Cirurgia GeralCirurgia Pediátrica

Doença de Hirschsprung

A vinheta é sempre a mesma: recém-nascido que não eliminou mecônio, distendeu e vomitou verde. O que a questão cobra é o exame que fecha o diagnóstico — e ele não é o enema, não é a manometria e não é a radiografia. É a biópsia retal, colhida num ponto específico do reto, com uma pergunta específica para o patologista.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Recém-nascido a termo, com 36 horas de vida, apresenta distensão abdominal progressiva e ainda não eliminou mecônio. A gestação transcorreu sem intercorrências. Ao exame o abdome está distendido e o toque retal provoca saída explosiva de mecônio e gases, com alívio parcial da distensão. O enema opaco mostra segmento distal estreitado com zona de transição para cólon dilatado a montante. Qual é a conduta diagnóstica definitiva mais apropriada?

02

Como esse tema cai

A vinheta desta doença tem três linhas e quase sempre as mesmas três: recém-nascido a termo que não eliminou mecônio nas primeiras horas, abdome que foi distendendo e vômito que ficou verde. O diagnóstico sindrômico — obstrução intestinal baixa — sai da primeira leitura. O que a banca cobra é o passo seguinte, e ele é sempre o mesmo: qual exame confirma. A resposta é a biópsia retal, e as três alternativas que existem para roubá-la são o enema contrastado, a manometria anorretal e a radiografia simples de abdome. Nenhuma das três fecha o diagnóstico.

A segunda pergunta favorita muda de idade. A criança de cinco anos com constipação desde o berço, distensão e déficit de crescimento também é vinheta de Hirschsprung — e aí o que se cobra é o contrário: separar a doença rara da constipação funcional, que responde por 90% a 95% da constipação da infância. A lista de sinais de alarme que autoriza investigar é curta, e o primeiro item dela é o mecônio que demorou.

A doença não tem protocolo clínico do Ministério da Saúde, e o levantamento nacional mais recente entre cirurgiões pediátricos brasileiros termina justamente pedindo que uma diretriz nacional seja escrita. A posição federal sobre ela é de vigilância, e cabe em três fatos verificáveis: a Lei nº 13.685/2018 obriga o médico a descrever na Declaração de Nascido Vivo toda anomalia identificada; a doença de Hirschsprung, código Q43.1 da CID-10, não está entre os oito grupos de anomalias eleitos prioritários para a vigilância ao nascimento — o único grupo digestivo dessa lista são os defeitos da parede abdominal —; e ela também não está no rol de anomalias menores que o algoritmo de qualidade do Sinasc exclui da contagem, rol onde a estenose hipertrófica de piloro está. Traduzindo: é anomalia que conta, mas que ninguém foi treinado para procurar na sala de parto. As réguas clínicas vêm de outro lugar — do guia de constipação da Sociedade Brasileira de Pediatria, do consenso europeu da rede ERNICA e das séries brasileiras.

Vale dizer o que fica de fora. Megacólon chagásico é outra doença: a destruição dos plexos entéricos pelo Trypanosoma cruzi é adquirida, acomete adulto e produz um quadro funcionalmente parecido — por isso a palavra megacólon, sozinha, não é sinônimo de Hirschsprung em prova brasileira. Enterocolite necrosante do prematuro também é outro capítulo, ainda que a enterocolite associada à doença de Hirschsprung compartilhe com ela o nome e parte da gravidade. E a constipação funcional, que é o diagnóstico da imensa maioria das crianças que chegam constipadas, tem manejo próprio e não passa por biópsia.

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O que muda decisão

O recém-nascido que não elimina mecônio

A doença ocorre em cerca de 1 a cada 5.000 nascidos vivos, com predomínio masculino de 4 para 1. Em torno de 90% dos pacientes se apresentam já no período neonatal, e a janela diagnóstica é estreita: o diagnóstico é feito em 65% dos casos antes de um mês de vida e em 95% antes de um ano. Apresentação depois dos quatro anos existe, mas é incomum e costuma corresponder a segmento curto com sintomas parcialmente compensados.

A tríade clássica é retardo na eliminação de mecônio, distensão abdominal e vômito bilioso. Cada componente tem peso diferente: distensão abdominal aparece em mais de 90% dos casos, vômitos em mais de 85% e a falha em eliminar mecônio nas primeiras 24 horas em mais de 60%. Ou seja — quase quatro em cada dez recém-nascidos com a doença eliminaram mecônio no primeiro dia. O dado que mais convence não é, portanto, o mais frequente.

O exame que dá a pista à beira do leito é o toque retal. Encontram-se canal anal hipertônico e ampola retal vazia; e a retirada do dedo, ou a passagem de uma sonda retal, costuma ser seguida de saída explosiva de gases e fezes de odor fétido — o sinal do jato, que alivia a distensão e engana quem o interpreta como tratamento. A radiografia simples mostra alças distendidas com padrão de obstrução baixa e ausência de ar no reto, o que confirma a obstrução e não diz onde ela está. Em até 5% dos recém-nascidos a doença se apresenta já com perfuração — de ceco, cólon ascendente ou apêndice —, e nesses o abdome agudo antecede qualquer investigação eletiva.

Na série brasileira de 55 pacientes do Instituto Fernandes Figueira, todos menos um tiveram manifestação no período neonatal, e mesmo assim só 26 deles — 47,2% — foram diagnosticados nesse período. O retardo de mecônio associado a outros sintomas apareceu em 60% dos casos e isoladamente em apenas 7,2%; a distensão abdominal progressiva foi registrada em 74,54%, e isolada em 3,63%. A leitura útil é a dos autores: os sintomas estavam lá desde o nascimento, e o diagnóstico chegou tarde assim mesmo.

Por que falta neurônio justamente no fim do intestino

Os neurônios entéricos vêm de células da crista neural que migram no sentido craniocaudal ao longo do tubo digestivo em formação. A colonização do cólon proximal se completa por volta da oitava semana de gestação, e a migração alcança o reto em torno da décima segunda. A última região a ser colonizada é, portanto, a mais distal — e é isso que dita toda a geografia da doença: a interrupção da migração deixa um segmento agangliônico que começa sempre no ânus e se estende proximalmente, de forma contínua, sem ilhas de intestino normal abaixo dele.

Faltam células ganglionares nos dois plexos, o mientérico de Auerbach e o submucoso de Meissner. Sem os neurônios inibitórios, o segmento não relaxa: fica espástico, estreito e aperistáltico, e funciona como obstáculo mecânico mesmo com a luz anatomicamente pérvia. Há liberação continuada de acetilcolina, e é ela que explica o achado histoquímico — a acetilcolinesterase está aumentada nas fibras nervosas hipertrofiadas do segmento doente. O cólon a montante, este sim inervado, dilata contra a barreira. Daí a armadilha anatômica que a prova adora: o megacólon está no intestino saudável, e o intestino doente é o estreito. Biopsiar o segmento dilatado devolve células ganglionares presentes e um laudo falsamente tranquilizador.

A extensão do segmento agangliônico define as formas. Em cerca de 80% a 85% dos casos a aganglionose se limita ao retossigmoide — a forma clássica, de segmento curto. Em 15% a 20% ela ultrapassa o sigmoide, e aí se fala em segmento longo; nos extremos estão a aganglionose colônica total e, mais rara ainda, a aganglionose intestinal total. Na série brasileira citada, 38 dos 55 pacientes tinham segmento curto (69%) e 17 tinham segmento longo (31%), destes seis com acometimento colônico total e dois com acometimento intestinal total. Vale notar o que o predomínio masculino faz nessa divisão: na mesma série, a razão entre os sexos foi de 6,6 meninos para cada menina no segmento curto e caiu para 1,4 para 1 no segmento longo. Quanto mais extensa a doença, menos ela é doença de menino.

A herança é complexa e multigênica, com penetrância fraca e dependente do sexo. Entre 80% e 90% dos casos são esporádicos, e de 10% a 20% são familiares — estes mais frequentemente de segmento longo ou colônico total, com padrão autossômico dominante de penetrância variável. O gene principal é o proto-oncogene RET, alterado em cerca de 35% dos casos esporádicos e em 49% dos familiares; os demais genes conhecidos, entre eles GDNF, EDN3, EDNRB, SOX10 e PHOX2B, respondem por apenas 5% a 10%. A doença se associa a síndromes — Shah-Waardenburg, Haddad, Mowat-Wilson, Goldberg-Shprintzen — e à síndrome de Down, que apareceu em 9 dos 55 pacientes (16,3%) da série do Instituto Fernandes Figueira. O consenso europeu registra que entre 4% e 30% dos pacientes têm transtorno do desenvolvimento ou síndrome associada.

Há um pedaço genético com consequência prática: mutações do RET no éxon 10 associam a doença de Hirschsprung à neoplasia endócrina múltipla tipo 2A. É rara, e os 22 pacientes rastreados na série brasileira não tiveram nenhuma; mas é a razão pela qual o achado de história familiar de carcinoma medular de tireoide num paciente com Hirschsprung muda a conduta da família inteira, e não só a daquela criança.

Esquema em dois painéis: à esquerda, a migração craniocaudal dos neurônios entéricos que se interrompe antes de alcançar o segmento mais distal do intestino; à direita, o cólon do recém-nascido com três zonas — o segmento distal estreito e contraído, o funil da zona de transição e o cólon proximal muito dilatado —, com um pequeno fragmento de parede retal retirado logo acima do ânus.
A migração dos neurônios entéricos é craniocaudal e a última região colonizada é a mais distal: por isso a aganglionose começa no ânus e sobe de forma contínua. O megacólon está no intestino sadio, acima da barreira — e o fragmento que faz o diagnóstico sai do reto, logo acima do canal anal, não do segmento dilatado.

Biópsia retal: onde, quantas e coradas com quê

O diagnóstico é histológico e precisa estar confirmado antes do abaixamento. A biópsia retal é o padrão-ouro, com sensibilidade em torno de 93% e especificidade de 98%. A pergunta que se faz ao patologista é uma só — há células ganglionares neste fragmento? —, e o resultado que exclui a doença é a presença de qualquer número delas na coloração de hematoxilina-eosina.

O sítio da coleta não é detalhe técnico: é conteúdo de prova. Existe uma zona fisiologicamente agangliônica ou hipogangliônica no reto mais distal, e biopsiar dentro dela produz falso-positivo em criança sadia. Por isso a régua do consenso europeu manda colher da parede posterior e/ou lateral do reto a pelo menos 2 cm acima da linha pectínea, ou 3 cm da borda anal. O fragmento precisa conter submucosa representativa — o grupo de trabalho internacional do Congresso Mundial de Gastroenterologia de 2009 pede pelo menos 3 mm de diâmetro e no mínimo um terço de submucosa na amostra.

Há duas técnicas. A biópsia por sucção retira mucosa e submucosa sem anestesia geral e é a menos invasiva; a biópsia aberta, de espessura total, garante tecido abundante mas exige sedação ou anestesia. O consenso europeu as considera igualmente acuradas desde que haja submucosa suficiente, e manda escolher a menos invasiva que for factível — com a ressalva de que, na técnica de sucção, é prudente colher de dois a três fragmentos, enquanto uma biópsia aberta costuma bastar.

Quando o H&E não mostra células ganglionares, o caso não está fechado: em recém-nascidos e prematuros os gânglios são pequenos e imaturos e escapam à leitura. Aí entram a imuno-histoquímica e a histoquímica. Na doença de Hirschsprung a calretinina é negativa e a acetilcolinesterase está aumentada; a peripherina é a alternativa à calretinina. A acetilcolinesterase tem um limite que a prova cobra: seus falsos-negativos são ligados à idade, e a ausência de reação não exclui a doença no neonato muito jovem.

O retrato brasileiro é diferente do europeu justamente aqui. No levantamento com cirurgiões pediátricos brasileiros, 95% pedem biópsia retal — mas, em recém-nascidos e lactentes, 84% a fazem por técnica aberta de espessura total e apenas 11% por sucção; nas crianças acima de três anos, 86% aberta e 7% por sucção. A razão declarada não é preferência técnica: as pinças de biópsia por sucção não são de disponibilidade regular no país e não têm registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Quanto ao ponto de coleta, 46% colhem o fragmento mais distal a 2 cm da linha pectínea e 23% a 3 cm — dentro da régua —, mas 15% colhem a 1 cm, abaixo do mínimo recomendado. Sobre o número de fragmentos, 55% colhem três e 11% colhem um só. Nas colorações, hematoxilina-eosina em 90%, acetilcolinesterase em 48% e calretinina em 46%. E o laudo demora mais de cinco dias para 62% dos respondentes — o que ajuda a explicar por que a descompressão começa antes do resultado.

Enema contrastado e manometria: o que eles fazem e o que não fazem

O enema contrastado procura a zona de transição — a mudança de calibre entre o segmento distal estreito e o cólon dilatado a montante —, e mostra também a inversão da relação retossigmoide, irregularidade da mucosa e retenção de contraste em radiografia tardia. As imagens mais demonstrativas costumam vir logo após a evacuação do contraste. O papel dele no consenso europeu é explícito e limitado: quando possível, faz-se o enema antes da cirurgia para orientar o provável nível da aganglionose, mas ele é ferramenta complementar e não substitui a avaliação histológica que confirma o diagnóstico. E tem um ponto cego declarado — acima da junção retossigmoide, a mudança de calibre prevê mal o nível da doença, e a ausência de zona de transição clara deve levantar a hipótese de segmento longo.

A manometria anorretal mede outra coisa: o reflexo inibitório retoanal, o relaxamento do esfíncter interno em resposta à distensão do reto. Ele depende dos neurônios inibitórios do plexo mientérico e está uniformemente presente no recém-nascido sadio; sua ausência é característica da doença de Hirschsprung e, no consenso europeu, é uma das situações que indicam biópsia retal para excluí-la. Como método diagnóstico isolado, porém, tanto a manometria quanto o enema têm sensibilidade e especificidade inferiores às de uma biópsia retal adequada, particularmente no lactente pequeno.

A prática brasileira tem outra proporção. No levantamento nacional, 98% dos cirurgiões usam enema contrastado na investigação, contra 95% que pedem biópsia retal e apenas 21% que fazem manometria anorretal — método reconhecido como mais sensível e específico que o enema, porém mais caro e menos disponível. Na série do Instituto Fernandes Figueira, o enema baritado sugeriu a doença em 45 das 55 crianças (81,8%); nas outras 10 o exame foi contraindicado pela condição clínica. Considerando apenas os 29 recém-nascidos da série, o enema foi feito em 22 e se mostrou conclusivo em 17 — 77,2%. O número mais baixo no recém-nascido não é acaso: quanto mais cedo, menos tempo houve para a dilatação proximal se instalar e desenhar a zona de transição.

Enterocolite associada: o que realmente mata

A enterocolite associada à doença de Hirschsprung é a complicação que decide o prognóstico, antes e depois da cirurgia. Ela se suspeita clinicamente diante de diarreia com fezes explosivas e de odor fétido em criança com a doença — e pode ser a forma de apresentação, num paciente ainda sem diagnóstico. A definição segue imprecisa mesmo hoje; o instrumento usado é o escore de Pastor e colaboradores, construído por consenso Delphi, e o consenso europeu adota como gatilho clínico mais de 4 pontos nesse escore. Os dois cortes descritos têm desempenhos diferentes e opostos: acima de 4 pontos, sensibilidade de 84% e especificidade de 98%; acima de 10 pontos, sensibilidade de 42% e especificidade de 100%. Corte alto confirma, corte baixo rastreia.

O limiar de internação é baixo. Sintomas leves, sem distúrbio hidroeletrolítico e com marcadores inflamatórios normais, podem ser tratados fora do hospital com hidratação oral, irrigações retais e eventualmente metronidazol por via oral — desde que a criança seja reavaliada e internada se não melhorar. Todo o resto interna, e idade abaixo de um ano baixa ainda mais o limiar. No hospital, o tratamento é hidratação venosa, antibiótico intravenoso de largo espectro e lavagens retais com solução fisiológica duas a três vezes ao dia até a alta, com monitorização de diurese e eletrólitos, radiografia simples de abdome quando indicada e a equipe cirúrgica avisada.

Para os sintomas obstrutivos recorrentes ou persistentes, e para a enterocolite de repetição, a injeção intraesfincteriana de toxina botulínica é recomendada: nos relatos, de 62% a 89% dos pacientes melhoraram já após a primeira aplicação, que pode precisar ser repetida a cada três a seis meses. A tendência à enterocolite diminui com o tempo, e a maioria dos episódios ocorre nos primeiros anos depois do abaixamento.

Os números brasileiros dão a dimensão do problema. Na série do Instituto Fernandes Figueira, 22 dos 55 pacientes (40%) tiveram enterocolite antes mesmo da primeira cirurgia. Dos seis óbitos ocorridos no período, cinco foram diretamente atribuídos à doença: todos os cinco tinham segmento longo, todos haviam sido transferidos de outros hospitais durante o período neonatal, com média de idade de 6,4 dias, e todos morreram de enterocolite e sepse no pós-operatório. Como referência internacional de mortalidade contemporânea, a rede europeia EUROlinkCAT descreve 2,9% em um ano e 3,4% acumulados em cinco anos.

Do irrigar ao abaixar: a sequência do tratamento

Enquanto se espera o resultado da biópsia, começa a descompressão. Irrigações retais com solução fisiológica, por sonda retal macia, uma a três vezes ao dia, vencem a obstrução funcional e permitem alimentar a criança por via enteral; os pais são treinados para mantê-las em casa até a cirurgia. Elas descomprimem adequadamente cerca de 75% dos pacientes — e quem não responde costuma ter segmento longo ou estendido. É importante separar irrigação de enema de limpeza: o que se faz é lavagem com sonda que permite a saída do conteúdo, não a instilação de líquido em intestino que não esvazia.

O estoma deixou de ser rotina e passou a ser resgate. Ele está indicado quando as irrigações não descomprimem o suficiente, quando há enterocolite que não responde ao tratamento não operatório, ou quando há perfuração. O nível empiricamente mais seguro é a ileostomia, porque a aganglionose quase sempre se confina ao cólon; na presença de pneumoperitônio, a ileostomia também serve, desde que proximal ao sítio da perfuração. Sempre que possível, colhe-se biópsia de congelação no sítio planejado do estoma, e a amostra mais informativa é a circunferencial em anel — o donut —, que avalia os quatro quadrantes.

A cirurgia definitiva é o abaixamento: ressecar o intestino agangliônico e anastomosar o intestino inervado ao canal anal. Ela se faz eletivamente, com o paciente estável, ganhando peso e com o intestino descomprimido — em geral dentro de 2 a 3 meses após o diagnóstico —, e o consenso europeu registra que nenhuma vantagem específica foi identificada em operar durante o período neonatal.

Três detalhes técnicos viram pergunta. Primeiro, o canal anal se preserva: a mucosa de transição acima da linha pectínea carrega as terminações nervosas do arco reflexo da sensibilidade e da continência, inclusive o reflexo de amostragem, e a dissecção transanal começa de 0,5 a 2 cm acima da linha pectínea. Segundo, o cólon é seccionado pelo menos 5 a 10 cm proximal à primeira biópsia normal, para não abaixar a zona de transição — e, se restar dúvida no intraoperatório, colhem-se biópsias de mapeamento em diferentes níveis. Terceiro, os cuffs seromusculares longos devem ser evitados: no abaixamento endorretal, ausência de cuff, como em Swenson, ou cuff curto, abaixo de 2 a 3 cm, têm resultados comparáveis.

As três operações históricas — Swenson, de 1948, Duhamel, de 1956, e Soave, de 1963 — sobrevivem em versões modernas, e o consenso europeu é explícito ao dizer que não há evidência de superioridade de uma sobre a outra em complicações cirúrgicas ou em função intestinal a longo prazo; o centro deve fazer aquela em que tem mais experiência. No Brasil, a escolha se divide por idade: em recém-nascidos e lactentes com doença retossigmoide clássica, 70% preferem o abaixamento tipo Soave ou De La Torre-Mondragon por via transanal, contra 16% de Swenson e 14% de Duhamel, com 80% operando por via transanal; acima de três anos, o quadro se inverte e o Duhamel é a técnica de 54%, feita por via aberta em 52% dos casos. O motivo alegado é anatômico: no diagnóstico tardio o cólon está muito dilatado e espessado, a tração transanal prolongada estira o esfíncter e ameaça a continência de longo prazo.

Depois da anastomose, a calibração do coloanal ao menos uma vez, por volta de 2 a 3 semanas, é recomendada — um Hegar 12 serve para lactentes até 6 meses. O que não se recomenda é programa de dilatação anal de rotina para prevenir estenose ou enterocolite: a atualização de 2025 do consenso europeu retirou as dilatações anais preventivas de rotina das recomendações. Estenose anastomótica ocorre em até 10,6% depois do abaixamento endorretal, com relatos variando de 0 a 18,9%.

O abdome do recém-nascido que não abre — e as trocas que custam caro

A primeira pergunta do diferencial não é qual doença, é onde está a obstrução. Vômito bilioso em recém-nascido é obstrução abaixo da papila e não espera exame eletivo: a hipótese que corre contra o relógio é má rotação com volvo de intestino médio, porque o intestino pode necrosar em horas. Atresias intestinais — duodenal, jejunoileal, colônica — dão obstrução desde as primeiras horas, com padrão radiológico próprio; a atresia de duodeno tem o sinal da dupla bolha e associação com síndrome de Down, e é o vizinho mais confundido com Hirschsprung justamente por causa da trissomia.

Entre as causas que imitam Hirschsprung e não são cirúrgicas, três merecem nome. A síndrome da rolha meconial, ou síndrome do cólon esquerdo hipoplásico, aparece em filho de mãe diabética e frequentemente se resolve com o próprio enema contrastado que a diagnosticou — mas persistência dos sintomas depois disso devolve a criança à fila da biópsia. O íleo meconial é obstrução por mecônio espesso no íleo terminal e é, até prova em contrário, apresentação de fibrose cística. E o hipotireoidismo congênito produz constipação e distensão com hipoatividade generalizada, e é encontrado pela triagem neonatal.

Há um exame que ninguém faz e que resolve o caso: a inspeção do períneo. Ânus imperfurado e ânus de posição anterior ectópica produzem obstrução distal e constipação desde o nascimento e se diagnosticam com os olhos e uma régua, sem nenhum exame de imagem.

A segunda troca cara é etária. Fora do período neonatal, a criança com constipação crônica quase sempre tem constipação funcional — 90% a 95% dos casos, segundo o guia da Sociedade Brasileira de Pediatria. O que separa é o padrão: a constipação funcional começa tipicamente depois do desmame, da introdução alimentar ou do treinamento esfincteriano, cursa com comportamento de retenção, fezes de grande calibre que entopem o vaso, escape fecal e ampola retal cheia ao toque. O Hirschsprung começa no berço, não tem escape fecal, não tem comportamento de retenção, tem ampola vazia com esfíncter hipertônico e vem acompanhado de distensão e déficit pôndero-estatural. Os sinais de alarme do guia brasileiro dizem quando sair da rotina: mecônio eliminado após 48 horas de vida, início no primeiro mês, vômitos biliosos, febre, queda do estado geral, baixo ganho de peso e estatura, alterações do exame neurológico ou da coluna lombar, sangue nas fezes, tufo de pelos na região sacral e fístulas perineais.

Por fim, a troca brasileira. Megacólon chagásico não é doença de Hirschsprung: os plexos entéricos existiram e foram destruídos pelo Trypanosoma cruzi, o quadro é adquirido, aparece no adulto e costuma vir com megaesôfago e cardiopatia na mesma história. A palavra megacólon aparece nos dois, o mecanismo final se parece, e a origem é oposta — congênita e por falha de migração, de um lado; infecciosa e por destruição, do outro.

04

Do mecônio que não veio à confirmação histológica

O algoritmo tem duas bifurcações que decidem tudo: se o quadro é de obstrução neonatal ou de constipação crônica, o que muda a lista de diferenciais; e se o exame pedido confirma ou apenas sugere, o que separa a biópsia de todo o resto. As decisões de tratamento vêm depois, e nenhuma delas é o bisturi na primeira semana.

  1. 1Determine a idade e o cenário. Recém-nascido com retardo de mecônio, distensão e vômito é obstrução intestinal baixa até prova em contrário; criança maior com constipação desde o berço é o outro cenário, e nele a pergunta é se há sinal de alarme para causa orgânica.
  2. 2Antes de qualquer imagem, inspecione o períneo e faça o toque retal. Ânus imperfurado ou de posição anterior se diagnosticam pela inspeção. No toque, procure canal anal hipertônico com ampola vazia, e observe a saída explosiva de gases e fezes à retirada do dedo.
  3. 3Se o vômito é bilioso, trate como obstrução abaixo da papila e convoque o cirurgião na mesma hora: má rotação com volvo de intestino médio é a hipótese que não pode esperar exame eletivo.
  4. 4Peça radiografia simples de abdome para caracterizar a obstrução — alças distendidas com padrão baixo e ausência de ar no reto — e para procurar pneumoperitônio. Ela não faz o diagnóstico da doença.
  5. 5Peça o enema contrastado para orientar o provável nível da aganglionose pela zona de transição, sabendo que ele é complementar: não confirma o diagnóstico e é menos demonstrativo no recém-nascido, em quem a dilatação proximal ainda não se instalou.
  6. 6Indique a biópsia retal, que é o exame que fecha. Colha da parede posterior ou lateral, a pelo menos 2 cm acima da linha pectínea, com submucosa representativa; um fragmento por biópsia aberta costuma bastar, e dois a três se a técnica for por sucção.
  7. 7Leia o laudo com a pergunta certa. Qualquer célula ganglionar ao H&E exclui a doença. Se não houver células visíveis, exija coloração adicional antes de firmar o diagnóstico: na doença, a calretinina é negativa e a acetilcolinesterase está aumentada.
  8. 8Descomprima desde já, sem esperar o laudo: irrigações retais com solução fisiológica, por sonda macia, uma a três vezes ao dia, treinando os pais para continuar em casa. Elas bastam em cerca de 75% dos casos.
  9. 9Reserve o estoma — de preferência ileostomia — para quem não descomprime, para a enterocolite que não responde ao tratamento clínico e para a perfuração.
  10. 10Programe o abaixamento eletivo, com a criança estável, ganhando peso e descomprimida, em geral dentro de 2 a 3 meses do diagnóstico. Antes da incisão, uma dose de antibiótico intravenoso de largo espectro cobrindo aeróbios e anaeróbios.

Os quatro exames da investigação: o que cada um responde

ExameO que ele mostraO que ele NÃO fazOnde a prova cobra
Biópsia retal (padrão-ouro)Ausência de células ganglionares nos plexos; calretinina negativa e acetilcolinesterase aumentada. Sensibilidade em torno de 93% e especificidade de 98%Não dispensa o sítio correto: colhida abaixo de 2 cm da linha pectínea, cai na zona fisiologicamente agangliônica e dá falso-positivoÉ a resposta de 'qual exame confirma'. Qualquer célula ganglionar ao H&E EXCLUI a doença
Enema contrastadoZona de transição, inversão da relação retossigmoide, retenção tardia de contraste; orienta o provável nível da aganglionose antes da cirurgiaNão confirma o diagnóstico e prevê mal o nível acima da junção retossigmoide; pouco demonstrativo no recém-nascidoDistrator clássico de 'exame que fecha'. Enema sem zona de transição clara levanta a hipótese de segmento longo
Manometria anorretalAusência do reflexo inibitório retoanal, que é uniformemente presente no recém-nascido sadioNão substitui a histologia; ausência do reflexo é indicação de biópsia, não diagnóstico finalAparece como alternativa 'mais moderna'. No Brasil, só 21% dos cirurgiões a utilizam
Radiografia simples de abdomeAlças distendidas com padrão de obstrução baixa, ausência de ar no reto, pneumoperitônio quando há perfuraçãoNão diz onde está a obstrução nem qual é a doençaServe para procurar ar livre, nunca para excluir a doença

Obstrução e constipação no primeiro ano: o que separa Hirschsprung dos vizinhos

QuadroQuando começa e como é o vômitoAchado que apontaO que fecha
Doença de HirschsprungPrimeiras 24 a 48 horas, com retardo de mecônio; vômito pode ser biliosoToque retal com esfíncter hipertônico, ampola vazia e saída explosiva; distensão progressivaBiópsia retal sem células ganglionares, calretinina negativa
Má rotação com volvo de intestino médioQualquer momento, tipicamente súbito; vômito biliosoCriança que adoece rápido, dor desproporcional, acidose quando há isquemiaEmergência cirúrgica: vômito bilioso em recém-nascido não espera exame eletivo
Atresia de duodenoPrimeiras horas de vida; bilioso na maioriaSinal da dupla bolha na radiografia; associação com síndrome de DownRadiografia simples; a trissomia é o que a confunde com Hirschsprung
Íleo meconialPrimeiros dias, com mecônio espesso obstruindo o íleo terminalMicrocólon ao enema; história familiar ou triagem sugestivaFibrose cística até prova em contrário: teste do suor e genético
Rolha meconial / cólon esquerdo hipoplásicoPrimeiros dias; vômito pode faltarFilho de mãe diabética; o quadro se resolve com o próprio enema contrastadoResolução após o enema — mas sintoma que persiste devolve a criança à biópsia
Ânus imperfurado ou ectópico anteriorDesde o nascimentoInspeção do períneo; nenhum exame de imagem necessário para levantar a hipóteseO exame físico que ninguém fez
Hipotireoidismo congênitoSemanas, com constipação e hipoatividade generalizadaIcterícia prolongada, hipotonia, fontanela amplaTriagem neonatal e dosagem de TSH e T4 livre
Constipação intestinal funcionalEm geral após desmame, introdução alimentar ou treinamento esfincterianoComportamento de retenção, fezes de grande calibre, escape fecal, ampola retal CHEIAClínica: 90% a 95% da constipação da infância, sem indicação de biópsia

O que a régua europeia diz e o que o cirurgião brasileiro faz

PontoConsenso ERNICA (2020)Prática brasileira (levantamento com 329 respondentes)Por que diverge
Técnica da biópsia retalSucção e aberta são igualmente acuradas; escolher a MENOS invasiva que for factívelEm recém-nascidos e lactentes, 84% fazem aberta de espessura total e 11% por sucçãoAs pinças de sucção não têm disponibilidade regular no país nem registro na Anvisa
Enema contrastadoFerramenta complementar, recomendação condicional, para orientar o nível antes da cirurgia98% usam na investigação — mais do que os 95% que pedem biópsiaDisponibilidade e cultura de serviço; o enema é barato e chega antes do laudo
Manometria anorretalReflexo retoanal ausente indica biópsia; sensibilidade e especificidade inferiores às da biópsiaApenas 21% utilizamCusto e disponibilidade do equipamento
Momento do abaixamento no recém-nascido estávelEletivo, em geral 2 a 3 meses após o diagnóstico; nenhuma vantagem identificada no período neonatal51% indicam abaixamento imediato; 49% adiam até 6 meses ou 5 kgAusência de evidência forte dos dois lados — e de diretriz nacional
Técnica do abaixamentoSem superioridade demonstrada entre endorretal e Duhamel; fazer aquela em que o centro tem experiênciaRecém-nascido e lactente: Soave ou De La Torre transanal em 70%. Acima de 3 anos: Duhamel em 54%, aberto em 52%Diagnóstico tardio deixa o cólon dilatado e espessado, o que desfavorece a via transanal exclusiva

A tríade não vem completa, e nenhum componente é obrigatório. Distensão abdominal aparece em mais de 90% e vômitos em mais de 85%, mas a falha em eliminar mecônio nas primeiras 24 horas está presente em pouco mais de 60% — quase quatro em cada dez recém-nascidos com a doença eliminaram mecônio no primeiro dia.

Célula ganglionar presente exclui; célula ganglionar ausente ao H&E não confirma. Em recém-nascido e prematuro os gânglios são pequenos e imaturos, e é obrigatório pedir coloração adicional antes de firmar o diagnóstico.

A acetilcolinesterase tem falso-negativo ligado à idade: ausência de reação não exclui a doença no neonato muito jovem. A calretinina negativa é o achado que sustenta o diagnóstico nessa faixa.

Estoma virou resgate, não rotina. Ele é para quem não descomprime com irrigação, para a enterocolite refratária ao tratamento clínico e para a perfuração — e o nível empiricamente mais seguro é a ileostomia, porque a aganglionose quase sempre se confina ao cólon.

A enterocolite é a causa de morte, não a obstrução. Na série brasileira de 55 casos, 40% tiveram enterocolite antes da primeira cirurgia, e todos os óbitos diretamente ligados à doença foram por enterocolite e sepse pós-operatórias, em pacientes de segmento longo.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Quantas horas de atraso na eliminação de mecônio disparam a investigação

Mais de 24 horas no recém-nascido a termo — tríade clássica do consenso europeu

O consenso ERNICA define a tríade clássica que indica biópsia retal como retardo na eliminação de mecônio além de 24 horas no recém-nascido a termo, distensão abdominal e vômito bilioso, e registra que a falha em eliminar mecônio nas primeiras 24 horas está presente em mais de 60% dos pacientes com a doença. É a régua que prioriza sensibilidade num serviço que já está diante de um recém-nascido internado.

Kyrklund K, Sloots CEJ, de Blaauw I, et al. ERNICA guidelines for the management of rectosigmoid Hirschsprung's disease. Orphanet Journal of Rare Diseases 2020;15:164.

Mais de 48 horas após o nascimento — sinal de alarme do guia brasileiro de constipação

O Guia Prático de Orientação sobre constipação intestinal da Sociedade Brasileira de Pediatria lista, entre os sinais de alarme para causa orgânica, o atraso na eliminação de mecônio por mais de 48 horas após o nascimento. É a régua de quem atende no ambulatório uma criança maior e reconstrói a história neonatal pela lembrança da família — e um limiar mais alto reduz o número de investigações desnecessárias nesse cenário.

Sociedade Brasileira de Pediatria. Guia Prático de Orientação — Constipação intestinal. Departamento Científico de Gastroenterologia, 2024.

Na prova

As duas réguas não medem a mesma coisa: a de 24 horas é do berçário, diante do recém-nascido que ainda não evacuou; a de 48 horas é do ambulatório, diante da criança constipada cuja história neonatal é reconstruída pela mãe. Como identificar o recorte: vinheta ambientada em maternidade ou unidade neonatal, com abdome distendido e vômito, trabalha com o limiar de 24 horas; vinheta de consultório, com criança de meses ou anos, constipação crônica e a frase 'demorou a eliminar o mecônio', trabalha com o de 48 horas e cobra o reconhecimento do SINAL DE ALARME, não do prazo exato. Alternativa que afirma que eliminação normal de mecônio afasta a doença é distrator nos dois mundos — quase quatro em cada dez pacientes eliminaram mecônio no primeiro dia.

Operar o recém-nascido estável agora ou adiar o abaixamento

Abaixamento eletivo em 2 a 3 meses — posição do consenso europeu

O consenso ERNICA recomenda que o abaixamento seja feito quando o paciente estiver estável, ganhando peso e com o intestino suficientemente descomprimido, o que em geral significa uma cirurgia eletiva dentro de 2 a 3 meses após o diagnóstico. O documento afirma explicitamente que nenhuma vantagem específica foi identificada em operar durante o período neonatal, e reconhece que faltam dados para estabelecer o momento ótimo.

Kyrklund K, Sloots CEJ, de Blaauw I, et al. ERNICA guidelines for the management of rectosigmoid Hirschsprung's disease. Orphanet Journal of Rare Diseases 2020;15:164.

Abaixamento imediato no recém-nascido estável — o que metade dos cirurgiões brasileiros faz

No levantamento nacional com cirurgiões pediátricos, diante de um recém-nascido com diagnóstico confirmado e clinicamente estável, 51% dos respondentes indicam o abaixamento imediato como próximo passo, enquanto 49% adiam para 6 meses de idade ou até que a criança pese mais de 5 kg. O próprio artigo registra que não há acordo cientificamente sustentado sobre a abordagem mais adequada, e cita revisão sistemática com metanálise de 2022 que aponta pior prognóstico funcional no abaixamento endoanal primário feito antes dos 45 dias de vida.

Penaloza CSQ, Barreto AC, Ortolan EVP, Zani A, Lourenção PLTA. Management of Hirschsprung's Disease: A Survey with Brazilian Pediatric Surgeons. Children (Basel) 2024;11(11):1405.

Na prova

A divergência é real e o país está dividido ao meio — o que significa que nenhuma banca séria vai pedir a data da cirurgia como resposta única. O que ela cobra é a sequência, e nela os dois lados concordam: confirmar por histologia, descomprimir com irrigações retais e só então operar. Como identificar o recorte: enunciado que descreve criança estável, ganhando peso, com irrigações funcionando, e pergunta 'qual a conduta' está cobrando a cirurgia eletiva, não a urgência; enunciado que descreve enterocolite refratária, falha da irrigação ou perfuração está cobrando o estoma. Alternativa que manda operar de imediato um recém-nascido ainda desidratado e distendido é distrator nos dois mundos.

Como colher o fragmento: biópsia por sucção ou biópsia aberta de espessura total

A menos invasiva que for factível, o que na Europa significa sucção — posição do consenso ERNICA

O consenso considera a biópsia por sucção e a aberta igualmente acuradas desde que forneçam submucosa suficiente, e manda escolher o método menos invasivo que for factível, recomendando colher de dois a três fragmentos quando a técnica for a de sucção. A biópsia por sucção dispensa anestesia geral e tem baixa taxa de complicações.

Kyrklund K, Sloots CEJ, de Blaauw I, et al. ERNICA guidelines for the management of rectosigmoid Hirschsprung's disease. Orphanet Journal of Rare Diseases 2020;15:164.

Aberta de espessura total em 84% dos recém-nascidos — a prática brasileira, por causa regulatória

No levantamento com cirurgiões pediátricos brasileiros, a biópsia retal aberta de espessura total é a técnica mais usada independentemente da idade: 84% em recém-nascidos e lactentes, contra 11% por sucção; e 86% em crianças acima de três anos, contra 7%. O artigo atribui o uso limitado da sucção no Brasil à indisponibilidade das pinças, que não são de oferta regular no país e não têm registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária, e cita levantamento latino-americano em que cerca de 14% dos respondentes relataram usar pinças artesanais e não registradas.

Penaloza CSQ, Barreto AC, Ortolan EVP, Zani A, Lourenção PLTA. Management of Hirschsprung's Disease: A Survey with Brazilian Pediatric Surgeons. Children (Basel) 2024;11(11):1405.

Na prova

A causa desta divergência não é científica nem de escola: é de disponibilidade de material e de registro sanitário. Isso muda o que se pode cobrar — nenhuma banca brasileira vai marcar como errada a biópsia aberta. Como identificar o recorte: enunciado que descreve o exame sem anestesia, à beira do leito, e pede dois a três fragmentos está no mundo da sucção; enunciado que fala em centro cirúrgico e espessura total está no mundo aberto. Em qualquer dos dois, o que a questão pontua é o mesmo par: o SÍTIO, pelo menos 2 cm acima da linha pectínea, e a exigência de submucosa representativa. Alternativa que dispensa a biópsia porque o enema já mostrou zona de transição é distrator nos dois mundos.

06

Caso resolvido

Recém-nascido a termo, masculino, 38 semanas, 3.150 g, com 4 dias de vida, trazido ao pronto-socorro por distensão abdominal progressiva e recusa alimentar. A mãe informa que ele eliminou a primeira fezes escura já no hospital, no terceiro dia, após a enfermagem passar uma sonda no ânus, e que desde ontem vomita — os últimos vômitos eram esverdeados. Ao exame: ativo, hidratado, abdome muito distendido, timpânico, sem sinais de irritação peritoneal; períneo com ânus tópico e pérvio. Ao toque retal, canal anal hipertônico e ampola vazia; à retirada do dedo, saída explosiva de gases e fezes de odor fétido, com alívio visível da distensão. Radiografia simples de abdome: alças de delgado e cólon distendidas, com padrão de obstrução baixa e ausência de ar no reto; sem pneumoperitônio.
achado
Retardo na eliminação de mecônio além das primeiras 24 horas, distensão abdominal progressiva e vômito que se tornou bilioso — a tríade clássica. O toque retal reproduz o sinal do jato: esfíncter hipertônico, ampola vazia e descompressão explosiva à retirada do dedo. O ânus é tópico e pérvio, o que já afasta ânus imperfurado e ectopia anterior pela inspeção.
raciocínio
O quadro é de obstrução intestinal baixa em recém-nascido. O vômito bilioso obriga a considerar má rotação com volvo, mas a criança está ativa, sem dor desproporcional, sem sinais peritoneais e com alívio da distensão à descompressão retal — evolução que não combina com volvo e combina muito com obstrução funcional distal. Íleo meconial daria microcólon e história de fibrose cística; rolha meconial pediria mãe diabética; atresia daria obstrução desde as primeiras horas e não cederia à sonda.
imagem
A radiografia confirma o padrão de obstrução baixa e a ausência de ar no reto, e afasta pneumoperitônio — mas não diz qual é a doença. O enema contrastado é o próximo exame de imagem, para procurar zona de transição e orientar o provável nível da aganglionose; nesta idade ele é menos demonstrativo, porque a dilatação proximal ainda teve pouco tempo para se instalar, e um enema sem zona de transição clara levanta a hipótese de segmento longo.
confirmação
O que fecha é a biópsia retal, colhida da parede posterior ou lateral a pelo menos 2 cm acima da linha pectínea, com submucosa representativa. Qualquer célula ganglionar ao H&E excluiria a doença; a ausência delas, nessa idade, não basta — exige coloração adicional, e o par esperado é calretinina negativa com acetilcolinesterase aumentada.
conduta
Sem esperar o laudo, começa a descompressão: jejum enquanto há vômito, sonda gástrica se necessário, hidratação venosa e irrigações retais com solução fisiológica por sonda macia, uma a três vezes ao dia, com os pais treinados para mantê-las em casa. Elas descomprimem cerca de 75% dos pacientes e permitem realimentar. Confirmado o diagnóstico e estabilizada a criança, programa-se o abaixamento eletivo — em geral dentro de 2 a 3 meses. Estoma, de preferência ileostomia, fica reservado a quem não descomprime, à enterocolite refratária e à perfuração.
o que vigiar
A família precisa sair orientada sobre a enterocolite associada, que é a principal causa de morte da doença: diarreia explosiva e fétida, febre, distensão e prostração exigem retorno imediato, e o limiar de internação é baixo. Não é melhora do quadro obstrutivo — é a complicação que mata.
07

Agora feche você

Menina de 6 anos levada ao ambulatório por constipação. Evacua a cada 4 ou 5 dias, com fezes de grande calibre que já entupiram o vaso duas vezes, e chora de dor ao evacuar. A mãe conta que a menina cruza as pernas e fica na ponta dos pés quando sente vontade, e que há cerca de um ano suja a calcinha quase todos os dias, o que a mãe interpreta como diarreia intercalada. O quadro começou aos 3 anos, na época do desfralde. Eliminou mecônio nas primeiras 12 horas de vida. Peso e estatura no percentil 50, sem vômitos, sem sangue nas fezes. Ao exame: abdome com massa fecal palpável em fossa ilíaca esquerda; períneo normal, sem tufo de pelos nem fístulas; ao toque retal, tônus esfincteriano normal e ampola retal repleta de fezes endurecidas.
achado
Constipação com fezes de grande calibre, dor à evacuação, comportamento de retenção característico e escape fecal diário há um ano. Mecônio eliminado nas primeiras 12 horas, crescimento preservado e, ao toque, esfíncter de tônus normal com ampola retal CHEIA de fezes endurecidas.
raciocínio
O padrão é o oposto do da doença de Hirschsprung em todos os itens que decidem: início após o desfralde e não no berço, mecônio no prazo, escape fecal presente, comportamento de retenção presente, ampola cheia com esfíncter normal, crescimento preservado. Nenhum sinal de alarme da lista brasileira está presente — nem mecônio além de 48 horas, nem início no primeiro mês, nem vômito bilioso, nem déficit pôndero-estatural, nem alteração neurológica ou da coluna lombar, nem sangue nas fezes, nem tufo de pelos sacral, nem fístula perineal. O escape fecal que a mãe chama de diarreia é incontinência por transbordamento em torno do bolo fecal impactado.
conduta
08

Onde a banca derruba

  1. 1Marcar o enema contrastado como exame que fecha o diagnóstico É o distrator mais frequente do tema, e ele é bem construído: o enema aparece em quase toda vinheta, desenha a zona de transição e sugere fortemente a doença. Mas o diagnóstico é histológico e precisa estar confirmado antes do abaixamento. O enema orienta o nível provável, é ferramenta complementar por recomendação condicional e prevê mal o nível acima da junção retossigmoide. Quem responde enema perde uma questão que o próprio enunciado já tinha respondido ao dizer 'confirma'.
  2. 2Biopsiar o segmento dilatado A lógica intuitiva manda ir onde a doença aparece, e o que aparece é o megacólon. Só que o cólon dilatado é o intestino sadio, que se distendeu contra a barreira; o intestino doente é o segmento estreito, distal. Biopsiar a alça dilatada devolve células ganglionares presentes e um laudo que exclui a doença que o paciente tem. O fragmento sai do reto, logo acima do canal anal.
  3. 3Colher a biópsia rente à linha pectínea Existe uma zona fisiologicamente agangliônica ou hipogangliônica no reto mais distal. Fragmento colhido dentro dela mostra ausência de células ganglionares em criança sadia — falso-positivo com consequência cirúrgica. Por isso a régua manda colher a pelo menos 2 cm acima da linha pectínea, ou 3 cm da borda anal, com submucosa representativa. No levantamento brasileiro, 15% dos cirurgiões colhem o fragmento mais distal a 1 cm.
  4. 4Concluir Hirschsprung porque o H&E não mostrou células ganglionares A regra tem duas metades e a segunda é esquecida. Presença de qualquer número de células ganglionares ao H&E exclui a doença — essa metade todo mundo sabe. Ausência não confirma: em recém-nascidos e prematuros os gânglios são pequenos e imaturos e escapam ao H&E. É preciso coloração adicional, e o par que a prova cobra é calretinina negativa com acetilcolinesterase aumentada.
  5. 5Levar o recém-nascido estável direto para o abaixamento A palavra obstrução dispara o reflexo de operar hoje, e o enunciado costuma reforçar com distensão importante. Mas a obstrução é funcional e cede a irrigações retais em cerca de 75% dos casos; o abaixamento é eletivo, com a criança estável, ganhando peso e descomprimida, em geral 2 a 3 meses após o diagnóstico, e nenhuma vantagem foi identificada em operá-la no período neonatal. Operar cedo intestino dilatado e criança desnutrida é trocar uma obstrução que responde a sonda por uma anastomose de risco.
  6. 6Fazer colostomia de rotina antes do abaixamento O estoma prévio era a regra na era do abaixamento em dois ou três tempos e sobrevive na memória de quem estudou por material antigo. Hoje ele é resgate: indica-se quando as irrigações não descomprimem, quando há enterocolite que não responde ao tratamento clínico ou quando há perfuração. E, quando indicado, o nível empiricamente mais seguro é a ileostomia — não a colostomia às cegas —, porque a aganglionose quase sempre se confina ao cólon.
  7. 7Tratar a diarreia explosiva como melhora do quadro obstrutivo Criança com Hirschsprung que passa a ter diarreia fétida e explosiva não está desobstruindo: está com enterocolite associada, que é a principal causa de morte da doença. O limiar de internação é baixo, e o tratamento hospitalar é hidratação venosa, antibiótico intravenoso de largo espectro e lavagens retais duas a três vezes ao dia. Interpretar o episódio como alívio custa horas em uma criança que pode evoluir para sepse.
  8. 8Investigar como orgânica toda constipação da infância — e não investigar a que tem alarme Os dois erros são o mesmo erro em direções opostas. De 90% a 95% da constipação da infância é funcional, começa após o desmame ou o treinamento esfincteriano, vem com comportamento de retenção, escape fecal e ampola retal cheia, e não se investiga com biópsia. O que muda a rota é a lista de alarme do guia brasileiro, e o primeiro item dela é mecônio eliminado depois de 48 horas de vida. Ampola vazia com esfíncter hipertônico e ausência de escape fecal em criança constipada desde o berço é a combinação que pede investigação.
  9. 9Ler megacólon como sinônimo de Hirschsprung Em prova brasileira a palavra aparece nas duas doenças e elas não são a mesma. O megacólon chagásico é adquirido, do adulto, por destruição dos plexos entéricos pelo Trypanosoma cruzi, e costuma vir com megaesôfago e cardiopatia na história. A doença de Hirschsprung é congênita, por falha de migração das células da crista neural, e a aganglionose é distal e contínua desde o ânus. O mecanismo final se parece; a origem é oposta.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

O quadro (atraso na eliminação de mecônio >48h, distensão, sinal do 'jato' explosivo ao toque e zona de transição no enema) sugere doença de Hirschsprung, cujo diagnóstico definitivo é a biópsia retal demonstrando ausência de células ganglionares no plexo submucoso/mientérico. A manometria anorretal é sugestiva (ausência do reflexo inibitório retoanal), mas não é o padrão-ouro definitivo. TC não estabelece o diagnóstico. A biópsia deve incluir a camada submucosa (não apenas mucosa superficial). Dosagem de cloro no suor investiga fibrose cística (íleo meconial), diagnóstico diferencial, mas não confirma Hirschsprung.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Os números na ordem em que a questão os usa. Epidemiologia: 1 em 5.000 nascidos vivos, predomínio masculino de 4:1, 80% a 85% retossigmoide, 15% a 20% de segmento longo, cerca de 90% se apresentando no período neonatal, diagnóstico em 65% antes de 1 mês e 95% antes de 1 ano. Clínica: distensão em mais de 90%, vômitos em mais de 85%, retardo de mecônio além de 24 horas em mais de 60%; toque com esfíncter hipertônico, ampola vazia e saída explosiva; perfuração como apresentação em até 5%. Diagnóstico: biópsia retal a pelo menos 2 cm da linha pectínea (ou 3 cm da borda anal), com submucosa representativa, um fragmento se aberta e dois a três se por sucção; sensibilidade 93% e especificidade 98%; qualquer célula ganglionar ao H&E EXCLUI; na doença, calretinina negativa e acetilcolinesterase aumentada. Tratamento: irrigações retais 1 a 3 vezes ao dia, eficazes em cerca de 75%; estoma (ileostomia) só se falha, enterocolite refratária ou perfuração; abaixamento eletivo 2 a 3 meses após o diagnóstico; transecção 5 a 10 cm proximal à primeira biópsia normal; dissecção transanal 0,5 a 2 cm acima da linha pectínea. Enterocolite: escore de Pastor, corte de 4 pontos com sensibilidade 84% e especificidade 98%, corte de 10 pontos com sensibilidade 42% e especificidade 100%.

em 30 dias

As decisões, sem os números. Reconhecer a obstrução baixa do recém-nascido e, antes de qualquer imagem, inspecionar o períneo e fazer o toque retal. Separar o vômito bilioso que corre contra o relógio — má rotação com volvo — do que cede à descompressão retal. Pedir o enema para orientar o nível e a biópsia para confirmar, e nunca trocar a ordem. Ler o laudo com a pergunta certa: presença de célula ganglionar exclui, ausência ao H&E não confirma. Descomprimir com irrigação antes de pensar em sala, reservar o estoma para o resgate e programar o abaixamento eletivo. Depois da alta, vigiar a enterocolite, que é o que mata. E fechar pelas duas réguas que mudam de país: no Brasil o guia da Sociedade Brasileira de Pediatria usa 48 horas de mecônio como sinal de alarme, o consenso europeu usa 24 horas na tríade do recém-nascido; e a biópsia aberta é a regra brasileira porque as pinças de sucção não têm registro na Anvisa, não porque sejam melhores.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Você está de plantão na unidade neonatal. Um recém-nascido a termo, com 3 dias de vida, ainda não eliminou mecônio; o abdome está distendido e a enfermagem relata um vômito esverdeado há uma hora. A mãe pergunta se é preciso operar hoje. Conduza a investigação até o exame que confirma o diagnóstico, explique por que a descompressão começa antes do resultado e diga o que a família precisa vigiar em casa depois da alta. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Doença de Hirschsprung — Preparatório para provas | OsceLabs