Cirurgia GeralColoproctologia

Câncer de canal anal

A fronteira que decide se o tratamento começa com cirurgia ou sem ela

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Mulher, 58 anos, procura ambulatório de coloproctologia com queixa de sangramento anal intermitente e sensação de massa na região anal há 4 meses. Refere desconforto local e prurido. Ao exame proctológico, identifica-se lesão ulcerada e endurecida no canal anal, localizada acima da linha pectínea, medindo cerca de 3 cm. A biópsia da lesão revela carcinoma de células escamosas. Nega tabagismo. Sorologia anti-HIV negativa; sorologia positiva para infecção prévia por HPV. Qual é o agente etiológico mais fortemente associado a essa neoplasia?

02

Como esse tema cai

O recorte deste capítulo é diagnóstico, topográfico e de primeira decisão terapêutica. Cobre reconhecer a lesão anal suspeita, saber que o exame que a diagnostica é de consultório, situar a lesão em relação à linha denteada e à borda anal, e nomear o tratamento de primeira linha do carcinoma epidermoide de canal anal. Não cobre esquema de resgate detalhado, técnica cirúrgica de amputação, protocolo de reirradiação nem manejo de doença metastática.

A prova cobra este tema em quatro formatos, e três deles são armadilhas de trilho. O primeiro entrega a lesão anal ulcerada que não cicatriza e pergunta a conduta: a resposta é biopsiar, e os distratores são hemorroidectomia, pomada de corticoide, antibiótico e banho de assento. O segundo entrega o carcinoma epidermoide já confirmado e pergunta o tratamento: a resposta é quimiorradioterapia com fluorouracil e mitomicina C, e o distrator mais atraente é a amputação abdominoperineal como conduta inicial, que foi o padrão até os anos 1970. O terceiro entrega o agente etiológico e pede o vírus. O quarto troca a histologia — melanoma anorretal, adenocarcinoma da transição — para ver se o candidato aplica o esquema do epidermoide a um tumor que não é epidermoide.

Duas confusões de vizinhança organizam boa parte dos erros. A primeira é com o adenocarcinoma de reto, que tem protocolo nacional próprio, rota de encaminhamento própria e prazos legais próprios, e que se investiga por colonoscopia. A segunda é com a doença orificial benigna — hemorroida, fissura, fístula, condiloma —, que ocupa o mesmo endereço anatômico, produz os mesmos sintomas e responde a tratamento ambulatorial. O capítulo existe para o candidato saber, em cada questão, em qual dos três trilhos o enunciado o colocou.

A régua deste tema tem uma particularidade que o candidato precisa conhecer antes de estudar os números. O carcinoma de canal anal não tem protocolo clínico e diretrizes terapêuticas nacional, ao contrário do adenocarcinoma de cólon e reto. O que existe de brasileiro sobre o tema são séries de serviço publicadas por dois centros de referência — o Hospital do Câncer A. C. Camargo, em São Paulo, e o Instituto Nacional de Câncer, no Rio de Janeiro — e é dessas séries que saem, neste capítulo, as taxas, as doses e a única divergência viva do assunto. Séries de serviço são fontes legítimas e frágeis ao mesmo tempo: legítimas porque descrevem o que se fez em pacientes reais no Brasil; frágeis porque cada serviço tem outra porta de entrada, outro perfil de estádio e outra régua interna.

03

O que muda decisão

A fronteira que decide o tratamento

O canal anal tem poucos centímetros e três nomes que a prova cobra como sinônimos: anel anorretal, linha denteada e borda anal. Não são. O anel anorretal é o limite superior, palpável ao toque. A linha denteada fica cerca de dois centímetros abaixo dele e marca a troca de epitélio, de inervação e de drenagem. A borda anal é o limite inferior, onde a mucosa acaba e a pele começa. Do anel anorretal à borda anal está o canal anal; da borda anal para fora está a margem anal, que é pele.

Essa definição é o consenso que a American Joint Committee on Cancer e a União Internacional Contra o Câncer estabeleceram porque os autores não concordavam. Antes dele, parte da literatura punha o limite distal do canal anal na linha denteada e chamava de câncer da margem anal tudo o que estivesse abaixo; outra parte punha esse limite na borda anal. As duas escolas nomeavam de modo diferente o mesmo tumor.

Corte longitudinal do canal anal com o anel anorretal no alto, a linha denteada dois centímetros abaixo e a borda anal embaixo, com setas de drenagem linfática subindo do território acima da linha e descendo para linfonodos da virilha a partir do território abaixo dela.
A linha denteada não é o limite do canal anal — o limite é o anel anorretal, dois centímetros acima. Mas é a linha denteada que divide a drenagem: acima dela a linfa sobe para os linfonodos perirretais e ilíacos internos; abaixo dela desce para os linfonodos inguinais. É por isso que a virilha entra no estadiamento de um tumor do ânus e não entra no de um tumor do reto.

A drenagem linfática é o que transforma anatomia em conduta. O território acima da linha denteada drena para cima, pelos linfonodos perirretais e pelos ilíacos internos. O território abaixo dela drena para a virilha, pelos linfonodos inguinais superficiais. Um adenocarcinoma de reto e um carcinoma epidermoide de canal anal podem estar a cinco centímetros um do outro e ter mapas linfáticos que não se encontram — por isso o estadiamento nodal de um fala em mesorreto e o do outro fala em região inguinal.

O estadiamento das séries brasileiras usadas aqui reflete isso na letra N: N1 são metástases perirretais; N2, em ilíacos internos unilaterais e/ou inguinais; N3, em perirretais e inguinais e/ou ilíacos internos bilaterais. A virilha aparece em duas das três categorias, e esse detalhe volta duas vezes neste capítulo.

A fronteira decide o tratamento de forma frontal: tumores da margem anal que não invadem a borda anal comportam-se como tumores de pele e são tratados como tal. O mesmo carcinoma epidermoide, deslocado um centímetro para dentro, deixa de ser problema de excisão com margem e passa a ser problema de quimiorradioterapia. A régua é a topografia, não a histologia.

Por que a colonoscopia não é o exame deste tumor

O diagnóstico do carcinoma de canal anal é feito com o paciente na maca, as nádegas afastadas e a lesão à vista. Inspeção, toque retal e anuscopia localizam; a biópsia da lesão fecha. Nas séries brasileiras que sustentam este capítulo o protocolo foi exatamente esse: história e exame físico completos, seguidos de proctoscopia e biópsia da lesão em todos os pacientes. Nenhuma diagnosticou o tumor pela colonoscopia, porque ele está no primeiro centímetro do exame — o que o dedo alcança e o olho vê.

Isso importa porque o encaminhamento que a rede brasileira oferece a quem sangra pelo ânus é a rota de suspeita de neoplasia do trato gastrointestinal inferior, que pede colonoscopia. Essa rota está certa para adenocarcinoma de cólon e de reto, organizada por protocolo nacional próprio. Ela não é a rota deste tumor. Mandar para a fila da colonoscopia uma úlcera anal endurecida e visível é trocar um exame de consultório que sai hoje por um exame de agenda que sai em meses.

Um detalhe estatístico explica por que o erro é tão fácil. A estimativa nacional de incidência de câncer trabalha com vinte e uma localizações primárias ou grupos, e a que se chama de cólon e reto é definida na nota de rodapé das tabelas como cólon, junção retossigmoide, reto e ânus, códigos C18 a C21. O ânus está dentro do agrupamento colorretal na contabilidade oficial: quem procura o número deste tumor na estimativa nacional não encontra linha própria, encontra-o somado ao do cólon.

A confusão tem consequência do outro lado também. O capítulo de doença hemorroidária desta mesma apostila lista, no diagnóstico diferencial do sangramento anal, a neoplasia de canal anal com carcinoma epidermoide e melanoma — e depois encaminha todo suspeito pela rota colorretal. A lista está certa; o destino, para esta lesão, não. Quando o toque e a anuscopia encontram lesão anal palpável, o próximo passo é biopsiar, e o encaminhamento é para coloproctologia ou oncologia, não para a fila do preparo de cólon.

Duas ressalvas honestas. A colonoscopia continua indicada quando há sintoma de trânsito, anemia ferropriva sem causa ou massa abdominal — porque aí são duas perguntas, e a segunda é colorretal. E a biópsia da lesão anal não substitui o estadiamento: confirmado o carcinoma, as séries brasileiras estadiaram com toque retal e proctoscopia para o tamanho do tumor, mais tomografia de abdome e pelve e radiografia de tórax, com ressonância de pelve nas mais recentes.

O protocolo de Nigro: o nome é fixo, o esquema não

Até a década de 1970 o tratamento padrão era a ressecção abdominoperineal com colostomia definitiva. Em 1974, Norman Nigro e colaboradores publicaram os resultados preliminares de três pacientes tratados com fluorouracil e mitomicina C concomitantes à radioterapia, no que era então preparação pré-operatória: houve resposta completa comprovada na cirurgia em dois deles, e o terceiro, que recusou a operação, estava sem recorrência quinze meses depois. Três anos depois, em 1977, o grupo reportou dez pacientes, com seis respostas completas e quatro parciais.

A história explica a pergunta de prova. Este foi um dos primeiros tumores sólidos em que o tratamento cirúrgico foi eficazmente substituído por tratamento conservador, e a descoberta não veio de ensaio aleatorizado: veio da observação de que os pacientes preparados para a cirurgia chegavam à mesa sem tumor. A resposta que a prova cobra é histórica antes de ser farmacológica: quimiorradioterapia, com a cirurgia reservada ao resgate.

O que a prova não conta é que o programa definitivo, montado sobre análise retrospectiva de 104 pacientes, prescrevia 30 Gy em quinze frações de 2 Gy, do primeiro ao vigésimo primeiro dia, cobrindo tumor primário, pelve e linfonodos inguinais, com fluorouracil 1.000 mg/m² por dia em infusão contínua do primeiro ao quarto e do vigésimo oitavo ao trigésimo primeiro dia, mais mitomicina C 15 mg/m² em bolus único no primeiro dia. Duas publicações brasileiras datam esse programa de modo diferente — uma escreve 1983, a outra 1984 —, citando a mesma casuística.

Os serviços brasileiros não entregaram esse esquema. No Hospital do Câncer A. C. Camargo, entre 1992 e 1998, foram 45 Gy na pelve com complementação até 55 Gy no leito tumoral, e mitomicina C a 10 mg/m² em dois ciclos. Na série seguinte do mesmo serviço, de 1993 a 2001, a dose mediana foi de 45 Gy na pelve e 55 Gy no tumor, com mitomicina C mediana de 10 mg/m² por ciclo. A dose de radiação quase dobrou e o epônimo continuou o mesmo.

E há um número mais incômodo, vindo do Instituto Nacional de Câncer. Entre outubro de 1986 e setembro de 2000, 93 pacientes com carcinoma epidermoide de canal anal foram matriculados no Hospital do Câncer II, e 21 precisaram de resgate cirúrgico. Desses 21, cinco haviam recebido radioterapia exclusiva e dezesseis, quimiorradioterapia — com cisplatina em oito, um esquema de quatro drogas em sete, e mitomicina C em um. Entre os dezesseis que fizeram quimioterapia concomitante e depois precisaram de cirurgia, exatamente um havia recebido a combinação que a prova chama de protocolo de Nigro.

O contraponto é obrigatório e não desfaz o achado: esses dezesseis não são amostra do que o serviço prescrevia, são o subgrupo em que o tratamento inicial falhou. Um esquema que falha mais fica super-representado numa coorte de falhas, e o número não pode ser lido como proporção de uso. O que ele mostra é que naquela janela a expressão quimiorradioterapia não significava um par fixo de drogas no Brasil — significava um cardápio de pelo menos três pratos.

A conta da dose fecha; o preço dela também

A aritmética da radioterapia da série de 1992 a 1998 é um raro caso em que tudo fecha, e é o modelo do que um número confiável parece. A primeira fase entregou 30,6 Gy em dezessete frações — dezessete vezes 1,8 dá exatamente 30,6. A segunda acrescentou oito frações de 1,8, que somam 14,4, e 30,6 mais 14,4 dá os 45 Gy da pelve. A terceira acrescentou 10 Gy em cinco frações de 2 Gy, e 45 mais 10 dá os 55 Gy do leito. Nas virilhas, um bloco de transmissão entregava 90 cGy pelo campo anterior e 90 pelo posterior, metade e metade dos 180 cGy prescritos.

O preço é a parte que a prova nunca cobra e o paciente sempre paga. Nessa série de 24 pacientes houve complicações agudas em dezenove, 79,2%: toxicidade cutânea de graus 1 e 2 em dezesseis, diarreia de grau 1 em dez, náuseas e vômitos em três, toxicidade hematológica de grau 1 em sete. Complicações tardias, em nove, 37,5%. Na série seguinte, de 47 pacientes, todos tiveram radiodermite, e trinta e cinco deles em grau 3.

E há a linha que não aparece em nenhum resumo de prova: quatro pacientes morreram durante o tratamento por leucopenia febril. Quatro em 47 são 8,5%, e é assim que o número aparece na lista final de situação — mas, três parágrafos antes, os mesmos quatro óbitos estão impressos como 10%. Dez por cento é quatro dividido por quarenta, e a série tem quarenta e sete.

A interrupção do tratamento tem três impressões diferentes nas duas séries do mesmo serviço. Na de 24, o texto diz treze pacientes, 54,2%, e a tabela paciente a paciente traz doze marcações, que dariam 50,0%. Na de 47, o resumo diz doze pacientes e 25,5%, e a seção de toxicidade diz os mesmos doze e 28%. Doze sobre quarenta e sete são 25,53%; 28% é doze sobre quarenta e três — o que sobra quando se tiram os quatro que morreram durante o tratamento. O mesmo numerador aparece com dois denominadores, e a diferença entre eles é justamente o grupo mais grave da série.

O que se aproveita disso é uma regra que a segunda série mede: o tempo total de tratamento não moveu o resultado — sobrevida global em cinco anos de 63,7% para quem terminou em até 49 dias contra 59,8% para quem levou mais, com p de 0,5533 —, mas a dose na pelve moveu, com p de 0,0110. Se for preciso interromper, interrompa; o que não se corta é a dose.

A virilha: o que a anatomia previu e a série confirmou

A segunda série do A. C. Camargo tratou 47 pacientes entre 1993 e 2001 e registrou o que fez com as virilhas: trinta e oito, 80,8%, não receberam radioterapia inguinal; quatro receberam irradiação eletiva, isto é, profilática; e cinco, irradiação terapêutica, por linfonodo clinicamente comprometido. Trinta e oito mais quatro mais cinco fecham os 47, o que permite conferir tudo o que vem depois.

Entre os trinta e oito que não receberam irradiação da virilha, cinco evoluíram com recidiva inguinal. O artigo imprime 15% ao lado desse cinco; cinco sobre trinta e oito são 13,2%. E o detalhe que muda a leitura clínica está na frase seguinte: desses cinco, um era estádio clínico II e quatro eram estádio IIIB. Como a série tinha nove pacientes em IIIB, quatro dos nove com doença localmente avançada — 44,4% deles — voltaram pela virilha.

Nenhum dos quatro que receberam irradiação inguinal eletiva teve recidiva nessa região, e é dessa comparação que sai a recomendação do artigo. A comparação é honesta dentro da série; o que ela não suporta é a transposição. Zero em quatro pacientes não é uma taxa de zero: com quatro observações, a ausência de eventos é compatível com um risco verdadeiro de até cerca de metade. A recomendação nasce de um braço de 38 contra um braço de 4, e é preciso dizer isso antes de repeti-la.

A série anterior do mesmo hospital, de 1992 a 1998, escreveu o contrário: não foram observadas recidivas inguinais, nem mesmo nos pacientes com metástases inguinais ao diagnóstico. Dois recortes sobrepostos do mesmo serviço, na mesma revista, com conclusões opostas sobre irradiar a virilha de quem não tem linfonodo palpável. Nenhum protocolo nacional arbitra a questão, e é por isso que a régua mora na casuística de cada serviço.

Do outro lado do país a virilha aparece de novo, pelo lado do resgate. Na série do Instituto Nacional de Câncer, dos 21 pacientes operados, um foi classificado como estádio III unicamente por metástase em linfonodo inguinal. E, entre os quatro que tiveram nova recidiva ressecável depois do resgate, três foram recidivas linfonodais inguinais, tratadas com esvaziamento inguinal, e uma foi em vulva. A virilha estadia, recidiva e volta a ser operada.

Essa mesma tabela do Instituto Nacional de Câncer guarda uma armadilha de leitura que serve de treino. Das quatro segundas operações, três foram em pacientes que tinham feito amputação abdominoperineal e uma em quem tinha feito exenteração pélvica total. Pela contagem bruta, a amputação parece a operação que volta a recidivar. Pelos denominadores certos a direção se inverte: as amputações foram dezenove, e três em dezenove são 15,8%; a exenteração foi uma, e uma em uma é 100%. O grupo que parecia problemático é o de menor taxa, e o de maior taxa tem um paciente só.

Duas porcentagens que somam cem e não são taxas

A série de 47 pacientes relata assim o controle local por estádio: para os estádios clínicos I e II, e IIIA e IIIB, o controle local foi respectivamente de 67,7% e 32,3%, com p de 0,528. Lida rápido, a frase diz que dois terços dos pacientes iniciais mantiveram o controle local e apenas um terço dos avançados — diferença de mais de dois para um, que qualquer candidato marcaria. Some as duas: 67,7 mais 32,3 dá exatamente 100. Duas taxas de grupos diferentes não têm razão para somar cem.

O que esses números são fica provado adiante, quando o mesmo artigo repete a construção e, dessa vez, imprime as contagens: a taxa de controle local nos que receberam até 44 Gy e acima dessa dose foi de 12,9%, quatro pacientes, e 87,1%, vinte e sete pacientes. Quatro mais vinte e sete são trinta e um, exatamente o número de pacientes que obtiveram controle local na série. Ou seja: os percentuais são a composição do numerador, a repartição dos 31 controlados entre os dois grupos, e não a taxa dentro de cada grupo.

Refeita a conta com os denominadores certos, a comparação encolhe. Os estádios I e II somam trinta pacientes e IIIA e IIIB somam dezessete. Vinte e um dos trinta iniciais mantiveram controle local, 70,0%; dez dos dezessete avançados, 58,8%. A diferença real é de onze pontos, não de trinta e cinco, e é compatível com o p de 0,528 impresso ao lado. O p sempre esteve certo; eram os percentuais que não eram taxas.

A mesma construção reaparece, no mesmo artigo de 47 pacientes, para o tamanho do tumor: 74,2% para T1 e T2 e 25,8% para T3 e T4, com p de 0,506, e 74,2 mais 25,8 também dá cem. Aqui o artigo não publica quantos pacientes havia em cada faixa de T, e a taxa verdadeira não pode ser recalculada — o que não se reconcilia não se usa. Fica o diagnóstico do defeito: par de percentuais que soma cem, apresentado como taxas de dois grupos distintos, é composição de numerador.

Vale registrar o que o mesmo artigo faz certo, porque é o contraste que dá confiança no resto. A distribuição por estádio fecha sem sobra — três em I, vinte e sete em II, oito em IIIA e nove em IIIB somam 47, com percentuais que batem e somam cem — e a lista final de situação também fecha, em sete categorias que somam 47 e 100,0%.

E há um número que essa lista bem-feita esconde por categorização. Os quatro resgatados por cirurgia e controlados aparecem em categoria própria, separada dos vivos sem evidência de doença. Somados aos vinte e dois, dão vinte e seis vivos sem doença ao fim do estudo, 55,3% — número que o artigo nunca imprime, embora seja a resposta à pergunta que mais interessa ao paciente.

A idade que troca de nome entre o resumo e o método

A série de 24 pacientes escreve, no resumo, que a idade variou de 35 a 74 anos e a média foi de 59 anos. No método do mesmo artigo, escreve que as idades variaram de 35 a 74 anos, com mediana de 59 anos. O intervalo é o mesmo, o número é o mesmo, o nome da medida é diferente. A tabela paciente a paciente permite decidir: somadas as vinte e quatro idades, a média é 57,1 anos; ordenadas, a mediana é exatamente 59,0. A mediana é 59; a média não é. Quem cita o resumo cita o rótulo errado, e o resumo é o que circula.

A mesma tabela resolve outro desencontro, mais grave. O resumo e os resultados listam a situação final em quatro categorias: catorze vivos sem doença, três vivos com doença, cinco mortos pelo câncer e um morto sem câncer. Catorze mais três mais cinco mais um dão vinte e três, e a série tem vinte e quatro. Os percentuais impressos — 58,3%, 12%, 20,8% e 4,2% — somam 95,3%.

A legenda da tabela paciente a paciente tem cinco códigos, não quatro: além dos quatro do texto, existe segundo tumor primário, e um paciente está classificado assim. Ele é o vigésimo quarto. Com ele, catorze mais três mais cinco mais um mais um dão 24, e os percentuais fecham exato: 58,3 mais 12,5 mais 20,8 mais 4,2 mais 4,2 dão 100,0 — desde que o 12% impresso vire 12,5%, porque três sobre vinte e quatro são 12,5% e três sobre vinte e cinco é que são 12,0%.

Há ainda um desencontro que não se reconcilia, e por isso não entra em nenhum número deste capítulo. O texto atribui as seis perdas de esfíncter a quatro falhas locais, uma persistência e uma complicação actínica; a tabela identifica seis pacientes sem preservação, mas o único candidato possível à perda por complicação actínica está registrado sem nenhuma complicação crônica e, ao mesmo tempo, como vivo com evidência de doença apesar de resposta completa e sem recidiva anotada. Três informações do mesmo paciente que não podem ser verdadeiras juntas.

A distribuição por estádio é o caso extremo. O resumo e o método imprimem estádio I com um paciente, II com treze, III com nove e IV com um — soma 24. A coluna de estádio da tabela dá um, quinze, quatro e quatro — também soma 24. As duas versões somam certo e discordam em três dos quatro estratos. Pior: a tabela põe dois dos cinco óbitos por câncer em estádio IV, impossível se o estádio IV tem um paciente só. O teste que as separa é o de sempre: a versão que nomeia os pacientes pode ser conferida linha a linha; a que só imprime o total, não.

Lesão perianal: quando a pomada é o erro

O carcinoma de canal anal quase nunca se apresenta como câncer. Apresenta-se como sangramento ao papel, prurido, sensação de massa, desconforto — a mesma lista da doença orificial benigna, mil vezes mais comum. A diferença não está no sintoma; está no que se vê e no que se palpa. Úlcera de bordas elevadas e endurecidas, lesão vegetante que não cicatriza, nódulo pigmentado de bordas irregulares, fissura fora das linhas médias, lesão que endurece ou ulcera sob tratamento correto: qualquer um desses tira a lesão da prateleira benigna.

Este é o ponto em que o capítulo vizinho de fissura, abscesso e fístula anal para. Ele ensina, corretamente, que fissura lateral, múltipla, de bordas escavadas, indolor ou refratária exige investigar doença de Crohn, tuberculose, sífilis, infecção pelo vírus da imunodeficiência humana e neoplasia do canal anal — e conclui que o próximo passo não é trocar a pomada, é biopsiar. A instrução está certa e para ali: nomeia o desastre, obriga o exame e não diz o que fazer com o resultado. O mesmo acontece no capítulo de papilomavírus humano, que indica anuscopia e biópsia diante de lesão atípica, pigmentada, endurecida ou de crescimento rápido em bloco — sem dizer o que vem depois da lâmina.

O que vem depois da lâmina é uma bifurcação de três ramos. Carcinoma epidermoide do canal anal: quimiorradioterapia com fluorouracil e mitomicina C, cirurgia reservada ao resgate. Carcinoma epidermoide da margem anal, sem invadir a borda anal: classifica-se e trata-se como tumor de pele, com excisão e margem. Melanoma anorretal: não é território de quimiorradioterapia, e a excisão local ampla com margens, quando factível, alcança sobrevida semelhante à da ressecção abdominoperineal — com prognóstico reservado em qualquer das duas.

Os diferenciais que a prova põe ao lado deste tumor não são aleatórios. O condiloma acuminado é seco, verrucoso, pontiagudo, em couve-flor, e regride sozinho em parte dos casos. O condiloma plano da sífilis secundária é úmido, achatado, acinzentado e acompanhado de manifestação sistêmica, e trata com penicilina benzatina, não com cáustico. O tumor de Buschke-Löwenstein é a lesão condilomatosa gigante, de crescimento em bloco, que se comporta localmente como maligna e se resolve por biópsia, não por destruição química. E a doença de Bowen é carcinoma espinocelular in situ, que na região perianal se confunde com eczema resistente.

Um dado de ambulatório brasileiro calibra o susto. Em 4.029 consultas de um ambulatório de infecções sexualmente transmissíveis de hospital terciário, o condiloma acuminado respondeu por 2.841 atendimentos, 70,5%, e o carcinoma espinocelular apareceu em quarto lugar, com 171 atendimentos, 4,2%. Quatro por cento não é raridade em consultório de referência: é cerca de uma lesão maligna a cada vinte e quatro pacientes com queixa anogenital. É esse número, e não o medo, que justifica biopsiar o que não responde, o que ulcera, o que endurece e o que aparece em imunodeprimido.

Quem tem risco, e o que a régua nacional diz — e não diz

O agente é o papilomavírus humano, e o protocolo nacional de infecções sexualmente transmissíveis divide os tipos genitais por potencial oncogênico. Baixo risco: 6, 11, 40, 42, 43, 44, 54, 61, 70, 72 e 81. Alto risco: 16, 18, 31, 33, 35, 39, 45, 51, 52, 56, 58, 59, 68, 73 e 82; 26, 53 e 66 como provavelmente de alto risco, e 34, 57 e 83 como indeterminados. A vacina quadrivalente do Sistema Único de Saúde cobre 6 e 11, das verrugas, e 16 e 18, os de alto risco mais implicados.

Sobre a população de risco o documento é explícito: pessoas com prática sexual anal, em especial as que vivem com o vírus da imunodeficiência humana, têm maior incidência de verrugas genitais perianais e de complicações com lesões malignizáveis e neoplasias. Sobre o que fazer com elas, é deliberadamente cauteloso. Pacientes com lesões anais, escreve, idealmente devem realizar exame proctológico com anuscopia e toque retal. E o estudo citológico de material do canal anal ainda é objeto de debate, podendo ter importância em populações especiais em razão do aumento da incidência de câncer anorretal.

Repare no que essas duas frases juntas produzem. Reconhecem o risco aumentado, indicam o exame de quem já tem lesão e recusam-se a criar um programa de rastreamento anal: falta periodicidade, faixa etária de entrada, teste de triagem definido e critério de encaminhamento por resultado citológico — as quatro peças que fazem um rastreamento existir. A sigla NIA, de neoplasia intraepitelial anal, é definida na lista de abreviaturas do protocolo nacional e reaparece uma única vez nas suas 215 páginas, numa frase que apenas a nomeia ao lado das intraepiteliais vaginal, vulvar, perineal e peniana. A lesão precursora tem sigla oficial e nenhuma conduta oficial.

O protocolo também fecha uma porta que a prova gosta de abrir: testes que identificam os diferentes tipos de papilomavírus não são recomendados na rotina clínica nem no rastreamento de assintomáticos com a finalidade de diagnosticar a infecção. Enunciado que ofereça genotipagem para investigar lesão perianal está oferecendo o que a régua nacional recusa.

Para o carcinoma de canal anal, a régua brasileira é de outra natureza. As diretrizes diagnósticas e terapêuticas em oncologia da comissão nacional cobrem estômago, próstata, cabeça e pescoço, pulmão, rim, esôfago, fígado, leucemias, linfoma folicular, melanoma cutâneo, mieloma, ovário e tumor cerebral do adulto; o adenocarcinoma de cólon e reto tem protocolo próprio. O canal anal fica de fora dessa lista, e por isso os números deste capítulo vêm de séries de serviço, e não de portaria. Quando a norma nacional não fixa a régua, a régua vira casuística — e casuística diverge.

Termine com o mapa de decisão na cabeça, em cinco passos. Lesão anal suspeita à inspeção ou ao toque: anuscopia e biópsia. Confirmado carcinoma epidermoide de canal anal: estadiamento por exame físico, toque retal, imagem de pelve e tomografia de tórax e abdome, com atenção à virilha. Sem metástase a distância: quimiorradioterapia com fluorouracil e mitomicina C. Falha ou recidiva comprovada por biópsia: resgate cirúrgico, tipicamente amputação abdominoperineal. E, em qualquer ponto, lesão da margem anal que não invade a borda anal muda de trilho e vira tumor de pele.

04

Onde a lesão está, o que ela é, e o que isso obriga

As duas tabelas abaixo separam as duas perguntas que a prova mistura. A primeira é topográfica e histológica: onde está a lesão e de que tecido ela é — porque é essa combinação, e não o tamanho, que decide entre excisão com margem e quimiorradioterapia. A segunda é o estadiamento do canal anal na versão que as séries brasileiras citadas neste capítulo usaram, e ela existe aqui por um motivo específico: a letra N desse sistema põe a virilha em duas das três categorias, o que nenhum sistema de estadiamento colorretal faz.

  1. 1Lesão anal visível ou palpável com qualquer sinal de alarme: anuscopia e biópsia da lesão, no consultório ou sob anestesia.
  2. 2Carcinoma epidermoide confirmado: localizar em relação à borda anal. Margem anal sem invadir a borda anal segue como tumor de pele; canal anal segue adiante.
  3. 3Estadiamento: toque retal e proctoscopia para o T, palpação e imagem da virilha para o N, tomografia de tórax e abdome e imagem de pelve para o M.
  4. 4Sem doença a distância: quimiorradioterapia com fluorouracil e mitomicina C concomitantes, com o campo pélvico incluindo a virilha quando há linfonodo inguinal comprometido.
  5. 5Reavaliação com biópsia após o término do tratamento: presença macroscópica ou microscópica de tumor é critério de resgate cirúrgico.
  6. 6Resgate: amputação abdominoperineal na maioria dos casos; seguimento com atenção especial à virilha, que é o sítio mais frequente de segunda recidiva ressecável.

T1 — 2 cm ou menos

Menor faixa de tamanho. Nas séries brasileiras, agrupado com T2 para análise, esse conjunto teve sobrevida livre de doença em cinco anos significativamente maior, com p de 0,0111. É a faixa em que a quimiorradioterapia entrega o melhor resultado com o menor preço.

T2 — de 2 a 5 cm

Faixa mais frequente das duas casuísticas: 27 dos 47 pacientes de uma e a maior parte dos 24 da outra. Ainda é doença sem linfonodo na maioria dos casos, e por isso o estádio II reúne T2 e T3 com N0 e M0.

T3 — mais de 5 cm

Aqui a curva vira. A discussão da série do Instituto Nacional de Câncer registra que a falha ao tratamento chega a 50% quando se consideram tumores maiores que cinco centímetros, contra até 20% no conjunto dos pacientes tratados com quimiorradioterapia.

T4 — invade órgão adjacente

O tamanho deixa de ser o critério: o que define é a invasão. Sozinho, sem nenhum linfonodo, o T4 já leva o paciente a estádio IIIA; com N1, a IIIB. É a categoria em que a preservação esfincteriana passa a competir com o controle da doença.

A topografia decide o trilho

Onde estáHistologia típicaDrenagem linfática dominantePrimeira linha de tratamento
Canal anal (do anel anorretal à borda anal)Carcinoma epidermoide, cerca de 75% a 80% dos tumores da regiãoPerirretal e ilíaca interna acima da linha denteada; inguinal abaixo delaQuimiorradioterapia com fluorouracil e mitomicina C; cirurgia reservada ao resgate
Margem anal, sem invadir a borda analCarcinoma epidermoideInguinalClassifica-se e trata-se como tumor de pele: excisão com margem
Canal anal, histologia melanocíticaMelanoma anorretal (lesão pigmentada, S-100 e HMB-45 positivos)Inguinal e hematogênica precoceExcisão local ampla com margens quando factível; sobrevida semelhante à da ressecção abdominoperineal, prognóstico reservado
Transição anorretal, histologia glandularAdenocarcinomaPerirretal e mesorretalSegue a régua do adenocarcinoma de reto, com protocolo nacional próprio
Lesão condilomatosa gigante de crescimento em blocoTumor de Buschke-LöwensteinLocal, invasão por contiguidadeBiópsia antes de qualquer destruição química ou física

Estadiamento do canal anal na versão usada pelas séries brasileiras citadas

CategoriaDefiniçãoPor que importa aqui
T1Tumor de 2 cm ou menos em sua maior dimensãoFaixa em que o controle local foi maior nas séries; sobrevida livre de doença significativamente melhor para T1 e T2
T2Tumor com 2 a 5 cmEstádio mais frequente das duas séries brasileiras — 27 dos 47 e a maioria dos 24
T3Tumor com mais de 5 cmAcima de 5 cm a falha ao tratamento chega a 50%, segundo a discussão da série do Instituto Nacional de Câncer
T4Qualquer tamanho invadindo órgãos adjacentesSozinho já sobe o paciente para estádio IIIA, mesmo sem linfonodo
N1Metástases em linfonodos perirretaisÚnico N que não envolve a virilha
N2Metástases em ilíacos internos unilaterais e/ou inguinaisA virilha entra no estadiamento
N3Perirretais e inguinais, e/ou ilíacos internos bilaterais e/ou inguinaisFoi por N3 inguinal que um paciente da série do Instituto Nacional de Câncer virou estádio III sem tumor grande
Agrupamento0: Tis N0 M0. I: T1 N0 M0. II: T2-3 N0 M0. IIIA: T1-3 N1 M0 ou T4 N0 M0. IIIB: T4 N1 M0 ou qualquer T com N2-3 M0. IV: qualquer T, qualquer N, M1IIIB reúne o T4 com nódulo e o N inguinal — e foi em IIIB que se concentraram quatro das cinco recidivas inguinais

A primeira tabela responde à pergunta da prova; a segunda responde à pergunta do campo de radioterapia. Confundir as duas é o que produz a alternativa que manda irradiar a virilha de todo mundo ou de ninguém.

O estadiamento reproduzido aqui é o que as duas séries brasileiras citadas aplicaram nos períodos que cobrem. Sistemas de estadiamento são revisados periodicamente, e enunciado que traga uma edição diferente deve ser respondido pela edição que ele nomear.

A distinção entre canal anal e margem anal foi fixada por consenso internacional exatamente porque havia duas escolas, uma que punha o limite distal do canal na linha denteada e outra que o punha na borda anal. Ao ler literatura anterior a esse consenso, o mesmo tumor pode aparecer com dois nomes.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

O que exatamente é o 'protocolo de Nigro' — o esquema original ou o que os serviços entregam?

O esquema original, com dose e calendário definidos

O programa definitivo de tratamento conservador, montado sobre a análise retrospectiva de 104 pacientes, prescrevia 30 Gy de radioterapia externa em quinze frações de 2 Gy, do primeiro ao vigésimo primeiro dia, cobrindo tumor primário, pelve e linfonodos inguinais, com fluorouracil 1.000 mg/m² por dia em infusão contínua do primeiro ao quarto e do vigésimo oitavo ao trigésimo primeiro dia, e mitomicina C 15 mg/m² em bolus único no primeiro dia. Nessa leitura, o nome designa uma prescrição concreta.

Lima Júnior CGB, Ferrigno R, Salvajoli JV, David Filho WJ, Rossi BM, Lopes A. Tratamento do carcinoma do canal anal com radioterapia e quimioterapia concomitantes: resultados preliminares do Hospital do Câncer A. C. Camargo. Rev Col Bras Cir. 2001;28(1):30-37 — seção de discussão

A combinação de drogas, com dose definida pelo serviço

As duas séries brasileiras publicadas do tema entregaram 45 Gy na pelve com complementação até 55 Gy no leito tumoral e mitomicina C a 10 mg/m² por ciclo, em dois ciclos, e continuaram chamando o tratamento pelo mesmo nome. A dose de radiação é quase o dobro da original e a de mitomicina é dois terços dela. Nessa leitura, o nome designa a ideia — fluorouracil mais mitomicina C concomitantes à radioterapia, no lugar da amputação —, e a dose é do serviço.

Nakamura RA, Ferrigno R, Salvajoli JV, Nishimoto IN, David Filho WJ, Lopes A. Tratamento conservador do carcinoma do canal anal. Rev Col Bras Cir. 2005;32(1):23-31 — seções de método e resultados

Na prova

Enunciado que peça o tratamento de primeira linha do carcinoma epidermoide do canal anal está pedindo a combinação, não a dose: a resposta é quimiorradioterapia com fluorouracil e mitomicina C. Dose de radioterapia em enunciado brasileiro é sinal de que a questão copiou uma diretriz estrangeira, porque nenhum documento nacional fixa esse número para o canal anal. Se o enunciado der a dose e ela for de 45 a 55 Gy, é a régua das séries nacionais; se der 30 Gy, é o esquema histórico original. Nos dois casos, o que se marca é a combinação de drogas — nunca a amputação como conduta inicial.

Irradiar a virilha de quem não tem linfonodo palpável?

Não é necessário irradiar a virilha profilaticamente

Na série de 24 pacientes tratados entre 1992 e 1998, a região inguinal foi irradiada apenas nos pacientes com linfonodos clinicamente comprometidos, por campo anterior com bloco de transmissão. O relato dos resultados é literal: não foram observadas recidivas inguinais, nem mesmo nos pacientes com metástases inguinais ao diagnóstico. Se a virilha não recidivou nem em quem tinha doença nela, irradiar profilaticamente quem não tem acrescenta toxicidade sem ganho demonstrado.

Lima Júnior CGB et al. Rev Col Bras Cir. 2001;28(1):30-37 — seção de resultados, 24 pacientes tratados de janeiro de 1992 a maio de 1998

A taxa de recidiva inguinal justifica irradiação eletiva

Na série seguinte do mesmo serviço, com 47 pacientes tratados entre 1993 e 2001, trinta e oito não receberam radioterapia inguinal, e cinco deles recidivaram na virilha — quatro dos quais eram estádio IIIB, ou seja, quatro dos nove pacientes IIIB da série. Nenhum dos quatro que receberam irradiação inguinal eletiva teve recidiva nessa região. A conclusão publicada é que a taxa relativamente alta de recidiva inguinal sugere a necessidade de radioterapia eletiva nessa região.

Nakamura RA et al. Rev Col Bras Cir. 2005;32(1):23-31 — seções de resultados e conclusão, 47 pacientes tratados de março de 1993 a dezembro de 2001

Na prova

Questão brasileira sobre canal anal raramente cobra o campo de irradiação, porque não há norma nacional que o fixe — e quando cobra, o enunciado sempre informa o estado dos linfonodos inguinais. Com linfonodo inguinal comprometido, a virilha entra no campo, e isso é consenso nas duas séries. Sem linfonodo palpável, a questão está em terreno de divergência e não deve ser respondida por regra fixa: procure no enunciado a palavra que decide, que costuma ser o estádio. O candidato deve reconhecer que a recomendação de irradiação eletiva sai de uma comparação de trinta e oito pacientes contra quatro, e que zero recidiva em quatro pacientes não é uma taxa de zero por cento.

06

Caso resolvido

Homem de 62 anos, pedreiro, procura a unidade básica pela terceira vez em seis meses por lesão perianal que não cicatriza. Refere prurido e sangramento ocasional ao papel higiênico, e nega dor em pontada durante a evacuação. Foi tratado como fissura anal crônica em duas consultas anteriores, com pomada de corticoide e anestésico, sem melhora. Nega perda de peso e alteração do hábito intestinal. É tabagista de vinte anos-maço e refere prática sexual anal receptiva; sorologia para o vírus da imunodeficiência humana desconhecida. Ao exame proctológico, com as nádegas afastadas, há na margem anal uma úlcera de cerca de 1,5 cm, de bordas elevadas e endurecidas, localizada lateralmente, sem trajeto fistuloso e sem secreção. O toque retal é doloroso mas possível, com esfíncter de tônus preservado, sem massa retal palpável e sem sangue na luva. Não há linfonodos inguinais palpáveis.
Quebrar o rótulo antes de tratar
Três características desfazem o diagnóstico de fissura anal crônica ao mesmo tempo. A localização é lateral, e a fissura típica é de linha média. A dor característica em pontada durante a evacuação está ausente. E a lesão não cicatrizou apesar de tratamento correto repetido. Qualquer um dos três já obriga a mudar de categoria; os três juntos não deixam alternativa. A lista de causas a investigar nessa situação é fixa: doença de Crohn, tuberculose, sífilis, infecção pelo vírus da imunodeficiência humana com úlcera oportunista e neoplasia do canal anal.
Escolher o exame, e não o encaminhamento
A lesão é visível e palpável. O exame que decide é a biópsia da lesão, com anuscopia para avaliar a extensão em direção ao canal. Não é colonoscopia: não há sintoma de trânsito, não há anemia documentada, não há massa abdominal e a lesão está no primeiro centímetro do exame. Encaminhar para preparo de cólon aqui é trocar um procedimento de consultório por uma fila. Em paralelo, oferecer testagem para o vírus da imunodeficiência humana, sífilis e hepatites B e C, que é o pacote que acompanha toda lesão anogenital.
Localizar a lesão antes de tratar o resultado
A biópsia volta com carcinoma epidermoide invasivo. A pergunta imediata não é qual esquema usar: é onde exatamente a lesão está. Tumor da margem anal que não invade a borda anal comporta-se como tumor de pele e é classificado e tratado como tal, com excisão e margem. Tumor do canal anal, isto é, entre o anel anorretal e a borda anal, é território de quimiorradioterapia. Neste paciente a úlcera está na margem anal, e o exame sob anestesia com anuscopia é o que define se ela invade ou não a borda — e essa definição vale um centímetro e muda o tratamento inteiro.
Estadiar olhando para a virilha
Confirmado o acometimento do canal anal, o estadiamento é toque retal e proctoscopia para o tamanho do tumor, palpação e imagem da região inguinal para o N, e tomografia de tórax e abdome com imagem de pelve para o M. A virilha não é detalhe: no sistema usado pelas séries brasileiras, metástase inguinal caracteriza N2 ou N3 e sobe o paciente para estádio III mesmo com tumor pequeno. Neste paciente não há linfonodo palpável, o que não dispensa a imagem.
Nomear o tratamento e o que ele custa
Sem doença a distância, o tratamento de primeira linha é quimiorradioterapia concomitante com fluorouracil e mitomicina C, com a cirurgia reservada ao resgate. É preciso dizer ao paciente o que isso significa: nas séries brasileiras, praticamente todos os pacientes tiveram radiodermite durante o tratamento, cerca de quatro em cada cinco tiveram alguma complicação aguda, e cerca de um em cada quatro precisou interromper temporariamente o tratamento. E é preciso registrar que a reavaliação com biópsia depois do término é parte do plano, não sinal de fracasso.
Fechar o encaminhamento com a informação que importa
O encaminhamento é para coloproctologia ou oncologia, com o laudo da biópsia, a descrição da lesão com medida e localização em relação à borda anal, o estado dos linfonodos inguinais e a sorologia para o vírus da imunodeficiência humana quando disponível. Esses quatro dados são o que define a conduta do serviço que vai receber. Descrever 'lesão perianal' e nada mais é o equivalente, aqui, de não descrever nada.
07

Agora feche você

Mulher de 58 anos, hipertensa, comparece ao ambulatório de coloproctologia por sangramento anal intermitente e sensação de massa na região anal há quatro meses. Refere desconforto local e prurido, sem alteração do hábito intestinal e sem perda de peso. Nega tabagismo. Antecedente de infecção pelo papilomavírus humano tratada há oito anos. Ao exame proctológico, identifica-se lesão ulcerada e endurecida no canal anal, acima da linha denteada, medindo cerca de 3 cm, sem plicomas e sem trajeto fistuloso. Há um linfonodo inguinal direito palpável, endurecido, de cerca de 1,5 cm, móvel. A biópsia da lesão revela carcinoma de células escamosas invasivo. Tomografia de tórax e abdome sem lesões secundárias; ressonância de pelve confirma lesão de 3 cm restrita ao canal anal e linfonodo inguinal direito de aspecto secundário.
Passo 1
Classifique o T e o N desta paciente pelo sistema reproduzido na tabela do capítulo, dizendo em que faixa de tamanho a lesão de 3 cm cai e qual categoria N corresponde a um linfonodo inguinal unilateral. Em seguida, diga em que estádio ela se agrupa e explique por que a virilha, e não o tamanho, foi o que determinou esse agrupamento.
Passo 2
Escreva o tratamento de primeira linha, nomeando as duas drogas e o que significa serem concomitantes à radioterapia. Explique por que a ressecção abdominoperineal não é a conduta inicial desta paciente, citando o que a cirurgia passou a ser neste tumor a partir dos anos 1970 e em que condição precisa ela volta ao plano.
Passo 3
Diga o que muda no campo de radioterapia por causa do linfonodo inguinal palpável, e diferencie irradiação inguinal terapêutica de irradiação inguinal eletiva. Em seguida, resuma a divergência brasileira sobre irradiar profilaticamente a virilha de quem não tem linfonodo palpável, nomeando o tamanho dos dois braços que sustentam a recomendação de irradiar.
Passo 4
Descreva como e quando se reavalia a resposta, dizendo qual exame confirma resposta completa e o que caracteriza a indicação de resgate cirúrgico. Diga também qual é o sítio mais frequente de segunda recidiva ressecável depois do resgate, e por que a anatomia previa isso.
Passo 5
Liste três informações que precisam constar do encaminhamento desta paciente para o serviço de oncologia e justifique cada uma pelo que ela decide. Depois, escreva em duas frases, sem jargão, o que você diria a ela sobre o que esperar do tratamento — incluindo o que se preserva e o que costuma doer.
08

Onde a banca derruba

  1. 1Mandar a lesão anal visível para a fila da colonoscopia Atrai porque a rota de suspeita de neoplasia do trato gastrointestinal inferior existe, é a rota certa do adenocarcinoma de cólon e reto, e é a única que a maioria dos serviços tem organizada para quem sangra pelo ânus. Mas o carcinoma de canal anal é diagnosticado por inspeção, toque e anuscopia, com biópsia da lesão — todos exames de consultório. Colocar uma úlcera anal endurecida na fila de um exame de agenda é perder semanas sem nenhum ganho de informação. Colonoscopia continua indicada quando há, em paralelo, sintoma de trânsito, anemia ferropriva sem causa ou massa abdominal: aí são duas perguntas, e a segunda é colorretal.
  2. 2Indicar amputação abdominoperineal como conduta inicial Atrai porque a amputação foi o padrão até a década de 1970 e porque a lesão é grande, visível e assustadora. O carcinoma epidermoide do canal anal foi um dos primeiros tumores sólidos em que o tratamento cirúrgico foi substituído por tratamento conservador, e a cirurgia hoje é de resgate: entra depois de biópsia que comprove persistência ou recidiva, entre a quarta e a oitava semanas do fim do tratamento. Marcar amputação como primeira linha é reprovar por meio século de atraso.
  3. 3Aplicar quimiorradioterapia ao melanoma anorretal Atrai porque a vinheta é idêntica — lesão anal sangrante, sensação de massa, biópsia com neoplasia maligna — e porque o candidato já decorou que o tratamento do canal anal não é cirúrgico. O melanoma anorretal não é epidermoide, não é radiossensível e não entra no esquema de fluorouracil com mitomicina C. É neoplasia rara, de prognóstico reservado, cujo tratamento cirúrgico de escolha, quando factível, prioriza a excisão local ampla com margens — com resultados de sobrevida semelhantes aos da ressecção abdominoperineal. A pista está na descrição: lesão pigmentada, bordas irregulares, imuno-histoquímica com S-100 e HMB-45.
  4. 4Ler um par de percentuais que soma cem como se fossem duas taxas Atrai porque a frase é escrita como taxa: o controle local para os estádios I e II, e IIIA e IIIB, foi respectivamente de 67,7% e 32,3%. Duas taxas de grupos diferentes não têm razão para somar exatamente cem; quando somam, são a composição do numerador. Nesse caso são os 31 pacientes que obtiveram controle local, repartidos entre os dois grupos. As taxas verdadeiras, refeitas com os denominadores da própria série, são 70,0% e 58,8% — uma diferença de onze pontos, e não de trinta e cinco. Esse é o teste de bolso: pares que somam cem em grupos independentes são fatias, não taxas.
  5. 5Tomar a linha denteada como o limite superior do canal anal Atrai porque a linha denteada é o marco que todo mundo aprende primeiro e porque ela realmente divide dois mundos — epitélio, inervação e drenagem linfática. Só que o limite superior do canal anal, para efeito de estadiamento, é o anel anorretal, cerca de dois centímetros acima dela. A confusão tem raiz histórica: antes do consenso internacional, parte dos autores punha o limite distal do canal exatamente na linha denteada. Ao ler literatura antiga, o mesmo tumor pode aparecer classificado de duas maneiras.
  6. 6Repetir a prescrição na fissura que não cicatriza Atrai porque fissura anal é comum, dói muito e melhora com pomada — e porque a segunda prescrição custa menos que uma biópsia. A fissura típica é única, na linha média, dolorosa e responde ao tratamento. Fissura lateral, múltipla, de bordas escavadas, indolor, associada a plicomas volumosos ou que não cicatriza apesar do tratamento correto muda de categoria e exige investigar doença de Crohn, tuberculose, sífilis, infecção pelo vírus da imunodeficiência humana e neoplasia do canal anal. O próximo passo não é trocar a pomada; é biopsiar.
  7. 7Cauterizar o que deveria ter sido biopsiado Atrai porque verruga anogenital é frequentíssima e o ácido tricloroacético é barato e imediato. A régua nacional lista três portas para a biópsia: dúvida diagnóstica ou suspeita de neoplasia, lesão atípica ou que não responde ao tratamento, e lesão suspeita em pessoa com imunodeficiência. Lesão pigmentada, endurecida, ulcerada ou de crescimento rápido em bloco aponta para tumor de Buschke-Löwenstein ou carcinoma, e a conduta é biópsia, não destruição química. Em ambulatório terciário brasileiro de infecções sexualmente transmissíveis, o carcinoma espinocelular foi o quarto diagnóstico mais frequente, com 4,2% dos atendimentos.
  8. 8Ler ausência de toxicidade como boa notícia no meio do tratamento Atrai porque o paciente que não tem radiodermite, não tem diarreia e não interrompe parece ser o que está indo melhor. Na série de 24 pacientes, os cinco que não tiveram nenhuma toxicidade aguda concentraram três dos cinco óbitos por câncer — 60% contra 18,2% no grupo de toxicidade grau 3 e nenhum óbito por câncer entre os de grau 4. A leitura mecânica seria dizer que toxicidade protege, o que é absurdo; a leitura correta é que toxicidade aguda é marcador de dose biológica entregue, e ausência total dela num tratamento cujo efeito depende de dose é sinal de alerta. Com cinco pacientes num braço, o achado é frágil e serve como hipótese, não como conduta.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Correta: o carcinoma escamoso do canal anal está fortemente associado à infecção persistente pelo HPV, sobretudo os subtipos de alto risco 16 e 18, presentes na grande maioria dos casos — a positividade sorológica para HPV na vinheta reforça o vínculo. HBV associa-se a carcinoma hepatocelular, não ao canal anal. HHV-8 é o agente do sarcoma de Kaposi, não do carcinoma escamoso anal. EBV relaciona-se a linfomas e carcinoma nasofaríngeo, não ao câncer de canal anal. CMV causa colite/proctite oportunista, mas não é agente oncogênico dessa neoplasia.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

Sorteando as questões…

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Plano de revisão

em 7 dias

Sete dias depois, recupere sem consultar: (1) os três marcos do canal anal na ordem e a distância entre eles — anel anorretal no alto, linha denteada cerca de dois centímetros abaixo, borda anal embaixo; (2) para onde drena a linfa acima e abaixo da linha denteada, e por que a virilha entra no estadiamento deste tumor; (3) o exame que faz o diagnóstico, que é anuscopia com biópsia da lesão, e por que não é a colonoscopia; (4) o tratamento de primeira linha do carcinoma epidermoide de canal anal e as duas drogas que o compõem; (5) o que muda quando a lesão está na margem anal sem invadir a borda anal; (6) as três histologias que mudam o trilho — epidermoide, melanoma e adenocarcinoma da transição; (7) as quatro categorias T por tamanho, com os cortes de 2 e 5 centímetros. Se algo falhar, o que costuma faltar é a ordem anatômica, não o tratamento.

em 30 dias

Trinta dias depois, o teste é de aplicação. Construa três pacientes com a mesma queixa — sangramento anal e sensação de massa há quatro meses — e mude apenas um elemento em cada um: no primeiro, lesão vegetante no canal anal com biópsia de carcinoma epidermoide; no segundo, a mesma lesão na margem anal sem invadir a borda anal; no terceiro, lesão pigmentada com S-100 positivo. Escreva a conduta de cada um e diga qual foi o dado que mudou o trilho. Depois, refaça de memória a conta que desmonta o par de percentuais: por que dois números que somam exatamente cem não podem ser taxas de controle local de dois grupos, e como se recuperam as taxas verdadeiras a partir do total de controlados e do tamanho de cada grupo. Por fim, reconstrua a divergência da irradiação inguinal nomeando as duas séries, os dois períodos e os dois tamanhos de braço — e diga por que zero recidiva em quatro pacientes não é uma taxa de zero.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Homem de 47 anos, vivendo com o vírus da imunodeficiência humana em uso irregular da terapia antirretroviral, procura o pronto-atendimento por lesão anal que sangra e dói há três meses. Já usou duas pomadas diferentes por conta própria e uma prescrita como hemorroida. Ao ser questionado, conta que a lesão cresceu e que agora sente um caroço na virilha direita. Está preocupado porque um amigo com o mesmo diagnóstico de vírus fez colostomia. Conduza a consulta: colha o que falta na história sexual e de tratamento antirretroviral sem constranger, examine o que separa doença orificial benigna de neoplasia, decida o exame que fecha o diagnóstico e explique a ele, sem jargão, por que o tratamento deste tumor começa sem operar e o que significa o caroço da virilha. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Câncer de canal anal — Preparatório para provas | OsceLabs