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Gastrosquise e onfalocele: a membrana separa duas doenças
Defeitos da parede abdominal (gastrosquise, onfalocele)
Duas perguntas fecham o diagnóstico em segundos; nenhuma delas decide a sala de parto, a investigação nem o fechamento
Responda antes de ler
Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.
Recém-nascido do sexo masculino, a termo, apresenta ao nascimento defeito na parede abdominal com alça intestinal exteriorizada à direita do cordão umbilical, sem membrana de revestimento, com alças edemaciadas e recobertas por exsudato fibrinoso. Não há outras malformações evidentes. Enquanto se prepara o encaminhamento cirúrgico, qual é a prioridade IMEDIATA no manejo inicial deste recém-nascido?
Como esse tema cai
A prova cobra defeito de parede abdominal por um caminho curto e repetido: uma descrição de recém-nascido com víscera para fora, e três perguntas embutidas — qual é o defeito, o que fazer antes de sair da sala de parto, e o que investigar antes de operar. Quem decorou membrana e cordão acerta a primeira e tropeça nas outras duas, porque as três respostas não vêm do mesmo lugar.
Este capítulo fica com o que acontece depois que o diagnóstico já está feito: o primeiro cuidado, a investigação que muda o prognóstico, a escolha entre fechar agora e fechar depois, e a leitura do número nacional que a vinheta às vezes traz de enfeite. A embriologia do dobramento lateral, o cronograma da herniação umbilical fisiológica e o retorno da alça média ficam com o capítulo de fundamentos da forma, que os trata com mais detalhe do que qualquer prova cobra.
Fica de fora também a hérnia diafragmática congênita. Ela falha na partição do celoma, não no fechamento da parede, e quem decide o desfecho dela é a hipoplasia pulmonar. Aqui a decisão é de parede e de víscera.
O que muda decisão
Duas perguntas fecham o diagnóstico, e nenhuma delas decide a conduta
O guia federal de consulta rápida resolve o diagnóstico em duas linhas, e vale memorizá-las nessa ordem. Há membrana cobrindo as vísceras? E de onde sai o cordão umbilical? Na onfalocele o defeito é central, através de um anel umbilical dilatado, as vísceras estão contidas por uma membrana de âmnio por fora e peritônio por dentro, e o cordão se insere no ápice do saco. Na gastrosquise o defeito é de toda a espessura, lateral ao cordão e quase sempre à direita, as alças estão soltas e o cordão se insere normalmente na parede, ao lado da fenda.
O próprio guia avisa contra a única confusão que sobra: a onfalocele pode romper no útero ou durante o parto, e aí as alças aparecem descobertas. O que continua separando as duas é a posição do cordão, porque na onfalocele rota o cordão continua nascendo do defeito, e não ao lado dele. Guarde ainda que a superfície da gastrosquise pode estar recoberta por material fibroso e opaco — isso é a exposição prolongada ao líquido amniótico, não uma membrana.
Duas notas de precisão sobre esse mesmo documento, porque quem vai lê-lo encontra as duas. Na página da gastrosquise, a advertência para não confundir traz a palavra grafada como oncefalocele, com as letras trocadas. E o nome da síndrome citada como associação da onfalocele aparece em três formas diferentes em duas páginas seguidas: Beckwith-Widemann no corpo do texto, beckwith-Wiedemann com inicial minúscula no checklist de registro. São escorregões de revisão, e o conteúdo em volta está correto — mas quem procura o termo por busca automática pode não encontrar.
A partir daqui as duas doenças param de se parecer. A onfalocele é a falha de um evento amplo do dobramento, e por isso vem acompanhada: entre 67% e 88% dos casos têm anormalidade cromossômica detectável ou outra anomalia associada, na maior parte gastrointestinal ou cardíaca. A gastrosquise é um acidente local: anormalidade cromossômica em 1,2% dos casos e doença monogênica em 0,2%. Uma é doença de genética; a outra é doença de intestino. O que se investiga, quem se chama e quando se opera derivam dessa diferença, e não da foto.
Vale registrar onde mora a posição federal sobre esses dois defeitos. O texto do Ministério da Saúde que os descreve item a item é um guia de consulta rápida de 2022, tradução autorizada de um manual da Organização Mundial da Saúde, cujas notas da versão traduzida declaram que as recomendações têm foco em programas de vigilância: ele ensina a reconhecer, a fotografar e a preencher o registro. Entre os oito grupos prioritários da vigilância ao nascimento, vizinhos têm instrumento federal de assistência — a síndrome de Down tem diretrizes de atenção publicadas em 2013; as cardiopatias congênitas têm plano nacional aprovado por portaria em 2017; as lesões labiopalatais têm portarias de 1993 e 1994 que criaram procedimentos na tabela do sistema público e credenciaram hospitais. Os defeitos de parede abdominal ficam fora dessa lista. Em 2020, uma coorte estadual publicada em revista de saúde pública encerrou pedindo exatamente o que falta: diretrizes clínicas que padronizem o cuidado imediato ao bebê nascido fora de centro terciário e o transporte até ele. Na prática, quem escreve a régua são protocolos de serviço, e é de um deles que sai boa parte da conduta deste capítulo.
Uma linha da tabela, duas doenças
O boletim epidemiológico federal publica os defeitos de parede abdominal como um grupo só, e o número que circula em vinheta vem daí. Entre 2010 e 2019 foram 9.036 casos em 29.157.184 nascidos vivos, prevalência de 3,08 por dez mil. É o segundo grupo menos prevalente da lista de oito, à frente apenas da microcefalia. Quem para nesse número perde a informação inteira.
No mesmo ano, e dentro do mesmo livro do Ministério, um capítulo separou os dois códigos. Exonfalia, isto é, onfalocele: 2.266 casos, prevalência de 0,78 por dez mil. Gastrosquise: 6.770 casos, prevalência de 2,30 por dez mil. As duas parcelas somam exatamente os 9.036 do grupo, e as duas prevalências arredondadas somam exatamente os 3,08 publicados — o que também explica por que a divisão direta dá 3,10 e o boletim escreve 3,08: o valor do grupo é a soma de duas metades já arredondadas, não uma conta nova. A razão entre elas é o número a guardar: três gastrosquises para cada onfalocele no Brasil.

A separação muda tudo o que a tabela do grupo diz. Entre as mães de crianças com gastrosquise, 47,5% tinham dezenove anos ou menos. Entre as mães de crianças com onfalocele, 15,5%. E entre todas as mães brasileiras do período, 17,8%. Leia os três juntos: a mãe da gastrosquise é adolescente quase três vezes mais que a média, e a mãe da onfalocele é adolescente menos que a média. O grupo publicado marca 39,5%, e esse 39,5 não descreve nenhuma das duas: é a média ponderada de 47,5 e 15,5 pelo peso de cada código, e a conta fecha na primeira casa decimal.
O mesmo vale para as outras linhas do grupo. Nascer entre 32 e 36 semanas ocorre em 45,5% das gastrosquises e 29,5% das onfaloceles, contra 9,1% do conjunto dos nascidos vivos; o grupo publica 41,5%, que é de novo a ponderação das duas. Peso abaixo de 2.500 gramas ocorre em 63,5% e 44,7%, contra 8,5% do conjunto; o grupo publica 58,8%. As três linhas do grupo se reconstroem a partir das duas metades com erro de dois centésimos. Cada linha da tabela do grupo é a média de duas doenças que caminham em direções diferentes, e o peso é sempre o mesmo: três quartos de gastrosquise.
A idade materna traz ainda a inversão que a prova gosta de cobrar sem avisar. No boletim de 2024, a prevalência de defeito de parede abdominal é de 7,1 por dez mil entre mães com dezenove anos ou menos, 2,4 entre 20 e 34 anos e 1,9 acima de 35: a faixa jovem tem risco 3,7 vezes maior que a faixa acima de 35. Só que a faixa de 20 a 34 anos concentra 25,7 milhões de nascimentos contra 6,3 milhões da faixa jovem. Multiplicando cada prevalência pelo seu número de nascimentos, saem cerca de 4.447 casos na faixa jovem e cerca de 6.180 na faixa de 20 a 34 — e a soma das três faixas bate nos 11.539 do período com folga de 0,5%, que é o arredondamento das prevalências. A faixa de maior risco não é a que produz mais casos. Adolescentes são 16,9% dos nascimentos e respondem por 38,5% dos defeitos de parede abdominal; ainda assim, a maioria absoluta dos casos nasce de mães fora da faixa de risco.
Há uma armadilha de denominador logo atrás. As referências internacionais que os boletins citam para comparação nem sempre dividem pela mesma coisa. O boletim de 2021 escreve que a prevalência latino-americana é de cerca de 4,3 por dez mil considerando nascidos vivos e natimortos, e a europeia de 3,4 por dez mil nascidos vivos; o de 2024 arredonda as duas para cerca de 4 e não repete a ressalva. O número brasileiro conta apenas nascidos vivos registrados. Como esses defeitos têm óbito fetal em 3% a 6% dos casos, além de interrupções de gestação onde elas são legais, a medida brasileira é um piso, e comparar 3,08 com 4,3 é comparar frações de denominadores distintos. O mesmo protocolo hospitalar que escreve prevalência de 3 a 4 por dez mil declara o denominador na própria frase: nascidos vivos mais mortes fetais mais natimortos mais interrupções.
Duas leituras de série temporal fecham a seção. Primeira: os casos anuais caíram de 839 em 2010 para 752 em 2022, uma queda de 10,4% — e a prevalência publicada foi 2,9 nas duas pontas. Ela não se moveu porque o denominador caiu junto: a média anual de nascidos vivos passou de 2,92 milhões em 2010 a 2019 para 2,66 milhões em 2020 a 2022, quase 9% a menos. Menos casos com a mesma prevalência significa menos nascimentos, não menos doença. Segunda: o boletim de 2021 publica 9.036 casos para 2010 a 2019 e o anexo do boletim de 2024 soma 9.034 para os mesmos dez anos. A diferença de dois casos não é erro de ninguém; é a base de nascidos vivos sendo corrigida entre uma extração e outra, três anos depois.
Um aviso de leitura sobre esses boletins, porque ele muda o tamanho aparente do problema. O texto do boletim de 2021 resume a Tabela 1 dizendo que os nascidos com anomalia congênita nascem com 36 semanas ou menos numa faixa de 17,5% a 48,7%, conforme o tipo, contra 1,7% do conjunto dos nascidos vivos. As colunas das anomalias conferem uma a uma — os 48,7% são exatamente a soma da coluna do defeito de parede abdominal, e os 17,5% a do defeito de membros. Só que a coluna de referência da mesma tabela soma 0,1 mais 0,5 mais 1,0 mais 9,1, ou seja, 10,7%, e não 1,7%. O dígito perdido faz a prematuridade nesses bebês parecer 28,6 vezes a da população, quando a razão medida é de 4,6 vezes. Ela continua enorme, e continua sendo o principal fator de risco de óbito da série de Recife; mas o número que o resumo entrega não é o que a tabela sustenta.
Um último aviso sobre notificação, porque ele explica mapas estranhos. O capítulo federal de 2021 registra que Roraima não notificou um único caso de onfalocele em dez anos. No anexo do boletim de 2024, Roraima aparece com a maior prevalência de defeito de parede abdominal do país em 2022, 6,9 por dez mil, com nove casos. O mapa não mediu doença: mediu quem preencheu o campo 41 da declaração de nascido vivo.
Quem são as mães, e o que a prevenção não alcança
A associação com idade materna jovem é o achado mais sólido e mais cobrado da gastrosquise. O livro federal traz a medida com intervalo: mulheres entre catorze e dezenove anos têm razão de chances de 7,18, com intervalo de confiança de 95% entre 4,39 e 11,75, comparadas a mulheres entre 25 e 29 anos. O protocolo hospitalar acrescenta os acompanhantes prováveis dessa faixa etária — tabagismo, álcool, drogas, índice de massa corporal baixo e maior frequência de infecção urinária —, e o próprio livro federal registra que a lista de fatores ambientais é longa, heterogênea entre estudos e ainda sem conclusão definitiva.
Na coluna social a tabela nacional é eloquente. Entre as mães de crianças com defeito de parede abdominal, 55,8% eram solteiras contra 44,7% do conjunto dos nascidos vivos, e apenas 52,5% fizeram sete ou mais consultas de pré-natal contra 65,7% do conjunto — a menor cobertura pré-natal entre os oito grupos prioritários. Onze por cento fizeram de uma a três consultas, contra 6,5% do conjunto. Quem menos chega ao pré-natal é justamente quem mais precisa de diagnóstico antes do parto.
A onfalocele tem outro perfil de risco: idade materna avançada acima de 35 anos ou muito jovem abaixo de 20, obesidade materna, distúrbio do controle glicêmico, e principalmente as trissomias 21, 13 e 18 — até 80% dos casos de síndrome de Edwards apresentam onfalocele. Cerca de 30% das onfaloceles ocorrem isoladas e com cariótipo normal, e essas têm bom prognóstico, com sobrevida acima de 95,5% no primeiro ano. O risco de recorrência da gastrosquise em irmãos foi estimado entre 3,5% e 5,7%, o que já basta para justificar aconselhamento na consulta seguinte.
Uma nota de prevenção que a prova adora inverter: o ácido fólico não previne defeito de parede abdominal. O livro federal é explícito — a medida que reduz defeito de tubo neural não tem impacto significativo sobre esses defeitos, e segue indicada apenas pelos benefícios já conhecidos. O que muda o risco aqui é o cuidado pré-concepcional: redução de peso, cessação do tabagismo, controle glicêmico e revisão de medicamentos.
Ainda no livro federal, uma incoerência interna vale ser conhecida antes de citá-lo. O corpo do capítulo estima a gastrosquise em 2 a 5 casos por dez mil nascidos vivos; o cartão-resumo do mesmo capítulo, três páginas depois, escreve 1 a cada 2 mil nascidos vivos, que é o teto da faixa apresentado como valor único, e mais que o dobro do que o próprio Ministério mede pelo sistema de nascidos vivos. Para a onfalocele o corpo escreve 1 a cada 4 mil e o cartão escreve 1 a cada 4 a 10 mil. Quando um enunciado trouxer um desses números, ele veio do cartão; o número medido no Brasil é 2,30 por dez mil para a gastrosquise e 0,78 para a onfalocele.
A sala de parto: o saco plástico, não a gaze
Aqui dois documentos brasileiros mandam fazer coisas diferentes, e a diferença custa temperatura e volume. O livro do Ministério, no item de manejo, escreve que o recém-nascido deve receber sonda gástrica, reposição volêmica e hidratação do conteúdo exteriorizado com gaze úmida com solução salina morna, além de ambiente aquecido. O protocolo hospitalar de 2021, no item da sala de parto, manda envolver as alças intestinais em saco plástico estéril, justificando entre parênteses: para controlar temperatura e hidratação.
A diferença não é de estilo. Gaze molhada sobre víscera exposta evapora, e evaporação resfria: a superfície que se queria hidratar vira um dissipador de calor num recém-nascido que já perde muito por área. O invólucro plástico fecha a perda por evaporação e mantém a alça úmida sem gastar calor do bebê. Quando um enunciado oferecer as duas opções, a cobertura oclusiva é a resposta, e a gaze úmida é o distrator de aparência cuidadosa.
A mesma frase do livro federal traz um segundo tropeço, e ele localiza-se numa linha só: a lista de cuidados termina com amamentação em posição lateral direita para evitar torção dos vasos mesentéricos. Decúbito lateral direito é exatamente o que o protocolo hospitalar recomenda, e pelo mesmo motivo — melhorar o retorno venoso do mesentério —, mas o protocolo é igualmente explícito de que na gastrosquise o contato pele a pele e a amamentação na sala de parto ficam prejudicados, porque é preciso proteger as alças de maneira asséptica. A palavra amamentação entrou no lugar de decúbito. A conduta correta é a posição; a amamentação, nessa hora, não acontece.
A sequência completa da sala de parto, na ordem em que o protocolo a escreve: seguir os passos da reanimação neonatal e, se o recém-nascido tiver boa vitalidade, fazer clampeamento tardio do cordão; evitar ventilação prolongada com balão e máscara, que insufla as alças e piora a desproporção; manuseio asséptico; cortar o cordão a pelo menos dez centímetros da base, para o cirurgião ter o que segurar depois; passar sonda orogástrica número 8 ou 10 e deixá-la aberta com saco coletor; medir a temperatura axilar no quinto minuto; envolver as alças no saco plástico estéril com curativo que impeça a alça de dobrar sobre o mesentério; garantir acesso venoso com hidratação 50% acima da basal e antibiótico de amplo espectro. No pré-operatório acrescenta duas negativas úteis: não fazer pressão positiva contínua em vias aéreas, pelo mesmo motivo da máscara, e indicar ventilação mecânica pela condição clínica, porque ela reduz débito cardíaco e circulação mesentérica.
Na onfalocele com membrana íntegra a pressa é outra: o cirurgião não precisa estar na sala de parto, o curativo é simples, e o fechamento pode esperar. A urgência da gastrosquise é a víscera nua; a da onfalocele rota também.
O relógio importa e está medido em série brasileira. Em 49 casos atendidos em um centro terciário de Recife, o intervalo entre o parto e a admissão de duas horas ou mais dobrou o risco de morte, com razão de prevalência de 2,5, e o intervalo entre o parto e a cirurgia de quatro horas ou mais multiplicou-o por 3,4. Nascer em outro hospital e ser transferido carregou razão de 2,2. No modelo múltiplo sobraram duas variáveis: idade gestacional abaixo de 37 semanas, com risco ajustado de 6,6, e o intervalo de quatro horas, com 5,8. Não é o número que o aluno decora; é a ideia de que o tempo até a mesa é variável de conduta, tanto quanto o peso ao nascer.
Antes de operar: o cariótipo, o coração e a glicemia que ninguém pede
A investigação pré-operatória separa as duas doenças com clareza. Na onfalocele diagnosticada no pré-natal, verifica-se se foi oferecida a investigação genética por amniocentese ou por amostra de vilosidades coriônicas; se não foi, chama-se a genética clínica. Pede-se ecocardiograma com doppler, ultrassonografia de abdome e de vias urinárias. Em recém-nascido grave ou com anomalias múltiplas, colhe-se cariótipo antes da avaliação do geneticista, porque o momento pode não voltar. A lógica é simples: quem tem onfalocele tem, em dois terços dos casos, outra coisa junto, e a associação mais frequente é cardíaca ou gastrointestinal.
Além das trissomias, dois padrões complexos aparecem em enunciado e merecem o nome: a pentalogia de Cantrell, que reúne onfalocele alta com defeitos de esterno, diafragma, pericárdio e coração, e o conjunto conhecido pela associação de defeitos espinhais, onfalocele, extrofia de cloaca e ânus imperfurado. Nenhum dos dois é tema de prova por si; servem para lembrar que onfalocele alta e onfalocele baixa mudam o que se procura acima e abaixo dela.
E há a associação que os documentos nomeiam e não roteiam. O guia federal manda descrever os procedimentos usados para excluir síndromes adicionais, citando especialmente as trissomias 13 e 18 e a síndrome de Beckwith-Wiedemann — e encerra o item aí. O livro federal registra a mesma associação numa frase de referente ambíguo, escrevendo que a síndrome ocorre em 30% a 79% desses pacientes, o que só faz sentido lido como a proporção de portadores da síndrome que têm onfalocele. Nenhum dos dois diz o que a suspeita obriga a fazer nas primeiras horas.
O que ela obriga é medir glicemia. A síndrome de Beckwith-Wiedemann cursa com hipoglicemia hiperinsulinêmica neonatal, e o hiperinsulinismo é a forma perigosa da hipoglicemia do recém-nascido justamente porque suprime a cetogênese: o cérebro fica sem glicose e sem corpo cetônico ao mesmo tempo. Ocorre que o núcleo comum de grupos de risco compartilhado pelos documentos brasileiros de rastreamento de glicemia neonatal é outro — pequeno para a idade gestacional, grande para a idade gestacional, filho de mãe diabética e pré-termo tardio —, e a regra que os acompanha é que recém-nascido a termo saudável não se rastreia. Um bebê a termo, com peso adequado, de mãe sem diabetes, e com onfalocele não entra nessa lista por nenhuma porta. Ele entra pela suspeita sindrômica, e quem tem de acionar essa porta é a equipe que recebeu a criança pela parede abdominal.
Na gastrosquise a investigação olha para dentro do próprio intestino. O guia federal manda procurar má rotação, atresia de delgado e microcólon, e avaliar hipoplasia pulmonar. No centro cirúrgico, o protocolo hospitalar acrescenta duas manobras que fazem esse trabalho: irrigação retal com soro fisiológico para hidratar o mecônio e pesquisar atresia pela eliminação dele, e ordenha das alças, que ao mesmo tempo reduz a pressão intra-abdominal e procura o ponto de interrupção. Lava-se ainda a alça com soro para remover o líquido amniótico, que é irritante para a serosa.
Fechar agora, fechar depois, ou não fechar
A cirurgia é o tratamento nos dois defeitos, e o objetivo é sempre o mesmo: reduzir a víscera com a função preservada e fechar a parede. O que muda é a pressa. Na gastrosquise a operação é de emergência; na onfalocele com membrana íntegra o fechamento pode ser mais tardio. O livro federal lista três técnicas principais para a gastrosquise — sutura fascial primária após a redução, correção escalonada com silo, e o fechamento plástico também chamado de turbante umbilical — e declara, com todas as letras, que ainda não existem evidências claras de superioridade de nenhuma delas.
O silo é a peça a entender. Quando a tensão da parede impede a redução primária, coloca-se um invólucro que contém a víscera fora do abdome e permite redução gradual, diária, até que caiba; então se fecha. Em serviço brasileiro ele pode ser improvisado com o saco plástico de videolaparoscopia e uma sonda retal ou tubo traqueal servindo de anel de fixação na cavidade. Enquanto o silo estiver no lugar, o antibiótico se mantém, porque o dispositivo aumenta o risco de infecção; depois da redução total, programa-se o fechamento.
O motivo de existir o silo tem nome, e ele é a síndrome compartimental abdominal. Forçar a víscera para dentro de uma cavidade que não a comporta eleva a pressão intra-abdominal, e o preço aparece em três lugares que se vigiam à beira do leito: queda da diurese, aumento dos parâmetros ventilatórios e alteração da perfusão de órgãos. O protocolo classifica esse quadro como emergência cirúrgica — quer dizer, reabrir. Essa é a razão pela qual fechamento primário não é sinônimo de melhor: é melhor quando cabe.
As duas séries brasileiras ajudam a calibrar. Em Recife, entre 1995 e 2001, o reparo primário foi feito em 28 dos 49 casos e o silo em 21; a letalidade do grupo com fechamento estadiado foi de 56%, com valor de p de 0,09 — uma diferença real na direção e não significativa no teste, e os próprios autores anotam que o fechamento estadiado pode estar apenas marcando alça pior e defeito maior, não causando o desfecho. Em Porto Alegre, entre 1992 e 2012, foram 44 fechamentos primários e 20 com silo seguidos de fechamento secundário, e a soma das duas parcelas dá exatamente os 64 casos da coorte; o tipo de fechamento não mostrou diferença. Somando as 20 reintervenções por silo com as 3 que se seguiram a fechamentos primários, 23 das 64 crianças voltaram à mesa, mais de um terço.
Um cuidado de leitura nesse mesmo trecho de Porto Alegre: a frase que apresenta os 20 silos os descreve como fechamento primário realizado com colocação de silo, o que se contradiz — silo é fechamento estadiado por definição. A aritmética resolve, porque 44 mais 20 fecha o total da coorte: são dois grupos, não um subconjunto. As três frases vizinhas, com os percentuais de conteúdo eviscerado e de mortalidade, batem sem sobra.
Na onfalocele a técnica muda com o tamanho, e o tamanho tem definição. Pequena é a que contém só alça, sem fígado; gigante é a que contém mais de 75% do fígado, ou defeito maior que cinco centímetros, ou grande em relação ao abdome fetal. As pequenas se reparam nas primeiras 24 a 72 horas: resseca-se a membrana, reduz-se a alça, fecham-se fáscia e pele. As gigantes admitem silo ou o caminho conservador — epitelização da membrana com solução tópica, com álcool a 70% e sulfadiazina de prata no protocolo cearense, deixando a hérnia ventral residual para correção tardia. O livro federal chama a mesma estratégia de terapia conservadora não operatória, e lista ainda ligadura sequencial com silo e dispositivos de expansão de tecido.
Guarde a inversão que essa régua de tamanho esconde. O guia federal manda observar o tamanho da onfalocele porque, quanto maior, maiores as chances de anomalias associadas, fígado no saco e complexidade cirúrgica. O protocolo hospitalar escreve o contrário para o eixo cromossômico: os defeitos pequenos, em especial de localização central, têm maior associação com outras anomalias e anormalidades cromossômicas. As duas frases convivem porque medem coisas diferentes — a grande carrega morbidade mecânica e pulmonar, a pequena carrega aneuploidia — e é a segunda que decide se você pede cariótipo.
Simples e complexa: a régua declarada não produz a tabela
A palavra complexa tem definição técnica na gastrosquise, e ela é de intestino. O protocolo hospitalar a escreve na íntegra: classifica-se em simples e complexa pela ausência ou presença de atresia, perfuração, necrose ou volvo, além de estenose e malrotação, distinção que no pré-natal frequentemente não é possível fazer. E dá o teto: até 25% das gastrosquises são complexas, e essas crianças têm mais complicações gastrointestinais, respiratórias e infecciosas.
A coorte de Porto Alegre declara essa mesma régua na seção de métodos, palavra por palavra — e classifica por outra coisa nos resultados. Vinte e seis casos tinham só intestino exposto e foram chamados simples; 22 tinham intestino e estômago; 16 tinham intestino e outros órgãos, entre eles bexiga, útero, vesícula, fígado, baço e testículo. Os dois últimos grupos, somados, viraram 38 gastrosquises complexas, ou 59,4% da coorte. A régua declarada mede lesão de alça; a tabela publicada mede quanta víscera saiu. São duas variáveis diferentes com o mesmo nome, e a segunda produz mais que o dobro do teto de 25% que a literatura usa.
A frase que entrega a troca está no próprio resultado principal: ao relatar que não houve diferença entre simples e complexa, com p de 0,06, o texto escreve com relação ao conteúdo eviscerado. O desfecho negativo é sobre volume herniado, não sobre atresia. Vale a pena separar as duas leituras, porque elas dizem coisas opostas: complexidade por lesão intestinal prevê desfecho e é o que muda a conduta; complexidade por número de órgãos fora prevê dificuldade de redução, e a mesma coorte registra que a maioria dos óbitos estava no grupo assim rotulado, sem alcançar significância — com os autores atribuindo isso ao pequeno número de óbitos, que é a explicação honesta.
A confusão tem consequência de prova e de plantão. Um enunciado que diga que a criança tinha estômago para fora não está dizendo gastrosquise complexa no sentido que muda o prognóstico; um enunciado que diga atresia jejunal encontrada no intraoperatório está. Foi por isso que a manobra de irrigação retal e ordenha entrou no protocolo: ela procura a atresia, que é a variável que importa.
Convém dimensionar o problema, porque nenhuma fonte faz a conta. Em 2022 o país registrou 752 defeitos de parede abdominal. Aplicando a proporção medida de três quartos, isso são cerca de 563 gastrosquises no ano; aplicando o teto de 25% de complexas, chega-se a até 141 crianças por ano com atresia, necrose, perfuração ou volvo associados — pouco menos de três por semana em todo o Brasil, distribuídas por dezenas de serviços. É um número pequeno o bastante para que quase nenhum hospital acumule experiência sozinho, e grande o bastante para que a decisão apareça na sua prova.
Depois que a parede fecha
O pós-operatório da gastrosquise é uma prova de paciência intestinal. O íleo adinâmico prolongado produz resíduo gástrico elevado, e a conduta é descomprimir por sonda e repor o volume perdido. Garante-se acesso venoso seguro, de preferência cateter central de inserção periférica; começa-se nutrição parenteral precoce, com aminoácidos já no primeiro dia de vida. A dieta trófica entra com 10 mililitros por quilo quando o resíduo clareia para amarelo ou salivar e há ruído hidroaéreo por 24 horas, e progride devagar. A primeira escolha é sempre leite humano, e o objetivo declarado é alta em aleitamento exclusivo.
O preço dessa lentidão está medido: o livro federal registra que a gastrosquise é a malformação congênita associada ao maior tempo de internação. É por esse caminho que ela chega à insuficiência intestinal — em serviço brasileiro de referência com 25 anos de seguimento, a gastrosquise lidera a casuística de crianças com intestino curto, à frente de enterocolite necrosante, doença de Hirschsprung e atresia de delgado. A colestase associada à nutrição parenteral é a companhia previsível dessa internação longa.
As três séries brasileiras de mortalidade parecem discordar e não discordam: elas contam populações diferentes. Em Recife, entre 1995 e 2001, 53% dos 49 recém-nascidos morreram, com infecção respondendo por 92% dos óbitos; apenas 24,5% tinham diagnóstico pré-natal, e a maioria chegou transferida. Em Porto Alegre, entre 1992 e 2012, 23,4% dos 64 morreram, com sepse em dois terços dos óbitos e 92,2% de diagnóstico pré-natal — mas os autores registram que não avaliaram os casos nascidos fora do hospital, e são justamente esses que Recife mostrou serem os de maior risco. A comparação interna de cada série é válida; a transposição de um número para o outro contexto, não.
No Rio de Janeiro, o relacionamento entre a base de nascidos vivos e a de mortalidade encontrou 769 registros de gastrosquise isolada em 2.213.228 nascimentos entre 2005 e 2014, com 164 óbitos e taxa de 7,4 por cem mil nascidos vivos. Dos registros de nascimento, 12,9% morreram; incluindo os 65 óbitos que o relacionamento não achou na base de nascimentos, a sobrevida cai de 87,1% para 80,4%. E o estudo exclui de partida os casos de malformação múltipla, para não potencializar o desfecho — decisão metodológica correta que também impede levar o número para a enfermaria como se fosse a letalidade de todos.
Duas leituras finais dessas séries, que a prova costuma cobrar como raciocínio e não como número. A primeira: em Recife, o diagnóstico pré-natal reduziu o risco de morte em 74%, mas desapareceu no modelo múltiplo, onde sobraram prematuridade e tempo até a cirurgia. Não é achado perdido; é ajuste funcionando. O grupo com diagnóstico pré-natal não tinha nenhum prematuro, enquanto entre os sem diagnóstico 48,6% eram prematuros — a proteção medida era, em boa parte, a prematuridade que o pré-natal evitou. A segunda: mesmo entre os 31 recém-nascidos a termo daquela série, morreram 11, ou 35,5%. Nascer a termo, ali, ainda não bastava.
E há o achado de sistema, que é o mais transferível de todos. No Rio de Janeiro, nascer em unidade de terapia intensiva neonatal de tipo dois multiplicou por 3,9 a chance de morrer em relação a nascer em unidade de tipo três. Não é a doença que muda entre os dois lugares. É o que existe atrás da porta.
Do defeito ao fechamento: quatro degraus de desproporção
Os quatro cenários abaixo estão em ordem crescente de volume de víscera fora do abdome, que é o que determina se a parede fecha hoje, fecha em etapas ou não fecha. O diagnóstico já está feito nos quatro; o que muda é a quantidade a devolver e o prazo para devolvê-la.
- 1Responda as duas perguntas do diagnóstico antes de qualquer outra coisa: há membrana, e de onde sai o cordão. Membrana rota com cordão saindo do defeito continua sendo onfalocele.
- 2Cubra a víscera com invólucro plástico estéril, não com gaze molhada, e posicione em decúbito lateral direito. Sonda gástrica aberta, hidratação 50% acima da basal, antibiótico de amplo espectro.
- 3Evite ventilação com balão e máscara por tempo prolongado e não use pressão positiva contínua: as duas insuflam a alça e pioram a desproporção que você vai ter de reduzir.
- 4Conte o relógio desde o parto. O intervalo até a cirurgia acima de quatro horas foi fator independente de óbito em série brasileira, com risco ajustado de 5,8.
- 5Na onfalocele, peça cariótipo e ecocardiograma antes da mesa, e some glicemia se houver traço sindrômico. Na gastrosquise, procure atresia, má rotação e microcólon, inclusive no intraoperatório.
- 6Tente a redução e o fechamento primário da fáscia. Se a tensão da parede não permitir, coloque silo e reduza aos poucos, em vez de forçar.
- 7Vigie diurese, parâmetros ventilatórios e perfusão de órgãos no pós-operatório. Piora nesses três com abdome tenso é síndrome compartimental abdominal e indica reabrir.
- 8Na onfalocele gigante, escolha entre silo e epitelização da membrana com solução tópica, deixando a hérnia ventral residual para correção tardia.
- 9Programe a nutrição desde o primeiro dia: aminoácidos na parenteral, acesso central seguro, e dieta trófica com leite humano quando o resíduo clarear e houver ruído hidroaéreo por 24 horas.
Onfalocele pequena — só alça, sem fígado
Defeito central pequeno, membrana íntegra, cordão saindo do ápice. Sem urgência cirúrgica enquanto a membrana estiver inteira. Repara-se nas primeiras 24 a 72 horas com ressecção da membrana, redução e fechamento de fáscia e pele. É a faixa de maior chance de aneuploidia: cariótipo e ecocardiograma antes da mesa.
Gastrosquise simples — alça cabe na cavidade
Fenda de toda a espessura à direita de um cordão de inserção normal, sem cobertura. Emergência cirúrgica, com o relógio contando desde o parto. Lava-se a alça, irriga-se o reto para pesquisar atresia, ordenha-se, reduz-se e faz-se a síntese por planos. É o cenário do fechamento primário da fáscia.
Gastrosquise que não cabe — silo e redução diária
A tensão da parede impede a redução completa. O silo contém a víscera fora e permite devolvê-la aos poucos, evitando a síndrome compartimental. Antibiótico se mantém enquanto o dispositivo estiver no lugar. Vigie diurese, parâmetros ventilatórios e perfusão: piora nesses três é indicação de reabrir.
Onfalocele gigante — fígado dentro do saco
Mais de 75% do fígado no saco, defeito acima de cinco centímetros ou desproporção franca com o abdome fetal. Fechar de uma vez é o erro. Admite silo, ligadura sequencial, expansor de tecido, ou o caminho conservador de epitelizar a membrana com solução tópica e adiar a correção da hérnia residual.
Uma linha da tabela, duas doenças: o que muda quando se separa o grupo
| Item | Onfalocele (exonfalia) | Gastrosquise | Linha do grupo publicada |
|---|---|---|---|
| Casos no Brasil, 2010 a 2019 | 2.266 | 6.770 | 9.036 |
| Prevalência por dez mil nascidos vivos | 0,78 | 2,30 | 3,08 |
| Mãe com dezenove anos ou menos | 15,5% (abaixo dos 17,8% de fundo) | 47,5% (quase três vezes o fundo) | 39,5% |
| Nascimento entre 32 e 36 semanas | 29,5% | 45,5% | 41,5% (fundo de 9,1%) |
| Peso ao nascer abaixo de 2.500 gramas | 44,7% | 63,5% | 58,8% (fundo de 8,5%) |
| Cobertura da víscera | Membrana de âmnio e peritônio, que pode romper | Nenhuma; a superfície pode ser fibrosa e opaca | Não se aplica |
| Inserção do cordão | No ápice do saco | Normal na parede, ao lado do defeito | Não se aplica |
| Anomalia associada ou síndrome | 67% a 88% dos casos | Anormalidade cromossômica em 1,2% | Não se aplica |
| Investigação que a suspeita obriga | Cariótipo, ecocardiograma, imagem de abdome e vias urinárias, glicemia se houver suspeita sindrômica | Atresia, má rotação, microcólon; irrigação retal e ordenha no intraoperatório | Não se aplica |
| Urgência do fechamento | Eletivo se a membrana estiver íntegra | Emergência | Não se aplica |
| O que decide o desfecho | O que veio junto: cromossomo e coração | O estado do intestino e o tempo até a mesa | Não se aplica |
Sala de parto: onde dois documentos brasileiros divergem
| Passo | Livro do Ministério da Saúde, 2021 | Protocolo hospitalar, 2021 |
|---|---|---|
| Cobertura da víscera exposta | Gaze úmida com solução salina morna | Saco plástico estéril, com curativo que impeça a torção sobre o mesentério |
| Posição do recém-nascido | Amamentação em posição lateral direita, para evitar torção dos vasos | Decúbito lateral direito, para melhorar o retorno venoso; amamentação na sala fica prejudicada |
| Sonda gástrica | Passagem de sonda | Sonda orogástrica número 8 ou 10, aberta, com saco coletor e aspiração do conteúdo |
| Volume | Reposição volêmica | Hidratação 50% acima da basal, com atenção à perda por resíduo gástrico |
| Via aérea | Não detalha | Evitar ventilação prolongada com balão e máscara; não usar pressão positiva contínua |
| Antibiótico | Não detalha | Amplo espectro assim que possível, mantido enquanto houver silo |
Complexa, na gastrosquise, é atresia, estenose, perfuração, necrose, malrotação ou volvo — até 25% dos casos. Estômago ou outro órgão para fora aumenta a dificuldade de redução, e não é a mesma variável.
Onfalocele pequena e central carrega mais aneuploidia; onfalocele gigante carrega mais morbidade mecânica e pulmonar. As duas afirmações convivem porque medem eixos diferentes.
O número nacional de 3,08 por dez mil conta apenas nascidos vivos registrados. Com óbito fetal em 3% a 6% dos casos e as interrupções fora da conta, ele é um piso.
A prevalência brasileira ficou estável em 2,9 por dez mil entre 2010 e 2022 enquanto os casos caíram 10,4%. O que caiu, na mesma proporção, foi o número de nascimentos.
Onde as fontes divergem
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.
Gaze úmida com solução salina morna
A conduta imediata inclui sonda gástrica, reposição volêmica e hidratação do conteúdo exteriorizado com gaze úmida com solução salina morna, em ambiente aquecido.
Brasil. Ministério da Saúde. Saúde Brasil 2020/2021: anomalias congênitas prioritárias para a vigilância ao nascimento, capítulo Defeitos da parede abdominal, seção Manejo e conduta.
Saco plástico estéril
Na gastrosquise, envolver as alças intestinais em saco plástico estéril para controlar temperatura e hidratação, com curativo que evite que as alças se dobrem sobre o mesentério e comprometam a irrigação.
Protocolo PRO.MED-NEO.068, Maternidade Escola Assis Chateaubriand, Universidade Federal do Ceará, item 4.1.8.
Na prova
O enunciado costuma oferecer as duas na mesma lista, e a gaze úmida parece o cuidado zeloso. Repare no verbo que o enunciado usa para justificar: se ele fala em evitar perda de calor e de líquido, a resposta é o invólucro oclusivo, porque gaze molhada evapora e resfria. Se a vinheta descreve o bebê já hipotérmico depois de transporte, o distrator preferido é reaquecer sem trocar a cobertura.
Indução na 37ª semana
Revisão do manejo dessas gestações concluiu que a indução de parto na 37ª semana associou-se a redução de sepse e de morte neonatal em comparação com o manejo expectante — conclusão que revisão sistemática da mesma época não conseguiu sustentar.
Calcagnotto H et al. Fatores associados à mortalidade em recém-nascidos com gastrosquise. Rev Bras Ginecol Obstet. 2013;35(12), seção Discussão.
Termo, sem antecipação
Se o perfil de crescimento fetal, o doppler de artéria umbilical e cerebral média e o volume de líquido amniótico são normais, não há orientação de antecipar o parto, que deve ser idealmente realizado com 38 semanas ou mais na gastrosquise e 39 semanas ou mais na onfalocele.
Protocolo PRO.MED-NEO.068, Maternidade Escola Assis Chateaubriand, Universidade Federal do Ceará, seção de diagnóstico pré-natal.
Na prova
Procure no enunciado se o crescimento fetal, o doppler e o volume de líquido amniótico estão descritos como normais. Estando normais, a posição da conduta expectante até o termo é a que o protocolo brasileiro sustenta, e a alternativa que interrompe a gestação por causa do defeito é distrator. Vinheta com dilatação de alça intra-abdominal ou restrição de crescimento muda o cenário e admite antecipação.
A via é obstétrica, com exceção da onfalocele gigante
O momento do parto e a indicação da via são obstétricos, sem indicação formal de parto prematuro nem de cesárea. Na onfalocele gigante haveria recomendação de cesárea pelo risco de distócia, ruptura, infecção e hemorragia.
Protocolo PRO.MED-NEO.068, Maternidade Escola Assis Chateaubriand, Universidade Federal do Ceará, seção de diagnóstico pré-natal.
Cesárea de rotina, pelo risco de lesão da alça
Não existem dados suficientes que sustentem a escolha da melhor via de parto. Na gastrosquise há defensores da cesariana de rotina, pelo risco de lesão das alças durante o parto vaginal; na onfalocele, alguns preferem a cesariana quando o defeito é grande, pelo receio de romper a membrana e lesar o fígado.
Brasil. Ministério da Saúde. Saúde Brasil 2020/2021, capítulo Defeitos da parede abdominal, seção Diagnóstico pré e pós-natal.
Sem diferença medida nas séries brasileiras
Nenhuma das duas séries brasileiras encontrou associação entre via de parto e mortalidade, com valor de p de 0,8 em Porto Alegre; e os autores de Recife registram que ensaios clínicos comparando cesárea e parto vaginal na gastrosquise nunca foram realizados.
Vilela PC et al. Acta Cir Bras. 2001;17(supl. 1), seção Discussão; e Calcagnotto H et al. Rev Bras Ginecol Obstet. 2013;35(12), seção Resultados.
Na prova
A palavra a caçar é gigante. Sem ela, a via de parto é indicação obstétrica e a alternativa que impõe cesárea pelo defeito está errada. Com onfalocele gigante no enunciado, a cesárea passa a ter argumento próprio. Se a vinheta descreve cesárea agendada para ter equipe cirúrgica disponível, isso é logística de serviço, e não benefício demonstrado para o bebê.
Quanto maior, mais associação
Observe o tamanho da onfalocele: quanto maior o tamanho, maiores as chances de presença de anomalias congênitas e síndromes, de fígado no saco, de complexidade do tratamento e de risco de morbidade, mortalidade e deficiência.
Brasil. Ministério da Saúde. Anomalias e infecções congênitas selecionadas: guia de consulta rápida, 2022, seção Onfalocele, dicas clínicas adicionais.
Quanto menor e mais central, mais cromossomopatia
Os defeitos pequenos, em especial de localização central, têm maior associação com outras anomalias e anormalidades cromossômicas.
Protocolo PRO.MED-NEO.068, Maternidade Escola Assis Chateaubriand, Universidade Federal do Ceará, seção Onfalocele.
Na prova
Veja qual desfecho o enunciado está pedindo. Se a pergunta é sobre pedir cariótipo e ecocardiograma, o tamanho pequeno e central puxa para investigar mais. Se a pergunta é sobre a técnica de fechamento, o risco pulmonar e a hérnia residual, quem manda é o tamanho grande. Alternativa que diga que onfalocele pequena dispensa investigação genética é o erro mais cobrado do tema.
Pela lesão do intestino
Classifica-se em simples e complexa com base na ausência ou presença de atresia, estenose, perfuração, necrose, malrotação e volvo, e até 25% das gastrosquises são complexas, com mais complicações gastrointestinais, respiratórias e infecciosas.
Protocolo PRO.MED-NEO.068, Maternidade Escola Assis Chateaubriand, Universidade Federal do Ceará, seção Gastrosquise.
Pelo conteúdo eviscerado
Vinte e seis casos tinham somente intestino exposto, classificados como gastrosquise simples; 22 tinham intestino e estômago e 16 tinham intestino e outros órgãos, totalizando 38 casos de gastrosquise complexa — 59,4% da coorte de 64, proporção que o artigo não imprime.
Calcagnotto H et al. Rev Bras Ginecol Obstet. 2013;35(12), seção Resultados — a mesma coorte cuja seção de métodos declara a régua de atresia, perfuração, necrose e volvo.
Na prova
Leia o que a vinheta descreve, e não o rótulo que ela usa. Estômago, bexiga ou fígado para fora descreve volume herniado; atresia, necrose, perfuração ou volvo descreve lesão de alça. Enunciado que pede prognóstico e tempo de nutrição parenteral está cobrando a segunda régua, mesmo quando escreve a palavra complexa sem definir qual.
Caso resolvido
- primeiro, o nome certo do defeito
- Fenda de toda a espessura, à direita, com cordão de inserção normal e sem membrana: é gastrosquise. O material esbranquiçado sobre a alça é a casca de exposição prolongada ao líquido amniótico, e não uma cobertura protetora. A ausência de membrana com cordão fora do defeito exclui onfalocele rota.
- o que a compressa fez com a temperatura
- As compressas úmidas explicam boa parte dos 35,4 graus: a evaporação sobre uma superfície visceral extensa retira calor continuamente, e o berço aquecido não compensa. A conduta é substituir por invólucro plástico estéril, com curativo que impeça a alça de dobrar sobre o mesentério, e posicionar em decúbito lateral direito.
- o que mais está faltando antes de sair
- Sonda orogástrica calibrosa aberta com saco coletor, hidratação 50% acima da basal, antibiótico de amplo espectro e cordão cortado a pelo menos dez centímetros da base. Nada de pressão positiva contínua, e nada de ventilação prolongada com balão e máscara — as duas insuflam a alça que precisa caber de volta.
- por que as duas horas já pesam
- Na série de Recife, intervalo entre parto e admissão de duas horas ou mais carregou razão de prevalência de 2,5 para óbito, e o intervalo entre parto e cirurgia de quatro horas ou mais chegou a 3,4, permanecendo no modelo múltiplo com risco ajustado de 5,8. Nascer fora do centro terciário somou 2,2. O tempo aqui é variável de conduta, não detalhe logístico.
- os fatores que a vinheta empilhou de propósito
- Mãe adolescente, três consultas de pré-natal, ausência de diagnóstico morfológico, parto fora de centro com cirurgia pediátrica e peso abaixo de 2.500 gramas. É o retrato exato da coluna nacional do grupo: apenas 52,5% dessas mães fazem sete ou mais consultas, e 58,8% dessas crianças nascem abaixo de 2.500 gramas.
- o que se procura na mesa
- Antes de reduzir, lavagem das alças com soro para remover o líquido amniótico, irrigação retal com soro para hidratar o mecônio e pesquisar atresia pela eliminação, e ordenha das alças, que reduz a pressão e ajuda a achar o ponto de interrupção. Se a fáscia não fechar sem tensão, silo com redução diária em vez de fechamento forçado.
Agora feche você
- classifique o defeito, com as duas perguntas
- Complete: diga se há membrana e de onde sai o cordão, e conclua o diagnóstico. Diga também em que categoria de tamanho esse defeito cai e quais são os três critérios que definem essa categoria — sabendo que basta um deles.
- responda a pergunta da equipe
- Complete: diga se este caso é emergência cirúrgica e por quê, e qual achado do exame físico mudaria essa resposta em segundos. Diga qual conduta cirúrgica é adequada para esse tamanho, e por que fechar de uma vez seria erro.
- monte a investigação das primeiras horas
- Complete: liste os exames que a suspeita obriga antes da mesa, dizendo o que cada um procura. Inclua o exame de sangue simples que nenhum dos documentos federais manda explicitamente e explique qual síndrome o justifica, e por que este bebê não seria rastreado por nenhum dos quatro grupos de risco habituais.
- leia o tamanho nos dois eixos
- Complete: diga o que o tamanho grande prevê e o que o tamanho pequeno e central prevê, nomeando as duas fontes que sustentam cada leitura, e explique por que as duas afirmações não se contradizem.
- explique a cesárea
- Complete: diga se a cesárea eletiva neste caso tem argumento próprio ou se é apenas indicação obstétrica, e qual característica do defeito sustenta a resposta. Diga também o que as séries brasileiras mediram sobre via de parto e mortalidade.
Onde a banca derruba
- 1Cobrir a alça exposta com gaze embebida em soro Parece o cuidado mais zeloso e é o que mais esfria o bebê: a gaze molhada evapora sobre uma superfície enorme e sem pele. O invólucro plástico estéril mantém a umidade sem gastar calor, e é o que o protocolo de serviço manda usar. Quando as duas opções aparecem juntas, a oclusiva vence.
- 2Ventilar com balão e máscara enquanto se organiza o transporte Cada insuflação manda ar para o estômago e para a alça já exposta, e a alça distendida deixa de caber na cavidade que você vai ter de fechar. O mesmo raciocínio proíbe a pressão positiva contínua nesse pré-operatório. Suporte ventilatório aqui se indica pela condição clínica, não por rotina.
- 3Chamar de gastrosquise complexa a criança com estômago para fora Complexa tem definição de intestino: atresia, estenose, perfuração, necrose, malrotação ou volvo, em até um quarto dos casos. Contar órgãos herniados mede a dificuldade de redução e produz uma taxa mais que duas vezes maior, com desfecho diferente. Duas variáveis com o mesmo nome respondem a perguntas opostas.
- 4Ler a linha do grupo como se fosse uma doença Os 39,5% de mães adolescentes do grupo não descrevem ninguém: são a média de 47,5% da gastrosquise com 15,5% da onfalocele, ponderada por três quartos de gastrosquise. A mãe da onfalocele é mais velha que a média nacional. Toda linha da tabela do grupo tem essa dupla alma.
- 5Concluir que a doença recuou porque a prevalência não subiu Entre 2010 e 2022 os casos anuais caíram de 839 para 752, e a prevalência ficou em 2,9 por dez mil nas duas pontas. O denominador caiu quase 9% no mesmo período. Prevalência é fração: ler o numerador sem olhar quem está embaixo é ler metade da conta.
- 6Comparar a prevalência brasileira com a latino-americana sem olhar o denominador O número do Brasil conta apenas nascidos vivos registrados; a estimativa latino-americana de 4,3 por dez mil inclui natimortos, e o próprio boletim de 2021 diz isso na frase. Com óbito fetal em 3% a 6% dos casos, a medida brasileira é um piso, e a diferença entre as duas não é toda subnotificação.
- 7Excluir síndrome na onfalocele e não medir a glicemia Os documentos mandam excluir as trissomias 13 e 18 e a síndrome de Beckwith-Wiedemann, e param aí. Essa síndrome cursa com hipoglicemia hiperinsulinêmica, que suprime a cetogênese e retira o combustível alternativo do cérebro. O bebê a termo, com peso adequado e de mãe sem diabetes não entra em nenhum grupo de rastreamento por outra porta.
- 8Forçar o fechamento primário porque ele tem melhor prognóstico O fechamento primário anda com melhores desfechos porque marca alça em melhor estado e defeito menor, não porque a técnica proteja. Forçar a redução eleva a pressão intra-abdominal e cobra em diurese, parâmetro ventilatório e perfusão. Nessas condições, o silo é a decisão certa, e reabrir depois é emergência.
- 9Dispensar o cirurgião pediátrico da sala na onfalocele com membrana íntegra e tratá-la como caso sem pressa em tudo A ausência de urgência é do fechamento da parede, e vale só enquanto a membrana estiver inteira. A investigação cardíaca e genética continua sendo prioridade das primeiras horas, porque é ela que decide o prognóstico. Membrana rota devolve o caso à condição de emergência.
O quadro descreve gastrosquise (defeito à direita do cordão, sem saco/membrana). A prioridade imediata é proteger as alças expostas contra perda de calor e de líquidos (grande superfície evaporativa): envolver em compressas úmidas mornas/filme plástico estéril, reposição volêmica generosa e descompressão gástrica, mantendo perfusão do intestino. Fechamento primário imediato sem preparo pode gerar síndrome compartimental. Diferente da onfalocele, a gastrosquise raramente associa-se a cromossomopatias/cardiopatias, então investigá-las não é a prioridade imediata. Deixar exposto ao ar agrava perdas. Surfactante/ventilação profilática não têm indicação nesse contexto.
Recuperação
Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.
Recém-nascido a termo, sexo masculino, nascido de parto vaginal, apresenta ao exame físico defeito da parede abdominal com cerca de 4 cm, localizado à direita da inserção do cordão umbilical, através do qual há alças intestinais evisceradas, sem qualquer membrana de revestimento. As alças mostram-se edemaciadas, espessadas e recobertas por exsudato fibrinoso. O restante do exame é normal, sem outras malformações aparentes. Assinale o diagnóstico e a anomalia mais frequentemente associada a essa condição.
Correta: o defeito paraumbilical (à direita do cordão), sem membrana de revestimento e com alças evisceradas edemaciadas/recobertas por peel inflamatório, é típico da GASTROSQUISE. A anomalia associada mais frequente é a atresia intestinal (10-15%), decorrente de isquemia/estrangulamento das alças no anel do defeito — justificando a vigilância pós-fechamento. A cardiopatia congênita associa-se à onfalocele, não à gastrosquise; além disso o quadro descrito (sem saco) não é onfalocele. A síndrome de Beckwith-Wiedemann associa-se à onfalocele, não à gastrosquise. A trissomia 18 e demais cromossomopatias associam-se à onfalocele; a gastrosquise costuma ser isolada e sem aneuploidia. Na hérnia de cordão o defeito é central, recoberto pela geleia de Wharton/âmnio e o cordão insere-se no ápice — não há alças livres eviscauradas como descrito.
Recém-nascido a termo apresenta, ao nascimento, defeito central da parede abdominal na região do anel umbilical, recoberto por membrana translúcida (âmnio e peritônio), na qual se insere o cordão umbilical em seu ápice. O saco contém alças intestinais e parte do fígado. Qual é o diagnóstico?
Correta: Defeito CENTRAL, no anel umbilical, com as vísceras (incluindo fígado) contidas em um SACO membranoso onde o cordão se insere no ápice, define a ONFALOCELE. Na gastrosquise o defeito é paraumbilical (à direita), SEM membrana, e o fígado quase nunca é exteriorizado. A hérnia umbilical é recoberta por pele íntegra e se manifesta tardiamente, não como víscera em saco amniótico ao nascimento. A extrofia de bexiga expõe a mucosa vesical na parede infraumbilical, sem saco contendo alças/fígado. A diástase dos retos é apenas afastamento da linha alba, sem defeito herniário verdadeiro nem exposição visceral.
Recém-nascido a termo nasce com gastrosquise: alças intestinais eviscauradas por defeito paraumbilical à direita, sem membrana de revestimento. Ao exame na sala de parto: FC 150 bpm, FR 55 ipm, SatO2 96% em ar ambiente, temperatura axilar 36,2 °C. As alças estão expostas ao ambiente. Qual é a conduta imediata mais adequada na sala de parto?
Correta: Na gastrosquise, sem saco protetor, as prioridades imediatas são: proteger as alças da perda hídrica/calórica e de trauma (envolver em filme ou bolsa plástica/silo estéril), descomprimir o estômago com sonda gástrica, repor volume (perdas insensíveis elevadas, hipovolemia) e controlar a temperatura (risco de hipotermia — note T 36,2 °C). O fechamento é feito depois, em centro cirúrgico, primário ou estadiado com silo. O fechamento definitivo não é realizado na sala de parto nem antes da estabilização hemodinâmica e térmica. A redução forçada com sutura de pele sem preparo eleva a pressão intra-abdominal (síndrome compartimental) e ignora a investigação de atresias. Antibiótico tópico e alojamento conjunto não protegem as alças nem corrigem as perdas — conduta insuficiente e perigosa. Aguardar sem proteger as vísceras expõe a graves perdas hídricas, hipotermia e isquemia — contraindicado.
Recém-nascido do sexo masculino, a termo, nascido de parto cesáreo por ultrassonografia pré-natal que evidenciava defeito de parede abdominal. Ao exame, observa-se massa herniada na linha média, na região do anel umbilical, recoberta por membrana translúcida (âmnio e peritônio), com o cordão umbilical inserindo-se no ápice da lesão. A massa contém alças intestinais e uma porção do fígado. O neonato está estável, em incubadora, com o defeito protegido por curativo úmido e estéril. Além da estabilização inicial, qual é a conduta mais apropriada antes do fechamento definitivo?
O quadro descreve onfalocele: defeito CENTRAL do anel umbilical, conteúdo recoberto por saco (âmnio e peritônio), com o cordão inserido no ápice e herniação hepática frequente. A conduta correta é investigar malformações associadas, pois a onfalocele tem ALTA associação (50 a 70%) com anomalias cardíacas, cromossômicas (trissomias 13, 18 e 21) e síndromes como Beckwith-Wiedemann; o ecocardiograma e a avaliação genética guiam o momento e o tipo de correção. Indicar fechamento primário de urgência erra porque, ao contrário da gastrosquise, as vísceras estão protegidas pelo saco: não há exposição direta nem urgência por perda hídrica e térmica. Ligar e ressecar o saco na sala de parto erra gravemente: ele NUNCA deve ser ressecado precocemente, pois protege as vísceras e pode servir de base para fechamento estagiado. Fazer só curativo úmido e dispensar a avaliação cardiológica descreve a baixa associação com anomalias, característica da gastrosquise, não da onfalocele. E manter conduta expectante indefinida, contraindicando qualquer cirurgia, erra: o fechamento, primário ou estagiado, é o tratamento definitivo.
Recém-nascido a termo apresenta, ao nascimento, defeito da parede abdominal localizado à DIREITA do coto umbilical, de bordas íntegras. Não há membrana ou saco recobrindo a lesão, e observam-se alças intestinais exteriorizadas, edemaciadas e recobertas por exsudato inflamatório espesso. O cordão umbilical apresenta inserção normal na parede abdominal. Qual é o diagnóstico mais provável?
O quadro é típico de gastrosquise: defeito paraumbilical, quase sempre à DIREITA do cordão, SEM saco ou membrana de cobertura, com alças intestinais eviscarada, edemaciadas e recobertas por 'peel' inflamatório resultante do contato prolongado com o líquido amniótico; a inserção do cordão umbilical é normal. Onfalocele é um defeito CENTRAL, recoberto por saco membranoso, com o cordão inserido no ápice — o oposto do descrito. Hérnia umbilical é coberta por pele e se manifesta tardiamente, não com evisceração ao nascimento. Extrofia de bexiga expõe a mucosa vesical na região suprapúbica/infraumbilical, não alças intestinais. Hérnia diafragmática de Bochdalek cursa com desconforto respiratório e abdome escavado por herniação torácica das vísceras, sem defeito da parede abdominal anterior.
Diante de recém-nascido com onfalocele central de quatro centímetros e membrana íntegra, filho de mãe de 36 anos, qual conjunto de exames melhor responde ao que decide o prognóstico desse defeito?
O que decide o prognóstico da onfalocele é o que veio junto com ela: entre 67% e 88% dos casos têm anormalidade cromossômica ou outra anomalia associada, com predomínio cardíaco e gastrointestinal. Por isso a investigação obrigatória combina estudo genético, avaliação cardíaca por imagem e mapeamento abdominal e urinário. A pesquisa de atresia e microcólon é o roteiro da gastrosquise, cujo desfecho depende do estado do intestino. Marcadores de sofrimento tecidual não se aplicam a víscera protegida por membrana íntegra. E a investigação neurológica isolada não corresponde ao perfil de associações mais frequentes desse defeito.
Boletim epidemiológico federal informa que os defeitos de parede abdominal tiveram prevalência de 3,08 por dez mil nascidos vivos entre 2010 e 2019 e que 39,5% das mães tinham dezenove anos ou menos, contra 17,8% do conjunto dos nascidos vivos. Ao separar os dois códigos, a gastrosquise responde por três quartos do grupo. O que se conclui corretamente?
O percentual do grupo é a média ponderada de duas doenças com perfis maternos opostos: quase metade das mães na gastrosquise tem dezenove anos ou menos, enquanto na onfalocele essa proporção fica em 15,5%, abaixo do valor de fundo da população. Como a gastrosquise responde por três quartos dos casos, ela puxa a média para cima, e o número do grupo acaba não descrevendo nenhuma das duas. Atribuir o valor do grupo à onfalocele inverte exatamente a relação medida. E parcela superar a média é o comportamento esperado de qualquer ponderação em que as partes divergem, não sinal de erro.
Recém-nascido a termo, com peso adequado para a idade gestacional, filho de mãe sem diabetes, nasce com onfalocele e macroglossia. Além da investigação genética e cardíaca, qual exame simples deve ser incorporado às primeiras horas e por quê?
Onfalocele com macroglossia levanta a suspeita de síndrome de Beckwith-Wiedemann, que cursa com hipoglicemia por hiperinsulinismo — a forma perigosa, porque a insulina suprime a cetogênese e retira do cérebro o combustível alternativo. Como esse bebê é a termo, tem peso adequado e não é filho de mãe diabética nem pré-termo tardio, ele não entra em nenhum dos grupos habituais de rastreamento de glicemia neonatal, e a única porta de entrada é a suspeita sindrômica. A colestase aparece tarde e por nutrição parenteral prolongada, não nas primeiras horas. Perda de sódio e consumo plaquetário não são achados característicos de saco íntegro.
Recém-nascido a termo apresenta, ao nascimento, alças intestinais exteriorizadas sem qualquer membrana de cobertura, através de uma fenda de três centímetros situada à direita do cordão umbilical, que se insere normalmente na parede abdominal. Qual é o diagnóstico e a característica que o define?
O defeito é lateral ao cordão, o cordão tem inserção normal na parede e não há membrana: essas três características juntas definem a gastrosquise. A alternativa que fala em herniação central através do anel dilatado descreve a onfalocele, cujo cordão nasce do ápice do saco. A hipótese de membrana rompida durante o parto seria plausível apenas se o cordão saísse do próprio defeito, e não ao lado dele. A protrusão recoberta por pele descreve hérnia umbilical, que não expõe víscera. E a exposição conjunta de bexiga e intestino na linha média pertence a um conjunto malformativo muito mais raro e complexo.
Considere uma série observacional hipotética de gastrosquise: o diagnóstico pré-natal associou-se a risco de óbito 74% menor na análise bivariada, mas essa variável não permaneceu no modelo de regressão múltipla, no qual restaram prematuridade e intervalo entre parto e cirurgia. Não houve prematuros no grupo com diagnóstico pré-natal. Qual é a interpretação mais adequada?
A análise descrita mostra associação, não prova de prevenção de prematuridade pelo diagnóstico. A retirada de uma variável do modelo pode refletir diferentes relações entre covariáveis e limitações de precisão. Não se pode escolher entre confundimento, mediação, acaso ou perda de poder apenas com essas informações. Ausência de prematuros em um grupo também não demonstra, por si só, colinearidade perfeita. É necessário conhecer desenho, estimativas, intervalos de confiança e critérios de modelagem. Nenhuma dessas limitações torna o diagnóstico pré-natal clinicamente inútil. Exemplo hipotético para interpretação de estudos observacionais. Referência metodológica: declaração STROBE, PLoS Med 2007;4:e296; análise lógica dos dados apresentados.
Em sala de parto de maternidade sem cirurgia pediátrica, nasce criança com gastrosquise. Enquanto se aguarda a transferência, qual conduta protege melhor a temperatura e a hidratação do recém-nascido?
O invólucro plástico estéril fecha a perda por evaporação e mantém a alça úmida sem consumir calor do bebê, e é o que o protocolo de serviço prescreve. As compressas embebidas em solução salina evaporam continuamente sobre uma superfície visceral extensa e resfriam a criança, mesmo trocadas com frequência. O creme antimicrobiano tópico tem lugar na epitelização da membrana de onfalocele gigante, e não sobre alça exposta que será reduzida. Redução manual em sala de parto, sem centro cirúrgico e sem avaliação da desproporção, arrisca torção do mesentério e síndrome compartimental.
No pós-operatório imediato de redução e fechamento primário de gastrosquise, o recém-nascido apresenta queda progressiva da diurese, aumento das pressões necessárias à ventilação e piora da perfusão periférica, com abdome tenso. Qual é a interpretação e a conduta?
A tríade de queda da diurese, aumento dos parâmetros ventilatórios e piora da perfusão, com abdome tenso após redução forçada, descreve elevação da pressão intra-abdominal com repercussão em três sistemas ao mesmo tempo, e o protocolo classifica esse quadro como emergência cirúrgica. A conduta é aliviar a pressão e devolver a víscera aos poucos por meio de um dispositivo de contenção. Tratar como infecção deixa a causa mecânica atuando. Íleo adinâmico produz resíduo gástrico elevado, mas não a queda de diurese com aumento da pressão ventilatória. E expandir volume num abdome já hipertenso agrava a compressão em vez de resolvê-la.
Gestante de 31 semanas com feto portador de gastrosquise apresenta crescimento fetal, Doppler umbilical e cerebral média e volume de líquido amniótico normais. Segundo especificamente o protocolo PRO.MED-NEO.068 da MEAC, versão 1 de dezembro de 2021, qual é a orientação obstétrica?
O protocolo da MEAC de 2021, na página 3, orienta não antecipar o parto apenas pelo diagnóstico de gastrosquise quando crescimento, Doppler e líquido amniótico são normais, apontando idade gestacional ideal de pelo menos 38 semanas. É uma orientação institucional dessa edição. O próprio documento ressalta que momento e via dependem da avaliação obstétrica e do planejamento multidisciplinar; não se trata de autorização para prolongar indefinidamente a gestação. Alterações maternas ou fetais podem modificar a conduta. Parto prematuro ou cesárea não são obrigatórios apenas pela gastrosquise.
Coorte brasileira classificou como gastrosquise complexa todo caso com estômago ou outro órgão exteriorizado além do intestino, chegando a 59,4% de casos complexos, enquanto protocolo de serviço registra que até 25% das gastrosquises são complexas. Qual é a explicação para a diferença?
A régua clássica define complexa pela presença de atresia, estenose, perfuração, necrose, malrotação ou volvo, e é dela que sai o teto de um quarto dos casos. Contar quantos órgãos saíram pela fenda mede a dificuldade de redução, não a lesão intestinal, e produz uma proporção mais que duas vezes maior sobre a mesma população. Serviço de referência realmente concentra gravidade, mas isso não explicaria a inversão de uma definição para outra dentro do mesmo artigo. A malrotação está incluída na régua clássica, e não excluída dela. E não houve mudança temporal capaz de dobrar a proporção de lesão intestinal.
Recém-nascido a termo apresenta onfalocele central com defeito de 7 centímetros e membrana íntegra, contendo alças e a maior parte do fígado. Evolui com desconforto respiratório atribuído a hipoplasia pulmonar e depende de suporte ventilatório. O abdome é visivelmente pequeno em relação ao conteúdo herniado. Qual é a conduta cirúrgica adequada?
Onfalocele gigante, definida por conter mais de 75% do fígado, ou por defeito maior que cinco centímetros, ou por ser grande em relação ao abdome fetal, admite silo ou o caminho conservador: epitelização da membrana com solução tópica, deixando a hérnia ventral residual para correção tardia. É o oposto da onfalocele pequena, aquela que contém só alça, sem fígado, e que se repara nas primeiras 24 a 72 horas. Forçar a víscera para dentro de uma cavidade que não a comporta eleva a pressão intra-abdominal e produz queda da diurese, aumento dos parâmetros ventilatórios e piora da perfusão — e esta criança já depende de suporte ventilatório por hipoplasia pulmonar. Ressecar a membrana íntegra cria o problema que ela estava evitando, e adiar sem cobertura deixa exposta a barreira que protege a víscera.
Recém-nascido a termo com gastrosquise nasceu em maternidade sem cirurgia pediátrica e chega ao serviço de referência com 3 horas de vida, com as alças envolvidas em invólucro plástico estéril, acesso venoso com hidratação acima da basal, sonda gástrica aberta e antibiótico iniciado. Está estável, corado, normotérmico e sem outras malformações aparentes ao exame. A equipe discute se aguarda ecocardiograma e cariótipo antes de operar. Qual é a conduta?
Na gastrosquise a operação é de emergência, e o tempo até a mesa é variável de conduta: em série brasileira de 49 casos, o intervalo de quatro horas ou mais entre o parto e a cirurgia multiplicou o risco de morte por 3,4, e no modelo múltiplo sobraram apenas duas variáveis, a idade gestacional abaixo de 37 semanas, com risco ajustado de 6,6, e esse mesmo intervalo, com 5,8. Aguardar cariótipo e ecocardiograma transporta para cá a investigação que pertence à onfalocele, em que dois terços dos casos trazem outra anomalia junto e a associação mais frequente é cardíaca. Na gastrosquise o que se procura é dentro do próprio intestino — má rotação, atresia de delgado e microcólon —, e essa busca acontece no centro cirúrgico. Estabilizar por 24 horas ou esperar redução espontânea sob o invólucro consome exatamente o intervalo que a série mediu.
Recém-nascido apresenta defeito da parede abdominal com alças intestinais exteriorizadas, sem saco de revestimento, à direita do cordão umbilical, que está inserido normalmente. Qual é o diagnóstico?
A gastrosquise se caracteriza por defeito paraumbilical, quase sempre à direita do cordão, com alças exteriorizadas sem qualquer saco de revestimento e cordão inserido em posição normal, o que a distingue da onfalocele, na qual as vísceras estão contidas em um saco de membrana, o cordão se insere no ápice do saco e a associação com outras malformações e com anomalias cromossômicas é frequente. Essa distinção é decisiva porque a onfalocele exige investigação sindrômica ampla, e a gastrosquise demanda proteção imediata das alças e correção precoce.
Qual das seguintes malformações detectadas no pré-natal exige o parto programado em centro terciário com cirurgia pediátrica disponível, sem indicação de cesariana apenas pela malformação?
A gastrosquise exige nascimento em centro com cirurgia pediátrica e neonatologia, mas a via vaginal é aceitável, pois não há evidência de que a cesariana melhore o desfecho intestinal. A anencefalia engana porque também é malformação grave, mas nela o objetivo do planejamento é o cuidado paliativo, não a cirurgia. Higroma volumoso com hidropsia, teratoma gigante e macrocrania acentuada são situações em que o obstáculo mecânico ao parto costuma impor a via abdominal.
Recém-nascido com onfalocele gigante contendo grande parte do fígado, com cavidade abdominal pequena. Qual a estratégia terapêutica mais adequada?
Quando o fígado está herniado e a cavidade não comporta o conteúdo, forçar o fechamento gera síndrome compartimental abdominal, com queda do retorno venoso, isquemia visceral e insuficiência respiratória. A saída é aplicar agentes tópicos como sulfadiazina de prata sobre a membrana para que ela epitelize, convertendo o defeito em hérnia ventral a ser corrigida de forma eletiva meses depois. Ressecar fígado ou amputar conteúdo herniado são condutas inexistentes aqui, porque o conteúdo é víscera viável e não tecido necrótico.
Recém-nascido com onfalocele apresenta peso de 4.350 g, macroglossia e episódios repetidos de glicemia capilar em torno de 30 mg/dL nas primeiras 24 horas de vida, refratários à dieta. Além do controle glicêmico, qual conduta de seguimento está indicada?
Macrossomia, macroglossia, onfalocele e hipoglicemia por hiperinsulinismo compõem a síndrome de Beckwith-Wiedemann. O ponto que a prova cobra é o seguimento oncológico: essas crianças têm risco aumentado de tumor de Wilms e hepatoblastoma, rastreados com ultrassonografia abdominal periódica nos primeiros anos e alfafetoproteína seriada na primeira infância. A miocardiopatia hipertrófica é a armadilha de quem lembra do filho de mãe diabética, outro macrossômico hipoglicêmico, mas ali não há onfalocele nem macroglossia.
Recém-nascido com onfalocele, estável, aguardando programação cirúrgica. Qual exame complementar deve ser priorizado nas primeiras horas de vida?
A onfalocele é um defeito sindrômico com muito mais frequência que a gastrosquise: cerca de um terço a metade dos casos tem cardiopatia congênita associada, e há ainda cromossomopatias (trissomias 13, 18 e 21) e síndromes como Beckwith-Wiedemann e pentalogia de Cantrell. Como a cardiopatia muda o risco anestésico e o momento da correção, o ecocardiograma entra antes do centro cirúrgico. O enema opaco é raciocínio de obstrução baixa e não responde à pergunta aqui, apenas atrasa sem mudar conduta.
Gestante de 22 semanas realiza ultrassonografia morfológica que mostra alças intestinais livres flutuando na cavidade amniótica, à direita da inserção do cordão, sem membrana envolvente. Qual afirmação é correta sobre esse achado?
O achado descrito é gastrosquise, e a decisão cobrada é logística: o determinante de prognóstico é nascer onde existe cirurgia pediátrica e UTI neonatal, não a via de parto. Não há evidência de que a cesárea eletiva ou a antecipação do parto reduzam a lesão intestinal. Cariótipo obrigatório e forte associação com trissomias pertencem à onfalocele, e trocar as duas é o erro clássico. A alfafetoproteína materna, aliás, sobe mais na gastrosquise, porque não existe membrana entre o feto e o líquido amniótico.
Recém-nascido a termo apresenta ao nascimento defeito da parede abdominal na linha média, com alças e borda hepática contidas em saco translúcido avascular, sobre o qual se insere o cordão umbilical. As alças visíveis têm aspecto brilhante, sem espessamento. Qual o diagnóstico?
Dois achados fecham onfalocele: o defeito é CENTRAL e o conteúdo está revestido por membrana (âmnio, geleia de Wharton e peritônio), com o cordão umbilical inserindo-se no próprio saco. Por estarem protegidas do líquido amniótico, as alças mantêm aspecto normal, sem casca inflamatória. A gastrosquise engana quem só vê alças para fora: ali o defeito é paraumbilical, quase sempre à direita do cordão, não há saco algum e as alças chegam espessadas e aglutinadas. A hérnia umbilical é coberta por pele íntegra e não expõe vísceras.
Recém-nascido com onfalocele de 6 cm, membrana íntegra, admitido na sala de parto. Entre as medidas iniciais, qual é a conduta correta?
A membrana é a melhor cobertura que esse recém-nascido tem: preserva calor, evita perda hídrica e protege contra infecção. Cobrir com filme plástico ou campo estéril, descomprimir o estômago com sonda orogástrica e cuidar do aquecimento são as três medidas que estabilizam antes da cirurgia. Romper o saco para inspecionar engana quem confunde a investigação da gastrosquise, onde as alças já estão expostas e a atresia é frequente, com a onfalocele: abrir a membrana transforma um defeito coberto em defeito exposto e piora o prognóstico. Gelo provoca hipotermia e vasoconstrição.
Lactente de 3 meses operado ao nascimento por gastrosquise evolui com vômitos biliosos, distensão e parada de eliminação de fezes, após período inicial de boa evolução. Qual a complicação mais provável?
Vômito bilioso é sinal de obstrução distal ao piloro e nunca deve ser rotulado como refluxo. Nesse paciente há dois mecanismos plausíveis e ambos são cirúrgicos: atresia intestinal associada, que pode passar despercebida em alças edemaciadas na primeira operação, e aderências pós-operatórias. A estenose de piloro engana pela idade típica, mas ali o vômito é em jato e NÃO bilioso, porque a obstrução é pré-papila. A dismotilidade da gastrosquise é frequente, mas explica intolerância alimentar arrastada e não parada súbita de eliminação de fezes.
Dois recém-nascidos chegam com vísceras exteriorizadas. O primeiro tem defeito à direita do cordão, sem saco, com alças espessadas e recobertas por exsudato fibrinoso; o segundo tem defeito central recoberto por membrana. Sobre a diferença entre eles, é correto afirmar que:
Na gastrosquise as alças ficam nuas dentro do líquido amniótico: a superfície evaporativa é enorme e a necessidade hídrica chega a duas ou três vezes a manutenção, além da perda de calor. A associação com atresia intestinal também é da gastrosquise, não da onfalocele, e quem inverte isso costuma decorar defeito maior igual a mais complicação em vez de pensar no mecanismo. É a onfalocele que exige cariótipo e ecocardiograma, porque é ela que vem acompanhada de cromossomopatia e cardiopatia. O espessamento das alças pertence ao defeito sem membrana.
Sobre o manejo do recém-nascido com defeito de parede abdominal, qual conduta NÃO deve ser realizada?
Alça pendente traciona o mesentério e pode torcer o pedículo, com isquemia intestinal, por isso o conteúdo exteriorizado deve ser apoiado na linha média ou o recém-nascido posicionado em decúbito lateral direito com o bloco visceral sustentado. As demais medidas compõem exatamente o pacote de estabilização: descompressão gástrica evita distensão das alças, a cobertura plástica reduz perda insensível, o acesso venoso repõe volume e o ambiente térmico neutro combate a hipotermia, principal causa evitável de deterioração nessas primeiras horas.
Recém-nascido com onfalocele de pequeno porte, contendo apenas alças de delgado, submetido a fechamento primário. Nas primeiras horas de pós-operatório apresenta oligúria, elevação da pressão de pico do ventilador, edema de membros inferiores e acidose metabólica. Qual a hipótese principal?
A tríade que denuncia hipertensão intra-abdominal no pós-operatório de defeito de parede é queda do débito urinário, piora da mecânica ventilatória e congestão venosa dos membros inferiores, evoluindo para acidose por má perfusão esplâncnica. O reconhecimento precoce importa porque a conduta é reabrir e colocar silo, não apenas otimizar volume. A sepse é o distrator que atrai quem vê acidose e oligúria e pula direto para infecção, mas ela não explica o aumento agudo da pressão de pico logo após o fechamento da parede.
Que síndrome genética deve ser considerada em recém-nascido macrossômico, com macroglossia, onfalocele, hemi-hipertrofia e hipoglicemia hiperinsulinêmica?
A síndrome de Beckwith-Wiedemann reúne crescimento excessivo, macroglossia, defeito de parede abdominal e hiperinsulinismo neonatal, e exige rastreamento de tumores embrionários — tumor de Wilms e hepatoblastoma — com ultrassonografia e alfafetoproteína seriadas. A síndrome de Silver-Russell engana por também cursar com hipoglicemia e assimetria corporal, mas seu quadro é o oposto no crescimento: restrição intrauterina, baixo peso e baixa estatura, sem macroglossia ou onfalocele.
Qual fator de risco materno está classicamente associado à gastrosquise?
A gastrosquise tem associação consistente com mães jovens, tabagismo, uso de drogas ilícitas e vasoconstritores, o que sustenta a hipótese de acidente vascular na parede abdominal em desenvolvimento. A idade materna avançada é o distrator natural porque é fator de risco para aneuploidias e, indiretamente, para onfalocele — mas o perfil epidemiológico das duas malformações é justamente oposto, e essa inversão é o que a questão cobra.
Sobre as diferenças entre gastrosquise e onfalocele, assinale a afirmativa correta.
A onfalocele exige investigação genética e ecocardiograma, pela frequente associação a trissomias e a síndromes como a de Beckwith-Wiedemann; a gastrosquise costuma ser isolada, tendo como principal associação a atresia intestinal. Inverter as associações é o erro que leva a rastrear a criança errada e a subestimar o risco cardíaco na onfalocele, que é justamente o que costuma determinar o prognóstico.
Recém-nascido com onfalocele apresenta macroglossia, hipoglicemia persistente e visceromegalia. Qual a hipótese sindrômica?
A tríade onfalocele, macroglossia e gigantismo com visceromegalia caracteriza a síndrome de Beckwith-Wiedemann, que cursa com hiperinsulinismo e hipoglicemia neonatal persistente e exige rastreamento periódico de tumores embrionários, especialmente tumor de Wilms e hepatoblastoma, com ultrassonografia abdominal e alfafetoproteína. Perder esse diagnóstico é perder o rastreamento oncológico que ele obriga.
Recém-nascido com gastrosquise é submetido a fechamento primário. No pós-operatório, apresenta oligúria, aumento da pressão de pico nas vias aéreas, edema de membros inferiores e acidose. Qual a complicação?
O fechamento sob tensão eleva a pressão intra-abdominal, comprometendo a perfusão renal e esplâncnica e a mecânica ventilatória, com edema de membros inferiores por compressão da veia cava — é justamente esse risco que sustenta a alternativa do fechamento estagiado com silo, permitindo redução progressiva das alças. Atribuir o quadro a sepse é o erro que atrasa a reabertura, única medida capaz de reverter a hipertensão abdominal.
Qual a conduta imediata na sala de parto diante de recém-nascido com gastrosquise?
A prioridade é conter a perda de calor e de líquido pelas alças expostas e proteger a perfusão mesentérica: cobertura com filme plástico estéril, decúbito lateral direito para evitar tração e torção do pedículo, descompressão gástrica e hidratação venosa generosa, com dois a três vezes a necessidade basal. Comprimir as alças de volta é o erro que provoca isquemia e síndrome compartimental abdominal.
Qual conduta é adequada quando o fechamento primário da gastrosquise não é possível pela desproporção entre o conteúdo herniado e a cavidade abdominal?
O silo permite reduzir gradualmente as alças ao longo de dias, evitando a hipertensão abdominal do fechamento forçado, com fechamento definitivo depois — é a estratégia que preserva intestino e função. Ressecar alça viável para caber na cavidade é o erro que produz síndrome do intestino curto, condição de morbidade e mortalidade muito maiores que a dificuldade de fechamento que se pretendia resolver.
Qual complicação a longo prazo é esperada em recém-nascidos com gastrosquise, mesmo após correção bem-sucedida?
A exposição das alças ao líquido amniótico produz uma peritonite química que compromete a motilidade, e o retorno à alimentação enteral plena costuma levar semanas, com necessidade de nutrição parenteral prolongada e seus riscos de infecção de cateter e colestase. Esperar recuperação digestiva rápida após a correção anatômica é o erro de expectativa que gera reintroduções alimentares precipitadas e intolerância.
Sobre o diagnóstico pré-natal dos defeitos de parede abdominal, assinale a afirmativa correta.
O diagnóstico pré-natal por ultrassonografia permite o nascimento em centro com equipe de cirurgia pediátrica e unidade neonatal, o que melhora o desfecho ao evitar o transporte de um recém-nascido com vísceras expostas. A alfafetoproteína materna está elevada nos defeitos de parede, e não reduzida — inverter essa direção é o mesmo erro cometido na interpretação dos defeitos de tubo neural.
Qual conduta é INADEQUADA no manejo inicial do recém-nascido com gastrosquise?
A alimentação enteral precoce é inadequada: o intestino está exposto, edemaciado e com dismotilidade, e o recém-nascido segue para cirurgia — a nutrição inicial é parenteral, com introdução enteral gradual apenas quando houver função intestinal. As demais condutas compõem o manejo correto, com destaque para o controle térmico, já que a superfície exposta produz perda de calor rapidamente e a hipotermia agrava a acidose e a coagulopatia.
Recém-nascido apresenta, ao nascimento, alças intestinais exteriorizadas por defeito na parede abdominal à direita do cordão umbilical, sem qualquer membrana recobrindo as vísceras. Qual o diagnóstico?
Defeito paraumbilical, tipicamente à direita do cordão, com vísceras livres sem membrana de cobertura, define a gastrosquise. A onfalocele é o distrator obrigatório e a diferença é decisiva: nela o defeito é central, o cordão se insere sobre o saco e as vísceras estão recobertas por membrana — e a onfalocele se associa com frequência a cromossomopatias e malformações cardíacas, ao passo que a gastrosquise costuma ser lesão isolada.
Recém-nascido a termo nasce em maternidade de referência com defeito da parede abdominal. Ao exame observa-se exteriorização de alças intestinais à direita do cordão umbilical, sem membrana de revestimento, com alças espessadas e recobertas por material fibrinoso. Não há outras malformações aparentes. A criança apresenta FC 156 bpm, temperatura axilar de 35,8 °C e boa expansibilidade torácica. A equipe procede à estabilização inicial antes do encaminhamento ao centro cirúrgico. Além do acesso venoso e da sonda gástrica, a prioridade imediata é:
Na gastrosquise, o defeito é paraumbilical, sem saco de revestimento, e as alças expostas provocam grandes perdas de calor e de líquidos; a prioridade é envolvê-las em filme plástico estéril, manter normotermia e repor volume de forma agressiva. Reduzir manualmente as alças e comprimir o abdome pode causar síndrome compartimental e isquemia intestinal. Investigação de cardiopatia e cromossomopatia é prioridade na onfalocele, que tem saco de revestimento e alta associação com outras malformações, e não deve preceder a proteção das alças. Compressas geladas agravam a hipotermia, principal risco imediato nesses recém-nascidos.
Gestante de 28 anos, com 19 semanas, é encaminhada ao serviço de medicina fetal após ultrassonografia identificar defeito de fechamento da parede abdominal, com alças intestinais herniadas à direita da inserção do cordão, sem membrana de revestimento e sem outras malformações. O cariótipo fetal foi solicitado e está pendente. Ela está clinicamente bem, com pressão arterial de 110x68 mmHg e crescimento fetal adequado. O casal pergunta sobre o prognóstico e o planejamento do parto. A hipótese diagnóstica mais provável é
A gastrosquise caracteriza-se por defeito paraumbilical, geralmente à direita da inserção do cordão, com alças intestinais livres sem membrana de revestimento, tendo bom prognóstico na maioria dos casos isolados e exigindo parto em serviço com cirurgia pediátrica. A onfalocele apresenta membrana de revestimento e associa-se com maior frequência a anomalias cromossômicas e outras malformações. A hérnia diafragmática cursa com vísceras no tórax. A extrofia de bexiga apresenta exposição da mucosa vesical na parede abdominal inferior.
Nasce um recém-nascido a termo com defeito na parede abdominal à direita do coto umbilical, medindo cerca de 4 cm, com alças intestinais exteriorizadas, edemaciadas e sem membrana de cobertura. O cordão umbilical está inserido normalmente na parede e não há outras malformações aparentes ao exame. O bebê está ativo, com boa vitalidade, e foi mantido em berço aquecido. O peso de nascimento foi de 2.400 g, o Apgar foi 8 e 9, e a mãe realizou pré-natal com ultrassonografia que já sugeria defeito de parede no segundo trimestre. Qual é o diagnóstico e a conduta imediata?
Defeito paraumbilical à direita, com alças exteriorizadas sem membrana de cobertura e cordão inserido normalmente, caracteriza gastrosquise, cuja conduta imediata inclui proteção das vísceras em invólucro estéril, descompressão gástrica, hidratação, controle térmico e correção cirúrgica precoce. A onfalocele tem o defeito central, coberto por membrana, com o cordão inserido no saco, e associa-se a outras malformações. Hérnia umbilical é coberta por pele e não expõe vísceras. Extrofia de bexiga acomete o trato urinário, com mucosa vesical exposta.
Mulher, 19 anos, primigesta, tabagista, com 22 semanas, realiza ultrassom morfológico que evidencia alças intestinais livres flutuando na cavidade amniótica, à direita da inserção do cordão umbilical, sem membrana de revestimento. Não há outras malformações, e o fígado está intracavitário. Peso fetal no percentil 30. PA 110/68 mmHg. Alfafetoproteína materna elevada. Qual o diagnóstico e a conduta de seguimento?
Trata-se de gastrosquise, caracterizada por defeito paraumbilical, tipicamente à direita, com alças livres no líquido amniótico e sem membrana de revestimento, associada a mãe jovem e tabagismo; a conduta inclui vigilância do crescimento, que costuma ser restrito, monitorização das alças e parto programado em centro com cirurgia pediátrica para correção neonatal. A onfalocele é o principal diferencial, mas apresenta membrana de revestimento e inserção central do cordão, além de forte associação a cromossomopatias. A hérnia diafragmática cursaria com desvio do mediastino e vísceras no tórax, não na cavidade amniótica. A extrofia de cloaca envolve defeito complexo com bexiga e intestino, e não é indicação legal de interrupção no Brasil. Ascite fetal produziria líquido livre no abdome, e não alças exteriorizadas.
Recém-nascido a termo nasce com alças intestinais exteriorizadas através de defeito de 3 cm à direita do cordão umbilical, sem membrana de cobertura, com alças edemaciadas e recobertas por fibrina. Não há outras malformações aparentes ao exame inicial. Peso 2.450 g, temperatura axilar 35,8 °C, FC 168 bpm. Não houve diagnóstico pré-natal e o parto ocorreu em serviço sem cirurgia pediátrica. Qual a conduta imediata na sala de parto?
Na gastrosquise, defeito paraumbilical à direita sem membrana de cobertura, a conduta imediata é proteger as alças com plástico estéril, evitar perdas de calor e líquidos, descomprimir o estômago com sonda, iniciar hidratação venosa e transferir para centro com cirurgia pediátrica. Tentar a redução e o fechamento na sala de parto, sem estrutura e sem avaliação, arrisca síndrome compartimental abdominal. Compressas geladas agravam a hipotermia, que já está presente. A dieta enteral precoce é inviável com alças expostas e íleo prolongado. Curativo seco com gaze adere às alças e provoca lesão adicional, além de não conter as perdas hídricas.
Recém-nascido a termo apresenta defeito central da parede abdominal, com o cordão umbilical inserido no ápice de um saco membranoso translúcido que contém alças intestinais e fígado, medindo 6 cm. Exame: fácies com macroglossia, hemi-hipertrofia corporal e episódios de hipoglicemia sintomática nas primeiras horas de vida. Ecocardiograma solicitado. Glicemia capilar 28 mg/dL após 4 horas de vida, corrigida com glicose endovenosa. Qual o diagnóstico associado que deve ser investigado?
A onfalocele associada a macroglossia, hemi-hipertrofia e hipoglicemia por hiperinsulinismo caracteriza a síndrome de Beckwith-Wiedemann, que impõe controle glicêmico rigoroso e rastreamento periódico de tumores embrionários como o de Wilms e o hepatoblastoma. A síndrome de Down associa-se a atresia duodenal e cardiopatias, sem macroglossia com hemi-hipertrofia e hipoglicemia desse padrão. A síndrome de Turner acomete meninas com linfedema e pescoço alado. A sequência de Pierre Robin cursa com micrognatia, glossoptose e fenda palatina. A síndrome de Prune-Belly apresenta deficiência da musculatura abdominal, criptorquidia e anomalias urinárias, sem saco membranoso com fígado herniado.
Recém-nascido a termo apresenta, ao nascimento, alças intestinais exteriorizadas através de defeito de 3 cm na parede abdominal, à direita do cordão umbilical, sem qualquer membrana de revestimento. As alças estão espessadas e recobertas por exsudato. FC 160 bpm, FR 56 ipm, T 36,0 °C. Não há outras malformações evidentes ao exame clínico inicial. Qual a conduta imediata na sala de parto?
Envolver as alças em campo estéril úmido, com sonda gástrica, hidratação e aquecimento, é a conduta imediata: a gastrosquise, defeito paraumbilical à direita e sem saco, expõe o recém-nascido a perda evaporativa maciça, hipotermia e infecção, e essas medidas precedem a correção cirúrgica. Operar na sala de parto sem estabilização ignora o risco metabólico. Aguardar 48 horas com alças expostas é inaceitável. Aplicar antisséptico e manter a exposição agrava a perda de calor e de líquidos. A dieta enteral precoce é impossível diante da obstrução funcional e do intestino inflamado.
Recém-nascido a termo nasce com alças intestinais exteriorizadas à direita do cordão umbilical, sem membrana de revestimento, com aspecto edemaciado e recoberto por exsudato fibrinoso. FC 160 bpm, FR 56 ipm, T 36,2 °C. Não há outras malformações identificadas ao exame. O diagnóstico havia sido suspeitado em ultrassonografia obstétrica do segundo trimestre com alfafetoproteína materna elevada. Qual a conduta imediata em sala de parto?
Na gastrosquise, a conduta imediata é proteger as alças expostas com plástico estéril ou bolsa, evitando perda de calor e de água, garantir acesso venoso com hidratação generosa, passar sonda gástrica para descompressão e encaminhar à cirurgia para fechamento primário ou uso de silo. Reintroduzir as alças à força em sala de parto causa síndrome compartimental abdominal. Compressas com iodopovidona provocam absorção sistêmica de iodo e perda evaporativa. Aguardar 24 horas sem proteção leva a hipotermia, desidratação e sepse. O enema opaco não tem lugar na abordagem inicial dessa emergência cirúrgica.
Recém-nascido a termo apresenta defeito central da parede abdominal com herniação de vísceras através da base do cordão umbilical, recobertas por membrana translúcida íntegra. FC 152 bpm, FR 50 ipm, T 36,6 °C; observam-se macroglossia e hipoglicemia de 32 mg/dL na primeira hora de vida. O peso ao nascer está acima do percentil 90 para a idade gestacional. Qual a síndrome associada mais provável?
Onfalocele associada a macroglossia, macrossomia e hipoglicemia por hiperinsulinismo compõe a síndrome de Beckwith-Wiedemann, que exige rastreamento de tumores embrionários como o de Wilms e o hepatoblastoma. A síndrome de Down também pode acompanhar onfalocele, mas o quadro descrito não traz hipotonia, prega única ou fácies característica. A síndrome de Turner cursa com linfedema, pescoço alado e coarctação, sem defeito de parede. A síndrome de Marfan não se manifesta com onfalocele no período neonatal. A síndrome alcoólica fetal apresenta restrição de crescimento e alterações faciais, não macrossomia com onfalocele.
Recém-nascido a termo nasce com alças intestinais exteriorizadas através de defeito da parede abdominal à direita do cordão umbilical, sem membrana de revestimento sobre as vísceras expostas. FC 168 bpm, T 35,9 graus Celsius, FR 62 ipm. As alças apresentam-se espessadas e edemaciadas. Não há outras malformações evidentes ao exame físico inicial realizado na sala de parto. Qual a conduta imediata?
Proteger as vísceras expostas com material estéril e adequado, controlar a temperatura e iniciar hidratação venosa com descompressão gástrica é a conduta imediata na gastrosquise, pois as perdas hídricas e térmicas pela superfície exposta são intensas. Reintroduzir as alças manualmente na sala de parto pode causar síndrome compartimental abdominal e lesão visceral. Deixar as vísceras descobertas agrava perdas e contaminação. A dieta enteral precoce é inviável nesse momento. A exsanguineotransfusão não tem qualquer relação com o quadro.
Bebê tem defeito mediano da parede abdominal com saco membranoso, no qual o cordão se insere. Qual diagnóstico é mais provável?
O saco central com inserção do cordão indica onfalocele. Herniação pela base do cordão com saco de cobertura pode conter intestino e fígado; anomalias associadas devem ser investigadas. Referência: https://www.cdc.gov/birth-defects/about/omphalocele.html
Recém-nascido apresenta alças expostas por defeito à direita do umbigo, sem membrana, com cordão separado do defeito. Qual diagnóstico é mais provável?
A anatomia caracteriza gastrosquise. Defeito de parede geralmente paraumbilical permite exteriorização de alças sem membrana de cobertura. Referência: https://www.cdc.gov/birth-defects/about/gastroschisis.html
Ao nascer, bebê apresenta vísceras herniadas na base do cordão, cobertas por saco membranoso. Qual diagnóstico é mais provável?
A cobertura e a inserção central favorecem onfalocele. Herniação pela base do cordão com saco de cobertura pode conter intestino e fígado; anomalias associadas devem ser investigadas. Referência: https://www.cdc.gov/birth-defects/about/omphalocele.html
Neonato tem defeito paraumbilical com intestino exteriorizado diretamente ao ambiente, sem saco protetor. Qual diagnóstico é mais provável?
Ausência de membrana em defeito lateral caracteriza gastrosquise. Defeito de parede geralmente paraumbilical permite exteriorização de alças sem membrana de cobertura. Referência: https://www.cdc.gov/birth-defects/about/gastroschisis.html
Recém-nascido apresenta intestino e parte do fígado em saco ligado à base do cordão umbilical. Qual diagnóstico é mais provável?
A herniação central coberta corresponde a onfalocele. Herniação pela base do cordão com saco de cobertura pode conter intestino e fígado; anomalias associadas devem ser investigadas. Referência: https://www.cdc.gov/birth-defects/about/omphalocele.html
Ultrassom pré-natal e exame neonatal mostram alças livres fora do abdome, por orifício lateral ao cordão, sem membrana de revestimento. Qual diagnóstico é mais provável?
A descrição corresponde a gastrosquise. Defeito de parede geralmente paraumbilical permite exteriorização de alças sem membrana de cobertura. Referência: https://www.cdc.gov/birth-defects/about/gastroschisis.html
Neonato apresenta cordão umbilical de inserção preservada e defeito adjacente com alças expostas sem cobertura. Qual diagnóstico é mais provável?
O defeito paraumbilical sem saco favorece gastrosquise. Defeito de parede geralmente paraumbilical permite exteriorização de alças sem membrana de cobertura. Referência: https://www.cdc.gov/birth-defects/about/gastroschisis.html
Recém-nascido apresenta saco contendo vísceras no anel umbilical e outras malformações em investigação. Qual diagnóstico é mais provável?
Onfalocele pode associar-se a outras anomalias. Herniação pela base do cordão com saco de cobertura pode conter intestino e fígado; anomalias associadas devem ser investigadas. Referência: https://www.cdc.gov/birth-defects/about/omphalocele.html
O defeito de A é mais compatível com qual diagnóstico anatômico?

Defeito mediano com saco e cordão inserido nele é compatível com onfalocele.
Qual recém-nascido tem alças sem cobertura membranosa?

B apresenta defeito paraumbilical com alças expostas sem saco.
Se a redução de alças eleva muito a pressão abdominal e prejudica ventilação, qual estratégia pode ser necessária?

Desproporção entre conteúdo e cavidade pode exigir redução gradual, evitando comprometimento respiratório e perfusional.
Qual associação é mais apropriada para A e justifica investigação adicional sistemática?

Onfalocele associa-se a outras anomalias; investigação deve integrar exame, coração e avaliação genética conforme o caso.
Em B, que medida imediata ajuda a limitar perdas e lesão antes do tratamento definitivo?

Alças expostas perdem calor e líquido; proteção e posicionamento preservam perfusão enquanto se estabiliza o bebê.
Neonato teve a parede abdominal fechada após tratamento de gastrosquise. Ainda apresenta dismotilidade e não tolera volume enteral suficiente. Qual princípio é adequado?
A recuperação inclui função intestinal e crescimento, além da correção anatômica. O suporte é ajustado até que a alimentação enteral seja suficiente. Referências: MedlinePlus. Gastroschisis — https://medlineplus.gov/ency/article/000992.htm
Recém-nascido com onfalocele gigante necessita suporte respiratório prolongado. Não há cardiopatia que explique o quadro. Qual alteração associada deve integrar a avaliação?
A avaliação da onfalocele gigante deve incluir repercussões respiratórias e desenvolvimento pulmonar, que podem determinar necessidades além da correção da parede. Referências: Children’s Hospital of Philadelphia. Omphalocele — https://www.chop.edu/conditions-diseases/omphalocele
Após fechamento de gastrosquise, recém-nascido apresenta abdome muito tenso, oligúria e piora abrupta da ventilação. Não houve sangramento relevante. Qual complicação deve ser considerada prioritariamente?
Pressão intra-abdominal elevada pode prejudicar perfusão renal e excursão diafragmática. A equipe cirúrgica deve reavaliar prontamente o fechamento. Referências: Connecticut Children’s. Gastroschisis — https://www.connecticutchildrens.org/specialties-conditions/fetal-care-center/fetal-care-conditions/gastroschisis
Neonato com gastrosquise tem alças viáveis, mas muito edemaciadas. A tentativa de redução integral provoca aumento importante das pressões ventilatórias. Qual alternativa cirúrgica deve ser considerada?
A escolha entre fechamento primário e em etapas depende de tolerância fisiológica e relação entre volume visceral e cavidade. Referências: Connecticut Children’s. Gastroschisis — https://www.connecticutchildrens.org/specialties-conditions/fetal-care-center/fetal-care-conditions/gastroschisis MedlinePlus. Gastroschisis — https://medlineplus.gov/ency/article/000992.htm
Dois recém-nascidos têm gastrosquise de tamanho semelhante. Em um, o intestino está íntegro; no outro, há atresia e segmento perfurado. Qual característica mais modifica a complexidade do segundo caso?
O tamanho do defeito não resume a gravidade. Lesões das alças podem exigir procedimentos adicionais e prolongar a recuperação. Referências: ERNICA. Evidence based guideline on the management of gastroschisis — https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC10860293/
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Sete dias depois, recupere sem consultar: (1) as duas perguntas que fecham o diagnóstico, e o que continua separando as duas doenças quando a membrana da onfalocele está rota; (2) os dois números da separação nacional — 2.266 exonfalias a 0,78 por dez mil e 6.770 gastrosquises a 2,30 por dez mil — e a razão de três para um entre elas; (3) por que os 39,5% de mães adolescentes do grupo não descrevem nenhuma das duas doenças, e qual das duas fica abaixo dos 17,8% de fundo; (4) a sequência da sala de parto na gastrosquise, com o invólucro plástico no lugar da gaze, o decúbito lateral direito, a sonda aberta, a hidratação 50% acima da basal, e as duas proibições de via aérea; (5) a definição de gastrosquise complexa por lesão intestinal, com o teto de 25%, e por que classificar por conteúdo eviscerado produz quase 60%; (6) as três alternativas de fechamento e o gatilho do silo, mais os três sinais da síndrome compartimental abdominal; (7) os dois critérios que fazem uma onfalocele ser gigante e o caminho conservador para ela; (8) o exame de sangue que a suspeita de síndrome de Beckwith-Wiedemann obriga e por que o bebê a termo com peso adequado não seria rastreado sem ele.
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Trinta dias depois, reconstrua o raciocínio inteiro a partir de uma foto: da membrana e do cordão até a decisão de fechar. Explique por que o número nacional de 3,08 por dez mil é um piso e não uma medida completa; por que casos caindo 10,4% com prevalência parada significa denominador menor, e não doença recuando; e por que 53% de letalidade em Recife, 23,4% em Porto Alegre e 12,9% no Rio de Janeiro podem ser todos verdadeiros ao mesmo tempo. Refaça também as duas leituras de série que a prova cobra como raciocínio: por que o diagnóstico pré-natal, que reduzia o risco em 74% na análise simples, desapareceu no modelo múltiplo — sabendo que o grupo com diagnóstico não tinha nenhum prematuro —, e por que a coorte de Porto Alegre, que excluiu os transferidos, mede bem a si mesma e não se transpõe para o serviço que recebe o bebê de fora.
Agora atenda
Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.
Você é chamado à sala de parto de um hospital regional. Nasceu há oito minutos um bebê a termo com alças intestinais para fora, à direita do umbigo, sem qualquer cobertura. A mãe tem 18 anos, fez duas consultas de pré-natal e nunca ouviu falar do defeito. A enfermeira já separou compressas e soro fisiológico morno e pergunta se pode começar a molhar as alças; o pediatra plantonista quer instalar pressão positiva contínua porque o bebê está taquipneico; e o transporte para o centro terciário, a noventa minutos de distância, ainda não foi acionado. Cabe a você organizar os próximos vinte minutos: decidir o que cobre a víscera, o que entra na veia, o que fica proibido na via aérea, em que posição o bebê viaja, e o que precisa ser dito à mãe antes de a ambulância sair. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.
