Cirurgia GeralCirurgia do Aparelho Digestivo

Obesidade com refluxo: a comorbidade que escolhe a operação

O refluxo autoriza operar a obesidade com índice menor e, na mesma consulta, restringe qual das duas operações pode ser feita.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Paciente no décimo oitavo mês após bypass gástrico em Y de Roux, com boa perda de peso, comparece à consulta de rotina assintomático. Pergunta se pode suspender o inibidor de bomba de prótons que vem tomando desde a alta, já que não sente azia. Qual é a orientação correta e sua justificativa?

02

Como esse tema cai

Este capítulo trata do adulto que chega ao ambulatório com duas doenças ao mesmo tempo — obesidade com indicação cirúrgica e refluxo gastroesofágico — e da decisão que só existe quando as duas se encontram: qual operação. Não trata de quem tem indicação de operar a obesidade, que tem capítulo próprio nesta apostila, nem da escolha da válvula antirrefluxo no doente sem obesidade, que tem outro, nem da hérnia paraesofágica, que tem um terceiro. O que fica aqui é o cruzamento: o refluxo como comorbidade que autoriza a cirurgia da obesidade e, ao mesmo tempo, como condição que restringe a operação que pode ser oferecida.

A entrada é por ato, não por tema da matriz, e isso precisa ficar escrito. Os treze temas previstos para esta apostila já estão escritos ou já foram fechados com número por quem passou antes; o que sobrou é uma decisão que atravessa os vizinhos sem morar em nenhum. O capítulo de indicação bariátrica declara, no próprio recorte, que não descreve passo cirúrgico e remete a operação a outro capítulo que não existia; ele escreve os nomes das técnicas trinta vezes e a palavra refluxo quatro, todas dentro da lista de comorbidades da norma. O capítulo de hérnia de hiato escreve refluxo sessenta e seis vezes e o nome de uma técnica bariátrica uma vez, na hipótese de reoperação. O capítulo cirúrgico do refluxo não escreve manga nem gastrectomia vertical nenhuma vez. Nas questões de trilha de prova classificadas em cirurgia, dezoito nomeiam uma técnica bariátrica e seis a trazem como resposta correta; em três delas a decisão medida é exatamente esta, e a resposta correta é o desvio em Y de Roux, em duas com a correção do defeito hiatal escrita junto. Seis corretas é pouco, e vale dizer sem rodeio: o que sustenta o capítulo não é o peso, é o fato de a decisão ser obrigatória e não ter dono.

A régua documental é assimétrica, e essa assimetria é o eixo. A norma brasileira que autoriza a operação admite o refluxo como motivo para operar e não diz mais nada sobre o esôfago. O documento internacional que fixa as indicações também não. Quem decide o que medir antes e o que a medida muda é um documento de sociedade do esôfago, que não é norma no Brasil e cujo próprio resumo perde, na travessia para a tabela, o adjetivo que a conclusão do texto considera indispensável.

03

O que muda decisão

O refluxo entra como motivo de operar e sai sem dono

A resolução brasileira em vigor organiza a elegibilidade em três faixas. Índice de massa corporal igual ou maior que quarenta autoriza a operação independentemente de comorbidade. Entre trinta e cinco e quarenta, é preciso pelo menos uma doença agravada pela obesidade e que melhore com a perda de peso. Abaixo disso, na faixa que a norma chama de obesidade classe um, a autorização deixa de ser genérica e passa a depender de uma lista fechada de oito condições: diabetes tipo dois, doença cardiovascular grave com lesão em órgão-alvo, doença renal crônica precoce no diabético, apneia do sono grave, doença gordurosa hepática não alcoólica com fibrose, afecções com indicação de transplante, osteoartrose grave e refluxo gastroesofágico com indicação cirúrgica. Nas duas primeiras faixas a lista não vale: qualquer doença agravada pela obesidade serve, e o refluxo é uma delas.

Esse último item é o que abre este capítulo. Ele diz que existe um doente com obesidade leve para os padrões cirúrgicos que se torna elegível por causa do esôfago — não pelo peso, não pelo diabetes, não pela apneia. O motivo declarado da operação é o refluxo. E é exatamente aí que a norma para: a palavra refluxo aparece uma única vez no anexo inteiro, nessa lista, e nunca mais. Hiato, hérnia hiatal, esofagite, Barrett, pHmetria e manometria não aparecem nenhuma vez. A endoscopia digestiva alta, que é o exame que documentaria a indicação cirúrgica que a própria lista exige, não é pedida em lugar algum do texto; as menções a endoscopia no documento são o balão intragástrico e a gastroplastia endoscópica, oferecidos como tratamento da obesidade, não como investigação.

O documento internacional que fixa as indicações se comporta do mesmo modo. Ele inclui a doença do refluxo gastroesofágico na lista de comorbidades relacionadas à obesidade cujo insucesso clínico justifica operar a obesidade classe um, e menciona o refluxo outra vez entre os motivos de cirurgia revisional — isto é, entre as complicações que levam a reoperar quem já foi operado. Fora dessas duas linhas, o corpo do texto não escreve esofagite, hérnia hiatal, Barrett, endoscopia nem manometria.

A consequência prática é direta e cabe na consulta. Quando o motivo declarado da elegibilidade é o refluxo, a documentação que autoriza a operação é a mesma que vai escolher a operação — e ela tem de existir antes de a data ser marcada. Escreva no prontuário o que sustenta a expressão indicação cirúrgica: o tempo de sintoma, a dependência do inibidor de bomba, o achado endoscópico com o grau, o tamanho da hérnia se houver, e o resultado da monitorização do refluxo quando o quadro não for erosivo. Um encaminhamento que diz apenas refluxo refratário autoriza a cirurgia e não ajuda a escolher qual.

Por que a manga piora o que a obesidade já piorava

A obesidade é fator de risco graduado para refluxo, e o gradiente é medido. Comparados a quem tem peso normal, o risco de sintomas de refluxo é cerca de uma vez e meia maior na faixa de sobrepeso e quase o dobro acima de trinta — uma relação dose-resposta, e não um efeito de limiar. O mecanismo é o aumento do gradiente de pressão entre o abdome e o tórax, que empurra a junção esofagogástrica para cima e favorece a hérnia. Quem opera a obesidade, portanto, opera um esôfago que já vinha sob pressão.

A gastrectomia vertical acrescenta a essa pressão três mudanças mecânicas, e as três empurram no mesmo sentido. A ressecção do fundo gástrico desfaz o ângulo de His, que é o componente anatômico da barreira antirrefluxo. O tubo resultante é estreito, pouco complacente e de esvaziamento mais lento contra o piloro intacto, o que eleva a pressão dentro do estômago remanescente. E a dissecção da região do hiato, quando o pilar não é reconstruído, solta as fixações que ajudavam a manter a junção esofagogástrica abaixo do diafragma. Nada disso é complicação: é o próprio desenho da operação.

O que se mede depois acompanha o mecanismo. Uma metanálise reunindo mais de dez mil doentes operados com gastrectomia vertical encontrou aumento da prevalência de refluxo depois da operação. Revisões que compararam a monitorização do refluxo antes e depois mostram, na maioria dos estudos, aumento do escore de DeMeester e do tempo de exposição ácida após a manga, com taxas de refluxo de novo que variam amplamente entre as séries — variação que é ela própria um dado, porque mostra dependência de técnica e de seleção, e não um efeito fixo da operação.

Daí não se conclui que a manga esteja proscrita. Conclui-se que, no doente com esôfago já doente, ela deixa de ser uma escolha neutra. E há uma inversão que a prática confirma: quem operou por refluxo e recebeu a manga pode terminar com o mesmo sintoma pelo qual foi operado. Diante de obesidade com refluxo documentado, ofereça a operação que subtrai o refluxo em vez da que o soma, e reserve a gastrectomia vertical para quando outra razão clínica a torne preferível — dizendo ao doente, por escrito, qual é essa razão.

O desvio em Y de Roux trata as duas doenças pelo mesmo gesto

O bypass gástrico em Y de Roux resolve o refluxo por uma razão anatômica simples: ele retira o ácido do caminho. A bolsa gástrica construída é pequena e quase desprovida de células parietais, de modo que o volume de secreção ácida que pode alcançar o esôfago cai a quase nada. O estômago excluído continua secretando, mas drena para longe, e a alça alimentar em Y afasta também a bile do coto duodenal. O esôfago passa a receber pouco ácido e nenhuma bile.

Some-se a isso o efeito da própria perda de peso sobre o gradiente de pressão abdominal, que é o mecanismo pelo qual a obesidade agrava o refluxo, e o resultado é uma operação que trata as duas doenças com o mesmo gesto cirúrgico. É por isso que, nas séries que comparam as duas técnicas, a resolução do refluxo depois do desvio é várias vezes maior que depois da manga, e a necessidade de conversão para outra operação é menor. Entre os operados com manga, a presença de refluxo antes da cirurgia se associa a mais complicações, mais eventos adversos digestivos e mais reoperação.

Há um preço, e ele não é pequeno nem se paga só uma vez. O desvio cria uma anastomose gastrojejunal exposta ao ácido residual, e com ela o risco de úlcera marginal — motivo pelo qual se recomenda inibidor de bomba de prótons no pós-operatório de quem foi submetido a desvio gástrico ou a derivação biliopancreática, como profilaxia. O desvio também torna o estômago excluído inacessível à endoscopia convencional e impõe reposição vitamínica prolongada. Nenhuma dessas coisas é argumento contra a operação no doente certo; todas são coisas que o doente precisa saber antes de assinar o consentimento.

Diante de obesidade com indicação cirúrgica e refluxo documentado, ofereça o desvio em Y de Roux como primeira escolha, explique a úlcera marginal e a necessidade de inibidor de bomba, e registre que a escolha se apoia na doença do esôfago e não apenas no peso.

Esquema do trato digestivo alto reconstruído: pequena bolsa gástrica ligada a uma alça de delgado, estômago remanescente excluído do trânsito e a alça das secreções juntando-se abaixo, em configuração de ípsilon.
A reconstrução em ípsilon separa o alimento das secreções e deixa o ácido fora do caminho: a mesma anatomia que promove a perda de peso retira o refluxo do esôfago, o que explica por que uma só operação resolve as duas doenças.

A endoscopia que nenhuma norma pediu, e que decide a operação

Se a norma brasileira não pede endoscopia antes de operar a obesidade e o documento internacional de indicações também não, quem pede? O posicionamento da sociedade do esôfago, publicado em dois mil e vinte e quatro, abre exatamente por aí: a endoscopia digestiva alta deve ser considerada em todos os candidatos a cirurgia bariátrica. A recomendação é condicional e apoiada em evidência de baixa qualidade, mas a razão é de prevalência — achados capazes de mudar a conduta clínica ou cirúrgica aparecem em uma fração relevante tanto de sintomáticos quanto de assintomáticos.

O mesmo documento fecha uma porta que o candidato costuma deixar aberta. O esofagograma contrastado não serve para diagnosticar refluxo antes de um procedimento bariátrico; essa é a única recomendação forte com evidência de qualidade moderada do conjunto. O exame contrastado volta a ter utilidade em outra pergunta: identificar hérnia hiatal quando há suspeita clínica. Separar as duas perguntas é o que impede pedir um exame de deglutição para responder algo que ele não responde.

Quando o sintoma é típico e persistente, ou quando as manifestações são atípicas — tosse, rouquidão, dor torácica não cardíaca —, a monitorização com pH-impedanciometria entra com uma finalidade declarada no próprio enunciado da recomendação: auxiliar a escolha entre a gastrectomia vertical e o desvio em Y de Roux. Não é exame de curiosidade fisiológica nem de confirmação acadêmica. É o exame que troca a operação. A impedância acrescenta ao pH a detecção dos refluxos fracamente ácidos e alcalinos, que o eletrodo de pH sozinho não vê.

Peça endoscopia digestiva alta em todo candidato à cirurgia da obesidade, descreva o achado com o grau da esofagite e o tamanho da hérnia, e acrescente a monitorização do refluxo quando o sintoma existir sem esofagite erosiva que o explique.

Dois centímetros de hiato, e a operação passa a ter duas partes

A hérnia hiatal é comum no candidato à cirurgia bariátrica: está presente em perto de quatro em cada dez doentes com obesidade grave. Ela não é um detalhe anatômico incidental — é o mecanismo pelo qual a junção esofagogástrica perde a competência, e é o achado que transforma uma operação em duas.

A recomendação do documento do esôfago tem um número dentro: identificar antes e corrigir hérnia hiatal maior que dois centímetros pode melhorar os desfechos de quem vai a um procedimento bariátrico. Foi a única das dez declarações a reunir concordância unânime do painel, ainda que o grau permaneça condicional por limitação da evidência. O que a evidência mostra é consistente na direção: reunindo estudos randomizados e não randomizados, a gastrectomia vertical acompanhada de correção do hiato se associou a menos sintoma de refluxo e menos esofagite erosiva do que a manga isolada, com cerca de dois terços de remissão sintomática e uma minoria de refluxo de novo e de recidiva da hérnia. A chance de remissão sintomática foi cerca de três vezes maior quando o hiato foi corrigido.

Duas leituras precisam andar juntas. A primeira: corrigir o hiato melhora o resultado da manga, e é por isso que a correção não é um adorno técnico, mas parte da indicação. A segunda: melhorar não é igualar — nas mesmas revisões, a incidência de refluxo de novo não diferiu de forma significativa entre corrigir e não corrigir o hiato. Ou seja, a hiatoplastia trata o que já existe melhor do que previne o que ainda não existe, e prometer ao doente que ela transforma a manga em operação antirrefluxo é prometer o que a evidência não entrega.

Meça a hérnia no exame pré-operatório e escreva o número. Acima de dois centímetros, programe a correção do hiato dentro da mesma operação, seja qual for a técnica escolhida, e explique ao doente que a hiatoplastia não converte a manga na operação antirrefluxo que o desvio é.

Refluxo silencioso: o nome que a régua usa, e o que ele mede

A expressão refluxo silencioso, no documento do esôfago, não significa sintoma leve. Significa evidência objetiva de refluxo sem sintoma nenhum: esofagite erosiva de graus B, C ou D da classificação de Los Angeles, ou exposição ácida esofágica anormal na monitorização ambulatorial, num doente que não se queixa. É uma definição de exame, não de queixa — e por isso nenhuma anamnese, por melhor que seja, a alcança.

A razão de a definição existir está no que acontece depois. Num dos dois estudos que sustentam a recomendação, dois terços dos doentes que tinham refluxo silencioso assim definido antes da operação tornaram-se sintomáticos depois da gastrectomia vertical. O outro estudo, ao procurar fatores de risco para refluxo um ano após cirurgia bariátrica, identificou dois preditores independentes: ter sido submetido à manga e ter esofagite erosiva de graus B, C ou D no exame anterior à operação. O achado que não produzia sintoma antes produziu depois, e o desenho da operação foi metade da explicação.

Isso muda a pergunta que se faz na consulta. Não basta perguntar se o doente tem pirose; é preciso ter olhado o esôfago dele. Um candidato assintomático com esofagite de grau C encontrada na endoscopia de rotina não é um candidato sem refluxo — é um candidato com refluxo que ainda não avisou. E é justamente sobre ele que a operação escolhida decide o futuro sintomático.

Peça o exame endoscópico mesmo sem queixa, leia o grau da esofagite e trate esse grau como informação cirúrgica, não como achado incidental. Diante de esofagite de graus B, C ou D em doente assintomático, discuta o desvio em Y de Roux e registre a conversa; diante de queixa sem esofagite, complete com a monitorização do refluxo antes de decidir.

A recomendação forte e o adjetivo que o resumo perdeu

A oitava declaração do documento do esôfago é a única que decide técnica, e é onde o texto se contradiz consigo mesmo. Na tabela-resumo, e no cabeçalho da própria declaração, lê-se que a gastrectomia vertical não é recomendada para doentes com refluxo silencioso — recomendação forte, evidência de baixa qualidade, concordância de nove em cada dez painelistas. Duas dezenas de linhas abaixo, a conclusão da mesma seção diz outra coisa: a manga não é recomendada para doentes com refluxo silencioso grave.

O adjetivo não é ornamento, e o próprio parágrafo explica por quê. Os dois estudos que sustentam a declaração definiram refluxo silencioso por esofagite de graus B, C ou D ou por exposição ácida anormal; o grau A ficou de fora dos dois. E o texto escreve, com todas as letras, que trocar a operação apenas pela existência de esofagite leve não é razoável. A aritmética da própria seção, portanto, sustenta a frase com adjetivo e não sustenta a frase sem ele: a recomendação forte, como aparece na tabela, alcança um doente que a evidência citada nunca estudou.

Não é um erro de digitação repetido, que seria apenas descuido: o adjetivo aparece uma vez, exatamente no lugar em que o autor conclui, e falta nos dois lugares em que o leitor apressado vai buscar a regra. E há, na mesma tabela, uma segunda oscilação de alcance: a declaração seguinte pede endoscopia em até cinco anos para afastar Barrett — o resumo diz após cirurgia bariátrica, o cabeçalho da declaração diz após gastrectomia vertical, e o fecho do parágrafo volta a dizer em todos os casos.

A conduta que sobrevive à leitura das duas versões é a mesma, e é ela que se leva para o doente: esofagite de graus B, C ou D sem sintoma pesa contra a manga e a favor do desvio; esofagite de grau A, isolada, não basta para trocar a operação, e o que decide nesse caso é o conjunto — hérnia, exposição ácida, sintoma, motilidade e as demais comorbidades.

Válvula ou desvio: quando a obesidade troca a operação antirrefluxo

A decisão tem um espelho, e o espelho aparece quando o doente chega pela porta do refluxo e não pela da obesidade. Um adulto com refluxo dependente de inibidor de bomba, com esofagite erosiva e regurgitação, é candidato natural a uma válvula antirrefluxo. Se esse mesmo adulto tem obesidade que já preenche critério cirúrgico, a operação que resolve o refluxo deixa de ser a válvula.

O raciocínio é mecânico, não estatístico. A fundoplicatura reconstrói uma barreira e depende de que a pressão abdominal não a desfaça; a obesidade é justamente o que mantém essa pressão elevada, e o excesso de peso persiste depois da operação porque a válvula não trata a obesidade. O desvio em Y de Roux, ao contrário, subtrai o ácido e reduz o peso, atacando os dois termos do problema. A norma brasileira ampara esse caminho por um lado inesperado: o refluxo com indicação cirúrgica é uma das oito condições que autorizam operar a obesidade já na faixa de trinta a trinta e quatro vírgula nove, faixa em que o doente não seria elegível sem ele.

O mesmo raciocínio governa a falha. Quando uma válvula se desfaz num doente com obesidade, a reconstrução simples da válvula tende a falhar de novo pelo mesmo motivo que a fez falhar da primeira vez, e a conversão para reconstrução em Y é a saída que troca o mecanismo em vez de repeti-lo. E quando a manga é que falhou, com refluxo de novo intratável, a conversão para desvio é a operação de resgate — o que explica por que o refluxo aparece, nos documentos internacionais, entre os motivos declarados de cirurgia revisional.

Antes de indicar uma válvula antirrefluxo, calcule o índice de massa corporal e verifique a lista de comorbidades. Se o doente já é elegível à cirurgia da obesidade, ofereça o desvio em Y de Roux como a operação que trata o refluxo, e encaminhe para o serviço que faz as duas coisas em vez de tratar as duas doenças em tempos separados.

Motilidade: a manometria que se pede por suspeita, não por rotina

A sexta declaração do documento do esôfago tem um gatilho e não uma rotina: a manometria de alta resolução deve ser incluída na avaliação pré-operatória de quem vai a um procedimento bariátrico em caso de suspeita de dismotilidade esofágica. A concordância foi alta, o grau é condicional e a evidência, de qualidade muito baixa — o que significa que o exame não se pede a todos, e sim a quem deu motivo.

O motivo é clínico e reconhecível. Disfagia que não se explica por estenose, regurgitação de alimento não digerido, dor torácica sem causa cardíaca e sensação de parada do alimento apontam para distúrbio motor, e o candidato à cirurgia bariátrica não está protegido de tê-lo. Num país em que a acalasia tem duas causas frequentes, essa possibilidade não é remota, e ela é a razão pela qual disfagia não pode ser atribuída ao peso sem investigação.

A consequência cirúrgica é grave nos dois sentidos. Operar uma manga em esôfago com peristalse ausente ou gravemente comprometida cria um tubo de esvaziamento lento a jusante de um esôfago que já não empurra, e o resultado previsível é disfagia e estase. E qualquer operação que estreite o hiato — hiatoplastia incluída — piora o quadro de quem já tem obstrução funcional na junção. A manometria, aqui, não descreve: ela veta.

Pergunte por disfagia, regurgitação de alimento não digerido e dor torácica em toda avaliação pré-operatória. Havendo qualquer um deles, peça manometria de alta resolução antes de escolher a técnica, e não trate o sintoma como consequência do peso enquanto o exame não voltar.

Depois da operação: o exame que se marca sem sintoma

O seguimento do esôfago não termina na alta cirúrgica, e é aqui que a decisão tomada antes cobra o preço. O documento do esôfago separa duas situações. A primeira é reativa: sintoma digestivo alto novo depois de cirurgia bariátrica pede endoscopia, porque é assim que se identificam a esofagite, a úlcera marginal, a estenose da anastomose e a bolsa dilatada. A segunda é ativa e não depende de queixa: endoscopia em até cinco anos, para afastar esôfago de Barrett em quem foi operado.

A lógica da segunda é a que interessa. Se a operação escolhida aumenta a exposição ácida, e se o doente pode ser assintomático justamente porque o refluxo já era silencioso antes, esperar a queixa é esperar o dado que aquele doente nunca dá. A vigilância se justifica por conhecer a fisiologia da operação realizada, não por gravidade percebida.

A profilaxia farmacológica segue a mesma lógica de mecanismo. Recomenda-se inibidor de bomba de prótons no pós-operatório de quem foi submetido a desvio gástrico ou a derivação biliopancreática, com o alvo declarado de prevenir úlcera marginal na anastomose. É uma indicação que nasce da anatomia criada, não do sintoma referido, e explicá-la ao doente é o que impede que ele suspenda o remédio por se sentir bem.

Marque a endoscopia de seguimento no momento da alta, e não quando o doente reclamar. Diante de sintoma digestivo alto novo em operado, examine em vez de tratar empiricamente; e em quem recebeu desvio, mantenha o inibidor de bomba pelo tempo pactuado, explicando que o alvo é a úlcera da anastomose.

O que a norma brasileira decide, e o que ela deixa para a equipe

A resolução brasileira classifica as operações em quatro grupos, e conhecer os grupos evita erro de leitura. Primárias altamente recomendadas são duas: o bypass gástrico em Y de Roux e a gastrectomia vertical, descritas como as de maior embasamento científico. Alternativas reconhecidas, indicadas sobretudo para procedimentos revisionais, são quatro, entre elas o bypass com anastomose única e a gastrectomia vertical com bipartição do trânsito. Não recomendadas são a banda gástrica ajustável e a derivação de Scopinaro. E há dois procedimentos endoscópicos reconhecidos: o balão intragástrico e a gastroplastia endoscópica.

A expressão maioria absoluta das situações clínicas é a chave. Ela declara que as duas operações primárias servem quase sempre — e, ao dizer quase, devolve à equipe a tarefa de reconhecer a situação em que não servem igualmente. A mesma resolução escreve que a indicação deve se basear nas necessidades do doente e não simplesmente na técnica a ser empregada, e que a escolha é compartilhada entre equipe cirúrgica, equipe multidisciplinar e doente. Esôfago doente é uma dessas necessidades, e reconhecê-la é o trabalho que a norma não faz pelo cirurgião.

A posição das sociedades cirúrgicas brasileiras acrescenta um alerta que muda de eixo. Ao avaliar procedimentos emergentes, ela registra que a banda gástrica foi desconsiderada no país por perda de peso insuficiente e por complicações que incluem dilatação esofágica e refluxo, e que a preocupação com o bypass de anastomose única é o refluxo biliar, sem evidência até aqui de neoplasia atribuída ao refluxo alcalino, mas com vigilância como regra. Refluxo ácido e refluxo biliar não são o mesmo problema e não se resolvem com a mesma operação.

Na prática, escreva no prontuário a operação escolhida e a razão esofágica da escolha, ofereça o desvio em Y de Roux quando o refluxo estiver documentado, corrija o hiato acima de dois centímetros na mesma cirurgia, e deixe combinado com o doente quando ele vai repetir a endoscopia.

04

Do primeiro exame à escolha da técnica: o que medir e o que a medida troca

A régua abaixo segue a ordem da consulta: primeiro o exame que documenta, depois o achado que classifica, por último a operação que o achado escolhe. Os quatro cartões mostram os elementos anatômicos que decidem — o ângulo que a manga desfaz, o desvio que retira o ácido, o hiato que se mede antes e o traçado que separa sintoma de refluxo. A tabela cruza as mesmas perguntas com o que cada documento responde, e a coluna de observação marca onde um deles simplesmente não fala.

  1. 1Confirme a elegibilidade pela faixa de índice de massa corporal e, na faixa de 30 a 34,9 kg/m2, identifique qual das oito comorbidades da resolução está presente — se for o refluxo, o esôfago passa a ser o motivo declarado da operação.
  2. 2Peça endoscopia digestiva alta em todo candidato, sintomático ou não, e registre o grau da esofagite pela classificação de Los Angeles e o tamanho da hérnia hiatal em centímetros.
  3. 3Pergunte ativamente por disfagia, regurgitação de alimento não digerido e dor torácica não cardíaca; havendo qualquer um, solicite manometria de alta resolução antes de escolher a técnica.
  4. 4Havendo sintoma de refluxo sem esofagite erosiva que o explique, ou manifestação atípica, solicite pH-impedanciometria de 24 horas — o objetivo declarado é escolher entre manga e desvio.
  5. 5Não peça esofagograma contrastado para diagnosticar refluxo; use o exame contrastado apenas quando a pergunta for a presença de hérnia hiatal com suspeita clínica.
  6. 6Decida a técnica: refluxo documentado, esofagite de graus B, C ou D, Barrett ou exposição ácida anormal pesam a favor do desvio em Y de Roux; esofagite de grau A isolada não basta, sozinha, para trocar a operação.
  7. 7Hérnia hiatal maior que 2 cm: programe a correção do hiato na mesma cirurgia, seja qual for a técnica.
  8. 8No pós-operatório do desvio gástrico e da derivação biliopancreática, mantenha inibidor de bomba de prótons como profilaxia de úlcera marginal.
  9. 9Agende endoscopia em até 5 anos para afastar esôfago de Barrett e examine imediatamente qualquer sintoma digestivo alto novo.

O ângulo que a manga desfaz

À esquerda, a câmara gástrica com o fundo preservado e o ângulo agudo entre esôfago e estômago — o componente anatômico da barreira. À direita, o tubo estreito que sobra depois da gastrectomia vertical: fundo ressecado, ângulo aberto, complacência menor e pressão intraluminal maior contra um piloro intacto. O ponto marcado é a junção esofagogástrica nos dois desenhos.

O desvio que retira o ácido

Bolsa gástrica pequena, quase sem células parietais, ligada à alça alimentar. O estômago excluído e o duodeno seguem pela alça tracejada e só encontram o alimento adiante, no pé do Y. O esôfago passa a receber pouco ácido e nenhuma bile; o ponto maior marca a anastomose gastrojejunal, sede da úlcera marginal.

O hiato que se mede antes

A linha contínua é o diafragma; o traçado pontilhado é a porção gástrica que subiu pelo hiato. A medida entre as duas marcas superiores é a que muda a operação: acima de dois centímetros, a correção do hiato entra na mesma cirurgia, qualquer que seja a técnica bariátrica escolhida.

O traçado que troca a técnica

Monitorização ambulatorial do refluxo: a linha tracejada é o limiar, e as áreas sombreadas são o tempo de exposição abaixo dele. O enunciado da recomendação diz para que serve o exame — auxiliar a escolha entre a gastrectomia vertical e o desvio em Y de Roux. A impedância acrescentada ao pH detecta ainda os episódios fracamente ácidos e alcalinos.

Pergunta do pré-operatórioResolução CFM nº 2.429/2025Position statement da sociedade do esôfago (2024)Observação
Refluxo autoriza operar a obesidade na faixa de 30 a 34,9 kg/m2?Sim: 'refluxo gastroesofágico com indicação cirúrgica' é uma das 8 comorbidades da listaNão trata de elegibilidadeSó um dos documentos responde — e é o brasileiro
Endoscopia digestiva alta antes de operar?Não menciona em nenhuma passagem do anexoConsiderar em todos os candidatos (concordância 90,9%; condicional, evidência de baixa qualidade)Ausência de um lado
Hérnia hiatal: medir e corrigir?Não escreve 'hiato' nem 'hiatal' nenhuma vezIdentificar e corrigir acima de 2 cm pode melhorar desfechos (concordância 100%)Ausência de um lado
Esofagograma contrastado serve para diagnosticar refluxo?Não mencionaNão deve ser usado para esse fim; cabe na suspeita de hérnia hiatal (forte, evidência moderada)Única recomendação forte com evidência moderada do conjunto
O que escolhe entre manga e desvio?Ambas são 'primárias altamente recomendadas', na 'maioria absoluta das situações clínicas'pH-impedanciometria 'to aid in the choice between sleeve gastrectomy and RYGB'Réguas diferentes para a mesma escolha
Manga no refluxo silencioso?Não mencionaTabela-resumo: 'not recommended for patients with silent GERD'; conclusão do texto: 'severe silent GERD'Resumo e corpo discordam — ver divergências
Endoscopia depois da operação?Não mencionaEm até 5 anos para afastar Barrett; imediata se sintoma digestivo alto novo (concordância 100%)Ausência de um lado
Profilaxia de úlcera marginal?Não mencionaInibidor de bomba após desvio gástrico ou derivação biliopancreática (concordância 81,8%)Ausência de um lado

A resolução do CFM é norma no Brasil; o position statement do esôfago não é, e o próprio documento declara que, pela escassez de evidência de alta qualidade, foi publicado como posicionamento e não como diretriz clínica. Isso não o torna dispensável: é o único dos documentos lidos que enfrenta a pergunta da técnica.

As ausências da coluna do CFM foram medidas com dois extratores independentes sobre o mesmo arquivo (pypdf e PyMuPDF), contando o corpo do anexo antes das referências. 'Refluxo' aparece 1 vez; 'hiato', 'hiatal', 'Barrett', 'esofagite', 'pHmetria' e 'manometria', nenhuma.

O documento internacional de indicações de 2022 se comporta como a norma brasileira: cita a doença do refluxo entre as comorbidades e entre os motivos de revisão, e não escreve hérnia hiatal, esofagite, Barrett, endoscopia nem manometria no corpo do texto.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

A gastrectomia vertical está contraindicada em todo refluxo silencioso, ou só no grave?

Tabela-resumo e cabeçalho da declaração: sem adjetivo, recomendação forte

Nos dois lugares em que a regra é enunciada, lê-se: 'Sleeve gastrectomy is not recommended for patients with silent GERD'. Concordância de 90,9% (A+ 63,6%; A 27,3%; D 9,1%), classificada como 'Strong recommendation—Low quality evidence'.

Position statement da sociedade do esôfago, 2024 — Table 1, linha 8, e abertura da declaração 8.

Conclusão da mesma seção: com adjetivo, e com a evidência que o exige

O parágrafo termina: 'We therefore conclude that LSG is not recommended for patients with severe silent GERD'. A frase anterior explica a razão: os dois estudos definiram refluxo silencioso como esofagite de Los Angeles B, C ou D e/ou exposição ácida anormal sem sintomas, o grau A não foi incluído, e 'changing surgical procedure only by the existence of mild esophagitis is not reasonable'.

Position statement da sociedade do esôfago, 2024 — fecho do 'Summary of evidence' da declaração 8.

Na prova

Não é erro de digitação repetido — nesse caso seriam duas cópias da mesma frase. O adjetivo aparece uma única vez, no ponto em que o texto conclui, e falta nos dois pontos em que o leitor busca a regra: a linha da tabela e o cabeçalho. A aritmética interna decide: se o grau A ficou fora dos estudos citados, a versão sem adjetivo estende uma recomendação forte a um doente que a evidência do próprio documento não estudou. O enunciado de prova que descreve esofagite grau A isolada, sem sintoma e sem hérnia, e pergunta se isso basta para trocar a técnica, está cobrando exatamente essa fronteira; a resposta clinicamente defensável é que não basta sozinho. O enunciado que descreve grau C sem sintoma está do outro lado da linha, e aí a manga é desaconselhada. Há uma segunda oscilação de alcance na declaração seguinte: a tabela escreve 'within 5 years from bariatric surgery', o cabeçalho da declaração escreve 'from LSG', e o fecho do parágrafo volta a 'in all cases within 5 years following bariatric surgery'.

Quem decide a técnica quando o motivo da operação é o esôfago

Resolução CFM nº 2.429/2025: o refluxo autoriza, e as duas operações são igualmente recomendadas

A lista de elegibilidade da faixa de 30 a 34,9 kg/m2 inclui 'refluxo gastroesofágico com indicação cirúrgica'. Adiante, o texto classifica como 'cirurgias primárias altamente recomendadas' o 'Bypass gástrico em Y de Roux' e a 'Gastrectomia vertical (sleeve gástrico)', 'altamente recomendadas na maioria absoluta das situações clínicas'. Extraído duas vezes, o corpo do anexo escreve 'refluxo' uma única vez, e nenhuma vez 'hiato', 'hiatal', 'Barrett', 'esofagite', 'pHmetria' ou 'manometria'.

Resolução CFM nº 2.429/2025, anexo, itens 2 (indicação cirúrgica em adultos) e 5 (período peroperatório).

Position statement do esôfago: o exame do esôfago é que escolhe a técnica

Endoscopia em todos os candidatos; identificação e correção de hérnia hiatal maior que 2 cm (concordância 100%); pH-impedanciometria com finalidade escrita no enunciado, 'to aid in the choice between sleeve gastrectomy and RYGB', tanto em sintoma típico quanto atípico; e a manga desaconselhada no refluxo silencioso.

Position statement da sociedade do esôfago, 2024 — declarações 1, 2, 4, 5 e 8.

Na prova

Não é contradição frontal: são documentos que respondem a perguntas diferentes e nunca se cruzam. A norma decide quem opera e reconhece as duas técnicas; o documento do esôfago decide o que medir e o que a medida troca. O ponto que o enunciado de prova costuma explorar é o laço: o doente cujo único critério de elegibilidade é o refluxo entra pela porta do esôfago e, se a técnica for escolhida sem olhar o esôfago, pode sair com a operação que agrava o motivo pelo qual foi operado. Quando a vinheta traz índice entre 30 e 34,9 com refluxo refratário, ela está apoiada na lista brasileira; quando traz endoscopia com esofagite ou hérnia e pergunta a técnica, está apoiada no documento do esôfago.

06

Caso resolvido

Mulher de 44 anos, comerciária, é encaminhada da unidade básica ao ambulatório de cirurgia do aparelho digestivo. Pesa 96 kg e mede 1,57 m (índice de massa corporal de 38,9 kg/m2). Tem pirose diária e regurgitação há seis anos, com controle apenas parcial em uso de omeprazol 40 mg/dia há doze meses. Nega disfagia, emagrecimento e dor torácica. Hipertensa em uso de um anti-hipertensivo, com pressão controlada. A endoscopia digestiva alta mostra esofagite erosiva Los Angeles grau C e hérnia hiatal de 3 cm. Foi acompanhada por equipe multiprofissional, com dieta e programa de atividade física, sem perda de peso sustentada. A paciente pergunta se pode fazer 'a cirurgia do estômago que é mais simples'.
Confirme por qual porta ela entra
Com índice de 38,9 kg/m2, ela está na faixa entre 35 e 40 da resolução brasileira, que exige pelo menos uma doença agravada pela obesidade e que melhore com a perda de peso. O refluxo erosivo refratário e a hipertensão preenchem esse requisito. Ela é elegível — e o esôfago é uma das razões, o que significa que a documentação que a autoriza é a mesma que vai escolher a operação.
Leia o exame como informação cirúrgica
Esofagite grau C não é achado incidental: é esofagite erosiva de grau alto, exatamente a faixa que define refluxo relevante nos estudos que sustentam a recomendação sobre a manga. E a hérnia de 3 cm ultrapassa o corte de dois centímetros a partir do qual a correção do hiato entra na operação. Os dois achados apontam na mesma direção.
Decida a técnica pelo esôfago, não pela simplicidade
A gastrectomia vertical desfaz o ângulo de His, aumenta a pressão intraluminal e se associa a piora do refluxo e a mais reoperação em quem já tinha refluxo antes. O desvio em Y de Roux reduz drasticamente a superfície secretora que alcança o esôfago e afasta a bile, tratando a obesidade e o refluxo com o mesmo gesto. A operação indicada é o desvio, e a razão que se escreve no prontuário é esofágica.
Some a segunda parte da operação
A hérnia hiatal de 3 cm deve ser corrigida na mesma cirurgia. A hiatoplastia não é adorno técnico: é o que devolve a junção esofagogástrica ao abdome e reduz sintoma e esofagite existentes. A operação passa a ter duas partes, e isso precisa constar do consentimento e da descrição.
Combine o depois antes de operar
Explique que o desvio cria uma anastomose exposta ao ácido residual e que o inibidor de bomba de prótons será mantido como profilaxia de úlcera marginal, não como remédio para pirose. Agende desde já a endoscopia de seguimento em até cinco anos, para afastar esôfago de Barrett, e oriente retorno imediato se surgir qualquer sintoma digestivo alto novo.
07

Agora feche você

Homem de 41 anos, motorista de aplicativo, comparece ao ambulatório com índice de massa corporal de 41,5 kg/m2. Nega pirose, regurgitação, disfagia e dor torácica; diz que 'nunca teve nada do estômago' e nunca usou medicação para azia. Não tem diabetes, hipertensão nem apneia diagnosticada. Foi acompanhado por equipe multiprofissional por dois anos, sem perda de peso sustentada. Na avaliação pré-operatória, a endoscopia digestiva alta mostra esofagite erosiva Los Angeles grau C, sem hérnia hiatal descrita e sem lesão suspeita. Ele foi informado por conhecidos de que 'a manga é a mais moderna' e chega decidido por ela.
Classifique o achado
Nomeie a condição que existe quando há achado objetivo de refluxo em um doente sem qualquer sintoma, diga como o documento do esôfago a define em termos de graus de esofagite e de exposição ácida, e explique por que a ausência de queixa não a exclui.
Diga o que a definição exige e o que ela não alcança
O texto que decide a técnica aparece em duas versões dentro do mesmo documento, e elas diferem por um adjetivo. Escreva as duas, aponte o dado da própria seção que decide qual delas sustentar, e diga em qual das duas versões este doente cai.
Resolva a elegibilidade separadamente da técnica
Este doente precisa de comorbidade para ser elegível? Justifique pela faixa de índice de massa corporal em que ele se encontra, e explique por que a resposta a essa pergunta não interfere na escolha da operação.
Decida e explique ao doente
Diga qual operação você indicaria, com a razão esofágica escrita, e monte a frase com que você explicaria a ele por que a operação que ele veio pedir não é a que você vai oferecer. Diga também o que você acrescentaria à investigação antes de marcar, e o que agendaria para depois.
08

Onde a banca derruba

  1. 1Indicar fundoplicatura isolada no doente que já é elegível à cirurgia da obesidade A válvula reconstrói uma barreira e depende de que a pressão abdominal não a desfaça; a obesidade mantém essa pressão e não é tratada pela válvula. Antes de indicar cirurgia antirrefluxo, calcule o índice de massa corporal e confira a lista de comorbidades: se o doente já é elegível, o desvio em Y de Roux trata as duas doenças, e tratá-las em tempos separados soma anestesia e risco sem somar benefício.
  2. 2Ler 'primárias altamente recomendadas' como se as duas operações fossem intercambiáveis A resolução classifica bypass e gastrectomia vertical no mesmo grupo, mas escreve 'na maioria absoluta das situações clínicas' e determina que a indicação se baseie nas necessidades do doente, não na técnica. Estar no mesmo grupo normativo significa que ambas são reconhecidas, não que sirvam igualmente ao mesmo esôfago.
  3. 3Dispensar a endoscopia porque o doente não tem queixa Refluxo silencioso é definido por achado objetivo na ausência de sintoma — esofagite de graus B, C ou D ou exposição ácida anormal. Dois terços dos doentes com esse achado tornaram-se sintomáticos depois da manga. Perguntar por pirose e aceitar a resposta negativa como triagem substitui um exame por uma entrevista que, por definição, não alcança o problema.
  4. 4Tratar esofagite de grau A como se fosse refluxo silencioso grave O grau A ficou de fora dos estudos que sustentam a recomendação, e o próprio texto registra que trocar a operação apenas por esofagite leve não é razoável. Grau A isolado, sem sintoma, sem hérnia e sem exposição ácida anormal, é um dado a somar ao conjunto, não um veto à gastrectomia vertical.
  5. 5Tratar a correção do hiato como refinamento técnico opcional Hérnia hiatal está presente em perto de quatro em cada dez candidatos e é o mecanismo da incompetência da junção. Acima de dois centímetros, a correção entra na mesma operação. E a leitura precisa parar onde a evidência para: corrigir o hiato melhora sintoma e esofagite já existentes, mas não igualou a incidência de refluxo de novo entre corrigir e não corrigir.
  6. 6Confundir refluxo ácido com refluxo biliar ao escolher entre as alternativas A posição das sociedades brasileiras registra que a preocupação com o bypass de anastomose única é o refluxo biliar, e que a vigilância deve ser regra. Refluxo alcalino não responde a inibidor de bomba nem se resolve pela mesma reconstrução; tratá-lo como se fosse refluxo ácido leva a prescrever o remédio errado e a escolher a operação errada.
  7. 7Atribuir disfagia ao peso e operar sem manometria Disfagia, regurgitação de alimento não digerido e dor torácica não cardíaca no candidato à cirurgia da obesidade pedem manometria de alta resolução antes da escolha da técnica. Um tubo gástrico estreito a jusante de um esôfago sem peristalse produz disfagia e estase previsíveis, e estreitar o hiato piora quem já tem obstrução funcional na junção.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

O IBP pode prevenir úlcera marginal após bypass, benefício distinto do alívio da azia. A ASMBS recomenda profilaxia por pelo menos três meses, mas a duração posterior depende de fatores como úlcera prévia, tabagismo, anti-inflamatórios e outras condições. Aos 18 meses, não é adequado impor manutenção indefinida apenas pela anatomia, nem suspender automaticamente apenas porque não há pirose. A decisão deve resultar de reavaliação clínica com a equipe responsável. Não há indicação rotineira de pH-impedanciometria para essa decisão.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

Sorteando as questões…

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Plano de revisão

em 7 dias

Sem consultar, escreva as três faixas de índice de massa corporal da resolução brasileira e diga qual delas depende de uma lista fechada de comorbidades; nomeie a comorbidade dessa lista que faz o esôfago ser o motivo da operação. Em seguida, explique em duas frases por que a gastrectomia vertical agrava o refluxo, citando o que ela faz com o fundo gástrico, com o ângulo da junção e com a pressão dentro do tubo remanescente. Por fim, diga qual é a medida de hérnia hiatal que muda a operação e o que se faz acima dela.

em 30 dias

Reconstrua de memória a divergência interna do documento do esôfago: qual frase está na tabela-resumo, qual está na conclusão da mesma seção, qual palavra as separa e qual dado da própria seção decide quem está certo. Depois, monte a sequência pré-operatória completa de um candidato à cirurgia da obesidade com pirose diária: qual exame vem primeiro, qual exame não serve para diagnosticar refluxo, em que condição entra a monitorização do refluxo e em que condição entra a manometria. Termine dizendo qual operação você indicaria a um doente com índice de 33, refluxo refratário a inibidor de bomba, esofagite grau C e hérnia hiatal de três centímetros — e o que mais precisa ser feito na mesma cirurgia.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Atenda uma pessoa encaminhada para avaliação de cirurgia da obesidade que também tem queixa de refluxo. Pratique a sequência inteira: calcular o índice de massa corporal e dizer em qual faixa da norma ela cai; perguntar por pirose, regurgitação, disfagia, regurgitação de alimento não digerido e dor torácica, separando sintoma típico de atípico e de alarme; pedir a endoscopia e ler em voz alta o que você quer que venha escrito no laudo — grau da esofagite e tamanho da hérnia em centímetros; decidir se acrescenta monitorização do refluxo ou manometria e dizer por quê; e, ao fim, comunicar a operação escolhida com a razão esofágica explicitada, o que será feito no hiato, o inibidor de bomba do pós-operatório e a data da endoscopia de seguimento. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Obesidade com refluxo: a comorbidade que escolhe a operação — Preparatório para provas | OsceLabs