Cirurgia GeralCirurgia Plástica

Lesão por pressão: estadiar, prevenir e reconstruir

Lesões por pressão (úlceras de decúbito) e reconstrução

A prova cobra três coisas: o estágio pela régua vigente — que trocou de nome e de numeração —, a medida preventiva que muda conduta, e quem vai para a mesa e com qual retalho.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Uma mulher de 76 anos, acamada após AVC, é acompanhada em domicílio pela equipe da Estratégia Saúde da Família. A cuidadora relata área de eritema que não embranquece à digitopressão sobre a região sacral, sem perda de continuidade da pele. Qual é a conduta mais adequada para prevenir a progressão dessa lesão?

02

Como esse tema cai

Este é um tema que mudou de régua no meio do caminho, e a prova cobra os dois lados da mudança. A classificação que a maioria dos livros mais antigos traz — 'úlcera por pressão', estágios em algarismos romanos de I a IV — foi substituída em 2016 pelo sistema que fala em 'lesão por pressão', numera de 1 a 4 em algarismos arábicos e acrescenta duas categorias que não existiam: a não classificável e a tissular profunda. No Brasil quem carimba essa mudança é a Nota Técnica GVIMS/GGTES/Anvisa nº 05/2023, que atualizou a de 2017 e diz, no próprio texto, que o destaque da revisão é exatamente a nova definição, nomenclatura e classificação dos estágios.

O segundo recorte é o da prevenção, e ele tem um peso que o candidato costuma subestimar. Lesão por pressão em estágio 3, em estágio 4 e não classificável está na lista de never events notificáveis ao Notivisa — a mesma lista que traz cirurgia em local errado e corpo estranho retido. Entre 2014 e 2022 foram notificados 1.100.352 incidentes ao Sistema Nacional de Vigilância Sanitária, dos quais 223.378 (20,30%) eram lesões por pressão, o segundo evento mais notificado do país. E dos 26.735 never events notificados no período, 19.307 (72,21%) foram lesões estágio 3 e 5.769 (21,57%), estágio 4 — juntas, 25.076 casos, ou 93,8% de todos os never events. Não é um detalhe administrativo: é a razão de a avaliação de risco e o plano de prevenção terem de estar escritos no prontuário.

O terceiro recorte é o cirúrgico, e é o que dá nome a este capítulo dentro da Cirurgia Plástica. Quem opera lesão por pressão está quase sempre diante de estágio 3 ou 4 que não fechou com tratamento conservador. A operação tem três tempos que a prova gosta de embaralhar — desbridamento com bursectomia, tratamento do osso, e cobertura com retalho — e uma regra de ouro que separa quem entendeu: enxerto de pele não resolve lesão sobre proeminência óssea, e excisão sem preenchimento do espaço morto devolve a lesão.

Vale saber onde cada afirmação deste tema tem apoio. A prevenção e o estadiamento têm documento federal: a Nota Técnica da Anvisa de 2023 e o Anexo 02 do Programa Nacional de Segurança do Paciente, de 2013, que é de onde vêm as faixas da escala de Braden que circulam nos protocolos brasileiros. Já a reconstrução não tem protocolo nacional nem diretriz de sociedade brasileira dedicada: o que existe são séries publicadas na Revista Brasileira de Cirurgia Plástica e na Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, e é por elas que a prática brasileira se orienta. Quando o enunciado trouxer número de retalho, ele vem de série de serviço, não de ensaio clínico — e a razão disso aparece adiante.

03

O que muda decisão

A régua vigente: seis categorias, duas definições adicionais e o que cada uma proíbe

Comece pela definição, porque ela já resolve questão. Lesão por pressão é o dano localizado na pele e/ou nos tecidos moles subjacentes, resultante de pressão ou de pressão combinada com cisalhamento. Ocorre geralmente sobre uma proeminência óssea, mas também pode estar relacionada ao uso de dispositivo médico ou a outro artefato. Repare nos dois pontos que a definição não deixa passar: o cisalhamento é parte do mecanismo, não um agravante opcional; e a proeminência óssea é o lugar habitual, não o lugar obrigatório.

Estágio 1 é pele íntegra com área localizada de eritema que não embranquece, e que pode parecer diferente em pele de cor escura. Eritema que embranquece, ou mudanças na sensibilidade, na temperatura ou na consistência — endurecimento — podem preceder as mudanças visuais. A frase que decide alternativa é a seguinte: mudanças de cor não incluem descoloração púrpura ou castanha, e essas podem indicar dano tissular profundo. Ou seja, roxo em pele íntegra não é estágio 1.

Estágio 2 é perda da pele em espessura parcial com exposição da derme. O leito é viável, rosa ou vermelho, úmido, e pode se apresentar como bolha intacta preenchida com exsudato seroso, ou rompida. Tecido adiposo e tecidos profundos não são visíveis; tecido de granulação, esfacelo e escara não estão presentes. E há a proibição explícita: esse estágio não deve ser usado para descrever lesões de pele associadas à umidade, incluindo a dermatite associada à incontinência e a dermatite intertriginosa, nem lesão de pele associada a adesivos médicos, nem feridas traumáticas — lesão por fricção, queimadura, abrasão. É a armadilha mais rentável do tema: perineal avermelhado e macerado em paciente incontinente costuma ser dermatite, não estágio 2.

Estágio 3 é perda da pele em espessura total, com gordura visível e, frequentemente, tecido de granulação e epíbole — a borda enrolada. Esfacelo e/ou escara podem estar visíveis, e podem ocorrer descolamento e túneis. O limite superior é o que define: não há exposição de fáscia, músculo, tendão, ligamento, cartilagem ou osso. Estágio 4 é a perda total com exposição ou palpação direta de fáscia, músculo, tendão, ligamento, cartilagem ou osso. A profundidade varia com a região anatômica, e por isso áreas de adiposidade significativa podem fazer lesão profunda ainda em estágio 3.

Não classificável é a categoria do que não se pode medir: perda de pele em espessura total na qual a extensão do dano não pode ser confirmada porque está encoberta por esfacelo ou escara. Ao remover a cobertura, aparece um estágio 3 ou um estágio 4 — nunca um estágio 1 ou 2, e essa é a informação que a questão esconde. Enquanto a escara está lá, o estágio não existe; e por isso a mesma regra vale nos estágios 3 e 4: quando o esfacelo ou a escara impede identificar a extensão da perda, classifica-se como não classificável.

Lesão por pressão tissular profunda é a categoria que o candidato erra por confiar na pele. Pele intacta ou não, com área localizada e persistente de descoloração vermelha escura, marrom ou púrpura que não embranquece, ou separação epidérmica que mostra lesão com leito escurecido ou bolha com exsudato sanguinolento. Dor e mudança na temperatura frequentemente precedem as alterações de coloração, e a descoloração pode ser diferente em pele de tonalidade mais escura. Ela resulta de pressão intensa e/ou prolongada e de cisalhamento na interface osso-músculo — está escrito assim no documento, e é a chave do mecanismo: o dano começa lá dentro. A lesão pode evoluir rapidamente e revelar a extensão real, ou resolver sem perda tissular. Quando tecido necrótico, subcutâneo, de granulação, fáscia, músculo ou outra estrutura subjacente já está visível, não é mais tissular profunda: é perda total de tecido, isto é, não classificável, estágio 3 ou estágio 4. E há a proibição: não se usa essa categoria para descrever condição vascular, traumática, neuropática ou dermatológica.

Faltam as duas definições adicionais, e elas se comportam de maneira oposta uma à outra. Lesão por pressão relacionada a dispositivo médico descreve a etiologia — resulta de dispositivo criado e aplicado para fim diagnóstico ou terapêutico —, costuma reproduzir o padrão ou a forma do dispositivo, e deve ser categorizada pelo mesmo sistema de estágios. Já a lesão por pressão em membranas mucosas, encontrada quando há histórico de uso de dispositivo médico no local do dano, não pode ser categorizada, por causa da anatomia do tecido. Alternativa que estadia lesão de mucosa está errada por construção.

Três silhuetas humanas de perfil: deitada de costas, com pontos de contato marcados no occipital, escápulas, sacro e calcâneos; sentada em cadeira de rodas, com o ponto de contato sob a nádega na tuberosidade isquiática; e deitada de lado em inclinação suave, com o ponto de contato no quadril sobre o trocânter maior.
A posição escolhe a topografia: deitado de costas dá sacro e calcâneo; sentado dá ísquio; deitado de lado dá trocânter. É por isso que o cadeirante e o acamado adoecem em lugares diferentes.

Duas populações, três topografias — e o dano que começa no fundo

A definição da lesão tissular profunda entrega o mecanismo: a pressão intensa e/ou prolongada, somada ao cisalhamento, age na interface osso-músculo. O tecido mais comprimido é o que está imprensado contra a proeminência óssea, não o que está exposto ao ar; e por isso a pele pode estar íntegra enquanto o músculo já morreu. Traduzido para a beira do leito, isso significa duas coisas. Primeiro, que descoloração roxa em pele fechada é notícia ruim, não boa. Segundo, que a extensão visível subestima a lesão real — o que explica por que uma lesão de aparência modesta se abre, dias depois, em cavidade com osso no fundo.

O cisalhamento é o ingrediente que a prova cobra por consequência prática. Quando a cabeceira sobe e o corpo escorrega, a pele fica presa pelo atrito e o esqueleto desliza por dentro: os vasos que atravessam o subcutâneo são estirados, e a perfusão profunda cai com a superfície aparentemente intacta. É a razão de a cabeceira ser mantida em 30° ou menos, e a exceção prevista é o paciente com risco maior de aspiração, em que a cabeceira mais alta é necessária e o resto da prevenção precisa compensar.

As duas populações que fazem lesão por pressão são epidemiologicamente distintas, e reconhecê-las na vinheta já orienta a resposta. A primeira é o idoso com comorbidade grave, rebaixamento do nível de consciência e imobilidade no leito: as lesões seguem o decúbito horizontal — sacro, calcâneo, trocânter. A segunda é o adulto jovem vítima de trauma raquimedular, em geral paraplégico e cadeirante: as lesões seguem a posição sentada, e a topografia campeã é a isquiática.

A série brasileira de um centro de trauma dá o retrato dessa segunda população. Foram 38 pacientes com 45 lesões operadas entre 2012 e 2020: 32 homens (84,2%), média de 35,4 anos, e 22 pacientes (57,8%) com lesão medular — 17 paraplégicos (44,7%) e 5 tetraplégicos (13,1%). O tempo médio entre o trauma e o aparecimento da lesão foi de 6,2 meses. A região isquiática foi a mais frequente, com 46,6% das lesões, e 97,7% delas estavam em graus III e IV. Guarde a proporção: quase todo mundo que chega ao cirurgião plástico chega com lesão profunda, porque a lesão rasa não costuma precisar de cirurgia.

Onde inspecionar é prescrição, não zelo. A avaliação diária e completa da pele cobre as proeminências ósseas — região sacral, calcâneos, trocânteres, occipital, joelhos e cotovelos. E, pelo menos duas vezes por dia, as regiões submetidas a pressão por dispositivos: cateteres, tubos, sondas, drenos e dispositivos de imobilização. Essa segunda inspeção é a que mais escapa, e é justamente onde nasce a lesão relacionada a dispositivo médico, que se reconhece por reproduzir a forma do objeto.

Um ponto de equidade que a Anvisa transformou em conduta: em pele negra, o eritema inicial do estágio 1 pode não ser facilmente identificado, e a avaliação precisa ser criteriosa e específica, levando em conta a pluralidade de tons associada aos níveis de melanina. Nesses casos, acionam-se medidas adicionais — avaliar mudanças na sensibilidade, na temperatura e na consistência da pele, isto é, procurar endurecimento. Um instrumento que depende de ver vermelho chega tarde em quem não mostra vermelho, e chegar tarde ao diagnóstico é chegar tarde ao cuidado.

Braden: as seis subescalas, as faixas do Ministério e o corte que o Brasil mediu

A escala de Braden é composta por seis subescalas: percepção sensorial, umidade, atividade, mobilidade, nutrição, e fricção e cisalhamento. A pontuação é inversamente proporcional ao risco — quanto maior o escore, menor o risco —, o que já derruba a alternativa que inverte o sentido. Ela foi adaptada e validada para o português por Paranhos e Santos, em 1999, e é essa validação que a Anvisa cita quando indica a escala.

As faixas que circulam nos protocolos brasileiros vêm do Anexo 02 do Programa Nacional de Segurança do Paciente, de 2013, e a lógica delas é cumulativa: cada faixa mais grave mantém tudo o que a anterior já mandava e acrescenta. Risco baixo, de 15 a 18 pontos, dispara cronograma de mudança de decúbito, otimização da mobilização, proteção do calcanhar e manejo de umidade, nutrição, fricção e cisalhamento, com superfícies de redistribuição de pressão. Risco moderado, de 13 a 14, acrescenta a mudança de decúbito com posicionamento a 30°. Risco alto, de 10 a 12, acrescenta mudança de decúbito frequente e coxins de espuma para facilitar a lateralização a 30°. Risco muito alto, 9 pontos ou menos, acrescenta superfície de apoio dinâmico com pequena perda de ar, quando possível, e manejo da dor. As quatro faixas são contíguas e não se sobrepõem, e nenhuma delas cobre escore acima de 18 — acima disso o protocolo não prescreve intervenção específica.

A escala não é soberana, e o protocolo diz isso com todas as letras: qualquer que seja o escore alcançado, a avaliação clínica prevalece diante da existência de fatores de risco e de comorbidades. É um detalhe que aparece em questão de conduta, quando a vinheta traz escore tranquilizador num paciente que claramente vai ulcerar.

O dado brasileiro que quase ninguém conhece está na própria validação. Na primeira avaliação, feita até 48 horas da admissão em terapia intensiva, o escore que melhor se comportou naquela população foi 13, com sensibilidade de 87%, especificidade de 52%, valor preditivo positivo de 61% e valor preditivo negativo de 100%. O escore 16, preconizado pelas autoras originais da escala, deu naquela mesma população sensibilidade de 100% e especificidade de 21%, com valor preditivo positivo de 51% — altamente sensível e quase inespecífico. A consequência é de logística, e é a razão de o estudo preferir 13: com o corte em 13, 48% da população receberia medidas preventivas; com o corte em 16, 79%. Note o que a sensibilidade de 100% significa e o que não significa: nenhum paciente de risco escapa do corte 16; o preço é que metade dos sinalizados não desenvolveria a lesão de qualquer forma.

A avaliação é feita em todos os pacientes admitidos e repetida diariamente durante toda a internação, além de a cada mudança da condição clínica. A avaliação completa da pele por exame físico é obrigatória na admissão, e também antes de transferências externas e internas entre serviços ou entre níveis de complexidade, e antes da alta. Esse último detalhe é o que permite dizer, depois, se a lesão foi adquirida ali ou veio de fora.

Para populações que a Braden não atende bem, a Nota Técnica indica instrumentos dirigidos: a escala Braden Q em pediatria, a Escala de Avaliação de Risco para o Desenvolvimento de Lesões Decorrentes do Posicionamento Cirúrgico, a ELPO, para o centro cirúrgico, e a escala Evaruci em cuidados intensivos. Alternativa que manda aplicar Braden no intraoperatório ou no lactente está tecnicamente defasada.

Prevenção: o que muda conduta — e o intervalo que trocou de dono

Reposicionamento é a medida central, e a forma dele é cobrada com mais frequência do que o intervalo. Ao lateralizar, usa-se decúbito lateral a 30°, e não o decúbito lateral completo a 90°, que apoia o corpo diretamente sobre o trocânter. Coxins de espuma existem para sustentar esse ângulo. A cabeceira fica em 30° ou menos. Evita-se posicionar o paciente sobre uma lesão já existente — regra simples que a vinheta adora violar.

O calcâneo tem regra própria e literal: deve ficar livre completamente, com dispositivo projetado para suspensão do calcanhar ou travesseiro de redistribuição, de maneira a distribuir o peso da perna ao longo da panturrilha. Não é 'aliviar', é suspender. Sentar fora do leito, em cadeira ou cadeira de rodas apropriada, é incentivado por períodos de tempo limitados, de aproximadamente 1 hora, com o assento inclinado para impedir que o paciente deslize para a frente — porque deslizar é fricção e cisalhamento. E no paciente gravemente enfermo ou hemodinamicamente instável, em que a mudança completa não é tolerada, fazem-se pequenas mudanças periódicas de posição, mantendo o cronograma.

Agora o intervalo, que é onde as fontes divergem e a prova aproveita. O protocolo do Ministério da Saúde de 2013 fala em reposicionamento a cada 2 horas e afirma que duas horas em uma única posição é o máximo recomendado para pacientes com capacidade circulatória normal — e admite, na mesma página, que a literatura não sugere a frequência. A Nota Técnica da Anvisa de 2023 não fixa número: manda reposicionar em horário individualizado e determinar a frequência considerando tolerância da pele e do tecido, condição clínica geral, objetivos do tratamento, conforto e dor. Já a quarta edição da diretriz internacional, de 2026, sugere que 2 ou 3 horas podem ser implementadas para a maioria dos indivíduos em risco, desde que estejam sobre superfície de redistribuição de pressão adequada, e sugere não estender rotineiramente para 4, 5 ou 6 horas. Quem responde 'de 2 em 2 horas' acerta o protocolo brasileiro de 2013 e erra a régua da Anvisa, que individualiza.

Coberturas profiláticas entraram na prevenção e valem ponto. A Nota Técnica manda selecionar a cobertura mais apropriada para prevenção, citando as espumas de poliuretano multicamadas e silicone, com decisão baseada em avaliação clínica e custo-benefício. A diretriz internacional de 2026 é mais específica: sugere espuma de silicone macio multicamadas em sacro e calcâneos para indivíduos avaliados como de alto risco, onde os recursos permitirem. Curativo não substitui reposicionamento — soma.

Cuidado com a pele e com a umidade tem dois detalhes que caem. Manter a pele limpa e adequadamente hidratada, limpar imediatamente após episódios de incontinência urinária e fecal, evitar sabonetes e produtos de limpeza alcalinos, e proteger com produto de barreira. E hidratar diariamente com hidratantes e umectantes sem massagear proeminências ósseas e áreas hiperemiadas. A massagem sobre proeminência óssea hiperemiada, que a tradição ensinava, está expressamente fora.

Nutrição é obrigação, não adorno: todo paciente em risco ou com lesão instalada recebe triagem nutricional por profissional capacitado e, quando aplicável, avaliação mais abrangente, com plano documentado que contemple ingestão calórica, proteica e hídrica adequadas. A diretriz internacional acrescenta duas balizas úteis: sugere suplementação proteica para quem está desnutrido ou em risco de desnutrição, e recomenda contra a nutrição por sonda com a finalidade específica de prevenir lesão por pressão. Passar sonda para prevenir úlcera é alternativa errada.

Quem vai para a mesa: desbridamento, bursectomia e o problema do osso

A indicação cirúrgica é a lesão profunda que não fecha com tratamento conservador. Na série brasileira de centro de trauma, 97,7% das lesões operadas eram graus III e IV, e o desbridamento foi feito em 100% dos casos — desbridamento exclusivo, sem cobertura, ficou reservado a um único paciente, de grau II, pequeno e com boas condições de cicatrizar por segunda intenção. A leitura é direta: quem chega à mesa chega com perda de espessura total, e a operação começa sempre pela remoção do tecido desvitalizado.

O que muda o resultado, porém, é a seleção. O protocolo de internação breve do Grupo de Feridas Complexas do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo é útil justamente por listar critérios verificáveis: lesão grau IV; albumina acima de 3,0; hemoglobina acima de 10,0; espasticidade controlada; ferida limpa, com bordas em regressão; ausência de evidência clínica e/ou por imagem de osteomielite; e suporte familiar ou de cuidador. A definição operacional de espasticidade controlada usada ali vale guardar, porque é funcional e não farmacológica: é a capacidade de o paciente realizar as mudanças de decúbito e de permanecer naquela posição. Sem isso, o retalho vai ser tensionado assim que o paciente acordar.

A técnica padronizada nesse protocolo descreve os tempos que a prova cobra. Desbridamento com bursectomia ampla — a bolsa fibrosa crônica sai inteira — e raspagem até o osso clinicamente viável. Reconstrução imediata com retalho locorregional fasciocutâneo, com exceção das lesões trocantéricas, cobertas com retalho miocutâneo do tensor da fáscia lata. E o detalhe que resolve o espaço morto: cerca de 20 a 40% da extensão do retalho é desepidermizada e colocada dentro da ferida, para proteção óssea e preenchimento. A loja é drenada, e amostras de tecido ósseo profundo são enviadas para estudo anatomopatológico, para afastar osteomielite crônica e nortear o antibiótico no pós-operatório.

O osso é a parte controversa, e convém entender por que não existe resposta única. Em pessoas com lesão medular e lesão por pressão, uma metanálise de 10 estudos com 492 indivíduos encontrou frequência agrupada de osteomielite de 43,0%, com heterogeneidade significativa reconhecida pelos autores e subgrupos que vão de 29,0% na pesquisa feita nos Estados Unidos a 34,5% nos estudos de baixa qualidade e 47,4% nos de alta qualidade. Do outro lado, uma revisão sistemática dedicada à lesão sacral estágio 4 registra que muitos pacientes com osso cronicamente exposto não têm osteomielite quando biopsiados, e que a ressonância magnética pode não distinguir osteomielite de remodelamento ósseo. Não é contradição de dados: são populações e topografias diferentes, e a revisão brasileira de 2025 fecha o raciocínio ao registrar que nenhum método alternativo — clínico, microbiológico ou radiológico — se mostrou confiável para diagnosticar osteomielite associada a lesão por pressão pélvica.

A consequência prática desse impasse aparece nos números da própria série do Hospital das Clínicas. Os 20 pacientes entraram no protocolo justamente por não terem evidência clínica nem de imagem de osteomielite; ainda assim, o anatomopatológico do fragmento ósseo foi positivo em cinco deles, isto é, um em cada quatro. Esses cinco receberam antibioticoterapia prolongada orientada por antibiograma, e nenhum apresentou infecção ou deiscência de ferida operatória. A lição é de sequência: o osso é amostrado na mesa, não no consultório; a triagem pré-operatória serve para escolher quem opera, não para dizer que não há osteomielite.

Sobre antibiótico, a régua de infectologia é sóbria e cai em questão. Não há evidência de benefício da antibioticoterapia nessa situação sem desbridamento cirúrgico e cobertura concomitantes; se a ferida puder ser fechada e a biópsia óssea mostrar osteomielite, o antibiótico é razoável; nenhum dado sustenta duração superior a 6 semanas, e alguns autores recomendam 2 semanas quando a osteomielite se limita ao osso cortical. E se a ferida não vai ser fechada, não há evidência clara de papel para o antibiótico. A alternativa que prescreve seis semanas de antibiótico numa lesão que ninguém vai reconstruir está tratando o exame, não o paciente.

Reconstrução: qual retalho para qual sítio, e por que não é um enxerto

Comece pelo que não se faz. Enxerto de pele tem emprego limitado no tratamento da lesão por pressão: é fino, tem baixa resistência em área de atrito, tem taxa de recorrência próxima de 70%, e é contraindicado sobre proeminências ósseas. Fechamento primário simples serve apenas para lesão pequena com tecido adjacente sobrando e sem exposição óssea. Na série brasileira de 39 procedimentos de cobertura, o fechamento primário respondeu por 3 (7,7%) e o enxerto por 6 (15,4%); os retalhos, por 30 (76,9%). A cobertura da lesão por pressão é, na prática, cirurgia de retalho.

A escolha entre fasciocutâneo e miocutâneo tem lógica. O fasciocutâneo é bem vascularizado, cobre bem proeminência óssea e causa pouco prejuízo à área doadora. O miocutâneo também é bem vascularizado e dá cobertura mais espessa, indicada em ferida mais profunda que precisa de volume — ao custo de maior dano na área doadora e, no paciente que anda, de sequela funcional.

Sacro. O retalho de escolha na prática brasileira é o fasciocutâneo de glúteo máximo em avanço tipo V-Y, uni ou bilateral. Foi o mais usado na série de centro de trauma, com 33,3% de todos os procedimentos, e a justificativa é boa: mobiliza bem quando feito unilateralmente, cobre satisfatoriamente a área e, sobretudo, permite novo avanço depois — o que importa num sítio em que a recidiva é regra.

Ísquio. É o sítio do cadeirante, e as lesões aqui costumam ser tratadas com retalhos miocutâneos ou puramente musculares, sendo os mais utilizados o glúteo máximo, o grácil, o medial da coxa e o posterior da coxa. Retalhos fasciocutâneos são menos empregados nesse sítio por exigirem espessura maior para cobertura satisfatória. O protocolo do Hospital das Clínicas, ainda assim, padroniza o V-Y fasciocutâneo posterior da coxa para o ísquio, com a ponta desepidermizada preenchendo a cavidade — o que mostra que a escolha depende tanto do serviço quanto do sítio.

Trocânter. O retalho miocutâneo do tensor da fáscia lata é descrito como o método de escolha clássico, e é o que o protocolo do Hospital das Clínicas usa. Mas há um contraponto que a prova pode explorar: estudos mostram recorrência de 80% com essa técnica, sobretudo em pacientes com lesão medular, e no paciente com capacidade de deambulação ela se associa a risco de desestabilizar o quadríceps femoral e produzir déficit funcional. Os retalhos anterolateral da coxa e de glúteo máximo aparecem como boas alternativas nessa região, preservando a musculatura local sem sequela funcional importante.

Os resultados que se pode esperar dependem de quem foi selecionado, e a diferença entre as duas séries brasileiras ilustra isso melhor do que qualquer argumento. No centro de trauma, com população não selecionada, 44,4% das 45 lesões tiveram complicação pós-operatória: deiscência de sutura do retalho em 20%, infecção de sítio cirúrgico em 11,1%, osteomielite em 8,8%, hematoma em 2,2% e necrose do retalho em 2,2%; houve reoperação em dez casos, 22,2%, com ressutura em oito e novo retalho em dois; a recidiva foi de 7,9%. No protocolo de internação breve, com critérios de entrada rígidos, os 27 retalhos tiveram 3 deiscências menores (11,1%) e 1 hematoma (3,7%), sem necrose, sem reoperação e sem recidiva no seguimento médio de 9,1 meses, com internação média de 3,6 dias.

Uma última informação estrutural explica por que este tema é pobre em número e rico em opinião: a revisão sistemática sobre cirurgia reconstrutiva para lesão por pressão localizou um único ensaio randomizado, com 20 participantes portadores de lesão isquiática ou sacral estágio 4, comparando o retalho convencional ao retalho em cone de pressão — aquele em que grande parte da ponta é desepidermizada e embutida para obliterar o espaço morto —, com certeza da evidência muito baixa para cicatrização completa, deiscência, recidiva e infecção. Quando o enunciado citar percentual de retalho, ele veio de série de serviço.

O pós-operatório decide a recidiva — e as complicações que ninguém lembra

A recidiva é o desfecho que define o tema. As taxas descritas na literatura variam de 3% a 82%, e a amplitude não é ruído: ela reflete quem foi operado, onde, e o que aconteceu depois da alta. Na série de centro de trauma, entre as lesões que complicaram, a maior parte era sacral e/ou isquiática — regiões cuja cicatriz cirúrgica fica próxima às áreas de contato com urina e fezes, gerando umidade, contaminação e infecção de difícil controle, e cujo alívio de pressão é justamente o mais difícil de sustentar em quem é acamado ou lesado medular.

Por isso o planejamento pós-operatório entra no ato cirúrgico. Em paciente com lesões em mais de uma topografia, a estratégia de reconstrução respeita a possibilidade de decúbito alternado depois — não adianta cobrir os dois lados se o paciente não vai ter como se deitar em lugar nenhum. E a mesma regra de prevenção que valia antes vale mais ainda depois: não posicionar sobre a área operada, manter o cronograma de reposicionamento, controlar umidade e incontinência, e sustentar a nutrição.

A lista de complicações tardias vai muito além da recidiva, e é onde o candidato bem preparado ganha a questão difícil. A revisão brasileira de 2025 enumera: infecção; transformação maligna, a úlcera de Marjolin; fístulas para estruturas e órgãos vizinhos; ossificação heterotópica; amiloidose sistêmica pelo estado inflamatório crônico, com fadiga, perda de peso, edema, comprometimento cardíaco, disfunção renal, neuropatia e sintomas gastrointestinais; rabdomiólise por pressão e isquemia prolongadas; recidiva da própria lesão; e óbito.

Duas dessas merecem gatilho clínico explícito. A úlcera de Marjolin é o carcinoma que nasce em ferida crônica: lesão de anos que muda de comportamento — cresce, sangra, ganha bordas evertidas ou tecido exuberante, muda de odor — pede biópsia da borda, não mais uma troca de curativo. E a ossificação heterotópica costuma aparecer no lesado medular como perda de amplitude articular do quadril, que compromete tanto o posicionamento quanto a própria reconstrução.

Fecha o raciocínio a diferença entre cicatrizar e curar. Assim como no pé diabético, o paciente que fechou a lesão por pressão está em remissão, não curado: o fator que produziu a primeira lesão — imobilidade, insensibilidade, incontinência, desnutrição — continua lá no dia seguinte à alta. É por isso que a orientação ao paciente, à família e aos cuidadores está escrita na Nota Técnica como prática de segurança, com participação ativa deles na avaliação diária das condições da pele, junto com a equipe.

04

Estadiar pelo contorno, prevenir pelo risco, operar pelo defeito

Três perguntas resolvem quase toda questão do tema. A pele está íntegra? Dá para ver o fundo da ferida? E o que está exposto lá dentro? A primeira separa estágio 1 e lesão tissular profunda do resto; a segunda separa a lesão não classificável, que não tem estágio enquanto a escara estiver lá; a terceira separa estágio 3 de estágio 4 — gordura visível sem estruturas profundas é 3; fáscia, músculo, tendão, ligamento, cartilagem ou osso expostos ou palpáveis é 4.

  1. 1A pele está íntegra e o eritema não embranquece? Estágio 1. Mas se a cor é púrpura ou castanha, não é estágio 1 — é lesão tissular profunda, e o dano começou na interface osso-músculo.
  2. 2A ferida está coberta por esfacelo ou escara que impede medir a extensão? Não classificável. Não estadie o que não dá para ver: removida a cobertura, o que aparece é estágio 3 ou 4.
  3. 3Ferida aberta: há gordura visível mas nenhuma estrutura profunda exposta? Estágio 3. Fáscia, músculo, tendão, ligamento, cartilagem ou osso expostos ou palpáveis? Estágio 4.
  4. 4Antes de rotular estágio 2, exclua o que não é lesão por pressão: dermatite associada à incontinência, dermatite intertriginosa, lesão por adesivo médico e ferida traumática têm proibição expressa nessa categoria.
  5. 5Definido o estágio, avalie o risco com escala validada — Braden no adulto, Braden Q em pediatria, ELPO no centro cirúrgico, Evaruci em terapia intensiva — e reavalie diariamente e a cada mudança clínica.
  6. 6Prescreva a prevenção pela faixa e mantenha a forma: lateral a 30°, cabeceira a 30° ou menos, calcanhar suspenso, sem massagem sobre proeminência óssea, triagem nutricional, e cobertura profilática de espuma de silicone em sacro e calcâneos no alto risco.
  7. 7Lesão profunda que não fecha com tratamento conservador: encaminhe para avaliação cirúrgica e prepare o terreno — albumina, hemoglobina, espasticidade, controle de umidade e cuidador.
  8. 8Na mesa: desbridamento com bursectomia ampla, raspagem até osso viável, amostra óssea para anatomopatológico, cobertura com retalho e preenchimento do espaço morto com a porção desepidermizada. Enxerto de pele não vai sobre proeminência óssea.
  9. 9Estágio 3, estágio 4 e não classificável são never events: notifique ao Notivisa e investigue o evento, além de tratar.
sacrocalcâneo

Sacro e calcâneo

Decúbito dorsal prolongado. É a topografia do idoso acamado com rebaixamento de consciência. O calcâneo tem regra própria: fica suspenso, com o peso distribuído ao longo da panturrilha, não apenas aliviado.

ísquio

Ísquio

Posição sentada prolongada. É a topografia do cadeirante com lesão medular, e a mais frequente entre os operados na série brasileira de centro de trauma. Sentar fora do leito é bom, mas por períodos limitados, de cerca de 1 hora, com assento inclinado.

trocanter

Trocânter

Decúbito lateral prolongado. É o motivo de a lateralização ser feita a 30° e não a 90°: a 90° o corpo se apoia diretamente sobre o trocânter, trocando o sacro por outro ponto de pressão em vez de aliviar os dois.

CategoriaPeleO que se vêO que NÃO pode estar presente
Estágio 1ÍntegraEritema localizado que não embranqueceDescoloração púrpura ou castanha — essa indica dano tissular profundo
Estágio 2Perda parcialDerme exposta, leito viável rosa ou vermelho, úmido; ou bolha serosaTecido adiposo, granulação, esfacelo, escara — e não se usa para dermatite de incontinência ou ferida traumática
Estágio 3Perda totalGordura visível, granulação, epíbole; pode haver túnel e descolamentoFáscia, músculo, tendão, ligamento, cartilagem ou osso expostos
Estágio 4Perda totalFáscia, músculo, tendão, ligamento, cartilagem ou osso expostos ou palpáveis— (é o teto da escala de profundidade)
Não classificávelPerda totalEsfacelo ou escara encobrindo a extensão do danoEstágio: ele não existe enquanto a cobertura estiver lá; removida, aparece 3 ou 4
Tissular profundaIntacta OU nãoDescoloração vermelha escura, marrom ou púrpura persistente; ou bolha sanguinolentaTecido necrótico, subcutâneo, granulação, fáscia ou músculo visíveis — aí já é perda total
Relacionada a dispositivoQualquerLesão com o padrão ou a forma do dispositivo— categoriza-se normalmente, pelo mesmo sistema de estágios
Em membrana mucosaMucosaHistórico de dispositivo médico no local do danoEstágio: pela anatomia do tecido, essa lesão NÃO é categorizável

Escala de Braden: faixa, o que dispara, e o que a faixa anterior já mandava

Faixa (protocolo do Ministério da Saúde, 2013)EscoreAcrescenta
Risco baixo15 a 18Cronograma de mudança de decúbito, otimização da mobilização, proteção do calcanhar, manejo de umidade, nutrição, fricção e cisalhamento, superfícies de redistribuição
Risco moderado13 a 14Mudança de decúbito com posicionamento a 30°
Risco alto10 a 12Mudança de decúbito frequente e coxins de espuma para lateralização a 30°
Risco muito alto9 ou menosSuperfície de apoio dinâmico com pequena perda de ar, se possível, e manejo da dor
Acima de 1819 ou maisFora das quatro faixas do protocolo — mas a avaliação clínica prevalece sobre o escore

Topografia, posição que a produz e a cobertura habitual

SítioPosição que produzCobertura mais usada no BrasilObservação que cai
SacroDecúbito dorsal prolongado; cabeceira alta com deslizamentoFasciocutâneo de glúteo máximo em V-Y, uni ou bilateralPermite novo avanço em caso de recidiva — vantagem num sítio de recidiva alta
ÍsquioPosição sentada prolongada (cadeirante, lesado medular)Miocutâneos ou musculares: glúteo máximo, grácil, medial e posterior da coxaSítio mais frequente na população de trauma raquimedular: 46,6% das lesões operadas
TrocânterDecúbito lateral prolongado, sobretudo a 90°Miocutâneo do tensor da fáscia lata; anterolateral da coxa e glúteo máximo como alternativasRecorrência descrita de 80% com o tensor da fáscia lata em lesado medular; risco de déficit de quadríceps em quem deambula
CalcâneoDecúbito dorsal com o pé apoiado no colchãoPrevenção é a regra: suspender o calcanhar e distribuir o peso pela panturrilhaCobertura local é limitada pela pouca sobra de tecido — evitar chegar lá

Lesão em membrana mucosa não recebe estágio — a anatomia do tecido não permite categorizar. Já a lesão relacionada a dispositivo médico recebe estágio normalmente.

Na escala de Braden, quanto MAIOR o escore, MENOR o risco. A inversão é a pegadinha mais barata do tema, e aparece em alternativa que promete 'escore alto, risco alto'.

Osso exposto não é sinônimo de osteomielite: muitos pacientes com osso cronicamente exposto não têm osteomielite quando biopsiados, e a ressonância pode não distinguir osteomielite de remodelamento ósseo.

Antibiótico prolongado sem plano de fechamento da ferida não tem evidência que o sustente; e nenhum dado sustenta duração acima de 6 semanas nesse cenário.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

De quanto em quanto tempo se reposiciona o paciente em risco

Intervalo fixo de duas horas

Reposicionamento a cada 02 (duas) horas, com a ressalva de que a literatura não sugere a frequência, mas que duas horas em uma única posição é o máximo de tempo recomendado para pacientes com capacidade circulatória normal.

Brasil. Ministério da Saúde; Anvisa; Fiocruz. Anexo 02: Protocolo para Prevenção de Úlcera por Pressão, 2013.

Horário individualizado, sem número

Reposicionamento de todos os pacientes com ou sob risco em horário individualizado, com a frequência determinada pela tolerância da pele e do tecido, condição clínica geral, objetivos do tratamento, conforto e dor; e implementação de estratégias de lembrete para promover adesão.

Nota Técnica GVIMS/GGTES/Anvisa nº 05/2023 — Prevenção de Lesão por Pressão.

Duas ou três horas, condicionadas à superfície

Sugere-se que 2 ou 3 horas possam ser implementadas para a maioria dos indivíduos em risco, desde que estejam também sobre superfície de redistribuição de pressão de corpo inteiro adequada; e sugere-se não estender rotineiramente o intervalo para 4, 5 ou 6 horas.

NPIAP/EPUAP/PPPIA. Prevention and Treatment of Pressure Ulcers/Injuries: Quick Reference Guide, 4ª edição, 2026.

Na prova

Três documentos, três respostas, e o vocabulário do enunciado denuncia qual deles o avaliador leu. Enunciado que cita o Programa Nacional de Segurança do Paciente, ou que se passa num protocolo institucional de enfermagem, trabalha com o número fixo de duas horas. Enunciado que fala em 'horário individualizado', em tolerância da pele, conforto e dor, ou que menciona o Núcleo de Segurança do Paciente e a notificação ao Notivisa, está no vocabulário da Nota Técnica de 2023. E a presença de '3 horas' entre as alternativas, ou de qualquer condicional do tipo 'desde que sobre superfície de redistribuição adequada', só faz sentido no mundo da quarta edição da diretriz internacional.

Como nomear e numerar a lesão: 'úlcera por pressão' em algarismos romanos ou 'lesão por pressão' em arábicos

Úlcera por pressão, estágios I a IV

O protocolo federal de prevenção usa 'úlcera por pressão' em todo o texto e organiza a conduta pelas seis etapas e pelas faixas de risco da escala de Braden, sem trazer as categorias não classificável e tissular profunda.

Brasil. Ministério da Saúde; Anvisa; Fiocruz. Anexo 02: Protocolo para Prevenção de Úlcera por Pressão, 2013.

Lesão por pressão, estágios 1 a 4 mais duas categorias e duas definições adicionais

O conceito, a nomenclatura e a classificação dos estágios foram modificados pelo National Pressure Ulcer Advisory Panel em 2016 e validados para o português com aval da SOBEST e da SOBENDE: estágios 1, 2, 3 e 4, lesão não classificável e lesão tissular profunda, mais as definições adicionais de lesão relacionada a dispositivo médico e de lesão em membranas mucosas.

Nota Técnica GVIMS/GGTES/Anvisa nº 05/2023 — Prevenção de Lesão por Pressão.

Na prova

É diferença de data, não de opinião clínica, e por isso a pista está no próprio enunciado. Vinheta que escreve 'úlcera por pressão' e oferece alternativas em algarismos romanos foi escrita sobre material anterior a 2016 — e nela não haverá lesão tissular profunda entre as opções. Vinheta que traz 'lesão por pressão', numeração arábica, ou que oferece 'não classificável' e 'tissular profunda' entre as alternativas, está na régua vigente. O sinal mais confiável é a presença dessas duas categorias novas: elas não existem no sistema antigo.

Quanta osteomielite existe embaixo de uma lesão por pressão profunda

Frequente na lesão medular: cerca de 43%

Metanálise de 10 estudos com 492 indivíduos com lesão medular e lesão por pressão encontrou frequência agrupada de osteomielite de 43,0% em modelo de efeitos aleatórios, com heterogeneidade significativa; os subgrupos variaram de 29,0% na pesquisa feita nos Estados Unidos a 34,5% nos estudos de baixa qualidade e 47,4% nos de alta qualidade.

Jangholi E, et al. Spinal Cord Series and Cases, 2024;10:72.

Relativamente incomum na lesão sacral estágio 4, e sem método diagnóstico confiável

Revisão sistemática dedicada à lesão sacral estágio 4 registra que muitos pacientes com osso cronicamente exposto não têm osteomielite quando biopsiados, que a ressonância magnética pode não distinguir osteomielite de remodelamento ósseo, e que não há evidência de benefício de antibioticoterapia sem desbridamento cirúrgico e cobertura concomitantes.

Wong D, Holtom P, Spellberg B. Clinical Infectious Diseases, 2019;68(2):338-342.

Na prova

As duas posições não se contradizem tanto quanto parecem: falam de populações e sítios diferentes. Enunciado com paraplégico ou tetraplégico e lesão isquiática ou trocantérica de anos está no território da alta frequência, e a conduta esperada envolve amostra óssea intraoperatória. Enunciado com idoso acamado e lesão sacral estágio 4, sobretudo se a pergunta for sobre indicar antibiótico ou ressonância, está no território da posição cética — e a alternativa correta costuma ser a que condiciona o antibiótico ao desbridamento e ao fechamento da ferida, em vez de tratá-lo como automático.

06

Caso resolvido

Homem de 32 anos, paraplégico por trauma raquimedular há três anos, cadeirante, é encaminhado ao ambulatório de cirurgia plástica por lesão em região isquiática direita com oito meses de evolução, que não fechou com curativos. Ao exame, ferida de 6 cm com bordas enroladas, leito com tecido de granulação e área de esfacelo, e uma cavidade em que se palpa o ísquio com a pinça. Não há febre, secreção purulenta nem celulite perilesional. Albumina 3,4 g/dL, hemoglobina 12,1 g/dL. Mora com a mãe, que faz as mudanças de posição, e ele consegue se manter na posição em que é colocado. Radiografia de bacia sem alterações.
estágio
Lesão por pressão estágio 4: há perda de pele em espessura total com palpação direta do osso. A epíbole (borda enrolada) e o esfacelo são compatíveis, e a presença de esfacelo só mudaria a categoria para não classificável se impedisse identificar a extensão da perda — aqui não impede, porque o osso já é palpável.
por que este sítio neste paciente
Ísquio é a topografia da posição sentada prolongada, e o cadeirante com lesão medular é a população típica. Na série brasileira de centro de trauma, 57,8% dos operados tinham lesão medular e a região isquiática respondeu por 46,6% das lesões.
quem opera
Ele preenche os critérios de seleção do protocolo de internação breve: lesão grau IV, albumina acima de 3,0, hemoglobina acima de 10,0, ferida limpa com bordas em regressão, espasticidade controlada — no sentido funcional de conseguir manter a posição em que é colocado — e cuidador disponível. A ausência de evidência clínica e de imagem de osteomielite completa o critério, mas não afasta o diagnóstico.
conduta cirúrgica
Desbridamento com bursectomia ampla e raspagem até osso clinicamente viável; amostra de tecido ósseo profundo para anatomopatológico; cobertura imediata com retalho locorregional — miocutâneo ou fasciocutâneo conforme a profundidade e a disponibilidade de área doadora, com o V-Y posterior da coxa e o glúteo máximo entre as opções para o ísquio —, com 20 a 40% do retalho desepidermizado e embutido para preencher o espaço morto e proteger o osso. Loja drenada.
o osso, depois
Se o anatomopatológico vier positivo, antibioticoterapia prolongada orientada por antibiograma faz sentido porque a ferida foi fechada. No protocolo do Hospital das Clínicas, cinco dos 20 pacientes tiveram osso positivo apesar de terem entrado sem evidência clínica nem de imagem, e nenhum deles evoluiu com infecção ou deiscência sob esse esquema.
o que decide a recidiva
Não posicionar sobre a área operada; planejar o decúbito alternado; retomar o cronograma de reposicionamento e a superfície de redistribuição; manter a nutrição e o controle de umidade; e envolver a mãe na avaliação diária da pele. As taxas de recidiva descritas na literatura vão de 3% a 82%, e a diferença mora aqui, não na escolha do retalho.
07

Agora feche você

Mulher de 79 anos, internada há 12 dias por pneumonia, restrita ao leito, com rebaixamento intermitente do nível de consciência e incontinência urinária e fecal. A enfermagem registra escore 11 na escala de Braden. Ao exame da região sacral há uma placa de 5 cm coberta por escara negra e aderida, sem drenagem, com halo de eritema que não embranquece ao redor. Em ambas as nádegas, na área que fica em contato com a fralda, a pele está avermelhada, brilhante e macerada, sem perda de continuidade sobre proeminência óssea.
achado sacral
Lesão coberta por escara aderida que impede confirmar a extensão do dano: lesão por pressão não classificável. Ela não é estágio 1 nem estágio 2 — quando a escara for removida, o que vai aparecer é estágio 3 ou estágio 4.
achado glúteo
Área avermelhada, brilhante e macerada na região de contato com a fralda, sem relação com proeminência óssea: dermatite associada à incontinência. A própria definição do estágio 2 proíbe usá-lo para lesões associadas à umidade.
risco
Escore 11 na escala de Braden corresponde a risco alto na faixa do protocolo do Ministério da Saúde (10 a 12 pontos), lembrando que quanto menor o escore, maior o risco.
conduta
08

Onde a banca derruba

  1. 1Chamar de estágio 2 a lesão do períneo em paciente incontinente A definição do estágio 2 tem proibição expressa: ela não se usa para descrever lesões de pele associadas à umidade, incluindo a dermatite associada à incontinência e a dermatite intertriginosa, nem lesão por adesivo médico, nem ferida traumática. A pista da vinheta é a distribuição — a dermatite acompanha a área molhada, difusa e simétrica, e não a proeminência óssea. Trocar o rótulo troca a conduta inteira: uma pede produto de barreira e manejo da umidade, a outra pede alívio de pressão.
  2. 2Dar estágio a uma ferida coberta por escara Quando o esfacelo ou a escara impede identificar a extensão da perda tissular, a categoria é lesão por pressão não classificável — e isso vale inclusive quando a ferida parece obviamente profunda. Removida a cobertura, o que aparece é estágio 3 ou estágio 4, nunca menos. A alternativa que oferece 'estágio 4' para a ferida ainda coberta é atraente porque acerta o prognóstico e erra a regra.
  3. 3Ler descoloração púrpura em pele íntegra como estágio 1 O estágio 1 é eritema que não embranquece, e o texto vigente diz que mudanças na cor NÃO incluem descoloração púrpura ou castanha, porque essas podem indicar dano tissular profundo. A diferença não é de grau: a lesão tissular profunda vem de pressão intensa e/ou prolongada e cisalhamento na interface osso-músculo, pode evoluir rapidamente e revelar a extensão real, e exige alívio imediato — não observação.
  4. 4Estadiar lesão de membrana mucosa Lesão por pressão em membranas mucosas — a do tubo orotraqueal no lábio, a da sonda na narina, a do cateter na uretra — é reconhecida pelo histórico de uso de dispositivo médico no local, e a própria definição diz que, devido à anatomia do tecido, essas lesões NÃO podem ser categorizadas. Já a lesão relacionada a dispositivo médico em pele recebe estágio normalmente. É o par que a prova gosta de oferecer junto para ver quem confunde os dois.
  5. 5Massagear a proeminência óssea hiperemiada A Nota Técnica manda hidratar a pele diariamente com hidratantes e umectantes, mas explicitamente SEM massagear proeminências ósseas e áreas hiperemiadas. A hiperemia que não embranquece já é lesão instalada, e friccioná-la agrava o dano em tecido que está isquêmico. A alternativa que traz massagem como cuidado preventivo herdou a prática de manuais antigos.
  6. 6Cobrir proeminência óssea com enxerto de pele O enxerto é fino, tem baixa resistência em área de atrito e é contraindicado sobre proeminência óssea, com recorrência descrita próxima de 70%. Na série brasileira de 39 coberturas, ele respondeu por apenas 6 casos (15,4%), contra 30 retalhos (76,9%). Cobertura de lesão por pressão profunda é cirurgia de retalho, e a razão é a mesma que faz a lesão existir: aquele ponto vai voltar a receber carga.
  7. 7Prescrever seis semanas de antibiótico por 'osso exposto' Muitos pacientes com osso cronicamente exposto não têm osteomielite quando biopsiados, e a ressonância pode não distinguir osteomielite de remodelamento ósseo. Não há evidência de benefício da antibioticoterapia sem desbridamento e cobertura concomitantes; se a ferida puder ser fechada e a biópsia mostrar osteomielite, o antibiótico é razoável, sem dado que sustente duração acima de 6 semanas — e há quem recomende 2 semanas quando a osteomielite se limita ao osso cortical.
  8. 8Fechar a cavidade sem preencher o espaço morto A bursa crônica sai inteira na bursectomia e deixa uma cavidade. Fechar a pele por cima dela produz coleção, deiscência e recidiva — e a deiscência foi a complicação mais frequente na série brasileira, com 20% das 45 lesões. A técnica que responde a isso desepiteliza 20 a 40% da extensão do retalho e embute essa porção dentro da ferida, para proteção óssea e preenchimento, com a loja drenada.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Eritema que não embranquece com pele íntegra é lesão por pressão estágio 1. A prevenção da progressão baseia-se em mudança de decúbito programada, redistribuição de pressão (colchão/coxins), higiene e hidratação da pele, controle de umidade e suporte nutricional. Antibiótico tópico não é indicado sem infecção, e manter decúbito dorsal fixo perpetua a pressão sacral. Massagear área eritematosa é contraindicado (agrava lesão). Não há tecido desvitalizado a desbridar em estágio 1.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

As seis categorias e o que cada uma proíbe: estágio 1 é eritema que NÃO embranquece com pele íntegra, e púrpura ou castanho não entram nele; estágio 2 tem derme exposta e leito viável, sem gordura, granulação, esfacelo ou escara, e NÃO se usa para dermatite de incontinência nem ferida traumática; estágio 3 tem gordura visível sem estrutura profunda exposta; estágio 4 tem fáscia, músculo, tendão, ligamento, cartilagem ou osso expostos ou palpáveis; não classificável é a que a escara encobre, e vira 3 ou 4 quando aberta; tissular profunda é descoloração vermelha escura, marrom ou púrpura com pele intacta ou não, por pressão e cisalhamento na interface osso-músculo. Dispositivo médico estadia-se; membrana mucosa NÃO. Braden: seis subescalas, escore alto igual a risco baixo; faixas de 15-18, 13-14, 10-12 e ≤ 9. Nunca massagear proeminência óssea. Lateral a 30°, cabeceira a 30° ou menos, calcanhar suspenso. Estágios 3, 4 e não classificável são never events do Notivisa.

em 30 dias

Os porquês. Por que a lesão começa na profundidade — a pressão age contra o osso, e a definição da lesão tissular profunda diz que o dano se dá na interface osso-músculo. Por que roxo em pele fechada é pior notícia do que vermelho. Por que a lateralização é a 30° e não a 90° — a 90° o corpo troca o sacro pelo trocânter. Por que o intervalo de reposicionamento mudou de dono: número fixo de duas horas no protocolo de 2013, horário individualizado na Nota Técnica de 2023, duas ou três horas condicionadas à superfície na diretriz internacional de 2026. Por que enxerto não vai sobre proeminência óssea, e por que a cobertura da lesão profunda é cirurgia de retalho. Por que o osso é amostrado na mesa e não no consultório, e por que o antibiótico só faz sentido junto do desbridamento e do fechamento. Por que a recidiva varia de 3% a 82% — porque o que a determina não é o retalho escolhido, é a posição, a umidade, a nutrição e o cuidador depois da alta. E por que o paciente que fechou está em remissão, não curado: nenhuma das causas foi embora com a alta.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Homem de 28 anos, paraplégico após acidente motociclístico há dois anos, chega ao ambulatório trazido pela irmã por uma ferida na nádega direita que 'não fecha desde o Carnaval'. Ele passa o dia na cadeira de rodas, faz os curativos em casa e diz que já ouviu que 'precisa de cirurgia plástica'. Conduza a consulta: caracterize e estadie a lesão, investigue os fatores que a produzem e a mantêm — posição, superfície, umidade, nutrição, cuidador —, avalie se ele reúne condições para reconstrução em tempo único e explique a ele por que o curativo sozinho não vai resolver e por que a cirurgia, sem mudar o que causou a lesão, também não. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Lesões por pressão – Lesão por pressão: estadiar, prevenir e reconstruir — Preparatório para provas | OsceLabs