Cirurgia GeralCirurgia Plástica

Cicatrização de feridas, cicatriz hipertrófica e queloide

Cicatrização de feridas e fases (queloide, cicatriz hipertrófica)

A prova cobra três coisas: o que acontece em cada fase e quando; por que a ferida ainda é frágil semanas depois de fechada; e como separar cicatriz hipertrófica de queloide — porque a conduta muda por completo.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Mulher, 22 anos, parda, procura o ambulatório 4 meses após cesariana. Queixa-se de lesão sobre a incisão de Pfannenstiel, com prurido e sensação de fisgada. Ao exame, nota-se cordão elevado, endurecido e avermelhado que ULTRAPASSA os limites da cicatriz cirúrgica original, invadindo a pele adjacente sã de forma irregular, sem tendência à regressão espontânea desde que surgiu. Relata lesão semelhante em orelha após colocação de brinco na adolescência. Não há dor à palpação profunda nem sinais flogísticos de infecção. Qual é o diagnóstico mais provável?

02

Como esse tema cai

Cicatrização é um tema que a prova cobra de dois jeitos muito diferentes. O primeiro é o da fisiologia pura: qual fase começa em que dia, qual célula manda em cada uma, quando o colágeno tipo III vira tipo I. Esse recorte cai em prova de acesso direto e é decorável — mas só se você amarrar cada fase a uma consequência clínica, senão vira lista solta que evapora na semana seguinte.

O segundo recorte é o que separa o candidato que entendeu: a ferida fechada não é ferida curada. No sétimo dia, quando os pontos saem, a cicatriz tem uma fração da resistência da pele íntegra. É daí que saem as questões de deiscência, de eventração, de orientação de alta e de quando liberar esforço físico — e é o mesmo raciocínio que explica por que a cicatriz continua mudando de cor e de altura durante um ano.

O terceiro bloco é cicatriz patológica: hipertrófica e queloide. A pergunta quase nunca é 'qual o tratamento definitivo' — é 'isto aqui é hipertrófica ou queloide', porque a resposta muda a conduta inteira. Cicatriz hipertrófica tende a regredir e se resolve com medida conservadora; queloide não regride, invade tecido são e volta em quase todos os casos se for simplesmente ressecado. Excisar queloide sem plano adjuvante é o erro mais cobrado do tema.

Um detalhe estrutural ajuda a entender por que as fontes divergem tanto aqui: queloide e cicatriz hipertrófica não têm protocolo clínico do Ministério da Saúde nem PCDT, ao contrário de queimaduras e de úlceras crônicas. A régua brasileira é a literatura da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, cujo texto mais citado é de 2006, enquanto o algoritmo internacional foi reescrito em 2021. Boa parte das diferenças de dose e de prazo que aparecem nas alternativas é diferença de data, não de opinião clínica.

03

O que muda decisão

As fases e o calendário de cada uma

A sequência clássica tem quatro tempos que se sobrepõem — nenhuma fase espera a anterior terminar. Comece pela hemostasia e coagulação, que é imediata: a lesão vascular ativa plaquetas e a cascata de coagulação, o coágulo de fibrina tampona o sangramento e serve de matriz provisória por onde as células vão migrar. As plaquetas degranulam e liberam fatores de crescimento que são o sinal de largada de tudo o que vem depois.

A fase inflamatória ocupa os primeiros dias. Os polimorfonucleares chegam primeiro e dominam do terceiro ao quinto dia; a partir do terceiro dia e até por volta do décimo, o macrófago assume — e ele é a célula-chave da cicatrização, não o neutrófilo. O macrófago desbrida, fagocita e, sobretudo, orquestra: secreta os fatores que recrutam fibroblastos e disparam a angiogênese. Ferida sem macrófago não cicatriza; ferida sem neutrófilo cicatriza. Essa hierarquia é cobrada com frequência.

A fase proliferativa começa por volta do quarto dia e se estende até o fim da segunda ou terceira semana. Três coisas acontecem juntas: reepitelização, com o queratinócito migrando a partir das bordas e dos anexos cutâneos; angiogênese, formando o tecido de granulação vermelho e granular; e fibroplasia, com o fibroblasto depositando colágeno em quantidade — colágeno tipo III, imaturo, desorganizado, que chega a 30-40% do colágeno do tecido de granulação contra os cerca de 80% de tipo I da derme normal. Nas feridas de espessura total entra ainda a contração, tarefa do miofibroblasto, que puxa as bordas e reduz a área a ser epitelizada.

A fase de maturação, ou remodelação, começa em torno da terceira semana e dura meses a anos. É a fase mais mal compreendida pelo aluno porque nela a quantidade de colágeno praticamente não aumenta — o que aumenta é a qualidade. O tipo III é degradado por metaloproteinases e substituído por tipo I, as fibras se realinham segundo as linhas de tensão e as ligações cruzadas se multiplicam. Clinicamente é a fase em que a cicatriz sai de vermelha, elevada e endurecida para pálida, plana e macia. Enquanto isso não termina, a cicatriz é imatura — e cicatriz imatura não se opera por questão estética.

Força tênsil: por que a ferida fechada ainda é frágil

Esta é a parte que decide questão de pós-operatório. A resistência da ferida acompanha o colágeno, e o colágeno leva tempo. Ao final da terceira semana, a cicatriz recuperou cerca de 20% da força tênsil da pele íntegra. Aos três meses chega a algo perto de 80%, e é aí que ela estaciona: mesmo depois de um ano, o colágeno cicatricial permanece menos organizado que o da pele sã e a resistência nunca volta a 100%.

Traduza isso para o leito. No sétimo dia, quando os pontos da laparotomia saem, quem está segurando a parede não é a cicatriz — são a aponeurose suturada e a fibrina. Por isso o pico de deiscência aguda de parede fica entre o quinto e o décimo dia, e por isso a orientação de alta limita esforço e carga por quatro a seis semanas: não é superstição, é o intervalo em que a ferida sai de 20% para algo próximo do platô.

O mesmo raciocínio explica a hérnia incisional, que aparece meses depois em ferida aparentemente bem cicatrizada: o teto de 80% significa que uma parede submetida a pressão abdominal repetida trabalha permanentemente com uma margem menor. E explica a orientação estética: pedir para o paciente evitar sol na cicatriz nos primeiros seis meses tem razão de ser, porque a cicatriz imatura, ainda hiperemiada, faz hiperpigmentação pós-inflamatória que depois não sai.

Os prazos de retirada de pontos seguem a mesma lógica de tensão local. Face, onde a tensão é baixa e o resultado estético manda, sai em 4-5 dias; couro cabeludo, tronco e membros superiores em 7-10; membros inferiores, dorso e áreas sobre articulações em 10-14 dias. Tirar cedo demais em área de tensão alarga a cicatriz; tirar tarde demais na face deixa as marcas transversais dos pontos.

Primeira, segunda e terceira intenção

Cicatrização por primeira intenção é a ferida limpa, de bordas regulares, aproximadas por sutura no mesmo tempo cirúrgico. O espaço a preencher é mínimo, a epitelização se completa em cerca de 48 horas e a cicatriz final é linear. É o padrão da incisão eletiva.

Cicatrização por segunda intenção é a ferida deixada aberta de propósito, que fecha por granulação, contração e epitelização a partir das bordas. É a escolha na ferida contaminada ou infectada, no abscesso drenado, na ferida com perda tecidual extensa. Demora mais, contrai mais e deixa cicatriz pior — e é justamente por contrair muito que ela produz contratura e cicatriz hipertrófica com frequência, sobretudo sobre articulação.

Cicatrização por terceira intenção, ou fechamento primário tardio, é a ferida deixada aberta por alguns dias — tipicamente 3 a 5 — para controle de contaminação e edema, e suturada depois, já com tecido de granulação e carga bacteriana controlada. É a saída elegante para a ferida contaminada que se quer fechar sem apostar numa sutura que vai infectar.

A decisão entre as três é basicamente uma pergunta sobre carga bacteriana e perfusão. Acima de 10 elevado a 5 unidades formadoras de colônia por grama de tecido — ou na presença de estreptococo beta-hemolítico em qualquer quantidade — a ferida não fecha e o enxerto não pega. Fechar por primeira intenção uma ferida acima desse limiar é comprar deiscência infectada.

O que atrasa a cicatrização

Os fatores locais são os que o cirurgião controla na mesa: tensão excessiva na sutura, hematoma e seroma, corpo estranho, isquemia por sutura apertada ou por eletrocautério em excesso, infecção e ressecamento da ferida. Tensão é o mais subestimado dos seis — ela não só alarga a cicatriz como prolonga a inflamação local, e inflamação prolongada é exatamente o mecanismo que produz cicatriz hipertrófica e queloide.

Entre os fatores sistêmicos, corticoide é o mais cobrado: inibe a resposta inflamatória inicial, reduz a migração de macrófagos, a angiogênese e a síntese de colágeno. O antagonista clássico desse efeito é a vitamina A, que restaura parcialmente a resposta inflamatória — detalhe que aparece com regularidade nas alternativas. Quimioterápicos e imunossupressores atuam pelo mesmo caminho da proliferação celular; por isso se recomenda intervalo entre o ciclo e a cirurgia eletiva quando possível.

Diabetes descompensado atrapalha por três vias somadas: microangiopatia com perfusão ruim, disfunção de neutrófilos e macrófagos, e glicação de proteínas. Tabagismo age por vasoconstrição nicotínica e por monóxido de carbono deslocando oxigênio da hemoglobina — é o motivo de se exigir suspensão do cigarro antes de cirurgia com retalho. Desnutrição pesa pela falta de substrato proteico; vitamina C é cofator da hidroxilação de prolina e lisina, e sua carência produz cicatriz frágil que se abre; zinco é cofator de metaloproteinases e da proliferação celular.

Radioterapia prévia no sítio é um fator à parte, e permanente: o leito irradiado tem fibrose, endarterite obliterante e menos células-tronco, e cicatriza mal anos depois da irradiação. Some ainda idade avançada, icterícia e insuficiência renal ou hepática, uremia, hipotireoidismo e as doenças hereditárias do colágeno.

Cicatriz hipertrófica e queloide: o que separa e o que une

Os dois são resposta fibroproliferativa exagerada à cicatrização, com deposição excessiva de colágeno. A diferença que a prova quer é geográfica e temporal. Cicatriz hipertrófica respeita os limites da ferida original: ela sobe, endurece e fica vermelha, mas não invade a pele são ao redor; aparece cedo, tipicamente entre a quarta e a oitava semana, e tem tendência à regressão espontânea, que pode acontecer em 3 a 6 meses quando os fatores de risco são removidos, ou levar até 18 meses. Queloide ultrapassa os limites da ferida original, invadindo tecido normal com projeções em garra, costuma surgir mais tarde — meses após o trauma — cresce de forma progressiva e não regride sozinho.

A epidemiologia reforça a separação. Queloide tem prevalência de 5-10% em populações africanas, 0,1-1% em asiáticas e abaixo de 0,1% em europeias e norte-americanas; predomina em pele mais pigmentada, em mulheres e em jovens, e história familiar é frequente. Cicatriz hipertrófica não tem essa preferência étnica marcada e se concentra onde há tensão e movimento — sobre articulações, dobras e em cicatrizes de queimadura que fecharam por segunda intenção.

O que une os dois é a tensão mecânica. Estirar uma ferida prolonga e agrava a inflamação, e é essa inflamação arrastada que produz o fenótipo fibroproliferativo. Isso explica o mapa dos sítios: região pré-esternal, ombro e deltoide, região escapular, mandíbula e pescoço, abdome inferior e suprapúbico são sítios de risco alto; couro cabeludo, região pré-tibial, pálpebras, palmas, plantas e genitália praticamente não fazem queloide. O lóbulo da orelha é a exceção instrutiva: tensão baixa, mas é o sítio campeão de queloide pós-piercing, e é também onde o tratamento tem melhor prognóstico.

Duas armadilhas de nomenclatura. Contratura não é sinônimo de cicatriz hipertrófica: contratura é o encurtamento funcional que cruza uma articulação e limita movimento, e ela é indicação cirúrgica por função, independentemente de a cicatriz ser hipertrófica ou não. E cicatriz alargada — aquela linha plana e larga que aparece em cicatriz de dorso ou de joelho — não é hipertrófica: é plana, resultado de tensão, e não responde a corticoide.

Dois painéis comparando uma cicatriz elevada restrita à linha da incisão no antebraço e uma lesão nodular no tórax que se estende com projeções em garra além da incisão original.
A cicatriz hipertrófica sobe, mas fica dentro dos limites da ferida. O queloide invade a pele são ao redor — é esse contorno, e não a altura, que separa os dois.

Tratamento: conservador primeiro, bisturi por último

A ordem vale para os dois diagnósticos, e começa antes da cicatriz existir. Prevenção é técnica cirúrgica: incisão orientada pelas linhas de tensão da pele, sutura profunda que tire tensão da pele, hemostasia cuidadosa e nada de fechar sob tração. Fechada a ferida, entram a fita adesiva sobre a cicatriz, a hidratação e a proteção solar dos primeiros meses.

A primeira linha não invasiva tem três medidas. Silicone, em placa ou gel, iniciado quando a ferida estiver completamente epitelizada — sem crosta e sem ponto — em uso de 12 a 24 horas por dia no caso da placa, ou duas aplicações diárias no gel, por no mínimo três meses e idealmente seis. Compressão, com malha elástica, na faixa de 20 a 25 mmHg, uso contínuo com retirada apenas para higiene, mantida por 6 a 12 meses; é a medida clássica da cicatriz hipertrófica de queimadura. E massagem com hidratação, que ajuda na maleabilidade e no prurido, sem alterar o desfecho de altura.

A segunda linha é injetável. Triancinolona acetonida intralesional é o carro-chefe: use 20 mg/mL — a apresentação de 40 mg/mL diluída 1:1 com anestésico local — em aplicações a cada 3 a 4 semanas, tipicamente 3 a 5 sessões, esperando achatamento em 50 a 100% das lesões e recidiva entre 9 e 50%. As complicações são previsíveis e devem ser ditas ao paciente: atrofia cutânea, hipopigmentação, telangiectasias e dor na aplicação. O 5-fluorouracil intralesional, semanal por até 6 a 8 semanas, é a alternativa e sobretudo o parceiro: isolado alcança remissão em cerca de 46% contra 60% da triancinolona isolada, mas a combinação dos dois chega perto de 78%. Verapamil intralesional não mostrou benefício e não substitui a triancinolona.

Crioterapia é opção em lesões pequenas, com o custo previsível de hipopigmentação — o que a torna má escolha em pele muito pigmentada, justamente a população de maior risco de queloide. Entre os lasers, o pulsed-dye de 585-595 nm e o Nd:YAG reduzem eritema e prurido por atuarem na vascularização; o laser fracionado de CO2 tem melhor desempenho em cicatriz hipertrófica do que em queloide. Toxina botulínica reduz dor e prurido de forma consistente, com efeito sobre volume ainda discutido.

A cirurgia entra por último e com regra clara. Em cicatriz hipertrófica, opera-se por função — contratura que limita movimento — e só depois da maturação, salvo urgência funcional. Em queloide, a excisão isolada tem recidiva de 45 a 100% e, feita sem adjuvância, costuma devolver uma lesão maior do que a original. Ressecar queloide exige plano combinado: técnica de fechamento que reduza tensão, corticoide intralesional no pós-operatório — a excisão seguida de triancinolona derruba a recidiva para cerca de 15% — ou radioterapia adjuvante precoce, que em metanálise de 72 estudos deixou a recidiva em 22%.

A radioterapia adjuvante merece um parágrafo próprio porque é onde a divergência dói. O princípio comum é irradiar cedo, enquanto o fibroblasto está proliferando. O algoritmo internacional atual usa esquemas hipofracionados iniciados nas primeiras horas do pós-operatório e ajustados ao sítio: 18 Gy em 3 frações em regiões de alta tensão como tórax e membros, 15 Gy em 2 frações na maioria dos sítios e 8 Gy em fração única no lóbulo da orelha, respeitando um teto de dose biologicamente efetiva em torno de 30 Gy, acima do qual não há ganho e sobra risco de neoplasia radioinduzida. O texto brasileiro de referência descreve 15-20 Gy em 5-6 sessões iniciadas até duas semanas do pós-operatório.

04

Separar, escalonar e só então operar

Três perguntas em sequência resolvem quase toda questão do tema: a lesão ultrapassa os limites da ferida original? há contratura funcional? a cicatriz já está madura? A primeira separa queloide de cicatriz hipertrófica, a segunda define se existe indicação cirúrgica por função, e a terceira decide se é hora de operar ou de esperar.

  1. 1Olhe o contorno, não a altura: lesão que invade a pele são além da incisão é queloide; lesão elevada que respeita os limites da ferida é hipertrófica.
  2. 2Datou o trauma? Hipertrófica aparece em 4 a 8 semanas e tende a regredir; queloide costuma surgir meses depois e cresce sem regredir.
  3. 3Procure contratura: cicatriz que cruza articulação e limita amplitude é indicação cirúrgica por função, e não espera resultado estético.
  4. 4Sem contratura, comece conservador: silicone assim que a ferida epitelizar, compressão de 20-25 mmHg quando houver superfície para comprimir, e proteção solar por seis meses.
  5. 5Cicatriz sintomática ou que não achata: triancinolona intralesional 20 mg/mL a cada 3-4 semanas, 3 a 5 sessões, associando 5-fluorouracil nos casos resistentes.
  6. 6Queloide com indicação cirúrgica: nunca excisão isolada — programe fechamento sem tensão mais corticoide intralesional no pós-operatório ou radioterapia adjuvante precoce.
  7. 7Cicatriz imatura e sem contratura não vai para a mesa: espere 12 a 18 meses de maturação antes de qualquer revisão estética.

Cicatriz madura

Plana, pálida e macia, no nível da pele ao redor. É o desfecho esperado do processo de remodelação, entre 12 e 18 meses.

Cicatriz hipertrófica

Elevada, endurecida e avermelhada, porém contida entre as bordas da ferida original. Tende a regredir e responde a medida conservadora.

Queloide

Massa que transborda as bordas originais em projeções sobre a pele são, sem regressão espontânea. Excisão isolada devolve lesão maior.

CaracterísticaCicatriz hipertróficaQueloide
Limites da feridaRespeita — fica dentro da incisãoUltrapassa e invade pele são
Início após o trauma4 a 8 semanasMeses depois, às vezes mais de um ano
Evolução naturalRegride em 3 a 18 meses ao remover a tensãoCresce de forma progressiva, não regride
PopulaçãoSem predileção étnica marcada5-10% em africanos, 0,1-1% em asiáticos, <0,1% em europeus
Sítios típicosSobre articulações, dobras, queimadura de 2º grau profundoPré-esterno, deltoide, escápula, mandíbula, lóbulo da orelha
Recidiva após excisão isoladaBaixa quando se corrige a tensão45 a 100% — excisão isolada é proscrita
Papel da cirurgiaContratura funcional, após maturaçãoSó dentro de plano combinado com adjuvante

Escalonamento terapêutico com os números que a prova cobra

MedidaEsquemaO que esperar
Silicone (placa ou gel)Iniciar com a ferida epitelizada; placa 12-24 h/dia ou gel 2x/dia; mínimo 3 meses, ideal 6Primeira linha profilática e terapêutica; melhora altura, eritema e prurido
Compressão elástica20-25 mmHg, uso contínuo, 6 a 12 mesesClássica na cicatriz de queimadura; metanálise de 12 ensaios apoia a faixa de 15-25 mmHg
Triancinolona intralesional20 mg/mL (40 mg/mL diluída 1:1), a cada 3-4 semanas, 3 a 5 sessõesAchatamento de 50-100%; recidiva de 9-50%; atrofia e hipopigmentação como preço
5-fluorouracil intralesionalSemanal por 6 a 8 semanas, isolado ou com triancinolona46% de remissão isolado, 60% com triancinolona isolada, cerca de 78% combinados
CrioterapiaLesões pequenas e localizadasEficaz, mas hipopigmenta — evitar em pele muito pigmentada
Laser vascular (pulsed-dye, Nd:YAG)Sessões seriadasReduz eritema e prurido; CO2 fracionado rende mais em hipertrófica que em queloide
Excisão + adjuvanteFechamento sem tensão + triancinolona pós-operatória ou radioterapia precoceRecidiva cai de 45-100% para cerca de 15% com corticoide e 22% com radioterapia

Calendário da ferida — o que já aconteceu em cada momento

MomentoFase dominanteConsequência prática
Minutos a horasHemostasia e coagulaçãoCoágulo de fibrina como matriz provisória; plaquetas liberam fatores de crescimento
Dia 1 a 5Inflamatória (polimorfonucleares 3º-5º dia)Edema, dor e hiperemia esperados; ferida praticamente sem resistência própria
Dia 3 a 10Inflamatória com predomínio de macrófagosMacrófago é a célula-chave; pico de deiscência aguda de parede entre 5º e 10º dia
Dia 4 até 2ª-3ª semanaProliferativaGranulação, reepitelização e colágeno tipo III; retirada de pontos por sítio
Fim da 3ª semanaInício da maturaçãoCerca de 20% da força tênsil da pele íntegra — ainda frágil
3 mesesMaturaçãoCerca de 80% da força tênsil, que é o teto: nunca volta a 100%
4ª a 8ª semanaJanela da cicatriz hipertróficaElevação dentro dos limites da ferida; hora de silicone e compressão
12 a 18 mesesCicatriz maduraPlana e pálida; antes disso não se opera cicatriz por estética

Cicatriz alargada é plana e não responde a corticoide intralesional — o problema dela é tensão, e a solução é técnica cirúrgica, não injeção.

Contratura que limita movimento é indicação funcional e não espera maturação completa; cicatriz feia e madura é indicação estética e espera.

Corticoide intralesional em cicatriz hipertrófica é medida de segunda linha; em queloide, é a base do tratamento clínico e do pós-operatório.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Esquema e prazo da radioterapia adjuvante depois da excisão de queloide

Fracionamento longo iniciado em até duas semanas

15 a 20 Gy distribuídos em 5 a 6 sessões, com início do tratamento até duas semanas depois da excisão; recidiva descrita em torno de 10% com esse arranjo.

Ferreira CM, D'Assumpção EA. Cicatrizes hipertróficas e quelóides. Rev Bras Cir Plást, 2006.

Hipofracionamento por sítio nas primeiras horas do pós-operatório

18 Gy em 3 frações em tórax e membros, 15 Gy em 2 frações na maioria dos sítios e 8 Gy em fração única no lóbulo da orelha, iniciados nas primeiras horas e limitados a dose biologicamente efetiva próxima de 30 Gy; recidiva de 22% em metanálise de 72 estudos.

Ogawa R. Plast Reconstr Surg, 2022;149(1):79e-94e.

Na prova

A distância entre os dois é de quinze anos: um texto de 2006 e um algoritmo reescrito em 2021. Enunciado que cita nominalmente a literatura brasileira de cirurgia plástica, ou que se passa em serviço público onde a radioterapia disputa fila com oncologia, trabalha com o fracionamento longo; enunciado que traz dose por sítio, fração única em lóbulo de orelha ou o conceito de dose biologicamente efetiva está no vocabulário do algoritmo internacional. As alternativas denunciam o recorte: a presença de '8 Gy em fração única' entre as opções só faz sentido no mundo do documento de 2021.

Silicone é padrão-ouro de primeira linha ou apenas um veículo de oclusão

Padrão-ouro não invasivo, profilático e terapêutico

Placa e gel de silicone são recomendados como primeira escolha tanto para prevenir quanto para tratar cicatriz hipertrófica e queloide, associados a redução de tensão e proteção ultravioleta da cicatriz recente.

Monstrey S, et al. Updated Scar Management Practical Guidelines. J Plast Reconstr Aesthet Surg, 2014;67(8) — resumo público.

O material é secundário; o que trata é oclusão mantida e tensão controlada

Metanálise de 20 estudos sustenta o benefício, mas a comparação entre silicone e hidrocoloide não mostra superioridade de material; o determinante é a adesão ao uso contínuo e o controle da tensão, e a base do tratamento conservador pode ser a fita com corticoide.

Ogawa R. Plast Reconstr Surg, 2022;149(1):79e-94e.

Na prova

As duas posições nascem da mesma evidência de qualidade baixa, lida com pesos diferentes. Enunciado que pergunta a primeira medida após a alta de uma cicatriz recente, sem outro contexto, está no vocabulário do consenso de 2014; enunciado que compara materiais de curativo entre si, ou que enfatiza tensão e adesão do paciente, está no do algoritmo de 2021. Distrator que oferece hidrocoloide como equivalente ao silicone sinaliza o segundo recorte.

Queloide e cicatriz hipertrófica: duas doenças ou um espectro

Entidades distintas, separadas pelo comportamento da lesão

A distinção é categórica e se faz pelos limites da ferida e pela regressão: a hipertrófica respeita as bordas e tende a involuir, o queloide invade e não involui, com subtipos descritos na tradição brasileira, inclusive a forma dita queloideana.

Ferreira CM, D'Assumpção EA. Rev Bras Cir Plást, 2006; e Barros LFL, et al. Rev Bras Cir Plást, 2023;38(4).

Extremos do mesmo distúrbio fibroproliferativo dirigido por inflamação e tensão

Ambos resultam de inflamação dérmica prolongada mantida por tensão mecânica; a diferença é de intensidade e de suscetibilidade genética, o que explica o mapa de sítios de risco e por que a prevenção é a mesma para os dois.

Ogawa R. Plast Reconstr Surg, 2022;149(1):79e-94e.

Na prova

Questão de diagnóstico diferencial trabalha com a dicotomia clássica — é ela que sustenta alternativas do tipo 'ultrapassa os limites da ferida'. Questão de fisiopatologia ou de prevenção tende ao espectro, e aparece quando o enunciado fala em tensão mecânica, sítios de risco ou incisão orientada pelas linhas de tensão da pele.

06

Caso resolvido

Mulher de 27 anos, fototipo V, procura ambulatório com nódulo firme no lóbulo da orelha esquerda, iniciado cerca de nove meses depois de colocar um piercing. A lesão cresceu de forma progressiva, ultrapassa a área da perfuração, é brilhante e causa prurido e dor à pressão. Nega regressão em qualquer momento. Tem uma irmã com lesão semelhante em orelha.
achado
Lesão que invade a pele são além do trajeto do piercing, com crescimento progressivo e sem qualquer regressão em nove meses — o contorno, e não a altura, fecha o diagnóstico de queloide. História familiar e fototipo alto reforçam.
diferencial
Cicatriz hipertrófica ficaria contida na área da perfuração e já teria começado a involuir nesse intervalo. Cisto epidérmico teria ponto de drenagem e conteúdo. Condrodermatite e dermatofibroma não têm essa relação temporal com o trauma nem esse crescimento.
conduta
Iniciar triancinolona intralesional 20 mg/mL, a cada 3-4 semanas, por 3 a 5 sessões, avisando sobre dor na aplicação, atrofia e hipopigmentação. Associar silicone em gel ou placa e brinco compressivo. Reavaliar altura e sintomas a cada retorno.
se falhar
Persistindo lesão volumosa após a série de injeções, programar excisão dentro de plano combinado — nunca isolada. O lóbulo é o sítio de melhor prognóstico, com esquema adjuvante de fração única de radioterapia descrito no algoritmo internacional ou corticoide intralesional seriado no pós-operatório.
orientação
Nada de novo piercing no local. Explicar que a recidiva após ressecção isolada chega a 45-100%, o que justifica não operar sem o pacote completo, e que o tratamento é de meses, não de uma consulta.
07

Agora feche você

Homem de 34 anos, vítima de queimadura por líquido superaquecido há quatro meses, com área de segundo grau profundo em face flexora do cotovelo direito que fechou por segunda intenção. Retorna com cicatriz elevada, endurecida e avermelhada, restrita à área queimada, com prurido intenso. Ao exame, a extensão do cotovelo está limitada a 150 graus por uma brida cicatricial que cruza a articulação.
achado
Cicatriz elevada e eritematosa que respeita os limites da área queimada, em sítio de tensão e movimento, com quatro meses de evolução — cicatriz hipertrófica, e não queloide.
achado funcional
Brida cruzando a face flexora do cotovelo com limitação de extensão: existe contratura, isto é, uma perda funcional objetiva, e não apenas um problema de aparência.
conduta
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Onde a banca derruba

  1. 1Chamar de queloide toda cicatriz elevada Altura não define nada: o que separa é o contorno. Cicatriz elevada que respeita os limites da ferida é hipertrófica, e a conduta dela é conservadora, com boa chance de regressão espontânea. A palavra queloide muda o prognóstico e proíbe a excisão isolada — por isso a troca de rótulo custa caro na questão e no paciente.
  2. 2Ressecar queloide e mandar o paciente para casa Excisão isolada tem recidiva de 45 a 100%, e a lesão costuma voltar maior que a original, porque a própria cirurgia é um novo trauma sob tensão. A alternativa que oferece apenas ressecção é atraente porque parece resolutiva; o que ela esconde é a ausência de plano adjuvante.
  3. 3Achar que ferida fechada é ferida curada Ao final da terceira semana a cicatriz tem cerca de 20% da força da pele íntegra, e o teto, por volta dos três meses, é de aproximadamente 80% — nunca 100%. Liberar esforço porque os pontos saíram no sétimo dia ignora que a resistência daquele momento é mínima.
  4. 4Trocar o macrófago pelo neutrófilo como célula-chave O polimorfonuclear domina do terceiro ao quinto dia e faz limpeza, mas quem comanda a transição para a fase proliferativa é o macrófago, ativo do terceiro ao décimo dia. Ferida sem neutrófilo cicatriza; ferida sem macrófago não. A alternativa com neutrófilo aparece justamente porque ele chega primeiro.
  5. 5Operar cicatriz imatura por estética A remodelação leva de 12 a 18 meses, e a cicatriz vermelha e elevada do quarto mês pode ser a cicatriz plana e pálida do décimo quinto. Revisar antes disso opera um resultado que ainda estava mudando. A exceção é contratura funcional, que não espera.
  6. 6Fechar por primeira intenção ferida contaminada Acima de 10 elevado a 5 unidades formadoras de colônia por grama de tecido, ou com estreptococo beta-hemolítico presente, a ferida não fecha e o enxerto não pega. Nesse cenário a resposta é segunda intenção ou fechamento primário tardio em 3 a 5 dias, não sutura imediata.
  7. 7Indicar crioterapia para queloide em pele muito pigmentada A crioterapia funciona, mas hipopigmenta de forma frequente e às vezes definitiva. Como o queloide é muito mais prevalente em fototipos altos — 5-10% em populações africanas —, a opção que parece elegante deixa uma mancha branca no lugar da lesão.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Correta: Queloide. O dado que define o diagnóstico é o crescimento ALÉM dos limites da incisão original, invadindo pele sã, associado à ausência de regressão espontânea e história prévia de lesão idêntica em orelha (sítio clássico) em paciente jovem de pele mais pigmentada — todos fatores de risco típicos de queloide. Cicatriz hipertrófica permanece CONFINADA aos limites da ferida e tende a regredir com o tempo — o enunciado explicita o oposto (ultrapassa limites, sem regressão). Deiscência crônica cursaria com solução de continuidade/secreção, não com cordão fibroso elevado. Dermatofibrossarcoma é raro, de crescimento infiltrativo lento e placa violácea, sem o gatilho traumático nem a história de lesões repetidas em orelha. Granuloma de corpo estranho costuma ser nodular localizado sobre o ponto de sutura, com possível fistulização, e não um cordão que invade a pele adjacente.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Fases e cronologia: hemostasia imediata; inflamatória com polimorfonucleares do 3º ao 5º dia e macrófagos do 3º ao 10º; proliferativa do 4º dia até a 2ª-3ª semana com colágeno tipo III; maturação a partir da 3ª semana, trocando tipo III por tipo I. Força tênsil: 20% na 3ª semana, cerca de 80% aos 3 meses e nunca 100%. E a frase que separa tudo: cicatriz hipertrófica respeita os limites da ferida, queloide os ultrapassa.

em 30 dias

Conduta: silicone assim que a ferida epitelizar, por no mínimo 3 meses; compressão de 20-25 mmHg por 6 a 12 meses; triancinolona 20 mg/mL a cada 3-4 semanas, 3 a 5 sessões, com 5-fluorouracil como parceiro nos resistentes. Queloide não se resseca isolado — recidiva de 45 a 100%, que cai para cerca de 15% com corticoide pós-operatório e 22% com radioterapia adjuvante precoce. Contratura funcional é a única pressa cirúrgica; o resto espera a maturação de 12 a 18 meses.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Mulher de 31 anos chega ao ambulatório de cirurgia geral queixando-se de uma lesão elevada e endurecida no tórax anterior, que apareceu cerca de oito meses depois de uma cirurgia cardíaca e vem crescendo, com prurido e fisgadas. Ela quer 'tirar essa cicatriz'. Conduza a consulta: caracterize a lesão, diferencie cicatriz hipertrófica de queloide pelo exame, investigue fatores de risco e história familiar, e explique à paciente por que a simples retirada cirúrgica não é a primeira escolha. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Cicatrização de feridas e fases – Cicatrização de feridas, cicatriz hipertrófica e queloide — Preparatório para provas | OsceLabs