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Câncer de pulmão: o tipo, o estádio e o pulmão que sobra
Depois que a biópsia volta, três perguntas decidem tudo — que célula é, até onde foi e quanto de pulmão o doente aguenta perder. A prova mistura as três, e quem responde a terceira antes da segunda opera quem não deveria ser operado.
Responda antes de ler
Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.
Homem de 62 anos, tabagista de 40 maços-ano, procura atendimento por tosse persistente há 2 meses, hemoptise em pequena quantidade e perda de 6 kg. Ao exame: PA 130x84 mmHg, FC 88 bpm, FR 18 ipm, SatO2 95% em ar ambiente; murmúrio vesicular diminuído em ápice direito. Qual exame de imagem é o mais indicado como próximo passo para investigação da suspeita de neoplasia pulmonar?
Como esse tema cai
Este capítulo começa onde o do nódulo pulmonar solitário termina. Lá, a pergunta era se aquela opacidade merecia agulha; aqui, a biópsia já voltou com o nome da doença, e a pergunta virou outra: o que fazer com ela. O enunciado costuma entregar um laudo histológico, uma tomografia descrita em detalhe e, quase sempre, uma espirometria — e essa espirometria não está ali por acaso.
Três perguntas, sempre nesta ordem. Que célula é: pequenas células ou não pequenas células, porque a resposta separa duas doenças que só compartilham o órgão. Até onde foi: o TNM, que desde 1º de janeiro de 2025 roda na nona edição e repartiu o N2 e o M1c. E quanto de pulmão sobra: a função respiratória, que é o que transforma um tumor ressecável em um doente operável — ou não.
A armadilha central da prova está na diferença entre essas duas últimas palavras. Ressecável é uma propriedade do tumor: depende de onde ele está, do que invade e de quais estações linfonodais tomou. Operável é uma propriedade da pessoa: depende do volume expiratório forçado, da difusão e, quando esses dois não bastam, do consumo de oxigênio no esforço. Um enunciado que descreve um tumor perfeitamente ressecável e uma espirometria ruim está testando exatamente essa fronteira, e a alternativa certa raramente é a cirurgia.
O recorte brasileiro tem um traço próprio e cobrado. O documento nacional que regula o que o SUS autoriza e paga é de 2014 e trabalha com a régua de estadiamento da sua época; o TNM que os serviços laudam hoje é o de 2025. Além disso, o texto brasileiro corrige explicitamente o desempenho do PET-CT para país com tuberculose endêmica, exigindo confirmação cirúrgica do mediastino num limiar de tamanho que é mais alto que o internacional. Quem decora só a tabela importada erra as duas coisas.
O que muda decisão
Duas doenças com o mesmo nome
A primeira separação não é por estádio, é por célula. O documento do Ministério agrupa os tipos histológicos em dois blocos para fins terapêuticos e prognósticos: o carcinoma de pequenas células, que responde por 15% dos casos, e os carcinomas de células não pequenas, que respondem por 85% e reúnem carcinoma epidermoide, adenocarcinoma, carcinoma de grandes células, carcinoma adenoescamoso e carcinoma indiferenciado. Os tumores carcinoides ficam de fora dos dois grupos: são enquadrados, para fins terapêuticos, entre os cânceres neuroendócrinos.
A consequência dessa divisão é radical e a prova gosta dela justamente por isso. No carcinoma de pequenas células, o tratamento cirúrgico não é recomendado — o comportamento biológico é de propensão precoce a metástase à distância. Quando o diagnóstico é firmado depois de uma ressecção já feita, o doente recebe tratamento sistêmico complementar compatível com o estadiamento. E o próprio TNM cede lugar: para escolher tratamento, o pequenas células é classificado em doença localizada e doença extensa. Localizada é a confinada ao hemitórax de origem, ao mediastino e aos linfonodos supraclaviculares ipsilaterais, passíveis de tratamento por um mesmo campo de irradiação. Extensa é a disseminada além da fossa supraclavicular ipsilateral, incluindo os casos de metástase à distância. Derrame pleural ipsilateral não cai limpo em nenhuma das duas: enseja prognóstico intermediário entre elas.
Os números do pequenas células explicam por que a conduta é essa. Mesmo com assistência terapêutica integral, a expectativa de sobrevida em cinco anos é de 10% na doença limitada e 5% na extensa. O esquema padrão associa um derivado da platina — cisplatina ou carboplatina — ao etoposídeo. A irradiação torácica aumenta a sobrevida e é costumeiramente indicada. E há uma conduta que só existe aqui: a irradiação craniana profilática, 25 Gy em 10 frações de 250 cGy, indicada para quem obteve controle da doença torácica, porque previne a recorrência no sistema nervoso central. No não pequenas células, a irradiação craniana profilática não é indicada. Trocar isso é erro clássico.
Dentro do não pequenas células, a subdivisão continua importando. O texto brasileiro pede que se diferencie, minimamente, o subtipo escamoso do não escamoso, e que idealmente se identifique a mutação do receptor do fator de crescimento epitelial nos casos de adenocarcinoma — porque a presença dessa mutação é fator preditivo de resposta aos inibidores de tirosina-quinase, e nessa condição a monoterapia com erlotinibe ou gefitinibe é opção aceitável de quimioterapia paliativa inicial ou após falha.
Vale fixar a escala do problema no Brasil. Para cada ano do triênio de 2026 a 2028, o INCA estima 35.380 casos novos de cânceres de traqueia, brônquio e pulmão — 18.730 em homens e 16.650 em mulheres —, o que corresponde a taxas brutas de 17,95 por 100 mil homens e 15,14 por 100 mil mulheres, e de 16,51 por 100 mil habitantes no total. Excluídos os tumores de pele não melanoma, é o quarto câncer mais incidente do país, atrás de mama feminina, próstata e cólon e reto. Entre os homens é o terceiro; entre as mulheres, o quarto. A mortalidade dá a medida real da doença: em 2023 ocorreram 31.237 óbitos, 16.758 em homens e 14.479 em mulheres. É um câncer que mata quase tanto quanto incide.
O TNM que mudou em 2025: o T parado, o N e o M repartidos
A nona edição da classificação TNM do câncer de pulmão entrou em vigor em 1º de janeiro de 2025. É produzida pela associação internacional que estuda o câncer de pulmão em conjunto com os comitês americano e da união internacional de controle do câncer, e a mudança que ela traz é fácil de decorar porque é pequena e bem delimitada: o componente T não mudou nada; o N e o M foram repartidos.
No N, os descritores N0, N1 e N3 permanecem como estavam. O N2 — doença linfonodal mediastinal ipsilateral — passou a ter dois subdescritores: N2a, acometimento de uma única estação mediastinal ipsilateral ou subcarinal, e N2b, acometimento de múltiplas estações. O motivo é prognóstico e foi demonstrado no estadiamento patológico: doença N2 multiestação tem prognóstico pior que a de estação única, e a edição anterior colocava as duas na mesma categoria. Repare no detalhe que a prova cobra: a unidade de contagem é a estação, não o linfonodo. A justificativa está escrita — linfonodos metastáticos não podem ser contados com precisão na imagem, o que torna a contagem individual impraticável no estadiamento clínico. O mapa linfonodal com as suas 14 estações anatômicas permanece inalterado.
No M, o M1a e o M1b ficaram como estavam. M1a é a disseminação intratorácica: nódulos ou derrame pleural ou pericárdico malignos e nódulos pulmonares contralaterais. Fica de fora do M1a o derrame citologicamente negativo e clinicamente julgado como não decorrente do câncer — transudato, não sanguinolento. M1b é a metástase extratorácica única, incluindo o acometimento de um único linfonodo não regional. O que mudou foi o M1c, que reúne as metástases extratorácicas múltiplas e agora se divide em M1c1, metástases confinadas a um único sistema orgânico, e M1c2, metástases envolvendo múltiplos sistemas. E há uma sutileza aritmética que a prova adora: sistema, não órgão. O esqueleto inteiro conta como um só sistema — metástases limitadas a vários ossos são M1c1. Metástases em ossos e adrenais, não: são M1c2.
Como o M não alterou o agrupamento por estádio, M1c1 e M1c2 caem ambos em IVB, e M1a e M1b permanecem em IVA. O N, esse sim, remexeu a grade. A mudança mais relevante é a descida do T1N2a para o estádio IIb — desde a segunda edição do TNM, qualquer N2 era doença de estádio III. Outra: T1N1 passou de IIb para IIa. Em compensação, T2aN2a e T2bN2a sobem para IIIA, T3N2a fica em IIIA e T2bN2b vai para IIIB. Vale registrar o que os autores dizem sobre o efeito líquido: a sobrevida global entre os grupos propostos na nona edição não diferiu significativamente da observada com os grupos da oitava. A nona não mudou o prognóstico; mudou a resolução com que ele é descrito.
O T não mudou, mas continua sendo o que mais pesa no dia a dia, e vale relê-lo com a fronteira certa. T1 é o tumor de até 3 cm cercado por pulmão ou pleura visceral, ou situado em brônquio lobar ou mais periférico, subdividido por centímetro: T1a até 1 cm, T1b acima de 1 e até 2 cm, T1c acima de 2 e até 3 cm. T2a vai de mais de 3 até 4 cm — e também abriga, independentemente do tamanho, a invasão de pleura visceral ou de lobo adjacente e o acometimento de brônquio principal sem atingir a carina, com atelectasia ou pneumonite obstrutiva que se estenda até o hilo, envolvendo parte ou todo o pulmão. T2b vai de mais de 4 até 5 cm. T3 vai de mais de 5 até 7 cm, e recolhe a invasão de pleura parietal, parede torácica, raízes nervosas torácicas e gânglio estrelado, e ainda pericárdio, nervo frênico e veia ázigos. T4 é acima de 7 cm, ou, em qualquer tamanho, a invasão de vértebra, lâmina, canal medular, vasos subclávios, plexo braquial ou raízes cervicais; timo, traqueia, carina, nervo laríngeo recorrente, esôfago ou diafragma; coração ou grandes vasos.
Duas regras de nódulo separado fecham o T e costumam ser cobradas isoladas. Nódulo tumoral separado no mesmo lobo do primário é T3. Em lobo ipsilateral diferente, é T4. Em lobo contralateral, sai do T e vira M1a. E o tumor do sulco superior — o Pancoast — tem régua própria dentro dessa lógica: é T4 quando envolve claramente o plexo braquial acima da raiz T1, ou seja, C8 ou raízes mais altas, incluindo troncos, divisões, cordões ou nervos terminais, e também quando invade vasos subclávios, corpos vertebrais, lâmina ou canal medular; se afeta apenas raízes nervosas torácicas, como T1 ou T2, é T3. A ressonância magnética é superior à tomografia para avaliar plexo braquial e vasos, e por isso entra no estadiamento inicial desses tumores.

Estadiar de verdade: o que o documento brasileiro manda pedir
Firmado o diagnóstico histopatológico ou citológico, o estadiamento clínico começa por tomografia computadorizada de tórax e de abdome superior, com contraste. O abdome superior não é generosidade: é onde estão fígado e adrenais, os dois destinos que mudam a conduta mais rápido.
Cintilografia óssea com tecnécio-99m é indicada para os doentes com câncer de pulmão de pequenas células e, nos demais casos, quando há queixa de dor óssea. O texto avisa por que não vale pedir para todo mundo: o exame tem boa sensibilidade para metástase, mas elevada taxa de falso-positivo por doença degenerativa osteoarticular ou trauma ósseo, e achados anormais precisam ser confirmados por outros exames de imagem antes de virar diagnóstico de metástase.
Imagem de crânio segue a mesma lógica de duas velocidades. Tomografia ou ressonância do cérebro não é indicada rotineiramente como parte do estadiamento clínico do carcinoma de células não pequenas: emprega-se no pequenas células e, nos demais casos, quando há suspeita clínica de metástase no sistema nervoso central. Quando se decide investigar o crânio, o método importa — a ressonância com contraste tem sensibilidade de 77% para metástase cerebral, contra 21% do PET-CT, que é péssimo nesse território.
O PET-CT tem indicação declarada e estreita: o estadiamento clínico do câncer de pulmão de células não pequenas potencialmente ressecável. A razão é que ele tem maior sensibilidade que a tomografia para acometimento linfonodal mediastinal e hilar, o que aumenta a acurácia no diagnóstico de doença localizada. Os números do método são conhecidos: para linfonodo mediastinal, sensibilidade de 58% a 91% e especificidade de 76% a 90%, contra sensibilidade de 51% a 64% e especificidade de 74% a 86% da tomografia isolada. Falso-negativo aparece em lesão de baixa atividade metabólica; falso-positivo, em infecção e inflamação.
E aqui está o parágrafo mais brasileiro do documento inteiro. O desempenho do PET-CT é inferior para doentes de áreas endêmicas para tuberculose — e a consequência prática está escrita como regra, não como ressalva: se há linfonodos mediastinais aumentados à tomografia, de 16 mm ou mais, faz-se necessária a abordagem cirúrgica complementar, por mediastinoscopia cervical ou toracoscopia, para minimizar a indicação de toracotomias desnecessárias. Guarde os dois números lado a lado, porque a prova mistura os dois mundos: o critério de tamanho da radiologia internacional para chamar um linfonodo de suspeito é o eixo curto acima de 10 mm; o gatilho brasileiro para exigir confirmação cirúrgica antes de operar é 16 mm.
A diferença entre esses dois números não é briga de escola: são coisas diferentes. Dez milímetros é o limiar a partir do qual o radiologista chama o linfonodo de aumentado. Dezesseis milímetros é o limiar a partir do qual o texto brasileiro considera que nem o PET resolve e manda pôr uma câmera no mediastino antes de abrir o tórax. Confundir os dois faz o candidato indicar mediastinoscopia em todo linfonodo de 11 mm, ou — pior — mandar direto para a toracotomia um doente com adenopatia de 18 mm e PET positivo que pode ser granuloma.
Ressecabilidade: o que a anatomia permite tirar
A cirurgia é a modalidade terapêutica com maior potencial curativo no carcinoma de células não pequenas, para doentes com doença localizada ao diagnóstico, realizada por toracotomia ou por toracoscopia vídeo-assistida. O que se opera não é o tumor sozinho: a ressecção inclui as cadeias linfáticas regionais, e a escolha entre ressecção em cunha, segmentectomia, lobectomia ou pneumonectomia é feita no intraoperatório, dependendo da extensão real do tumor e da necessidade de preservar função pulmonar.
A leitura de ressecabilidade se faz de trás para frente, a partir do que impede. Doença metastática à distância — qualquer M1 — tira o caso do campo curativo por cirurgia do primário, com a exceção declarada da metástase cerebral isolada, síncrona ou metacrônica, cuja ressecção completa enseja prognóstico mais favorável que o tratamento paliativo exclusivo em casos selecionados. Doença N3, que é o acometimento supraclavicular, escaleno ou mediastinal e hilar contralateral, também sai. O terreno cinzento é o N2, e é justamente onde a nona edição colocou a lupa: o texto brasileiro reserva a ressecção cirúrgica no estádio IIIA para a combinação T3N1M0, e manda radioterapia torácica radical associada à quimioterapia para os doentes com invasão linfática N2.
Repare no que isso significa depois de 2025. Um T1 com uma única estação mediastinal comprometida é hoje N2a e estádio IIb — deixou de ser estádio III. A régua terapêutica brasileira, escrita em 2014, continua raciocinando por 'invasão linfática N2' sem distinguir estação única de múltiplas estações. O candidato precisa saber classificar pela nona edição e, ao mesmo tempo, saber que a conduta que o SUS autoriza está escrita na régua antiga.
Quando o tumor invade estruturas, a fronteira é a operabilidade técnica. Invasão de parede torácica e tumor de Pancoast têm caminho próprio no documento: radioterapia torácica associada ou não à quimioterapia, seguida ou não de ressecção cirúrgica — o que descreve, em linguagem de 2014, a estratégia de tratamento neoadjuvante seguido de cirurgia nos que respondem. Já invasão de vértebra, canal medular, coração, grandes vasos, traqueia ou esôfago define T4 e empurra o caso para o terreno da radioquimioterapia.
Sobre a extensão da ressecção, o próprio documento brasileiro guarda uma tensão interna que vale ler devagar, porque ela está no mesmo parágrafo. Ele diz que, nos ensaios clínicos com doentes em estágio I, o prognóstico após lobectomia ou uma ressecção menor parece ser similar; e diz, em seguida, que dados acumulados da prática clínica sugerem que os resultados oncológicos são inferiores com ressecções em cunha e segmentectomias. As duas frases não se contradizem — descrevem fontes de evidência diferentes —, mas a segunda é a que virou conduta no texto. É exatamente esse ponto que dois ensaios randomizados publicados depois vieram mexer, e ele está detalhado no bloco de divergências.
Há ainda a saída para quem não pode operar sem deixar de ter intenção curativa. A irradiação ablativa estereotática, de 83,2 Gy a 146 Gy, é modalidade indicada para doentes no estádio I que não apresentem condições clínicas para tratamento cirúrgico. Não é radioterapia paliativa: é a alternativa curativa do inoperável de estádio inicial, e a alternativa correta em muitos enunciados que descrevem tumor pequeno e função pulmonar proibitiva.
Operabilidade: o pulmão que sobra
O documento brasileiro não fixa limiar funcional nenhum. Ele diz apenas que o cirurgião decide a extensão da ressecção considerando a necessidade de preservar função pulmonar. A régua numérica que os serviços usam é a recomendação europeia de sociedade respiratória e de cirurgia torácica, de 2009, e é ela que está reproduzida nos textos brasileiros de avaliação pré-operatória. Dizer de quem é a régua faz parte da resposta.
O algoritmo tem três degraus. Primeiro degrau: mede-se o volume expiratório forçado no primeiro segundo e a capacidade de difusão do monóxido de carbono. Se ambos estão em 80% do previsto ou acima, o risco é baixo e o doente está liberado até para pneumonectomia, sem exame adicional. Existe uma razão específica para medir a difusão junto e não só a espirometria: mais de 40% dos pacientes com volume expiratório acima de 80% podem ter difusão abaixo de 80%. Difusão abaixo de 60% do previsto já é fator preditor independente de complicações, morbidade e mortalidade pós-operatória. Quem pede só espirometria perde esses doentes.
Segundo degrau: se qualquer um dos dois está abaixo de 80%, calcula-se o valor previsto para o pós-operatório — o que a literatura abrevia como VEF1ppo e DLCOppo. O cálculo anatômico é uma regra de três de segmentos, e é a conta que a prova pede sem avisar que está pedindo: o valor previsto no pós-operatório é o valor pré-operatório multiplicado por um menos a fração de segmentos a serem ressecados sobre o total de segmentos funcionantes. Escrita da forma equivalente que aparece na literatura de imagem, com o pulmão íntegro: valor pré multiplicado por dezenove menos os segmentos a remover, dividido por dezenove.
Uma conta feita até o fim vale mais que a fórmula. Tome um homem com volume expiratório forçado pré-operatório de 62% do previsto e pulmões com os dezenove segmentos pérvios. Se a proposta é lobectomia superior direita, que retira três segmentos, o previsto pós-operatório é 62 multiplicado por dezesseis dividido por dezenove, ou seja, 52,2% — acima de 40%, risco baixo. Se a proposta é pneumonectomia direita, que retira os dez segmentos daquele pulmão, o previsto pós-operatório é 62 multiplicado por nove dividido por dezenove: 29,4%. O mesmo doente, o mesmo tumor, a mesma espirometria — e a decisão vira. Isso é o que significa dizer que a operabilidade é uma propriedade do par doente-operação, não do doente sozinho.
Detalhe que muda o resultado e quase ninguém aplica: o denominador é o número de segmentos funcionantes, e o numerador conta apenas os segmentos pérvios a serem ressecados. Um lobo já completamente atelectasiado por tumor endobrônquico não contribui com função nenhuma — retirá-lo não custa nada em volume expiratório. Aplicar a fórmula com os dezenove segmentos nesse caso superestima a perda e reprova para cirurgia um doente que aguentaria. Quando a topografia é complexa ou a proposta é pneumonectomia, a cintilografia de perfusão substitui a contagem de segmentos pela fração da perfusão total do pulmão a ser ressecado.
Terceiro degrau: com valor previsto pós-operatório abaixo de 40% em qualquer dos dois parâmetros, o doente vai para o teste de exercício cardiopulmonar, e quem decide passa a ser o consumo de oxigênio. Abaixo de 10 mL/kg/min, ou abaixo de 35% do previsto, o risco é elevado. Entre 10 e 20 mL/kg/min, ou de 35% a 75%, o risco é moderado e o doente é liberado para lobectomia. Em 20 mL/kg/min ou mais, ou 75% ou mais, o risco é baixo e ele é liberado até para pneumonectomia. Na ausência do teste cardiopulmonar, o teste da escada acima de 22 metros e o teste de caminhada incremental com sombra sonora acima de 400 metros predizem baixo risco. E há um teste explicitamente desaconselhado nessa seleção: o teste de caminhada de seis minutos, por evidências conflitantes — ele não serve para escolher quem opera.
Um último aviso do texto que resolve muitos enunciados: todo candidato a toracotomia com ressecção deve ter o risco funcional avaliado para pneumonectomia, ainda que a proposta seja uma lobectomia. O motivo é que o estadiamento final às vezes só se dá no intraoperatório, e pode ocorrer uma complicação que obrigue a estender a ressecção. Aprovar o doente apenas para o procedimento planejado é aprovar para o melhor cenário.
Tratamento por estádio, e o que o SUS tem e não tem
A escolha do tratamento, diz o documento, deve ser adequada ao estadiamento clínico, à capacidade funcional pela escala ECOG/Zubrod, às condições clínicas e à preferência do doente. Os quatro critérios estão no mesmo nível — e a capacidade funcional aparece com números exatos: a quimioterapia paliativa de primeira linha é recomendada para doentes com Zubrod 0, 1 ou 2; a de segunda ou terceira linha, apenas para Zubrod 0 ou 1. Não existe evidência de que o tratamento antineoplásico paliativo de segunda ou terceira linha seja seguro ou eficaz para quem já está em Zubrod 2 ou pior.
Por estágio, no carcinoma de células não pequenas: estágio 0, ressecção cirúrgica conservadora, segmentectomia ou ressecção em cunha. Estágio I, ressecção cirúrgica conservadora — lobectomia, segmentectomia ou ressecção em cunha —, ou radioterapia torácica radical para quem tem contraindicação médica à cirurgia. Estágio II, ressecção cirúrgica, que pode ser pneumonectomia, lobectomia ou ressecção segmentar, mais quimioterapia adjuvante após a cirurgia; radioterapia radical se há contraindicação; e o caminho de radioterapia com ou sem quimioterapia seguida ou não de ressecção para tumor de Pancoast ou invasão de parede torácica. Estágio IIIA, ressecção nos T3N1M0, radioquimioterapia radical para os N2 ou para quem tem contraindicação cirúrgica, quimioterapia adjuvante após cirurgia, e o mesmo caminho do Pancoast. Estágios IIIB, IV e doença recidivada saem do campo cirúrgico curativo e entram em radioterapia com ou sem quimioterapia, quimioterapia paliativa, ressecção de metástase cerebral isolada, radioterapia externa para lesão endobrônquica sintomática e radioterapia paliativa antiálgica ou hemostática.
A quimioterapia adjuvante confere maior sobrevida para doentes com doença localizada operados — é por isso que ela aparece a partir do estágio II e não no I. Na doença avançada ou metastática ao diagnóstico, o documento é honesto sobre a magnitude: a quimioterapia paliativa resulta em incremento modesto na sobrevida mediana, de 2 a 3 meses, com possibilidade de controle temporário dos sintomas e sem expectativa de cura.
Existem regras de parada, e elas são cobradas como lista. A quimioterapia deve ser suspensa, temporária ou definitivamente, diante de toxicidade clínica graus 3 e 4; de redução da capacidade funcional para os níveis 2, 3 ou 4 de Zubrod; de ausência de resposta após o quarto ciclo; após seis ciclos nos doentes responsivos; a qualquer tempo, na evidência de progressão neoplásica; por falta de adesão; e por manifestação voluntária do doente após esclarecimento dos riscos. A avaliação da resposta ao tratamento sistêmico é feita pelos critérios RECIST.
Sobre imunoterapia, o candidato precisa saber o estado da arte regulatória brasileira, porque a prova de política pública cobra isso e a de clínica também. O pembrolizumabe como tratamento de primeira linha para carcinoma de pulmão não pequenas células avançado ou metastático não está incorporado ao SUS: a decisão de não incorporar foi tornada pública pela Portaria sectics/MS nº 71, de 20 de dezembro de 2023, depois de recomendação final da comissão nacional de incorporação em 1º de novembro de 2023. Uma nova avaliação foi aberta em 2026, agora restrita ao estágio IV com alta expressão de PD-L1, e a recomendação preliminar da 150ª reunião ordinária, de 9 de abril de 2026, foi novamente desfavorável: a razão de custo-efetividade incremental calculada, de R$ 233.429,22 por ano de vida ajustado por qualidade, ultrapassa o limiar de R$ 120.000 adotado, e o impacto orçamentário projetado é de R$ 522.008.765. O benefício clínico foi reconhecido na discussão; o obstáculo declarado é econômico.
O seguimento pós-tratamento fecha o capítulo e é a parte mais fácil de errar por excesso. Doentes tratados com intenção curativa devem ser reavaliados quanto a complicações dos procedimentos em 3 a 4 meses após o término. Depois, consulta médica e exame de imagem — radiografia ou tomografia de tórax — a cada 6 meses por 2 anos e, então, anualmente. E há uma lista do que não deve ser indicado para fins de acompanhamento: exames laboratoriais, marcadores tumorais, citologia de escarro, broncoscopia e PET-CT. Quem é fumante deve ser encorajado a abandonar o hábito e encaminhado para tratamento antitabágico comportamental e com apoio farmacoterápico — e isso não é conselho de rodapé: continua sendo a intervenção com maior efeito sobre a mortalidade da doença.
Do laudo à mesa: estádio, ressecabilidade e função
A primeira tabela traz os descritores da nona edição do TNM, com as duas repartições novas destacadas na própria redação. A segunda é a grade de agrupamento por estádio, com as colunas na ordem em que elas realmente aparecem na publicação — N0, N1, N2a, N2b, N3 —, porque essa é a leitura que a extração automática do documento inverte. A terceira resume o algoritmo funcional que decide quem é operável, com a régua europeia que os serviços brasileiros usam por falta de régua nacional. A quarta é a tabela de opções terapêuticas por estágio como o documento do Ministério a escreve. Os cards mostram a distinção que a nona edição criou e que a prova vai cobrar: uma estação, várias estações, e o que isso muda de estádio.
- 1Separar por célula antes de qualquer outra coisa. Pequenas células (15%) sai do fluxo cirúrgico e é classificado em doença localizada ou extensa. Não pequenas células (85%) segue para o TNM.
- 2Estadiar com o que o documento brasileiro manda: tomografia de tórax e abdome superior com contraste em todos; cintilografia óssea no pequenas células e nos demais só com dor óssea; imagem de crânio no pequenas células e nos demais só com suspeita clínica.
- 3Pedir PET-CT apenas na indicação declarada: carcinoma de células não pequenas potencialmente ressecável. Fora dessa indicação ele não estadia melhor — e num país com tuberculose endêmica erra mais.
- 4Diante de linfonodo mediastinal de 16 mm ou mais à tomografia, indicar abordagem cirúrgica complementar — mediastinoscopia cervical ou toracoscopia — antes da toracotomia, ainda que o PET seja positivo.
- 5Atribuir o estádio pela nona edição, contando ESTAÇÕES linfonodais e não linfonodos, e lembrando que T1N2a hoje é IIB, não IIIA.
- 6Só então perguntar pela função: volume expiratório forçado e difusão. Ambos em 80% ou mais do previsto liberam até pneumonectomia; qualquer um abaixo obriga a calcular o valor previsto no pós-operatório.
- 7Calcular o previsto pós-operatório pela contagem de segmentos pérvios sobre segmentos funcionantes — e avaliar o risco para PNEUMONECTOMIA, mesmo que a proposta seja lobectomia.
- 8Abaixo de 40% em qualquer dos dois, ir ao teste de exercício cardiopulmonar e decidir pelo consumo de oxigênio. Tumor de estádio I em doente funcionalmente proibitivo tem saída curativa: irradiação ablativa estereotática.
N1 — hilar ou pulmonar ipsilateral
Metástase em linfonodo pulmonar ou hilar ipsilateral. Descritor inalterado na nona edição. O que mudou foi o estádio que ele produz nos tumores pequenos: T1N1 saiu de IIB e passou a IIA.
N2a — uma estação mediastinal
Uma única estação mediastinal ipsilateral ou subcarinal. Subdescritor NOVO. É a mudança de maior consequência da nona edição: com um tumor T1, esta doença passou a ser estádio IIB — desde a segunda edição do TNM, todo N2 era estádio III.
N2b — múltiplas estações mediastinais
Múltiplas estações mediastinais ipsilaterais ou subcarinais. Subdescritor NOVO, criado porque a doença multiestação tem prognóstico pior que a de estação única. Com T1, T2a ou T2b, leva a IIIA ou IIIB. A contagem é de estações, não de linfonodos.
| Componente | Categoria | O que define na nona edição |
|---|---|---|
| T (inalterado) | T1a / T1b / T1c | Tumor cercado por pulmão ou pleura visceral, ou em brônquio lobar ou mais periférico: até 1 cm; acima de 1 até 2 cm; acima de 2 até 3 cm |
| T (inalterado) | T2a / T2b | Acima de 3 até 4 cm; ou invasão de pleura visceral ou de lobo adjacente; ou brônquio principal sem carina, com atelectasia ou pneumonite obstrutiva até o hilo. T2b: acima de 4 até 5 cm |
| T (inalterado) | T3 | Acima de 5 até 7 cm; ou invasão de pleura parietal, parede torácica, raízes nervosas torácicas ou gânglio estrelado; ou pericárdio, nervo frênico, veia ázigos; ou nódulo separado no MESMO lobo |
| T (inalterado) | T4 | Acima de 7 cm; ou invasão de vértebra, lâmina, canal medular, vasos subclávios, plexo braquial ou raízes cervicais; timo, traqueia, carina, laríngeo recorrente, esôfago ou diafragma; coração ou grandes vasos; ou nódulo em lobo ipsilateral DIFERENTE |
| N (repartido) | N0 / N1 / N3 | Sem metástase regional; metástase em linfonodo pulmonar ou hilar ipsilateral; metástase supraclavicular, escalênica, ou mediastinal ou hilar contralateral. Inalterados |
| N (repartido) | N2a — NOVO | Metástase em UMA ÚNICA estação linfonodal mediastinal ipsilateral ou subcarinal |
| N (repartido) | N2b — NOVO | Metástase em MÚLTIPLAS estações mediastinais ipsilaterais ou subcarinais |
| M (repartido) | M1a / M1b | Derrame ou nódulos pleurais ou pericárdicos malignos, ou nódulo em lobo contralateral; metástase extratorácica única, incluindo linfonodo não regional único. Inalterados |
| M (repartido) | M1c1 — NOVO | Múltiplas metástases extratorácicas em UM ÚNICO sistema orgânico. Sistema difuso conta como um só órgão: metástases em vários ossos são M1c1 |
| M (repartido) | M1c2 — NOVO | Múltiplas metástases extratorácicas em MÚLTIPLOS sistemas orgânicos — por exemplo, ossos e adrenais |
Agrupamento por estádio na nona edição — colunas na ordem real da publicação
| T / M | N0 | N1 | N2a | N2b | N3 |
|---|---|---|---|---|---|
| T1a — até 1 cm | IA1 | IIA | IIB | IIIA | IIIB |
| T1b — acima de 1 até 2 cm | IA2 | IIA | IIB | IIIA | IIIB |
| T1c — acima de 2 até 3 cm | IA3 | IIA | IIB | IIIA | IIIB |
| T2a — acima de 3 até 4 cm, ou pleura visceral / brônquio principal / atelectasia | IB | IIB | IIIA | IIIB | IIIB |
| T2b — acima de 4 até 5 cm | IIA | IIB | IIIA | IIIB | IIIB |
| T3 — acima de 5 até 7 cm, ou parede torácica / pericárdio / frênico, ou nódulo satélite ipsilateral no mesmo lobo | IIB | IIIA | IIIA | IIIB | IIIC |
| T4 — acima de 7 cm, ou mediastino / diafragma / coluna / plexo braquial, ou nódulo em outro lobo ipsilateral | IIIA | IIIA | IIIB | IIIB | IIIC |
| M1a — disseminação pleural ou pericárdica, ou nódulo contralateral | IVA | IVA | IVA | IVA | IVA |
| M1b — lesão extratorácica única | IVA | IVA | IVA | IVA | IVA |
| M1c1 — múltiplas lesões, um sistema orgânico | IVB | IVB | IVB | IVB | IVB |
| M1c2 — múltiplas lesões, mais de um sistema orgânico | IVB | IVB | IVB | IVB | IVB |
Operabilidade: o algoritmo funcional em três degraus (régua europeia — o documento brasileiro não fixa limiar)
| Degrau | O que se mede | Decisão |
|---|---|---|
| 1 — espirometria e difusão | VEF1 e DLCO, em percentual do previsto | Ambos em 80% ou mais: risco baixo, liberado até pneumonectomia, sem exame adicional. Qualquer um abaixo de 80%: seguir para o degrau 2 |
| 2 — função prevista no pós-operatório | VEF1ppo e DLCOppo = valor pré × (1 − segmentos pérvios a ressecar / segmentos funcionantes). Com pulmão íntegro: valor pré × (19 − segmentos) / 19 | Ambos em 40% ou mais: risco baixo, liberado até pneumonectomia. Qualquer um abaixo de 40%: seguir para o degrau 3 |
| 3 — teste de exercício cardiopulmonar | VO2 máximo, em mL/kg/min ou em percentual do previsto | Abaixo de 10 mL/kg/min ou abaixo de 35%: risco elevado. De 10 a 20 mL/kg/min ou de 35% a 75%: risco moderado, liberado para lobectomia. Em 20 mL/kg/min ou mais, ou 75% ou mais: risco baixo, liberado para pneumonectomia |
| Alternativas ao degrau 3 | Teste da escada; teste de caminhada incremental com sombra sonora; teste de caminhada de 6 minutos | Escada acima de 22 metros e caminhada incremental acima de 400 metros predizem baixo risco. O teste de caminhada de 6 minutos NÃO é recomendado para selecionar quem opera |
Opções terapêuticas por estágio no carcinoma de células não pequenas, como o documento brasileiro as escreve
| Estágio | Opções |
|---|---|
| 0 | Ressecção cirúrgica conservadora: segmentectomia ou ressecção em cunha |
| I | Ressecção cirúrgica conservadora: lobectomia, segmentectomia ou ressecção em cunha. Radioterapia torácica radical para quem tem contraindicação médica à cirurgia — e, no estádio I sem condições clínicas para operar, irradiação ablativa estereotática (83,2 a 146 Gy) |
| II | Ressecção cirúrgica: pneumonectomia, lobectomia ou ressecção segmentar. Quimioterapia adjuvante após a cirurgia. Radioterapia torácica radical se há contraindicação. No tumor de Pancoast ou invasão de parede torácica: radioterapia com ou sem quimioterapia, seguida ou não de ressecção |
| IIIA | Ressecção cirúrgica nos T3N1M0: pneumonectomia, lobectomia ou ressecção segmentar. Radioterapia torácica radical associada à quimioterapia para invasão linfática N2 ou contraindicação cirúrgica. Radioterapia radical isolada se há contraindicação à quimiorradioterapia. Quimioterapia adjuvante após cirurgia. Mesmo caminho do Pancoast |
| IIIB, IV e doença recidivada | Radioterapia torácica com ou sem quimioterapia; quimioterapia paliativa; ressecção de metástase cerebral isolada, seguida ou não de radioterapia craniana; radioterapia externa, associada ou não à intersticial, para lesões endobrônquicas sintomáticas; radioterapia paliativa antiálgica ou hemostática |
| Pequenas células — doença localizada | Quimioterapia sistêmica associada à irradiação torácica, com ou sem irradiação craniana nos casos de resposta clínica completa no pulmão. Ressecção seguida de quimioterapia, ou de quimioterapia com irradiação torácica, apenas no estágio I |
| Pequenas células — doença extensa | Quimioterapia sistêmica, com ou sem irradiação craniana nos casos de resposta clínica completa no pulmão. Radioterapia paliativa torácica ou para metástases cerebrais, epidurais ou ósseas |
A grade de estádios abaixo tem uma armadilha de leitura antes de ter uma armadilha de conteúdo. Na publicação, o cabeçalho traz N0, N1, N2 e N3 numa linha e N2a e N2b numa segunda linha, sob o N2. Quem extrai o texto automaticamente recebe a sequência 'N0 N1 N2 N3 N2a N2b' e, lendo em ordem, joga o N3 para a terceira coluna — o que desloca a grade inteira em duas casas. A ordem real das colunas, conferida na página impressa, é N0, N1, N2a, N2b, N3, e ela é confirmada pelas próprias frases do artigo: T1N2a em IIB, T3N2a em IIIA, T2bN2b em IIIB.
O algoritmo funcional publicado tem duas fronteiras imperfeitas, e vale conhecê-las para não travar diante de um caso limítrofe. A primeira: os ramos 'ambos abaixo de 40%' e 'qualquer um entre 30% e 40%' se sobrepõem, e um doente com previsto pós-operatório de 20% em um parâmetro e 50% no outro não cai literalmente em nenhum dos três ramos impressos. A segunda: no teste de exercício, o valor de 20 mL/kg/min aparece ao mesmo tempo no ramo de 10 a 20 e no ramo de 20 ou mais. As duas se resolvem pela regra prática que os três ramos partilham: qualquer valor previsto pós-operatório abaixo de 40% manda para o teste de exercício, e é lá que a decisão é tomada.
O denominador da fórmula do previsto pós-operatório é o total de segmentos FUNCIONANTES, e o numerador conta só os segmentos PÉRVIOS a serem ressecados. Território já atelectasiado por tumor endobrônquico não contribui com ventilação — retirá-lo não custa volume expiratório. Usar dezenove segmentos nesses casos superestima a perda e nega cirurgia a quem a suportaria. Nessas situações, e em toda proposta de pneumonectomia, a cintilografia de perfusão é o método preferido: substitui a contagem anatômica pela fração de perfusão do pulmão a ser removido.
Dois limiares de tamanho de linfonodo convivem no mesmo caso e não são a mesma coisa. Eixo curto acima de 10 mm é o critério de imagem para chamar o linfonodo de aumentado. Dezesseis milímetros ou mais é o gatilho, escrito no documento brasileiro, para exigir mediastinoscopia cervical ou toracoscopia antes da toracotomia — justamente porque, em área endêmica de tuberculose, o PET-CT positivo não basta para condenar o mediastino.
A tabela de opções terapêuticas é de 2014 e usa a nomenclatura de estádios da sua época. Ela não conhece N2a nem N2b: fala em 'invasão linfática N2' em bloco, e reserva a ressecção do IIIA para a combinação T3N1M0. Ao classificar um caso pela nona edição e ao escolher a conduta que o SUS autoriza, o candidato está usando duas réguas de datas diferentes — e o enunciado escolhe qual delas quer testar pelo vocabulário que usa.
A escala de capacidade funcional aparece no documento com dois nomes para a mesma coisa, ECOG e Zubrod, e com cortes numéricos que valem decorar: primeira linha paliativa exige 0, 1 ou 2; segunda e terceira linhas exigem 0 ou 1; e a queda para 2, 3 ou 4 durante o tratamento é, por si só, critério de interrupção da quimioterapia.
Onde as fontes divergem
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.
Nona edição do TNM, em vigor desde 1º de janeiro de 2025
O componente T não sofreu alteração. O N2 foi subdividido em N2a, uma única estação mediastinal ipsilateral ou subcarinal, e N2b, múltiplas estações — porque no estadiamento patológico a doença multiestação demonstrou prognóstico pior. O M1c foi subdividido em M1c1, metástases confinadas a um sistema orgânico, e M1c2, metástases em múltiplos sistemas. A repartição do M não mexeu no agrupamento: M1c1 e M1c2 caem ambos em IVB. A repartição do N remexeu a grade, e a mudança de maior consequência é o T1N2a, que desceu para IIB — desde a segunda edição do TNM, todo N2 era estádio III. T1N1 também mudou, de IIB para IIA. Os próprios autores registram o limite do ganho: a sobrevida global entre os grupos da nona edição não diferiu significativamente da observada com os da oitava.
Kifjak D et al. Something old something new — introduction to the ninth edition TNM classification of lung cancer. Br J Radiol. 2025;98(1174):1543-1555, Tabelas 1 a 5
Diretrizes Diagnósticas e Terapêuticas do Ministério da Saúde, de 2014, que continuam sendo o documento vigente
O documento manda que a seleção do tratamento seja adequada ao estadiamento clínico pela classificação TNM, sem fixar edição, e a única referência de estadiamento na sua bibliografia é uma revisão do sistema TNM publicada em 2009. As opções terapêuticas por estágio clínico trabalham com estádios 0, I, II, IIIA, IIIB e IV, e o critério que separa o operável do não operável dentro do IIIA é escrito como 'ressecção cirúrgica (T3N1M0)' de um lado e 'invasão linfática N2' de outro — categoria única, sem distinção de número de estações. A causa da diferença é de data: são onze anos entre um texto e outro, e o texto de 2014 é o que regula autorização, registro e ressarcimento dos procedimentos no SUS.
Portaria SAS/MS nº 957, de 26 de setembro de 2014 — Diretrizes Diagnósticas e Terapêuticas do Carcinoma de Pulmão, itens 4 e 5.2.4
Na prova
O vocabulário do enunciado entrega o recorte antes de qualquer conta. Quando aparecem as palavras N2a, N2b, M1c1, M1c2, ou quando a questão descreve 'uma única estação mediastinal' contra 'múltiplas estações', o avaliador escreveu a partir da nona edição e quer o estádio novo — inclusive o T1N2a em IIB, que é a pegadinha desenhada para quem decorou que todo N2 é estádio III. Quando o enunciado diz apenas 'N2' sem qualificar, descreve autorização de procedimento, fala em SUS, em regulação, em quimioterapia adjuvante ou em quem o hospital habilitado pode operar, ele está no terreno do documento brasileiro, que raciocina por N2 em bloco e reserva a ressecção do IIIA ao T3N1M0. As alternativas denunciam: um distrator que oferece 'estádio IIIA' para um T1 com uma estação mediastinal foi construído sobre a oitava edição — e, dependendo da banca e da data da prova, ele pode ser o gabarito oficial.
Documento brasileiro: 16 mm ou mais à tomografia obriga abordagem cirúrgica do mediastino
O texto indica o PET-CT para o estadiamento clínico do carcinoma de células não pequenas potencialmente ressecável, reconhecendo maior sensibilidade que a tomografia para acometimento linfonodal mediastinal e hilar. Em seguida faz a ressalva que muda a conduta: o desempenho do exame é inferior para doentes em áreas endêmicas para tuberculose, pelo que, se há linfonodos mediastinais aumentados à tomografia, de 16 mm ou maior, faz-se necessária a abordagem cirúrgica complementar, por mediastinoscopia cervical ou toracoscopia, para minimizar a indicação de toracotomias desnecessárias. A causa da posição é epidemiológica, não metodológica: num país onde granuloma capta no PET, um mediastino positivo à imagem não autoriza, sozinho, negar a cirurgia nem indicá-la.
Portaria SAS/MS nº 957/2014 — Diretrizes Diagnósticas e Terapêuticas do Carcinoma de Pulmão, item 4 (Diagnóstico e estadiamento)
Critério radiológico internacional: eixo curto acima de 10 mm define o linfonodo aumentado
A capacidade da tomografia de detectar linfonodo patológico é declaradamente limitada e apoiada sobretudo em critério de tamanho — diâmetro de eixo curto acima de 10 mm. O PET-CT tem sensibilidade de 58% a 91% e especificidade de 76% a 90% para metástase linfonodal mediastinal, contra sensibilidade de 51% a 64% e especificidade de 74% a 86% da tomografia, mas produz falso-negativo em lesões de baixa atividade metabólica e falso-positivo em infecção e inflamação. A recomendação citada é de avaliação histopatológica do mediastino antes da cirurgia em todos os tumores de estádio II, e opcional nos tumores menores sem sinal de acometimento nodal na tomografia e no PET-CT. É uma régua de imagem e de indicação de biópsia, não um limiar de exigência de mediastinoscopia.
Kifjak D et al. Br J Radiol. 2025;98(1174):1543-1555, seção do componente N
Na prova
Este é o item que separa a prova escrita por banca nacional de política pública da prova escrita a partir de literatura importada. Enunciado que descreve área endêmica de tuberculose, sequela pulmonar, moradia rural, PET-CT positivo em doente com histórico infeccioso, ou que pergunta o que fazer antes de indicar toracotomia no SUS, está pedindo o gatilho de 16 mm e a mediastinoscopia. Enunciado que descreve laudo radiológico e pergunta se o linfonodo é suspeito, ou que usa vocabulário de estadiamento por imagem, está pedindo o eixo curto de 10 mm. Quando uma alternativa oferece 'prosseguir para a ressecção porque o PET-CT foi positivo apenas em linfonodo mediastinal', ela é o distrator construído para quem esqueceu a ressalva brasileira.
Documento brasileiro (2014): resultados oncológicos inferiores com cunha e segmentectomia
O texto registra que, no intraoperatório, o cirurgião optará pela ressecção em cunha, segmentectomia, lobectomia ou pneumonectomia com ressecção das cadeias linfáticas regionais, dependendo da extensão real do tumor e da necessidade de preservar função pulmonar. E então traz, no mesmo parágrafo, duas afirmações que puxam para lados diferentes: enquanto nos ensaios clínicos com doentes em estágio I o prognóstico após lobectomia ou uma ressecção menor parece ser similar, dados acumulados da prática clínica sugerem que os resultados oncológicos são inferiores com ressecções em cunha e segmentectomias. É a segunda frase que orienta a conduta do documento. A causa é de data: o texto é de 2014 e a evidência randomizada que trata do assunto foi publicada em 2022 e 2023.
Portaria SAS/MS nº 957/2014 — Diretrizes Diagnósticas e Terapêuticas do Carcinoma de Pulmão, item 5.2.1 (Cirurgia)
Ensaios randomizados de fase 3 publicados depois: a ressecção sublobar deixou de ser inferior nessa população
O ensaio japonês randomizou 1.106 doentes com estágio clínico IA, tumor de até 2 cm e relação consolidação-tumor acima de 0,5, para lobectomia (554) ou segmentectomia (552): com seguimento mediano de 7,3 anos, a sobrevida global em 5 anos foi de 94,3% com segmentectomia e 91,1% com lobectomia, com razão de risco de 0,663 (IC 95% 0,474-0,927), confirmando não inferioridade e também superioridade. O ensaio norte-americano randomizou 697 doentes com T1aN0 de até 2 cm periférico, para ressecção sublobar (340) ou lobar (357), depois de confirmação intraoperatória de doença nodal negativa: com seguimento mediano de 7 anos, a sobrevida livre de doença foi não inferior, com razão de risco de 1,01, e as sobrevidas livres de doença em 5 anos foram de 63,6% e 64,1%; as globais, de 80,3% e 78,9%. As duas populações são estreitas — periférico, pequeno e comprovadamente sem linfonodo — e é isso que impede generalizar o achado para o resto da doença.
Saji H et al. Lancet. 2022;399(10335):1607-1617 (JCOG0802/WJOG4607L); Altorki N et al. N Engl J Med. 2023;388(6):489-498 (CALGB/Alliance 140503)
Na prova
O detalhe do enunciado que decide é o tamanho junto com a topografia e o estado linfonodal. Quando a questão descreve tumor periférico de 2 cm ou menos, com linfonodos hilares e mediastinais negativos — e sobretudo quando menciona confirmação intraoperatória do estado nodal, ou relação consolidação-tumor —, ela foi escrita a partir dos ensaios randomizados e a resposta admite segmentectomia. Quando o enunciado descreve tumor maior, central, ou não diz nada sobre a avaliação linfonodal, e sobretudo quando pergunta o que o documento brasileiro preconiza, a resposta é lobectomia. Uma alternativa que oferece ressecção em cunha para um tumor de 3,5 cm está usando o vocabulário dos ensaios fora da população deles — e é distrator, não gabarito.
Caso resolvido
- tipo
- Adenocarcinoma — portanto carcinoma de células não pequenas, o grupo que responde por 85% dos casos e o único dos dois em que a cirurgia é a modalidade de maior potencial curativo. Se a histologia tivesse voltado pequenas células, o caso sairia agora do fluxo cirúrgico e seria classificado apenas em doença localizada ou extensa.
- T
- Lesão de 2,6 cm cercada por pulmão, sem invasão de estruturas: acima de 2 e até 3 cm é T1c. Nenhum dos critérios que promovem o T por invasão está presente — sem pleura parietal, sem parede torácica, sem pericárdio, sem nódulo separado em outro lobo.
- N — o passo que a nona edição mudou
- Uma única estação mediastinal ipsilateral, a paratraqueal direita, com captação no PET. Isso é N2a, não simplesmente N2. Pela grade da nona edição, T1c com N2a é estádio IIB. Na oitava edição, o mesmo caso seria IIIA. É a mudança de maior consequência prática da edição nova, e a alternativa 'IIIA' está no enunciado exatamente por isso.
- o que fazer antes de acreditar no PET
- O linfonodo tem 18 mm no eixo curto — acima do gatilho de 16 mm do documento brasileiro. A regra nacional é explícita: com linfonodo mediastinal de 16 mm ou mais à tomografia, faz-se necessária a abordagem cirúrgica complementar, por mediastinoscopia cervical ou toracoscopia, porque o desempenho do PET-CT é inferior em área endêmica para tuberculose e um granuloma capta. Confirmar o mediastino antes de decidir é o passo que evita tanto a toracotomia desnecessária quanto a condenação injusta de um doente ressecável.
- o resto do estadiamento
- Tomografia de tórax e de abdome superior com contraste já feitas. Cintilografia óssea não está indicada: ele é células não pequenas e não tem dor óssea. Imagem de crânio também não é de rotina no células não pequenas — só entraria com suspeita clínica de metástase no sistema nervoso central, que ele não tem. O PET-CT estava indicado porque se trata de células não pequenas potencialmente ressecável.
- operabilidade — a conta que o enunciado pediu sem dizer
- Volume expiratório de 62% e difusão de 58% do previsto: ambos abaixo de 80%, então é obrigatório calcular o previsto pós-operatório. Para lobectomia superior direita, que retira 3 dos 19 segmentos, o volume previsto é 62 × 16 ÷ 19 = 52,2%, e a difusão prevista é 58 × 16 ÷ 19 = 48,8% — os dois acima de 40%, risco baixo. Para pneumonectomia direita, que retira 10 segmentos, o volume previsto cai para 62 × 9 ÷ 19 = 29,4% e a difusão para 27,5%: abaixo de 40%, o que obrigaria teste de exercício cardiopulmonar antes de qualquer decisão. Ele está liberado para lobectomia, e não está liberado para pneumonectomia sem teste adicional — e é isso que precisa constar do parecer, porque a extensão pode mudar na mesa.
- desfecho
- Mediastinoscopia cervical: linfonodo paratraqueal direito com metástase de adenocarcinoma, estação única, demais estações negativas. Confirmado T1c N2a M0. Pela régua terapêutica do documento brasileiro, invasão linfática N2 é indicação de radioterapia torácica radical associada à quimioterapia, e não de ressecção — mesmo que a nona edição hoje classifique o caso como IIB. O caso foi levado a discussão multidisciplinar, que é o que o próprio texto do estadiamento recomenda para os casos ambíguos. Encaminhado ao programa de cessação, com apoio comportamental e farmacoterápico.
Agora feche você
- estádio
- Carcinoma epidermoide, portanto células não pequenas. Nódulo de 1,8 cm cercado por pulmão, sem invasão: T1b. Sem acometimento linfonodal na tomografia e no PET, com o maior linfonodo mediastinal em 7 mm — abaixo tanto do critério de imagem de 10 mm quanto do gatilho brasileiro de 16 mm que obrigaria mediastinoscopia: N0. Sem metástase: M0. T1bN0M0 é estádio IA2.
- conduta
- …
Onde a banca derruba
- 1Estadiar antes de tipar O enunciado entrega tamanho, linfonodos e metástases, e o reflexo é montar o TNM. Mas se a histologia for carcinoma de pequenas células, o TNM deixa de escolher tratamento: a doença passa a ser classificada em localizada ou extensa, e a cirurgia sai do cardápio, porque o comportamento biológico é de metástase precoce. Um enunciado que descreve massa central volumosa, adenopatia mediastinal e histologia de pequenas células, e oferece lobectomia entre as alternativas, está testando exatamente isso.
- 2Achar que todo N2 é estádio III Foi verdade desde a segunda edição do TNM e deixou de ser em 1º de janeiro de 2025. Com a repartição do N2 em N2a e N2b, o T1 com uma única estação mediastinal comprometida passou a ser estádio IIB. Se a estação for mais de uma, aí sim é IIIA. A pergunta que o enunciado esconde é quantas estações, não se há mediastino comprometido — e a contagem é de estações, nunca de linfonodos.
- 3Contar linfonodos em vez de estações A nona edição escolheu a estação como unidade justamente porque linfonodos metastáticos não podem ser contados com precisão na imagem. Três linfonodos acometidos dentro da mesma estação subcarinal são N2a. Um linfonodo em cada uma de duas estações são N2b. Quem soma linfonodos inverte a classificação e, no caso de um T1, troca IIB por IIIA.
- 4Ler o M1c1 como um órgão em vez de um sistema A subdivisão nova fala em sistema orgânico, não em órgão. Metástases em vários ossos — que são órgãos distintos — ficam em M1c1, porque o esqueleto é um sistema difuso e conta como um só. Metástases em ossos E adrenais são M1c2. O mesmo vale para órgãos pares: metástases nos dois rins são M1c1. Não que isso mude o estádio, que é IVB nos dois casos, mas muda o descritor que o enunciado pede.
- 5Pedir PET-CT para tudo, ou aceitar o PET como veredicto no Brasil A indicação declarada no documento brasileiro é estreita: estadiamento clínico do carcinoma de células não pequenas POTENCIALMENTE RESSECÁVEL. Fora dela o exame não acrescenta. E dentro dela ele tem uma ressalva escrita: desempenho inferior em áreas endêmicas para tuberculose. Por isso, linfonodo mediastinal de 16 mm ou mais à tomografia exige mediastinoscopia cervical ou toracoscopia antes da toracotomia — mesmo com o PET positivo. Também não serve para procurar metástase cerebral: nesse território a sensibilidade é de 21%, contra 77% da ressonância com contraste.
- 6Aprovar o doente só para a cirurgia que foi planejada O risco funcional deve ser avaliado para PNEUMONECTOMIA em todo candidato a toracotomia com ressecção, ainda que a proposta seja uma lobectomia. O motivo está escrito: o estadiamento final às vezes só se completa no intraoperatório, e pode surgir complicação que obrigue a estender a ressecção. Um doente com previsto pós-operatório confortável para lobectomia e proibitivo para pneumonectomia não está liberado — está liberado condicionalmente, e isso precisa constar da decisão.
- 7Medir só a espirometria Mais de 40% dos doentes com volume expiratório forçado acima de 80% do previsto podem ter difusão abaixo de 80%, e a difusão abaixo de 60% do previsto já é preditor independente de complicações, morbidade e mortalidade pós-operatória. Espirometria normal com difusão não medida é avaliação incompleta, e é o cenário do enfisematoso que passa na espirometria e descompensa depois da lobectomia.
- 8Chamar de paliativa a radioterapia do estádio I inoperável Doente com tumor pequeno e função pulmonar proibitiva não sai do campo curativo: a irradiação ablativa estereotática, de 83,2 Gy a 146 Gy, é a modalidade indicada para o estádio I sem condições clínicas para cirurgia. Confundir isso com radioterapia paliativa faz o candidato marcar 'cuidados paliativos exclusivos' num caso que ainda tem intenção de cura — e é distrator frequente justamente porque a espirometria ruim sugere fim de linha.
Em tabagista com tosse, hemoptise e emagrecimento, a suspeita de câncer de pulmão exige tomografia de tórax como próximo passo para caracterizar a lesão e o mediastino (correta). Radiografia de seios da face não avalia pulmão. USG de abdome não é o exame inicial da lesão pulmonar. RM de crânio e cintilografia óssea servem para estadiamento de metástases após confirmação, não como investigação inicial da lesão primária.
Recuperação
Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.
Homem de 66 anos, tabagista de 40 maços-ano, procura atendimento por tosse persistente há 3 meses e perda de 6 kg. Nega febre. Radiografia de tórax evidencia massa espiculada de 4 cm no lobo superior direito. Qual é o fator de risco mais fortemente associado ao câncer de pulmão nesse paciente?
O tabagismo é, de longe, o principal fator de risco para câncer de pulmão, responsável pela maioria dos casos, com relação dose-resposta pela carga tabágica (maços-ano). Sílica e outras exposições ocupacionais elevam o risco, mas com magnitude muito menor. Refluxo não é fator estabelecido. Tuberculose prévia tem associação fraca (cicatriz). Asma/atopia familiar não é fator de risco relevante para câncer de pulmão.
Homem de 70 anos, ex-tabagista, com adenocarcinoma de pulmão em lobo superior esquerdo. Estadiamento: tumor de 3,5 cm sem invasão de estruturas adjacentes, sem linfonodos mediastinais acometidos e sem metástases à distância. A avaliação funcional mostra VEF1 previsto pós-operatório de 45% e capacidade de difusão (DLCO) previsto pós-operatório de 42%, com boa tolerância ao teste de caminhada. Qual é a conduta cirúrgica MAIS adequada?
Trata-se de tumor em estádio inicial (T2aN0M0) e a reserva pulmonar prevista pós-operatória (VEF1 e DLCO previstos > 40%) é aceitável para ressecção anatômica — a lobectomia com linfadenectomia é o tratamento padrão-ouro e curativo. Contraindicar toda ressecção é errado, pois o paciente tem função suficiente. Pneumonectomia é excessiva/mais arriscada para um tumor lobar ressecável por lobectomia e reduz mais a reserva. SBRT é reservada a inoperáveis, o que não é o caso. Ressecção em cunha isolada é inferior à lobectomia para tumor ressecável com boa reserva.
Homem de 58 anos, tabagista (30 maços-ano), comparece à Unidade Básica de Saúde para consulta de rotina. Está assintomático, com PA 132x84 mmHg. Nega sintomas respiratórios. Sobre o rastreamento de câncer de pulmão nesse paciente, qual é a conduta recomendada segundo as recomendações atuais de rastreamento em indivíduos de alto risco?
Correta (TC de baixa dose anual): o rastreamento de câncer de pulmão é indicado em adultos de 50-80 anos com história de tabagismo ≥20 maços-ano (fumantes atuais ou que cessaram há <15 anos) por meio de TC de tórax de baixa dose anual, com redução de mortalidade demonstrada. A radiografia de tórax e a citologia de escarro não reduzem mortalidade e não são recomendadas. Marcadores tumorais não têm papel em rastreamento. A ausência de sintomas é justamente a premissa do rastreamento, não contraindicação.
Homem de 58 anos, tabagista (40 maços-ano), comparece à Unidade Básica de Saúde para consulta de rotina. Está assintomático, sem tosse, dispneia ou perda ponderal. Nega exposições ocupacionais. Deseja saber se deve realizar algum exame para rastreamento de câncer de pulmão. PA 132x84 mmHg, IMC 27 kg/m². Segundo as recomendações atuais de rastreamento baseadas em evidência (USPSTF 2021), qual é a conduta correta quanto ao rastreamento de câncer de pulmão neste paciente?
Correta: o paciente tem 58 anos (faixa 50-80), carga tabágica de 40 maços-ano (≥20) e é tabagista atual — preenche os critérios da USPSTF 2021 para TC de tórax de baixa dose anual, único método com redução de mortalidade comprovada. Radiografia de tórax NÃO reduz mortalidade e foi abandonada como rastreamento (estudo PLCO). O rastreamento é justamente para assintomáticos — sintoma configura investigação diagnóstica, não rastreamento. Marcadores tumorais séricos não têm papel em rastreamento (baixa sensibilidade/especificidade). Broncoscopia é invasiva e não é método de rastreamento populacional.
Um homem de 66 anos, tabagista de 40 maços-ano, procura a UBS por tosse persistente há três meses, agora com raias de sangue no escarro, além de perda de 6 kg no período e dor torácica em base direita. Nega febre. Ao exame: emagrecido, murmúrio vesicular diminuído em base direita, baqueteamento digital. Radiografia de tórax mostra massa espiculada de 4 cm no lobo superior direito e alargamento hilar ipsilateral. Diante da suspeita de neoplasia pulmonar, o exame mais adequado para confirmação diagnóstica (definição histológica) é:
A confirmação diagnóstica de câncer de pulmão exige comprovação histopatológica por biópsia da lesão (broncoscopia para lesões centrais ou punção transtorácica guiada para periféricas). Marcadores tumorais séricos não fazem diagnóstico nem substituem a histologia. A citologia de escarro tem baixa sensibilidade e, isolada, não confirma nem descarta neoplasia. A tomografia caracteriza e estadia a lesão, mas imagem não define histologia — nenhum tratamento oncológico é iniciado sem diagnóstico tecidual.
Homem de 63 anos, tabagista de 40 anos-maço, procura a UBS por tosse persistente há 3 meses, com dois episódios de escarro raiado de sangue na última semana. Refere perda de 6 kg no período e dor torácica surda à direita. Nega febre. Ao exame: emagrecido, murmúrio vesicular diminuído em base direita, baqueteamento digital. Radiografia de tórax mostra massa espiculada de 4 cm no lobo superior direito, com alargamento hilar ipsilateral. Hemograma sem alterações; baciloscopia de escarro negativa em três amostras. Considerando a principal hipótese, qual é a conduta mais apropriada para confirmação diagnóstica?
Tabagista pesado com massa pulmonar espiculada, hemoptise, emagrecimento, baqueteamento e alargamento hilar tem câncer de pulmão como principal hipótese; o diagnóstico exige confirmação histológica por biópsia (broncoscopia para lesões centrais ou punção transtorácica guiada para periféricas), que também orienta estadiamento e tratamento. Tratar tuberculose empiricamente é inadequado — baciloscopias negativas e apresentação típica de neoplasia; o atraso é deletério. Marcadores tumorais não fazem diagnóstico de câncer de pulmão nem substituem a histologia. Antibiótico para pneumonia não se aplica a uma massa espiculada crônica e apenas retardaria a investigação.
Mulher, 62 anos, nunca fumou, apresenta tosse seca há 2 meses. Tomografia de tórax revela massa espiculada de 3,5 cm no lobo superior esquerdo, sem linfonodomegalia mediastinal, com PET-TC mostrando captação apenas na lesão primária, sem metástases à distância. Biópsia transtorácica confirma adenocarcinoma. O estadiamento é cT2aN0M0 (estádio IB). A paciente tem bom performance status e função pulmonar preservada. A pesquisa molecular no material da biópsia revela mutação no EGFR (deleção do éxon 19). Qual é a conduta terapêutica de primeira linha mais adequada?
Correta: Doença localizada e operável (estádio IB, cT2aN0M0) com bom performance status e reserva pulmonar adequada tem como tratamento de intenção curativa a ressecção anatômica (lobectomia) com linfadenectomia/amostragem mediastinal. A presença de mutação EGFR é relevante para o tratamento adjuvante (osimertinibe adjuvante após a cirurgia) e para a doença avançada, mas NÃO substitui a cirurgia no estádio inicial operável. Errada: quimioterapia paliativa é para doença metastática irressecável, não para estádio I curável. Errada: SBRT é reservada a pacientes inoperáveis por comorbidade/recusa cirúrgica ou alto risco cirúrgico, o que não é o caso. Errada: TKI de EGFR isolado é tratamento da doença avançada/metastática ou adjuvante pós-cirurgia; não é o tratamento definitivo de um tumor ressecável em paciente operável. Errada: imunoterapia isolada não é o tratamento definitivo de doença localizada ressecável, e tumores EGFR-mutados respondem mal à imunoterapia.
Homem, 68 anos, tabagista de longa data (50 maços-ano), inicia investigação por tosse persistente. TC de tórax evidencia nódulo espiculado de 2,4 cm no lobo superior direito, sem linfonodomegalia mediastinal ou hilar e sem derrame pleural. Biópsia transtorácica confirma adenocarcinoma de pulmão. PET-TC não mostra captação em mediastino nem sítios a distância, e a RM de crânio é normal. De acordo com a classificação TNM (8ª edição), qual é o estadiamento clínico deste tumor?
Correta: Na 8ª edição do TNM, tumor >2 cm e ≤3 cm é T1c; sem acometimento linfonodal (N0) e sem metástase (M0), compõe o estádio IA3. Um nódulo de 2,4 cm sem linfonodo ou metástase enquadra-se exatamente aí. T2a/IB exige tumor >3 e ≤4 cm — o nódulo tem 2,4 cm, subestimando a categoria T. T1b N1/IIB inventa acometimento linfonodal hilar (N1), inexistente no PET-TC. T2b/IIA corresponde a tumor >4 e ≤5 cm, tamanho muito acima do descrito. T3/IIB requer tumor >5 e ≤7 cm ou invasão de estruturas específicas, também incompatível com 2,4 cm.
Mulher, 62 anos, ex-tabagista, com adenocarcinoma de pulmão em lobo superior esquerdo de 3,5 cm. A TC de tórax mostra aumento de linfonodos na janela aortopulmonar (estação 5) e subcarinais (estação 7). O PET-TC confirma captação nesses linfonodos mediastinais ipsilaterais, sem captação em mediastino contralateral, sem derrame e sem metástases a distância. A RM de crânio é normal. Qual é a conduta mais apropriada para confirmar o comprometimento mediastinal e definir o estadiamento nodal antes de decidir o tratamento?
Correta: Linfonodos mediastinais captantes ou aumentados no PET-TC/TC precisam de CONFIRMAÇÃO HISTOLÓGICA (invasão mínima por EBUS/EUS, ou mediastinoscopia se negativa), pois o PET tem taxa relevante de falso-positivo (inflamação/granuloma) e o achado de N2 muda radicalmente a conduta. Erra ao tratar o PET como prova definitiva e ir direto à cirurgia — doença N2 não confirmada não deve ser operada de imediato. Iniciar quimiorradioterapia sem histologia compromete o paciente a tratamento definitivo baseado apenas em imagem, sem tecido, contrariando a necessidade de estadiamento invasivo. Repetir o PET-TC adia a definição sem justificativa e atrasa o tratamento de um câncer potencialmente curável. E marcadores séricos não estadiam linfonodo nem substituem confirmação tecidual.
Homem, 59 anos, tabagista, com carcinoma de células escamosas do pulmão. A TC e o PET-TC mostram um tumor primário de 4 cm no lobo inferior direito com um nódulo tumoral SEPARADO, satélite, no lobo MÉDIO ipsilateral (mesmo pulmão, lobo diferente). Não há linfonodomegalia mediastinal captante, não há derrame pleural e a investigação a distância (incluindo RM de crânio) é negativa. O EBUS de estações mediastinais foi negativo. Considerando a 8ª edição do TNM, como se classifica o descritor T e qual o estádio clínico deste caso?
Correta: Na 8ª edição, nódulo(s) tumoral(is) separado(s) em lobo IPSILATERAL DIFERENTE do tumor primário é descritor T4 (o nódulo no mesmo lobo seria T3; em lobo contralateral seria M1a). Com N0 e M0, T4 N0 M0 corresponde ao estádio IIIA. T3 aplica-se a nódulo satélite no MESMO lobo do primário — aqui o satélite está em lobo distinto, elevando para T4. M1a exigiria nódulo em pulmão CONTRALATERAL ou disseminação pleural/pericárdica — o satélite é ipsilateral, não configura M1a. A classificação T2b N1 introduz um linfonodo hilar inexistente, já que o EBUS e o PET mediastinais foram negativos, e classifica o T incorretamente por tamanho. A classificação T4 N2 acrescenta um mediastino comprometido que foi ativamente descartado pelo EBUS negativo.
Mulher, 55 anos, nunca tabagista, sem comorbidades, apresenta em tomografia um nódulo pulmonar periférico de 1,8 cm no lobo inferior esquerdo, que se confirma como carcinoma de pulmão de células não pequenas na investigação. Qual é o tipo histológico mais provável nesse contexto?
Correta: o adenocarcinoma é o subtipo histológico mais frequente de câncer de pulmão em geral e, de forma marcante, o mais comum em não fumantes e em mulheres; classicamente tem localização periférica, exatamente como descrito. Carcinoma de pequenas células é fortemente associado ao tabagismo, tem localização central e crescimento rápido — não é o perfil. O epidermoide também se associa ao tabagismo e costuma ser central/cavitário. O carcinoma de grandes células é raro e indiferenciado. O carcinoide típico é neuroendócrino de baixo grau, incomum e não é o tipo mais provável de uma lesão maligna periférica em não tabagista.
Homem, 60 anos, tabagista de longa data, procura atendimento por dor progressiva no ombro direito irradiada para a face medial do braço e da mão, com fraqueza da mão, há 3 meses. Ao exame, apresenta ptose e miose à direita, além de anidrose da hemiface direita. A tomografia de tórax mostra massa no ápice do pulmão direito com invasão de partes moles adjacentes. Qual é a hipótese diagnóstica mais provável?
Correta: a combinação de dor no ombro/braço (invasão do plexo braquial, raízes C8-T1), síndrome de Horner ipsilateral (ptose, miose e anidrose por acometimento da cadeia simpática/gânglio estrelado) e massa no ápice pulmonar define o tumor de Pancoast (sulco superior). A síndrome de veia cava superior cursa com edema de face/pescoço, turgência jugular e circulação colateral, não com Horner. Eaton-Lambert é síndrome paraneoplásica de fraqueza proximal que melhora com esforço, sem Horner nem massa apical explicando a dor local. O mesotelioma origina-se da pleura, associa-se a asbesto e causa derrame/dor pleurítica difusa, não síndrome apical com Horner. A compressão medular daria déficit sensitivo-motor em nível, nível sensitivo e disfunção esfincteriana, não a combinação apical com Horner.
Homem, 66 anos, ex-tabagista (40 anos-maço), assintomático. TC de tórax mostra nódulo espiculado de 2,8 cm no lobo superior direito. PET-TC: captação intensa no nódulo (SUV 9,2) e captação em linfonodo subcarinal, estação 7 (SUV 5,1), sem captação a distância. RM de crânio sem lesões. A biópsia transtorácica do nódulo confirmou adenocarcinoma (carcinoma de pulmão de não-pequenas células). Qual o próximo passo no manejo?
A captação mediastinal no PET (estação 7) levanta suspeita de doença N2, mas o PET tem taxa relevante de falso-positivo no mediastino (inflamação/antracose). Antes de qualquer decisão terapêutica, é mandatório confirmar histologicamente o linfonodo por EBUS-TBNA (preferencial) ou mediastinoscopia — a presença de N2 muda radicalmente a estratégia (multimodal x cirúrgica). Ir direto à cirurgia ignora a possível N2 e pode operar um paciente que se beneficiaria de terapia de indução ou tratamento não-cirúrgico. SBRT destina-se a estágio inicial (cT1-2 N0) inoperável, não a caso com suspeita de N2. Quimiorradioterapia definitiva assume N2 sem prova tecidual, podendo subtratar um N0/N1 verdadeiro. Postergar 3 meses atrasa o tratamento de lesão já comprovadamente maligna e suspeita de acometimento nodal.
Homem, 59 anos, tabagista (30 anos-maço), com dor no ombro direito irradiando para a face medial do braço e fraqueza da musculatura intrínseca da mão direita há 2 meses. TC de tórax: massa de 3,5 cm no ápice pulmonar direito (sulco superior) invadindo a pleura parietal e a primeira costela, sem invasão de corpo vertebral nem dos vasos subclávios. RM confirma ausência de invasão do plexo braquial acima de T1 e de forame neural. PET-TC e RM de crânio sem linfonodomegalia mediastinal e sem metástases a distância. Biópsia: carcinoma de não-pequenas células. Estadiamento clínico: T3 N0 M0. Qual a conduta mais adequada?
Trata-se de tumor de sulco superior (Pancoast) T3N0M0 ressecável — invade pleura parietal e costela, mas poupa corpo vertebral e vasos subclávios (que o tornariam T4/irressecável). O padrão para Pancoast ressecável é terapia de indução com quimiorradioterapia concomitante seguida de ressecção en bloc, que melhora a taxa de ressecção completa (R0) e a sobrevida. A cirurgia primária isolada tem piores taxas de R0 nesse subgrupo — a indução vem antes. Quimiorradioterapia definitiva sem cirurgia subtrata um tumor potencialmente curável por ressecção. Radioterapia paliativa isolada abandona a intenção curativa em doença localizada. Invasão de parede torácica/costela é T3, plenamente compatível com ressecção — não contraindica o tratamento curativo.
Mulher, 63 anos, tabagista, com tosse seca há 3 meses. TC de tórax: massa de 4 cm no lobo superior esquerdo e linfonodo aumentado (1,8 cm) na cadeia paratraqueal inferior direita (estação 4R). EBUS-TBNA da estação 4R: positivo para carcinoma de não-pequenas células. PET-TC sem captação a distância; RM de crânio normal. Com base no estadiamento, qual a classificação e a conduta corretas?
O tumor está à esquerda e o linfonodo comprometido (4R) é mediastinal CONTRALATERAL — isso define N3 (estágio IIIB), doença localmente avançada irressecável. A conduta padrão é quimiorradioterapia concomitante definitiva, seguida de consolidação com imunoterapia (durvalumabe) nos que não progridem. N2 seria acometimento mediastinal IPSILATERAL (à esquerda); 4R contralateral não é N2. A ressecção primária está contraindicada em N3. Neoadjuvância seguida de cirurgia é estratégia discutida em N2 selecionado, não em N3. Linfonodo mediastinal contralateral é N3, não metástase a distância (M1) — a doença ainda é tratada com intenção curativa, e não apenas paliativa.
Homem, 62 anos, tabagista de 40 maços-ano, com dor no ombro direito irradiando para a face medial do braço e da mão há 3 meses. Ao exame, apresenta ptose palpebral, miose e anidrose na hemiface direita. A tomografia de tórax mostra massa no ápice pulmonar direito invadindo o sulco superior e a primeira costela. Qual o diagnóstico mais provável?
O quadro é típico de tumor de Pancoast (tumor do sulco superior): massa apical que invade estruturas do desfiladeiro torácico, causando dor no ombro/braço (plexo braquial C8-T1) e comprometimento da cadeia simpática cervical, gerando a síndrome de Horner (ptose + miose + anidrose) — resposta. A síndrome da veia cava superior cursa com edema de face/pescoço, turgência jugular e circulação colateral, ausentes aqui. Eaton-Lambert é fraqueza muscular proximal por autoanticorpos, não explica Horner nem a massa apical. Mesotelioma acomete a pleura de forma difusa, associado a asbesto, sem esse padrão apical com Horner. SIADH é síndrome paraneoplásica laboratorial (hiponatremia), não corresponde à apresentação clínica descrita.
Homem, 66 anos, tabagista, com tosse crônica e perda de 8 kg em 3 meses. Procura atendimento por confusão mental, constipação e poliúria. Exames: cálcio total 13,8 mg/dL (VR 8,5–10,5), fósforo 2,1 mg/dL (VR 2,5–4,5), PTH 8 pg/mL (VR 15–65) e PTHrP elevado. Tomografia de tórax evidencia massa central cavitada no lobo superior esquerdo. Qual é o tipo histológico de câncer de pulmão mais provável?
A hipercalcemia com PTH suprimido e PTHrP elevado caracteriza hipercalcemia humoral paraneoplásica, cuja associação clássica é o carcinoma epidermoide (escamoso) — resposta. Reforçam o diagnóstico a localização central e o padrão cavitado da massa, típicos desse subtipo. O carcinoma de pequenas células associa-se a SIADH e síndrome de Cushing (ACTH ectópico), não à hipercalcemia por PTHrP. O adenocarcinoma costuma ser periférico e não é a causa habitual dessa síndrome. O carcinoma de grandes células é menos frequente e não tem essa associação característica. O carcinoide típico é indolente e classicamente ligado à síndrome carcinoide, não à hipercalcemia por PTHrP.
Homem, 68 anos, tabagista (50 maços-ano), com tosse e emagrecimento há 2 meses. TC de tórax revela massa de 4 cm no lobo superior direito, sem linfonodos mediastinais aumentados e sem metástases a distância. A broncoscopia com biópsia confirma adenocarcinoma de pulmão. Ao exame, nota-se derrame pleural ipsilateral moderado; a toracocentese com citologia do líquido é POSITIVA para células malignas. Qual é a conduta indicada?
Correta: o derrame pleural com citologia POSITIVA para malignidade caracteriza doença M1a (estádio IVA) no NSCLC — trata-se de doença disseminada, irressecável, cujo pilar é o tratamento sistêmico. Lobectomia estaria indicada em doença localizada (I/II), mas M1a a contraindica. Pneumonectomia é conduta cirúrgica ainda mais agressiva, igualmente contraindicada na doença M1a. Radioterapia torácica isolada com intenção curativa não controla doença sistêmica e não é o padrão no estádio IV. Segmentectomia é ressecção sublobar para tumores iniciais em pacientes selecionados, sem qualquer papel em M1a.
Homem de 68 anos, ex-tabagista, com adenocarcinoma de pulmão confirmado por punção transtorácica. A tomografia de tórax mostra lesão sólida de 2,4 cm no lobo superior direito, sem invasão de estruturas adjacentes, e captação no PET-CT restrita ao tumor e a uma única estação linfonodal mediastinal ipsilateral (paratraqueal direita). Não há derrame pleural, nódulos em outros lobos nem metástases extratorácicas. Considerando a nona edição da classificação TNM do câncer de pulmão, em vigor desde 1º de janeiro de 2025, qual é o estadiamento e o estádio deste caso?
Lesão de 2,4 cm cercada por pulmão, sem invasão: acima de 2 e até 3 cm é T1c. Uma ÚNICA estação mediastinal ipsilateral é o subdescritor novo N2a. Pela grade da nona edição, T1 com N2a é estádio IIB — essa é justamente a mudança de maior consequência da edição, porque desde a segunda edição do TNM qualquer N2 era estádio III. A alternativa 'T1c N2 M0 — estádio IIIA' é a resposta da oitava edição: o descritor N2 sem qualificar deixou de existir isolado, e o estádio mudou. 'T2a N2a M0' erra o T: T2a começa acima de 3 cm, ou exige invasão de pleura visceral, de lobo adjacente ou acometimento de brônquio principal, nada disso descrito. 'T1c N2b M0 — estádio IIIA' erra o N: N2b exige múltiplas estações mediastinais, e o enunciado diz explicitamente estação única — embora o estádio ofertado esteja correto PARA N2b, o que faz dessa a alternativa mais perigosa. 'T1b N2a M0' erra a faixa de tamanho: T1b vai de mais de 1 até 2 cm, e a lesão tem 2,4 cm.
Mulher de 66 anos com adenocarcinoma de pulmão. O estadiamento identifica múltiplas metástases ósseas em coluna torácica, bacia e fêmur direito, sem metástases em outros sistemas orgânicos, além do tumor primário de 4 cm no lobo superior esquerdo e de um linfonodo hilar ipsilateral comprometido. Pela nona edição do TNM, qual é a classificação do componente M e o estádio resultante?
M1c reúne as metástases extratorácicas múltiplas, e a nona edição o dividiu em M1c1, metástases confinadas a UM sistema orgânico, e M1c2, metástases em múltiplos sistemas. A distinção é por sistema, não por órgão: um sistema difuso como o esqueleto conta como um só, de modo que metástases limitadas a vários ossos são M1c1. A alternativa que classifica como M1c2 por haver três ossos diferentes comete exatamente o erro que a definição existe para evitar, contando ossos em vez de sistemas. A que oferece M1b confunde a metástase extratorácica ÚNICA com doença multifocal. A que junta M1c1 com estádio IVA acerta o descritor e erra o estádio: apesar de o prognóstico do M1c1 ser melhor que o do M1c2, a subdivisão do M não alterou o agrupamento — M1c1 e M1c2 caem ambos em IVB, e é o M1a e o M1b que ficam em IVA. A que oferece M1a confunde a disseminação intratorácica (derrame ou nódulos pleurais ou pericárdicos malignos, ou nódulo em lobo contralateral) com ausência de doença visceral.
Homem de 70 anos com carcinoma de células não pequenas de 2 cm no lobo inferior direito, sem acometimento linfonodal, é avaliado para lobectomia. VEF1 é 60% e DLCO 55% do previsto. Serão retirados 5 dos 19 segmentos pulmonares, todos funcionantes. Pelo algoritmo funcional ACCP de 2013, quais são os valores previstos no pós-operatório e o próximo passo?
Multiplica-se cada valor pré-operatório por 14/19: VEF1 = 44,2% e DLCO = 40,5%. No algoritmo citado, valores entre 30% e 60% exigem avaliação de exercício, inicialmente por teste de escadas ou caminhada incremental; desempenho inadequado leva ao teste cardiopulmonar. Os números não estabelecem isoladamente baixo risco nem contraindicam automaticamente a ressecção. A decisão integra avaliação cardiovascular, capacidade de exercício e contexto oncológico.
Mulher de 62 anos com carcinoma epidermoide de pulmão em lobo superior esquerdo, de 3 cm, sem invasão de estruturas. A tomografia de tórax mostra linfonodo subcarinal de 19 mm no eixo curto, e o PET-CT mostra captação nesse linfonodo. Ela reside em município com alta incidência de tuberculose e tem calcificações residuais no lobo superior direito. Segundo as Diretrizes Diagnósticas e Terapêuticas do Câncer de Pulmão do Ministério da Saúde, qual é a conduta antes de definir o tratamento?
O documento brasileiro é explícito: como o desempenho do PET-CT é inferior em doentes de áreas endêmicas para tuberculose, se há linfonodos mediastinais aumentados à tomografia, de 16 mm ou maior, faz-se necessária a abordagem cirúrgica complementar por mediastinoscopia cervical ou toracoscopia, para minimizar a indicação de toracotomias desnecessárias. O linfonodo tem 19 mm. Indicar radioquimioterapia por causa do PET positivo é o erro que a ressalva existe para evitar: doença granulomatosa ativa capta, e condenar o mediastino sem tecido tira do doente uma cirurgia potencialmente curativa. Ir direto para a toracotomia comete o erro oposto, expondo a uma cirurgia possivelmente inútil se o mediastino for mesmo positivo. Repetir o PET em três meses não é conduta prevista e atrasa um tratamento oncológico com prazo legal. A ressonância de tórax não é o método indicado para estadiamento linfonodal mediastinal — seu papel no câncer de pulmão é avaliar plexo braquial e vasos no tumor do sulco superior, e avaliar metástase cerebral, onde supera o PET-CT.
Homem de 74 anos com carcinoma de células não pequenas de 2,2 cm no lobo superior esquerdo, estádio IA3, sem acometimento linfonodal na tomografia e no PET-CT. Portador de doença pulmonar obstrutiva crônica grave: volume expiratório forçado no primeiro segundo de 34% do previsto e difusão de 30% do previsto. O teste de exercício cardiopulmonar mostra consumo máximo de oxigênio de 9 mL/kg/min. Qual é a conduta com maior potencial curativo disponível para este doente, segundo as Diretrizes do Ministério da Saúde?
Para CPCNP estádio I em paciente sem condições clínicas para cirurgia, a DDT do Ministério da Saúde admite irradiação ablativa estereotática com intenção curativa. O intervalo de 83,2 a 146 Gy citado no documento deriva da meta-análise referenciada sobre dose biologicamente efetiva (BED10); não representa uma prescrição física única, pois a dose física total depende do número e do tamanho das frações e da localização tumoral. Por exemplo, estudos prospectivos utilizaram esquemas como 54 Gy em três frações, cuja BED10 é muito maior que a dose física somada. Cuidados paliativos ou quimioterapia paliativa não substituem a opção local potencialmente curativa neste estádio. Fonte: Ministério da Saúde, DDT de Câncer de Pulmão; Zhang et al., PMID 21377293; RTOG 0618, PMID 29852037.
Mulher de 58 anos com carcinoma de células não pequenas de 4,5 cm no lobo inferior direito. A tomografia mostra um segundo nódulo tumoral de 1 cm no lobo superior direito, com as mesmas características radiológicas, e um terceiro nódulo de 8 mm no lobo inferior esquerdo. Não há acometimento linfonodal nem outras lesões. Considerando que os três nódulos representam a mesma neoplasia, como se classificam os componentes T e M pela nona edição do TNM?
As regras de nódulo tumoral separado são três e valem decorar em bloco: no MESMO lobo do primário é T3; em lobo IPSILATERAL DIFERENTE é T4; em lobo CONTRALATERAL sai do T e vira M1a. Aqui há um nódulo no lobo superior direito, ipsilateral e diferente do lobo do primário, o que fixa T4, e um nódulo no lobo inferior esquerdo, contralateral, o que fixa M1a. A alternativa que oferece T3 com M1b troca as duas primeiras regras (T3 é o do MESMO lobo) e confunde M1b, que é a metástase EXTRATORÁCICA única, com nódulo pulmonar contralateral. A que oferece T2b com M1c1 classifica só pelo tamanho, ignorando que os nódulos separados promovem o T, e usa uma categoria que exige metástases extratorácicas múltiplas. A que oferece T4 com M0 acerta o T e erra ao supor que doença intratorácica é sempre M0 — a categoria M1a existe justamente para a disseminação intratorácica. A que fala em tamanho somado dos três nódulos inventa uma operação que o TNM não faz em caso algum: o T é definido pela maior dimensão de uma única lesão.
Homem de 59 anos com carcinoma de pulmão de pequenas células, doença confinada ao hemitérax direito, mediastino e linfonodos supraclaviculares ipsilaterais, tratável por um mesmo campo de irradiação. Obteve resposta clínica completa no pulmão após quimioterapia com cisplatina e etoposídeo associada à irradiação torácica. Segundo as Diretrizes do Ministério da Saúde, qual conduta adicional está indicada e com que finalidade?
A irradiação craniana com finalidade profilática, na dose de 25 Gy em 10 frações de 250 cGy, previne a recorrência da doença no sistema nervoso central e é indicada para doentes com pequenas células que obtiveram controle da doença torácica — exatamente este caso. É uma conduta exclusiva do pequenas células: no carcinoma de células não pequenas ela não é indicada. A lobectomia de resgate contraria a regra do tipo histológico: o tratamento cirúrgico não é recomendado no pequenas células pelo comportamento biológico de metástase precoce, com a exceção estreita do estágio I. Quimioterapia de manutenção está expressamente descartada: o documento registra que nos casos de pequenas células inexiste benefício com quimioterapia de manutenção ou com intensificação de dose — a mesma frase derruba também a alternativa que propõe mais quatro ciclos para consolidar a resposta. Condicionar a irradiação craniana a uma lesão visível na ressonância desfaz o conceito de profilaxia: se há lesão, o tratamento deixa de ser profilático e passa a ser terapêutico.
Homem de 61 anos foi submetido a lobectomia superior direita com linfadenectomia por adenocarcinoma de pulmão, seguida de quimioterapia adjuvante, com intenção curativa. Concluiu o tratamento há três meses e está assintomático. Segundo as Diretrizes Diagnósticas e Terapêuticas do Câncer de Pulmão do Ministério da Saúde, qual é o esquema de acompanhamento pós-tratamento indicado?
O documento fixa o esquema: doentes tratados com intenção curativa devem ser reavaliados quanto a complicações dos procedimentos em 3 a 4 meses após o término e, no seguimento, recomenda-se consulta médica e exame de imagem — radiografia ou tomografia de tórax — a cada 6 meses por 2 anos e, então, anualmente. E traz uma lista explícita do que NÃO deve ser indicado para fins de acompanhamento pós-tratamento: exames laboratoriais, marcadores tumorais, citologia de escarro, broncoscopia e PET-CT. Três das alternativas erradas incluem, cada uma, ao menos um dos exames expressamente desaconselhados — PET-CT e marcadores tumorais numa, broncoscopia anual noutra, citologia de escarro na terceira —, além de proporem periodicidades que o texto não prevê. A alternativa da radiografia anual dispensa a consulta médica, que é parte da recomendação, e estende demais o intervalo nos dois primeiros anos, que é justamente o período de maior risco de recidiva.
Mulher de 63 anos tem adenocarcinoma de pulmão confirmado por punção transtorácica: lesão de 2,5 cm no lobo superior esquerdo, sem invasão de estruturas adjacentes, com o maior linfonodo mediastinal medindo 8 mm no eixo curto na tomografia de tórax. Ela não refere dor óssea, cefaleia, déficit neurológico nem convulsão, e a lesão é considerada potencialmente ressecável. Segundo as Diretrizes Diagnósticas e Terapêuticas do Ministério da Saúde, o que completa o estadiamento clínico?
O estadiamento clínico começa por tomografia de tórax e de abdome superior com contraste em todos os casos, porque é no abdome superior que estão fígado e adrenais. O PET-CT tem indicação declarada e estreita, que este caso preenche: carcinoma de células não pequenas potencialmente ressecável, cenário em que ele supera a tomografia na avaliação linfonodal mediastinal e hilar. Cintilografia óssea fica reservada ao carcinoma de pequenas células e, nos demais, a quem tem dor óssea — pedi-la de rotina esbarra na elevada taxa de falso-positivo por doença degenerativa ou trauma. Imagem de crânio segue a mesma lógica de duas velocidades: rotina no pequenas células e, nos demais, apenas com suspeita clínica de metástase no sistema nervoso central. O PET-CT também não substitui os outros métodos, e nesse território é francamente ruim, com sensibilidade de 21% para metástase cerebral contra 77% da ressonância com contraste. A abordagem cirúrgica do mediastino é exigida quando há linfonodo mediastinal de 16 mm ou mais à tomografia, e o maior aqui mede 8 mm.
Homem de 66 anos tem adenocarcinoma periférico de 1,8 cm no lobo superior direito, sem acometimento linfonodal na tomografia e no PET-CT, com volume expiratório forçado e difusão acima de 80% do previsto. Levado à sala, tem os linfonodos hilares e mediastinais confirmados como negativos na avaliação intraoperatória. Considerando os ensaios randomizados de fase 3 publicados em 2022 e 2023 sobre extensão da ressecção, qual é a leitura correta?
Os dois ensaios trabalharam com populações estreitas, e este paciente cabe nelas: tumor periférico de até 2 cm, sem acometimento linfonodal, com o estado nodal confirmado. O ensaio japonês randomizou 1.106 doentes de estágio clínico IA para lobectomia ou segmentectomia e encontrou sobrevida global em 5 anos de 94,3% com a ressecção menor contra 91,1% com a lobectomia, confirmando não inferioridade e também superioridade; o ensaio norte-americano randomizou 697 doentes com T1aN0 periférico de até 2 cm depois de confirmação intraoperatória de doença nodal negativa, e a sobrevida livre de doença foi não inferior. Dizer que a evidência randomizada mostrou desfecho pior inverte o resultado — a afirmação de resultados oncológicos inferiores com ressecções menores vem do documento brasileiro de 2014, escrito antes desses ensaios e apoiado em dados de prática clínica. Estender a conclusão a tumor de até 3 cm ou de até 5 cm, ou a paciente sem avaliação linfonodal, usa o vocabulário dos ensaios fora da população deles. Pneumonectomia é ressecção máxima e não tem justificativa em lesão periférica pequena com função preservada.
Homem de 68 anos com carcinoma de pulmão de células não pequenas metastático recebeu quimioterapia paliativa de primeira linha. Após o quarto ciclo, a reavaliação por critérios RECIST mostra progressão da doença, e a capacidade funcional deteriorou de Zubrod 1 para Zubrod 2. Segundo as Diretrizes Diagnósticas e Terapêuticas do Câncer de Pulmão do Ministério da Saúde, qual é a conduta?
O documento fixa os cortes de capacidade funcional: a quimioterapia paliativa de primeira linha é recomendada para Zubrod 0, 1 ou 2, enquanto a de segunda ou terceira linha exige Zubrod 0 ou 1, porque não há evidência de que ela seja segura ou eficaz em quem já está em Zubrod 2 ou pior. Este paciente reúne, além disso, duas regras de parada explícitas — progressão neoplásica documentada e queda da capacidade funcional para o nível 2 —, cada uma suficiente para interromper o tratamento. Prosseguir para a segunda linha assume um limiar de Zubrod 3 que o texto não autoriza. Manter o mesmo esquema até seis ciclos ignora que a regra dos seis ciclos vale para doentes responsivos, e este progrediu. O pembrolizumabe de primeira linha para doença avançada ou metastática não está incorporado ao SUS: a decisão de não incorporar foi publicada em portaria de dezembro de 2023, e a reavaliação aberta em 2026, restrita ao estágio IV com alta expressão de PD-L1, teve recomendação preliminar novamente desfavorável, por custo-efetividade acima do limiar adotado. Radioterapia torácica radical pertence à doença localizada, e não ao cenário metastático em progressão.
Homem de 67 anos, tabagista, com adenocarcinoma pulmonar de lobo superior direito, sem metástases. Qual exame é essencial na avaliação de operabilidade quanto à reserva funcional?
Operabilidade não é a mesma coisa que ressecabilidade: além de saber se o tumor pode ser retirado, é preciso saber se o pulmão que sobra sustenta o paciente. O cálculo do volume expiratório forçado previsto para depois da ressecção, somado à capacidade de difusão, é a base dessa avaliação, com valores muito baixos indicando risco proibitivo. Gasometria e ecocardiograma agregam informação em contextos específicos, mas nenhum deles estima a função pulmonar remanescente, que é a pergunta central.
Paciente de 66 anos tem massa pulmonar central cuja biópsia revela carcinoma de pequenas células, com linfonodos mediastinais comprometidos. Qual a conduta?
O carcinoma de pequenas células é doença sistêmica desde cedo, com crescimento rápido e alta sensibilidade à quimioterapia e à irradiação — o tratamento é sistêmico combinado, e a cirurgia fica restrita a raríssimos casos de nódulo periférico sem comprometimento linfonodal. Indicar ressecção é o erro que aplica o algoritmo do carcinoma não pequenas células ao tipo histológico errado, e a distinção entre esses dois grupos é a primeira bifurcação de toda a conduta no câncer de pulmão.
Paciente de 75 anos com adenocarcinoma pulmonar periférico de 1,8 cm, sem linfonodos comprometidos, tem função pulmonar limítrofe. Qual alternativa cirúrgica pode ser considerada?
Ensaios recentes mostraram que, em tumores periféricos pequenos e sem comprometimento linfonodal, a ressecção anatômica sublobar com avaliação dos linfonodos alcança resultados oncológicos comparáveis à lobectomia, preservando parênquima — o que é decisivo em paciente com reserva funcional limítrofe. Insistir em uma ressecção maior nesse cenário troca segurança oncológica já demonstrada por risco funcional. Limitar-se à biópsia deixa sem tratamento uma doença localizada e potencialmente curável.
Homem de 64 anos tem adenocarcinoma pulmonar com linfonodos mediastinais ipsilaterais aumentados e captantes na PET-TC. Qual a conduta?
Captação em linfonodo mediastinal não é diagnóstico: processos inflamatórios e granulomatosos captam, e uma decisão de tratamento que muda tanto o prognóstico exige confirmação por punção guiada por ecobroncoscopia ou por mediastinoscopia. Operar sem confirmar é o erro que leva à cirurgia um paciente cuja doença exige tratamento multimodal. Assumir doença incurável sem tecido é o erro oposto, e priva de tratamento com intenção curativa quem tinha apenas linfonodo reacional.
No pós-operatório de lobectomia, paciente apresenta escape aéreo persistente pelo dreno torácico por 6 dias, sem febre, com pulmão expandido à radiografia. Qual a conduta inicial?
Escape aéreo prolongado é a complicação mais comum após ressecção pulmonar e, com o pulmão expandido e sem infecção, tende a fechar de forma espontânea sob drenagem e fisioterapia, podendo o paciente até receber alta com válvula unidirecional. Retirar o dreno com escape ativo é erro grosseiro, com risco de pneumotórax hipertensivo. Reoperar precocemente e realizar pleurodese são medidas reservadas a casos que se arrastam ou que cursam com falha de expansão.
Paciente candidato a lobectomia apresenta valores limítrofes de função pulmonar previstos para o pós-operatório. Qual exame ajuda a definir o risco cirúrgico nesse cenário?
Quando os valores previstos ficam na zona cinzenta, o teste que integra coração, pulmão e músculo sob esforço passa a decidir: um consumo máximo de oxigênio preservado autoriza a ressecção, enquanto valores baixos indicam risco proibitivo de complicações e morte. Repetir exames de imagem não acrescenta nada sobre reserva funcional, e é o distrator de quem confunde avaliação anatômica com avaliação fisiológica. A avaliação cardiológica corre em paralelo, mas não substitui a medida de capacidade de exercício.
Qual é a operação considerada padrão para o carcinoma pulmonar não pequenas células em estádio inicial, em paciente com reserva funcional adequada?
A retirada do lobe acometido com amostragem sistemática das cadeias mediastinais é o procedimento de referência, porque garante margem adequada e estadia corretamente o mediastino, informação que define a terapia adjuvante. A ressecção em cunha é o distrator que ganhou espaço em situações específicas, como tumores muito pequenos e periféricos ou pacientes sem reserva funcional, mas não é o padrão. Pneumonectomia é reservada a tumores centrais que não podem ser removidos por ressecção menor.
Homem de 70 anos com carcinoma pulmonar apresenta derrame pleural volumoso, cuja toracocentese revela citologia positiva para células neoplásicas. Qual a implicação?
Derrame pleural com citologia positiva caracteriza disseminação da doença e coloca o paciente fora do tratamento cirúrgico com intenção curativa, deslocando o foco para tratamento sistêmico e paliação do derrame, com pleurodese ou cateter de longa permanência. Propor uma ressecção ampliada nesse contexto é morbidade elevada sem ganho oncológico. Vale lembrar que derrame paraneoplásico com citologia negativa em amostras repetidas pode não indicar disseminação e merece avaliação cuidadosa.
Em relação à pneumonectomia, qual afirmativa está correta?
Retirar um pulmão inteiro impõe repercussão hemodinâmica e funcional muito maior do que uma lobectomia, com mais arritmias, insuficiência respiratória e mortalidade — e a pneumonectomia direita é a mais perigosa, porque o pulmão direito representa a maior parte do parênquima funcionante. Considerar as duas operações equivalentes é o erro que subestima o preparo funcional necessário. A escolha é sempre pela menor ressecção que remova o tumor com margem adequada.
Qual medida pré-operatória reduz complicações pulmonares em pacientes tabagistas submetidos a ressecção pulmonar?
Parar de fumar antes da operação melhora o clearance mucociliar e reduz secreções e complicações respiratórias, e o preparo com fisioterapia respiratória e condicionamento soma benefício — são as duas intervenções pré-operatórias com melhor relação entre custo e resultado. Antibiótico prolongado seleciona flora resistente sem prevenir atelectasia, e repouso no leito é contraproducente, pois piora a capacidade funcional justamente do paciente que precisará de reserva para tossir e deambular no pós-operatório.
Paciente com câncer de pulmão e doença pulmonar obstrutiva crônica é candidato a lobectomia. Qual parâmetro é decisivo para julgar a operabilidade funcional?
A operabilidade funcional em ressecção pulmonar se apoia no cálculo da função prevista para o pós-operatório, tanto do volume expiratório forçado quanto da capacidade de difusão, com teste de exercício cardiopulmonar quando os valores ficam em faixa limítrofe. Saturação em repouso engana por ser simples e disponível, mas permanece normal em pacientes que não tolerariam a perda de parênquima. Exames de imagem simples e marcadores inflamatórios não medem reserva funcional.
Paciente com adenocarcinoma pulmonar metastático apresenta mutação ativadora no receptor do fator de crescimento epidérmico. Qual a implicação terapêutica?
A presença de mutação ativadora nesse receptor define um subgrupo com resposta expressiva a inibidores de tirosina quinase dirigidos ao alvo, superiores à quimioterapia em taxa de resposta e sobrevida livre de progressão, o que torna a pesquisa molecular obrigatória no adenocarcinoma avançado. Manter a quimioterapia como única opção desperdiça esse ganho e é o erro de quem trata todo adenocarcinoma da mesma forma. Doença metastática não é tratada com ressecção curativa.
Sobre o rastreamento do câncer de pulmão, qual afirmativa é correta?
Ensaios clínicos demonstraram redução de mortalidade com tomografia de baixa dose em populações selecionadas por idade e carga tabágica, e esse é hoje o método de rastreamento recomendado nesses grupos. A radiografia anual e a citologia de escarro foram testadas e não reduziram mortalidade, sendo distratores que sobrevivem por familiaridade. Estender o rastreamento a toda a população dilui o benefício e multiplica achados falso-positivos.
Paciente com carcinoma não pequenas células de pulmão em estádio inicial, sem comprometimento mediastinal e com reserva funcional adequada. Qual o tratamento de escolha?
A lobectomia associada à amostragem ou dissecção sistemática dos linfonodos mediastinais é o tratamento padrão do carcinoma não pequenas células em estádio inicial em paciente operável, e a linfadenectomia é indispensável para o estadiamento patológico. Indicar pneumonectomia para todos sacrifica função pulmonar sem necessidade oncológica. Radioterapia estereotáxica é alternativa válida, porém para o paciente inoperável, e não como escolha em quem tem reserva adequada.
Qual achado contraindica a ressecção com intenção curativa no carcinoma não pequenas células de pulmão?
O comprometimento linfonodal mediastinal contralateral ou supraclavicular caracteriza doença locorregional avançada e retira a indicação de ressecção com intenção curativa, deslocando o tratamento para quimiorradioterapia. Linfonodo hilar ipsilateral e invasão de pleura visceral não impedem a operação em paciente com reserva adequada, e é aí que muitos erram ao generalizar qualquer acometimento linfonodal como contraindicação. Tabagismo ativo exige cessação e otimização, mas não é contraindicação absoluta.
Paciente com massa pulmonar suspeita e linfonodos mediastinais aumentados na tomografia, candidato potencial a ressecção. Qual a conduta para definir o estadiamento mediastinal?
O comprometimento mediastinal muda radicalmente a conduta, e nem o tamanho na tomografia nem a captação no exame metabólico substituem a confirmação tecidual, obtida por punção guiada por ultrassom endobrônquico ou por mediastinoscopia. Contraindicar a cirurgia apenas pelo tamanho dos linfonodos é o erro que nega o tratamento curativo a pacientes com linfonodos apenas reacionais, comuns em pneumopatas. Operar sem estadiar leva ao extremo oposto, com toracotomias sem benefício oncológico.
Qual é a ressecção padrão para o carcinoma pulmonar não pequenas células em estágio inicial em paciente com boa reserva funcional?
A lobectomia com amostragem ou dissecção linfonodal mediastinal é o padrão nos estágios iniciais, garantindo margem oncológica e estadiamento adequado. A ressecção em cunha sem avaliação nodal engana por preservar mais parênquima, mas subestadia o paciente e tem maior recidiva local, ficando reservada a situações de reserva funcional limitada.
Qual é o exame indicado para estadiamento mediastinal invasivo em paciente com câncer de pulmão e linfonodos mediastinais aumentados?
O estadiamento mediastinal exige confirmação citológica ou histológica, obtida por punção guiada por ecobroncoscopia ou por mediastinoscopia, porque o tamanho do linfonodo na imagem não distingue metástase de hiperplasia reativa. Confiar na tomografia engana quem lê o aumento linfonodal como doença, e essa interpretação pode privar um paciente operável do tratamento curativo.
Paciente com massa pulmonar e derrame pleural volumoso ipsilateral, cuja citologia do líquido é positiva para células neoplásicas. Qual a implicação para o tratamento?
Derrame pleural com citologia positiva caracteriza disseminação pleural e coloca a doença em estádio avançado, o que retira a indicação de ressecção curativa e direciona ao tratamento sistêmico com medidas de controle do derrame, como pleurodese ou cateter de longa permanência. Manter o plano cirúrgico curativo é o erro que submete o paciente a uma operação que não altera o desfecho oncológico. Nem todo derrame no contexto de câncer de pulmão é maligno, e por isso a citologia é decisiva.
Qual a principal diferença de conduta entre o carcinoma de pequenas células e o carcinoma não pequenas células de pulmão?
O carcinoma de pequenas células é doença de disseminação precoce e alta quimiossensibilidade, tratada essencialmente com quimioterapia e radioterapia, restando à cirurgia um papel excepcional em nódulo verdadeiramente localizado. O não pequenas células em estádio inicial, ao contrário, tem na ressecção anatômica a melhor chance de cura. Inverter esses papéis é o erro conceitual mais custoso no manejo do câncer de pulmão.
Qual exame é fundamental para avaliar se o paciente com câncer de pulmão tolera a ressecção planejada?
A decisão sobre a extensão da ressecção depende da reserva funcional, estimada pela espirometria e pela difusão de monóxido de carbono, com cálculo do que restará após a operação e teste de exercício quando os valores são limítrofes. O ecocardiograma engana por ser exame pré-operatório frequente, mas avalia o coração e não responde se o pulmão remanescente sustentará o paciente.
Paciente apresenta dor no ombro e face medial do braço, miose, ptose e anidrose à direita, com massa no ápice pulmonar direito. Esse quadro caracteriza:
Tumor do ápice pulmonar que invade o plexo braquial e a cadeia simpática produz dor no ombro e no território ulnar do braço somada à tríade de miose, ptose e anidrose, configurando a apresentação clássica desse sítio. A síndrome da veia cava superior cursa com edema de face e pescoço, circulação colateral e turgência jugular, achados ausentes na descrição. Manifestações endócrinas paraneoplásicas não explicam o déficit simpático localizado.
Homem de 68 anos com carcinoma de pulmão de não pequenas células em estádio I será submetido a lobectomia. O volume expiratório forçado no primeiro segundo previsto no pós-operatório é de 32% do previsto. Qual a implicação?
A decisão cirúrgica no câncer de pulmão pesa o estádio e o pulmão que sobra: função prevista tão baixa eleva o risco de dependência de oxigênio e de mortalidade, e leva a considerar ressecção sublobar ou radioterapia estereotáxica. Ignorar a reserva funcional engana quem raciocina apenas pela ressecabilidade oncológica, mas operabilidade e ressecabilidade são perguntas diferentes.
Qual população tem indicação de rastreamento de câncer de pulmão com tomografia de baixa dose, conforme as diretrizes atuais?
O rastreamento se dirige a quem tem alto risco pela idade e pela carga tabágica, incluindo quem cessou recentemente, e reduz mortalidade quando feito com tomografia de baixa dose em programa organizado. Rastrear sintomáticos engana quem confunde rastreamento com diagnóstico: o paciente com tosse, hemoptise e perda de peso não está sendo rastreado, está sendo investigado, e o exame indicado é a tomografia diagnóstica.
Homem de 64 anos, tabagista de 45 anos-maço, apresenta tosse persistente, hemoptoicos e perda de 7 kg em 3 meses. A tomografia mostra massa espiculada de 4 cm no lobo superior direito e linfonodo mediastinal ipsilateral de 1,8 cm. Qual a conduta para definir o tratamento?
Sem histologia e sem estadiamento completo não se define se o paciente é candidato a cirurgia, a tratamento combinado ou a terapia sistêmica, e o linfonodo mediastinal aumentado precisa de confirmação invasiva porque o tamanho isolado não define acometimento. Operar de imediato engana quem enxerga uma massa ressecável, mas ressecar um paciente com doença mediastinal não confirmada pode entregar cirurgia sem benefício e atrasar o tratamento correto.
Qual subtipo histológico de câncer de pulmão é hoje o mais frequente e o que mais aparece em não fumantes?
O adenocarcinoma predomina atualmente e é o subtipo mais encontrado em não fumantes, com localização tipicamente periférica e maior chance de abrigar alterações moleculares tratáveis com terapia-alvo. O carcinoma epidermoide engana quem associa câncer de pulmão a tabagismo pesado e localização central, perfil que já foi dominante mas perdeu espaço com a mudança nos padrões de consumo e nos cigarros.
Homem com câncer de pulmão apresenta rouquidão progressiva. Qual estrutura provavelmente está comprometida?
O laríngeo recorrente esquerdo contorna o arco aórtico e passa pela janela aortopulmonar, área frequentemente comprometida por tumor ou linfonodo, produzindo paralisia de prega vocal e rouquidão, sinal de doença localmente avançada. Pensar em plexo braquial engana quem lembra de invasão por tumor de ápice, mas ali o quadro é dor no ombro e no membro superior com síndrome de Horner, não rouquidão.
Qual é a intervenção isolada mais efetiva para reduzir a incidência de câncer de pulmão na população?
A prevenção primária pelo controle do tabaco é o que muda a incidência da doença, com impacto muito superior a qualquer estratégia de detecção. A suplementação de betacaroteno engana quem raciocina por antioxidantes, mas ensaios mostraram aumento de incidência em fumantes, exemplo clássico de intervenção plausível que se revelou danosa. A radiografia anual não reduz mortalidade por câncer de pulmão.
Paciente com carcinoma epidermoide de pulmão apresenta cálcio sérico de 13,8 mg/dL, com fósforo baixo e paratormônio suprimido. Qual o mecanismo mais provável?
Hipercalcemia com paratormônio suprimido em carcinoma epidermoide sugere secreção de peptídeo relacionado ao paratormônio, síndrome paraneoplásica clássica desse subtipo, e o tratamento envolve hidratação, bisfosfonato e controle do tumor. Hiperparatireoidismo primário engana pela hipercalcemia com fósforo baixo, mas nele o paratormônio estaria elevado ou inapropriadamente normal, não suprimido.
Paciente com adenocarcinoma de pulmão metastático deve ter o tumor testado para alterações moleculares. Qual a razão principal?
A pesquisa de alterações em genes como EGFR e ALK, entre outros, e a expressão de PD-L1 definem candidatos a terapia-alvo e a imunoterapia, mudando radicalmente sobrevida e qualidade de vida em relação à quimioterapia convencional. Achar que a molecular substitui o estadiamento engana quem confunde as duas perguntas: a extensão da doença continua sendo definida pela imagem e pela avaliação clínica.
Homem de 62 anos, tabagista de 40 maços-ano, com tosse há 3 meses que mudou de padrão, tornando-se mais intensa, com dois episódios de escarro raiado de sangue e rouquidão nova. Qual a conduta imediata mais adequada?
Tabagista pesado com mudança do padrão da tosse, hemoptise e rouquidão nova acumula sinais de alarme que tiram o caso da rota de tosse crônica comum: a rouquidão sugere acometimento do nervo laríngeo recorrente e a hemoptise, lesão endobrônquica. A conduta é imagem seccional seguida de avaliação endoscópica, sem passar por testes terapêuticos. Tratar refluxo empiricamente engana quem aplica o algoritmo das causas comuns sem antes checar as bandeiras vermelhas — e é exatamente o erro que atrasa o diagnóstico de neoplasia por meses. Antitussígeno mascara o sintoma que está pedindo investigação.
Homem de 66 anos, tabagista de 50 maços-ano, apresenta cavidade pulmonar de paredes espessas e irregulares no lobo superior direito, com emagrecimento e sem melhora após 4 semanas de antibiótico adequado. Qual a conduta?
Cavidade de paredes espessas e irregulares em tabagista pesado que não responde ao tratamento adequado obriga a excluir carcinoma escavado, com broncoscopia e biópsia. Prolongar o antibiótico engana quem atribui a persistência à necessidade de mais tempo, e o atraso pode custar o estadiamento. O abscesso típico tem parede mais fina e regular e responde clinicamente nas primeiras semanas.
Homem de 70 anos, tabagista de 40 anos-maco, ex-fumante ha 5 anos, sem sintomas respiratorios. Quanto ao rastreamento de cancer de pulmao:
A tomografia de torax de baixa dose reduziu mortalidade por cancer de pulmao em ensaios com populacao de alto risco definida por idade e carga tabagica, e o beneficio depende de programa estruturado, com criterios de elegibilidade e manejo padronizado de nodulos. Radiografia e citologia de escarro enganam por serem exames antigos de 'rastreio' pulmonar, mas nao reduziram mortalidade nos estudos. Broncoscopia e exame invasivo e diagnostico, nao de rastreamento.
Homem de 62 anos apresenta massa em mediastino medio com linfonodomegalias mediastinais, sem marcadores tumorais elevados, e ha suspeita de neoplasia pulmonar com acometimento linfonodal. Qual metodo e o mais adequado para obtencao de material com menor morbidade?
A puncao aspirativa guiada por ultrassonografia endobronquica permite amostrar linfonodos mediastinais e hilares com alto rendimento e morbidade muito baixa, sendo hoje o metodo preferencial para diagnostico e estadiamento nesse cenario, com a mediastinoscopia reservada a resultados negativos com alta suspeicao. Toracotomia e esternotomia enganam porque de fato garantem amostra ampla, mas com morbidade desproporcional para uma etapa diagnostica. O lavado broncoalveolar nao amostra linfonodos, e puncao percutanea sem orientacao por imagem e inaceitavel pelo risco vascular.
Qual afirmação sobre o rastreamento de câncer de pulmão em tabagistas é correta?
A tomografia de baixa dose demonstrou redução de mortalidade por câncer de pulmão em populações selecionadas por idade e carga tabágica, e é o método adotado nas recomendações de rastreamento. A radiografia de tórax foi testada e não reduziu mortalidade, sendo o distrator que reflete uma prática antiga e ainda comum. O rastreamento se aplica a grupos definidos, e não a todo fumante indistintamente.
Homem de 65 anos, tabagista, apresenta nódulo pulmonar espiculado de 3,5 cm no lobo superior direito e metástase cerebral única. Sobre o câncer de pulmão, qual distinção histológica é decisiva para a estratégia terapêutica?
A primeira grande bifurcação no câncer de pulmão é entre carcinoma de pequenas células, tipicamente disseminado e altamente quimiossensível, e carcinoma não pequenas células, em que a abordagem local e a pesquisa de alterações moleculares alvo transformaram o prognóstico. Reduzir a análise ao tamanho ou ao grau ignora a decisão terapêutica central. Dentro dos não pequenas células, distinguir adenocarcinoma de epidermoide também importa, porque orienta a pesquisa molecular e a escolha de esquemas.
Homem de 58 anos com metástase cerebral única em lobo occipital, primário pulmonar controlado, bom estado funcional e ausência de doença sistêmica extracraniana ativa. Qual a estratégia terapêutica mais adequada?
Metástase única acessível, com primário controlado, bom desempenho funcional e sem doença sistêmica ativa, é a situação clássica em que a ressecção seguida de radiocirurgia ao leito oferece melhor controle local e melhores desfechos. Radioterapia holocraniana isolada tem controle local inferior e maior toxicidade cognitiva, sendo hoje reservada a cenários específicos. A maioria dos quimioterápicos tem penetração limitada no sistema nervoso central, o que limita a estratégia sistêmica isolada.
Homem de 68 anos com carcinoma pulmonar nao pequenas celulas tem lesao periferica de 3 cm sem linfonodomegalia aparente na tomografia. O que e necessario antes de indicar a ressecao cirurgica?
Antes da ressecao, exige-se estadiamento completo, incluindo avaliacao metabolica por tomografia por emissao de positrons e do mediastino por metodos invasivos quando indicado, alem de avaliacao funcional respiratoria com estimativa da funcao pulmonar prevista para o pos-operatorio, que define a operabilidade. Dispensar avaliacao por ser lesao pequena e periferica engana porque o tamanho sugere doenca inicial e a tentacao e operar logo, mas metastases ocultas e comprometimento mediastinal mudam completamente a conduta, e operar quem nao tem reserva pulmonar produz invalidez respiratoria.
Qual e a recomendacao atual de rastreamento de cancer de pulmao em populacoes de risco?
O rastreamento com tomografia de torax de baixa dose, anual, em individuos com idade e carga tabagica dentro dos criterios estabelecidos, reduz a mortalidade por cancer de pulmao ao detectar nodulos em estadio curavel. Radiografia com citologia de escarro engana porque foi a estrategia estudada por decadas e parece uma alternativa barata e acessivel, mas os ensaios mostraram que ela nao reduz mortalidade. Espirometria avalia funcao, nao rastreia neoplasia; marcadores sericos nao tem desempenho adequado; e broncoscopia e procedimento invasivo, inadequado como rastreio populacional.
Homem de 68 anos, tabagista, com dor no ombro direito, atrofia da musculatura intrínseca da mão direita, ptose e miose ipsilaterais, além de rouquidão recente. Qual a hipótese diagnóstica?
Dor no ombro, atrofia da mão por acometimento das raízes inferiores do plexo braquial, síndrome de Horner por lesão da cadeia simpática e rouquidão por comprometimento do recorrente compõem o quadro do tumor do sulco superior do pulmão em tabagista. A radiculopatia cervical é o distrator mais escolhido porque explica dor e atrofia, mas não produz Horner nem disfonia. O reconhecimento dessa constelação muda o rumo da investigação para imagem de tórax com avaliação do ápice pulmonar.
Mulher de 62 anos, tabagista de 35 anos-maço e ainda fumante, comparece à consulta de rotina na Unidade Básica de Saúde. Está assintomática, sem perda de peso ou hemoptise, e pergunta se existe algum exame para detectar precocemente câncer de pulmão. Qual é a orientação correta?
A tomografia de tórax de baixa dose é a única estratégia com redução de mortalidade demonstrada em tabagistas de alto risco, e a cessação do tabagismo permanece a intervenção mais eficaz, devendo ambas ser discutidas de forma compartilhada. A radiografia anual foi testada e não reduziu mortalidade por câncer de pulmão. Marcadores tumorais séricos não têm papel no rastreamento dessa neoplasia. Afirmar que nada existe é incorreto e desperdiça a oportunidade de discutir cessação e rastreamento.
Homem de 68 anos, tabagista de 50 anos-maço, procura a Unidade Básica de Saúde com tosse persistente há quatro meses, dois episódios de escarro com raias de sangue e perda de 8 kg no período. Refere ainda rouquidão de instalação recente. Ao exame: emagrecido, com linfonodo supraclavicular direito endurecido de 2 cm, murmúrio vesicular reduzido em ápice direito e baqueteamento digital. A radiografia de tórax evidencia massa em lobo superior direito com alargamento do mediastino. Qual é a conduta mais adequada na atenção primária?
Tabagismo pesado, tosse crônica, hemoptoicos, emagrecimento, rouquidão por acometimento do nervo laríngeo recorrente, linfonodo supraclavicular e massa pulmonar compõem quadro altamente suspeito de neoplasia de pulmão avançada, e o papel da atenção primária é o encaminhamento prioritário para diagnóstico histológico e estadiamento. Tratar como pneumonia e reavaliar depois posterga o diagnóstico de forma injustificada diante de sinais de alarme tão claros. Investigar tuberculose é razoável, mas tratar empiricamente sem confirmação em um quadro com massa e linfonodo supraclavicular retarda a conduta correta. Prescrever sintomático com retorno em meio ano é a conduta que mais custa sobrevida.
Homem de 61 anos, tabagista, procura a Unidade Básica de Saúde com dor intensa no ombro direito irradiada para a face medial do braço e para o quarto e quinto dedos, há três meses, sem melhora com analgésicos comuns. Refere ainda perda de peso. Ao exame: ptose palpebral direita, miose ipsilateral e redução da sudorese na hemiface direita, além de fraqueza da mão direita. A radiografia de tórax mostra opacidade no ápice pulmonar direito com erosão do primeiro arco costal. Qual é o diagnóstico mais provável?
Dor no ombro com irradiação pelo território ulnar, síndrome de Horner por invasão do gânglio estrelado e massa apical com erosão costal em tabagista definem o tumor do sulco superior, ou tumor de Pancoast, exigindo confirmação histológica e estadiamento rápido. A hérnia de disco cervical pode causar dor radicular, mas não produz Horner nem lesão óssea costal com massa apical. A síndrome do desfiladeiro torácico gera sintomas posturais intermitentes, sem emagrecimento e sem destruição óssea. A espondilodiscite acomete corpos vertebrais e discos, com dor axial e sinais infecciosos, não o ápice pulmonar.
Homem de 63 anos, tabagista, é atendido em ambulatório com dor intensa em ombro e face medial do braço direito há quatro meses, associada a fraqueza da mão. Ele perdeu 6 kg no período e refere ptose palpebral direita notada pela esposa. Ao exame: ptose e miose à direita com anidrose facial ipsilateral, atrofia da musculatura intrínseca da mão direita, dor à palpação da cintura escapular, murmúrio vesicular preservado bilateralmente. Radiografia de tórax evidencia opacidade em ápice pulmonar direito. Ele não apresenta febre nem tosse produtiva significativa. A hipótese mais provável é:
Dor em ombro e braço com atrofia da mão por acometimento do plexo braquial, síndrome de Horner com ptose, miose e anidrose, e opacidade em ápice pulmonar em tabagista caracterizam tumor de sulco superior, exigindo confirmação histológica e estadiamento. Tuberculose apical não produz síndrome de Horner nem invasão do plexo. Hérnia de disco cervical não explica a opacidade apical nem a síndrome de Horner. Pneumonia não cursa com perda ponderal e comprometimento neurológico progressivo desse padrão.
Homem de 59 anos, com neoplasia pulmonar confirmada, é atendido em ambulatório para definição do estadiamento antes da decisão terapêutica. Ele apresenta tosse e perda ponderal, sem dor óssea, cefaleia ou déficits neurológicos. Ao exame: emagrecido, FR 18 ipm, saturação 94%, ausculta com murmúrio reduzido em ápice direito, sem adenomegalias palpáveis, exame neurológico normal, sem hepatomegalia. Tomografia de tórax mostra massa em lobo superior direito com linfonodos mediastinais aumentados. A equipe discute os exames necessários para completar o estadiamento e planejar o tratamento oncológico. A conduta correta é:
O estadiamento completo, com avaliação dos linfonodos mediastinais e pesquisa de metástases a distância conforme protocolo, é indispensável antes da definição terapêutica no câncer de pulmão, pois determina a possibilidade de ressecção e a estratégia de tratamento. Iniciar quimioterapia sem estadiar impede planejar o tratamento adequado. Operar sem avaliar o mediastino pode submeter o paciente a cirurgia sem benefício. Considerar o estadiamento dispensável após o diagnóstico histológico compromete diretamente o prognóstico e a escolha terapêutica.
Homem de 55 anos, tabagista de 35 anos-maço, é atendido em ambulatório para consulta de rotina. Ele é assintomático, sem tosse, dispneia ou perda ponderal, e mantém boa capacidade funcional. Ao exame: PA 132x82 mmHg, FC 76 bpm, saturação 96%, ausculta pulmonar com murmúrio discretamente reduzido, sem estertores ou sibilos, IMC 26 kg/m2. Ele pergunta se existe algum exame para detectar câncer de pulmão precocemente, uma vez que um colega de trabalho recebeu esse diagnóstico em fase avançada. Não há sintomas de alarme nem alterações ao exame físico. A orientação correta é:
O rastreamento de câncer de pulmão com tomografia de baixa dose reduz mortalidade específica em tabagistas de alto risco dentro da faixa etária preconizada, devendo ser discutido de forma compartilhada, sempre acompanhado do apoio à cessação do tabagismo, que é a intervenção de maior impacto. Radiografia de tórax não reduz mortalidade como rastreamento. Marcadores tumorais séricos não têm papel na detecção precoce. Afirmar que não existe estratégia de rastreamento é incorreto e priva o paciente de uma opção com benefício demonstrado.
Durante discussão de caso em ambulatório de referência, um interno pergunta por que o laudo de um paciente com câncer de pulmão traz a classificação TNM e o que cada letra representa na prática da equipe. O paciente tem tumor de 3 cm, dois linfonodos mediastinais acometidos e nenhuma lesão à distância documentada em tomografia e cintilografia. A equipe precisa decidir entre tratamento com intenção curativa e tratamento paliativo, e o preceptor propõe explicar o sistema. Qual é a explicação correta?
O sistema TNM classifica a extensão anatômica da doença: T caracteriza o tumor primário, por tamanho e invasão de estruturas, N o comprometimento dos linfonodos regionais e M a presença de metástases à distância, e o agrupamento dessas categorias define o estádio, que orienta o tratamento e o prognóstico. Tempo de evolução, número de sintomas e mortalidade estimada não compõem o sistema. Tipo histológico e grau são informações do laudo patológico, registradas à parte da classificação anatômica. Idade e desempenho clínico influenciam a decisão terapêutica, mas não são componentes do TNM.
Homem, 68 anos, tabagista de 45 maços-ano, sem sintomas respiratórios, comparece à UBS e pergunta se deve fazer algum exame para detectar câncer de pulmão precocemente. Parou de fumar há 6 anos. Não tem DPOC diagnosticada, mantém boa capacidade funcional e não apresenta comorbidades que limitem tratamento curativo. Peso estável, SatO2 97%, ausculta pulmonar sem alterações. Radiografia de tórax realizada há 1 ano estava normal. Qual a orientação correta sobre rastreamento?
O rastreamento de câncer de pulmão com tomografia de baixa dose anual está indicado em adultos com carga tabágica significativa, tipicamente 20 ou mais maços-ano, na faixa etária de risco e que fumam ou cessaram nos últimos 15 anos, desde que tenham condições clínicas para tratamento curativo — perfil exatamente descrito. A radiografia de tórax foi testada em grandes ensaios e não reduz mortalidade por câncer de pulmão, tendo sido abandonada como método de rastreio. A citologia de escarro tem baixa sensibilidade para lesões periféricas e não é recomendada. Afirmar que 6 anos de cessação eliminam o risco é incorreto, pois o risco decresce lentamente e permanece elevado por mais de uma década. O antígeno carcinoembrionário não tem sensibilidade nem especificidade para rastreamento e gera investigação desnecessária.
Homem, 62 anos, com diagnóstico de adenocarcinoma de pulmão em lobo inferior esquerdo, apresenta tomografia com lesão de 4 cm sem invasão de estruturas adjacentes. A tomografia por emissão de pósitrons revela captação em linfonodo subcarinal. A ultrassonografia endobrônquica com punção confirma metástase nesse linfonodo. Não há metástases a distância e o paciente tem bom desempenho funcional e reserva pulmonar adequada. Qual o estadiamento nodal e a implicação terapêutica?
O linfonodo subcarinal é mediastinal ipsilateral, o que caracteriza doença N2, situação em que a cirurgia isolada não é o tratamento adequado e se indica abordagem multimodal, com quimioterapia e radioterapia, podendo haver cirurgia em casos selecionados após discussão multidisciplinar. A classificação N0 pressupõe ausência de acometimento linfonodal, contrariando a punção positiva. A doença N1 envolve linfonodos hilares ou peribrônquicos ipsilaterais, não mediastinais. A doença N3 corresponde a linfonodos mediastinais contralaterais ou supraclaviculares, e ainda assim não é metástase a distância. A classificação M1 exige metástases a distância, expressamente afastadas na vinheta.
Homem, 63 anos, com carcinoma de células escamosas em ápice pulmonar direito, apresenta dor em ombro e face medial do braço, fraqueza da musculatura intrínseca da mão, além de ptose, miose e anidrose à direita. Tomografia: massa apical invadindo a parede torácica, sem invasão de corpo vertebral e sem metástases a distância. Ressonância confirma acometimento do plexo braquial inferior. Qual a síndrome descrita e a estratégia terapêutica?
Massa apical com dor no ombro e braço, comprometimento do plexo braquial inferior e síndrome de Horner por acometimento do gânglio estrelado caracteriza tumor de Pancoast, cuja estratégia é quimiorradioterapia neoadjuvante seguida de ressecção em bloco em pacientes selecionados sem invasão vertebral ou vascular extensa. A síndrome da veia cava superior cursa com edema de face e circulação colateral, ausentes na vinheta. A síndrome do desfiladeiro torácico é compressão neurovascular benigna, sem massa tumoral. A neuropatia diabética não produz massa apical nem síndrome de Horner. A compressão medular por metástase vertebral cursaria com déficit medular e invasão do corpo vertebral, expressamente afastada.
Homem, 68 anos, tabagista de 50 maços-ano, é atendido na UBS com hemoptise de pequeno volume há 2 semanas, tosse crônica que mudou de padrão e perda de 7 kg em 3 meses. Nega febre e sudorese noturna. Exame: emagrecido, ausculta com murmúrio reduzido em ápice direito, sem baqueteamento. Teste rápido molecular para tuberculose em escarro negativo em duas amostras. Radiografia de tórax com massa em lobo superior direito de 4 cm, de contornos espiculados. Qual a conduta correta?
Massa pulmonar espiculada em tabagista pesado, com hemoptise, mudança do padrão da tosse e perda ponderal, e com pesquisa de tuberculose negativa, é altamente suspeita de neoplasia pulmonar e exige encaminhamento prioritário para tomografia e investigação histológica. Iniciar tratamento empírico para tuberculose com teste molecular negativo e imagem de massa espiculada atrasa o diagnóstico oncológico e expõe a toxicidade. Antibiótico de amplo espectro trata pneumonia, e a apresentação descrita não é infecciosa. Espirometria e broncodilatador podem ser úteis para doença obstrutiva concomitante, mas não investigam a massa. Repetir o teste molecular mais três vezes tem rendimento baixo diante de duas amostras negativas e de achado radiológico típico de neoplasia.
Mulher, 63 anos, com adenocarcinoma de pulmão metastático recém-diagnosticado, nunca fumante, apresenta lesões pulmonares bilaterais e metástases ósseas. O bloco tumoral foi submetido a painel molecular, que identificou mutação ativadora no gene EGFR no éxon 19. Encontra-se com bom desempenho funcional, sem sintomas neurológicos e com função orgânica preservada para tratamento sistêmico. Qual o tratamento de primeira linha indicado?
Adenocarcinoma de pulmão metastático com mutação ativadora de EGFR tem como primeira linha o inibidor de tirosina quinase dirigido a esse alvo, com taxas de resposta e sobrevida livre de progressão superiores às da quimioterapia. A quimioterapia com platina e pemetrexede é opção quando não há alvo acionável ou após falha da terapia-alvo. A imunoterapia isolada tem eficácia inferior em tumores com mutação de EGFR, especialmente em nunca fumantes. A radioterapia torácica exclusiva não trata doença disseminada. A ressecção cirúrgica não tem papel em doença metastática bilateral com acometimento ósseo.
Homem, 58 anos, com carcinoma de pulmão em lobo superior esquerdo, é avaliado quanto à ressecabilidade. Espirometria: volume expiratório forçado no primeiro segundo de 1,3 litro, correspondendo a 45% do previsto; capacidade de difusão do monóxido de carbono de 42% do previsto. A cintilografia de perfusão estima que o lobo acometido contribui com 20% da perfusão total. Não há doença metastática e o desempenho funcional é preservado. Qual a consideração mais importante para a decisão cirúrgica?
A decisão sobre ressecção pulmonar depende do cálculo da função predita no pós-operatório, obtido a partir da função atual e da contribuição perfusional do segmento a ser removido, sendo esse o parâmetro que define o risco cirúrgico. A pneumonectomia removeria muito mais parênquima e é justamente a opção menos tolerável nesse cenário funcional. Contraindicar apenas pelo valor absoluto ignora que o cálculo de função predita pode ainda permitir ressecção. Operar sem avaliação funcional adicional expõe o paciente a insuficiência respiratória pós-operatória. Afirmar que função reduzida contraindica sempre a cirurgia é falso, pois muitos pacientes com limitação moderada toleram ressecções anatômicas ou econômicas.
Homem, 57 anos, tabagista de 45 maços-ano, apresenta tosse crônica e hemoptise de pequeno volume há 2 meses. A broncoscopia revela lesão vegetante obstruindo parcialmente o brônquio principal esquerdo, a 1,5 cm da carina, e a biópsia confirma carcinoma escamoso. A tomografia mostra atelectasia do pulmão esquerdo, sem invasão mediastinal, sem derrame pleural e sem linfonodos mediastinais aumentados, com função pulmonar predita pós-operatória adequada para pneumonectomia. Qual a conduta cirúrgica a ser considerada?
Tumores brônquicos proximais sem invasão mediastinal podem ser tratados por ressecção com broncoplastia em manguito, técnica que remove o segmento brônquico acometido e reanastomosa a via aérea, preservando parênquima e função pulmonar com resultados oncológicos equivalentes à pneumonectomia. A pneumonectomia obrigatória sacrifica todo o pulmão e tem maior morbimortalidade quando a broncoplastia é viável. A ressecção em cunha não é oncologicamente adequada para lesão endobrônquica central. A desobstrução a laser é medida paliativa para alívio de obstrução, sem intenção curativa. A radioterapia endobrônquica exclusiva não alcança controle curativo comparável em paciente operável.
Homem, 71 anos, com carcinoma de pulmão de células não pequenas em lobo superior direito, apresenta lesão de 2,5 cm sem linfonodos comprometidos ao estadiamento invasivo. É portador de doença pulmonar obstrutiva crônica grave, com volume expiratório forçado no primeiro segundo de 32% do previsto e capacidade de difusão de 28%, além de hipertensão pulmonar moderada. O risco cirúrgico foi considerado proibitivo pela equipe multidisciplinar. Qual a alternativa terapêutica indicada?
Em tumor pulmonar inicial, sem acometimento linfonodal, em paciente com risco cirúrgico proibitivo por doença pulmonar avançada, a radioterapia estereotáxica corporal oferece controle local elevado com intenção curativa e baixa toxicidade. A lobectomia, mesmo por videotoracoscopia, é inviável com função pulmonar tão comprometida e hipertensão pulmonar. A pneumonectomia é ainda mais proibitiva nesse contexto funcional. Oferecer apenas cuidados paliativos priva o paciente de tratamento potencialmente curativo em doença localizada. A quimioterapia paliativa exclusiva subtrata um tumor inicial passível de controle local definitivo por radioterapia ablativa.
Homem, 62 anos, com carcinoma de pulmão em lobo inferior esquerdo, apresenta derrame pleural ipsilateral de moderado volume. A toracocentese revela exsudato com citologia oncótica positiva para adenocarcinoma. Não há metástases a distância em outros órgãos ao estadiamento por tomografia e por tomografia por emissão de pósitrons, e o desempenho funcional está preservado, com função orgânica adequada para tratamento sistêmico. Qual o estadiamento e a implicação terapêutica?
O derrame pleural com citologia positiva caracteriza doença M1a, ou seja, metastática, o que contraindica a ressecção com intenção curativa e direciona o tratamento para terapia sistêmica conforme o perfil molecular, associada a medidas de controle do derrame. Classificar como T4N0M0 e indicar lobectomia ampliada ignora a disseminação pleural comprovada. A classificação N2 se refere a linfonodos mediastinais ipsilaterais, situação distinta da descrita. A classificação T2N0M0 pressupõe ausência de derrame maligno. A radioterapia estereotáxica é opção para doença localizada inicial, incompatível com derrame pleural neoplásico documentado.
Homem, 74 anos, com carcinoma de pulmão avançado e obstrução brônquica por crescimento endoluminal, apresenta dispneia intensa em repouso, estridor e atelectasia do pulmão esquerdo. SatO2 88% com oxigênio por máscara, FR 32 ipm. Não é candidato a ressecção cirúrgica pela extensão da doença e pelo desempenho funcional. A broncoscopia confirma obstrução de 90% do brônquio principal esquerdo por tecido tumoral endoluminal. Qual a conduta paliativa mais adequada?
Obstrução endoluminal sintomática em paciente sem condições cirúrgicas é tratada por desobstrução broncoscópica com laser, eletrocautério ou crioterapia, associada à colocação de prótese brônquica, promovendo alívio rápido da dispneia e reexpansão pulmonar. A pneumonectomia paliativa tem morbimortalidade proibitiva nesse contexto. A toracotomia exploradora expõe o paciente a grande agressão sem benefício terapêutico. Apenas oxigenoterapia não resolve a obstrução mecânica que causa a dispneia. A pleurodese trata derrame pleural recidivante e não tem qualquer efeito sobre a obstrução da via aérea central.
Homem, 61 anos, com carcinoma de pulmão, apresenta na tomografia lesão pulmonar de 3 cm e uma única lesão suprarrenal de 2 cm, sem outras alterações. A tomografia por emissão de pósitrons mostra captação em ambas as lesões e em nenhum outro sítio. A biópsia da lesão suprarrenal confirma adenocarcinoma compatível com o primário pulmonar. O paciente tem bom desempenho funcional e função orgânica preservada. Qual a conduta a ser considerada?
Doença oligometastática, com um único sítio metastático suprarrenal e primário pulmonar controlável, pode ser abordada com intenção curativa por meio de terapia local dirigida a ambos os sítios, cirúrgica ou por radioterapia ablativa, associada a tratamento sistêmico, com sobrevida prolongada em pacientes selecionados. Cuidados paliativos exclusivos negam essa possibilidade em paciente com bom desempenho. Tratar apenas o pulmão deixa doença ativa na suprarrenal. A radioterapia paliativa em dose baixa não alcança controle local durável. Observar até surgirem sintomas permite disseminação e perda da janela de tratamento com intenção curativa.
Mulher, 55 anos, tabagista, apresenta tosse e perda ponderal, com achado de massa pulmonar de 4 cm em lobo superior direito. A broncoscopia com biópsia confirma carcinoma escamoso. A tomografia por emissão de pósitrons mostra captação apenas na lesão primária, sem linfonodos mediastinais ou hilares captantes e sem lesões a distância. A função pulmonar é adequada e a paciente tem bom desempenho funcional e sem comorbidades limitantes. Qual a conduta indicada?
Carcinoma pulmonar localizado, sem acometimento linfonodal ao estadiamento e em paciente operável com reserva funcional adequada, é tratado por lobectomia com linfadenectomia mediastinal sistemática, que garante ressecção oncológica e estadiamento patológico definitivo. A quimioterapia paliativa exclusiva subtrata doença potencialmente curável. A radioterapia isolada em dose baixa não alcança controle local adequado e não é conduta em paciente operável. A segmentectomia sem avaliação linfonodal viola princípios oncológicos, ainda que ressecções sublobares tenham papel em tumores pequenos selecionados com linfadenectomia. Apenas seguir com tomografias permite progressão de neoplasia já diagnosticada.
Homem, 63 anos, com carcinoma de pulmão, apresenta rouquidão progressiva há 2 meses, sem disfagia. A tomografia mostra massa em janela aortopulmonar de 4 cm, com linfonodos mediastinais aumentados. A laringoscopia revela paralisia de prega vocal esquerda. Não há metástases a distância nos exames de estadiamento realizados, e o paciente mantém desempenho funcional preservado, sem outras comorbidades relevantes. Qual a implicação desse achado?
A paralisia de prega vocal esquerda por invasão do nervo laríngeo recorrente na janela aortopulmonar caracteriza doença localmente avançada com acometimento mediastinal, classificada como T4, o que contraindica a ressecção com intenção curativa e direciona para tratamento multimodal. Considerar doença precoce e indicar lobectomia ignora o significado anatômico e prognóstico do achado. Atribuir a rouquidão a causa não relacionada contraria a correlação anatômica evidente com a massa. A doença não é M1, pois não há metástases a distância, embora seja localmente avançada. Infecção laríngea não produz paralisia de prega vocal com massa mediastinal correspondente.
Homem, 68 anos, com nódulo pulmonar de 2,2 cm em lobo inferior esquerdo, altamente suspeito de neoplasia, apresenta comorbidades importantes e função pulmonar limítrofe. A equipe considera a possibilidade de ressecção sublobar em vez de lobectomia. O nódulo é periférico, sem acometimento linfonodal ao estadiamento com tomografia por emissão de pósitrons e sem invasão de estruturas adjacentes identificada nos exames pré-operatórios. Qual consideração é correta sobre a ressecção sublobar?
A ressecção sublobar, como segmentectomia anatômica, pode ser considerada em tumores pequenos e periféricos, com margens adequadas e avaliação linfonodal apropriada, sobretudo em pacientes com reserva funcional limitada, com resultados oncológicos comparáveis em casos selecionados. Afirmar contraindicação absoluta ignora a evidência atual. Dispensar a avaliação linfonodal viola princípios oncológicos e compromete o estadiamento. Considerá-la preferível em todos os tumores desconsidera que lesões maiores ou centrais exigem lobectomia. Restringi-la a tumores maiores que 5 cm inverte completamente o critério, pois é justamente nos pequenos que ela é aceitável.
Mulher, 57 anos, com carcinoma de pulmão em lobo superior esquerdo, apresenta massa de 5 cm com invasão da parede torácica adjacente e dois arcos costais, sem acometimento linfonodal mediastinal comprovado por estadiamento invasivo e sem metástases a distância. Tem função pulmonar adequada, bom desempenho funcional e ausência de comorbidades limitantes ao tratamento cirúrgico proposto pela equipe multidisciplinar. Qual a conduta indicada?
Tumor pulmonar com invasão de parede torácica, sem acometimento mediastinal nem metástases, é ressecável em bloco, removendo-se o parênquima pulmonar e o segmento de parede acometido com margens livres, seguido de reconstrução, com adjuvância conforme o estadiamento patológico. A quimioterapia paliativa exclusiva subtrata doença potencialmente curável. A radioterapia isolada não alcança controle equivalente em paciente operável. Ressecar apenas o lobo deixando a parede invadida resulta em margem comprometida e recidiva local. Observar com tomografias permite progressão de neoplasia ressecável com intenção curativa.
Homem, 66 anos, tabagista, com massa de 4 cm no lobo superior direito e linfonodos mediastinais de 1,4 cm em estação paratraqueal direita, com captação aumentada no exame metabólico. A biópsia da lesão pulmonar confirma adenocarcinoma. PA 132x80 mmHg, FC 78 bpm, VEF1 de 74% do previsto. Não há doença a distância na investigação realizada até o momento. Sobre o estadiamento mediastinal invasivo, assinale a alternativa INCORRETA.
Afirmar que a captação aumentada dispensa a confirmação histológica é o erro pedido: processos inflamatórios e infecciosos produzem captação, e a decisão terapêutica em doença potencialmente ressecável exige comprovação tecidual. É verdadeiro que a punção guiada por ultrassonografia endobrônquica amostra estações mediastinais com boa acurácia. É correto que a mediastinoscopia permanece método de referência para diversas estações. É correto que uma punção negativa pode exigir confirmação cirúrgica, dado o valor preditivo negativo imperfeito. Também é correto que o acometimento mediastinal muda estratégia e prognóstico.
Homem, 62 anos, tabagista de 40 anos-maço, sem sintomas respiratórios, comparece ao ambulatório para consulta de rotina. PA 132x82 mmHg, FC 76 bpm, SatO2 96%, ausculta pulmonar normal. Parou de fumar há 3 anos e pergunta se existe algum exame para detectar câncer de pulmão antes do surgimento de sintomas, já que um irmão faleceu dessa doença. Sobre o rastreamento do câncer de pulmão, assinale a alternativa INCORRETA.
Afirmar que a radiografia de tórax anual é o método recomendado é o erro pedido: ensaios demonstraram que ela não reduz a mortalidade por câncer de pulmão, papel que coube à tomografia de baixa dose. É verdadeiro que a tomografia de baixa dose reduz a mortalidade específica em população selecionada. É correto que o rastreamento se dirige a tabagistas e ex-tabagistas com carga tabágica elevada e dentro de faixa etária definida. É correto que falso-positivos geram procedimentos invasivos desnecessários. Também é correto que a cessação do tabagismo continua sendo a intervenção preventiva mais efetiva.
Homem, 62 anos, assintomático, tabagista ativo com carga tabágica de 40 anos-maço, comparece para consulta de rotina. Nega perda ponderal, tosse, hemoptise ou dor torácica. Exame físico sem alterações; PA 132x84 mmHg, FC 76 bpm, SatO2 97% em ar ambiente. Radiografia de tórax realizada há 1 ano foi normal. Ele pergunta se existe algum exame para detecção precoce de câncer de pulmão em sua situação. Qual a conduta de rastreamento indicada?
A tomografia de tórax de baixa dose anual é a única estratégia com redução comprovada de mortalidade por câncer de pulmão, indicada a tabagistas ativos ou que cessaram há menos de 15 anos, com carga de pelo menos 20 anos-maço na faixa etária de 50 a 80 anos — perfil que o paciente preenche. A radiografia anual com citologia de escarro foi testada e não reduziu mortalidade, tendo sido abandonada como rastreamento. A tomografia com contraste aumenta dose de radiação e risco de nefropatia sem ganho de sensibilidade para nódulos. A abstenção de rastreamento desperdiça a janela de detecção precoce em paciente elegível, embora a cessação do tabagismo deva sempre ser oferecida junto. A broncoscopia com autofluorescência é ferramenta de avaliação de lesões centrais conhecidas, não método populacional.
Mulher, 58 anos, tabagista de 35 anos-maço, com tosse e dor torácica há 4 meses. Tomografia de tórax mostra massa de 4,5 cm no lobo superior esquerdo e linfonodos mediastinais homolaterais de 2,0 cm. PET-TC identifica nódulo suprarrenal esquerdo de 3 cm com captação intensa. Biópsia da massa pulmonar revela adenocarcinoma. Ressonância de crânio sem lesões secundárias; ECOG 1; função renal e hepática normais. Qual a classificação de estadiamento e a conduta correspondente?
A lesão suprarrenal hipercaptante em paciente com adenocarcinoma pulmonar caracteriza doença metastática à distância, definindo estádio IV; nessa situação o tratamento é sistêmico e deve ser precedido de pesquisa de alterações moleculares como EGFR, ALK e ROS1, além de expressão de PD-L1. A classificação de estádio IIIA com quimiorradioterapia desconsidera a metástase suprarrenal e trataria como doença localmente avançada ressecável. O estádio IB com lobectomia ignora tanto o acometimento mediastinal quanto o metastático. O estádio IIIB com radioterapia paliativa do mediastino subestima a extensão da doença e oferece tratamento local a quadro sistêmico. O estádio IIA com neoadjuvância pressupõe ausência de linfonodo mediastinal, contrariando a tomografia descrita.
Homem, 59 anos, tabagista, com dor intensa no ombro direito irradiada para a face medial do braço e quarto e quinto dedos há 4 meses, sem resposta a analgésicos comuns. Exame: ptose palpebral, miose e anidrose em hemiface direita; força reduzida na musculatura intrínseca da mão direita; SatO2 96% em ar ambiente. Radiografia inicial foi interpretada como normal, mas a tomografia revela massa apical direita de 4 cm com erosão da primeira costela. Qual a principal hipótese diagnóstica?
Dor no ombro com irradiação por território de C8 e T1, síndrome de Horner por comprometimento da cadeia simpática cervical e massa apical com erosão de costela em tabagista definem tumor do sulco superior, conhecido como tumor de Pancoast, quase sempre carcinoma não pequenas células. A hérnia discal cervical pode reproduzir a dor radicular, mas não causa ptose, miose e anidrose nem erosão costal. A síndrome do desfiladeiro torácico gera sintomas posicionais e não produz destruição óssea nem massa tomográfica. A tuberculose apical costuma cursar com sintomas constitucionais e infiltrado cavitário, sem síndrome de Horner. Metástase prostática produz lesão osteoblástica e habitualmente ocorre em contexto de doença já conhecida, com antígeno prostático elevado, dados ausentes na vinheta.
Homem, 67 anos, tabagista de 50 anos-maço, apresenta tosse com raias de sangue há 6 semanas e perda de 7 kg. Exame: FR 18 ipm, SatO2 95% em ar ambiente, murmúrio reduzido em hemitórax direito, sem baqueteamento. Radiografia de tórax mostra atelectasia do lobo superior direito. Tomografia confirma massa central de 3,5 cm obstruindo o brônquio lobar superior direito, sem linfonodomegalia mediastinal e sem lesões a distância evidentes. Qual o exame mais adequado para obtenção do diagnóstico histológico?
Lesão central que obstrui brônquio lobar é acessível por via endoscópica, e a broncoscopia flexível com biópsia direta oferece alto rendimento diagnóstico com baixa morbidade, permitindo ainda avaliar a extensão endobrônquica e a ressecabilidade. A biópsia transtorácica é preferida em lesões periféricas, e em massa central acrescentaria risco de pneumotórax e hemorragia sem vantagem. A citologia de escarro tem sensibilidade baixa e um resultado negativo não exclui neoplasia, atrasando a investigação. A mediastinoscopia serve ao estadiamento mediastinal, e a tomografia não mostrou linfonodomegalia a ser amostrada. A ressecção por toracotomia com congelação é conduta desproporcional quando existe método diagnóstico menos invasivo, além de comprometer o planejamento terapêutico sem estadiamento completo.
Homem, 66 anos, tabagista de 45 anos-maço, com dor em ombro direito irradiada para a face medial do braço há 4 meses, associada a fraqueza da mão direita. PA 134x82 mmHg, FC 78 bpm. Ptose discreta e miose à direita, com anidrose da hemiface direita. Atrofia dos músculos intrínsecos da mão direita e hipoestesia no território ulnar. Radiografia de tórax com opacidade em ápice pulmonar direito. Qual o diagnóstico?
O tumor de Pancoast explica a associação de síndrome de Horner completa, com anidrose facial, dor e déficit no território do tronco inferior do plexo braquial e opacidade no ápice pulmonar de tabagista pesado. A dissecção carotídea produz Horner com anidrose poupada, por preservação das fibras que acompanham a carótida externa, e não causa atrofia da mão. A siringomielia cursa com dissociação termoalgésica em capa, sem massa apical. A radiculopatia de oitavo nível não provoca síndrome de Horner nem lesão pulmonar. A esclerose múltipla não explica a opacidade radiológica nem o padrão de dor local.
Homem, 63 anos, tabagista, com dor e edema em punhos e tornozelos há 3 meses, associados a baqueteamento digital de instalação recente. Exame: FR 18 ipm, SatO2 95% em ar ambiente, dedos em baqueta de tambor, dor à palpação de extremidades distais dos ossos longos. Radiografias de punhos mostram reação periosteal em ossos longos. Tomografia de tórax revela massa de 4 cm no lobo superior esquerdo com bordas espiculadas. Qual a principal hipótese diagnóstica para o quadro articular?
Baqueteamento digital recente, artralgia com edema de punhos e tornozelos, dor à palpação de ossos longos e reação periosteal radiológica, em paciente com massa pulmonar suspeita, caracterizam osteoartropatia hipertrófica, síndrome paraneoplásica que costuma regredir com o tratamento do tumor primário. A artrite reumatoide cursaria com rigidez matinal prolongada, acometimento de pequenas articulações das mãos e sorologia positiva, sem reação periosteal. A gota manifesta-se com crises agudas monoarticulares ou oligoarticulares intensamente inflamatórias, com cristais de urato. A artrite séptica poliarticular cursaria com febre, toxemia e líquido sinovial purulento. A osteoartrite primária não produz reação periosteal nem baqueteamento digital de instalação recente.
Homem, 62 anos, tabagista de 45 anos-maço, refere dor em pernas e antebraços há 4 meses e alteração no formato dos dedos. PA 134x84 mmHg, FC 82 bpm, T 36,6 °C. Exame: baqueteamento digital em mãos e pés, edema e dor à palpação de tíbias e antebraços. Radiografia de tíbias com reação periosteal em camadas ao longo da diáfise. Tomografia de tórax com massa espiculada de 4 cm em lobo superior direito. Qual a conduta mais adequada?
A osteoartropatia hipertrófica com baqueteamento digital, dor óssea e reação periosteal em camadas nas diáfises é manifestação paraneoplásica clássica do carcinoma de pulmão, e a conduta é investigar e tratar o tumor, pois a artropatia costuma regredir com a ressecção ou o controle da neoplasia. Metotrexato não tem indicação nessa condição, que não é doença autoimune primária. Não há elementos de osteomielite multifocal, e antibiótico prolongado seria inútil. Corticoide não reverte o baqueteamento nem trata a causa. Biopsiar a tíbia antes de investigar a massa pulmonar inverte a prioridade diagnóstica em paciente tabagista com lesão espiculada altamente suspeita.
Ao descrever a extensão anatômica de uma ressecção por câncer pulmonar, qual distinção entre lobectomia e pneumonectomia está correta?
Os nomes indicam extensões anatômicas diferentes. A escolha depende da localização, da possibilidade de controle oncológico e da reserva funcional, entre outros fatores. Referência: NCI/NIH. Non-Small Cell Lung Cancer Treatment, PDQ. https://www.cancer.gov/types/lung/patient/non-small-cell-lung-treatment-pdq
Qual orientação é compatível com as evidências sobre o uso de suplementos de betacaroteno com a finalidade de prevenir câncer pulmonar em grandes fumantes?
Suplementação de betacaroteno não é estratégia preventiva para grandes fumantes e pode aumentar o risco. Esse achado não equivale a recomendar exclusão de frutas e verduras da alimentação. Referência: NCI/NIH. Lung Cancer Prevention, PDQ. https://www.cancer.gov/types/lung/patient/lung-prevention-pdq
Além do tabagismo, exposições ambientais participam do risco de câncer de pulmão. Qual descrição identifica corretamente o radônio nesse contexto?
Radônio deriva do decaimento de elementos radioativos naturais e pode infiltrar-se em edificações. Sua exposição se associa a câncer pulmonar, inclusive em pessoas que nunca fumaram. Referência: NCI/NIH. Lung Cancer Prevention, PDQ. https://www.cancer.gov/types/lung/patient/lung-prevention-pdq
Ao receber um resultado de sequenciamento de câncer pulmonar, qual distinção é essencial antes de afirmar que familiares herdaram o risco associado a uma variante?
Alterações somáticas surgem nas células do tumor e não demonstram transmissão familiar. Alguns achados levantam suspeita germinativa, que precisa de investigação específica e aconselhamento quando indicado. Referência: NCI/NIH. Biomarker Testing for Cancer Treatment. https://www.cancer.gov/about-cancer/treatment/types/biomarker-testing-cancer-treatment
Qual fundamento biológico pode justificar nova avaliação molecular de um câncer pulmonar que progrediu após resposta inicial ao tratamento?
Um teste fornece informações de um momento e de uma amostra. A evolução tumoral pode modificar os biomarcadores e tornar uma nova avaliação útil, conforme a situação clínica e a disponibilidade de opções. Referência: NCI/NIH. Biomarker Testing for Cancer Treatment. https://www.cancer.gov/about-cancer/treatment/types/biomarker-testing-cancer-treatment
Por que a identificação de um alvo molecular em uma amostra de câncer pulmonar não assegura que todas as células neoplásicas responderão ao medicamento correspondente?
Heterogeneidade intratumoral permite a coexistência de células com características e sensibilidades diferentes. Um alvo detectado na amostra não garante sua presença ou dependência funcional em todas as células. Referência: NCI/NIH. Biomarker Testing for Cancer Treatment. https://www.cancer.gov/about-cancer/treatment/types/biomarker-testing-cancer-treatment
No estudo molecular de um câncer pulmonar, qual descrição corresponde ao conceito de biópsia líquida para pesquisa de biomarcadores tumorais?
A biópsia líquida pode pesquisar biomarcadores tumorais, como DNA tumoral circulante, em fluidos. Não equivale à retirada de um fragmento sólido por agulha nem garante detecção em todos os casos. Referência: NCI/NIH. Dictionary of Cancer Terms: Liquid biopsy. https://www.cancer.gov/publications/dictionaries/cancer-terms/def/liquid-biopsy
Um painel molecular de câncer pulmonar identifica uma variante de significado incerto, sem evidência de ação terapêutica associada. Qual interpretação é correta?
Uma VUS não possui significado clínico estabelecido. Sua detecção não demonstra que seja oncogênica ou que prediga resposta a um medicamento; a decisão deve se apoiar em evidências validadas. Referência: NCI/NIH. Biomarker Testing for Cancer Treatment. https://www.cancer.gov/about-cancer/treatment/types/biomarker-testing-cancer-treatment
Na terapia fotodinâmica de lesões oncológicas selecionadas das vias aéreas, qual combinação é responsável pelo efeito terapêutico local?
O fármaco fotossensibilizante é ativado pela luz aplicada ao local. Isso difere de simples corte térmico a laser, de crioterapia e de radioterapia ionizante. Referência: NCI/NIH. Non-Small Cell Lung Cancer Treatment, PDQ. https://www.cancer.gov/types/lung/patient/non-small-cell-lung-treatment-pdq
Qual característica técnica distingue a radioterapia estereotáxica corporal, utilizada em situações selecionadas de câncer pulmonar, de esquemas convencionais mais fracionados?
SBRT combina localização precisa, controle do posicionamento e doses elevadas por fração em poucas sessões. O planejamento busca poupar tecidos normais ao redor do alvo. Referência: NCI/NIH. Non-Small Cell Lung Cancer Treatment, PDQ. https://www.cancer.gov/types/lung/patient/non-small-cell-lung-treatment-pdq
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em 7 dias
Pequenas células 15%, células não pequenas 85%. No pequenas células a cirurgia não é recomendada e a classificação é localizada (confinada ao hemitórax de origem, mediastino e supraclavicular ipsilateral, tratável por um mesmo campo de irradiação) ou extensa; sobrevida em 5 anos de 10% e 5%; irradiação craniana profilática 25 Gy em 10 frações só aqui, nunca no células não pequenas. TNM nona edição, vigente desde 1º/1/2025: T inalterado; N2 dividido em N2a (uma estação mediastinal ipsilateral ou subcarinal) e N2b (múltiplas estações); M1c dividido em M1c1 (um sistema orgânico) e M1c2 (múltiplos sistemas). T1N2a virou IIB; T1N1 virou IIA; M1c1 e M1c2 são ambos IVB. Contagem por estação, não por linfonodo. Estadiamento brasileiro: TC de tórax e abdome superior com contraste sempre; cintilografia óssea no pequenas células ou com dor óssea; imagem de crânio no pequenas células ou com suspeita clínica; PET-CT só no células não pequenas potencialmente ressecável. Linfonodo mediastinal de 16 mm ou mais à TC obriga mediastinoscopia cervical ou toracoscopia. Função: VEF1 e DLCO ≥ 80% liberam até pneumonectomia; abaixo disso calcula-se o previsto pós-operatório por segmentos; abaixo de 40% vai para teste de exercício. Estádio I inoperável tem saída curativa: irradiação ablativa estereotática.
em 30 dias
Refaça o capítulo em três colunas e uma data. Coluna do TIPO: pequenas células fora da cirurgia, com doença localizada e extensa, quimioterapia com platina e etoposídeo, irradiação torácica e irradiação craniana profilática; células não pequenas com subtipo escamoso e não escamoso e pesquisa de mutação do receptor de fator de crescimento epitelial no adenocarcinoma, que abre erlotinibe ou gefitinibe. Coluna do ESTÁDIO: reconstrua a grade da nona edição de memória, linha a linha, nas colunas N0, N1, N2a, N2b e N3 — e confira que T1 com N2a dá IIB, T2a com N2a dá IIIA, T3 com N2b dá IIIB e T4 com N3 dá IIIC. Depois recite as regras de nódulo separado: mesmo lobo T3, outro lobo ipsilateral T4, lobo contralateral M1a; e o Pancoast, T4 acima da raiz T1 e T3 quando só raízes torácicas. Coluna da FUNÇÃO: os três degraus, com 80%, 40% e o consumo de oxigênio; a fórmula do previsto pós-operatório com segmentos pérvios sobre funcionantes; e a regra de avaliar sempre para pneumonectomia. A DATA é a régua dupla: classifique pela nona edição, de 2025, mas saiba que a conduta que o SUS autoriza está escrita nas Diretrizes de 2014, que falam em N2 sem subdividir e reservam a ressecção do IIIA ao T3N1M0. Feche recitando as três divergências e a causa de cada uma: edição do TNM, por diferença de data; limiar de linfonodo mediastinal, 10 mm de imagem contra 16 mm de exigência cirúrgica, por contexto epidemiológico de tuberculose; e lobectomia contra ressecção sublobar no periférico de até 2 cm sem linfonodo, por evidência randomizada publicada depois do documento nacional.
Agora atenda
Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.
Homem de 64 anos, ex-tabagista de 40 anos-maço, chega ao ambulatório com o resultado da broncoscopia: adenocarcinoma de pulmão. Traz a tomografia — lesão de 3,2 cm no lobo inferior esquerdo, dois linfonodos mediastinais ipsilaterais de estações diferentes, sem derrame — e uma espirometria feita no ano passado, com volume expiratório forçado de 55% do previsto. Quer saber se vai operar, e quando. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.
