Cirurgia GeralCirurgia Vascular

Doença arterial obstrutiva periférica

A prova raramente pergunta o diagnóstico. Ela pergunta se você opera o claudicante — e, no claudicante estável, o que mais aumenta a distância de caminhada não é o stent: é exercício supervisionado, parar de fumar e controlar o risco. Na isquemia crítica e na aguda, a lógica se inverte e o relógio passa a mandar.

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Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Homem de 68 anos, tabagista, queixa-se de dor em panturrilha direita que surge após caminhar cerca de 200 metros e alivia com o repouso, há 8 meses. Nega dor em repouso ou lesões. Ao exame: pulso femoral presente, pulsos poplíteo e pedioso reduzidos à direita. Qual o diagnóstico mais provável?

02

Como esse tema cai

Este capítulo trata da doença aterosclerótica obstrutiva dos membros inferiores em toda a sua faixa de gravidade: do assintomático ao claudicante, do claudicante à isquemia crônica que ameaça o membro, e a isquemia arterial aguda, que é outra doença com outro relógio. Território venoso — trombose venosa profunda, insuficiência venosa — tem capítulo próprio nesta apostila.

O padrão da questão é sempre o mesmo: homem de 60 e poucos anos, fumante, diabético ou hipertenso, com dor na panturrilha ao caminhar que passa com o repouso, e a pergunta é o que fazer. A armadilha é pular para a arteriografia e o stent. No claudicante estável, o que aumenta a distância de caminhada é exercício supervisionado, cessação do tabagismo e controle dos fatores de risco; a revascularização entra na falha disso. O que muda o jogo é o tipo de isquemia: dor em repouso ou ferida que não cicatriza já é isquemia que ameaça o membro; membro frio, doloroso e sem pulso de início súbito é emergência.

A doença arterial periférica é equivalente de doença coronariana: quem tem placa na perna tem placa em outro lugar, e morre disso. Por isso todo paciente sai da consulta com antiagregante e estatina — a escolha da estatina e a meta de LDL estão no capítulo de dislipidemias, em Clínica Médica.

A régua nacional é a diretriz de doença arterial periférica da SBACV, publicada em 2024 no Jornal Vascular Brasileiro, que cobre assintomático, claudicação e isquemia crônica que ameaça o membro — e declara que deixa de fora as oclusões arteriais agudas. Para a isquemia aguda, o documento de referência é a diretriz da ESVS de 2020; a diretriz ACC/AHA de 2024 entra como contraste onde o texto brasileiro é mais conservador. O pé diabético tem documento oficial brasileiro próprio: o Manual do Pé Diabético do Ministério da Saúde, de 2016, que organiza o rastreamento e o encaminhamento no SUS.

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O que muda decisão

Doença coronariana com sintoma na perna

A doença arterial obstrutiva periférica (DAOP) é aterosclerose — a mesma que entope coronária e carótida, com a mesma lista de fatores de risco. Idade, tabagismo, diabetes, hipertensão e dislipidemia respondem por quase toda a doença, e o tabagismo pesa mais aqui do que na doença coronariana. Diabetes e DAOP juntos multiplicam a mortalidade por três a quatro vezes e a taxa de amputação por cinco.

A história natural do claudicante é melhor para a perna do que para o coração. Depois do primeiro ano de diagnóstico, o risco anual de progredir para isquemia crônica é de 2% a 3%, e o risco anual de amputação, de 1%. Ou seja: a maioria dos claudicantes não perde o membro — mas uma parte relevante morre de infarto ou AVC no meio do caminho. Isso decide a conduta: o tratamento da perna é sintomático e funcional; o tratamento da doença é prevenção secundária cardiovascular.

Prevenção secundária, aqui, tem quatro pernas. Cessação do tabagismo, recomendada para prevenir tanto os eventos cardiovasculares maiores quanto os eventos maiores no membro (recomendação 4, grau 1B), com aconselhamento intensivo somado a farmacoterapia — reposição de nicotina, bupropiona ou vareniclina (recomendação 5, grau 1A) — e programas de pelo menos 6 meses. Estatina para todo paciente com DAOP que a tolere (recomendação 12, grau 1A), com o detalhe de que ela também aumenta a distância de caminhada (recomendação 13, grau 1B). Controle pressórico, com alvo abaixo de 140/90 mmHg no risco cardiovascular baixo ou moderado e abaixo de 130/80 mmHg no risco alto (recomendação 16, grau 1B). E controle glicêmico com hemoglobina glicada abaixo de 7%, aceitando-se abaixo de 8% em quem já tem complicação vascular ou expectativa de vida limitada; a metformina é a primeira linha, empagliflozina e liraglutida reduziram amputações, e a canagliflozina não é recomendada no diabético com DAOP pelo sinal de aumento de amputação no estudo CANVAS.

O antiagregante tem uma regra que cai em prova: DAOP assintomática isolada de membros inferiores não recebe antitrombótico de rotina (recomendação 17, grau 1A). No paciente sintomático, é monoterapia — ácido acetilsalicílico 75 a 150 mg/dia ou clopidogrel 75 mg/dia. A combinação de aspirina com clopidogrel em doença estável aumenta sangramento sem reduzir eventos, e não se recomenda para todos.

Claudicação: o que é, onde dói, e o que a imita

Claudicação intermitente é dor, cãibra, queimação ou fadiga em grupo muscular do membro inferior, desencadeada de forma consistente pela caminhada e aliviada de forma consistente pelo repouso — em geral em menos de 10 minutos. Os três elementos precisam estar juntos: aparece ao andar, some ao parar, e a distância que a desencadeia é reprodutível. Sintoma que exige mais de 10 minutos de repouso para passar, ou que aparece parado, não é claudicação típica.

Onde dói diz onde está a lesão, porque o músculo isquêmico é o que fica abaixo da obstrução. Dor em nádega e coxa aponta o segmento aorto-ilíaco; a tríade de claudicação glútea, ausência de pulsos femorais e disfunção erétil é a síndrome de Leriche. Dor na panturrilha, a mais comum, aponta o segmento fêmoro-poplíteo. Dor no pé aponta o segmento infrapoplíteo, território do diabético. Quanto mais proximal a oclusão, maior a incapacidade.

Dor na perna ao caminhar tem uma lista de imitadores, e a diretriz brasileira a organiza em quatro grupos: vascular (DAOP, isquemia crônica que ameaça o membro, insuficiência venosa crônica, trombose venosa profunda, aprisionamento da artéria poplítea), neurogênica (estenose do canal medular, neuropatia periférica, radiculopatias, espondilolistese), musculoesquelética (artrose de quadril ou joelho, cisto de Baker, síndrome compartimental crônica de esforço, fratura por estresse, cãibras) e outras (pernas inquietas, vasculites, doença oncológica).

A imitadora que a prova prefere é a estenose de canal lombar, cuja claudicação neurogênica também é chamada de pseudoclaudicação. A diferença é postural, e é isso que se pergunta. A dor vascular alivia com a interrupção da marcha, em qualquer posição, e não tem relação com flexão ou extensão do tronco. A neurogênica alivia sentado, deitado ou inclinado para a frente, e piora ao ficar em pé parado ou com a coluna estendida — porque o canal se estreita na extensão e alarga na flexão. Daí o teste da bicicleta: pedalar, que mantém o tronco fletido, piora o quadro vascular e não piora o neurogênico. Um consenso internacional de 279 especialistas de 29 países listou sete achados que dão 80% de certeza de estenose de canal na história e no exame — e um deles é justamente pulsos periféricos normais e simétricos.

O questionário de Edinburgh existe para padronizar essa distinção em estudo e em triagem: pergunta se a dor aparece ao caminhar, se começa parado ou sentado, se aparece em ladeira e no plano, e o que acontece quando o paciente para — se persiste por mais de 10 minutos ou desaparece em 10 minutos ou menos.

ITB: como se mede e o que cada faixa diz

O índice tornozelo-braço (ITB) é a ferramenta de triagem e o exame que confirma o diagnóstico. Mede-se com o paciente em decúbito dorsal, esfigmomanômetro e Doppler de onda contínua. O numerador é a maior pressão sistólica do tornozelo daquela perna — aferida na tibial posterior ou na pediosa dorsal; o denominador é a maior das duas pressões braquiais. Cada perna tem o seu índice.

As faixas são quatro. Igual ou abaixo de 0,90, o exame é alterado e fecha DAOP. Entre 0,91 e 0,99, é limítrofe. Entre 1,00 e 1,40, é normal. Acima de 1,40, a artéria é incompressível: o resultado não é bom, é inválido. Calcinose da média — frequente no diabético, no renal crônico e no idoso — enrijece a parede, o manguito não colaba a artéria e o índice sobe artificialmente. Nessa situação, mede-se a pressão do hálux, cujas artérias digitais raramente calcificam, e calcula-se o índice hálux-braço, que confirma o diagnóstico com valor igual ou abaixo de 0,70.

ITB normal em repouso não exclui DAOP em quem tem sintoma típico. É para isso que existe o teste na esteira com ITB pós-exercício: uma queda maior que 30 mmHg na pressão sistólica do tornozelo ou uma queda maior que 20% no ITB depois do exercício fazem o diagnóstico. Quando não há esteira ajustável, o protocolo de carga fixa é inclinação de 12° a 3,2 km/h. O teste também serve para medir objetivamente o quanto o paciente está limitado e para acompanhar a resposta ao tratamento.

Exame de imagem — ecodoppler, angiotomografia, angiorressonância ou arteriografia — não entra para confirmar diagnóstico nem para satisfazer curiosidade anatômica. Entra quando a revascularização já está em discussão, seja pela falha do tratamento clínico no claudicante, seja pela isquemia que ameaça o membro. Pedir angiotomografia em paciente com DAOP confirmada em quem não se cogita intervir é conduta classificada como danosa.

Perna e pé em decúbito dorsal com manguito de pressão logo acima do tornozelo e sonda Doppler portátil sobre a artéria pediosa dorsal; ao fundo, manguito no braço para a medida braquial.
O ITB é a maior pressão sistólica do tornozelo daquela perna dividida pela maior das duas pressões braquiais, com o paciente deitado e Doppler de onda contínua.

Do assintomático à gangrena: Fontaine, Rutherford e a fronteira que importa

Duas classificações convivem. Fontaine separa em quatro estágios, com o II dividido em dois: I assintomático, IIa claudicação limitante, IIb claudicação incapacitante, III dor isquêmica em repouso, IV lesão trófica. Rutherford aloca em sete categorias, de 0 a 6, incluindo o assintomático: 0 assintomático; 1, 2 e 3 são claudicação leve, moderada e severa; 4 é dor em repouso; 5 é lesão trófica pequena; 6 é necrose extensa. A correspondência é direta e está na tabela deste capítulo.

A fronteira que decide conduta não é entre IIa e IIb — é entre o estágio II e o estágio III. Enquanto a dor só aparece ao esforço, o membro está compensado em repouso e o tratamento é clínico. Quando a dor aparece em repouso, o fluxo já não sustenta nem o metabolismo basal: virou isquemia crônica que ameaça o membro, e o paciente muda de fila.

Isquemia crônica que ameaça o membro — o nome que substituiu isquemia crítica — é definida por dor isquêmica em repouso com mais de 2 semanas, ferida que não cicatriza ou gangrena, atribuídas a doença arterial oclusiva objetivamente comprovada. As 2 semanas não são detalhe: elas separam o quadro crônico da isquemia aguda, que por definição tem menos de 2 semanas de sintomas. Hemodinamicamente, o grau 3 de isquemia da classificação WIfI marca a gravidade com números: ITB igual ou abaixo de 0,39, pressão de tornozelo abaixo de 50 mmHg, pressão do hálux ou TcPO2 abaixo de 30 mmHg.

A classificação WIfI, da Society for Vascular Surgery, gradua três coisas ao mesmo tempo — ferida (wound), isquemia (ischemia) e infecção do pé (foot infection) — e correlaciona com a probabilidade de salvamento do membro e de cicatrização depois da revascularização. Ao lado dela, o GLASS estadia a anatomia. Nenhuma das duas é guia único de conduta: a diretriz brasileira é explícita em dizer que servem para auxiliar a análise caso a caso, e que o acompanhamento longitudinal — quem não cicatriza apesar do cuidado local e sistêmico adequado — é o que define a indicação de revascularizar.

Todo paciente com isquemia crônica que ameaça o membro deve ser encaminhado com urgência ao especialista vascular para consideração de revascularização (recomendação 44). Sem revascularizar, a taxa de amputação maior em 1 ano chega a 22%.

O tratamento que funciona não é o bisturi

No claudicante, o tratamento inicial é clínico e não cirúrgico (recomendação 39, grau 1A). E o pilar é o exercício: treinamento de caminhada supervisionado é recomendado para todo paciente com DAOP de membros inferiores (recomendação 34, grau 1A), com dose definida — no mínimo três vezes por semana, no mínimo 30 minutos por sessão, por no mínimo 3 meses (recomendação 35, grau 1B). A diretriz americana descreve a mesma coisa em outros termos: 30 a 45 minutos de caminhada ativa dentro de sessões de 60 minutos, pelo menos 3 vezes por semana, por pelo menos 12 semanas, caminhando até dor moderada a máxima, parando, e retomando.

O ganho não é modesto. Estudos controlados mostraram aumento de até 200% na distância percorrida após 12 semanas de treinamento, e o supervisionado é superior ao não supervisionado tanto na distância quanto na qualidade de vida. Quando o programa supervisionado não está disponível — o que é a regra fora dos grandes centros —, o treinamento não supervisionado é recomendado (recomendação 36, grau 1C), e o acréscimo de intervenção comportamental cognitiva em grupo melhora o desempenho de quem treina em casa. Exercício de membro superior com ergômetro de braço é a alternativa quando caminhar não é possível.

Reavalia-se em 3 meses. É o prazo do programa mínimo de exercício e é o prazo para julgar a farmacoterapia sintomática.

O cilostazol é o único fármaco com indicação sintomática consolidada. Inibidor da fosfodiesterase 3, vasodilatador e antiagregante, aumenta a distância inicial e a distância máxima de caminhada. A dose é 100 mg duas vezes ao dia, tomados pelo menos 30 minutos antes ou 2 horas depois do café da manhã e do jantar. A diretriz brasileira o reserva para quem tem qualidade de vida substancialmente limitada e para quem o treino de caminhada é restrito, inviável ou ineficaz (recomendação 37, grau 1B), e manda suspender se não houver melhora em 3 meses (recomendação 38, grau 1C). A contraindicação a decorar é absoluta e independe da gravidade: insuficiência cardíaca de qualquer grau. O raciocínio é de classe — a milrinona, também inibidora de fosfodiesterase, aumentou mortalidade na insuficiência cardíaca grave. Efeitos adversos comuns são cefaleia, diarreia, tontura e palpitação, e cerca de 1 em cada 5 pacientes abandona a droga em 3 meses.

A pentoxifilina não é recomendada para tratar claudicação: o benefício é incerto pelas limitações dos estudos, e a diretriz americana a classifica como sem benefício. Ela aparece em alternativa de prova exatamente por ser a droga que os pacientes chegam usando. Anticoagulante oral também não tem lugar no tratamento da claudicação — aumenta sangramento sem ganho.

Quando revascularizar — e por onde

No claudicante, a revascularização entra quando o tratamento clínico otimizado falha e os sintomas continuam limitando o estilo de vida ou a profissão (recomendação 40, grau 1B), sobretudo em lesões aorto-ilíacas, ílio-femorais e fêmoro-poplíteas incluindo a poplítea proximal — territórios proximais, que incapacitam mais e respondem melhor. Em claudicação de curta distância com treino impossível ou malsucedido e anatomia adequada, a intervenção é recomendada para melhorar qualidade de vida (recomendação 41, grau 1C). Duas travas: intervenção endovascular profilática em lesão hemodinamicamente significativa de claudicante não é recomendada de rotina (recomendação 43), e ponte fêmoro-tibial para tratar claudicação intermitente não se faz (recomendação 42, grau 1B). O paciente precisa ser informado de que a falha da intervenção pode ter consequências graves para o membro — quem entra claudicante pode sair pior.

Há um detalhe anatômico que inverte a ordem: quando a lesão é pélvica, da bifurcação femoral ou da femoral profunda, o treinamento de caminhada não funciona, porque falta leito para colateralizar. Nesses casos, recanaliza-se antes de introduzir o treino. E os efeitos são aditivos: revascularização somada a exercício supervisionado supera qualquer uma das duas isolada na distância de caminhada e na qualidade de vida.

Na isquemia crônica que ameaça o membro, a lógica muda. O objetivo deixa de ser conforto e passa a ser sobrevida livre de amputação, cicatrização da ferida e alívio da dor isquêmica. Revasculariza-se por via endovascular, aberta ou híbrida, considerando o padrão anatômico, o grau de isquemia, a durabilidade esperada, o risco perioperatório e a expectativa de vida (recomendação 45). Antes de amputar, avaliação por equipe multiespecializada é recomendada, porque a decisão de nível de amputação e a chance de preservar um pé funcional dependem de perfusão, infecção e extensão da perda tecidual.

Quando se opta pela cirurgia aberta infrainguinal, o conduto é a veia safena magna autóloga sempre que disponível: a perviedade é muito maior e as reintervenções, muito menores, do que com PTFE ou Dacron. Na falta dela, existem alternativas — safena parva, veias de membro superior, conduto composto, prótese com interposição de anel venoso na anastomose distal —, mas nenhuma equivale à safena magna. Por isso o mapeamento ultrassonográfico da safena entra na avaliação pré-operatória de quem é candidato às duas estratégias.

A escolha entre endovascular e aberto na isquemia crítica é a controvérsia viva do tema, e os dois maiores ensaios randomizados apontam para lados diferentes — o bloco de divergências deste capítulo traz os números de cada um. O que os dois deixam claro é que a decisão não é ideológica: depende de haver ou não veia adequada, do território da lesão, do risco cirúrgico e da expectativa de vida do paciente.

Isquemia arterial aguda: o relógio

Isquemia arterial aguda é queda súbita da perfusão do membro com ameaça à sua sobrevivência, definida por duração de sintomas de até 2 semanas. As causas são embolia, trombose de artéria nativa ou de reconstrução prévia, aneurisma periférico trombosado, dissecção e trauma. Em registro sueco de 16.229 revascularizações por isquemia aguda de artéria nativa, 44% foram embólicas, 53% trombóticas e 3% por aneurisma de poplítea.

Embolia e trombose se apresentam diferente. A embólica é súbita, dramática, em paciente sem história prévia de claudicação — dois terços vêm de fibrilação atrial e cerca de 20% de trombo ventricular. A trombótica é mais arrastada, em paciente que já claudicava e já tinha colateral formada, e por isso costuma ser menos catastrófica. O sinal isquêmico, tipicamente, aparece uma articulação abaixo do nível da oclusão.

Os seis Ps organizam o exame: dor (pain), palidez (pallor), ausência de pulso (pulselessness), poiquilotermia (frio), parestesia e paralisia. Raramente estão todos presentes — quando estão, a isquemia é grave em paciente com artérias antes normais. Os dois que importam para decidir são os dois últimos: perda sensitiva e perda motora são sinais de membro ameaçado e de necessidade de revascularização imediata. A palpação de pulso é pouco confiável nesse cenário; usa-se o Doppler de onda contínua à beira do leito para procurar sinal arterial e, sobretudo, sinal venoso.

É esse exame que preenche a classificação de Rutherford para isquemia aguda, e ela é a conduta em forma de tabela. Grau I, viável: sem perda sensitiva nem motora, Doppler arterial e venoso audíveis, sem ameaça imediata. Grau IIa, marginalmente ameaçado: perda sensitiva ausente ou mínima, restrita aos dedos, sem déficit motor, Doppler arterial inaudível e venoso audível — salvável se tratado prontamente. Grau IIb, imediatamente ameaçado: perda sensitiva além dos dedos e déficit motor leve a moderado — salvável apenas se revascularizado imediatamente. Grau III, irreversível: anestesia profunda, paralisia com rigidez muscular, Doppler arterial e venoso ambos inaudíveis — perda tecidual maior e lesão nervosa permanente são inevitáveis, e o membro é inviável.

A conduta comum a todos, assim que o diagnóstico clínico é feito, é heparina intravenosa e oxigênio suplementar enquanto se aguarda a revascularização. Não se espera exame para anticoagular. A partir daí: no grau I, há tempo para imagem e para tratar como isquemia crônica; no IIa, imagem urgente e revascularização — endovascular, incluindo trombólise dirigida por cateter, ou aberta; no IIb, o tempo não permite trombólise prolongada, e a revascularização é imediata; no III, a revascularização de tecido inviável é conduta danosa, e o caminho é a amputação.

Dois números fecham o tema. O músculo esquelético tolera cerca de 4 a 6 horas de isquemia — é essa janela que explica a pressa. E, diagnosticada a síndrome compartimental pós-isquêmica, adiar a fasciotomia por mais de 6 horas não é recomendado. Depois da revascularização de embolia por fibrilação atrial ou trombo intracardíaco, a anticoagulação de longo prazo é recomendada: sem tratar a fonte, o êmbolo volta.

Árvore arterial do membro inferior com êmbolo alojado na bifurcação femoral; o segmento distal aparece afilado e a perna abaixo do joelho, mais pálida, com linha de demarcação.
Na oclusão aguda, o sinal isquêmico aparece tipicamente uma articulação abaixo do nível da obstrução — a demarcação localiza a lesão antes de qualquer exame.

Pé diabético: a dor que não avisa e o índice que mente

O pé diabético é onde a DAOP engana duas vezes. Primeiro na clínica: a neuropatia periférica apaga a dor, e o paciente que deveria claudicar simplesmente não claudica — a úlcera aparece antes do sintoma. Depois no exame: a calcinose da média torna a artéria incompressível e joga o ITB acima de 1,40, ou o normaliza falsamente, num membro que está isquêmico. Um ITB de 1,2 num diabético com úlcera que não cicatriza não tranquiliza ninguém; nesse cenário mede-se a pressão do hálux.

O Manual do Pé Diabético do Ministério da Saúde classifica o pé em neuropático, isquêmico ou misto, e o quadro de sinais é a base da avaliação na Atenção Básica. O pé neuropático é quente ou morno, de coloração normal, com pele seca e fissurada, deformidades como dedo em garra, dedo em martelo ou pé de Charcot, e sensibilidade diminuída ou abolida. O pé isquêmico é frio, pálido à elevação e cianótico com o declive, com pele fina e brilhante, sem deformidades e com história de claudicação intermitente ou dor à elevação do membro; à palpação, pulsos tibial posterior e pedioso podem estar ausentes. O misto soma os dois — e é o mais comum no doente de longa data.

A classificação de risco do documento tem quatro categorias e define a periodicidade da reavaliação: grau 0, sem perda de sensibilidade protetora e sem doença arterial periférica, reavaliação anual; grau 1, perda de sensibilidade protetora com ou sem deformidade, a cada 3 a 6 meses; grau 2, doença arterial periférica com ou sem perda de sensibilidade, a cada 2 a 3 meses, com avaliação de encaminhamento ao cirurgião vascular; grau 3, história de úlcera ou amputação, a cada 1 a 2 meses, e havendo doença arterial periférica, avaliar o encaminhamento. A presença de doença arterial já sobe o paciente para o grau 2 mesmo sem neuropatia — é a doença arterial, e não a ferida, que muda a fila.

Vale conhecer o terceiro imitador que o próprio texto ortopédico lembra: no idoso, sobretudo diabético, é preciso excluir neuropatia periférica antes de atribuir a dor à coluna ou à artéria. Hipoestesia em bota, redução da sensibilidade vibratória, queimação noturna e ausência de correlação com a atividade física apontam neuropatia — e a eletroneuromiografia resolve.

04

As réguas da DAOP: ITB, Fontaine, Rutherford e a isquemia aguda

São quatro instrumentos com funções distintas, e confundi-los é a origem de metade dos erros no tema. O ITB diz se existe doença e se o exame é confiável. Fontaine e Rutherford dizem em que estágio o paciente está. O WIfI quantifica a gravidade da isquemia no membro já ameaçado. A classificação de Rutherford para isquemia aguda é a única que, sozinha, define a conduta e o prazo.

  1. 1Caracterize a dor: aparece ao caminhar, cede com o repouso em menos de 10 minutos e a distância é reprodutível? Se alivia sentando ou inclinando o tronco para a frente e os pulsos estão normais e simétricos, pense em estenose de canal lombar antes de pensar em artéria.
  2. 2Meça o ITB nas duas pernas. Igual ou abaixo de 0,90 fecha DAOP; entre 0,91 e 0,99 é limítrofe; entre 1,00 e 1,40 é normal; acima de 1,40 o exame é inválido, não normal.
  3. 3Corrija a leitura conforme o caso: ITB normal ou limítrofe com sintoma típico pede ITB pós-exercício (queda maior que 30 mmHg na pressão do tornozelo ou maior que 20% no índice fecha o diagnóstico); ITB acima de 1,40 pede índice hálux-braço.
  4. 4Classifique: Fontaine I a IV ou Rutherford 0 a 6. A pergunta que decide o destino é uma só — a dor existe apenas ao esforço, ou também em repouso?
  5. 5Dor isquêmica em repouso por mais de 2 semanas, úlcera que não cicatriza ou gangrena: isquemia crônica que ameaça o membro. Encaminhamento urgente ao especialista vascular e avaliação para revascularização; grave o grau de isquemia pelo WIfI.
  6. 6Início súbito, menos de 2 semanas, com os seis Ps: isquemia aguda. Heparina intravenosa e oxigênio imediatamente, Doppler de onda contínua à beira do leito e classificação de Rutherford para isquemia aguda — é ela que diz se há tempo para imagem, se a revascularização é imediata ou se o membro é inviável.

Fontaine I — assintomático

Placa presente, fluxo suficiente para o repouso e para o esforço habitual. Corresponde à categoria 0 de Rutherford. O ITB pode estar alterado sem que o paciente relate qualquer sintoma — e uma parte desses assintomáticos desenvolve sintoma quando testada na esteira. Não recebe antitrombótico de rotina se a DAOP for assintomática e isolada; recebe tudo o mais da prevenção secundária.

Fontaine IIa — claudicação limitante

Dor ao caminhar que cede com o repouso, ainda com distância confortável. Corresponde às categorias 1 e 2 de Rutherford (claudicação leve e moderada). Tratamento clínico: exercício supervisionado, cessação do tabagismo, antiagregante, estatina e controle de risco. Revascularizar aqui, sem tentar o clínico, é o erro clássico do tema.

Fontaine IIb — claudicação incapacitante

A mesma dor, agora em distância curta, que impede trabalho e vida social. Corresponde à categoria 3 de Rutherford (claudicação severa). Continua sendo indicação de tratamento clínico primeiro; é aqui que a revascularização passa a ser considerada quando o clínico otimizado falha e a lesão é proximal e adequada.

Fontaine III — dor isquêmica em repouso

O fluxo já não sustenta o metabolismo basal: dor no antepé em repouso, tipicamente noturna, que melhora ao pendurar a perna para fora da cama. Corresponde à categoria 4 de Rutherford. Com mais de 2 semanas, é isquemia crônica que ameaça o membro — encaminhamento urgente ao vascular e avaliação para revascularização.

Fontaine IV — lesão trófica

Úlcera que não cicatriza ou gangrena. Corresponde às categorias 5 (lesão trófica pequena) e 6 (necrose extensa) de Rutherford. É a outra porta da isquemia crônica que ameaça o membro, e a que mais some com o pé diabético — a neuropatia apaga a dor e a ferida chega antes do sintoma. Sem revascularização, a amputação maior em 1 ano chega a 22%.

Faixa do ITBLeituraO que fazer
≤ 0,90Alterado — fecha o diagnóstico de DAOPClassificar (Fontaine/Rutherford), iniciar prevenção secundária e exercício supervisionado
0,91 – 0,99LimítrofeSe há sintoma típico, fazer ITB pós-exercício: queda > 30 mmHg na pressão do tornozelo ou > 20% no índice fecha DAOP
1,00 – 1,40NormalNão exclui DAOP em quem tem sintoma típico — mesma conduta da faixa limítrofe: ITB pós-exercício
> 1,40Artéria incompressível (calcinose da média) — resultado inválido, não normalMedir a pressão do hálux: índice hálux-braço ≤ 0,70 confirma DAOP. Típico de diabetes, doença renal crônica e idade avançada

Fontaine × Rutherford: a mesma doença em duas réguas

FontaineRutherfordQuadro clínico
Estágio ICategoria 0Assintomático
Estágio IIaCategoria 1 e Categoria 2Claudicação intermitente limitante — leve e moderada
Estágio IIbCategoria 3Claudicação intermitente incapacitante — severa
Estágio IIICategoria 4Dor isquêmica em repouso
Estágio IVCategoria 5 e Categoria 6Lesão trófica pequena e necrose extensa

Claudicação vascular × pseudoclaudicação (estenose de canal lombar)

ElementoClaudicação vascularClaudicação neurogênica (pseudoclaudicação)
Onde dóiPanturrilha na maioria dos casos, podendo estender-se proximalmente; nádega e coxa nas lesões aorto-ilíacasRegião glútea e membros inferiores, associada a dor lombar, com parestesias e diminuição de força
O que desencadeiaCaminhar; a distância que provoca a dor é reprodutívelCaminhar e também ficar em pé parado; a distância varia de um dia para o outro
O que aliviaParar de andar, em qualquer posiçãoSentar-se, deitar-se ou inclinar o tronco para a frente
Relação com a posturaNenhuma — o alívio não tem relação com flexão ou extensão do troncoCentral — a extensão da coluna estreita o canal e a flexão o alarga
Teste da bicicletaPiora ao pedalarNão piora ao pedalar, porque o tronco fica fletido
Pulsos periféricosDiminuídos ou ausentes; pode haver sopro femoralNormais e simétricos — é um dos sete sinais do consenso internacional
Exame que resolveITB (e ITB pós-exercício se o de repouso for normal ou limítrofe)Ressonância magnética da coluna lombar, correlacionada com a clínica

Isquemia arterial aguda: Rutherford e a conduta de cada categoria

GrauPerda sensitivaDéficit motorDoppler arterial / venosoConduta
I — viávelNenhumaNenhumAudível / audívelSem ameaça imediata: heparina e oxigênio, imagem urgente e tratamento como isquemia crônica, em serviço vascular
IIA — marginalmente ameaçadoAusente ou mínima, restrita aos dedosNenhumInaudível / audívelSalvável se tratado prontamente: heparina e oxigênio, imagem urgente e revascularização — endovascular (inclusive trombólise dirigida por cateter) ou aberta
IIB — imediatamente ameaçadoAlém dos dedosLeve a moderadoInaudível / audívelSalvável apenas se revascularizado imediatamente: heparina e oxigênio e revascularização sem demora — não há tempo para trombólise prolongada
III — irreversívelProfunda, anestesiaProfundo, paralisia com rigidezInaudível / inaudívelMembro inviável: perda tecidual maior e lesão nervosa permanente são inevitáveis. Amputação. Revascularizar tecido inviável é conduta danosa

Grau de isquemia do WIfI: os números que graduam o membro ameaçado

GrauITBPressão do tornozeloPressão do hálux ou TcPO2
0≥ 0,80> 100 mmHg≥ 60 mmHg
10,60 – 0,7970 – 100 mmHg40 – 59 mmHg
20,40 – 0,5950 – 69 mmHg30 – 39 mmHg
3≤ 0,39< 50 mmHg< 30 mmHg

As faixas do ITB são idênticas na diretriz da SBACV e na diretriz ACC/AHA de 2024 — não há corte em disputa dentro da literatura de DAOP. Na de pé diabético há: o IWGDF 2023 e a diretriz de pé diabético da própria SBACV trabalham com 0,9 a 1,3 e com 1,3 como limite de incompressibilidade. O capítulo de pé diabético traz a divergência e a regra de qual pressão de tornozelo usar no diabético. O valor acima de 1,40 é o único que não classifica gravidade: ele invalida o exame.

Isquemia crônica que ameaça o membro (o antigo nome era isquemia crítica) é dor isquêmica em repouso com mais de 2 semanas, ferida que não cicatriza ou gangrena, com doença arterial oclusiva comprovada. As 2 semanas separam o quadro crônico da isquemia aguda, que por definição dura até 2 semanas.

O WIfI gradua três componentes — ferida, isquemia e infecção do pé — e o GLASS estadia a anatomia. A diretriz brasileira é explícita: nenhuma das duas serve como guia único de conduta; elas auxiliam a decisão caso a caso, junto com o acompanhamento longitudinal do paciente.

O corte do índice hálux-braço não é consenso entre os documentos, e este capítulo usa ≤ 0,70 nas tabelas; o bloco de divergências mostra as duas posições e como identificar qual delas a questão está cobrando.

Fontaine e Rutherford descrevem doença crônica. A classificação de Rutherford para isquemia aguda é outra tabela, com outros graus (I, IIA, IIB e III) — misturar as duas é erro de leitura, não de conteúdo.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Claudicação estável: exercício supervisionado primeiro ou revascularização precoce?

SBACV 2024 e ACC/AHA 2024 — clínico primeiro

O tratamento inicial do claudicante é feito por medidas clínicas e não cirúrgicas (recomendação 39, grau 1A), com treino supervisionado de no mínimo 3 vezes por semana, 30 minutos, por 3 meses; a revascularização entra na falha do tratamento clínico otimizado com sintomas severos e impacto significativo na qualidade de vida (recomendação 40, grau 1B). A diretriz americana coloca o exercício supervisionado ou programa comunitário estruturado como opção de tratamento inicial na claudicação funcionalmente limitante.

Erzinger FL et al. Diretrizes sobre DAP da SBACV. J Vasc Bras. 2024;23:e20230059 — quadros 13, 15 e 16; Gornik HL et al. 2024 ACC/AHA PAD Guideline. Circulation. 2024;149:e1313-e1410 — seção de terapia por exercício, recomendação 4

Ensaios de revascularização precoce — ganho mais rápido, com custo

No CLEVER, em doença aorto-ilíaca, exercício supervisionado e revascularização endovascular tiveram benefícios comparáveis aos 6 e aos 18 meses, ambos superiores ao tratamento medicamentoso isolado. No ERASE e em metanálise em rede, endovascular somado a exercício supervisionado superou qualquer um dos dois isolados em distância de caminhada e qualidade de vida — com benefício mais precoce e menor benefício em longo prazo, e mais intervenções no grupo endovascular. Revisão Cochrane de 10 ensaios com 1.087 participantes não encontrou vantagem do endovascular isolado sobre o exercício supervisionado isolado.

Murphy TP et al. CLEVER study. J Am Coll Cardiol. 2015;65(10):999-1009; Fakhry F et al. ERASE. JAMA. 2015;314:1936-1944; Fakhry F et al. Cochrane Database Syst Rev. 2018;3:CD010512 — todos citados e discutidos nas diretrizes da SBACV 2024 e ACC/AHA 2024

Na prova

O recorte aparece no verbo do enunciado. Quando a vinheta diz “tratamento inicial”, “primeira conduta” ou descreve um paciente que ainda não tentou nada, o corpo do texto é o do tratamento clínico. Quando a vinheta explicita “apesar do tratamento clínico otimizado”, “já em programa de exercício há 6 meses” ou “sintomas que impedem o trabalho”, a questão abriu a porta da revascularização. Duas pistas anatômicas ajudam: lesão aorto-ilíaca proximal é onde os ensaios de revascularização se concentram e onde a diretriz brasileira admite intervir; lesão infrapoplítea em claudicante é onde nenhum documento manda operar — ponte fêmoro-tibial para claudicação não se faz. E as alternativas denunciam o mundo da questão: se uma delas oferece stent sem qualquer menção a exercício ou cessação do tabagismo, ela está descrevendo o cenário que os dois corpos de texto rejeitam.

Antitrombótico na DAOP sintomática estável: aspirina, clopidogrel ou rivaroxabana em dose vascular?

Monoterapia antiplaquetária — a base histórica, com o clopidogrel preferido pela ESC

Aspirina 75 a 150 mg/dia tem a mesma eficácia de doses maiores com menos sangramento; metanálise de prevenção secundária mostrou redução de 18,2% nos eventos cardiovasculares maiores. No CAPRIE, o clopidogrel superou a aspirina no subgrupo de DAOP, com redução relativa de risco de 24%, e as diretrizes da Sociedade Europeia de Cardiologia recomendam clopidogrel em vez de aspirina nesses pacientes. Terapia antiplaquetária dupla em doença estável aumenta hemorragia sem benefício.

Erzinger FL et al. Diretrizes sobre DAP da SBACV. J Vasc Bras. 2024;23:e20230059 — seção do paciente sintomático estável, quadro 8, com os dados do CAPRIE e da metanálise de prevenção secundária

Rivaroxabana 2,5 mg duas vezes ao dia com aspirina — a posição americana

No COMPASS, 7.470 pacientes com DAOP estável receberam rivaroxabana 2,5 mg duas vezes ao dia associada a aspirina 100 mg/dia: 24% de melhora no desfecho cardiovascular e na sobrevida (RR 0,76; IC 95% 0,66-0,86) e redução adicional de 46% nos eventos maiores no membro e na amputação (RR 0,54; IC 95% 0,35-0,82), ao preço de mais sangramentos graves (RR 1,70; IC 95% 1,40-2,05). A rivaroxabana 5 mg duas vezes ao dia isolada não superou a aspirina e sangrou mais. A diretriz ACC/AHA de 2024 traz o esquema entre suas mensagens principais, para pacientes sem risco aumentado de sangramento.

Gornik HL et al. 2024 ACC/AHA PAD Guideline. Circulation. 2024;149:e1313-e1410 — mensagem 5 das dez principais; dados do COMPASS conforme transcritos na diretriz da SBACV 2024, quadro 9

SBACV 2024 — recomendação com ressalva explícita

A diretriz brasileira registra as recomendações de rivaroxabana em dose reduzida com grau 2A e acrescenta comentário próprio: a recomendação valoriza muito um único ensaio randomizado bem desenhado em oposição a vários estudos menores, e o desfecho de isquemia aguda de membro foi avaliado num braço pequeno de indivíduos, de modo que o documento considera prudente aguardar mais pesquisas que repliquem os resultados.

Erzinger FL et al. Diretrizes sobre DAP da SBACV. J Vasc Bras. 2024;23:e20230059 — comentários às recomendações 20, 32 e 33

Na prova

A distância entre os documentos aqui é de peso de evidência e de custo, não de mérito: a diretriz brasileira diz por escrito por que segura o passo. Cenário de prevenção secundária no SUS, unidade básica, paciente sem revascularização recente: o vocabulário é o da monoterapia antiplaquetária. Enunciado que cita nominalmente o COMPASS, que descreve paciente com doença polivascular, ou que oferece a dose “2,5 mg duas vezes ao dia” entre as alternativas está trabalhando com o corpo internacional — a dose é a assinatura do estudo. Distrator frequente e errado nos dois mundos: dupla antiagregação com aspirina e clopidogrel para DAOP estável.

Isquemia crônica que ameaça o membro: bypass primeiro ou endovascular primeiro?

BEST-CLI — bypass com safena magna adequada

Em doença infrainguinal, com ou sem componente infrapoplíteo, nos pacientes com safena magna de boa qualidade disponível (coorte 1), o desfecho composto de morte por qualquer causa ou evento adverso maior no membro ocorreu em 42,6% dos randomizados para bypass cirúrgico contra 57,4% dos randomizados para tratamento endovascular, em seguimento mediano de 2,7 anos (RR 0,68; IC 95% 0,59-0,79). A diferença foi conduzida por mais revascularizações repetidas no grupo endovascular. Na coorte 2, sem safena adequada, não houve diferença.

Farber A, Menard MT, Conte MS, et al. BEST-CLI. N Engl J Med. 2022;387(25):2305-2316 — números conforme transcritos na diretriz ACC/AHA de 2024

BASIL-2 — endovascular primeiro na doença infrapoplítea

Em pacientes com doença infrapoplítea, com ou sem doença infrainguinal mais proximal, amputação maior ou óbito ocorreu mais vezes depois do bypass (63%) do que depois do tratamento endovascular (53%), com razão de risco ajustada de 1,35 (IC 95% 1,02-1,80; p = 0,037). A diferença foi conduzida por menos óbitos no grupo endovascular.

Bradbury AW, Moakes CA, Popplewell M, et al. BASIL-2. Lancet. 2023;401(10390):1798-1809 — números conforme transcritos na diretriz ACC/AHA de 2024

SBACV 2024 — leitura brasileira dos dois ensaios

O documento nacional registra que o BASIL e o BEST-CLI permanecem como os únicos ensaios randomizados controlados comparando tratamento aberto e endovascular, e que segue de pé a ideia de que, para pacientes com boa expectativa de vida e bom substituto autólogo, o tratamento aberto deve ser considerado primeiro — acrescentando que as duas técnicas são complementares e jamais competitivas.

Erzinger FL et al. Diretrizes sobre DAP da SBACV. J Vasc Bras. 2024;23:e20230059 — seção de tratamento da isquemia crônica que ameaça o membro

Na prova

Os dois ensaios não se contradizem tanto quanto parecem: estudaram populações e territórios diferentes, e é isso que a questão dá de pista. Presença explícita de safena magna adequada, doença infrainguinal e paciente com expectativa de vida razoável apontam para o mundo do BEST-CLI. Doença infrapoplítea, paciente frágil, comorbidade pesada e ausência de conduto autólogo apontam para o mundo do BASIL-2. Enunciado que não dá nenhuma dessas informações e pede “a melhor estratégia” costuma estar cobrando o que os três documentos assinam junto: a decisão é individualizada e passa por conduto disponível, território, risco perioperatório e expectativa de vida. Um ponto não está em disputa em nenhum deles: quando se opera infrainguinal, o conduto é a veia autóloga.

Índice hálux-braço: o corte é 0,60 ou 0,70?

SBACV 2024 — 0,60

O documento nacional registra falta de consistência entre os estudos quanto ao valor e à forma de realizar o índice hálux-braço, e aponta o valor abaixo de 0,60 como o mais comumente aceito entre eles, lembrando a variabilidade da acurácia relatada (sensibilidade de 45% a 100% e especificidade de 16% a 100%).

Erzinger FL et al. Diretrizes sobre DAP da SBACV. J Vasc Bras. 2024;23:e20230059 — seção diagnóstica, índice hálux-braço

ACC/AHA 2024 — 0,70

A diretriz americana fixa o índice hálux-braço igual ou abaixo de 0,70 como anormal, permitindo o diagnóstico de DAOP em paciente com ITB acima de 1,40 e história ou exame físico sugestivos. O Projeto Diretrizes da SBACV de 2015 já registrava esse mesmo corte de 0,70 como o recomendado por várias diretrizes, acrescentando que a informação não é estritamente baseada em evidências e que estudos de correlação com angiografia são escassos.

Gornik HL et al. 2024 ACC/AHA PAD Guideline. Circulation. 2024;149:e1313-e1410 — recomendação 5 do bloco de testes fisiológicos; Casella IB et al. Projeto Diretrizes SBACV, 2015 — item 4.4

Na prova

O corte quase nunca é o objeto da questão — o objeto é reconhecer que um ITB acima de 1,40 não afasta DAOP e exige outro exame. Quando o número aparece, a origem denuncia o recorte: enunciado que cita a SBACV ou descreve o cenário brasileiro trabalha com 0,60; enunciado alinhado ao documento americano trabalha com 0,70. Se a alternativa disser apenas “índice hálux-braço reduzido”, o corte é irrelevante para a resposta.

06

Caso resolvido

Homem de 64 anos, tabagista de 45 maços-ano, hipertenso e dislipidêmico, refere há 2 anos dor em nádega e coxa esquerdas que aparece após cerca de 100 metros de caminhada no plano e desaparece em 3 a 5 minutos de repouso. Nos últimos meses a distância caiu e ele deixou de trabalhar como carteiro. Relata disfunção erétil há 3 anos. Nega dor em repouso e nega feridas. Ao exame: pulsos femorais impalpáveis à esquerda e diminuídos à direita, sopro em região inguinal esquerda, pé esquerdo sem lesões, com pele fina e menos pilosa. ITB 0,58 à esquerda e 0,84 à direita. Faz uso de losartana; não usa antiagregante nem estatina.
diagnóstico
Dor consistentemente desencadeada pela caminhada, aliviada em menos de 10 minutos de repouso, com distância reprodutível: claudicação intermitente típica. O ITB de 0,58 fecha DAOP — abaixo de 0,90 não há dúvida a resolver.
topografia
Dor em nádega e coxa, pulsos femorais ausentes e disfunção erétil compõem a síndrome de Leriche: doença aorto-ilíaca. Território proximal, o que explica a incapacidade acentuada — e é justamente onde a revascularização, se vier a ser necessária, tem melhor resultado.
classificação
Dor ao esforço, em distância curta, que impede o trabalho, sem dor em repouso e sem lesão trófica: Fontaine IIb, Rutherford categoria 3. A fronteira do estágio III não foi cruzada — não é isquemia que ameaça o membro.
conduta
Cessação do tabagismo com aconselhamento intensivo e farmacoterapia; antiagregante em monoterapia (AAS 75 a 150 mg/dia ou clopidogrel 75 mg/dia); estatina; controle pressórico; e treinamento de caminhada supervisionado, pelo menos 3 vezes por semana, 30 a 60 minutos, por no mínimo 3 meses. Cilostazol 100 mg duas vezes ao dia pode ser acrescentado se a limitação de qualidade de vida for substancial ou o treino for inviável — desde que não haja insuficiência cardíaca. Reavaliação em 3 meses.
e a arteriografia?
Não agora. Imagem entra quando a revascularização já está em discussão. Se em 3 meses de tratamento clínico otimizado ele continuar incapacitado, aí sim: ecodoppler ou angiotomografia para definir a estratégia sobre o setor aorto-ilíaco.
a pegadinha
A gravidade do ITB e a incapacidade profissional tentam o candidato a marcar angioplastia de imediato. O grau de incapacidade não substitui a tentativa de tratamento clínico — o que a diretriz exige é a falha dele, não a sua gravidade.
07

Agora feche você

Mulher de 72 anos, portadora de fibrilação atrial sem anticoagulação regular, chega ao pronto-socorro 4 horas após início súbito de dor intensa na perna direita, que começou enquanto assistia televisão. Ao exame: membro inferior direito pálido e frio a partir do terço médio da coxa, dor à palpação da panturrilha, pulso femoral direito presente e amplo, poplíteo e distais ausentes. Refere formigamento em todo o pé e no dorso, não apenas nos dedos, e consegue apenas esboçar a dorsiflexão do hálux. Doppler de onda contínua à beira do leito: sinal arterial inaudível no tornozelo, sinal venoso audível. Membro contralateral com pulsos presentes. Nega claudicação prévia.
diagnóstico
Início súbito, com menos de 2 semanas de sintomas, membro frio, doloroso, pálido, sem pulsos distais e com parestesia e déficit motor: isquemia arterial aguda. A ausência de claudicação prévia e a fibrilação atrial sem anticoagulação apontam origem embólica; o pulso femoral amplo com poplíteo ausente e a demarcação no terço médio da coxa localizam o êmbolo na bifurcação femoral.
classificação
Perda sensitiva que ultrapassa os dedos, déficit motor leve, sinal arterial inaudível com venoso audível: Rutherford IIB — membro imediatamente ameaçado, salvável apenas se revascularizado imediatamente. Não é IIA (a perda sensitiva iria só até os dedos e não haveria déficit motor) nem III (não há anestesia profunda, paralisia com rigidez, nem perda do sinal venoso).
o relógio
O músculo esquelético tolera cerca de 4 a 6 horas de isquemia, e ela está no limite dessa janela. Cada exame solicitado precisa justificar o tempo que consome.
conduta
08

Onde a banca derruba

  1. 1Revascularizar o claudicante estável antes de tentar o tratamento clínico É o erro-mestre do tema, porque parece resolutivo. O tratamento inicial do claudicante é clínico e não cirúrgico (grau 1A), e o exercício supervisionado aumentou a distância de caminhada em até 200% em 12 semanas. A revascularização entra na falha do clínico otimizado — e a diretriz manda avisar o paciente de que a falha da intervenção pode ter consequências graves para o membro.
  2. 2Escolher pentoxifilina como primeira droga da claudicação Ela existe nas alternativas porque existe nos prontuários. O benefício é incerto pelas limitações dos estudos, e a diretriz americana a classifica como sem benefício para tratar claudicação. A droga com indicação sintomática é o cilostazol, 100 mg duas vezes ao dia.
  3. 3Prescrever cilostazol para quem tem insuficiência cardíaca Contraindicação absoluta, em qualquer grau de gravidade — classificada como conduta danosa. O raciocínio é de classe: a milrinona, outro inibidor de fosfodiesterase, aumentou mortalidade na insuficiência cardíaca grave. Vinheta que menciona “fração de ejeção reduzida” ou “internação prévia por descompensação” está montando exatamente essa armadilha.
  4. 4Ler ITB acima de 1,40 como exame normal Acima de 1,40 a artéria é incompressível e o resultado é inválido, não tranquilizador. É a situação do diabético, do renal crônico e do idoso com calcinose da média. A saída é a pressão do hálux — as artérias digitais raramente calcificam.
  5. 5Descartar DAOP porque o ITB de repouso deu normal Sintoma típico com ITB entre 0,91 e 1,40 pede ITB pós-exercício: queda maior que 30 mmHg na pressão sistólica do tornozelo ou maior que 20% no índice fecha o diagnóstico. Mandar o paciente embora com “ITB normal” é perder a doença.
  6. 6Chamar de claudicação a dor que alivia sentando Alívio ao sentar, ao deitar ou ao inclinar o tronco para a frente, piora ao ficar em pé parado, distância variável de um dia para o outro e pulsos periféricos normais e simétricos descrevem estenose de canal lombar. O teste da bicicleta separa: pedalar piora a claudicação vascular e não piora a neurogênica.
  7. 7Tratar dor em repouso como claudicação grave Dor isquêmica em repouso é Fontaine III, categoria 4 de Rutherford — e, com mais de 2 semanas, isquemia crônica que ameaça o membro. Muda de fila: encaminhamento urgente ao especialista vascular e avaliação para revascularização, não mais programa de caminhada. Sem revascularizar, a amputação maior em 1 ano chega a 22%.
  8. 8Esperar exame de imagem para heparinizar na isquemia aguda Confirmado o diagnóstico clínico, heparina intravenosa e oxigênio entram enquanto se aguarda a revascularização. O que se decide com o Doppler de beira de leito e o exame neurológico é o grau de Rutherford — e é ele que diz se ainda há tempo para imagem (graus I e IIA) ou se a revascularização é imediata (IIB).
  9. 9Tentar salvar o membro Rutherford III Anestesia profunda, paralisia com rigidez muscular e ausência dos sinais arterial e venoso ao Doppler definem membro irreversível: a perda tecidual maior e a lesão nervosa permanente já aconteceram. Revascularizar tecido inviável é conduta danosa — e reperfundir músculo necrótico ameaça a vida do paciente. A conduta é amputação.
  10. 10Usar prótese quando há safena magna disponível Na reconstrução infrainguinal, a veia safena magna autóloga tem perviedade muito maior e menos reintervenções que PTFE ou Dacron, além de menor risco de infecção. Por isso o mapeamento ultrassonográfico da safena entra na avaliação pré-operatória — e por isso a coorte com safena adequada do BEST-CLI é a que mostrou vantagem do bypass.
  11. 11Dar antiagregante ao assintomático porque “tem placa” Terapia antitrombótica de rotina não é recomendada para DAOP assintomática isolada de membros inferiores (grau 1A). Se houver doença coronariana, cerebrovascular ou outra indicação, o antiagregante entra por ela — não pelo ITB alterado isolado.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Dor muscular reprodutível ao esforço (distância fixa) que alivia com o repouso, em tabagista com redução de pulsos distais, é o quadro clássico de claudicação intermitente por doença arterial obstrutiva periférica. TVP cursa com edema, dor e empastamento agudos, não claudicação reprodutível. Insuficiência venosa dá peso/edema vespertino e varizes, não dor isquêmica ao esforço. Claudicação neurogênica alivia ao sentar/fletir o tronco e tem distância variável com sintomas neurológicos. Cisto de Baker roto é quadro agudo de dor e edema em panturrilha.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Escreva de memória: as quatro faixas do ITB com a interpretação de cada uma; a correspondência completa entre Fontaine e Rutherford; e os quatro graus da classificação de Rutherford para isquemia aguda com a conduta de cada um. Depois responda em uma frase: por que um ITB de 1,5 num diabético com úlcera é pior notícia do que um ITB de 0,7?

em 30 dias

Pegue três vinhetas de dor na perna ao caminhar e classifique cada uma em três linhas: (1) é claudicação vascular, pseudoclaudicação ou outra coisa — e qual achado decidiu; (2) se vascular, qual Fontaine e qual território pela topografia da dor; (3) conduta na próxima consulta. Se travar na conduta, o que falta não é a classificação — é responder se a dor existe em repouso e se já houve tratamento clínico otimizado.

11

Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Homem de 66 anos, tabagista, chega ao ambulatório queixando dor na panturrilha direita que aparece sempre depois de dois quarteirões e passa quando ele para. Conduza: caracterize a dor e a distância, procure a topografia pelo exame dos pulsos, decida qual exame confirma o diagnóstico e defina o que ele leva de prescrição para casa. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Doença arterial obstrutiva periférica — Preparatório para provas | OsceLabs