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Tumores raros do peritônio e do mesentério
Duas massas que chegam com carimbo de câncer avançado e são conduzidas ao contrário do que parecem pedir: uma se trata sem operar, a outra só se opera onde existe programa para isso. E a pergunta que separa as duas do resto do abdome é quase de física — o que enche a cavidade escorre, ou não escorre?
Responda antes de ler
Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.
Durante laparoscopia por suspeita de apendicite em paciente de 70 anos, encontra-se apêndice cecal dilatado e globoso, com aspecto cístico e mucoide, sem sinais inflamatórios francos. Qual conduta é a mais adequada?
Como esse tema cai
Este capítulo trata de duas massas que chegam ao ambulatório com o mesmo carimbo — câncer abdominal avançado — e que são conduzidas ao contrário do que parecem pedir. A primeira é a paniculite mesentérica, uma massa fibroinflamatória da raiz do mesentério que se trata sem passar pela mesa. A segunda é o pseudomixoma peritoneal, uma doença mucinosa difusa que se opera, mas só onde existe programa para isso, e cuja primeira operação errada custa a chance de cura. Ao redor delas ficam as outras lesões raras do mesmo espaço: o cisto mesentérico, o mesotelioma peritoneal, a peritonite esclerosante encapsulante e a massa mesentérica calcificada do tumor neuroendócrino de delgado.
A fronteira de baixo precisa ser dita antes de tudo, porque é ela que decide quem manda no caso. O espaço aqui tratado é o intraperitoneal: mesentério, grande omento, superfícies serosas e a cavidade. Abaixo da reflexão peritoneal começa outro território, o espaço retrorretal e pré-sacral, que tem capítulo próprio em Coloproctologia. A diferença não é acadêmica: na lesão retrorretal a regra é ressonância antes de qualquer agulha, e a punção transretal ou transvaginal é justamente o que não se faz; na massa mesentérica a biópsia percutânea guiada por imagem é exatamente o que se pede antes de decidir tratamento. A mesma frase vale de um lado e se inverte do outro.
O que fica de fora tem endereço. Carcinomatose peritoneal de origem gástrica, colorretal e ovariana é doença comum com rota própria e aparece aqui só como diferencial de imagem. A obstrução intestinal e a isquemia, quando se instalam sobre qualquer uma dessas massas, saem do consultório e entram na apostila de Urgência e Emergência Cirúrgica, no capítulo dos cinco tipos de abdome agudo: a partir daí o relógio é de horas e a régua é outra. O tumor desmoide, que também nasce no mesentério, é tratado ao lado da polipose adenomatosa familiar, de onde vem a maior parte dos casos intra-abdominais. E a massa anexial mucinosa em mulher com material gelatinoso na cavidade é ponto de encontro com Ginecologia Oncológica, não de disputa: o apêndice tem de ser inspecionado e retirado, e é a imuno-histoquímica que diz de quem é a doença.
A prova cobra o tema por três portas. A primeira entrega um laudo de tomografia com massa mesentérica e pede a leitura dos sinais, esperando que o candidato não confunda processo fibroinflamatório com linfoma. A segunda entrega uma barriga que cresce há um ano, com hérnia umbilical nova e punção que quase não sai, e pergunta o que fazer — a resposta nunca é repetir a punção. A terceira testa o que não se faz: ressecar a massa da raiz do mesentério, drenar a cavidade mucinosa ou fazer uma citorredução incompleta antes de encaminhar.
O que muda decisão
O espaço, a fronteira de baixo e o que já tem endereço
O peritônio é uma serosa contínua com área comparável à da pele, e o mesentério é a prega que suspende o delgado e leva até ele os vasos mesentéricos superiores. Da raiz desse leque saem a artéria e a veia que irrigam do duodeno distal até o cólon transverso. Guardar essa geometria vale mais do que decorar lista de tumores raros: é ela que explica por que uma massa da raiz do mesentério não sai sem levar a irrigação de metros de intestino.
O território tem duas saídas, e as duas confundem enunciado. A primeira é a reflexão peritoneal, o ponto em que o peritônio deixa a face anterior do reto e se volta para as vísceras pélvicas. Acima dela, cavidade; abaixo, espaço extraperitoneal. Uma lesão cística atrás do reto e abaixo da reflexão é retrorretal ou pré-sacral, e tem regra diferente: ressonância da pelve e do sacro antes de qualquer coisa, e proibição expressa de punção transretal ou transvaginal, que contamina planos e semeia o trajeto. Uma lesão cística no mesentério do íleo, acima da reflexão, se investiga com tomografia, se aborda pelo abdome e a biópsia percutânea é aliada, não inimiga.
A segunda saída é temporal, e não anatômica. Enquanto a massa apenas ocupa espaço, o assunto é ambulatorial. Quando ela obstrui, quando aparece dor desproporcional ao exame ou quando o paciente chega com vômitos e parada de eliminação de gases, o caso migra para o abdome agudo — obstrutivo ou vascular, conforme o mecanismo — e a lógica de não operar deixa de valer. Reconhecer a migração é tarefa daqui; conduzir a urgência é tarefa de outra apostila.
Um terceiro endereço vale registrar porque a prova gosta de cruzá-lo: a mulher com massas anexiais mucinosas e material gelatinoso na cavidade. A leitura de hoje inverte a probabilidade antiga e vai procurar o apêndice — inspecioná-lo, retirá-lo e deixar o estudo imuno-histoquímico dizer de quem é a doença.
A gordura que fica em névoa, e por que a descrição não fecha diagnóstico
O laudo costuma abrir com uma frase que parece diagnóstica e não é: aumento difuso da atenuação da gordura mesentérica. É uma descrição de densidade, e nada mais. Ela aparece em situações que não têm relação entre si — edema por hipoalbuminemia ou insuficiência cardíaca, congestão venosa, linfoma, carcinomatose, tuberculose peritoneal, doença relacionada à imunoglobulina G4, pancreatite, trauma e a própria paniculite mesentérica.
O erro que a prova arma é transformar a descrição em conclusão. Quem lê o laudo e escreve paniculite mesentérica no prontuário pulou a etapa que interessa. O que faz diagnóstico é o conjunto: onde a alteração está, quanta gordura preservada sobrou dentro dela, se há borda delimitando o processo, o tamanho dos linfonodos incluídos, se os vasos estão envolvidos ou obstruídos, e como está o paciente.
Vale guardar a ordem de grandeza. O achado aparece em torno de meio a um por cento das tomografias de abdome feitas por qualquer motivo, com predomínio em homens na sexta e sétima décadas — raro o bastante para nunca ser a primeira hipótese de dor abdominal, e comum o bastante para que a maioria dos casos apareça por acaso, em paciente sem sintoma nenhum.
Essa aritmética muda a conduta. Quando o achado é incidental e o paciente é assintomático, a história natural é estável ou regressiva na maior parte dos casos, e a resposta correta quase nunca é tratar. Quando o achado vem acompanhado de dor arrastada, emagrecimento e febre vespertina, como no paciente que abre o caso resolvido, a investigação é obrigatória — não porque a paniculite exija, mas porque a lista de doenças que produzem a mesma imagem inclui algumas que não perdoam atraso.
Os dois sinais que sustentam a paniculite mesentérica
A paniculite mesentérica é a fase média de um espectro que começa com necrose gordurosa, passa por inflamação crônica e termina em fibrose. Os nomes mudam conforme o que predomina — lipodistrofia, paniculite, mesenterite esclerosante ou retrátil —, mas a doença é a mesma, e o que separa uma fase da outra é a quantidade de colágeno depositado. É por isso que dois pacientes com o mesmo diagnóstico podem ter tomografias tão diferentes: um com gordura em névoa e pouco mais, outro com massa endurecida que traciona alças.
Dois sinais tomográficos sustentam a hipótese sem abrir o abdome. O primeiro é o halo de gordura preservada, uma orla de baixa densidade que envolve os vasos e os linfonodos incluídos na área alterada. Ele diz que o processo empurra e envolve, mas não infiltra — o oposto do que faz o linfoma, que apaga o plano gorduroso e engloba estruturas sem poupar contorno. O segundo é a faixa periférica hiperdensa que delimita a área alterada, uma borda que dá ao conjunto aspecto de massa encapsulada e separa o tecido doente da gordura normal ao redor.
Somam-se a esses dois um terceiro elemento e uma localização. O terceiro elemento é o tamanho dos linfonodos: na paniculite ficam abaixo de um centímetro no menor eixo e permanecem visíveis dentro da massa, cada um com o seu halo. A localização típica é a raiz do mesentério do delgado, com deslocamento para a esquerda da linha média. Massa com linfonodos volumosos, sem halo, sem faixa delimitante e com apagamento dos planos de gordura descreve outra doença.

Com os dois sinais presentes, na localização típica e em paciente com quadro compatível, a tomografia sustenta a hipótese e a investigação segue por exclusão, sem exigir tecido de imediato. Quando eles faltam, o caminho é outro.
Quando os sinais não bastam: o linfoma, o tumor neuroendócrino e a agulha
O diferencial que assusta é o linfoma não Hodgkin de mesentério, e com razão: ele produz massa no mesmo lugar, no mesmo paciente e com a mesma queixa arrastada de dor, emagrecimento e febre vespertina. O que ele não costuma produzir é o halo de gordura em volta de cada linfonodo, nem a faixa que delimita o conjunto. No linfoma os linfonodos são maiores, coalescem, apagam o plano gorduroso e envolvem os vasos formando o aspecto clássico de sanduíche, com a artéria e a veia espremidas entre massas.
A tomografia por emissão de pósitrons ajuda a ordenar as hipóteses, e não a fechá-las. Na paniculite a captação costuma ser difusa e de baixo grau, distribuída pela área alterada; no linfoma ela é nodular, focal e alta, e em geral acende também em outras cadeias, no baço ou na medula. O erro de leitura mais comum é tratar captação baixa como se fosse exclusão: ela reduz a probabilidade de doença linfoproliferativa, mas processo inflamatório crônico capta, e um exame de captação modesta não autoriza iniciar corticoide sem tecido quando a imagem tem elementos atípicos.
Um segundo diferencial vale ser conhecido porque tem assinatura própria. O tumor neuroendócrino de intestino delgado produz no mesentério uma reação desmoplásica que costuma ser maior do que o tumor primário, e essa massa tem duas marcas: calcificação em seu interior e espículas que irradiam para a gordura vizinha, tracionando alças. O primário é um nódulo pequeno na parede do íleo, às vezes só visível quando se procura. Quando o enunciado descreve massa mesentérica calcificada com aspecto estrelado, a hipótese muda de trilho, e a investigação vai atrás de marcador bioquímico e do primário na parede.
Há ainda a doença relacionada à imunoglobulina G4, que pode dar mesenterite e costuma vir acompanhada — fibrose retroperitoneal, pâncreas aumentado com halo, colangite esclerosante, glândulas salivares aumentadas. A dosagem sérica ajuda quando alta, mas não decide: valores normais não afastam e valores altos aparecem em outras condições. Quem decide é a histologia, com infiltrado linfoplasmocitário rico em plasmócitos positivos para imunoglobulina G4, fibrose estoriforme e flebite obliterante.
Diante de qualquer combinação atípica, a conduta é a mesma e é a que a prova quer ouvir: biópsia percutânea guiada por imagem, com estudo anatomopatológico e imuno-histoquímico, antes de qualquer decisão de tratamento e antes de qualquer ressecção. A agulha aqui é barata e informativa; a laparotomia exploradora feita para saber o que é sai cara e costuma voltar com o mesmo fragmento que a agulha traria.
O tratamento que não passa pela mesa, e a razão anatômica disso
Confirmado o processo fibroinflamatório e afastadas as doenças que exigem outra rota, o tratamento é clínico. No paciente assintomático com achado incidental, a conduta é acompanhar: a maior parte se mantém estável ou regride. No paciente sintomático, a base é o corticoide sistêmico, com a possibilidade de associação de tamoxifeno; colchicina, azatioprina e talidomida aparecem em relatos e em séries pequenas como alternativas em quem não responde. Quem trata acompanha por resposta clínica e por tomografia seriada, não por normalização de exame laboratorial.
A parte que a prova cobra com mais frequência é a negativa: não se ressecar a massa. E a razão é anatômica, não filosófica. A doença nasce na raiz do mesentério, e é ali que passam a artéria e a veia mesentéricas superiores, das quais depende a irrigação de praticamente todo o delgado e do cólon direito. Uma ressecção que retirasse aquele bloco levaria consigo o pedículo e obrigaria a enterectomia extensa, trocando uma doença benigna e tratável por síndrome do intestino curto.
Há exceções, e elas são as duas de sempre: obstrução mecânica estabelecida e sofrimento vascular de alça. Nessas situações o paciente saiu do consultório e entrou no abdome agudo, e o objetivo da operação muda — resolver o obstáculo, não retirar a doença. Na prática, isso significa lise de aderências, derivação ou ressecção do segmento comprometido, com biópsia do mesentério para documentar, e nunca a tentativa heroica de dissecar a massa da raiz.
O mesmo raciocínio governa o encontro inesperado na mesa. Diante de um mesentério espessado, endurecido, com alças aderidas e sem plano de dissecção, em paciente operado sob suspeita de neoplasia, a conduta correta é colher fragmento representativo e encerrar. Insistir na dissecção de uma raiz mesentérica endurecida é o caminho mais curto para uma lesão vascular que transforma um caso conduzido clinicamente em uma ressecção maciça de intestino.
Pseudomixoma peritoneal: a barriga que cresce e o líquido que não sai
A segunda doença chega de outro jeito. A queixa é o aumento lento e indolor do volume abdominal ao longo de meses, com aperto das roupas e saciedade precoce, num paciente que não emagrece, não tem estigma de hepatopatia e não parece doente. A incidência é da ordem de um a dois casos por milhão de habitantes por ano, o que a coloca fora do primeiro raciocínio de qualquer médico — e é por isso que costuma ser descoberta tarde, ou por acaso.
O acaso tem endereço favorito: o saco herniário. Hérnia umbilical ou inguinal que aparece pela primeira vez em adulto, indolor, que não reduz com o decúbito e que ao ser aberta derrama material gelatinoso é uma das apresentações clássicas da doença. Daí a regra prática: conteúdo gelatinoso em saco herniário se manda para exame anatomopatológico, sempre. É um gesto de dois segundos que já fez o diagnóstico de muita gente.
O exame físico dá a segunda pista. O abdome é volumoso e globoso, mas a percussão traz macicez difusa e uniforme, inclusive na região periumbilical, sem a faixa central de timpanismo que as alças flutuantes produzem na ascite. A macicez não se desloca com a mudança de decúbito e o piparote é pobre ou ausente. Em outras palavras, o abdome está cheio de alguma coisa que não escorre.
A imagem confirma a intuição do exame. À ultrassonografia, material heterogêneo e ecogênico que não se move com a mudança de posição. À tomografia, coleções de baixa densidade, septadas e não deslocáveis, com calcificações puntiformes, espessamento nodular do grande omento em placa e, sobretudo, o festonamento das superfícies do fígado e do baço — entalhes arredondados sucessivos no contorno, marca de material com pressão própria. Ascite livre não amassa órgão; mucina amassa.
É essa mesma física que explica a punção frustrada. A paracentese não traz líquido de fluxo livre, e sim alguns mililitros de material espesso e filante, obtidos com dificuldade depois de várias tentativas. O gradiente de albumina entre soro e líquido é baixo, o que já afasta hipertensão portal, e a citologia mostra muco abundante com escassas células epiteliais colunares. Repetir a punção não melhora o rendimento e não muda a conduta: o diagnóstico se apoia no conjunto de imagem, exame e material obtido, e o passo seguinte é encaminhar.
A origem é o apêndice, e é a histologia que separa os prognósticos
Pseudomixoma peritoneal não é um tumor: é a consequência de um. O nome descreve o acúmulo de mucina gelatinosa na cavidade, e a origem, na grande maioria dos casos, é a ruptura de uma neoplasia mucinosa apendicular de baixo grau. O apêndice se distende com muco, a parede cede, e o material passa a se distribuir pela cavidade. Origens menos frequentes existem — cólon, ovário, pâncreas, úraco —, mas o primeiro lugar a olhar continua sendo a fossa ilíaca direita.
A tomografia costuma entregar a pista de graça: apêndice alargado, com conteúdo de baixa densidade e calcificação parietal. A colonoscopia pode mostrar orifício apendicular alargado com saída de muco, e serve também para afastar tumor colorretal sincrônico antes de qualquer programação cirúrgica. Na mulher, massas anexiais mucinosas bilaterais confundem, e é aí que entra a régua que resolve.
A régua é imuno-histoquímica. O perfil com citoqueratina 20 positiva e citoqueratina 7 negativa ou apenas focal, com CDX2 positivo, aponta origem digestiva e, no contexto, apendicular; o primário mucinoso de ovário costuma exibir o padrão inverso. Isso importa mais do que parece: a doença de origem apendicular tem rota própria, e chamá-la de câncer de ovário disseminado leva a paciente por um caminho que não é o dela.
Feita a origem, é a histologia que estratifica o prognóstico, e o vocabulário atual tem quatro degraus: mucina acelular, carcinoma mucinoso peritoneal de baixo grau, carcinoma mucinoso peritoneal de alto grau, e a forma de alto grau com células em anel de sinete. A sobrevida cai a cada degrau, e o último se comporta como doença agressiva. Nomenclatura anterior, com adenomucinose peritoneal disseminada e carcinomatose mucinosa peritoneal, ainda circula em textos e em enunciados — é rótulo diferente para a mesma escada, e o bloco de divergências trata disso.
O tratamento de maior potencial curativo é a citorredução completa associada à quimioterapia intraperitoneal hipertérmica, feita em serviço com programa de cirurgia peritoneal. Duas réguas acompanham essa operação: o índice de carcinomatose peritoneal, que soma o volume de doença em treze regiões antes de operar, e o escore de citorredução, que classifica o que ficou depois — e é esse segundo que mais pesa no prognóstico. Há, a favor do paciente, um fenômeno de distribuição: a mucina se acumula nos sítios de reabsorção de líquido, como o grande omento, as goteiras e a pelve, e tende a poupar a superfície móvel do delgado. É por isso que uma cavidade tomada de material pode, mesmo assim, ser candidata a citorredução completa.
O que não se faz antes de encaminhar
Esta é a seção que mais decide questão, porque a resposta certa quase sempre é uma abstenção. Diante do diagnóstico feito ou fortemente suspeito, o serviço sem programa de cirurgia peritoneal tem uma tarefa: encaminhar. Não drenar, não ressecar por partes, não fazer omentectomia isolada, não tentar citorredução de boa vontade.
A razão é operacional. A operação definitiva depende de planos ainda dissecáveis e de uma cavidade que não foi semeada. Cada punção repetida cria um trajeto por onde o material se implanta; cada incisão exploradora deixa cicatriz que vira sítio de doença; cada ressecção parcial produz aderências que tornam a citorredução completa mais difícil ou impossível. A chance de citorredução completa é maior na primeira operação, e ela não volta.
Isso não significa cruzar os braços. Antes do encaminhamento cabem coisas úteis: completar a imagem de abdome e de tórax, obter colonoscopia, dosar antígeno carcinoembrionário, CA 19-9 e CA 125, corrigir o estado nutricional e controlar comorbidades. Cabe também explicar, em linguagem acessível, por que a barriga não desincha com uma punção — a explicação evita que o paciente peça, e receba, o procedimento que atrapalha.
Duas situações abrem exceção. A primeira é o achado intraoperatório inesperado, quando o cirurgião abre por outra razão e encontra material gelatinoso: a conduta é documentar o achado com fotografia e biópsia, evitar manipulação extensa, retirar o apêndice quando isso for seguro, fechar e encaminhar. A segunda é o quadro obstrutivo instalado, que exige resolver o obstáculo — e continua exigindo o encaminhamento depois. Na doença extensa e irressecável, sintomática por distensão e desconforto respiratório, o cuidado paliativo tem lugar próprio, com procedimentos de alívio decididos caso a caso.
Vale registrar o desenho do sistema no Brasil, porque ele sustenta a resposta. O tratamento oncológico de alta complexidade se organiza em serviços habilitados dentro do Sistema Único de Saúde, e a doença mucinosa difusa do peritônio é exatamente o caso raro e tecnicamente exigente que essa arquitetura existe para concentrar. O destino não é o hospital que fez o diagnóstico, e sim o serviço que faz a operação todas as semanas.
As outras massas do mesmo espaço
O cisto mesentérico é a lesão cística mais comum do mesentério, quase sempre uma malformação linfática, e costuma ser achado de exame feito por outro motivo. O ponto que a prova cobra é o tratamento: exérese completa. Aspiração, marsupialização e ressecção parcial da parede levam a recidiva e a infecção, e quando o cisto compartilha parede com a alça, sai o segmento intestinal junto. Um cisto grande e assintomático não é motivo para observar indefinidamente, porque ele cresce, sangra, infecta e eventualmente torce.
O mesotelioma peritoneal é a doença que mais se parece com pseudomixoma na primeira olhada e é o oposto no detalhe. Apresenta-se com dor abdominal e ascite, tem associação com exposição ao asbesto — menos constante do que na forma pleural — e a imagem mostra espessamento peritoneal sólido, nodular, com placa omental, sem o material gelatinoso e sem festonamento por mucina. O CA 125 pode estar elevado e engana. Quem decide é a biópsia com imuno-histoquímica, com marcadores de origem mesotelial positivos e marcadores epiteliais de adenocarcinoma negativos. Casos selecionados, de subtipo epitelioide, também são tratados com citorredução e quimioterapia intraperitoneal hipertérmica em centro.
A peritonite esclerosante encapsulante é a que mais surpreende quem não pensou nela. A apresentação é de obstruções intestinais repetidas em paciente com anos de diálise peritoneal, e a tomografia mostra alças agrupadas em bloco, envolvidas por membrana espessa, às vezes com calcificação, com tração e angulação. Não é doença para ressecção: o tratamento começa por retirar o paciente da diálise peritoneal, dar suporte nutricional e considerar corticoide e tamoxifeno; a cirurgia, quando necessária, é enterólise cuidadosa com liberação da membrana, feita por quem tem experiência, porque a ressecção intestinal extensa piora o desfecho.
O tumor desmoide fecha a lista, e aqui interessa só como diferencial: proliferação fibroblástica localmente agressiva que não metastatiza, ligada no abdome sobretudo à polipose adenomatosa familiar, em que aparece depois da colectomia. No mesentério envolve vasos e costuma ser irressecável. A conduta contemporânea começa por observação nas lesões estáveis e por tratamento sistêmico nas progressivas — a cirurgia deixou de ser o primeiro movimento. O tema tem tratamento próprio ao lado da polipose.
Três quadros completam a lista de quem imita: a tuberculose peritoneal, com ascite de gradiente de albumina baixo, predomínio linfocítico, adenosina deaminase elevada e espessamento peritoneal liso e realçante; a carcinomatose por primário digestivo ou ovariano, com nódulos e placa omental; e a ascite quilosa, leitosa e com triglicerídeos altos no líquido.
Como o enunciado arma o cruzamento
O primeiro cruzamento é entre descrição e diagnóstico. O enunciado entrega um laudo com gordura mesentérica densificada e espera a escolha entre tratar, operar e investigar. A resposta depende do que mais o laudo diz: com halo em volta dos linfonodos, faixa periférica delimitante e linfonodos menores que um centímetro, a hipótese é fibroinflamatória; sem isso, e com linfonodos volumosos que apagam o plano gorduroso, o caminho é obter tecido.
O segundo cruzamento é entre ascite e mucina. O caso descreve abdome volumoso, e o candidato precisa perceber, no exame ou na imagem, que aquilo não é líquido livre: macicez que não se desloca, ausência de faixa de timpanismo central, material ecogênico imóvel à ultrassonografia, contorno hepático e esplênico festonado, punção que quase não rende. Quem lê ascite pede albumina e diurético; quem lê mucina encaminha.
O terceiro cruzamento é entre benigno e ressecável. As duas doenças centrais desmentem a associação automática entre não ser câncer e poder ser retirado, e entre ser câncer e precisar de operação imediata. A massa da raiz do mesentério é benigna e não se retira, porque a anatomia não deixa. A doença mucinosa é maligna, se opera com intenção curativa, e ainda assim a primeira operação errada é o que mais custa ao paciente.
O quarto cruzamento é a fronteira de baixo. Quando o enunciado troca o mesentério pelo espaço atrás do reto, tudo muda: ressonância da pelve e do sacro em vez de tomografia, proibição de punção transretal ou transvaginal em vez de indicação de biópsia percutânea, e exérese completa com retirada do cóccix em vez de tratamento clínico. A palavra que sinaliza a troca é discreta — pré-sacral, retrorretal, abaixo da reflexão peritoneal — e é ela que decide qual régua se aplica.
O quinto cruzamento é o relógio. Qualquer uma dessas massas, no dia em que obstrui ou compromete a perfusão da alça, deixa de pertencer ao ambulatório. A pista está no enunciado: vômitos, parada de eliminação de gases, ponto de transição na tomografia, dor desproporcional ao exame. A partir dali a régua é a do abdome agudo.
Quatro massas do mesmo espaço, quatro condutas diferentes
Os cartões abaixo põem lado a lado as lesões que ocupam o peritônio e o mesentério e que a prova costuma embaralhar. Repare que a queixa inicial é quase intercambiável — barriga que cresce, dor arrastada, massa em exame de imagem — e que tudo o que decide está no detalhe do contorno, no tamanho dos linfonodos, na mobilidade do conteúdo e em quem opera.
Paniculite mesentérica — a massa que não se retira
Homem na sexta ou sétima década, dor arrastada em mesogastro, emagrecimento e às vezes febre vespertina. Massa na raiz do mesentério do delgado, com halo de gordura preservada em torno de vasos e linfonodos, faixa periférica delimitando o conjunto e linfonodos abaixo de um centímetro. Diagnóstico por imagem e exclusão, com biópsia percutânea quando há elemento atípico. Tratamento clínico com corticoide, com ou sem tamoxifeno. Operação só para obstrução ou sofrimento de alça, e ainda assim para resolver o obstáculo.
Linfoma de mesentério — o diferencial que não perdoa atraso
Mesmo lugar, mesma queixa. Linfonodos maiores que um centímetro, coalescentes, sem halo de gordura, com apagamento do plano gorduroso e envolvimento dos vasos em aspecto de sanduíche. Captação nodular, focal e alta na tomografia por emissão de pósitrons, com frequência em outras cadeias, no baço ou na medula. Exige tecido antes de qualquer tratamento, e o tratamento não é cirúrgico.
Pseudomixoma peritoneal — a barriga que não é ascite
Aumento lento e indolor do abdome ao longo de meses, hérnia nova com conteúdo gelatinoso, macicez difusa que não se desloca. Ultrassonografia com material ecogênico imóvel; tomografia com coleções de baixa densidade não deslocáveis, placa omental e festonamento do fígado e do baço; apêndice alargado. Punção rende pouco e não muda a conduta. Origem apendicular confirmada por citoqueratina 20 positiva e citoqueratina 7 negativa. Tratamento é citorredução completa com quimioterapia intraperitoneal hipertérmica em centro habilitado.
Mesotelioma peritoneal — o sólido que imita o gelatinoso
Dor abdominal e ascite, com exposição ao asbesto em parte dos casos. Espessamento peritoneal sólido e nodular com placa omental, sem material gelatinoso e sem festonamento por mucina. CA 125 pode subir e confundir. Diagnóstico por biópsia com imuno-histoquímica de origem mesotelial. Subtipo epitelioide selecionado também vai a centro para citorredução com quimioterapia intraperitoneal hipertérmica.
Fronteira de baixo — o espaço retrorretal
Abaixo da reflexão peritoneal a régua se inverte. Lesão cística atrás do reto, com mucosa íntegra ao toque, pede ressonância da pelve e do sacro, proíbe punção transretal ou transvaginal e se trata por exérese completa, com retirada do cóccix nos cistos de desenvolvimento. Não é assunto desta apostila: tem capítulo próprio em Coloproctologia.
Onde as fontes divergem
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.
A favor da associação
A experiência clínica acumulada em centros de referência descreve resposta melhor e mais duradoura quando o tamoxifeno é associado ao corticoide, com redução da massa e controle da dor, e propõe a associação como esquema inicial na doença sintomática, reservando outras drogas para quem não responde.
Akram S, Pardi DS, Schaffner JA, Smyrk TC. Sclerosing mesenteritis: clinical features, treatment, and outcome in ninety-two patients. Clinical Gastroenterology and Hepatology, 2007, seção de tratamento.
Contra tratar por padrão
A leitura cautelosa observa que não há ensaio clínico controlado sustentando qualquer esquema, que as séries são pequenas e retrospectivas, e que parte expressiva dos casos permanece estável ou regride sem tratamento — o que torna difícil separar efeito da droga de história natural, e sustenta observar antes de medicar quem tem pouco sintoma.
Daskalogiannaki M, Voloudaki A, Prassopoulos P, et al. CT evaluation of mesenteric panniculitis. American Journal of Roentgenology, 2000, e a discussão de história natural da própria coorte de 2007.
Na prova
O que se sustenta afirmar é a régua de indicação, não a droga: assintomático com achado incidental se acompanha, sintomático se trata, e o esquema mais citado é corticoide com ou sem tamoxifeno. Enunciado que apresente o tamoxifeno como obrigatório, ou que trate qualquer achado incidental, está pisando na controvérsia. Quando aparecer nome de droga com dose e tempo fechados, desconfie da fonte antes de responder.
Vocabulário atual, de quatro degraus
A classificação em vigor descreve mucina acelular, carcinoma mucinoso peritoneal de baixo grau, carcinoma mucinoso peritoneal de alto grau e forma de alto grau com células em anel de sinete, e recomenda abandonar os termos anteriores por serem ambíguos quanto à natureza neoplásica da lesão.
Carr NJ, Cecil TD, Mohamed F, et al. Consenso do Peritoneal Surface Oncology Group International. The American Journal of Surgical Pathology, 2016.
Vocabulário anterior, ainda em circulação
A nomenclatura de 1995 dividia a doença em adenomucinose peritoneal disseminada, carcinomatose mucinosa peritoneal e formas intermediárias, e continua a aparecer em laudos, em livros-texto e em enunciados, com correspondência aproximada, mas não exata, com os degraus da classificação atual.
Ronnett BM, Zahn CM, Kurman RJ, et al. Disseminated peritoneal adenomucinosis and peritoneal mucinous carcinomatosis. The American Journal of Surgical Pathology, 1995.
Na prova
O que não muda entre as duas é a escada: quanto mais celular e mais atípica a lesão, pior o prognóstico, e a presença de células em anel de sinete marca o degrau mais grave. Se o enunciado usa um rótulo antigo, traduza para a escada em vez de discutir o nome. E desconfie de qualquer questão que peça equivalência exata entre um termo de 1995 e um de 2016, porque essa correspondência não é biunívoca.
Vigilância estruturada
Uma leitura sustenta que a mucina acelular, sem células neoplásicas identificáveis e limitada à região periapendicular, tem evolução indolente e pode ser acompanhada com imagem e marcadores em intervalos definidos, reservando a citorredução para quem progride.
Govaerts K, Lurvink RJ, De Hingh IHJT, et al. Diretriz conjunta do Peritoneal Surface Oncology Group International e da EURACAN. European Journal of Surgical Oncology, 2021, seção de seguimento.
Exploração e tratamento em centro
A leitura mais intervencionista argumenta que a amostragem do material acelular é limitada, que células viáveis podem estar presentes fora do fragmento examinado e que a chance de citorredução completa é maior enquanto a cavidade está virgem, e por isso propõe avaliação em serviço com programa de cirurgia peritoneal desde o primeiro achado.
A mesma diretriz de 2021, na discussão sobre estratificação de risco do achado apendicular, e o consenso de 2016 quanto ao valor limitado da amostragem da mucina.
Na prova
O ponto que as duas posições compartilham, e que a questão costuma cobrar, é o encaminhamento: quem decide entre vigiar e operar é o serviço com programa de cirurgia peritoneal, não o hospital que fez a apendicectomia. Enunciado que ofereça alta com retorno em um ano, ou nova operação no mesmo serviço geral, está fora das duas leituras.
Caso resolvido
- primeiro, decida se aquilo é líquido livre
- Antes de qualquer marcador, o exame já respondeu. Macicez difusa e uniforme, inclusive na região periumbilical, sem faixa central de timpanismo e sem deslocamento com o decúbito, não descreve ascite: na ascite as alças flutuam e produzem timpanismo central, e a macicez migra quando o paciente vira. A ultrassonografia confirma com a palavra que resolve o caso — material ecogênico que não se move. A ausência de estigma de hepatopatia, com fígado de contorno preservado e veia porta pérvia, tira o diagnóstico mais provável da lista antes que ele custe meses de diurético.
- some o abaulamento umbilical ao raciocínio
- Hérnia umbilical que aparece pela primeira vez em adulto, indolor e que não reduz com o decúbito, num abdome que cresce há um ano, não é coincidência: é o saco herniário se enchendo do mesmo material que ocupa a cavidade. Essa é uma das apresentações clássicas da doença mucinosa difusa do peritônio, e vale a regra prática — se essa hérnia for abordada, o conteúdo vai para exame anatomopatológico.
- peça a imagem certa e leia o contorno dos órgãos
- A tomografia de abdome e pelve com contraste é o exame que organiza tudo. O que se procura é o conjunto: coleções de baixa densidade, septadas e não deslocáveis; espessamento nodular do grande omento em placa; calcificações puntiformes; e, sobretudo, festonamento das superfícies do fígado e do baço, com entalhes arredondados sucessivos no contorno. Ascite livre não amassa órgão maciço, mucina amassa. Some a isso o apêndice cecal alargado com conteúdo de baixa densidade, e a origem já está apontada.
- entenda por que a punção rende pouco, e não a repita
- A paracentese guiada obtém poucos mililitros de material gelatinoso, espesso e filante, depois de várias tentativas, sem líquido de fluxo livre. O gradiente de albumina entre soro e líquido fica baixo, o que afasta hipertensão portal, e a citologia mostra muco abundante com escassas células epiteliais colunares. Isso basta para o raciocínio. Repetir a punção não aumenta o rendimento, não muda a conduta e cria trajetos por onde o material se implanta.
- complete a investigação que o encaminhamento vai exigir
- Colonoscopia, para afastar tumor colorretal sincrônico e porque ela pode mostrar o orifício apendicular alargado com saída de muco; tomografia de tórax para estadiamento; antígeno carcinoembrionário, CA 19-9 e CA 125 já colhidos, que servem de linha de base para o seguimento. Os três marcadores elevados nesta paciente não fecham diagnóstico nenhum, e o CA 125 alto é justamente o que faz muita gente rotular o caso como câncer de ovário.
- diga o diagnóstico com o nome que orienta a conduta
- Doença mucinosa difusa do peritônio, de provável origem apendicular — o que se chama de pseudomixoma peritoneal. O nome importa porque carrega a rota: origem no apêndice até prova em contrário, estratificação futura pela histologia, e tratamento que não é o de uma carcinomatose comum.
- encaminhe, e diga em voz alta o que não se faz
- O destino é serviço com programa de cirurgia peritoneal, onde o tratamento de maior potencial curativo é a citorredução completa associada à quimioterapia intraperitoneal hipertérmica. Antes disso, ficam proibidas as ressecções parciais de boa vontade, as drenagens e as punções de repetição: a chance de citorredução completa é maior na primeira operação e não volta. Se a hérnia umbilical for abordada por qualquer motivo, o conteúdo do saco vai para o patologista.
- prepare a paciente e explique em linguagem que ela use
- Corrigir o estado nutricional, controlar a hipertensão de tratamento irregular e organizar o cronograma de exames com quem não pode faltar ao trabalho. E explicar, sem rodeio, por que a barriga não desincha com uma punção: o que está lá dentro tem consistência de gelatina e não escorre pela agulha. A explicação evita que ela peça, em outro serviço, exatamente o procedimento que atrapalha o tratamento definitivo.
Agora feche você
- a hipótese principal e os dois sinais que a sustentam
- …
- o diferencial que não pode ser deixado para depois
- …
- o que a tomografia por emissão de pósitrons resolve e o que não resolve
- …
- o exame que fecha, e por que ele vem antes de qualquer tratamento
- …
- por que a ressecção da massa não é opção
- …
- o tratamento proposto e como se acompanha a resposta
- …
- os sinais de alarme que mudam o capítulo do caso
- …
Onde a banca derruba
- 1Ler mesentério em névoa como se fosse um diagnóstico O aumento difuso da atenuação da gordura mesentérica é uma descrição de densidade e aparece em edema, congestão venosa, linfoma, carcinomatose, tuberculose peritoneal, doença relacionada à imunoglobulina G4, pancreatite e trauma, além da paniculite. O que transforma descrição em hipótese é o conjunto: halo de gordura preservada em volta de vasos e linfonodos, faixa periférica delimitando o processo, linfonodos abaixo de um centímetro e localização na raiz do mesentério do delgado. Faltando esses elementos, o próximo passo é tecido, não tratamento.
- 2Tratar captação baixa na tomografia por emissão de pósitrons como exclusão de linfoma Na paniculite a captação costuma ser difusa e de baixo grau; no linfoma é nodular, focal e alta, com frequência em outras cadeias, no baço ou na medula. Isso ordena as hipóteses e não as fecha, porque processo inflamatório crônico capta. Diante de linfonodos volumosos, ausência de halo ou massa dominante de partes moles, um exame de captação modesta não autoriza iniciar corticoide sem confirmação histológica.
- 3Indicar ressecção da massa mesentérica em doença fibroinflamatória A massa nasce na raiz do mesentério, onde correm a artéria e a veia mesentéricas superiores. Retirá-la levaria o pedículo e obrigaria enterectomia extensa, trocando doença benigna e tratável por síndrome do intestino curto. A operação existe apenas para resolver obstrução mecânica estabelecida ou sofrimento de alça, e nesses casos o objetivo é o obstáculo, não a doença. Encontro inesperado na mesa se resolve com biópsia representativa e fechamento.
- 4Confundir mucina com ascite e conduzir como cirrose Macicez difusa que não se desloca com o decúbito, sem faixa de timpanismo central, piparote pobre, material ecogênico imóvel à ultrassonografia, contorno hepático e esplênico festonado e punção que rende poucos mililitros de material filante descrevem doença mucinosa do peritônio, não hipertensão portal. O gradiente de albumina baixo confirma que a causa não é portal. Diurético e restrição de sódio não têm efeito, e repetir a paracentese só piora as condições da operação futura.
- 5Operar pseudomixoma fora de serviço com programa de cirurgia peritoneal A chance de citorredução completa é maior na primeira operação e não se recupera depois. Punções repetidas semeiam o trajeto, incisões exploradoras criam sítios de implante e ressecções parciais deixam aderências que inviabilizam a dissecção posterior. Diante do diagnóstico feito ou fortemente suspeito, a tarefa do serviço geral é completar a investigação de estadiamento, corrigir nutrição e encaminhar, e não fazer uma citorredução de boa vontade.
- 6Chamar de câncer de ovário a doença mucinosa de origem apendicular Massas anexiais mucinosas bilaterais com material gelatinoso na cavidade fazem pensar em primário ovariano, e na maioria das vezes o ovário é sítio secundário. O apêndice precisa ser inspecionado e retirado, e a régua que decide é imuno-histoquímica: citoqueratina 20 positiva com citoqueratina 7 negativa ou focal, e CDX2 positivo, apontam origem digestiva. Rotular como primário ovariano leva a paciente a um caminho de tratamento que não é o dela.
- 7Tratar cisto mesentérico por aspiração ou marsupialização A punção esvazia e o cisto volta; a marsupialização e a ressecção parcial da parede deixam epitélio secretor e garantem recidiva, além de risco de infecção. O tratamento é exérese completa, com ressecção do segmento intestinal adjacente quando a parede é compartilhada. Tamanho grande e ausência de sintoma não autorizam observação indefinida, porque a lesão cresce, sangra, infecta e pode torcer.
- 8Aplicar a régua do mesentério à lesão abaixo da reflexão peritoneal Na massa mesentérica a biópsia percutânea guiada por imagem é aliada e antecede qualquer tratamento. Na lesão retrorretal ou pré-sacral, abaixo da reflexão peritoneal, a regra se inverte: ressonância da pelve e do sacro primeiro, e proibição de punção transretal ou transvaginal. Palavras discretas no enunciado — pré-sacral, retrorretal, abaixo da reflexão — mudam a régua inteira, e o tema tem capítulo próprio em Coloproctologia.
O aspecto de apêndice dilatado e mucoide levanta a suspeita de neoplasia mucinosa apendicular, cuja ruptura dissemina células produtoras de mucina e leva a pseudomixoma peritoneal — por isso a peça deve sair íntegra, com conversão se a via laparoscópica não garantir isso. Puncionar para facilitar a manipulação é justamente a manobra que provoca o desastre, e é o distrator que mais engana por parecer pragmática. A biópsia incisional tem o mesmo problema de violar a lesão, e nenhuma lavagem desfaz a semeadura já ocorrida.
Recuperação
Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.
Sobre a associação entre paniculite mesentérica e neoplasias, a conduta mais adequada em um paciente com esse diagnóstico por imagem é:
A associação descrita em algumas séries não torna cada achado de paniculite mesentérica um marcador de câncer oculto. É necessário revisar a imagem e procurar sinais de alarme, sobretudo adenopatias relevantes ou progressivas, manifestações sistêmicas e achados atípicos. Dados observacionais mostram evolução benigna em parte dos achados incidentais com pequenos linfonodos e sem outras adenopatias. Esses resultados não excluem neoplasia em qualquer paciente, mas impedem uma regra universal de investigação invasiva ou tomografias seriadas. Biópsia, seguimento e tratamento dependem da suspeita e dos sintomas. Quimioterapia empírica e colectomia profilática não se justificam.
Mulher de 52 anos apresenta paniculite mesentérica associada a fibrose retroperitoneal, colangite esclerosante e aumento de glândulas submandibulares. O exame sérico que deve ser solicitado para investigar a doença de base é:
A combinação de fibrose retroperitoneal, acometimento de vias biliares, glândulas salivares e mesentério aponta para doença relacionada a IgG4, entidade multissistêmica que responde a corticoide e cuja suspeita muda o tratamento. Pensar em anticorpo antimitocôndria engana porque a cirrose biliar primária também acomete via biliar, mas não explica fibrose retroperitoneal nem aumento de glândulas salivares. A confirmação histológica busca infiltrado linfoplasmocitário rico em plasmócitos IgG4 com fibrose estoriforme.
Paciente com paniculite mesentérica sintomática, com dor persistente e sem neoplasia identificada após investigação. O tratamento inicial mais aceito é:
O processo é inflamatório e fibrosante, e responde ao corticoide, com melhora da dor e regressão dos achados de imagem; casos refratários podem receber imunossupressores adicionais. A cirurgia engana quem enxerga uma massa e pensa em ressecar, mas o mesentério difusamente acometido não é ressecável com segurança e a biópsia costuma bastar quando há dúvida. Antibiótico não tem papel, pois não se trata de processo infeccioso.
Paciente de 60 anos é submetido a laparotomia por suspeita de neoplasia mesentérica e encontra-se mesentério espessado, endurecido, sem massa ressecável, com alças aderidas. A conduta intraoperatória adequada é:
Diante de mesentério difusamente comprometido e sem lesão ressecável, o ganho da operação é diagnóstico: biópsias representativas definem entre processo inflamatório e linfoma, e o tratamento subsequente é clínico. Ressecar extensamente engana quem quer resolver no ato, mas custa intestino, fístulas e síndrome do intestino curto. Fechar sem biópsia desperdiça a única informação que a laparotomia poderia oferecer.
Homem de 64 anos com paniculite mesentérica evolui com dor em cólica, distensão e vômitos. Tomografia mostra retração mesentérica com angulação de alças e ponto de transição em delgado. A conduta inicial adequada é:
A retração fibrosa do mesentério pode angular alças e obstruir, e o manejo segue o princípio geral da obstrução de delgado sem sinais de sofrimento: descomprimir, hidratar e observar, operando apenas quem não melhora ou desenvolve isquemia. Ressecar o mesentério fibrosado engana quem quer tratar a causa, mas a operação nesse território é tecnicamente perigosa, com risco de perder extensão intestinal e criar fístulas.
Homem de 58 anos com dor abdominal difusa arrastada há 4 meses, saciedade precoce e perda de 4 kg. Tomografia de abdome mostra aumento difuso da densidade da gordura mesentérica com nódulos linfonodais pequenos envoltos por halo de gordura preservada e fina pseudocápsula. O diagnóstico mais provável é:
O conjunto de gordura mesentérica densificada, halo de gordura preservada ao redor dos linfonodos e pseudocápsula é característico da inflamação crônica do mesentério, e permite o diagnóstico por imagem em contexto clínico compatível. O linfoma engana porque também produz linfonodomegalia mesentérica, mas ali as adenopatias são maiores, confluentes e sem o halo de gordura preservada. Carcinomatose costuma vir com ascite, implantes e espessamento peritoneal nodular.
O achado tomográfico descrito como aumento difuso da atenuação da gordura mesentérica, conhecido como mesentério em névoa (misty mesentery), é:
O aspecto enevoado apenas informa que a gordura mesentérica está infiltrada, e a lista de causas vai de edema por hipoalbuminemia a neoplasia. É a associação com halo de gordura preservada e pseudocápsula que empurra o diagnóstico para a paniculite. Tratar o achado como patognomônico engana e leva a fechar diagnóstico sem excluir causas com implicação prognóstica muito diferente.
Quando a biópsia do mesentério é necessária para esclarecer o diagnóstico de paniculite mesentérica, o achado histológico esperado é:
A histologia mostra a tríade de inflamação crônica, degeneração da gordura e fibrose, em proporções que variam conforme a fase da doença. Granuloma caseoso com bacilos apontaria tuberculose peritoneal, e células em anel de sinete indicariam carcinomatose de origem gástrica — dois diferenciais que a biópsia serve justamente para afastar. Proliferação fusiforme com alteração de KIT caracteriza tumor estromal gastrointestinal, de apresentação nodular e não infiltrativa difusa.
Entre os fatores classicamente associados ao desenvolvimento de paniculite mesentérica, destaca-se:
A hipótese fisiopatológica mais aceita é a de uma resposta inflamatória do tecido adiposo mesentérico a uma agressão prévia, e história de laparotomia ou trauma aparece com frequência, junto de doenças autoimunes e neoplasias. Atribuir a inibidor de bomba de prótons ou a dieta engana por transformar exposições comuns em causa sem qualquer suporte na literatura.
Sobre a evolução natural da paniculite mesentérica assintomática descoberta incidentalmente em tomografia realizada por outro motivo, é correto afirmar que:
Achado incidental em paciente sem sintomas geralmente permanece estável ou regride, e o tratamento imunossupressor se reserva a quem tem dor, obstrução ou progressão. Tratar todos engana porque expõe pacientes assintomáticos aos efeitos do corticoide sem benefício demonstrado. O que o seguimento vigia é o surgimento de sintomas e de sinais que sugiram doença linfoproliferativa subjacente.
Homem de 56 anos apresenta aumento progressivo do volume abdominal há 1 ano, sem emagrecimento importante. Tomografia mostra grande quantidade de material de baixa atenuação distribuído pela cavidade, com impressões no contorno hepático e esplênico (scalloping), sem ascite livre móvel. Durante laparotomia, encontra-se material gelatinoso difuso. A hipótese diagnóstica é:
Material gelatinoso difuso na cavidade, que comprime e deforma a superfície de fígado e baço em vez de se distribuir livremente, é a apresentação clássica dessa doença, e o impressão no contorno das vísceras acontece porque a mucina é densa e não se move como líquido. A ascite cirrótica engana pelo aumento de volume, mas nela o líquido é livre, muda com o decúbito e não deforma o contorno dos órgãos.
A origem mais frequente do pseudomixoma peritoneal é:
A grande maioria dos casos decorre de neoplasia mucinosa apendicular que se rompe e dissemina células produtoras de mucina pela cavidade. O ovário engana porque frequentemente há acometimento ovariano bilateral que parece primário, mas na maior parte das vezes é secundário à disseminação apendicular, e a imuno-histoquímica ajuda a definir a origem. Reconhecer isso importa porque muda a extensão da cirurgia e o seguimento.
Mulher de 47 anos com massas anexiais bilaterais mucinosas e material gelatinoso na cavidade. A conduta diagnóstica adequada inclui:
Ovários acometidos bilateralmente por doença mucinosa sugerem origem extraovariana, e o apêndice é o sítio primário mais frequente — por isso ele deve ser inspecionado e removido na mesma cirurgia. Encerrar a investigação como tumor ovariano primário engana e resulta em tratamento oncológico direcionado ao órgão errado. A imuno-histoquímica ajuda a definir a origem quando persiste dúvida.
Sobre o índice de carcinomatose peritoneal (PCI), é correto afirmar que:
O índice traduz em número a carga tumoral distribuída pela cavidade e ajuda a estimar a chance de citorredução completa, que é o principal determinante de sobrevida. Confundi-lo com grau histológico engana porque este é avaliado pelo patologista e tem valor prognóstico próprio e independente. O escore de citorredução completa, aferido ao final da cirurgia, complementa essa avaliação.
O tratamento com maior potencial curativo no pseudomixoma peritoneal é:
A doença permanece confinada à cavidade peritoneal por longo tempo, o que torna a remoção macroscópica completa somada à quimioterapia aquecida intracavitária uma estratégia com sobrevida prolongada em centros especializados. Quimioterapia sistêmica isolada engana porque o tumor é pouco vascularizado e responde mal por via venosa. Paracenteses aliviam sintomas mas não modificam a doença.
Sobre o prognóstico do pseudomixoma peritoneal, o fator histológico de maior peso é:
A biologia do tumor separa dois cenários muito diferentes: as formas de baixo grau produzem muita mucina com poucas células e evoluem lentamente, enquanto as de alto grau, sobretudo com células em anel de sinete, comportam-se como carcinomatose agressiva. Usar o volume de mucina como prognóstico engana porque grande volume pode corresponder a doença indolente.
Durante apendicectomia por suspeita de apendicite, encontra-se apêndice com dilatação mucinosa e presença de material gelatinoso ao redor da base apendicular, sem perfuração evidente. A conduta adequada é:
Romper a lesão dissemina mucina e células pela cavidade, transformando uma doença localizada em disseminada, por isso a manipulação cuidadosa é decisiva. O inventário e a coleta de material orientam o tratamento posterior em serviço com experiência em citorredução. Liberar o paciente sem seguimento engana e perde a janela de tratamento de uma doença que evolui silenciosamente por anos.
Paciente com pseudomixoma peritoneal extenso, irressecável, apresenta distensão abdominal importante com desconforto respiratório e saciedade precoce. A conduta paliativa mais adequada é:
Quando a citorredução completa não é possível, retirar parte do material gelatinoso alivia a compressão, melhora a respiração e a alimentação, e é uma medida paliativa legítima, podendo ser repetida. A paracentese convencional engana porque a mucina é espessa e não sai por agulha fina, ao contrário da ascite líquida. Radioterapia abdominal total não tem papel nessa doença.
Sobre a quimioterapia intraperitoneal hipertérmica, é correto afirmar que:
A lógica é tratar a doença microscópica residual quando não há mais implantes visíveis, momento em que a penetração limitada do fármaco na superfície peritoneal ainda é suficiente. Achar que dispensa a cirurgia engana porque a quimioterapia intracavitária penetra apenas alguns milímetros e não elimina nódulos volumosos. O procedimento tem morbidade relevante e é realizado em centros com estrutura adequada.
Sobre o seguimento de pacientes tratados por pseudomixoma peritoneal com citorredução completa, é correto afirmar que:
A evolução lenta da doença faz com que recidivas apareçam tardiamente, e o seguimento prolongado permite identificar candidatos a nova citorredução, com sobrevida ainda favorável. Encerrar o acompanhamento cedo engana porque a ausência de recidiva nos primeiros meses não representa cura em uma doença de curso arrastado.
Paciente apresenta ascite mucinosa volumosa e implantes gelatinosos difusos na cavidade peritoneal, com origem em neoplasia mucinosa apendicular. Qual o diagnóstico?
O acúmulo de material mucinoso gelatinoso na cavidade a partir de neoplasia mucinosa do apêndice caracteriza o pseudomixoma peritoneal, condição de crescimento lento e disseminação por redistribuição na cavidade, que é justamente a indicação mais consagrada da citorredução com quimioterapia intraperitoneal hipertérmica. Confundi-lo com carcinomatose de origem gástrica altera radicalmente o prognóstico e a estratégia. Ascite por hipertensão portal produz líquido claro, sem implantes.
Em quais situações a citorredução associada à quimioterapia intraperitoneal hipertérmica tem indicação mais bem estabelecida?
Os consensos PSOGI apoiam citorredução associada à HIPEC para pseudomixoma peritoneal e mesotelioma peritoneal em pacientes elegíveis. É necessário avaliar extensão, possibilidade de citorredução e condições clínicas. Na metástase peritoneal colorretal, deve-se distinguir o papel da cirurgia do benefício adicional da quimioterapia hipertérmica: a diretriz ASCO não recomenda sua adição rotineira. Origem tumoral, regime e seleção importam; não há indicação universal para qualquer carcinomatose ou para pessoas com comprometimento funcional grave e doença difusa não ressecável.
Mulher de 45 anos com massa ovariana mucinosa volumosa apresenta, no intraoperatório, grande quantidade de material gelatinoso na cavidade peritoneal. Qual a condição e a conduta essencial?
O pseudomixoma peritoneal caracteriza-se pelo acúmulo de material gelatinoso e mucinoso na cavidade, e sua origem mais frequente é uma neoplasia mucinosa do APÊNDICE, e não do ovário — o envolvimento ovariano costuma ser secundário. Por isso a apendicectomia com exame histológico é passo obrigatório diante desse achado, e o tratamento definitivo, em centros especializados, envolve citorredução extensa com quimioterapia intraperitoneal hipertérmica. Tratar como carcinomatose ovariana comum, sem investigar o apêndice, deixa o primário no lugar e compromete todo o planejamento terapêutico.
Homem de 38 anos realiza tomografia por trauma leve e o exame descreve, como achado incidental, lesão cística de paredes finas com 8 cm no mesentério do íleo, de conteúdo homogêneo, sem componente sólido, sem realce e sem septos espessos. Ele é assintomático e o restante do exame é normal. Qual é a conduta adequada?
A lesão descrita tem as características do cisto mesentérico, quase sempre uma malformação linfática, e o tratamento é a exérese completa, que remove todo o epitélio secretor. Quando o cisto compartilha parede com a alça, o segmento intestinal sai junto, e é essa a razão pela qual a operação se planeja com o intestino em mente. Aspiração percutânea esvazia sem retirar o epitélio, e o cisto se enche de novo. Marsupialização e ressecção parcial da parede têm o mesmo defeito e acrescentam risco de infecção do conteúdo. Observação indefinida não se sustenta em lesão de 8 cm, porque o cisto cresce, pode sangrar, infectar e torcer, e a operação eletiva em paciente jovem e hígido é bem mais segura do que a mesma operação em vigência de complicação. Escleroterapia é recurso de exceção em lesões irressecáveis por extensão ou por comprometimento de estruturas nobres, e não é a primeira escolha em cisto isolado do mesentério do íleo.
Mulher de 54 anos tem aumento indolor do volume abdominal há doze meses e hérnia umbilical nova que não reduz. Ao exame, a macicez é difusa e uniforme, inclusive na região periumbilical, não se desloca com a mudança de decúbito e não há faixa de timpanismo central. A ultrassonografia mostra material heterogêneo e ecogênico que não se move com a mudança de posição. A paracentese guiada obteve 3 mL de material espesso e filante após várias tentativas, com gradiente de albumina entre soro e líquido de 0,6 g/dL. Qual é a interpretação e a conduta?
Cada dado do enunciado aponta para material que não escorre. Macicez difusa que não migra com o decúbito e ausência de faixa central de timpanismo significam que não há alças flutuando em líquido; a ultrassonografia com material ecogênico imóvel confirma; e a punção que rende poucos mililitros de material filante depois de várias tentativas é a assinatura da mucina gelatinosa. O gradiente de albumina de 0,6 g/dL afasta hipertensão portal, o que derruba de saída a leitura de ascite por cirrose e o tratamento com restrição de sódio e diurético, que não teria efeito algum. Insistir na punção com agulha mais calibrosa não aumenta o rendimento, porque o problema é a consistência do conteúdo, e cada trajeto novo é um sítio potencial de implante que atrapalha a operação definitiva. Ascite quilosa tem aspecto leitoso e líquido de fluxo livre, não material filante imóvel. E peritonite bacteriana espontânea exige ascite e contagem de neutrófilos elevada no líquido, nada disso descrito aqui, além de ocorrer em hipertensão portal, que o gradiente já excluiu.
Mulher de 49 anos, em diálise peritoneal há nove anos, tem o terceiro episódio de obstrução intestinal em oito meses, sempre com resolução parcial após tratamento clínico. A tomografia mostra alças de delgado agrupadas em bloco na região central do abdome, envolvidas por membrana espessa com calcificações, com tração e angulação, e líquido loculado de permeio. Qual é o diagnóstico e a conduta inicial?
Alças agrupadas em bloco, envolvidas por membrana espessa e calcificada, com obstruções de repetição em paciente com anos de diálise peritoneal, descrevem a peritonite esclerosante encapsulante. O tratamento começa fora da sala de cirurgia: retirar o paciente da diálise peritoneal, garantir suporte nutricional e considerar corticoide e tamoxifeno. A operação, quando necessária, é enterólise cuidadosa com liberação da membrana feita por equipe experiente, porque ressecções intestinais extensas pioram o desfecho. Carcinomatose peritoneal não produz membrana calcificada envolvendo alças em bloco, e citorredução aqui seria uma indicação inventada. Chamar o quadro de brida e ressecar o delgado envolvido é justamente o erro que transforma uma doença de manejo clínico em intestino curto. A tuberculose peritoneal fibroadesiva entra como diferencial, mas tratar empiricamente sem confirmação num quadro que tem causa muito mais provável e uma medida terapêutica imediata disponível não se sustenta. E a mesenterite esclerosante é doença do mesentério do delgado, com massa e halo de gordura, sem membrana envolvendo alças, e manter a diálise peritoneal contraria a primeira medida do caso.
Em hospital geral sem programa de cirurgia peritoneal, uma paciente com doença mucinosa difusa do peritônio de provável origem apendicular tem imagem completa, colonoscopia sem outra lesão e bom estado geral. A equipe discute iniciar o tratamento ali mesmo, com omentectomia, ressecção das áreas de maior volume de mucina e drenagem da cavidade, deixando a complementação para depois. Qual é a conduta correta e a razão que a sustenta?
O tratamento de maior potencial curativo é a citorredução completa associada à quimioterapia intraperitoneal hipertérmica, e ela depende de planos ainda dissecáveis e de uma cavidade não semeada. Ressecções parciais deixam aderências, incisões exploradoras criam sítios de implante e cada procedimento adicional reduz a chance de retirar toda a doença depois. Por isso a tarefa do serviço sem programa de cirurgia peritoneal é completar o estadiamento, corrigir o estado nutricional e encaminhar. A ideia de que reduzir volume agora facilita a operação futura inverte a realidade técnica, porque o que se ganha em volume se perde em plano de dissecção. Omentectomia isolada não trata a doença, que ocupa toda a superfície peritoneal, e ainda compromete um tempo da operação definitiva. Paracenteses seriadas de alívio não retiram mucina gelatinosa e criam trajetos de implante, além de adiar o único tratamento com intenção curativa. E quimioterapia sistêmica não tem papel de indução estabelecido na doença mucinosa de baixo grau, cuja resposta a agentes sistêmicos é pobre.
Mulher de 47 anos é operada por massas anexiais mucinosas bilaterais e, na cavidade, encontra-se material gelatinoso difuso. A tomografia pré-operatória, revista depois, mostrava apêndice cecal alargado com conteúdo de baixa densidade. Qual achado do estudo do material ressecado estabelece a origem apendicular em vez de primário mucinoso de ovário?
Quem resolve a origem é a imuno-histoquímica. Epitélio mucinoso com citoqueratina 20 positiva, citoqueratina 7 negativa ou apenas focal e CDX2 positivo tem padrão digestivo e, no contexto de apêndice alargado com muco, aponta origem apendicular; o primário mucinoso de ovário costuma exibir o padrão inverso, com citoqueratina 7 positiva. Mucina abundante com poucas células colunares apenas descreve o material gelatinoso e é comum às duas origens, sem distinguir nada. Bilateralidade das massas com CA 125 elevado tende a induzir o erro contrário, porque é exatamente o quadro que faz rotular o caso como câncer de ovário, e o marcador sobe em qualquer irritação peritoneal. Ausência de invasão do estroma ovariano é um argumento indireto e frágil, que não substitui a caracterização do fenótipo epitelial. E positividade para receptores hormonais não é o critério que separa as duas origens nesse cenário, além de não ser o padrão esperado do epitélio mucinoso de origem digestiva.
Homem de 55 anos apresenta episódios de rubor facial e diarreia há dois anos e dor abdominal em cólica intermitente. A tomografia mostra massa mesentérica de 4 cm com calcificações centrais e espículas que irradiam para a gordura vizinha, tracionando e angulando alças de delgado, com linfonodos adjacentes de 15 mm sem halo de gordura; revendo o exame, identifica-se nódulo de 1,2 cm na parede do íleo. Qual hipótese esse padrão favorece?
A assinatura descrita é a do tumor neuroendócrino de intestino delgado: a reação desmoplásica que ele provoca no mesentério costuma ser maior do que o próprio tumor, aparece com calcificação central e espículas que irradiam para a gordura, e traciona alças produzindo angulação e cólica. O primário é justamente o pequeno nódulo de parede ileal, muitas vezes só encontrado quando se procura, e o rubor com diarreia completa o quadro. Na mesenterite esclerosante a massa não costuma calcificar, os linfonodos ficam abaixo de um centímetro e mantêm o halo de gordura, e existe uma faixa periférica delimitando o processo, elementos ausentes nesta descrição. O linfoma cursa com linfonodos coalescentes que apagam o plano gorduroso, mas não produz calcificação com espículas radiadas nem parte de um nódulo de parede intestinal. A doença relacionada à imunoglobulina G4 costuma vir acompanhada de outros territórios envolvidos, como pâncreas, via biliar, retroperitônio e glândulas salivares, e não tem esse padrão calcificado e estrelado. E o pseudomixoma peritoneal é acúmulo mucinoso difuso, com coleções de baixa densidade e festonamento de superfícies, não massa sólida calcificada com espículas.
Na sequência da investigação desse mesmo paciente, a tomografia por emissão de pósitrons com fluordesoxiglicose mostra captação difusa e de baixo grau na massa mesentérica, com valor de captação padronizado máximo de 3,1, sem foco nodular no interior da lesão e sem captação em outras cadeias, no baço ou na medula. Qual é a leitura correta desse resultado?
Captação difusa e de baixo grau, sem foco nodular e sem acometimento de outras cadeias, é o padrão esperado do processo fibroinflamatório e afasta muito o padrão do linfoma, que costuma ser nodular, focal e de captação alta, com frequência acompanhado de doença em outros sítios. Isso ordena as hipóteses. O que não se pode fazer é tratar captação baixa como exclusão, porque inflamação crônica capta, e a decisão em jogo é iniciar imunossupressão em alguém que pode ter uma doença linfoproliferativa não diagnosticada. Afirmar que a captação de baixo grau é específica de mesenterite esclerosante ignora que o mesmo padrão aparece em várias condições inflamatórias do mesentério. Chamar de hipermetabólica uma lesão com valor de captação de 3,1 e captação difusa contraria o próprio dado, e indicar ressecção de massa da raiz do mesentério é o erro que troca doença benigna por síndrome do intestino curto. Por fim, a biópsia percutânea guiada por imagem com estudo imuno-histoquímico é justamente o exame indicado nessa situação, e mandar o paciente direto à laparotomia para obter o mesmo fragmento é caro e desnecessário.
Homem de 62 anos investiga dor em mesogastro há sete meses e perda de nove quilos. A tomografia de abdome com contraste mostra massa de 9,4 cm envolvendo a raiz do mesentério do delgado, com densificação da gordura delimitada por faixa capsular hiperdensa; os linfonodos incluídos na massa medem até 8 mm no menor eixo e cada um aparece circundado por uma orla de gordura de baixa densidade; os vasos mesentéricos superiores estão englobados, porém pérvios. Como se deve ler esse conjunto de achados?
Os dois elementos que sustentam a hipótese de mesenterite esclerosante estão descritos no laudo. A orla de gordura preservada em volta de cada linfonodo mostra que o processo envolve e empurra sem infiltrar, exatamente o oposto do comportamento do linfoma, que apaga o plano gorduroso. A faixa periférica hiperdensa delimita o tecido doente e dá ao conjunto aspecto de massa encapsulada. Somam-se a localização na raiz do mesentério do delgado e o tamanho dos linfonodos, abaixo de um centímetro. Dizer que o englobamento vascular sem oclusão é específico de linfoma inverte o achado: no linfoma os vasos ficam espremidos entre massas coalescentes, e envolvimento sem oclusão é justamente o que se vê no processo fibroinflamatório. Linfonodo pequeno não exclui doença linfoproliferativa, que pode cursar com nodos abaixo de um centímetro, e nenhum achado isolado de imagem encerra investigação de massa mesentérica. A faixa periférica não caracteriza tuberculose peritoneal, cuja marca de imagem é espessamento peritoneal liso e realçante com ascite de gradiente de albumina baixo. E carcinomatose peritoneal não se define por tamanho de massa mesentérica, e sim por implantes em superfície serosa com placa omental, em geral com primário conhecido.
Durante herniorrafia umbilical eletiva em mulher de 57 anos, ao abrir o saco herniário, o cirurgião encontra material gelatinoso espesso, de aspecto mucoide, em quantidade moderada, sem sinais inflamatórios e sem alça no interior do saco. O abdome estava globoso no pré-operatório e a paciente referia saciedade precoce há meses. Qual é a conduta correta nesse momento?
Material gelatinoso em saco herniário aberto em adulto é uma das apresentações clássicas da doença mucinosa difusa do peritônio, e o gesto que faz o diagnóstico custa dois segundos: mandar o conteúdo para o patologista. Junto com isso, evitar manipulação extensa da cavidade, porque essa paciente possivelmente precisará de uma citorredução completa mais adiante, e a chance de fazê-la é maior enquanto os planos estão preservados. A investigação segue depois com imagem de abdome, pelve e tórax, colonoscopia e marcadores. Lavar a cavidade e concluir sem enviar material perde o diagnóstico e não trata nada. Ampliar a incisão para retirar todo o material alcançável é justamente a citorredução incompleta que compromete a operação definitiva. Descartar como conteúdo de hérnia crônica ignora que hérnia crônica não contém mucina, e a saciedade precoce com abdome globoso já apontava para doença da cavidade. E instalar dreno cria um trajeto por onde o material se implanta, sem qualquer benefício terapêutico.
Um paciente de 58 anos tem massa fibroinflamatória confirmada por biópsia na raiz do mesentério do delgado, com trânsito intestinal preservado, sem vômitos e sem sinais de sofrimento de alça. Um dos cirurgiões propõe laparotomia com ressecção da massa, argumentando que se trata de doença benigna e localizada. Qual é a razão anatômica que sustenta recusar essa proposta?
A recusa não é filosófica, é geométrica. A doença nasce na raiz do mesentério do delgado, exatamente onde a artéria e a veia mesentéricas superiores emergem para irrigar do duodeno distal ao cólon transverso. Ressecar aquele bloco levaria o pedículo junto e obrigaria a retirada de metros de intestino, trocando uma doença benigna, tratável com corticoide, por síndrome do intestino curto. Como não há obstrução mecânica nem sofrimento de alça, nada no caso pede sala de cirurgia. A aderência ao retroperitônio com necessidade de nefrectomia não descreve a topografia da lesão nem a razão da abstenção. O tronco celíaco irriga fígado, baço e estômago, mas a massa da mesenterite esclerosante se localiza na raiz do mesentério do delgado, território da mesentérica superior. Dizer que o mesentério não tem drenagem linfática própria é falso, e a densa rede linfática mesentérica é precisamente o que explica os linfonodos incluídos na massa. O ducto torácico se forma no retroperitônio alto e não é a estrutura em risco descrita nessa situação, e ascite quilosa não é o motivo pelo qual a ressecção é recusada.
Homem de 66 anos, que trabalhou trinta anos na manutenção de caldeiras com isolamento de amianto, apresenta dor abdominal difusa e aumento do volume do abdome há cinco meses. A tomografia mostra ascite de moderado volume, espessamento peritoneal sólido e nodular, com placa omental, sem coleções gelatinosas e sem festonamento das superfícies do fígado e do baço. O CA 125 está elevado e a endoscopia e a colonoscopia são normais. Qual é a hipótese principal?
Exposição prolongada ao amianto, dor abdominal, ascite e espessamento peritoneal sólido e nodular com placa omental compõem o quadro do mesotelioma peritoneal, e a ausência de primário digestivo à endoscopia e à colonoscopia reforça a hipótese. O CA 125 elevado engana com frequência, porque sobe em praticamente qualquer irritação peritoneal. O pseudomixoma se caracteriza por coleções gelatinosas de baixa densidade que não se deslocam e por festonamento das superfícies do fígado e do baço, achados explicitamente ausentes aqui. A mesenterite esclerosante produz massa na raiz do mesentério do delgado, com halo de gordura e faixa delimitante, e não espessamento nodular difuso de toda a serosa com ascite. A peritonite esclerosante encapsulante cursa com alças agrupadas em bloco envolvidas por membrana espessa e quadro obstrutivo de repetição, tipicamente após anos de diálise peritoneal. E a tuberculose peritoneal costuma produzir espessamento peritoneal liso e realçante, com ascite de gradiente de albumina baixo, alta celularidade linfocítica e adenosina deaminase elevada, achados que o enunciado não traz. Em qualquer caso, quem confirma é a biópsia com estudo imuno-histoquímico.
Homem de 62 anos procura ambulatório com aumento progressivo do volume abdominal há seis meses, sem dor importante, sem febre e sem perda ponderal expressiva. Ao exame apresenta abdome globoso com macicez móvel de decúbito, sem circulação colateral, sem estigmas de hepatopatia crônica e sem edema de membros inferiores. A paracentese mostra líquido de aspecto gelatinoso, com gradiente de albumina baixo, citologia com células mucinosas e a tomografia evidencia implantes com aspecto gelatinoso e festonamento hepático. A hipótese diagnóstica é:
Ascite gelatinosa com gradiente de albumina baixo, células mucinosas e festonamento das superfícies hepáticas caracteriza pseudomixoma peritoneal, geralmente originado de neoplasia apendicular mucinosa, tratado em centros especializados com citorredução e quimioterapia intraperitoneal. A ascite por hipertensão portal apresenta gradiente elevado e estigmas de hepatopatia. A tuberculose peritoneal cursa com febre, sudorese e adenosina desaminase elevada. A insuficiência cardíaca produz ascite com gradiente elevado, associada a turgência jugular e edema.
Uma mulher de 56 anos realizou tomografia por dor lombar e o exame revelou estrutura tubular cística de 4 cm na topografia do apêndice cecal, com paredes finas, calcificações murais e conteúdo homogêneo. Ela está assintomática, sem febre, dor em fossa ilíaca direita ou alteração do hábito intestinal, e a colonoscopia recente não mostrou lesões colônicas. A lesão não apresenta nódulos murais nem realce sólido pelo contraste, e os marcadores tumorais estão normais, sem ascite ou implantes peritoneais à tomografia. Qual é a conduta mais adequada?
A mucocele apendicular pode corresponder a neoplasia mucinosa e deve ser ressecada com técnica que evite ruptura, pois o extravasamento de mucina implanta células e leva a pseudomixoma peritoneal, com prognóstico ruim. Seguimento apenas por imagem mantém o risco de ruptura e de progressão. Punção percutânea é contraindicada exatamente por disseminar o conteúdo mucinoso. Antibiótico não trata lesão cística neoplásica e apenas retarda a conduta correta.
Mulher, 47 anos, com dor abdominal e distensão progressiva há 6 meses, associada a aumento do volume abdominal. Tomografia: grande quantidade de material gelatinoso na cavidade peritoneal, com festonamento da superfície hepática e esplênica, e lesão apendicular de 2 cm. Marcadores: CEA 18 ng/mL (VR < 5). A laparoscopia diagnóstica revela implantes mucinosos difusos no peritônio, sem obstrução intestinal. Qual o diagnóstico e a conduta de referência?
Material gelatinoso difuso com festonamento das superfícies hepática e esplênica, associado a lesão apendicular, define pseudomixoma peritoneal, geralmente originado de neoplasia mucinosa do apêndice, e o tratamento de referência é a citorredução completa com quimioterapia intraperitoneal hipertérmica em centro especializado. A carcinomatose gástrica não produz o aspecto gelatinoso característico e teria lesão primária no estômago. A tuberculose peritoneal cursa com ascite exsudativa rica em linfócitos e ADA elevado, sem implantes mucinosos. A ascite cirrótica é líquida, com gradiente de albumina alto, e não festona as vísceras. O mesotelioma peritoneal apresenta espessamento sólido do peritônio, e a radioterapia abdominal total não é seu tratamento.
Mulher, 52 anos, submetida a laparotomia por massa ovariana direita multiloculada de 18 cm. No intraoperatório, encontra-se grande quantidade de material gelatinoso na cavidade peritoneal, aderido ao epíplon e às alças. O ovário contralateral é normal e o útero não apresenta lesões. A congelação indica neoplasia mucinosa. A paciente não apresentava sintomas digestivos no pré-operatório e a colonoscopia prévia era normal. Qual conduta intraoperatória adicional é obrigatória nesse cenário?
O pseudomixoma peritoneal associado a neoplasia mucinosa tem, na maioria das vezes, origem em neoplasia mucinosa do apêndice, de modo que a apendicectomia com estudo histopatológico é obrigatória no mesmo tempo cirúrgico para definir o sítio primário. A linfadenectomia sistemática não altera a conduta nos tumores mucinosos com esse padrão de disseminação peritoneal. A histerectomia radical com parametrectomia é procedimento do câncer de colo uterino e não tem lugar aqui. A gastrectomia subtotal seria mutilante e sem indicação, já que a investigação do estômago se faz por endoscopia. A nefrectomia profilática não guarda relação com a doença e apenas acrescentaria morbidade.
Qual avaliação deve preceder aceitar a mesma estratégia para qualquer carcinomatose?

Benefício de citorredução e tratamentos intraperitoneais depende de seleção e doença específica.
Se doença extensa não puder ser completamente tratada e houver alto risco operatório, qual plano pode ser mais apropriado?

Objetivos e opções devem ser individualizados, mantendo cuidado ativo e alívio de sintomas.
Por que estado funcional e desnutrição modificam a decisão?

Avaliação deve distinguir fatores modificáveis, reserva funcional e objetivos de cuidado.
Qual estrutura contém os implantes descritos?

Peritônio reveste a cavidade abdominal e órgãos intraperitoneais.
Qual achado representa líquido na cavidade abdominal?

Ascite é acúmulo de líquido peritoneal.
Homem de 62 anos, assintomático, realiza tomografia de abdome para investigação de dor lombar. O radiologista descreve, na raiz do mesentério do delgado, massa de densidade de gordura levemente aumentada, com pseudocápsula periférica hiperdensa, halo de gordura preservada ao redor dos vasos mesentéricos e pequenos linfonodos individualizados, todos menores que 1 cm no menor eixo. Não há linfonodomegalias retroperitoneais, esplenomegalia, massas parenquimatosas ou espessamento de alças. Exame físico e laboratório de rotina normais. Qual é a conduta mais apropriada?
Os três sinais tomográficos descritos (halo de gordura preservada, pseudocápsula e linfonodos menores que 1 cm) compõem a tríade clássica de mesenterite esclerosante/paniculite mesentérica, doença fibroinflamatória benigna, geralmente de curso indolente. Em pacientes assintomáticos, com achado incidental e sem características que sugiram malignidade (linfonodos volumosos, coalescência, apagamento do plano gorduroso, sinal do sanduíche vascular ou espículas com calcificação), a conduta recomendada é vigilância clínica e por imagem, sem intervenção. Tratamento farmacológico só está indicado em pacientes sintomáticos, e biópsia é reservada a apresentações atípicas com suspeita de malignidade. Referências: Sclerosing mesenteritis: clinical features, treatment and outcome — https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3128041/ Sclerosing mesenteritis: diagnostic and therapeutic considerations — https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC7677273/
Homem de 60 anos apresenta dor abdominal persistente e episódios recorrentes de suboclusão intestinal há 8 meses, com perda ponderal de 6 kg. A tomografia mostra massa mesentérica de 9 cm, com halo de gordura, pseudocápsula e linfonodos menores que 1 cm, sem sinais claros de malignidade, mas com estenose focal de alça jejunal contígua. Foi realizada biópsia percutânea guiada por tomografia que confirmou mesenterite esclerosante, sem sinais de linfoma. O paciente mantém quadro suboclusivo apesar de dieta fracionada. Qual é a conduta terapêutica inicial mais apropriada?
Em paciente sintomático com diagnóstico histológico confirmado de mesenterite esclerosante, a terapia de primeira linha é a combinação de corticosteroide (prednisona) e tamoxifeno, com base em séries retrospectivas e extrapolação de outras doenças fibrosantes. Cirurgia radical geralmente é inviável pelo envolvimento íntimo com os vasos mesentéricos superiores e deve ser reservada a obstrução persistente refratária ao tratamento clínico, e ainda assim habitualmente limitada a derivações. Rituximabe e imunossupressores mais potentes ficam para casos refratários. Radioterapia não é padrão para doença benigna fibroinflamatória. Referências: Sclerosing mesenteritis: clinical features, treatment and outcome — https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3128041/ Sclerosing mesenteritis: diagnostic and therapeutic considerations — https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC7677273/
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Sem consultar nada, escreva: (1) os dois sinais tomográficos que sustentam a paniculite mesentérica, mais o tamanho esperado dos linfonodos e a localização típica; (2) as quatro diferenças de imagem entre paniculite e linfoma de mesentério; (3) a razão anatômica pela qual a massa da raiz do mesentério não se retira, e as duas situações que abrem exceção; (4) os cinco achados que separam mucina de líquido livre no exame físico e na imagem; (5) o perfil imuno-histoquímico que aponta origem apendicular em vez de ovariana; (6) as três coisas que não se fazem antes de encaminhar um pseudomixoma, e o motivo operacional de cada uma; (7) o que muda quando a lesão está abaixo da reflexão peritoneal.
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Pegue a paciente do caso resolvido — 54 anos, doze meses de aumento indolor do abdome, hérnia umbilical que não reduz, macicez que não se desloca, ultrassonografia com material ecogênico imóvel, tomografia com festonamento hepático e esplênico e apêndice alargado — e mude um dado por vez, dizendo o que quebra em cada mudança. E se a macicez se deslocasse com o decúbito e houvesse faixa de timpanismo central? E se ela tivesse hepatopatia por álcool e gradiente de albumina de 1,6 g/dL? E se a tomografia mostrasse espessamento peritoneal sólido e nodular sem material gelatinoso, em paciente que trabalhou trinta anos com telha de amianto? E se a punção trouxesse líquido linfocítico com adenosina deaminase de 68 U/L? E se, na mesma paciente, houvesse massas anexiais mucinosas bilaterais? E se ela chegasse hoje com vômitos, parada de eliminação de gases e ponto de transição na tomografia? Em seguida, escreva a lista do que você faria antes de encaminhar, e a lista do que se recusaria a fazer, com o motivo de cada item das duas listas.
Agora atenda
Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.
Você está no ambulatório de cirurgia geral de um hospital de média complexidade. Chega uma auxiliar de limpeza de 54 anos, que adiou a consulta por medo e por não poder faltar ao serviço, com o abdome crescendo há um ano e um caroço novo no umbigo que não abaixa. Ela minimiza os sintomas, fala pouco de si e está incomodada porque as pessoas perguntam se ela está grávida. Conduza o atendimento: caracterize a velocidade e o padrão do aumento do volume abdominal, investigue sinais de hepatopatia, etilismo e hepatite prévia, caracterize o abaulamento umbilical quanto ao tempo, à redutibilidade e à dor, investigue saciedade precoce, hábito intestinal, perda de peso, sangramento pós-menopausa, febre e sudorese noturna, avalie a macicez móvel de decúbito e o piparote narrando o que procura, palpe a hérnia e a fossa supraclavicular esquerda, diga quais exames pede e o que espera de cada um, explique em linguagem acessível por que o líquido não sai com uma punção simples, e conclua com o diagnóstico, os diferenciais e o encaminhamento, dizendo também o que não deve ser feito antes dele. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.
