manejada de forma conservadora é de 60% a 80%, contra 6% a 20% da herniorrafia de urgência — o que desloca a decisão para o campo eletivo.

Coelho JCU et al., Umbilical hernia in patients with liver cirrhosis: a surgical challenge, World J Gastrointest Surg 2016.

Adiar e corrigir no transplante, quando ele estiver próximo

Quando o transplante hepático está previsto para os próximos 3 a 6 meses, o reparo da hérnia umbilical pode ser feito durante o transplante, evitando uma segunda operação em paciente com hipertensão portal e coagulopatia.

Coelho JCU et al., World J Gastrointest Surg 2016 — mesma revisão, seção de candidatos a transplante.

Na prova

As duas posições convivem e o que as separa é um dado de agenda que o enunciado fornece ou omite. Vinheta que menciona candidato a transplante com data ou com previsão próxima está desenhada para a segunda leitura; vinheta que descreve cirrótico em acompanhamento, sem transplante à vista, está desenhada para a primeira. O que nenhuma das duas sustenta é a conduta expectante indefinida: uma vez que a pele afina, ulcera ou drena ascite, o intervalo de escolha acabou, e os 60% a 80% de mortalidade do manejo conservador da rotura são o número que fecha qualquer alternativa de observação. Atenção ao distrator de aparência conservadora, que costuma ser oferecido como se fosse prudência: puncionar a hérnia, colocar cinta compressiva ou 'aguardar compensação hepática indefinidamente'. Em cenário de SUS, o gargalo real é o controle da ascite e a fila do eletivo — restrição de acesso, não divergência de evidência; e é justamente por causa dela que tantos desses pacientes chegam rotos ao pronto-socorro.

06

Caso resolvido

Homem de 57 anos, cirrótico por doença hepática relacionada ao álcool, Child-Pugh B, abstinente há 8 meses, em uso de espironolactona e furosemida. Vem ao ambulatório por abaulamento umbilical progressivo há 2 anos, que nos últimos 3 meses ficou tenso e passou a incomodar para deitar. Ao exame: ascite moderada, circulação colateral, abaulamento umbilical de cerca de 6 cm, redutível com dificuldade, pele que o recobre afilada e brilhante, sem ulceração e sem drenagem. Sem dor, sem eritema, sem febre; elimina gases e fezes normalmente. Albumina 3,1 g/dL, INR 1,4, bilirrubina total 1,8 mg/dL, plaquetas 88.000 por mm3.
achado
Hérnia umbilical em cirrótico com ascite não é coincidência: ela ocorre em cerca de 20% desses pacientes, contra cerca de 2% da população adulta geral. A ascite mantém pressão intra-abdominal cronicamente elevada, e é ela que empurra o anel umbilical.
achado
Não há sinal de complicação aguda: reduz, não dói, sem eritema, sem febre, sem obstrução. Portanto não é caso de urgência — é caso de programar, e programar rápido, porque a pele já está afilada.
achado
A pele afilada e brilhante é o sinal de alerta que muda o horizonte de tempo. O passo seguinte dela é ulceração e drenagem de ascite, e depois rotura. Na hérnia umbilical rota do cirrótico, o manejo conservador tem mortalidade de 60% a 80%, contra 6% a 20% da herniorrafia de urgência.
conduta
Primeiro passo: controlar a ascite. Otimização de diurético, restrição de sódio e, se refratária, paracenteses seriadas ou avaliação para TIPS. Não é preparo burocrático — é o fator que determina o resultado: recidiva de 45% com ascite não controlada contra 4% com ascite controlada.
conduta
Verificar se há transplante hepático previsto. Se estiver programado para os próximos 3 a 6 meses, o reparo é feito durante o transplante, evitando uma segunda operação em paciente com hipertensão portal e coagulopatia.
conduta
Sem transplante à vista: reparo eletivo com tela, depois de controlada a ascite. A tela recidivou 2,7% contra 14,2% da sutura simples nessa população, ao custo de mais complicação de ferida — troca que os números sustentam.
conduta
Corrigir o que dá para corrigir antes: albumina, coagulopatia dentro do possível, e programação de controle de ascite no pós-operatório, porque ascite que volta com força é o que rompe o reparo.
conduta
O que não fazer: puncionar a hérnia, prescrever cinta compressiva ou manter observação indefinida esperando 'melhor momento clínico'. Nenhuma das três reduz o risco, e a primeira acrescenta porta de entrada para peritonite bacteriana.
07

Agora feche você

Homem de 61 anos, IMC 33, ex-tabagista (parou há 5 semanas), diabético com HbA1c de 6,8%, laparotomizado há 4 anos por peritonite diverticular, com infecção de ferida no pós-operatório daquela cirurgia. Vem por abaulamento mediano progressivo, que hoje o impede de trabalhar e causa dor lombar. Sem sintomas obstrutivos, sem dor à palpação da hérnia, sem eritema. Ao exame, abaulamento mediano volumoso, redutível apenas em parte. A tomografia mostra defeito aponeurótico mediano de 12 cm de largura, estendendo-se da região umbilical à infraumbilical, com volumetria estimando razão entre o conteúdo do saco e o conteúdo abdominal de 28%.
achado
Hérnia incisional mediana sintomática, em paciente com os fatores de risco clássicos reunidos: obesidade, tabagismo, diabetes e infecção de ferida na cirurgia índice. Sintomática significa que há indicação de reparo — espera vigiada é conversa para a assintomática.
achado
Pela classificação da EHS, defeito mediano que ocupa as zonas umbilical e infraumbilical, com 12 cm de largura: M3-M4, W3. Largura é a maior distância horizontal entre as margens laterais do defeito, e 10 cm ou mais é W3.
achado
Razão de 28% entre o conteúdo do saco e o conteúdo abdominal na volumetria caracteriza perda de domicílio (corte de 25% no método de Tanaka). Reduzir esse conteúdo sem preparo eleva a pressão intra-abdominal de forma aguda, com risco de síndrome compartimental abdominal.
conduta
08

Onde a banca derruba

  1. 1Classificar a hérnia pelo tamanho do abaulamento O que a EHS mede é a largura do defeito aponeurótico: a maior distância horizontal entre as margens laterais do orifício, medida na tomografia ou no intraoperatório. Abaulamento grande pode nascer de defeito estreito, e é justamente esse arranjo que produz encarceramento e perda de domicílio ao mesmo tempo. Comprimento de cicatriz também não classifica nada.
  2. 2Tratar hérnia incisional com sutura simples e guardar a tela para a recidiva A sutura simples recidiva 30,4% contra 11,8% da tela, com razão de chances de 0,31. A recomendação de tela é forte na diretriz de hérnia incisional mediana. Reparar sem tela para 'poupar material' significa, na prática, agendar a segunda operação, que será mais difícil, em plano cicatricial e com mais risco.
  3. 3Escolher o onlay porque é mais simples O onlay perde nos dois desfechos medidos ao mesmo tempo: recidiva de 7,2% contra 2,1% do retrorretal e seroma em 33,3% contra 13,8%. Ele é mais rápido e dispensa dissecção do espaço retromuscular, mas não é a versão econômica da recomendação — é o plano com pior resultado. A recomendação forte é a tela retromuscular.
  4. 4Fazer ponte de tela em vez de fechar a linha média Deixar o defeito aberto e cobrir o vão com a tela (bridging) recidiva 6,8% contra 4,2% do fechamento fascial, e a diretriz recomenda fortemente fechar. Quando o defeito não fecha sem tensão, a saída não é fazer ponte: é relaxamento miofascial, com separação posterior de componentes ou anterior, conforme o caso.
  5. 5Encaminhar lactente com hérnia umbilical assintomática ao cirurgião Mais de 90% das hérnias umbilicais da criança fecham espontaneamente até os 5 anos, e o encarceramento é raro (0,07% a 2,77%). Observa-se até os 4 a 5 anos. Opera-se se persistir aos 5 anos, se a protrusão for volumosa e não tiver melhorado aos 2 anos, ou diante de sintomas, encarceramento, erosão de pele, ascite ou diálise peritoneal.
  6. 6Adiar indefinidamente a hérnia umbilical do cirrótico com ascite A espera aqui não é neutra: quando a hérnia rompe, a mortalidade do manejo conservador é de 60% a 80%, contra 6% a 20% da herniorrafia de urgência. O caminho é controlar a ascite (recidiva de 45% sem controle contra 4% com controle) e reparar eletivamente com tela (2,7% contra 14,2% de recidiva), ou reparar durante o transplante se ele estiver previsto para 3 a 6 meses.
  7. 7Descartar hérnia de Spiegel porque não se palpa massa A hérnia de Spiegel é interparietal: sai pela linha semilunar, no nível ou abaixo da linha arqueada, e fica sob a aponeurose íntegra do oblíquo externo, de modo que até metade dos casos passa despercebida ao exame físico. Dor localizada na borda lateral do reto, sem massa, é a apresentação típica, e a tomografia é o exame que fecha. Cerca de 27% encarceram, então o diagnóstico já é indicação de reparo.
  8. 8Chamar diástase dos retos de hérnia Na diástase não há defeito aponeurótico: a linha alba está íntegra, apenas alargada, e por isso não encarcera nem estrangula. Não é indicação cirúrgica por si. Importa por dois motivos: é fator de risco para hérnia umbilical e para recidiva depois de reparo por sutura simples.
  9. 9Achar que small bites é dar pontos mais apertados A técnica é pegar de 5 a 9 mm da borda, incorporando só a aponeurose, com pontos a cada 5 mm e razão de pelo menos 4 para 1 entre comprimento de fio e comprimento de ferida, em sutura contínua com fio de absorção lenta e baixa tensão. É o oposto de apertar: pegada pequena com fio sobrando distribui tensão. No ensaio STITCH deu 5,6% de hérnia em 1 ano contra 18,0% da pegada larga.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Correta: abaulamento redutível sobre cicatriz de laparotomia prévia, com falha aponeurótica palpável, define hérnia incisional — complicação tardia mais comum das laparotomias. Errada: hérnia umbilical não se relaciona a cicatriz de laparotomia mediana prévia e localiza-se no anel umbilical. Errada: diástase é afastamento dos retos sem defeito aponeurótico verdadeiro (não há saco herniário nem anel), não configura hérnia. Errada: a hérnia de Spigel ocorre na linha semilunar, lateral ao reto, não na cicatriz mediana. Errada: eventração diafragmática é elevação do diafragma, achado torácico, sem relação com a parede abdominal anterior.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Refaça de cabeça o mapa da EHS: as cinco zonas medianas do xifoide ao púbis e as quatro laterais, e as três faixas de largura (abaixo de 4, de 4 a 10, e 10 ou mais). Depois responda sem consultar: qual o plano da tela com recomendação forte na hérnia incisional mediana, o que se faz com o defeito fascial, e até que idade se observa a hérnia umbilical assintomática da criança.

em 30 dias

Reconstrua os números de decisão: 12,8% de hérnia incisional em 2 anos após incisão mediana; sutura 30,4% contra tela 11,8%; retrorretal 2,1% contra onlay 7,2%, com seroma de 13,8% contra 33,3%; fechamento fascial 4,2% contra ponte 6,8%; small bites 5,6% contra 18,0% do STITCH, com razão de fio de 4 para 1; tela profilática com risco relativo de 0,35; largura acima de 8 cm como preditor de separação de componentes e razão de 25% como perda de domicílio. Depois percorra a hérnia umbilical em três versões — criança, adulto e cirrótico com ascite — e diga em voz alta o que muda em cada uma e por quê.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Homem de 59 anos chega ao ambulatório de cirurgia geral com abaulamento na cicatriz de uma laparotomia feita há 3 anos, que vem crescendo e agora atrapalha o trabalho. Traz uma tomografia recente. Conduza a anamnese buscando os fatores que mudam o risco do reparo, faça o exame físico da parede abdominal, decida quais medidas do exame de imagem você precisa ter antes de indicar a técnica e explique ao paciente o que será feito antes da cirurgia e por quê. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Hérnias ventrais — Preparatório para provas | OsceLabs