Cirurgia GeralCirurgia Vascular

Trombose venosa profunda

O D-dímero não serve para todo mundo: o que ele resolve depende do escore que veio antes. A prova entrega uma perna inchada e cobra a ordem dos exames — e depois a droga, a dose e o número de meses.

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Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Mulher de 55 anos apresenta, há 2 dias, dor e edema em todo o membro inferior esquerdo, com empastamento de panturrilha e discreto aumento da temperatura local. Nega dispneia. PA 126x80 mmHg, FC 88 bpm, SatO2 97%. Fez viagem de ônibus prolongada há uma semana. O escore de Wells para TVP é 3 (moderado/alto). Qual o próximo passo mais adequado na investigação?

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Como esse tema cai

Este capítulo é sobre a trombose que já aconteceu. Prevenir é outro assunto e tem endereço próprio: o capítulo de profilaxia de tromboembolismo venoso, na apostila de Pré e Pós-operatório, é onde moram Caprini, Pádua, dose profilática, ponte e intervalo para o neuroeixo. E o tromboembolismo pulmonar que derrubou a pressão é choque obstrutivo, tratado no capítulo dos quatro tipos de choque. Aqui a pergunta é a perna que inchou ontem: como confirmar, com que droga tratar e por quantos meses.

O eixo do tema é a probabilidade pré-teste, e é por isso que a prova quase nunca pergunta o diagnóstico — pergunta a ordem dos exames. O D-dímero não é um exame que serve para todo mundo: o que ele resolve depende inteiramente do escore que veio antes dele. Em quem tem baixa probabilidade, um D-dímero negativo encerra a investigação sem imagem nenhuma. Em quem tem alta probabilidade, o mesmo resultado negativo não autoriza nada, e o positivo não acrescenta nada — o paciente vai para o ultrassom de qualquer jeito. Pedir D-dímero em alta probabilidade é o erro clássico do tema, e ele aparece nas provas exatamente assim: um pós-operatório recente, uma panturrilha inchada e uma alternativa que manda dosar D-dímero.

A trombose venosa profunda não tem protocolo clínico e diretrizes terapêuticas do Ministério da Saúde: o único documento nacional sobre tromboembolismo venoso é de prevenção em gestantes com trombofilia. O documento brasileiro de referência para diagnóstico e tratamento é a diretriz da Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular, publicada em 2024 no Jornal Vascular Brasileiro, e é dela que sai a régua deste capítulo — completada, onde ela é omissa, pelo Projeto Diretrizes da mesma sociedade.

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O que muda decisão

A conta que decide tudo: a probabilidade pré-teste

Nenhum sinal clínico isolado diagnostica nem descarta trombose venosa profunda. Dor, edema, empastamento da panturrilha, aumento de temperatura, dilatação do sistema venoso superficial: os achados clássicos se correlacionam com a doença em cerca de metade dos casos. Traduzindo: metade dos pacientes com a perna com cara de trombose não tem trombose, e uma parte dos que têm não faz cara nenhuma. É essa incerteza que obriga a somar os achados num modelo antes de pedir exame.

O modelo de predição mais estudado é o escore de Wells, e ele existe para transformar sinais, fatores de risco e a existência de um diagnóstico alternativo numa estimativa de quanto aquele paciente tem de chance de estar trombosado antes de qualquer exame. Na versão original, de três categorias, a probabilidade baixa corresponde a uma prevalência de TVP de 5%, a moderada de 17% e a alta de 53%. Guarde esses três números: eles são a razão de o algoritmo ser o que é.

O que muda com a prevalência não é o exame — é o que o resultado do exame significa. Um teste com sensibilidade altíssima e especificidade ruim, como o D-dímero, tem um valor preditivo negativo excelente quando a doença é rara na população testada e um valor preditivo negativo medíocre quando ela é comum. Na faixa de baixa probabilidade, o Wells de 1 ponto ou menos combinado com D-dímero negativo deixa a chance residual de TVP abaixo de 2%, o que é aceitável para mandar o paciente para casa sem imagem — é a Recomendação 1 da diretriz brasileira, classe I, nível de evidência A. Na faixa de alta probabilidade, com mais da metade dos pacientes doentes, o mesmo resultado negativo deixa um resíduo alto demais para dar alta.

Há um segundo motivo, mais prático, para não pedir D-dímero na alta probabilidade, e ele costuma passar batido: nessa faixa o resultado positivo também não muda nada. O paciente vai para o ultrassom com D-dímero alto e vai para o ultrassom com D-dímero baixo. Exame que não muda conduta em nenhum dos dois desfechos possíveis não se pede — ele só adiciona custo, tempo de pronto-socorro e a chance de alguém tomar a decisão errada com o número na mão.

Wells: dez itens, e um deles subtrai

O escore soma nove itens de um ponto cada e subtrai dois pontos de um décimo. Os nove positivos: câncer ativo (em tratamento, tratado nos últimos seis meses ou em cuidado paliativo); paralisia, paresia ou imobilização gessada recente do membro inferior; acamado por três dias ou mais, ou cirurgia de grande porte nas últimas doze semanas; dor localizada à palpação no trajeto do sistema venoso profundo; edema de todo o membro inferior; panturrilha com três centímetros ou mais de diferença em relação à contralateral, medida dez centímetros abaixo da tuberosidade tibial; edema depressível restrito ao membro sintomático; veias superficiais colaterais dilatadas e não varicosas; e TVP previamente documentada.

O décimo item é o que mais mexe no resultado e o menos treinado: diagnóstico alternativo pelo menos tão provável quanto trombose venosa profunda vale menos dois pontos. Ele existe porque a perna inchada e dolorida é o quadro final de várias doenças, e algumas são muito mais comuns que a trombose. Erisipela e celulite com porta de entrada e febre, ruptura de cisto de Baker, hematoma muscular após esforço, linfedema, insuficiência venosa crônica descompensada, artrite de joelho: quando a vinheta descreve com carinho um desses, ela está entregando os menos dois. Um paciente que somaria três pontos cai para um — de alta para moderada probabilidade — só por causa desse item.

O escore tem duas leituras, e as fontes usam uma ou outra. A diretriz da SBACV trabalha com a versão original, de três categorias: zero ou menos é baixa probabilidade, um a dois é moderada, três ou mais é alta. O NICE trabalha com a versão de duas categorias, em que dois pontos ou mais é TVP provável e um ponto ou menos é TVP improvável. As duas leituras produzem o mesmo algoritmo prático, porque baixa e moderada seguem o mesmo caminho: começam pelo D-dímero. A diferença aparece só na fronteira do paciente de dois pontos, que na leitura de três categorias é moderado e vai ao D-dímero, e na leitura de duas categorias já é provável e vai direto ao ultrassom. Se a prova nomear a fonte, siga a nomenclatura dela; se não nomear, a linguagem das alternativas denuncia qual das duas está em jogo.

Duas ressalvas de uso, porque a prova gosta de armar exceção. O item de TVP prévia só existe na versão modificada do escore — a primeira versão publicada não o tinha. E na suspeita de recorrência no mesmo membro usa-se o Wells modificado, com pontuação extra para a história de trombose prévia, porque o quadro clínico residual de quem já trombosou confunde o exame físico. O escore também não foi validado para gestantes, e é por isso que a gestante tem caminho próprio.

D-dímero: sensível, e nada específico

O D-dímero é um produto da degradação da fibrina pela plasmina. Ele sobe quando existe trombo sendo formado e lisado em algum lugar — mas sobe em qualquer lugar, e sobe também quando o sistema de coagulação é ativado por outro motivo que não uma trombose. Daí a assimetria que define o exame: a sensibilidade é de 94 a 100%, e a ausência de elevação afasta o diagnóstico de TVP em 97 a 98% dos casos; a especificidade é ruim o suficiente para que um resultado alto não signifique quase nada sozinho.

Os cortes usados pela diretriz brasileira: abaixo de 350 ng/mL o exame é negativo, entre 351 e 500 ng/mL é intermediário e acima de 500 ng/mL é positivo. O número que interessa decorar é o 500, porque é o corte convencional a partir do qual o resultado deixa de descartar.

A lista de quem tem D-dímero alto sem ter trombose é praticamente a lista dos pacientes que chegam ao pronto-socorro com a perna inchada: idoso, gestante, puérpera, paciente com câncer, pós-operatório recente, internado há dias, portador de infecção ou sepse, insuficiência cardíaca descompensada, hepatopata, doença inflamatória em atividade. Nesses grupos a especificidade despenca e o teste passa a vir positivo em quase todo mundo, o que o torna inútil: ele para de excluir e não confirma. É por isso que a pergunta correta nunca é o que o D-dímero deu, e sim se aquele paciente é alguém em quem o D-dímero ainda tem serventia.

Para o idoso existe uma correção formal, e ela cai em prova. Acima dos 50 anos, o corte de referência é ajustado multiplicando a idade por dez, em microgramas por litro: um paciente de 78 anos tem corte de 780 mcg/L em vez de 500. O ajuste aumenta a especificidade sem perder sensibilidade — ou seja, evita ultrassons desnecessários sem deixar escapar trombose. Repare que o ajuste só faz sentido em quem entrou no algoritmo pela porta certa: ele refina o corte de exclusão, não autoriza usar o exame em quem tem alta probabilidade.

Na gestante, a diretriz brasileira registra valores de referência que sobem com o trimestre: 0,75 mg/L no primeiro, 1,0 mg/L no segundo e 1,5 mg/L no terceiro. Na prática de prova, a conduta é mais simples do que a tabela: na gestante com suspeita clínica, a decisão não se pendura no D-dímero — vai-se ao ultrassom.

Uma última fronteira, porque a pergunta aparece disfarçada de seguimento: o D-dímero não monitora tratamento e não decide alta da anticoagulação. Um D-dímero persistentemente elevado depois de suspender o anticoagulante pode sinalizar risco de recorrência, mas não prediz maior ou menor risco de novo evento a ponto de comandar a decisão — é a Recomendação 2 da diretriz de 2024. A dosagem, quando feita, é cerca de um mês após a suspensão, e entra como mais um elemento da conversa, não como veredito.

Ultrassom com compressão: o exame que fecha o diagnóstico

O exame que confirma trombose venosa profunda é o eco-Doppler colorido com compressão, e o critério diagnóstico é mecânico, não hemodinâmico: o transdutor comprime a veia contra o plano profundo e observa se ela colaba. Veia normal colaba por completo sob pressão leve. Veia que não colaba tem trombo dentro. Fluxo, cor e ecogenicidade intraluminal ajudam a datar e caracterizar, mas quem fecha o diagnóstico é a incompressibilidade. É a informação que a prova cobra quando descreve o laudo em vez de dar o nome da doença.

O desempenho justifica a substituição da flebografia, que era o padrão histórico e hoje só sobrevive em situações pontuais: sensibilidade de 96% e especificidade de 98 a 100%. A diretriz brasileira favorece o exame de todo o trajeto venoso troncular do membro, em vez do exame segmentar de dois pontos ou do ultrassom à beira do leito — a varredura completa é o que permite ver a trombose distal e o segmento femoral em toda a sua extensão. Quando o eco-Doppler não é aplicável por limitação técnica ou suspeita de anomalia venosa, a angiotomografia entra como alternativa, com a vantagem de avaliar veias pélvicas e veia cava inferior, mal vistas ao ultrassom, e de flagrar outras causas de edema — inclusive a compressão da veia ilíaca comum esquerda da síndrome de May-Thurner.

O ultrassom negativo não encerra o caso quando a probabilidade clínica é alta. Nesse cenário, com D-dímero positivo, o exame é repetido em 3 a 7 dias — porque uma trombose distal pequena pode não ter sido vista e pode progredir para o segmento proximal nesse intervalo. Esse é o passo que mais some das respostas: o aluno confirma o diagnóstico com facilidade e trava quando o exame vem negativo contra a clínica.

Na suspeita de recorrência no mesmo membro, o ultrassom é mais difícil, porque o segmento previamente trombosado costuma ficar com parede espessada e lúmen irregular para sempre. Os critérios que a diretriz aceita como diagnóstico de recorrência ipsilateral são objetivos: aumento de 4 mm ou mais no diâmetro do mesmo segmento acometido, aumento de 9 cm na extensão do trombo, ou trombo em segmento venoso distinto. Sem exame anterior para comparar, a decisão vira clínica.

Corte transversal da coxa com o transdutor comprimindo os vasos: a veia normal colaba por completo sob a pressão, enquanto a veia com trombo permanece redonda e aberta ao lado da artéria.
O critério diagnóstico do ultrassom é mecânico: veia que não colaba sob compressão tem trombo dentro. Fluxo e cor caracterizam; quem confirma é a incompressibilidade.

O algoritmo, e o erro que ele existe para evitar

Somado o escore, o caminho se abre em dois. Probabilidade baixa ou moderada — ou, na leitura de duas categorias, TVP improvável: dose o D-dímero. Negativo, a investigação acaba ali, sem imagem e sem anticoagulação. Positivo, o paciente segue para o ultrassom com compressão. Probabilidade alta, ou TVP provável: ultrassom direto, sem D-dímero.

Quando o ultrassom não sai a tempo no paciente provável, existe uma conduta intermediária que a prova gosta de esconder no meio das alternativas: anticoagular provisoriamente enquanto se espera o exame, desde que o risco de sangramento permita. O NICE fixa o prazo — ultrassom proximal com resultado em até 4 horas; se não for possível, anticoagulação interina e exame em até 24 horas. A lógica é a mesma da suspeita forte de embolia pulmonar: não se deixa um paciente de alta probabilidade sem cobertura por causa da fila do exame.

O erro clássico do tema tem sempre a mesma forma na vinheta. Paciente de risco evidente — pós-operatório recente, imobilização, câncer, viagem prolongada com gesso —, panturrilha assimétrica, e uma alternativa oferecendo dosar D-dímero, e outra oferecendo dar alta porque o D-dímero veio normal. As duas erram pelo mesmo motivo: naquele paciente o exame não tinha poder de excluir. O antídoto é somar o Wells antes de olhar para qualquer resultado.

O espelho desse erro também aparece, e é mais sutil: pedir ultrassom para todo mundo. No paciente de baixa probabilidade com D-dímero negativo, a imagem não é conduta cautelosa, é exame sem indicação — e um achado marginal num paciente com 2% de chance residual gera anticoagulação que não deveria existir, com o risco de sangramento que vem junto.

A anticoagulação inicial: qual heparina, e por quê

Confirmada a trombose, a anticoagulação começa imediatamente. A heparina de baixo peso molecular é a escolha padrão da fase inicial: a enoxaparina em dose terapêutica é de 1 mg/kg por via subcutânea de 12 em 12 horas, ou 1,5 mg/kg por via subcutânea uma vez ao dia. Ela tem biodisponibilidade previsível, dispensa monitorização de rotina do anti-fator Xa — pede-se hemograma com contagem de plaquetas, pelo risco de trombocitopenia induzida por heparina — e pode ser usada em regime domiciliar, o que sustenta o tratamento ambulatorial da TVP não complicada.

A heparina não fracionada endovenosa não é a opção de conforto; é a opção de quem tem um motivo. Bolus de 80 U/kg (ou 5.000 U), infusão contínua de 18 U/kg/h (ou 1.300 U/h), ajustada para manter o TTPa entre 1,5 e 2,5 vezes o valor basal. Existe também o esquema subcutâneo de dose fixa: 333 U/kg iniciais e 250 U/kg de 12 em 12 horas, com o mesmo alvo de TTPa. Os motivos para preferi-la são três e caem em prova: insuficiência renal grave, com clearance abaixo de 30 mL/min, porque a heparina de baixo peso é eliminada pelo rim e se acumula; risco alto de sangramento ou procedimento invasivo previsto, porque a meia-vida curta e a reversão pela protamina permitem desligar o efeito; e instabilidade que exija titulação fina.

O fondaparinux por via subcutânea é a terceira opção parenteral, útil sobretudo em quem teve trombocitopenia induzida por heparina, e a diretriz brasileira o traz junto das outras duas como início aceitável do tratamento.

Onde tratar é uma decisão à parte, e a resposta moderna é fora do hospital. A TVP não complicada, em paciente com suporte e acesso à medicação, é tratada em casa; a internação fica para o quadro complicado, o risco alto de sangramento, a comorbidade que exige vigilância e a embolia pulmonar de risco não baixo.

Varfarina e os anticoagulantes orais diretos

A varfarina não trabalha sozinha na largada. Ela começa no primeiro dia de tratamento, junto da heparina, e a heparina só pode sair quando duas condições forem satisfeitas ao mesmo tempo: pelo menos cinco dias de uso parenteral e INR entre 2 e 3 por dois dias consecutivos. A regra tem uma razão farmacológica, e é ela que a prova cobra disfarçada de armadilha: a varfarina derruba primeiro a proteína C e a proteína S, que são anticoagulantes naturais de meia-vida curta, antes de derrubar os fatores II, IX e X. Nas primeiras 48 a 72 horas o paciente fica transitoriamente mais pró-trombótico, e é desse intervalo que sai a necrose cutânea induzida por varfarina. A dose inicial de 10 mg alcança o INR terapêutico mais rápido que a de 5 mg, o que encurta o tempo de heparina.

Os anticoagulantes orais diretos mudaram a fase inicial de duas maneiras distintas, e a diferença entre elas é exatamente o que se cobra. A rivaroxabana e a apixabana têm fase de ataque oral e dispensam heparina: a rivaroxabana começa com 15 mg por via oral de 12 em 12 horas por 21 dias e depois cai para 20 mg uma vez ao dia; a apixabana começa com 10 mg por via oral de 12 em 12 horas por 5 dias e depois cai para 5 mg de 12 em 12 horas. A fase de ataque é o que substitui a heparina — prescrever a dose de manutenção desde o primeiro dia deixa o paciente subanticoagulado justo na semana de maior risco. Já a dabigatrana e a edoxabana não têm fase de ataque oral: elas só entram depois de cinco dias de anticoagulante parenteral.

Contra a varfarina, os orais diretos têm mortalidade equivalente e menos sangramento maior — risco relativo de 0,63, o que corresponde a seis eventos hemorrágicos graves a menos por mil pacientes tratados —, além de dose fixa, sem coleta de INR e com menos interação alimentar e medicamentosa. Isso explica por que as diretrizes os colocam em primeira linha.

Existem lugares onde o oral direto não entra, e eles são de decoreba: gestação e amamentação, síndrome antifosfolípide (sobretudo a tripla-positiva, em que os orais diretos mostraram mais eventos trombóticos que a varfarina), prótese valvar mecânica, insuficiência renal grave e hepatopatia avançada. Nesses casos a resposta volta a ser varfarina com sobreposição, ou heparina.

Duração: quem decide é o gatilho, não o trombo

O tamanho do trombo não define o tempo de tratamento. Quem define é a resposta a uma pergunta só: o que causou esta trombose ainda existe? A partir daí, quatro cenários.

Trombose provocada por fator transitório maior — cirurgia, trauma, imobilização gessada, internação prolongada, viagem com imobilidade extrema — trata por 3 a 6 meses e suspende. A diretriz de 2024 compara esse esquema com o tratamento longo, de 6 a 12 meses, e recomenda o curto (classe II, nível B): o fator que provocou já passou, e prolongar não compra proteção depois que a droga sai, só compra sangramento enquanto ela está lá.

Trombose não provocada, sem gatilho identificável, é anticoagulação por tempo indeterminado. Terminado o tratamento primário de 3 a 6 meses, entra a fase de prevenção secundária, e aí a dose pode cair: rivaroxabana 10 mg por dia ou apixabana 2,5 mg de 12 em 12 horas, esquemas que a diretriz brasileira prefere para a profilaxia secundária de quem não tem câncer (classe IIa, nível A). É o conceito de anticoagulação estendida — a pergunta deixou de ser tratar o trombo que existe e passou a ser impedir o próximo, e a dose que serve para isso é menor.

Trombose com fator de risco persistente, ou trombose recorrente, é anticoagulação oral por tempo indeterminado (classe I, nível B). E trombose no paciente com câncer ativo se mantém enquanto o câncer estiver ativo ou em tratamento, com o mínimo dos 3 a 6 meses — a heparina de baixo peso molecular é mais eficaz que a varfarina nesse grupo, e os orais diretos entram como alternativa, com a ressalva do risco hemorrágico maior em tumores gastrintestinais e geniturinários.

O vocabulário de fases, que a ASH 2020 fixou e que aparece nos enunciados, ajuda a organizar: manejo inicial de 5 a 21 dias, tratamento primário de 3 a 6 meses, prevenção secundária além disso. Quando a alternativa fala em 'anticoagulação estendida', está falando da terceira fase.

TVP distal isolada: anticoagular ou vigiar

A divisão anatômica é simples e vale ponto: proximal é a trombose que acomete veia poplítea, femoral ou ilíaca; distal é a que fica abaixo da poplítea — veias tibiais, fibulares e musculares da panturrilha. A proximal tem risco maior de embolia pulmonar e produz síndrome pós-trombótica mais grave. A distal é a que gera a discussão.

O número que sustenta a posição brasileira é o risco de progressão da trombose distal para o segmento proximal, de até 20%. É por causa dele que a diretriz da SBACV trata diagnóstico e tratamento da distal como similares aos da proximal, e o Projeto Diretrizes fixa a duração em pelo menos três meses. O raciocínio é de segurança: um em cada cinco sobe, e o que sobe embolizar.

A posição alternativa aceita não anticoagular de saída no paciente certo e vigiar com ultrassom seriado por duas semanas; se o trombo não se estender, não se anticoagula. Ela vale para quem tem sintomas leves e baixo risco de extensão. O que empurra o paciente para o grupo que anticoagula: sintomas importantes, trombo extenso ou em múltiplas veias, trombo encostado na poplítea, D-dímero muito elevado, câncer ativo, tromboembolismo venoso prévio, paciente internado e ausência de fator provocador reversível.

Na prática de prova, o desenho do enunciado entrega o recorte. Vinheta que descreve o trombo em detalhe — extensão, calibre, quantas veias, distância da poplítea — e que menciona risco de sangramento está montando o cenário do ultrassom seriado. Vinheta que só diz trombose de veias musculares da panturrilha num paciente com câncer, ou com trombose prévia, ou internado, está no grupo em que se anticoagula.

Filtro de veia cava, remoção do trombo e phlegmasia cerulea dolens

O filtro de veia cava tem um objetivo único: impedir que o trombo chegue ao pulmão. Ele não trata a trombose, não substitui anticoagulação como terapia e não reduz mortalidade — reduz embolia pulmonar e, em contrapartida, aumenta a recorrência de TVP no longo prazo. A indicação real é uma só: paciente com trombose venosa profunda proximal e contraindicação formal ao início da anticoagulação, como sangramento ativo ou neurocirurgia recente. Nesse caso, filtro temporário, e a anticoagulação convencional é retomada assim que o risco de sangramento se resolver — momento em que o filtro deve ser retirado. As diretrizes recomendam contra a inserção rotineira em quem já está anticoagulado.

As indicações que não são indicação aparecem com frequência nas alternativas: trombo flutuante, extensão do trombo apesar da anticoagulação adequada, profilaxia antes de cirurgia em paciente que pode receber heparina, e 'reforço' associado à anticoagulação plena. Nenhuma delas se sustenta como indicação estabelecida.

A remoção precoce do trombo — trombólise dirigida por cateter, isolada ou associada à trombectomia fármaco-mecânica — é reservada a paciente selecionado com trombose iliofemoral sintomática, sintomas com menos de 14 dias, baixo risco de sangramento, boa capacidade funcional e expectativa de vida de pelo menos um ano. Para trombose de veias femorais, poplíteas ou da panturrilha, a remoção precoce não é recomendada. E a duração da anticoagulação de quem passou pelo procedimento é exatamente a mesma de quem não passou: tirar o trombo não encurta o tratamento.

A phlegmasia cerulea dolens é a exceção que sai de toda essa discussão de custo-benefício. É a trombose iliofemoral maciça que oclui também a drenagem colateral: o membro fica intensamente edemaciado, cianótico e muito doloroso, a pressão nos compartimentos sobe, o enchimento capilar piora e o quadro caminha para gangrena venosa e perda do membro — com sequestro de volume suficiente para causar choque. Aqui a trombólise é o tratamento de escolha, e a trombectomia cirúrgica com fasciotomia é obrigatória quando não há resposta aos trombolíticos. A phlegmasia alba dolens, com o membro pálido, é o estágio que costuma preceder. Reconhecer o nome pela descrição do membro cianótico e tenso é metade da questão.

Trombofilia: por que o resultado quase nunca muda a conduta

As trombofilias hereditárias que se pesquisam são a resistência à proteína C ativada (fator V de Leiden), a mutação da protrombina G20210A e as deficiências de antitrombina, proteína C e proteína S. As adquiridas incluem a síndrome antifosfolípide, o câncer e a hemoglobinúria paroxística noturna.

O primeiro motivo para não pedir no pronto-socorro é técnico: quase todos esses exames são falseados pela própria situação em que se costuma pedi-los. O evento trombótico agudo consome anticoagulantes naturais e derruba os níveis; a heparina interfere na dosagem de antitrombina; a varfarina derruba proteína C e proteína S; os anticoagulantes orais diretos interferem na pesquisa do anticoagulante lúpico e nos testes de resistência à proteína C ativada. Colher sob anticoagulação produz um resultado que não se pode interpretar, e a coleta correta é feita semanas depois da suspensão.

O segundo motivo é lógico, e é o que a prova cobra: o resultado quase nunca muda o que já se ia fazer. O paciente com trombose provocada por fator transitório trata 3 a 6 meses e para, com ou sem trombofilia. O paciente com trombose não provocada já vai para anticoagulação por tempo indeterminado, com ou sem trombofilia. Se a conduta é a mesma nos dois desfechos do exame, o exame não é indicado — a mesma régua do D-dímero na alta probabilidade.

Sobram as situações em que investigar faz diferença. A principal é a suspeita de síndrome antifosfolípide, porque esse resultado muda a droga: tira o paciente do oral direto e o coloca na varfarina. Levantam a suspeita a trombose arterial e venosa no mesmo paciente, o paciente jovem, o lúpus, a perda fetal de repetição e a plaquetopenia. A outra é o evento não provocado em que o plano é suspender a anticoagulação e o resultado pesaria nessa decisão. Fora disso, o NICE é explícito ao recomendar contra: não testar quem vai seguir anticoagulado, não testar evento provocado e não testar de rotina parentes de primeiro grau assintomáticos — um resultado positivo num assintomático gera ansiedade e restrição sem oferecer conduta.

Síndrome pós-trombótica, meia elástica e a TVP da gestante

A síndrome pós-trombótica é a sequela crônica da trombose e o desfecho que mais pesa na vida do paciente que sobreviveu ao evento agudo: dor, edema, sensação de peso, alteração de pigmentação da pele e, no extremo, ulceração. Ela nasce de dois mecanismos somados — destruição valvular pela organização do trombo e obstrução residual —, que produzem hipertensão venosa ambulatorial. Nos ensaios de trombose proximal extensa, ela aparece em cerca de metade dos pacientes tratados só com anticoagulação. São fatores de risco o trombo residual ao ultrassom, a recanalização ausente ou parcial, o refluxo na veia poplítea e a idade avançada. O instrumento usado para graduá-la é a escala de Villalta.

A meia elástica de compressão graduada é o ponto em que as fontes se separaram, e vale conhecer os dois lados: a recomendação brasileira mantém a meia de 30 a 40 mmHg por pelo menos dois anos após TVP proximal sintomática, iniciada assim que possível, e o ensaio randomizado com meia placebo não encontrou redução da incidência da síndrome. O que permanece de pé nos dois lados é o alívio sintomático: a meia reduz edema e sensação de peso, e por isso segue indicada para o paciente sintomático, ainda que o papel preventivo esteja em disputa.

A trombose da gestante muda tudo, a começar pela epidemiologia. O risco é cinco a dez vezes maior durante a gestação e trinta e cinco vezes maior no puerpério; dois terços das tromboses ocorrem durante a gestação, mas de 43 a 60% das embolias pulmonares acontecem nas primeiras seis semanas de puerpério. A trombose da gestante é do membro inferior esquerdo em 90% dos casos, contra 55% fora da gestação, e acomete o segmento iliofemoral em 72%, contra 9% — consequência da compressão da veia cava e da veia ilíaca comum esquerda contra a quinta vértebra lombar pelo útero gravídico.

No diagnóstico, o escore de Wells não é validado e o D-dímero sobe fisiologicamente com o trimestre: o exame inicial é o ultrassom, e ele precisa alcançar o segmento ilíaco, que é justamente o mais acometido e o pior visualizado. Ultrassom negativo com suspeita forte pede repetição e, se necessário, imagem dedicada das veias pélvicas.

No tratamento, a regra é curta: heparina de baixo peso molecular, do começo ao fim. Os anticoagulantes orais diretos são contraindicados na gestação e na amamentação, porque atravessam a placenta e passam ao leite. A varfarina é embriopática entre a sexta e a décima segunda semanas — hipoplasia nasal, anomalias do sistema nervoso central, sangramento fetal — e, apesar disso, é segura durante a amamentação, o que é uma pegadinha frequente. O parto é programado entre 37 e 40 semanas, com a heparina de baixo peso suspensa 12 horas antes na dose profilática e 24 horas antes na dose terapêutica, e a anticoagulação se estende por toda a gestação e por pelo menos seis semanas de puerpério, totalizando no mínimo três meses.

04

Wells, o algoritmo e o relógio do tratamento

O escore vem primeiro, e é ele que decide qual exame o paciente merece. Os cards mostram a única escala verdadeiramente ordinal do tema — as três faixas de probabilidade do Wells, com a prevalência de TVP de cada uma e o exame que vem a seguir. A primeira tabela traz os itens com a pontuação; a segunda, as duas leituras do escore, porque as fontes usam versões diferentes; a terceira, as drogas com dose e fase de ataque; a quarta, a duração por cenário.

  1. 11. Some o escore de Wells antes de pedir qualquer exame. Nove itens valem +1 cada; o décimo — diagnóstico alternativo pelo menos tão provável quanto TVP — vale −2 e é o que mais muda o resultado.
  2. 22. Baixa ou moderada probabilidade (0 a 2 pontos), ou TVP improvável na leitura de duas categorias: dose o D-dímero. Negativo, a investigação termina — sem imagem e sem anticoagulação. Positivo, siga para o ultrassom.
  3. 33. Alta probabilidade (3 pontos ou mais), ou TVP provável: ultrassom com compressão direto, sem D-dímero. Com 53% de prevalência na faixa, um resultado negativo não descarta e um positivo não acrescenta.
  4. 44. Se o ultrassom não sai a tempo no paciente provável, anticoagule provisoriamente enquanto espera, desde que o risco de sangramento permita.
  5. 55. Leia o ultrassom pela compressibilidade: veia que não colaba sob o transdutor tem trombo. Positivo, anticoagule e classifique em proximal (poplítea, femoral, ilíaca) ou distal (abaixo da poplítea).
  6. 66. Ultrassom negativo com alta probabilidade e D-dímero positivo: repita o exame em 3 a 7 dias, porque a trombose distal pequena pode não ter sido vista e pode progredir.
  7. 77. Confirmado o diagnóstico, escolha o esquema (heparina de baixo peso, oral direto com fase de ataque, ou varfarina com sobreposição) e responda à pergunta que define a duração: o que provocou esta trombose ainda existe?

Baixa — Wells 0 ou menos

Prevalência de TVP de 5%. Começa pelo D-dímero: negativo, a chance residual fica abaixo de 2% e o paciente vai para casa sem imagem e sem anticoagulação. Positivo, segue para o ultrassom com compressão.

Moderada — Wells 1 a 2

Prevalência de TVP de 17%. Mesmo caminho da faixa baixa: D-dímero primeiro, ultrassom só se ele vier positivo. Na leitura de duas categorias, o paciente de 2 pontos já é TVP provável e vai direto à imagem.

Alta — Wells 3 ou mais

Prevalência de TVP de 53%. Ultrassom com compressão direto, sem D-dímero: nessa faixa o resultado negativo não desce o risco o bastante para dar alta, e o positivo não muda o destino do paciente.

Item do escore de Wells para TVPPontos
Câncer ativo — em tratamento, tratado nos últimos 6 meses ou em cuidado paliativo+1
Paralisia, paresia ou imobilização gessada recente do membro inferior+1
Acamado por 3 dias ou mais, ou cirurgia de grande porte nas últimas 12 semanas+1
Dor localizada à palpação no trajeto do sistema venoso profundo+1
Edema de todo o membro inferior+1
Panturrilha com 3 cm ou mais de diferença em relação à contralateral, medida 10 cm abaixo da tuberosidade tibial+1
Edema depressível (cacifo) restrito ao membro sintomático+1
Veias superficiais colaterais dilatadas, não varicosas+1
TVP previamente documentada (item da versão modificada)+1
Diagnóstico alternativo pelo menos tão provável quanto TVP−2

As duas leituras do escore, e o que cada faixa manda fazer

VersãoFaixaPontuaçãoPrevalência de TVPPróximo passo
Três categorias — a original, usada pela diretriz da SBACVBaixa0 ou menos5%D-dímero
Três categoriasModerada1 a 217%D-dímero
Três categoriasAlta3 ou mais53%Ultrassom com compressão, sem D-dímero
Duas categorias — usada pelo NICETVP improvável1 ou menosD-dímero
Duas categoriasTVP provável2 ou maisUltrassom com compressão em até 4 h; se não sair, anticoagulação interina

Anticoagulação da TVP: as opções, as doses e o que decide a escolha

DrogaFase de ataqueManutençãoO que decide a escolha
Enoxaparina (heparina de baixo peso molecular)Não tem — a dose terapêutica já é a inicial1 mg/kg SC de 12/12 h, ou 1,5 mg/kg SC 1×/diaPadrão da fase inicial. Biodisponibilidade previsível, sem monitorização de rotina, permite tratamento domiciliar
Heparina não fracionada endovenosaBolus de 80 U/kg ou 5.000 U18 U/kg/h ou 1.300 U/h, ajustada para TTPa 1,5 a 2,5 vezes o basalClearance abaixo de 30 mL/min, risco alto de sangramento ou procedimento previsto — meia-vida curta e reversão com protamina
Heparina não fracionada subcutânea, dose fixa333 U/kg250 U/kg de 12/12 h, com o mesmo alvo de TTPaAlternativa quando não há bomba de infusão
VarfarinaNão tem — começa no 1º dia junto da heparina; dose inicial de 10 mg chega mais rápido ao alvo que 5 mgAjustada para INR entre 2 e 3A heparina só sai após 5 dias de uso E com INR entre 2 e 3 por 2 dias consecutivos
Rivaroxabana15 mg VO de 12/12 h por 21 dias20 mg VO 1×/diaDispensa heparina inicial — a fase de ataque a substitui
Apixabana10 mg VO de 12/12 h por 5 dias5 mg VO de 12/12 hDispensa heparina inicial
Dabigatrana e edoxabanaNão têm fase de ataque oralDose plena após 5 dias de anticoagulante parenteralExigem heparina antes — é a diferença que a prova cobra entre os orais diretos

Duração do tratamento por cenário

CenárioDuraçãoDetalhe que decide a questão
Provocada por fator transitório maior — cirurgia, trauma, gesso, internação prolongada3 a 6 meses, e suspendeO fator passou; estender para 6 a 12 meses não compra proteção depois que a droga sai
Não provocada, primeiro episódio, sem gatilho identificávelIndeterminadaApós o tratamento primário, pode-se seguir com dose reduzida: rivaroxabana 10 mg/dia ou apixabana 2,5 mg de 12/12 h
Fator de risco persistente, ou TVP recorrenteIndeterminadaRecorrência sob fator que não vai embora define anticoagulação por tempo indeterminado
Paciente com câncer ativoEnquanto o câncer estiver ativo ou em tratamento, no mínimo os 3 a 6 mesesHeparina de baixo peso é mais eficaz que varfarina nesse grupo; oral direto é alternativa, com cautela em tumor gastrintestinal e geniturinário
Distal isolada, quando se opta por anticoagularPelo menos 3 mesesA alternativa é ultrassom seriado por 2 semanas em quem tem sintoma leve e baixo risco de extensão
GestanteToda a gestação e pelo menos 6 semanas de puerpério, no mínimo 3 meses no totalHeparina de baixo peso do começo ao fim; suspender 24 h antes do parto na dose terapêutica

D-dímero ajustado por idade: acima dos 50 anos, o corte deixa de ser 500 e passa a ser a idade multiplicada por dez, em microgramas por litro — 780 mcg/L aos 78 anos. Ganha-se especificidade sem perder sensibilidade, mas o ajuste só vale dentro do algoritmo: ele refina o corte de exclusão, não autoriza usar o exame em quem tem alta probabilidade.

O intervalo para repetir o ultrassom negativo com suspeita alta varia entre as fontes: a diretriz brasileira fixa 3 a 7 dias e o NICE, 6 a 8 dias. Este capítulo usa 3 a 7 dias, que é a régua do documento nacional. A diferença é de calendário, não de conceito — o que se está esperando, nos dois casos, é a eventual progressão de uma trombose distal que não foi vista.

Meia elástica de compressão graduada: 30 a 40 mmHg, iniciada assim que possível e mantida por pelo menos dois anos, é a recomendação brasileira para TVP proximal sintomática e para quem passou por remoção do trombo.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Anticoagulante oral direto ou varfarina no tratamento da TVP

Oral direto em primeira linha — posição das diretrizes

Rivaroxabana e apixabana entram sem heparina, têm dose fixa, dispensam coleta de INR e têm menos interação alimentar e medicamentosa. Contra os antagonistas da vitamina K, a mortalidade é equivalente e o sangramento maior cai — risco relativo de 0,63, seis eventos hemorrágicos graves a menos por mil pacientes tratados.

SBACV, J Vasc Bras 2024 (Tabela 2, adaptada da ASH 2020); ASH 2020, Blood Adv 2020;4:4693-4738

Varfarina com sobreposição de heparina — o esquema disponível na rede pública

Rivaroxabana e apixabana não integram a Relação Nacional de Medicamentos Essenciais — a varfarina e as heparinas, sim. Na rede pública o esquema exequível continua sendo heparina de baixo peso na fase inicial com varfarina desde o primeiro dia, alvo de INR entre 2 e 3, e a estrutura de coleta seriada que isso implica. Nas avaliações de incorporação de anticoagulante oral direto, o argumento registrado foi o de não-inferioridade diante de um anticoagulante oral que o SUS já dispensa.

Conitec — relatórios de recomendação sobre anticoagulantes orais diretos; RENAME 2024

Na prova

A causa da diferença é de incorporação e custo, não de eficácia: o documento internacional e o brasileiro concordam sobre o desempenho das drogas. O que separa os dois mundos no enunciado é o cenário e o vocabulário. Unidade básica, farmácia da unidade, 'medicação disponível na rede', ambulatório de anticoagulação, controle de INR nas alternativas: corpo brasileiro do SUS. Menção nominal à diretriz da SBACV ou à ASH, ou uma alternativa que destaque 'sem necessidade de monitorização laboratorial', denuncia o recorte das diretrizes. Régua útil: prova oficial do MEC tende a conduta SUS; nas demais bancas, a presença de um distrator com controle de INR costuma indicar em que mundo a questão foi escrita.

TVP distal isolada: anticoagular ou vigiar com ultrassom seriado

Anticoagular como se fosse proximal — posição da SBACV

O risco de progressão da trombose distal para o segmento proximal chega a 20%, e é esse número que faz a diretriz brasileira tratar diagnóstico e conduta da distal como similares aos da proximal. O Projeto Diretrizes fixa a duração em pelo menos três meses.

SBACV, J Vasc Bras 2024; SBACV, Projeto Diretrizes — TVP: diagnóstico e tratamento (2015), item 5.2

Ultrassom seriado por duas semanas no paciente de baixo risco de extensão — posição do CHEST

Em trombose distal isolada com sintomas leves e sem fatores de risco para extensão, repete-se o ultrassom por duas semanas em vez de anticoagular; se o trombo não se estender, não se anticoagula. Anticoagulam-se de saída os que têm sintomas importantes, trombo extenso ou em múltiplas veias, trombo próximo à poplítea, D-dímero muito elevado, câncer ativo, tromboembolismo venoso prévio, internação ou ausência de fator provocador reversível.

Diretrizes de tromboembolismo venoso do American College of Chest Physicians (CHEST)

Na prova

O enunciado escolhe o lado pelo detalhe que oferece. Vinheta que descreve o trombo com precisão — extensão, calibre, número de veias, distância da poplítea — e que menciona risco de sangramento está montando o cenário do acompanhamento por imagem. Vinheta que diz apenas trombose de veias musculares da panturrilha num paciente com câncer ativo, tromboembolismo prévio ou internado está no grupo que anticoagula. A presença da expressão 'ultrassonografia seriada' entre as alternativas é o sinal mais direto de que a questão foi escrita no corpo do CHEST.

Meia elástica para prevenir a síndrome pós-trombótica

Meia de 30 a 40 mmHg por pelo menos dois anos — recomendação da SBACV (2015)

A compressão melhora a função de bomba da panturrilha, reduz o edema e otimiza a microcirculação cutânea, e a recomendação brasileira registra redução em torno de 50% na incidência de síndrome pós-trombótica após um primeiro episódio de TVP proximal tratada com anticoagulantes, com início da meia assim que possível e uso por no mínimo dois anos.

SBACV, Projeto Diretrizes — TVP: diagnóstico e tratamento (2015), item 5.4.1

Sem efeito preventivo demonstrado — ensaio SOX (2014)

O maior ensaio randomizado do tema comparou meia elástica com meia placebo por dois anos após TVP proximal sintomática e não encontrou diferença na incidência de síndrome pós-trombótica, nem pelos critérios de Ginsberg (desfecho primário) nem pelos de Villalta (secundário). A discussão metodológica publicada em seguida girou em torno da adesão ao uso e da perda de seguimento.

Kahn SR et al., SOX trial, Lancet 2014;383(9920):880-888, e a correspondência subsequente no mesmo periódico

Na prova

Registre os anos: a recomendação brasileira em vigor é de 2015 e o ensaio que a contraria é de 2014 — as duas posições convivem na literatura em português. Enunciado que pergunta o que previne a síndrome pós-trombótica e oferece meia elástica entre as alternativas trabalha com o corpo mais antigo; enunciado que fala em 'benefício não demonstrado em ensaio randomizado' ou que data a evidência está no corpo pós-SOX. Onde não há disputa — e por isso costuma ser o terreno das questões bem construídas — é no alívio sintomático: a meia reduz edema e sensação de peso no paciente com sintomas, e isso nenhuma das duas posições contesta.

Remoção precoce do trombo na TVP iliofemoral

Trombólise dirigida por cateter em paciente selecionado

A diretriz brasileira recomenda estratégias precoces de remoção do trombo em pacientes selecionados com TVP iliofemoral aguda sintomática, especialmente com baixo risco de sangramento (classe II, nível B). O ensaio CaVenT mostrou redução absoluta de 14,4% na síndrome pós-trombótica aos 24 meses, ampliada para 28% aos cinco anos.

SBACV, J Vasc Bras 2024, Recomendação 18, e o ensaio CaVenT ali reproduzido

Anticoagulação isolada

O ensaio ATTRACT não encontrou diferença na incidência de síndrome pós-trombótica entre trombólise e tratamento padrão (47% contra 48%) e registrou mais sangramentos graves (1,7% contra 0,3%). Uma revisão Cochrane encontrou mais complicações hemorrágicas com trombólise (6,7% contra 2,2%). Na tabela de desfechos, a trombólise reduz 186 eventos de síndrome pós-trombótica por mil e acrescenta 31 sangramentos maiores por mil.

SBACV, J Vasc Bras 2024, que reproduz os resultados do ATTRACT (2017) e da revisão Cochrane, e a Tabela 1 adaptada da ASH 2020

Na prova

A questão entrega o lado pelo perfil do paciente, e é por isso que ela costuma ser longa. Segmento iliofemoral, sintomas com menos de 14 dias, paciente jovem, baixo risco de sangramento, boa capacidade funcional e expectativa de vida preservada: o enunciado está construindo o candidato à remoção do trombo. Trombose femoropoplítea, idoso, comorbidade, sangramento recente ou anticoagulação já instalada: está construindo o cenário da anticoagulação isolada. E há um caso que sai da disputa por completo — a phlegmasia cerulea dolens, em que a remoção do trombo não é uma aposta sobre sequela tardia e sim salvamento de membro.

06

Caso resolvido

Homem de 64 anos chega ao pronto-socorro com dor e edema na panturrilha direita há um dia. Fez artroplastia total do joelho direito há seis dias e recebeu alta há dois, com enoxaparina 40 mg por dia suspensa na alta. Nega febre, nega ferida ou porta de entrada cutânea, nega câncer e nega trombose prévia. Ao exame: edema de todo o membro inferior direito, panturrilha direita 4 cm maior que a esquerda medida 10 cm abaixo da tuberosidade tibial, cacifo restrito ao membro direito e dor à palpação no trajeto da veia poplítea. Sem dispneia, sem dor torácica, saturação de 97% em ar ambiente. O plantonista da triagem já havia solicitado D-dímero, que voltou em 1.480 ng/mL.
achado
Pós-operatório recente de cirurgia de grande porte, com quatro sinais locais somados no mesmo membro e nenhum diagnóstico alternativo sugerido — não há febre, porta de entrada nem descrição de erisipela, cisto de Baker roto ou hematoma.
escore
Wells de 5 pontos: cirurgia de grande porte nas últimas 12 semanas (+1), edema de todo o membro inferior (+1), panturrilha com 3 cm ou mais de diferença (+1), cacifo restrito ao membro sintomático (+1) e dor à palpação no trajeto do sistema venoso profundo (+1). Nenhum ponto negativo. Alta probabilidade na leitura de três categorias; TVP provável na de duas.
conduta diagnóstica
Ultrassom com compressão de todo o membro, sem depender do D-dímero. O exame já colhido não muda nada: com 53% de prevalência na faixa, um resultado negativo não daria alta e o positivo não altera o destino. Enquanto o exame não sai, anticoagulação plena é aceitável, já que não há risco proibitivo de sangramento.
resultado
Veias poplítea e femoral direitas não compressíveis ao transdutor, com material ecogênico intraluminal. Trombose venosa profunda proximal confirmada — a incompressibilidade é o critério, não a cor ou o padrão de fluxo.
tratamento
Rivaroxabana 15 mg por via oral de 12 em 12 horas por 21 dias e depois 20 mg uma vez ao dia, sem heparina prévia — a fase de ataque a substitui. Alternativa igualmente correta: enoxaparina 1 mg/kg por via subcutânea de 12 em 12 horas. Tratamento domiciliar, por se tratar de TVP não complicada em paciente com suporte.
duração
Trombose provocada por fator transitório maior — cirurgia há menos de 12 semanas. Tratamento de 3 a 6 meses e suspensão ao final, sem anticoagulação estendida e sem pesquisa de trombofilia, que não mudaria nada aqui.
o que se evitou
Duas armadilhas. A primeira seria ter tratado o D-dímero como porta de entrada num paciente de alta probabilidade. A segunda, mais perigosa, seria a versão espelhada da vinheta: se o D-dímero tivesse voltado em 380 ng/mL, dar alta com diagnóstico de contusão pós-operatória — em quem tem mais da metade de chance de estar trombosado, D-dímero negativo não descarta.
07

Agora feche você

Mulher de 31 anos, gestante de 26 semanas, primeira gestação, procura o pronto atendimento por dor e edema em membro inferior esquerdo há três dias, com piora progressiva e desconforto na virilha. Nega febre, nega trauma e nega trombose prévia; não tem história familiar de trombose. Ao exame: edema de todo o membro inferior esquerdo, panturrilha esquerda 3,5 cm maior que a direita, dor à palpação do trajeto venoso profundo e da região inguinal esquerda, sem sinais flogísticos e sem porta de entrada. Pressão arterial 112 por 70 mmHg, sem dispneia, saturação de 98%. Na triagem foi colhido D-dímero, que voltou em 1.900 ng/mL.
achado
Edema unilateral à esquerda com dor inguinal em gestante do segundo trimestre — a distribuição típica: 90% das tromboses da gestante são no membro inferior esquerdo e 72% acometem o segmento iliofemoral, pela compressão da veia ilíaca comum esquerda pelo útero contra a quinta vértebra lombar.
interpretação do D-dímero
O resultado de 1.900 ng/mL não decide nada. O D-dímero sobe fisiologicamente com o trimestre, e o escore de Wells não foi validado em gestantes — o par escore mais D-dímero, que organiza o algoritmo fora da gestação, aqui não se aplica.
conduta
08

Onde a banca derruba

  1. 1Dosar D-dímero no paciente de alta probabilidade Atrai porque parece a sequência lógica de qualquer investigação — do exame barato para o caro. Mas na faixa de 53% de prevalência o teste não tem os dois desfechos úteis: negativo não desce o risco o bastante para dar alta, positivo não muda o destino. Exame que não altera conduta em nenhum dos resultados possíveis não se pede.
  2. 2Dar alta com D-dímero negativo em quem tem Wells alto É o espelho da armadilha anterior, e o mais perigoso dos dois, porque o paciente vai embora. A sensibilidade de 94 a 100% seduz, mas o valor preditivo negativo depende da prevalência: ele é excelente na faixa baixa e insuficiente na alta. E ainda existe a lista de quem tem D-dímero alterado por outro motivo — idoso, gestante, câncer, pós-operatório, infecção — onde o exame perde a especificidade e para de servir para qualquer coisa.
  3. 3Encerrar o caso no primeiro ultrassom negativo O ultrassom tem sensibilidade de 96%, e a fatia que escapa é justamente a trombose distal pequena, que pode progredir. No paciente de alta probabilidade com D-dímero positivo e ultrassom negativo, a conduta é repetir o exame em 3 a 7 dias — não é dar alta, e não é anticoagular às cegas por tempo indeterminado.
  4. 4Começar varfarina sozinha, sem heparina Parece razoável porque a varfarina é o tratamento de manutenção e o paciente vai tomá-la por meses. Mas ela derruba antes a proteína C e a proteína S, que têm meia-vida curta, e só depois os fatores da coagulação: nas primeiras 48 a 72 horas o paciente fica transitoriamente pró-trombótico, e é dessa janela que sai a necrose cutânea induzida por varfarina. A heparina cobre esse intervalo e só sai após 5 dias e com INR entre 2 e 3 por 2 dias consecutivos.
  5. 5Prescrever o oral direto já na dose de manutenção A rivaroxabana tem fase de ataque de 15 mg de 12 em 12 horas por 21 dias e a apixabana, de 10 mg de 12 em 12 horas por 5 dias. Prescrever 20 mg por dia ou 5 mg de 12 em 12 horas desde o início deixa o paciente subanticoagulado exatamente na fase de maior risco de extensão e embolização — a fase de ataque é o que substitui a heparina. E o inverso também erra: dabigatrana e edoxabana não têm ataque oral e exigem 5 dias de heparina antes.
  6. 6Pedir painel de trombofilia no pronto-socorro É a conduta que parece completa e não é. O evento agudo consome anticoagulantes naturais, a heparina interfere na antitrombina, a varfarina derruba proteína C e S e o oral direto atrapalha a pesquisa de anticoagulante lúpico — o resultado colhido ali é ininterpretável. E, mesmo correto, ele quase nunca muda a conduta: o evento provocado trata 3 a 6 meses e o não provocado vai para anticoagulação indeterminada de qualquer forma. A exceção que vale é a suspeita de síndrome antifosfolípide, porque ela tira o paciente do oral direto e o coloca na varfarina.
  7. 7Indicar filtro de veia cava porque o trombo é flutuante O filtro tem uma indicação real: trombose proximal com contraindicação formal à anticoagulação. Trombo flutuante, extensão sob anticoagulação adequada, 'reforço' associado à anticoagulação plena e profilaxia pré-operatória em quem pode receber heparina não são indicações estabelecidas. O filtro reduz embolia pulmonar, não reduz mortalidade e aumenta a recorrência de TVP no longo prazo — e, quando indicado, é temporário, com retomada da anticoagulação assim que o risco de sangramento se resolver.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Com probabilidade clínica moderada/alta (Wells ≥2), o exame de escolha é a ultrassonografia com Doppler venoso, e não o D-dímero — este só tem valor para excluir TVP quando a probabilidade é BAIXA. Warfarina isolada não faz ponte de anticoagulação e não deve ser iniciada sem confirmação/heparinização. Angiotomografia de tórax investigaria TEP, sem sinais aqui (sem dispneia/hipoxemia). Flebografia é invasiva e reservada a casos duvidosos, não é primeira linha.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Reescreva de memória, sem consultar: os dez itens do escore de Wells com a pontuação de cada um, incluindo o de menos dois pontos; as três faixas com as prevalências de 5%, 17% e 53% e o exame que cada uma manda pedir; o corte de 500 ng/mL do D-dímero e a fórmula do ajuste por idade acima de 50 anos; o critério diagnóstico do ultrassom e o intervalo de repetição quando ele vem negativo com suspeita alta. Depois recite a linha de dose de cinco drogas: enoxaparina, heparina não fracionada endovenosa, varfarina com o alvo de INR e a regra de sobreposição, rivaroxabana com a fase de ataque e apixabana com a fase de ataque.

em 30 dias

Sem olhar a tabela, responda a quatro vinhetas de duração: trombose depois de artroplastia; trombose sem gatilho nenhum em paciente de 45 anos; trombose em paciente com adenocarcinoma de pâncreas em quimioterapia; segunda trombose em quem tem síndrome antifosfolípide. Depois explique em voz alta, como se fosse para um interno: por que o D-dímero não serve no paciente de Wells alto; por que a trombose distal isolada divide as fontes e qual é o número que sustenta cada lado; qual é a única indicação real de filtro de veia cava; e o que muda no diagnóstico e na droga quando a paciente está grávida. Feche nomeando o quadro em que a trombólise deixa de ser aposta sobre sequela tardia e vira salvamento de membro.

11

Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Homem de 64 anos no sexto dia de pós-operatório de artroplastia de joelho, com dor e edema em toda a perna direita, panturrilha 4 cm maior que a contralateral e dor à palpação do trajeto venoso profundo — pronto-socorro, com um D-dímero já colhido na triagem. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Trombose venosa profunda — Preparatório para provas | OsceLabs