Cirurgia GeralCirurgia Torácica

Perfuração esofágica: o relógio decide, e o nome que a prova usa é o que a diretriz recusa

A vinheta é sempre a mesma — esforço de vômito, dor retroesternal, enfisema cervical, derrame à esquerda. O que separa a resposta certa da errada não é reconhecer a doença: é saber que duas réguas de mesmo grau respondem à mesma pergunta sem competir, uma decidindo a indicação e a outra o relógio.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Homem de 52 anos, etilista, é admitido 24 horas após episódio de vômitos intensos, com dor torácica retroesternal e dispneia. Ao exame: PA 100x64 mmHg, FC 112 bpm, FR 26 ipm, T 38,4 °C; enfisema subcutâneo cervical e crepitação à ausculta cardíaca sincronizada com o batimento (sinal de Hamman). A radiografia mostra pneumomediastino e derrame pleural à esquerda. Qual é o diagnóstico mais provável?

02

Como esse tema cai

Este capítulo trata da ruptura transmural do esôfago no adulto — pós-emética, iatrogênica, traumática ou por corpo estranho — e da contaminação cervical, mediastinal ou pleural que ela produz. É uma emergência em que o mecanismo, o tempo desde a perfuração, o grau de contenção e a retaguarda do serviço definem a conduta.

A síndrome de Boerhaave pode produzir pneumomediastino, hidropneumotórax e derrame pleural, mas tratar apenas o espaço pleural não controla a fonte. O contraste útil é com a laceração de Mallory-Weiss: ambas podem seguir esforço emético, porém a primeira rompe toda a parede e contamina o mediastino, enquanto a segunda é mucosa e se manifesta principalmente por hemorragia digestiva.

O que este capítulo não cobre: ingestão de cáustico e suas estenoses, corpo estranho de via aérea, trauma penetrante de pescoço na sua parte vascular e o câncer de esôfago. Os três primeiros têm capítulo em outra apostila; o último tem capítulo na apostila de Cirurgia do Aparelho Digestivo. O que fica aqui é a parede rompida e o mediastino contaminado.

03

O que muda decisão

O nome que a diretriz recusa por escrito, e usa três frases antes

A diretriz de emergências esofágicas da Sociedade Mundial de Cirurgia de Emergência, de 2019, faz uma cessão de vocabulário rara em documento normativo. Ela escreve que o vômito ou o esforço de ânsia que produz perfuração passou erroneamente a ser conhecido como perfuração esofágica espontânea, que a rotura não é espontânea, e que seria melhor usar outros termos, como ruptura barogênica ou síndrome de Boerhaave.

Porque três frases antes, no mesmo parágrafo, ela define assim: perfuração esofágica espontânea, entre parênteses síndrome de Boerhaave, deve-se com mais frequência ao aumento abrupto da pressão esofágica após esforço de vômito sem relaxamento do esfíncter superior. O documento usa o termo que declara errado na sentença que abre o assunto, e só depois explica por que ele é errado. Não é descuido de revisão: é o registro de que o nome pegou e não sai.

Na prática e nas provas, perfuração espontânea, ruptura pós-emética, ruptura barogênica e síndrome de Boerhaave podem nomear o mesmo evento. Reconheça o rótulo consagrado, mas prefira a descrição do mecanismo: aumento abrupto da pressão intraluminal durante vômito, sem relaxamento adequado do esfíncter superior.

O que fazer com isso não é o que o aluno bem-informado tende a fazer. Não marque contra o termo. A alternativa que diz espontânea é a única que nomeia a doença certa, e o examinador não testa nomenclatura. Guarde a objeção para a pergunta em que duas alternativas descrevem a mesma doença e uma acrescenta o mecanismo: aí ruptura barogênica por pressão intraluminal contra esfíncter fechado é melhor, porque contém a física do evento.

Esquema do esôfago em corte com rompimento na borda esquerda do terço inferior, extravasamento para o espaço pleural esquerdo e ar infiltrado nos tecidos do pescoço.
A rasgadura é quase sempre na borda esquerda do terço inferior do esôfago torácico, e é por isso que o derrame que aparece na radiografia é à esquerda.

Uma anatomia que faz a rasgadura cair sempre no mesmo lugar

O esôfago não tem serosa. É o único segmento do tubo digestivo que atravessa duas cavidades sem uma camada externa que contenha o rasgo e ajude a sutura a segurar. A diretriz de 2013 do mesmo colegiado abre por aí: falta de revestimento seroso, suprimento sanguíneo tênue e segmentar e atraso habitual no diagnóstico. A terceira é a única que o médico da emergência controla.

A rasgadura tem endereço fixo, e o endereço explica o exame de imagem. A diretriz de 2019 registra que a lesão fica, em regra, na borda esquerda do terço inferior do esôfago torácico, e que o defeito é grande: de três a oito centímetros. É um rasgo longitudinal, não um furo. Por isso o extravasamento vai para o espaço pleural esquerdo, e por isso a radiografia da vinheta clássica mostra derrame à esquerda.

O relato brasileiro de três casos no Jornal Brasileiro de Pneumologia mostra o quanto esse achado engana isolado. No primeiro, a hipótese inicial da equipe foi embolia pulmonar. No segundo, o paciente chegou com enfisema subcutâneo aparentemente espontâneo, sem dor torácica, e a primeira hipótese foi pneumomediastino espontâneo, que os autores descrevem como benigno. Nos três, a toracotomia encontrou mediastinite extensa.

O que desfez o engano no segundo caso foi a toracocentese: aspiração de líquido com aspecto de secreção digestiva e elevação da amilase no líquido pleural. Guarde o par, porque é a ponte com o capítulo de derrame pleural desta apostila — derrame à esquerda com amilase alta e aspecto digestivo não é parapneumônico, e a punção que se faria de qualquer jeito já responde a pergunta.

A tríade que a banca monta, e as doenças com que ela compete

O quadro clássico reúne dor torácica súbita após esforço de vômito, enfisema subcutâneo cervical e o próprio gatilho emético. Podem somar-se o sinal de Hamman e, na radiografia, pneumomediastino com derrame pleural esquerdo. A ausência da tríade completa não afasta a doença; o contexto e a tomografia com contraste é que definem a suspeita e a extensão.

O relato brasileiro nomeia por escrito as três doenças com que a síndrome é confundida, e repete a lista no resumo e na introdução: infarto agudo do miocárdio, úlcera péptica perfurada e pancreatite aguda. A escolha não é aleatória — as três são graves, muito mais prevalentes e produzem dor abrupta de tronco em paciente que chega mal.

Compare com o que as bancas oferecem como alternativa errada. Nas cinco questões, os distratores repetidos são infarto de parede inferior ou anterior, dissecção aguda de aorta, pancreatite com irradiação torácica, pneumonia com derrame parapneumônico e síndrome de Mallory-Weiss. Três dos cinco vieram da lista brasileira; dissecção e pneumonia foram acrescentadas pelas bancas. A lista de erros da literatura virou a lista de distratores.

O acréscimo que mais ensina é o de Mallory-Weiss, porque as duas lesões nascem do mesmo gesto. O esforço que rasga só a mucosa da junção produz hemorragia digestiva alta e costuma parar sozinho; o mesmo esforço, com o esfíncter superior fechado, rasga toda a parede e produz mediastinite. O gatilho é idêntico e o desfecho não tem nada em comum.

O relógio: quatro pares de números, e um ponteiro diferente

Este é o eixo em torno do qual o tema gira, e o único ponto em que as fontes convergem sem ressalva: o atraso entre a perfuração e o tratamento é o preditor dominante de mortalidade. A diretriz de 2019 quantifica: abaixo de dez por cento dentro de vinte e quatro horas, contra trinta por cento depois.

A série de quarenta e um casos do Hospital Municipal do Andaraí, no Rio, mediu o próprio par: menos de vinte e quatro horas em vinte e três pacientes e mais em dezoito, com um óbito entre os precoces e oito entre os tardios. A de Teresina cita da literatura dez a vinte e cinco por cento antes e quarenta a sessenta depois. E a de Attar, reproduzida dentro do artigo carioca, teve vinte e sete sobreviventes em trinta e um precoces e dezoito em trinta e três tardios.

Ponha os quatro pares lado a lado. Os tardios são trinta por cento, quarenta e quatro, quarenta e cinco e a faixa de quarenta a sessenta: eles convergem. Os precoces são abaixo de dez, quatro vírgula três, treze e a faixa de dez a vinte e cinco — um fator de três entre o menor e o maior. Ou seja, a punição do atraso é reprodutível e o benefício da pressa não é, porque quem chega cedo varia muito entre hospitais, enquanto o mediastino contaminado por um dia inteiro é a mesma doença em qualquer lugar.

E há um ponteiro diferente escondido no mesmo parágrafo do artigo carioca. Ao citar a série de Weigelt, com trinta e três perfurações cervicais, os autores registram que entre os tratados nas primeiras doze horas morreram nove por cento. Não são vinte e quatro: são doze. Um terceiro relógio, aplicado a outro segmento, no mesmo bloco de texto que sustenta o de vinte e quatro.

Comparação em duas colunas entre tratamento precoce e tardio, com a mesma rasgadura produzindo contaminação contida de um lado e contaminação extensa do outro.
O que muda entre as duas colunas não é a lesão: é a extensão da contaminação que ela produziu enquanto ninguém sabia dela.

Aritmética das séries: dois percentuais impressos para o mesmo número

A Tabela 3 do artigo carioca imprime, na última célula, quarenta e um pacientes e nove óbitos, com o percentual entre parênteses: vinte e um por cento. Três parágrafos adiante, o texto escreve que dos quarenta e um nove morreram, e o percentual é vinte e dois por cento. Nove sobre quarenta e um dá vinte e um vírgula nove cinco: a tabela truncou, o texto arredondou. Antes de acusar, note que a tabela fecha por soma em todas as direções — o que difere é só a regra de aproximação. Carregue vinte e dois por cento e reconheça vinte e um como a mesma coisa. O mesmo defeito reaparece no resumo, que dá quatro por cento para a janela precoce onde a tabela imprime quatro vírgula três.

A série de Teresina tem deslize de outra natureza. O resumo dá o tratamento conservador para dois pacientes, dezoito vírgula dois por cento, e o cirúrgico para nove, oitenta e um vírgula nove. Nove sobre onze é oitenta e um vírgula oito, e os dois somam cem vírgula um. E a Tabela 1 mistura regras numa coluna só: corpo estranho, cinco em onze, sai truncado como quarenta e cinco vírgula quatro; arma branca, dois em onze, sai arredondado como dezoito vírgula dois. Duas linhas vizinhas, duas regras diferentes.

A conta que recupera inteiros que o artigo nunca imprime, e um divisor que escorregou

A série de Botucatu traz o caso mais instrutivo, e uma coluna que as outras duas não têm: vinte e quatro pacientes em dois grupos de doze — no primeiro a perfuração ocorreu na evolução de câncer de esôfago, no segundo por causas diversas. Nem a série carioca nem a de Teresina tem um caso de perfuração sobre câncer, de modo que comparar as três mortalidades globais sem retirar essa coluna é comparar doenças diferentes.

A mortalidade sai publicada por grupo: vinte e cinco por cento e oito vírgula trinta e três por cento. O agregado não é uma segunda medição: é média ponderada de dois grupos de peso igual, e vale dezesseis vírgula sessenta e sete. O artigo nunca imprime esse número — e a conta recupera inteiros que ele também não imprime. Vinte e cinco por cento de doze são três óbitos; oito vírgula trinta e três por cento de doze é um. O texto confirma por via narrativa: um paciente faleceu após entubação transtumoral e a evolução desfavorável ocorreu em mais dois, o que soma três; no outro grupo, fala do óbito único. Quatro óbitos em vinte e quatro.

É aí que aparece o divisor que escorregou. A discussão afirma que o índice de sobrevida desta série é de noventa e um por cento. Com vinte e quatro pacientes e quatro óbitos, a sobrevida é oitenta e três vírgula três. O número que se aproxima de noventa e um é onze sobre doze, que dá noventa e um vírgula sessenta e sete — o divisor do Grupo 2. A confirmação vem de um segundo percentual independente impresso pelos próprios autores: cem menos oito vírgula trinta e três dá exatamente noventa e um vírgula sessenta e sete. A frase da discussão trocou o denominador da série pelo do subgrupo, e a conclusão que ela sustenta exclui, sem avisar, os doze doentes com câncer.

Dois denominadores para a mesma fração, e a distância que desaba de um lado

Que fração das perfurações de esôfago é a rotura por esforço de vômito? Duas fontes respondem com números parecidos e denominadores diferentes, e é o denominador que decide. A diretriz de 2019 escreve quinze por cento das perfurações esofágicas — todas elas. O relato brasileiro escreve dez a quinze por cento dos casos de perfuração do esôfago torácico — um subconjunto.

Os intervalos se tocam, o que dá a impressão confortável de que as fontes concordam. Elas medem coisas diferentes. Para dimensionar a discordância é preciso renormalizar ao mesmo divisor, usando uma série que publique a distribuição por segmento. A carioca publica: dezenove cervicais, vinte torácicos e dois abdominais em quarenta e um — o torácico é quarenta e nove por cento do total.

Agora as contas. Se a síndrome é quinze por cento de todas as perfurações e as torácicas são metade delas, a síndrome seria cerca de trinta por cento das torácicas, o dobro e meio do teto brasileiro. No caminho inverso, dez a quinze por cento das torácicas equivalem a cinco a sete por cento de todas, menos da metade do piso internacional. Renormalizar não aproxima as duas afirmações: escancara um fator de duas vezes e meia.

O desempate vem da própria série carioca, que mediu as suas duas roturas espontâneas. Duas em quarenta e um é quatro vírgula nove por cento de todas; duas em vinte é dez por cento das torácicas. Contra o divisor internacional a série fica três vezes abaixo; contra o brasileiro pousa exatamente no piso do intervalo. A distância desaba de um lado e cresce do outro.

E há mecanismo por trás. A série carioca é de um hospital municipal do Rio em que vinte e sete dos quarenta e um casos foram por projétil de arma de fogo: setenta e um por cento de ferimento penetrante, contando a arma branca. Denominador inchado por trauma urbano dilui qualquer causa não traumática. O denominador carrega a cidade; o número que a prova cobra é o do numerador.

Duas réguas de mesmo grau que não competem: quem pode não operar, e quando operar

A pergunta que a prova faz é uma só — o que eu faço com este paciente agora. A diretriz responde com duas réguas separadas, de mesmo grau, cada uma decidindo uma coisa diferente.

A primeira decide a indicação. O tratamento não operatório pode ser considerado em paciente estável, de apresentação precoce, com rotura contida e contaminação mínima, desde que haja vigilância altamente especializada. A tabela detalha: atraso menor que vinte e quatro horas; ausência de sinais de sepse; localização cervical ou torácica; perfuração contida, seja intramural, seja com extravasamento mínimo que drena de volta para a luz, sem contaminação pleural maciça; ausência de doença esofágica preexistente; e disponibilidade ininterrupta de recurso cirúrgico e radiológico com equipe experiente.

A segunda decide o relógio. A cirurgia deve ser empreendida em todos os que não preencherem os critérios e, uma vez indicada, o doente vai à sala o mais cedo possível — mesmo atrasos menores podem aumentar morbidade e mortalidade. Uma responde quem, a outra responde quando. O condicional está invertido em relação ao que o aluno espera: não é o tempo que libera a conduta conservadora, é o preenchimento dos critérios, e o tempo é apenas um dos seis.

Repare no que o último bloco da tabela faz com o caso brasileiro. Ele não fala do doente: fala do serviço. Sem equipe esofágica experiente e sem cirurgia e radiologia a qualquer hora, o critério não é preenchido, por mais contida que esteja a perfuração. É por isso que a vinheta com hospital sem retaguarda quase sempre tem resposta cirúrgica ou de transferência.

Há ainda uma terceira régua, apresentada com reserva calculada. O escore de gravidade de Pittsburgh reúne dez fatores clínicos e radiológicos e foi validado em estudo multinacional; a diretriz relata que se sugeriu que escore baixo, dois ou menos, pudesse ser elegível a tratamento não operatório. O verbo é do documento, e não substitui a tabela de critérios.

O número mais objetivo é o que a régua nova manda relativizar

A série carioca tem uma medida de acurácia que qualquer aluno gostaria de ter na mão. O exame contrastado com sulfato de bário foi realizado em vinte e dois doentes, definiu o diagnóstico em vinte e um e teve um falso negativo — noventa e cinco por cento, medido em campo. É o número mais objetivo do artigo inteiro.

E é justamente o exame que a diretriz de 2019 desloca. Na suspeita de perfuração, o exame de escolha é a tomografia com contraste, incluindo a esofagografia por tomografia; o esofagograma fica para casos selecionados, em que possa informar a localização e o caráter contido. No capítulo de corpo estranho, o mesmo documento recomenda que o estudo contrastado não atrase outras investigações.

Não há contradição. O bário acerta o diagnóstico; a tomografia responde a outra pergunta — onde está, quanto vazou, se está contido, se há coleção drenável. Como a conduta se decide pela extensão da contaminação e não pela existência da rotura, o exame que informa a decisão passou a valer mais. Noventa e cinco por cento continua verdadeiro e ficou insuficiente: é o maior número da fonte e o que menos decide sozinho.

A endoscopia ocupa lugar simétrico e desconfortável. A diretriz registra que a endoscopia diagnóstica é confiável e segura em mãos experientes e, na mesma frase, que o risco de ampliar o tamanho da perfuração justifica cautela e limita seu uso como exame de primeira linha. Ela é padrão-ouro para fechar a perfuração reconhecida durante um procedimento endoscópico, e objeto de ressalva explícita quando a proposta é usá-la de saída na síndrome de Boerhaave.

Fecha o bloco uma frase da série brasileira que nenhuma régua substitui: na escolha do tratamento conservador, a experiência do cirurgião é fundamental. Ela vem logo depois dos critérios objetivos que o mesmo artigo enumera. Os critérios delimitam; o julgamento decide dentro do que eles delimitam.

Onde a lesão está muda a operação, e o segmento mais brando carregou o único óbito

A conduta se organiza por segmento, e a diretriz dá um princípio geral em cinco itens antes de dividir: exposição excelente, desbridamento do tecido inviável, fechamento do defeito, reforço para proteger a sutura e drenagem adequada. Os cinco valem para qualquer altura do esôfago; o que muda é a viabilidade de cada um.

No esôfago cervical, o reparo direto deve ser tentado sempre que factível; quando não for — rotura acima de metade da circunferência ou exploração já atrasada —, a recomendação é drenagem externa. É a região de melhor prognóstico das três, e a série de Botucatu conclui, com todas as letras, que o cervical é a sede de lesões com melhor prognóstico, desde que sem comprometimento de órgãos vitais vizinhos.

No esôfago torácico com perfuração livre, o reparo primário é o tratamento de escolha: interrupção imediata da contaminação, desbridamento até tecido sadio, fechamento sem tensão e drenagem externa, com reforço por tecido viável vizinho — músculo intercostal, retalho pleural ou pericárdico. A esofagostomia cervical de derivação para saliva, em geral, não é recomendada. Quando o reparo direto não é factível, entram exclusão, derivação ou ressecção.

E aqui está o contraponto que as duas séries brasileiras entregam contra a literatura que citam. A de Botucatu registra que, embora a maioria aponte a torácica como a de pior prognóstico, na casuística deles o único óbito do Grupo 2 foi numa lesão abdominal — a fundoplicatura videolaparoscópica cuja perfuração não foi vista no intraoperatório. Na carioca, o segmento abdominal teve dois casos e um óbito: cinquenta por cento, a maior taxa dos três, sobre o menor denominador da tabela. É o número mais alto do trabalho e o que menos decide sozinho.

O que sobra de utilizável é a mecânica. O esôfago abdominal é curto e é onde a perfuração iatrogênica de cirurgia eletiva acontece. A brandura atribuída a ele vem da localização; a gravidade vem de não ter sido percebida na hora.

Três faixas mostrando o esôfago cervical num espaço estreito, o torácico num espaço amplo entre os pulmões e o abdominal num compartimento largo abaixo do diafragma.
O mesmo tubo atravessa três espaços de contenção muito diferentes, e é o espaço, não o tubo, que define o que a rotura faz.

Prótese contra sutura: dois números que parecem resolver e não resolvem

A diretriz reproduz uma comparação que circula muito e precisa ser lida com o denominador à vista. Numa revisão recente, próteses autoexpansíveis para vazamentos esofágicos resultaram em oitenta e oito por cento de sucesso e sete vírgula cinco por cento de mortalidade, contra oitenta e três por cento e dezessete por cento da cirurgia — o que levou os autores a concluir que a prótese pode ser estratégia alternativa.

O problema não está nos números e sim no que eles agregam. A revisão de próteses reúne vazamentos espontâneos, iatrogênicos e pós-operatórios no mesmo bolo; a comparação cirúrgica é com outra série e outra população. Não é ensaio nem comparação pareada, e quem vai para prótese é quem tinha lesão pequena, contida e reconhecida cedo.

Os detalhes técnicos que a prova cobra são estes. O clipe endoscópico é o método atual para perfurações luminais menores que dois centímetros. A prótese, parcial ou totalmente recoberta, cobre defeitos maiores ou completa fechamento insatisfatório por clipe, e deve ser mantida por um mínimo de duas a quatro semanas. Lembre do tamanho do defeito da síndrome de Boerhaave: de três a oito centímetros. O defeito típico está acima do teto do clipe por um fator de pelo menos um e meio, e é essa a razão mecânica pela qual o documento reserva a endoscopia de primeira linha para a perfuração iatrogênica reconhecida no ato.

O contraponto brasileiro explica o que contido quer dizer na prática. A série carioca tratou sem operar quatro pacientes, todos com perfurações pequenas por procedimento endoscópico e dilatação no esôfago torácico, e registra o mecanismo: as aderências pleurais e pulmonares existentes favoreceram a conduta conservadora, e os quatro sobreviveram. A contenção não foi escolha do cirurgião; foi propriedade anatômica prévia daquele tórax. A diretriz relata ainda um serviço que conduziu sem operar sessenta e oito por cento de quarenta e sete doentes, com seis por cento de mortalidade.

04

Quatro estados de contaminação, e o que cada um permite fazer

Os quatro cartões abaixo estão em ordem crescente de contaminação dos espaços vizinhos, que é o eixo pelo qual a conduta se decide — e não pelo tamanho do rasgo nem pela intensidade da dor. O que muda de um cartão para o seguinte é sempre a mesma coisa: o quanto já saiu do tubo e há quanto tempo. O relógio de vinte e quatro horas aparece só no primeiro, porque é lá que ele é critério de elegibilidade; nos outros três ele já é apenas prognóstico.

Contida, precoce, sem sepse — pode não operar

Menos de vinte e quatro horas, sem sintomas nem sinais de sepse, perfuração cervical ou torácica contida pelos tecidos vizinhos, extravasamento mínimo que drena de volta para a luz, sem contaminação pleural maciça, sem doença esofágica preexistente. E, no último critério, o que depende do hospital e não do doente: equipe esofágica experiente e recurso cirúrgico e radiológico disponíveis a qualquer hora. Faltando um item, o cartão não é este.

Reconhecida durante a endoscopia, menor que dois centímetros

O fechamento endoscópico é padrão-ouro para a perfuração que ocorre e é identificada durante o próprio procedimento endoscópico. Clipe através do aparelho ou sobre o aparelho para defeito abaixo de dois centímetros; prótese recoberta para defeito maior ou para completar fechamento insatisfatório, mantida de duas a quatro semanas. Não é este o cartão da rotura por esforço de vômito, cujo defeito mede de três a oito centímetros.

Livre no esôfago torácico, bordas viáveis — reparo primário

Interrupção imediata da contaminação mediastinal e pleural, desbridamento até tecido sadio, fechamento primário sem tensão e drenagem externa adequada, com reforço da sutura por tecido viável vizinho — músculo intercostal, retalho pleural ou pericárdico. A esofagostomia cervical de derivação para saliva, em geral, não é recomendada. Indicada a cirurgia, o doente vai à sala o mais cedo possível: atrasos mesmo pequenos aumentam morbidade e mortalidade.

Contaminação extensa, tardia ou instável — exclusão, derivação ou ressecção

Quando o reparo direto não é factível — instabilidade hemodinâmica, exploração cirúrgica tardia, dano esofágico extenso — entram exclusão, derivação ou ressecção. No esôfago cervical, rotura acima de metade da circunferência ou exploração atrasada indicam drenagem externa em vez de reparo. Uma casuística nordestina de diagnóstico tardio relata mortalidade de sessenta e oito a oitenta e três por cento sem esofagectomia, contra nove a dezoito por cento com ela.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

O nome da doença: a diretriz recusa o termo e o usa no mesmo parágrafo

Espontânea — o rótulo consagrado, usado pela própria diretriz

A diretriz de 2019 abre o assunto com o termo consagrado, perfuração esofágica espontânea, e logo o vincula à síndrome de Boerhaave: aumento abrupto da pressão esofágica após esforço de vômito sem relaxamento do esfíncter superior.

Chirica et al., 2019, seção de perfurações esofágicas

Barogênica — o termo que o mesmo documento prefere, três frases depois

O documento escreve que o esforço de ânsia ou vômito que causa perfuração passou erroneamente a ser conhecido como perfuração espontânea, que não é espontânea, e que talvez seja melhor usar outros termos, como ruptura barogênica ou síndrome de Boerhaave. É a cessão de vocabulário por escrito, dentro do documento que usa o vocabulário cedido.

Chirica et al., 2019, mesma seção, parágrafo seguinte

Pós-emética — o termo do relato brasileiro, que descreve o gatilho

O Jornal Brasileiro de Pneumologia titula o relato como ruptura pós-emética do esôfago e trata espontânea como sinônimo no resumo. É o termo que nomeia o gatilho sem afirmar espontaneidade, e por isso não colide com a objeção internacional.

Mota, Ximenes Netto e Medeiros, 2007, título e resumo

Na prova

Não descarte a síndrome de Boerhaave apenas porque a alternativa usa o termo espontânea: esse rótulo permanece consagrado. Quando duas alternativas descrevem a mesma entidade, prefira a que explicita o mecanismo — aumento abrupto da pressão intraluminal durante vômito, sem relaxamento adequado do esfíncter superior.

Que fração das perfurações é a rotura por vômito — dois denominadores diferentes

Quinze por cento de todas as perfurações esofágicas

A diretriz internacional registra que a perfuração espontânea responde por quinze por cento das perfurações esofágicas, sem restringir a segmento. Sobre a distribuição por segmento da série carioca, em que o torácico é quarenta e nove por cento do total, isso implicaria cerca de trinta por cento das torácicas.

Chirica et al., 2019

Dez a quinze por cento das perfurações do esôfago torácico

O relato brasileiro escreve que a ruptura pós-emética representa de dez a quinze por cento dos casos de perfuração do esôfago torácico, e acrescenta que é a terceira causa mais frequente nesse segmento. Renormalizado para todas as perfurações, o intervalo vira cinco a sete por cento.

Mota, Ximenes Netto e Medeiros, 2007

O que uma série de campo mediu, nos dois divisores

A série de quarenta e um casos do Andaraí teve duas rupturas espontâneas: quatro vírgula nove por cento de todas as perfurações e dez por cento das torácicas. Contra o divisor internacional fica três vezes abaixo; contra o divisor brasileiro pousa no piso do intervalo. O perfil da série explica: setenta e um por cento foram ferimentos penetrantes.

Marsico et al., 2003, Tabela 1

Na prova

Leia o denominador antes do número. Se a alternativa diz quinze por cento, procure se o enunciado fala de perfurações do esôfago em geral ou só das torácicas; a mesma fração muda de sentido conforme o divisor, e as duas fontes que mais circulam usam divisores diferentes sem avisar. Renormalizadas ao mesmo divisor, elas discordam por um fator de duas vezes e meia.

O ponteiro do relógio: vinte e quatro horas, ou doze

Vinte e quatro horas, o corte que serve de critério e de prognóstico

A diretriz internacional dá abaixo de dez por cento antes e trinta por cento depois, e o mesmo intervalo de vinte e quatro horas é o primeiro item da tabela de elegibilidade ao tratamento não operatório. A série carioca mediu um óbito em vinte e três precoces e oito em dezoito tardios.

Chirica et al., 2019; Marsico et al., 2003, Tabela 3

Doze horas, num segmento específico

Citada dentro do artigo carioca, a série de Weigelt acompanhou trinta e três perfurações do esôfago cervical de causa traumática ou iatrogênica e usou doze horas como corte, com nove por cento de óbito entre os tratados dentro do prazo. É um terceiro relógio, aplicado a um segmento diferente, no mesmo parágrafo do artigo.

Weigelt et al., citado por Marsico et al., 2003

Onde as fontes convergem e onde não convergem

Os números tardios ficam entre trinta e sessenta por cento nas quatro fontes; os precoces variam de quatro vírgula três a vinte e cinco por cento, um fator de três. A punição do atraso reproduz entre serviços; o benefício da pressa depende de quem chega cedo em cada hospital.

Comparação entre Chirica 2019, Marsico 2003, Andrade 2008 e Attar citado por Marsico

Na prova

O par que a prova cobra é o de vinte e quatro horas, e ele aparece com números diferentes conforme a fonte. Guarde a estrutura, não o dígito: abaixo de vinte e quatro horas a mortalidade é de um dígito a pouco mais de dez por cento; acima, é de trinta a sessenta. Se o enunciado trouxer doze horas, é perfuração cervical, e a fonte é outra.

Prótese endoscópica contra reparo cirúrgico: dois pares de números que não são braços do mesmo estudo

O par favorável à prótese

Uma revisão reunida pela diretriz relata oitenta e oito por cento de sucesso e sete vírgula cinco por cento de mortalidade com próteses autoexpansíveis, contra oitenta e três por cento de sucesso e dezessete por cento de mortalidade hospitalar da cirurgia, e os autores concluem que a prótese pode ser estratégia alternativa.

Chirica et al., 2019, citando revisão de vazamentos esofágicos

O que o par agrega e não separa

A revisão de próteses mistou vazamentos espontâneos, iatrogênicos e pós-operatórios; a comparação cirúrgica vem de outra série e outra população. Quem recebe prótese tende a ter lesão pequena, contida e reconhecida cedo. A própria diretriz reserva a endoscopia de primeira linha para a perfuração reconhecida durante o procedimento endoscópico.

Chirica et al., 2019, mesma seção e recomendação de grau 2A

A ressalva explícita para a rotura por vômito

O documento registra que há relatos de manejo endoscópico bem-sucedido em doentes selecionados com sintomas e sinais de sepse mínimos, e que preocupações com a segurança do paciente justificam cautela quanto ao uso de primeira linha do tratamento endoscópico nessas circunstâncias.

Chirica et al., 2019, recomendação de grau 2C

Na prova

A alternativa que oferece a prótese como equivalente universal ao reparo cirúrgico está errada por população, não por eficácia. E há um limite mecânico que resolve a questão sem discutir estatística: o clipe fecha defeito abaixo de dois centímetros, e o defeito da rotura por vômito mede de três a oito.

Qual segmento tem pior prognóstico — a literatura e as duas séries brasileiras discordam

A posição majoritária: a torácica é a pior

É o que a maioria dos autores menciona e o que a anatomia sustenta: o mediastino é um espaço amplo, sem contenção, contíguo às duas pleuras. A diretriz reserva ao esôfago torácico o maior detalhamento cirúrgico e as opções de exclusão, derivação e ressecção.

Chirica et al., 2019; posição relatada por Henry et al., 2007

O que a série de Botucatu mediu

Embora a maioria dos autores mencione que a de pior prognóstico é a torácica, na casuística de Botucatu o único óbito do grupo de causas diversas ocorreu numa lesão abdominal, durante fundoplicatura videolaparoscópica, não detectada no intraoperatório. Os autores registram o contraste por escrito.

Henry et al., 2007, discussão

O que a série carioca mediu, com a ressalva do denominador

No Andaraí, o segmento abdominal teve dois casos e um óbito — cinquenta por cento, a maior taxa dos três segmentos, sobre o menor denominador da tabela. O cervical teve três óbitos em dezenove e o torácico cinco em vinte. Dois pacientes não sustentam uma taxa.

Marsico et al., 2003, Tabela 3

Na prova

A resposta que a banca espera é a torácica, e é a que a literatura sustenta. Mas se a vinheta descrever perfuração abdominal iatrogênica não percebida no intraoperatório, a gravidade não vem do segmento: vem do atraso, e a conduta é a do quarto cartão. Não confunda a taxa alta de um denominador minúsculo com risco maior.

06

Caso resolvido

Homem de 54 anos, etilista, chega ao pronto-socorro de um hospital geral com dor retroesternal de início súbito há cerca de 5 horas, logo após vários episódios de vômito vigoroso durante uma refeição regada a álcool. Refere dispneia progressiva. Ao exame: regular estado geral, ansioso, temperatura axilar 38,3 °C, pressão arterial 98 x 62 mmHg, frequência cardíaca 116 bpm, frequência respiratória 26 irpm, saturação de oxigênio 92% em ar ambiente. Há crepitação à palpação da região cervical anterior e supraclavicular bilateral. À ausculta precordial, ouve-se uma crepitação sincrônica com o batimento cardíaco. O murmúrio vesicular está reduzido na base esquerda. O abdome está flácido, indolor, sem sinais de irritação peritoneal. A radiografia de tórax mostra pneumomediastino e derrame pleural à esquerda. O hospital tem tomógrafo, centro cirúrgico e cirurgião geral de plantão; não tem cirurgião torácico nem endoscopia fora do horário comercial.
primeiro, nomeie o quadro sem depender do rótulo que a banca escolheu
Rotura transmural do esôfago torácico distal após esforço emetizante, com mediastinite em instalação. Chame de síndrome de Boerhaave, de ruptura pós-emética ou de perfuração espontânea — os três designam isto, e o gabarito das provas usa o terceiro. Ruptura barogênica é a descrição que a diretriz de 2019 prefere, porque contém a física: pressão intraluminal que sobe abruptamente contra um esfíncter superior que não relaxou.
segundo, leia os três achados que sustentam o diagnóstico e diga o que cada um prova
A crepitação cervical prova ar nos tecidos, não a porta de entrada. A crepitação sincrônica ao batimento prova ar no mediastino, também sem endereço. O derrame à esquerda é o que localiza, porque a rotura fica na borda esquerda do terço inferior do esôfago torácico. Os três juntos, depois de esforço de vômito e com febre em horas, é o conjunto que nenhuma das quatro doenças concorrentes reproduz inteiro.
terceiro, marque o relógio antes de pedir exame
Cinco horas. Isso o coloca dentro da janela de vinte e quatro horas, onde a mortalidade fica abaixo de dez por cento pela diretriz e ficou em quatro vírgula três por cento na série carioca. Anote o horário do vômito no prontuário: é o dado que vai governar toda a decisão seguinte e o que mais se perde na passagem de plantão.
quarto, escolha o exame pela pergunta que ele responde
Tomografia de tórax e abdome superior com contraste, com esofagografia por tomografia. Não é porque o esofagograma baritado seja ruim — na série carioca ele definiu o diagnóstico em vinte e um de vinte e dois exames. É porque a decisão depende de saber o quanto vazou, se está contido e se há coleção pleural drenável, e essas três perguntas o estudo contrastado simples não responde. Endoscopia diagnóstica de saída, não: há risco de ampliar o rasgo.
quinto, aplique a tabela de elegibilidade item por item, sem pular o último
Menos de vinte e quatro horas: preenche. Ausência de sinais de sepse: não preenche — há febre, taquicardia, taquipneia e hipotensão. Só isso já encerra a discussão. Se ainda houvesse dúvida, o último item a fecharia: vigilância por equipe esofágica experiente e recurso cirúrgico e radiológico disponíveis a qualquer hora não existem neste hospital. Este doente não é candidato a tratamento não operatório.
sexto, comece o suporte que não depende de quem vai operar
Jejum absoluto, antibiótico de amplo espectro com cobertura para germes aeróbios e anaeróbios, inibidor de bomba de prótons, ressuscitação volêmica e suporte hemodinâmico. Sonda nasogástrica, se indicada, com posicionamento endoscópico. Suporte nutricional precoce, enteral ou parenteral, entra logo em seguida porque é condição de cicatrização esofágica. Nada disso substitui a operação; tudo isso a antecede.
sétimo, decida a operação e o relógio dela
Perfuração livre do esôfago torácico com bordas ainda viáveis, dentro de vinte e quatro horas: reparo primário é o tratamento de escolha. Desbridamento até tecido sadio, fechamento sem tensão, reforço com tecido viável vizinho e drenagem externa adequada. Indicada a cirurgia, o doente vai à sala o mais cedo possível — a diretriz registra que mesmo atrasos pequenos aumentam morbidade e mortalidade. Sem cirurgião torácico na casa, aciona-se a transferência em paralelo ao preparo, não depois dele.
oitavo, saiba o que muda se ele tivesse chegado em três dias
Muda de cartão. Contaminação extensa e exploração tardia tiram o reparo primário da mesa e trazem exclusão, derivação ou ressecção. É o cenário em que a casuística nordestina de diagnóstico tardio relata sessenta e oito a oitenta e três por cento de mortalidade nos não esofagectomizados, contra nove a dezoito por cento nos submetidos a esofagectomia — números de um relato pequeno, que apontam a direção sem fixar a magnitude.
07

Agora feche você

Mulher de 63 anos é submetida a endoscopia digestiva alta com dilatação de estenose péptica do esôfago distal, em regime ambulatorial. Ao término do procedimento, ainda na sala, o endoscopista observa uma solução de continuidade linear de cerca de 1,2 cm na parede do esôfago torácico distal, com visualização de tecido peri-esofágico. A paciente está acordada, sem dor, com pressão arterial 128 x 76 mmHg, frequência cardíaca 82 bpm, saturação de oxigênio 97% em ar ambiente e temperatura axilar 36,4 °C. Não há enfisema subcutâneo. O serviço é um hospital terciário com equipe de cirurgia esofágica, endoscopia e radiologia intervencionista disponíveis em regime ininterrupto. A tomografia com contraste, feita em seguida, mostra pequena quantidade de ar peri-esofágico e extravasamento mínimo de contraste que retorna à luz, sem coleção pleural e sem derrame.
Passo 1
Esta paciente preenche os seis critérios de elegibilidade ao tratamento não operatório? Percorra a tabela item por item, dizendo qual dado do enunciado responde a cada um, e identifique qual é o único item que aqui depende do hospital e não da doente.
Passo 2
O enunciado descreve uma perfuração de 1,2 cm reconhecida durante o próprio procedimento endoscópico. Qual conduta a diretriz classifica como padrão-ouro para essa situação específica, e qual limite de tamanho separa o clipe da prótese recoberta?
Passo 3
Compare esta paciente com o homem do caso resolvido em três eixos — mecanismo da rotura, tamanho esperado do defeito e extensão da contaminação — e explique por que o mesmo diagnóstico anatômico leva a dois cartões diferentes.
Passo 4
Se, doze horas depois, a paciente evoluísse com febre de 38,5 °C, taquicardia e dor torácica nova, o que a diretriz manda fazer antes de decidir qualquer coisa, e por que a conduta não operatória inicial não fica retroativamente errada?
Passo 5
A diretriz recomenda manter a prótese recoberta por um período mínimo definido. Qual é esse período, e por que ele é incompatível com um paciente que precisa de reoperação precoce por contaminação progressiva?
08

Onde a banca derruba

  1. 1Tratar o enfisema subcutâneo como se ele apontasse a causa Crepitação cervical e crepitação sincrônica ao batimento cardíaco provam que há ar onde não deveria haver. Não provam de onde ele veio. Crise de asma, barotrauma de ventilação, manobra de esforço e perfuração de víscera oca durante compressão abdominal produzem o mesmo achado, e o capítulo de asma na infância desta casa registra a coincidência. O que fecha o diagnóstico é o contexto — esforço de vômito, dor retroesternal súbita, febre em horas — mais o derrame à esquerda.
  2. 2Passar a endoscopia como primeiro exame na suspeita de rotura por vômito A diretriz diz, na mesma frase, que a endoscopia diagnóstica é confiável e segura em mãos experientes e que o risco de ampliar a perfuração e agravar a contaminação justifica cautela e limita o uso como exame de primeira linha. O exame de escolha na suspeita é a tomografia com contraste, incluindo a esofagografia por tomografia. A endoscopia é padrão-ouro para fechar a perfuração que ela mesma causou e reconheceu.
  3. 3Aceitar o derrame pleural esquerdo como parapneumônico Nos três casos brasileiros relatados, a radiografia mostrou derrame à esquerda e a primeira hipótese foi outra doença. A toracocentese redirecionou o raciocínio ao revelar líquido com aspecto de secreção digestiva e amilase elevada. Diante de derrame pleural esquerdo após vômitos e dor torácica, rotulá-lo como parapneumônico sem investigar o esôfago pode atrasar o controle da fonte.
  4. 4Achar que o tratamento não operatório é liberado pelo relógio O corte de vinte e quatro horas é o primeiro dos seis critérios de elegibilidade, não o único e não o suficiente. Faltam ainda ausência de sepse, localização cervical ou torácica, perfuração contida sem contaminação pleural maciça, ausência de doença esofágica preexistente e — o que decide muitos casos brasileiros — equipe esofágica experiente com cirurgia e radiologia disponíveis a qualquer hora. Chegar em três horas num hospital sem retaguarda não preenche a tabela.
  5. 5Oferecer clipe endoscópico para o defeito da rotura por vômito O clipe é o método atual para perfurações luminais menores que dois centímetros. O defeito da síndrome de Boerhaave mede de três a oito centímetros, segundo a mesma diretriz que define o teto do clipe. É um limite mecânico, não uma preferência de escola, e resolve sozinho qualquer alternativa que proponha clipe nessa vinheta.
  6. 6Confundir a laceração de Mallory-Weiss com a rotura transmural As duas nascem do mesmo esforço emetizante e param aí a semelhança. A mucosa rasgada sangra, costuma parar sozinha e é assunto do capítulo de hemorragia digestiva alta desta apostila. A parede inteira rasgada não sangra de forma visível: ela despeja conteúdo no mediastino e produz mediastinite química e depois séptica. Sangue na primeira; ar nos tecidos e febre na segunda.
  7. 7Comparar mortalidades globais de séries com populações diferentes A série de Botucatu tem metade dos doentes com perfuração sobre câncer de esôfago; a carioca tem setenta e um por cento de ferimento penetrante; a de Teresina tem corpo estranho como causa principal. São três doenças diferentes sob o mesmo rótulo. Antes de dizer que um serviço vai melhor que outro, retire a coluna que não existe nos demais e refaça a conta com o mesmo divisor.
  8. 8Marcar a alternativa que corrige o nome espontânea A objeção terminológica existe, mas o rótulo perfuração espontânea continua amplamente reconhecido. Não descarte a síndrome de Boerhaave por causa do nome; quando houver duas descrições equivalentes, a formulação mecanística — ruptura barogênica pós-emética — é mais precisa.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

A tríade de Mackler (vômitos + dor torácica + enfisema subcutâneo), com pneumomediastino, sinal de Hamman e derrame pleural à esquerda após emese intensa é característica de ruptura esofágica espontânea (Boerhaave). IAM não causa enfisema subcutâneo nem pneumomediastino. Pneumonia não gera pneumomediastino nem a sequência típica pós-vômito. Dissecção de aorta cursa com dor lancinante irradiada ao dorso e assimetria de pulsos, sem enfisema subcutâneo. Pancreatite dá dor abdominal e amilase elevada, não pneumomediastino.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

Sorteando as questões…

Quer treinar mais nesse tema? Estas questões vêm do nosso banco — lá tem milhares, com simulado, maratona e estatística de acerto por área.

Criar conta grátis e continuar →
10

Plano de revisão

em 7 dias

Sem consultar nada, escreva: (1) os seis critérios de elegibilidade ao tratamento não operatório, marcando qual deles depende do serviço e não do doente; (2) o par de mortalidade abaixo e acima de vinte e quatro horas em duas fontes diferentes, e diga qual dos dois lados converge entre as fontes e qual não converge; (3) por que o derrame é à esquerda, em uma frase que cite a borda e o terço do esôfago; (4) o tamanho do defeito na rotura por esforço de vômito e o teto de tamanho do clipe endoscópico, e o que a comparação entre os dois números decide sozinha; (5) as quatro doenças que competem com o diagnóstico na vinheta clássica, e qual achado do líquido pleural desmonta a mais frequente delas.

em 30 dias

Pegue o paciente do caso resolvido — 54 anos, cinco horas de evolução, febre, hipotensão, enfisema cervical, pneumomediastino e derrame à esquerda — e mude um dado por vez, dizendo o que quebra em cada mudança. E se ele estivesse afebril, normotenso e sem taquicardia, com tomografia mostrando extravasamento mínimo que retorna à luz? E se o hospital tivesse equipe esofágica e radiologia intervencionista em regime ininterrupto? E se ele tivesse chegado no terceiro dia, com coleção pleural volumosa e lactato de 5 mmol/L? E se a perfuração fosse cervical em vez de torácica, com rotura de dois terços da circunferência? E se, em vez de vômito, a história fosse de dilatação endoscópica feita há quarenta minutos, com defeito de um centímetro? Para cada variação, diga em qual dos quatro cartões o doente cai e qual foi o item que o moveu.

11

Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Você está de plantão no pronto-socorro de um hospital geral de porte médio, com tomógrafo e centro cirúrgico, mas sem cirurgião torácico na casa e sem endoscopia à noite. O serviço de referência fica a noventa minutos de ambulância. Chega um homem de 54 anos, trazido pela esposa, com dor forte no meio do peito que começou logo depois de uma sequência de vômitos, no fim de um almoço com bebida. Ele está com falta de ar, febril e assustado, e a esposa insiste que é o coração, porque o pai dele morreu de infarto na mesma idade. Conduza o atendimento do começo: colha a história atrás do gatilho e do horário exato, examine o pescoço e o precórdio procurando o que o enunciado não vai lhe entregar de graça, peça a imagem que responde à pergunta que decide a conduta, aplique a tabela de elegibilidade item por item em voz alta e explique à esposa, sem jargão, por que o exame do coração vai ser normal e por que mesmo assim é grave. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Perfuração esofágica: o relógio decide, e o nome que a prova usa é o que a diretriz recusa — Preparatório para provas | OsceLabs