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Isquemia mesentérica crônica: a dor que ensina o paciente a não comer

Isquemia mesentérica crônica e compressões vasculares abdominais (ligamento arqueado mediano)

Duas doenças com a mesma queixa e réguas opostas — a aterosclerótica, do idoso com vários leitos doentes, se confirma por imagem; a compressiva do ligamento arqueado, da jovem magra, é diagnóstico de exclusão. E nenhuma das duas é a isquemia mesentérica aguda.

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Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Mulher de 66 anos, tabagista, com doença arterial periférica, relata há 8 meses dor abdominal periumbilical que começa 20 a 30 minutos após as refeições e dura cerca de 1 hora. Perdeu 12 kg porque passou a evitar comer. Exame: sopro abdominal, abdome indolor. Qual o diagnóstico mais provável?

02

Como esse tema cai

Este capítulo trata da dor abdominal que aparece depois de comer e que, ao longo de meses, ensina o paciente a comer menos. São duas doenças com essa mesma queixa e com réguas opostas: a isquemia mesentérica crônica de origem aterosclerótica, do idoso com fatores de risco e vários leitos doentes, e a compressão do tronco celíaco pelo ligamento arqueado mediano, da adulta jovem e magra, que só se diagnostica depois de excluir tudo o mais.

A fronteira mais importante precisa ser dita antes de qualquer outra coisa, porque confundi-la custa vida. A isquemia mesentérica aguda — a embolia, a trombose sobre placa, a forma não oclusiva e a trombose venosa — não é o assunto tratado aqui. Ela tem relógio de horas, cursa com dor intensa e exame abdominal pobre, exige angiotomografia sem demora e mora no capítulo de abdome agudo, ao lado do capítulo que discute o que fazer com a alça de viabilidade duvidosa na mesa. Aqui o relógio é de meses, o paciente está magro e bem entre as refeições, e nenhuma decisão precisa ser tomada esta noite.

Há um ponto em que as duas se tocam, e ele é justamente o que dá utilidade a este capítulo dentro da urgência: parte dos quadros agudos de origem trombótica acontece sobre a doença crônica, em quem vinha tendo dor pós-prandial e emagrecendo. Reconhecer o pródromo é tarefa daqui; conduzir a emergência que se instala em cima dele é tarefa do outro capítulo.

O que também fica de fora tem endereço. Doença ulcerosa péptica, doença celíaca e gastroparesia pertencem à Clínica Médica e aparecem aqui apenas como diferenciais que precisam estar afastados. A trombose venosa profunda de membro inferior tem capítulo próprio, e a compressão da veia ilíaca comum esquerda aparece na última seção só para marcar a fronteira.

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O que muda decisão

A fronteira com a aguda, dita antes de qualquer outra coisa

As duas doenças compartilham o nome e quase nada mais, e a separação se faz com duas perguntas: em quanto tempo e como está o abdome.

Na forma aguda, o tempo se conta em horas. A dor é intensa, contínua, e o achado que define o quadro é a desproporção: o paciente se contorce e o abdome é pouco impressionante à palpação, ao menos até que a necrose alcance a serosa. Nesse cenário, a angiotomografia é feita sem demora, a mortalidade permanece alta e o atraso tem preço medido. Nada disso é assunto daqui.

Na forma crônica, o tempo se conta em meses. A dor não é contínua: ela aparece depois de comer, dura cerca de uma hora e cede sozinha. Entre as refeições o paciente está bem, e o abdome é normal ao exame. O que chama atenção não é a dor, é a perda de peso e a mudança de comportamento alimentar. Nenhuma decisão é tomada na madrugada.

O ponto de contato entre as duas tem nome e é o que a prova gosta de armar: a trombose aguda sobre doença crônica. Uma fração relevante dos quadros agudos de origem arterial é trombose sobre placa preexistente, e esses pacientes costumam ter pródromo — meses de dor pós-prandial, medo de comer e emagrecimento — antes do dia em que a dor deixa de passar. Quando o enunciado descreve um idoso com essa história prévia que agora está há seis horas com dor contínua e desproporcional ao exame, a doença mudou de capítulo e a conduta é a da urgência.

A regra de leitura que resume: dor que passa é crônica; dor que não passa é aguda. E a segunda regra, mais sutil: numa história de dor que sempre passava, o dia em que ela para de passar é o dia em que o paciente passa a pertencer ao capítulo da urgência.

Três artérias, muitas colaterais, e por que costuma faltar mais de uma

O intestino é irrigado por três troncos que saem da aorta abdominal: o tronco celíaco, para estômago, duodeno proximal, fígado e baço; a artéria mesentérica superior, para o restante do duodeno, todo o delgado e o cólon direito; e a artéria mesentérica inferior, para o cólon esquerdo e o reto proximal.

O que faz esse território ser resistente à obstrução crônica é a rede de colaterais que liga os três. As arcadas pancreaticoduodenais conectam o celíaco à mesentérica superior. A artéria marginal do cólon e o arco de Riolan conectam a mesentérica superior à inferior. Quando um tronco se ocluí lentamente, essa rede tem tempo de se desenvolver e o intestino continua sendo irrigado por vizinho.

Daí decorre a regra clássica do tema: para produzir sintoma crônico, a doença aterosclerótica costuma precisar acometer de forma significativa dois dos três troncos, e a mesentérica superior é o vaso que mais pesa, porque irriga o maior território e é o eixo da rede colateral. Estenose isolada da mesentérica inferior quase nunca produz sintoma.

A regra tem exceção, e ela é honesta: doença de vaso único pode ser sintomática quando o vaso é a mesentérica superior e as colaterais são ruins, seja por doença difusa, seja por ressecção intestinal prévia que interrompeu a rede. Por isso o número de vasos acometidos não é critério absoluto — ele desloca a probabilidade.

A consequência mais importante dessa anatomia é o contrário do que parece. Como a rede colateral protege, estenose de artéria mesentérica é achado comum em idoso e quase sempre assintomática. As séries de imagem encontram graus variados de estenose numa fração relevante de pessoas acima de 65 anos que nunca tiveram dor pós-prandial. Logo, encontrar estenose na angiotomografia não faz o diagnóstico: quem faz é a clínica, e a imagem confirma.

A tríade, o comportamento alimentar e o paciente que já foi investigado para câncer

A apresentação clássica tem três elementos, e o terceiro é consequência do primeiro. O primeiro é a dor pós-prandial, que se instala entre quinze e sessenta minutos depois da refeição, dura em torno de uma hora e cede sozinha. Ela é proporcional ao volume ingerido: refeição maior, dor maior. O mecanismo é o mesmo da claudicação — o fluxo basal basta, o fluxo exigido pela digestão não.

O segundo é o medo de comer, que a literatura chama de sitofobia. O paciente aprende, sem que ninguém lhe explique, que comer dói; então fraciona, reduz a porção, pula o jantar e passa a evitar refeições sociais. Quando questionado de forma dirigida, relata náusea pós-prandial, saciedade precoce e, às vezes, vômitos.

O terceiro é a perda de peso, que decorre da restrição voluntária mais do que de má absorção. É o achado que dá gravidade ao quadro e o que costuma finalmente disparar a investigação — quase sempre na direção errada.

O laboratório não faz o diagnóstico e ainda assim é indispensável, porque mede o estrago. O que se encontra é o retrato da restrição alimentar prolongada: anemia, com frequência microcítica, hipoalbuminemia, deficiências de micronutrientes e, quando a restrição foi intensa, cetonúria. Provas inflamatórias normais e amilase e lipase normais não afastam nada, mas ajudam a fechar a porta de outros diagnósticos. A leitura correta é esta: os exames de sangue estadiam a desnutrição, orientam o suporte antes do procedimento e servem para comparar depois — nunca para confirmar ou excluir a isquemia.

É por isso que o paciente típico chega ao consultório vascular com uma pasta de exames normais. Endoscopia digestiva alta normal com biópsias sem alterações, ultrassonografia de abdome normal, tomografia de abdome sem fase vascular também normal, e uma suspeita de neoplasia que não se confirmou. O atraso diagnóstico se conta em meses, e ele acontece porque a investigação de perda de peso raramente inclui, de saída, uma pergunta sobre o horário da dor.

Ao exame, o achado que se procura é o sopro epigástrico, e é preciso ser honesto sobre ele: tem sensibilidade e especificidade baixas, aparece em pessoas magras sem doença nenhuma e falta em muitos doentes. O que o torna interessante no contexto compressivo é uma característica específica, discutida adiante — mudar de intensidade com a respiração.

A aterosclerótica: como se confirma e o que se faz depois

O perfil é reconhecível: idoso, tabagista, com doença arterial em outros territórios — coronária, carótida, membros inferiores —, hipertenso e dislipidêmico. Não é raro que a dor pós-prandial conviva com claudicação de panturrilha, e as duas contem a mesma história.

Nesse paciente o diferencial é largo, e cada concorrente tem um traço que o entrega. A doença biliar dói em hipocôndrio direito, com irradiação para a escápula, em crises de horas desencadeadas por refeição gordurosa, e a ultrassonografia resolve. A doença ulcerosa dói em epigástrio, com relação variável com a alimentação e frequentemente alívio com antiácido, e a endoscopia resolve. A pancreatite crônica dói em faixa, com irradiação para o dorso, história de álcool e esteatorreia. E o câncer gástrico ou pancreático produz a mesma perda de peso com dor persistente, sem o padrão que começa e termina junto com a digestão. É esse padrão temporal — começar quinze a sessenta minutos depois de comer e ceder em cerca de uma hora — que separa a isquemia dos demais, e ele se colhe por anamnese, não por exame.

O exame de primeira linha é a angiotomografia de abdome com fase arterial e reconstruções, que mostra a estenose ostial, a calcificação, a extensão da lesão, o estado das colaterais e o restante da aorta. A ultrassonografia com Doppler mesentérico, feita em jejum, funciona como rastreio e como acompanhamento: usa limiares de velocidade de pico sistólico para estimar o grau de estenose no tronco celíaco e na mesentérica superior. Os limiares clássicos publicados ficam na casa de 200 cm/s para o tronco celíaco e de 275 cm/s para a mesentérica superior, e variam entre serviços — motivo pelo qual eles orientam e não decidem.

Antes de tratar, é obrigatório fechar a porta dos diferenciais. Perda de peso com dor abdominal em idoso exige que neoplasia tenha sido afastada, e a angiotomografia bem-feita ajuda nisso. Endoscopia, avaliação da vesícula e do pâncreas e uma revisão dos medicamentos completam.

Vale dizer por que se revasculariza um paciente que, afinal, não está morrendo hoje. A história natural sem tratamento tem duas pontas ruins. A primeira é nutricional e progressiva: a restrição alimentar se aprofunda, o peso continua caindo e o doente chega ao procedimento em pior condição do que chegaria meses antes. A segunda é aguda: é sobre esse leito estreitado que se instala a trombose mesentérica aguda, a forma cuja mortalidade permanece alta. Revascularizar, portanto, alivia sintoma, recupera estado nutricional e retira o paciente da fila de uma emergência com desfecho ruim.

A revascularização é o tratamento, e o cenário contemporâneo mudou. A abordagem endovascular, com angioplastia e implante de stent na mesentérica superior e, quando indicado, no tronco celíaco, tornou-se a primeira escolha para a maioria dos pacientes, porque a morbidade e a mortalidade do procedimento são menores num doente frequentemente idoso e desnutrido. A contrapartida é honesta e precisa ser dita: reestenose e necessidade de reintervenção são mais frequentes do que na cirurgia aberta.

A revascularização aberta, com ponte a partir da aorta supracelíaca ou das artérias ilíacas, mantém indicação em pacientes mais jovens e com bom risco cirúrgico, em oclusões longas ou com anatomia desfavorável ao cateter, e depois de falha do tratamento endovascular. Em qualquer das duas vias, dois cuidados acompanham: suporte nutricional antes e depois, com atenção à síndrome de realimentação em quem perdeu muito peso, e controle agressivo dos fatores de risco, porque a doença que estreitou a mesentérica está estreitando o resto.

Ligamento arqueado mediano: a mesma queixa com a régua invertida

O ligamento arqueado mediano é a faixa fibrosa que une os pilares do diafragma por diante do hiato aórtico. Em parte das pessoas ele se insere mais baixo, ou o tronco celíaco emerge mais alto, e o resultado é que a faixa cruza por cima da origem do tronco celíaco e a comprime.

O perfil do paciente é o oposto do anterior: mulher jovem, magra, sem fatores de risco cardiovascular, sem tabagismo, com meses de dor pós-prandial, medo de comer e perda de peso importante. A queixa é igual; o dono dela, não. Essa inversão de perfil é o primeiro sinal de que a régua também se inverte.

O mecanismo tem um detalhe que resolve boa parte das questões: a compressão é dinâmica e respiratória. Na expiração, o diafragma sobe, o tronco celíaco se desloca no sentido cefálico e se aproxima da faixa fibrosa — a compressão aumenta. Na inspiração profunda, o diafragma desce, o tronco celíaco se afasta e a compressão diminui. É exatamente o contrário do que a intuição sugere, e é o achado que separa esta doença da estenose aterosclerótica, que é fixa.

A tradução para o exame de imagem é direta. Na reconstrução sagital da angiotomografia, o tronco celíaco proximal aparece com um estreitamento focal na face superior e um encurvamento característico, descrito como aspecto em gancho, com dilatação logo além. Se as aquisições forem feitas em expiração e em inspiração, o estreitamento aumenta na primeira e diminui na segunda. Na ultrassonografia com Doppler, a mesma coisa aparece como velocidade de pico sistólico que sobe na expiração e cai na inspiração profunda.

Compare com a lesão aterosclerótica e a diferença é limpa. Esta é ostial, costuma ser calcificada, é fixa nas duas fases respiratórias, e vem acompanhada de doença em outros vasos, num paciente idoso com fatores de risco. A compressiva é supraostial, não calcificada, muda com a respiração e aparece isolada, numa pessoa jovem. Pedir a tomografia sem reconstrução sagital e sem as duas fases é a razão mais comum de o diagnóstico não ser feito.

Por que a compressão é comum e a síndrome é rara

Aqui está o ponto que organiza toda a conduta desta doença, e ele é epidemiológico. A compressão anatômica do tronco celíaco pelo ligamento arqueado é achado frequente em exames de imagem feitos por outros motivos: as séries descrevem algum grau de compressão numa fração expressiva de pessoas completamente assintomáticas. A síndrome, isto é, o conjunto de compressão mais sintomas atribuíveis a ela, é rara.

A consequência é que a imagem, sozinha, tem baixo valor. Um laudo com aspecto em gancho num paciente com dor abdominal não fecha nada, porque o achado é comum e a dor abdominal também. Encontrar os dois na mesma pessoa pode ser coincidência, e a estatística está do lado da coincidência.

Por isso a síndrome do ligamento arqueado é, por definição, diagnóstico de exclusão, e a lista do que precisa ter sido afastado é longa e concreta. Doença ulcerosa péptica e outras causas estruturais, com endoscopia digestiva alta com biópsias gástricas e duodenais. Doença celíaca, com anticorpo antitransglutaminase acompanhado de dosagem de imunoglobulina A total, porque a deficiência dessa imunoglobulina produz sorologia falsamente negativa. Gastroparesia, com estudo de esvaziamento gástrico, sobretudo quando há vômitos e saciedade precoce. Doença biliar e pancreática, com imagem e enzimas. Causas ginecológicas e gestação em mulheres em idade fértil. E, com o mesmo cuidado, transtorno alimentar restritivo, que compartilha o perfil demográfico e a perda de peso.

Há um cuidado de postura que a própria história dessas pacientes cobra: a queixa não deve ser atribuída a causa emocional antes de a investigação terminar. É comum que essas mulheres já tenham recebido esse rótulo em consultas anteriores, e o rótulo precoce é uma das razões do atraso diagnóstico.

As séries cirúrgicas descrevem alguns preditores de boa resposta à liberação, e vale conhecê-los pelo que são — observações de série, sem força de recomendação forte: dor pós-prandial típica, perda de peso significativa, idade entre a quarta e a sexta décadas e ausência de história de abuso de álcool ou de transtorno psiquiátrico maior. Quem opera fora desse perfil melhora menos, e essa conversa precede a cirurgia.

O tratamento da síndrome compressiva, e o erro de sequência

O tratamento é a liberação do ligamento arqueado mediano: secciona-se a faixa fibrosa que cruza sobre a origem do tronco celíaco, liberando o vaso. A via preferencial hoje é laparoscópica, com resultados comparáveis à aberta e recuperação melhor; a via robótica tem sido usada com a mesma lógica, e a aberta permanece para conversões e anatomia hostil.

Ao gesto vascular soma-se, na maioria das séries, a ganglionectomia celíaca — a remoção do tecido neural denso que envolve a origem do tronco. A razão de fazê-la vem do próprio debate sobre o mecanismo da doença, discutido no bloco de divergências: se parte da dor é neural, e não apenas de fluxo, retirar o gânglio contribui para o alívio.

Depois da liberação, o cirurgião reavalia o fluxo — por ultrassonografia intraoperatória ou por imagem no pós-operatório. Se persistir estenose fixa, agora sem a faixa por cima, a angioplastia com ou sem stent entra como complemento. A ordem é essa: primeiro tira-se a compressão externa, depois se trata o que sobrou por dentro.

O erro de sequência que a prova cobra é o inverso: implantar stent no tronco celíaco antes da liberação. A explicação é puramente mecânica e é a mesma de outra doença compressiva desta apostila, a do desfiladeiro torácico: o stent fica sob uma estrutura que continua comprimindo a cada ciclo respiratório, sofre deformação repetida, fratura e reestenosa. Material rígido dentro de uma pinça que não foi desfeita não resolve nada.

O seguimento tem duas partes. A vascular, com imagem de controle e avaliação de reestenose. E a nutricional, que costuma ser a que muda a vida: paciente que passou meses restringindo alimento precisa de reintrodução planejada, com atenção à síndrome de realimentação, e de acompanhamento com nutricionista. Retomar peso é desfecho tão importante quanto retomar fluxo.

As outras compressões vasculares abdominais

A mesma lógica — um vaso espremido entre duas estruturas rígidas — produz outras três síndromes que a prova costuma cobrar em conjunto, e reconhecê-las é reconhecer a pinça.

A síndrome do quebra-nozes comprime a veia renal esquerda entre a aorta, atrás, e a artéria mesentérica superior, à frente. O sangue da veia renal esquerda tem dificuldade de escoar, e a hipertensão venosa resultante produz hematúria, com frequência apenas microscópica, dor em flanco esquerdo, proteinúria de padrão ortostático, varicocele à esquerda no homem e congestão pélvica na mulher. O diagnóstico se apoia em ultrassonografia com Doppler e angiotomografia, e boa parte dos casos leves é conduzida de forma conservadora.

A síndrome de May-Thurner comprime a veia ilíaca comum esquerda entre a artéria ilíaca comum direita, à frente, e o corpo vertebral lombar, atrás. O resultado é estase no membro inferior esquerdo e predisposição à trombose venosa profunda, tipicamente em mulher jovem, com edema do membro esquerdo desproporcional. Ela pertence, no manejo, ao capítulo de trombose venosa profunda desta apostila; entra aqui só para completar o conjunto das pinças.

A síndrome da artéria mesentérica superior, também chamada de síndrome de Wilkie, é a que mais confunde com a compressão do ligamento arqueado, e por bons motivos: as duas dão dor pós-prandial, náusea, saciedade precoce e perda de peso, e nas duas o emagrecimento agrava o quadro, fechando um ciclo. Aqui o que é comprimido não é vaso: é a terceira porção do duodeno, espremida entre a aorta, atrás, e a mesentérica superior, à frente, quando a gordura retroperitoneal que mantinha o ângulo entre as duas se perde.

A separação entre as duas é limpa e cai em prova. A síndrome da mesentérica superior é obstrutiva: predominam vômitos, distensão epigástrica e alívio com mudança de posição — decúbito lateral esquerdo, prona ou posição genupeitoral —, e o estudo contrastado mostra parada abrupta do contraste na terceira porção do duodeno, com duodeno proximal e estômago dilatados. A do ligamento arqueado é dolorosa, com compressão de vaso que muda com a respiração, e não produz o padrão obstrutivo. E o tratamento inicial também difere: na síndrome da mesentérica superior, a primeira linha é nutricional, com recuperação de peso, que muitas vezes reabre o ângulo; a cirurgia fica para quem não responde.

Como a prova arma o cruzamento entre as duas doenças

O enunciado costuma entregar a resposta em três dados aparentemente laterais, e vale saber quais são.

O primeiro é a idade e o perfil de risco. Homem de 71 anos, tabagista, com claudicação e coronariopatia, com dor pós-prandial e perda de peso, tem doença aterosclerótica até prova em contrário, e o exame que confirma é a angiotomografia com fase arterial. Mulher de 26 anos, magra, sem fator de risco, com a mesma queixa, aponta para a compressão do ligamento arqueado — e nela o exame precisa ser pedido com reconstrução sagital e nas duas fases respiratórias.

O segundo é o caráter do achado de imagem. Estenose ostial e calcificada, presente também em outros vasos e igual nas duas fases da respiração, é aterosclerose. Estreitamento supraostial com aspecto em gancho, que aumenta na expiração e diminui na inspiração, é compressão pelo ligamento.

O terceiro é o que já foi excluído. Quando o enunciado se dá ao trabalho de listar endoscopia normal com biópsias, sorologia de doença celíaca negativa com imunoglobulina A dosada e estudo de esvaziamento gástrico normal, ele não está enchendo linha: está construindo o diagnóstico de exclusão que a síndrome compressiva exige. Quando essa lista não aparece, e a alternativa oferece liberação cirúrgica, a resposta esperada costuma ser completar a investigação.

Corte sagital esquemático: um grande vaso vertical emite três ramos horizontais; uma faixa fibrosa curva-se em arco sobre a origem do ramo mais alto, afunilando-o e deixando um pequeno alargamento logo além. O mesmo ramo aparece repetido em contorno tracejado, deslocado para baixo, com a origem livre do arco e calibre uniforme.
A faixa em arco é o ligamento arqueado mediano, que une os pilares do diafragma por diante do hiato aórtico. O ramo em cor cheia está na posição da expiração: o diafragma subiu, o tronco celíaco se aproximou da faixa e a origem ficou afunilada, com dilatação logo além — o aspecto em gancho da reconstrução sagital. O ramo tracejado é o mesmo vaso na inspiração profunda: o diafragma desceu, o tronco se afastou e o calibre voltou. É essa mudança entre as duas fases que separa a compressão dinâmica da estenose aterosclerótica, que é ostial, calcificada e igual nas duas.

Fecha o capítulo a regra que atravessa as duas doenças e que vale como método: nesta parte da vascular, achado de imagem não é diagnóstico. Estenose mesentérica é comum no idoso assintomático, e compressão do tronco celíaco é comum no adulto assintomático. Em ambos os casos, quem diagnostica é a história — o horário da dor, a relação com o volume da refeição, o medo de comer e o peso que se foi. A imagem confirma o que a história já disse, e o exame de imagem pedido sem essa história responde a uma pergunta que ninguém fez.

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Duas doenças, a mesma queixa, réguas opostas

Os cartões abaixo põem lado a lado os dois quadros do tema e as duas fronteiras que precisam ficar claras — a de cima, com a forma aguda, e a de baixo, com a compressão que engana. Repare que a queixa inicial é quase idêntica nos dois primeiros, e que tudo o que decide está no perfil, no caráter do achado de imagem e no que já foi excluído.

Aterosclerótica — o idoso com vários leitos doentes

Idoso, tabagista, com doença arterial em outros territórios. Dor pós-prandial, medo de comer e perda de peso ao longo de meses. A angiotomografia com fase arterial mostra estenose ostial e calcificada, em geral em mais de um tronco, igual nas duas fases da respiração. O tratamento é revascularização, hoje endovascular na maioria, com maior necessidade de reintervenção do que a via aberta.

Ligamento arqueado — a jovem magra sem fator de risco

Mulher adulta jovem, magra, sem fatores de risco. A queixa é a mesma. A imagem precisa de reconstrução sagital e das duas fases respiratórias: estreitamento supraostial com aspecto em gancho, que aumenta na expiração e diminui na inspiração profunda. É diagnóstico de exclusão. O tratamento é liberação do ligamento, em geral por via laparoscópica, com ganglionectomia celíaca.

Fronteira de cima — a forma aguda

Horas, não meses. Dor contínua e intensa, desproporcional a um abdome pouco impressionante, e angiotomografia sem demora. Não é assunto deste tema, e sim do capítulo de abdome agudo. O ponto de contato é a trombose aguda sobre doença crônica: paciente com meses de dor pós-prandial em que a dor deixou de passar mudou de capítulo, e a conduta passa a ser a da urgência.

Fronteira de baixo — a compressão do duodeno

Na síndrome da artéria mesentérica superior o que é comprimido não é vaso: é a terceira porção do duodeno, entre a aorta e a mesentérica superior, depois da perda da gordura retroperitoneal. Predominam vômitos e distensão, com alívio em decúbito lateral esquerdo, prona ou genupeitoral, e o contrastado mostra parada abrupta na terceira porção. A primeira linha é nutricional.

Estenose de artéria mesentérica é achado comum em idosos assintomáticos, e algum grau de compressão do tronco celíaco pelo ligamento arqueado aparece em fração expressiva de adultos sem sintoma. Nas duas doenças, quem diagnostica é a história; a imagem confirma.

Tomografia de abdome sem fase vascular, sem reconstrução sagital e sem as duas fases respiratórias é a razão mais comum de o diagnóstico não ser feito na primeira investigação.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Se a síndrome do ligamento arqueado é doença de fluxo ou doença de nervo

Mecanismo vascular — é limitação de fluxo

A leitura tradicional atribui a dor à redução do fluxo pelo tronco celíaco durante a demanda pós-prandial, em analogia com a claudicação, e sustenta essa posição na correlação entre grau de compressão, velocidade ao Doppler e sintomas, além da melhora após a liberação do vaso.

Revisões contemporâneas sobre síndrome do ligamento arqueado mediano em Journal of Vascular Surgery e Vascular and Endovascular Surgery, seções de fisiopatologia.

Mecanismo neurogênico — é irritação do plexo celíaco

A leitura alternativa observa que o grau de compressão se correlaciona mal com a intensidade dos sintomas, que a rede colateral costuma ser suficiente para manter a perfusão, e que a melhora obtida com a remoção do tecido ganglionar aponta para dor de origem neural, por compressão e irritação crônica do plexo celíaco.

As mesmas revisões, seção que discute a ganglionectomia celíaca como parte do procedimento e a correlação fraca entre grau de estenose e sintoma.

Na prova

As duas posições convergem na prática, o que é raro numa divergência: as duas apoiam a liberação do ligamento com ganglionectomia celíaca associada, e é isso que a questão costuma cobrar. Um enunciado que peça o mecanismo como se houvesse consenso está pisando na controvérsia. O que se sustenta dizer é que o procedimento contempla os dois mecanismos, e é justamente por isso que a ganglionectomia acompanha a secção da faixa fibrosa na maioria das séries.

Quais limiares de velocidade usar na ultrassonografia mesentérica

Limiares clássicos de 1991

Os valores mais citados, derivados do trabalho original que validou a técnica contra a arteriografia, situam-se em torno de 200 cm/s de velocidade de pico sistólico para o tronco celíaco e 275 cm/s para a mesentérica superior, como indicativos de estenose significativa em exame realizado em jejum.

Moneta GL, Yeager RA, Dalman R, et al. Duplex ultrasound criteria for diagnosis of splanchnic artery stenosis or occlusion. Journal of Vascular Surgery, 1991.

Limiares recalibrados por serviço

Trabalhos posteriores propuseram valores diferentes, tanto mais altos quanto mais baixos, e mostraram que a acurácia depende do equipamento, do operador, do estado de jejum e da presença de vaso ocluído com colateral hiperfluxo. Daí a recomendação de que cada serviço valide seus próprios pontos de corte contra a angiotomografia.

Revisões sobre limiares de velocidade em ultrassonografia mesentérica citadas nas diretrizes europeia e americana de doença arterial mesentérica.

Na prova

Como os números variam entre serviços, uma questão que dependa do valor exato está mal construída, e o enunciado costuma denunciar isso ao dar uma velocidade colada no limite. O que se cobra de verdade é a hierarquia dos exames: a ultrassonografia em jejum serve como rastreio e acompanhamento, e a angiotomografia com fase arterial é o exame que define a anatomia e orienta o tratamento. Se o enunciado trouxer velocidade muito acima de qualquer limiar em paciente com quadro típico, a leitura é a mesma em todas as réguas.

Se a doença de vaso único pode causar isquemia mesentérica crônica

Costuma exigir dois dos três troncos

A regra clássica sustenta que a rede colateral entre tronco celíaco, mesentérica superior e mesentérica inferior protege o intestino, e que por isso a doença sintomática costuma exigir acometimento significativo de pelo menos dois dos três troncos, com a mesentérica superior como vaso de maior peso.

Clinical Practice Guidelines of the European Society for Vascular Surgery on the Management of the Diseases of Mesenteric Arteries and Veins (Björck M, et al., 2017), seção de isquemia mesentérica crônica.

Vaso único pode bastar em situações definidas

A leitura contemporânea aceita doença sintomática de vaso único quando o vaso é a mesentérica superior e a rede colateral é insuficiente — por doença difusa, por variação anatômica ou por ressecção intestinal prévia que interrompeu as arcadas —, desde que o quadro clínico seja típico e os diferenciais estejam afastados.

Chronic mesenteric ischemia: clinical practice guidelines from the Society for Vascular Surgery (Huber TS, et al., Journal of Vascular Surgery, 2021), seção de diagnóstico e seleção para revascularização.

Na prova

As duas leituras concordam no que decide a conduta: o número de vasos desloca a probabilidade, mas não substitui a clínica, e nenhuma delas autoriza revascularizar por achado de imagem em paciente sem sintoma. Um enunciado com estenose de dois troncos e quadro típico é resposta consensual. Um enunciado com estenose isolada da mesentérica superior em paciente com quadro típico e diferenciais afastados também se sustenta — e o que não se sustenta é tratar estenose isolada da mesentérica inferior como causa de dor pós-prandial.

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Caso resolvido

Mulher de 26 anos, previamente hígida, com dor epigástrica há cerca de dez meses, em aperto, de intensidade moderada a forte, que se instala entre quinze e trinta minutos após as refeições, dura em torno de uma hora e cede espontaneamente. Descreve irradiação em faixa para o dorso e relação direta com o volume ingerido: refeições maiores provocam dor mais intensa. Passou a fracionar a alimentação, a evitar o jantar e refere medo antecipatório de comer, com perda de nove quilos em oito meses. Quando questionada de forma dirigida, relata náusea pós-prandial frequente, vômitos ocasionais e saciedade precoce. Nega pirose noturna, disfagia, diarreia, sangue nas fezes, melena e febre. Realizou endoscopia digestiva alta há seis meses, descrita como normal, e ultrassonografia de abdome sem alterações. Ao exame: 46 kg, contra 55 kg oito meses antes, índice de massa corporal de 17,1 kg/m2, panículo adiposo reduzido; abdome escavado, indolor à palpação, sem massas; à ausculta do epigástrio há sopro contínuo de baixa intensidade. Exames: hemoglobina 11,2 g/dL com volume corpuscular médio de 79 fL, albumina 3,3 g/dL, proteína C reativa 2 mg/L, amilase e lipase normais, provas hepáticas normais, sorologia para doença celíaca negativa com imunoglobulina A total de 210 mg/dL, parasitológico de fezes negativo em três amostras, e nova endoscopia com biópsias gástricas e duodenais sem Helicobacter pylori e com arquitetura vilositária preservada.
primeiro, leia o horário da dor antes de qualquer exame
Dor que começa entre quinze e trinta minutos após a refeição, dura cerca de uma hora, cede sozinha e é proporcional ao volume ingerido descreve isquemia mesentérica crônica. O mecanismo é o mesmo da claudicação: o fluxo basal basta, o exigido pela digestão não. O abdome indolor entre as crises e a ausência de sinais de gravidade afastam a forma aguda, cujo relógio é de horas e cuja dor não passa.
segundo, use o perfil para escolher entre as duas causas
Mulher de 26 anos, previamente hígida, magra, sem tabagismo e sem qualquer fator de risco cardiovascular não tem doença aterosclerótica mesentérica. O perfil aponta para compressão extrínseca do tronco celíaco pelo ligamento arqueado mediano. A queixa é a mesma da forma aterosclerótica; o dono dela é o oposto, e é essa inversão que orienta o pedido de exame.
terceiro, peça a imagem com as especificações que o diagnóstico exige
Ultrassonografia com Doppler do tronco celíaco realizada em inspiração e em expiração, e angiotomografia de abdome com reconstrução sagital das artérias viscerais. O que se procura é estreitamento supraostial com aspecto em gancho e dilatação logo além, que aumenta na expiração e diminui na inspiração profunda. Tomografia sem fase vascular e sem reconstrução sagital, como a que costuma constar da pasta desses pacientes, não responde à pergunta.
quarto, complete a exclusão, porque a síndrome exige isso
A compressão anatômica é comum em pessoas sem sintoma, e por isso a síndrome é diagnóstico de exclusão. Aqui já foram afastadas doença ulcerosa e outras causas estruturais pela endoscopia com biópsias, e doença celíaca pela sorologia com imunoglobulina A total dosada — detalhe que importa, porque deficiência dessa imunoglobulina produziria sorologia falsamente negativa. Diante de vômitos e saciedade precoce, o estudo de esvaziamento gástrico completa a exclusão de gastroparesia.
quinto, interprete o sopro pelo que ele tem de específico
Sopro epigástrico isolado tem sensibilidade e especificidade baixas e aparece em pessoas magras sem doença. O que o torna útil neste contexto é a característica que o enunciado registra: mudar de intensidade com a respiração, acompanhando o mesmo mecanismo dinâmico que a imagem vai mostrar. É achado de apoio, e não de confirmação.
sexto, indique a liberação e diga o que ela contempla
O tratamento é a secção da faixa fibrosa que cruza sobre a origem do tronco celíaco, preferencialmente por via laparoscópica, associada à ganglionectomia celíaca na maioria das séries. A ganglionectomia existe porque o mecanismo da dor é debatido entre limitação de fluxo e irritação do plexo celíaco, e o procedimento contempla os dois. Se persistir estenose fixa depois da liberação, a angioplastia entra como complemento — nunca antes.
sétimo, trate a desnutrição e ajuste a expectativa
Nove quilos perdidos, índice de massa corporal de 17,1, albumina de 3,3 e anemia microcítica descrevem desnutrição, e a reintrodução alimentar precisa ser planejada, com atenção à síndrome de realimentação e acompanhamento nutricional antes e depois. A conversa também precisa ser honesta quanto ao resultado: a resposta à liberação é variável, e as séries descrevem melhora maior em quem tem dor pós-prandial típica e perda de peso significativa — perfil que esta paciente preenche.
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Agora feche você

Homem de 73 anos, tabagista de 50 anos-maço, hipertenso e dislipidêmico, com angioplastia coronariana há quatro anos e claudicação de panturrilha a 200 metros, procura o ambulatório por dor abdominal difusa que aparece cerca de trinta minutos depois das refeições e dura de uma a duas horas, há sete meses. Passou a comer porções pequenas e perdeu 11 kg no período. Nega vômitos frequentes, disfagia, melena e febre; o hábito intestinal está preservado. Endoscopia digestiva alta realizada há três meses foi normal, e uma tomografia de abdome sem contraste, feita na mesma época, foi descrita como sem alterações significativas. Ao exame, está emagrecido, com abdome indolor à palpação e sem massas; ausculta-se sopro epigástrico; os pulsos femorais são amplos, os poplíteos reduzidos e os pediosos não palpáveis dos dois lados. Hemoglobina 11,8 g/dL, albumina 3,1 g/dL, creatinina 1,4 mg/dL. Nova angiotomografia de abdome com fase arterial mostra estenose ostial calcificada de aproximadamente 80% no tronco celíaco e oclusão da artéria mesentérica superior no seu primeiro centímetro, com enchimento distal por colaterais volumosas a partir da mesentérica inferior; a aorta é difusamente calcificada.
o diagnóstico e o que o sustenta
por que o exame anterior não viu
o que a anatomia explica
o que precisa estar afastado
a escolha da via de revascularização
o que acompanha o procedimento
o sinal de alarme que ele leva para casa
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Onde a banca derruba

  1. 1Tratar a dor que passa como se fosse a dor que não passa Dor pós-prandial que se instala em quinze a sessenta minutos, dura cerca de uma hora e cede sozinha, com abdome normal entre as refeições, é doença crônica e não exige decisão na madrugada. Dor contínua, intensa e desproporcional a um abdome pouco impressionante é a forma aguda, com relógio de horas e angiotomografia sem demora. Na história de quem sempre teve dor que passava, o dia em que ela deixa de passar muda o capítulo e a conduta.
  2. 2Diagnosticar pela imagem em paciente sem a história Estenose de artéria mesentérica é achado comum em idosos assintomáticos, protegido pela rede colateral, e algum grau de compressão do tronco celíaco pelo ligamento arqueado aparece em fração expressiva de adultos sem sintoma nenhum. Encontrar qualquer um dos dois em exame feito por outro motivo não faz diagnóstico e não indica tratamento. Quem diagnostica é o horário da dor, a relação com o volume da refeição, o medo de comer e o peso perdido.
  3. 3Pedir tomografia de abdome sem fase vascular É a razão mais comum de o diagnóstico não ser feito na primeira investigação. Na suspeita aterosclerótica é preciso fase arterial e reconstruções; na suspeita compressiva é preciso reconstrução sagital e, idealmente, aquisição em expiração e em inspiração. Tomografia normal sem essas especificações não afasta nenhuma das duas doenças, e é justamente o exame que costuma constar da pasta de quem chega ao consultório vascular depois de meses.
  4. 4Inverter a fase respiratória que aperta o tronco celíaco Na expiração o diafragma sobe, o tronco celíaco se desloca no sentido cefálico e se aproxima da faixa fibrosa — a compressão aumenta. Na inspiração profunda o diafragma desce, o tronco se afasta e a compressão diminui. É contraintuitivo, e por isso cai. Esse comportamento dinâmico é o que separa a compressão da estenose aterosclerótica, que é ostial, calcificada e igual nas duas fases.
  5. 5Indicar a liberação sem ter completado a exclusão A síndrome do ligamento arqueado é, por definição, diagnóstico de exclusão, e a lista é concreta: endoscopia digestiva alta com biópsias, sorologia de doença celíaca com imunoglobulina A total dosada, estudo de esvaziamento gástrico quando há vômitos e saciedade precoce, avaliação biliar e pancreática, causas ginecológicas e gestação em mulheres em idade fértil, e a consideração honesta de transtorno alimentar restritivo. Operar sem isso é operar um achado comum.
  6. 6Implantar stent no tronco celíaco antes de liberar o ligamento O stent fica sob uma faixa fibrosa que continua comprimindo a cada ciclo respiratório: sofre deformação repetida, fratura e reestenosa. A ordem correta é tirar a compressão externa primeiro e, se persistir estenose fixa depois disso, tratar por dentro com angioplastia. É o mesmo erro de sequência que a doença compressiva do desfiladeiro torácico ensina com o stent na veia subclávia, e tem a mesma explicação mecânica.
  7. 7Confundir a compressão do duodeno com a compressão do tronco celíaco As duas dão dor pós-prandial, náusea, saciedade precoce e perda de peso, e nas duas o emagrecimento agrava o quadro. O que separa é o padrão: a síndrome da artéria mesentérica superior é obstrutiva, com vômitos, distensão epigástrica, alívio em decúbito lateral esquerdo ou posição genupeitoral e parada abrupta do contraste na terceira porção do duodeno. Além disso, a primeira linha ali é nutricional, com recuperação de peso, e não cirúrgica.
  8. 8Prometer à paciente jovem que a operação resolve As séries descrevem preditores de boa resposta à liberação — dor pós-prandial típica, perda de peso significativa, idade entre a quarta e a sexta décadas e ausência de história de abuso de álcool ou de transtorno psiquiátrico maior —, e quem opera fora desse perfil melhora menos. São observações de série, sem força de recomendação forte, e por isso a conversa antes da cirurgia precisa dizer que a resposta é variável.
  9. 9Atribuir a queixa a causa emocional antes de terminar a investigação O perfil demográfico da síndrome compressiva coincide com o de vários diagnósticos funcionais, e é comum que essas pacientes já tenham recebido esse rótulo em consultas anteriores. O rótulo precoce é uma das razões do atraso diagnóstico. A investigação se completa primeiro; a hipótese funcional, se for o caso, entra depois, e não no lugar dela.
  10. 10Revascularizar e esquecer a nutrição Quem passou meses restringindo alimento chega desnutrido, e reabrir o fluxo não devolve peso sozinho. A reintrodução alimentar precisa ser planejada, com atenção à síndrome de realimentação, e o acompanhamento nutricional entra antes e depois do procedimento. No paciente aterosclerótico soma-se o controle agressivo dos fatores de risco, porque a doença que estreitou a mesentérica está estreitando os outros territórios.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Dor pós-prandial previsível, sitofobia com emagrecimento importante e doença aterosclerótica difusa compõem a angina abdominal por estenose de pelo menos dois dos três troncos viscerais. O câncer gástrico engana porque também emagrece e dói no andar superior, mas ali a perda ponderal vem de anorexia e saciedade precoce, não do medo de comer com fome preservada — o detalhe de que a paciente evita a refeição por antecipar a dor é o que separa os dois. A dispepsia funcional não cursa com perda ponderal dessa magnitude nem em tabagista arteriopata.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Sem consultar nada, escreva: (1) as duas perguntas que separam a forma aguda da crônica, e o que acontece quando a dor de um paciente crônico deixa de passar; (2) as duas redes de colaterais que ligam os três troncos mesentéricos e a regra que delas decorre sobre o número de vasos acometidos; (3) os três elementos da apresentação clássica, com o intervalo entre a refeição e a dor; (4) em que fase respiratória a compressão do tronco celíaco aumenta e por quê; (5) as quatro diferenças entre a estenose aterosclerótica e a compressiva na imagem; (6) o erro de sequência envolvendo stent e a explicação mecânica dele.

em 30 dias

Pegue a paciente do caso resolvido — 26 anos, previamente hígida, dez meses de dor epigástrica em aperto que começa entre quinze e trinta minutos após as refeições e dura cerca de uma hora, medo de comer, nove quilos perdidos em oito meses, endoscopia e ultrassonografia normais, sopro epigástrico que muda com a respiração — e mude um dado por vez, dizendo o que quebra em cada mudança. E se ela tivesse 71 anos, fosse tabagista e tivesse claudicação de panturrilha? E se a angiotomografia mostrasse estenose ostial calcificada em dois troncos, igual nas duas fases da respiração? E se ela vomitasse a maior parte do que come, com distensão epigástrica e alívio ao deitar de bruços? E se a sorologia de doença celíaca fosse negativa mas a imunoglobulina A total estivesse muito baixa? E se, três meses depois da liberação laparoscópica, a dor voltasse e a imagem mostrasse estenose fixa residual? E se, num sábado, a dor tivesse começado às oito da manhã e às duas da tarde ainda não tivesse passado? Em seguida, escreva a lista de exclusão que você exigiria antes de indicar a liberação, com o motivo de cada item.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Você está no ambulatório de cirurgia vascular de um hospital-escola. Chega uma mulher de 26 anos, magra, encaminhada da gastroenterologia com dor abdominal de quase um ano e perda de peso importante, depois de endoscopia e ultrassonografia normais. Ela diz, logo no começo, que já ouviu de dois médicos que o problema é emocional e que está cansada de ser investigada. Conduza o atendimento: acolha a queixa sem atribuir a dor a causa emocional antes de concluir a investigação, caracterize o intervalo entre a refeição e a dor, a duração e a relação com o volume ingerido, quantifique a perda de peso e o período, investigue a mudança do comportamento alimentar e o medo de comer, levante os exames já realizados e o que cada um afastou, ausculte o epigástrio em expiração forçada e em inspiração profunda narrando o que procura, diga quais exames pede e com que especificações, e explique por que o diagnóstico depende de excluir outras causas e por que a resposta ao tratamento é variável. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Isquemia mesentérica crônica e compressões vasculares abdominais – Isquemia mesentérica crônica: a dor que ensina o paciente a não comer — Preparatório para provas | OsceLabs