Cirurgia GeralColoproctologia

Corpo estranho retal e trauma anorretal

A reflexão peritoneal parte o reto em duas doenças com condutas diferentes, e o corpo estranho tem uma ordem de exame que o pronto-socorro inverte. A prova cobra a sequência — radiografia antes do dedo, endoscopia depois da retirada — e o que sobrou das quatro D.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Homem, 34 anos, comparece ao pronto-socorro relatando introdução de objeto (garrafa de vidro) por via anal, para fins de masturbação, há cerca de 6 horas, com incapacidade de removê-lo em casa. Nega dor abdominal intensa, sangramento volumoso ou febre. Ao exame: bom estado geral, PA 128/78 mmHg, FC 82 bpm, T 36,6 °C. Abdome flácido, indolor, sem sinais de irritação peritoneal. Ao toque retal, palpa-se o polo inferior do objeto no reto médio, sem sangue vivo na luva. Qual é o exame de imagem inicial mais apropriado para avaliar a localização do corpo estranho e pesquisar sinais de perfuração?

02

Como esse tema cai

Dois quadros muito diferentes chegam pela mesma porta e são cobrados juntos porque compartilham um erro de sequência. No trauma anorretal, a pergunta que organiza tudo não é o grau da lesão: é se ela está acima ou abaixo da reflexão peritoneal. Acima, o reto se comporta como cólon e o tratamento é o do cólon. Abaixo, a lesão fica escondida de tudo o que se olha por dentro do abdome — inclusive da laparoscopia — e a decisão passa a ser derivar ou não derivar. No corpo estranho retal, a pergunta que organiza tudo não é como retirar: é o que fazer antes de tocar, porque o objeto pode ser cortante e a radiografia é o que impede que o dedo do examinador seja a segunda vítima.

As duas condutas mais lembradas do tema são justamente as duas que a evidência desmontou. Drenagem pré-sacral e lavado retal distal saíram do padrão: são as duas últimas letras das quatro D, e a diretriz norte-americana de trauma recomenda condicionalmente evitá-las de rotina. No corpo estranho, antibiótico não é conduta de rotina — só entra com perfuração ou instabilidade. Sobra pouco do que a memória de prova guarda: a derivação proximal permanece, mas com recomendação condicional; a endoscopia depois da retirada permanece, com recomendação fraca; e a única recomendação forte contra alguma coisa em todo o tema é a que proíbe extração transanal no paciente instável ou perfurado.

O recorte brasileiro não está na técnica cirúrgica, está no que a lei manda fazer enquanto se opera. Não há protocolo nacional de trauma anorretal nem de corpo estranho retal: quem governa a conduta operatória é a diretriz da WSES com a AAST, de 2021, para o corpo estranho, e a da EAST, de 2016, para a lesão retal extraperitoneal penetrante. O que é brasileiro e cai em prova é o outro relógio — a Lei nº 12.845/2013 põe no médico que trata a lesão o dever de preservar o material coletável no exame médico-legal, a violência sexual é de notificação imediata em até 24 horas e a profilaxia pós-exposição tem janela de 72 horas. Desbridar e lavar um períneo sem pensar nisso resolve a ferida e apaga a prova.

03

O que muda decisão

A reflexão peritoneal parte o reto em duas doenças

O reto tem cerca de 15 cm e é o único segmento do tubo digestivo que atravessa a fronteira do peritônio no meio de si mesmo. A porção intraperitoneal compreende o terço superior posteriormente e os dois terços superiores anteriormente; a extraperitoneal, os dois terços inferiores posteriormente e o terço inferior anteriormente. Duas consequências saem daí, e as duas caem em prova. A primeira: a reflexão é mais baixa na frente do que atrás, porque o peritônio mergulha no fundo de saco anterior — logo, um ferimento na mesma altura pode ser intraperitoneal se atingir a parede anterior e extraperitoneal se atingir a posterior. A segunda: metade do reto simplesmente não é vista de dentro da cavidade. A laparoscopia diagnóstica avalia muito bem o conteúdo intra-abdominal e não avalia o reto extraperitoneal — abrir e olhar não exclui a lesão.

A divisão não é anatômica por capricho: é ela que escolhe o tratamento. A lesão intraperitoneal se comporta como lesão de cólon e é tratada como lesão de cólon, com a mesma lógica de desbridar e reparar quando não é destrutiva e ressecar quando é. A lesão extraperitoneal drena para um compartimento fechado — o conteúdo que escapa desce para o plano isquiorretal e sobe para o retroperitônio —, é tecnicamente difícil de alcançar porque a pelve é estreita, e é sobre ela que gira toda a discussão de derivar ou não derivar.

A gravidade anatômica é medida pela escala de lesão de órgão da Associação Americana para a Cirurgia do Trauma. O grau I é contusão ou hematoma sem desvascularização, e também a laceração de espessura parcial; o grau II é laceração de menos de 50% da circunferência; o grau III, laceração de 50% ou mais da circunferência; o grau IV, laceração de espessura total com extensão ao períneo; e o grau V, segmento desvascularizado. Há uma nota de rodapé que costuma escapar: avança-se um grau quando há lesões múltiplas, até o grau III. E há uma armadilha de calendário: a escala do cólon foi atualizada em 2020, a do reto não — a que vale continua sendo a de 1990.

Duas fronteiras numéricas convivem no tema e não são a mesma coisa. A escala AAST usa 50% da circunferência para separar o grau II do grau III. A classificação funcional que decide a conduta usa destrutiva contra não destrutiva, e aí o ponto de corte publicado para a lesão extraperitoneal é 25% da circunferência. Quem mistura as duas erra a conduta pela metade: uma laceração de 30% da circunferência ainda é grau II na escala AAST e já é destrutiva pelo corte de 25%. Só a espessura total, aliás, obriga a operar — a literatura sustenta intervenção operatória a partir do grau II, que é onde a laceração deixa de ser parcial.

Corte sagital da pelve mostrando o reto e a membrana peritoneal, que desce mais à frente do que atrás: os dois terços superiores da parede anterior e apenas o terço superior da parede posterior ficam dentro da cavidade peritoneal, e a fronteira entre as duas porções é uma linha oblíqua.
A reflexão peritoneal é oblíqua e mais baixa à frente do que atrás. Por isso um ferimento na mesma altura pode ser intraperitoneal se atingir a parede anterior e extraperitoneal se atingir a posterior — e a conduta muda com essa diferença.

Suspeitar é trabalho do mecanismo, não do exame

Lesão traumática do reto responde por 0,1% de todos os traumas, e é justamente essa raridade que a torna perigosa: ninguém procura o que não espera. Em ambiente militar a prevalência estimada sobe para 5% a 10%, pela combinação de projéteis de alta velocidade e explosivos. O mecanismo penetrante domina, mas a proporção publicada varia com a série e, sobretudo, com o que cada uma chama de penetrante: cerca de 60% no meio civil e 95% no militar em uma revisão recente; 90% a 95% em outra, com 85% a 90% por arma de fogo; e 80% em um consenso latino-americano. Na série brasileira prospectiva do Hospital João XXIII, 60% foram por trauma penetrante, 11,4% por trauma contuso e 28,6% por empalamento — e somar os 60% de penetrante aos 28,6% de empalamento devolve 88,6%, que é exatamente onde as outras séries põem o penetrante em sentido amplo. A divergência é de rótulo, não de fato: quem conta empalamento à parte publica um número mais baixo de trauma penetrante.

Como a suspeita não vem do exame, ela precisa vir do padrão de lesão. Ferimento transpélvico por projétil, trauma contuso de alta energia, fratura de pelve — em especial por compressão anteroposterior —, alargamento da sínfise púbica na radiografia e lesão geniturinária são os gatilhos que obrigam a procurar lesão retal. A associação com a bexiga é a mais forte e a mais repetida: lesões geniturinárias penetrantes vêm acompanhadas de lesão retal em até 50% dos casos, e na série brasileira a bexiga foi o órgão associado mais frequente, em 10 dos 21 pacientes com lesão associada, seguida do intestino delgado, em 8. Fratura de pelve coexiste em cerca de 15% dos pacientes com lesão retal, e a combinação de lesão retal com fratura pélvica é marcador de mortalidade mais alta.

A distribuição anatômica não favorece a preguiça. Na análise do National Trauma Data Bank, a lesão extraperitoneal isolada foi a mais frequente, respondendo por quase 53% de todas as lesões retais; os 47% restantes ficaram com a intraperitoneal isolada e com a combinação das duas. Ou seja: a maioria das lesões está exatamente na porção que a laparotomia e a laparoscopia não mostram.

O toque retal ocupa um lugar desconfortável nesse roteiro. Ele é ruim como teste — a sensibilidade publicada para lesão retal fica entre 33% e 52%, e ele já foi retirado da rotina indiscriminada do trauma justamente por isso. Mas continua útil quando o mecanismo já levantou a suspeita, porque procura coisas específicas: sangue, defeito palpável na parede, tônus esfincteriano reduzido, fragmentos ósseos no reto e próstata deslocada. Qualquer uma delas muda a conduta na hora. A leitura correta é a de um exame de baixa sensibilidade cujos achados positivos valem muito — não serve para excluir, serve para confirmar.

A retossigmoidoscopia rígida é o exame que fecha o diagnóstico

A tomografia entra primeiro no paciente estável, porque encontra lesões associadas e localiza a lesão retal em relação à reflexão peritoneal. Os achados específicos são extravasamento de contraste intraluminal, defeito de espessura total da parede, focos assimétricos de ar extraluminal e hemorragia dentro da parede intestinal; espessamento da parede retal, densificação da gordura perirretal e líquido livre sem outra explicação são achados secundários que obrigam a continuar investigando. A tomografia de triplo contraste tem sensibilidade de 97% e especificidade de 98% para violação peritoneal no trauma abdominal penetrante, mas custa desconforto e tempo. E o contraste retal, isolado, é um teste péssimo para achar a lesão: em metanálise de oito estudos, a sensibilidade foi de 12,5%, com especificidade de 99,8%. Traduzindo: contraste retal extravasando confirma; contraste retal sem extravasar não afasta nada.

O exame que fecha o diagnóstico é endoscópico, e feito sob anestesia quando necessário. A retossigmoidoscopia rígida mostrou sensibilidade de 78% para lesão retal em geral e de 88% para a lesão extraperitoneal em um estudo de 2009; um estudo de 2019 encontrou 94% de sensibilidade e 100% de especificidade para a rígida, contra 59% e 91% da tomografia nos mesmos pacientes. A proctoscopia aparece com 71% de sensibilidade geral e 88% para a extraperitoneal em outra revisão. As faixas variam, mas o sentido é sempre o mesmo, e é o oposto do que a intuição sugere: para a porção do reto que mais se lesa, o exame endoscópico é mais sensível que a tomografia.

Um detalhe operacional decide o resultado: não é preciso ver a laceração para diagnosticar. Sangue visto à retossigmoidoscopia rígida tem sensibilidade descrita de até 90% para lesão retal e, na série brasileira, em 8 dos 14 pacientes do grupo de fechamento precoce — 57,1% —, a lesão nunca foi visualizada nem no exame proctológico nem no ato cirúrgico: o diagnóstico foi estabelecido pela presença de sangue no reto. Quem exige enxergar o defeito para aceitar o diagnóstico perde metade das lesões.

As limitações precisam ser ditas junto. O intestino não está preparado, o campo costuma estar sanguinolento e a mobilidade pélvica está restrita pelas outras lesões — tudo isso derruba a sensibilidade. Irrigação e enema melhoram a visualização, mas há preocupação registrada com espalhar contaminação para os tecidos perirretais, e por isso não são conduta automática. A combinação que as revisões recomendam é tomografia com contraste venoso, com ou sem contraste retal, mais exame sob anestesia com retossigmoidoscopia rígida ou flexível.

Das quatro D sobrou uma, e ela é condicional

O tratamento clássico veio das guerras e se resumia em quatro D: desbridamento, derivação, drenagem pré-sacral e lavado distal. A trajetória da mortalidade militar explica por que o dogma pegou — de manejo expectante com mortalidade de praticamente 100% na Guerra de Secessão a suporte vital com cirurgia de controle de danos com mortalidade de um dígito nos conflitos dos anos 1990 e 2000. O que não se sustenta é usar os números intermediários dessa série: no mesmo artigo que a publica, a tabela e o texto discordam em três linhas. O que resta confiável é a direção, não os valores.

A revisão civil desmontou as duas últimas letras. A diretriz da EAST, de 2016, triou 306 artigos, leu 56 na íntegra, usou 18 e produziu três recomendações condicionais para a lesão retal extraperitoneal penetrante não destrutiva: recomenda condicionalmente a derivação proximal, e recomenda condicionalmente evitar o dreno pré-sacral de rotina e o lavado retal distal. O argumento contra o dreno é o mais duro que existe no tema — o único estudo randomizado publicado sobre drenagem pré-sacral encontrou risco maior de complicações infecciosas nos pacientes drenados. O lavado distal, que se supunha reduzir a translocação bacteriana, nunca se associou de forma clara à redução de complicações.

A conduta atual se organiza pela localização e pela extensão. A lesão intraperitoneal segue a regra do cólon: não destrutiva, tipicamente definida como menos de 25% da circunferência, é desbridada até tecido sadio e reparada primariamente, sem necessidade de derivação proximal; destrutiva, com mais de 50% da circunferência ou perda tecidual adjacente grave, é ressecada. A lesão extraperitoneal usa o corte publicado de 25% da circunferência: acima disso, destrutiva, indica-se colostomia; abaixo, não destrutiva, cabe manejo conservador ou reparo primário, inclusive por via transanal quando o acesso permite. Vale registrar que a faixa entre 25% e 50% fica sem categoria quando se usa 25% para o não destrutivo e 50% para o destrutivo na mesma frase — os dois cortes vêm de linhagens diferentes de estudos, e o próprio texto que os cita não fecha o intervalo.

No instável, nada disso é a primeira decisão. Vale controle de danos: ressuscitação, laparotomia de urgência e, identificada a lesão retal, foco em controlar contaminação por derivação proximal ou reparo primário quando a lesão é não destrutiva. Dissecção extensa e mobilização do reto não são apropriadas na primeira laparotomia do paciente instável — o reparo de uma lesão próxima à reflexão peritoneal exige dissecção demorada, e tempo é justamente o que falta. O antibiótico é de amplo espectro com cobertura para anaeróbios, administrado antes do procedimento e mantido por até 24 horas; prolongar não mostrou benefício, e a decisão de continuar depende de infecção ativa demonstrada.

Feita a colostomia, o fechamento tem regra própria e um dado brasileiro. Nos 35 pacientes do estudo do Hospital João XXIII, o trânsito só foi reconstruído depois que um estudo radiológico contrastado confirmou o fechamento da lesão retal — quem teve escape de contraste não foi operado e repetiu o exame. A taxa global de complicações do fechamento foi de 25,7%, com infecção de ferida operatória como a mais frequente, em 17,1%, e não houve mortes. Comparando fechamento precoce, no 10º dia, com fechamento tardio, em média 66,3 dias, as complicações foram de 35,7% contra 19,1%, sem significância estatística. É aqui que o leitor de prova precisa ler o número e não a conclusão: essas taxas correspondem a 5 complicações em 14 pacientes e a 4 em 21 — juntas, as 9 que dão os 25,7% globais —, e o intervalo de confiança de 95% para uma diferença de cerca de 17 pontos percentuais calculada sobre esses números vai de 13,5 pontos a favor do fechamento precoce a 46,9 pontos contra ele. Seriam necessários cerca de 112 pacientes por grupo para detectar uma diferença desse tamanho com 80% de poder. O estudo mostra que o fechamento precoce é exequível e encurta o tempo de estomia de 66 para 10 dias; ele não demonstra equivalência de morbidade.

Corpo estranho retal: a radiografia vem antes do dedo

O corpo estranho anorretal é visto com regularidade nos hospitais grandes e é sistematicamente subnotificado. A causa mais comum, de longe, é a estimulação erótica anal, seguida de agressão, eventos acidentais ou iatrogênicos, ingestão de ossos de animais e outros objetos, doenças psiquiátricas, tráfico de drogas, automanejo de impactação fecal em idosos e massagem prostática. A predominância masculina é enorme, com razão entre homens e mulheres descrita em até 37 para 1, e a maioria dos pacientes está na casa dos trinta anos. Em criança é raro, e a raridade é o dado clínico: nessa faixa costuma ser resultado de agressão ou de maus-tratos, e exige investigação cuidadosa e completa.

A apresentação atrasa por vergonha, e o atraso é parte do problema. Em até 20% dos casos o paciente não menciona o corpo estranho como queixa principal — chega com dor retal ou abdominal, constipação, sangue vivo pelo reto ou incontinência, e cabe a quem atende suspeitar. O exame físico procura primeiro peritonite, taquicardia, febre e hipotensão, que são os sinais que mudam tudo. E existe uma inversão de ordem que é a marca registrada do tema: o toque retal é parte crucial do exame, informa a posição do objeto e a extensão da lesão local, mas deve ser feito com cuidado e, de preferência, depois da radiografia de abdome — para evitar que um objeto cortante fira o examinador.

A imagem tem endereço e grau. Radiografia simples do tórax, do abdome e da pelve em duas incidências, lateral e anteroposterior, é recomendação forte com evidência de qualidade moderada: identifica posição, forma, tamanho, número, orientação e eventual pneumoperitônio, e ajuda a prever quem vai falhar na extração transanal, porque separa objeto alto de objeto baixo. Não ver o objeto na radiografia não exclui nada, porque muitos materiais têm baixa radiopacidade. Havendo suspeita de perfuração no paciente estável, a tomografia com contraste é recomendação forte com evidência de qualidade moderada. E no paciente instável a orientação é não atrasar o tratamento cirúrgico para fazer imagem. Exames laboratoriais de rotina não são indicados quando não há sinal de perfuração; havendo, pedem-se hemograma, creatinina e marcadores inflamatórios. Toxicologia sérica é obrigatória quando há uso ou ocultação de drogas ilícitas.

A retirada segue uma escada. Objeto baixo, sem sinal de perfuração, começa por tentativa de extração à beira do leito, e não há recomendação de superioridade de uma técnica transanal sobre outra. Falhando, entram bloqueio do nervo pudendo, raquianestesia, sedação consciente ou anestesia geral, porque o relaxamento do esfíncter aumenta a chance de sucesso — e vale repetir o exame sob anestesia antes de partir para a cirurgia. Objeto alto, acima da junção retossigmoide, começa por tentativa endoscópica. A extração transanal é bem-sucedida em 60% a 75% dos casos, e o único fator estatisticamente associado à falha é a migração do objeto para o sigmoide, que multiplica por 2,25 o risco de precisar de operação. Falhando tudo, a cirurgia é em escada também: começa por laparoscopia, com ordenha do objeto em direção distal para permitir a retirada transanal, e colotomia só quando a ordenha e a extração transanal falharem.

Três travas fecham o assunto. A primeira é a única recomendação forte contra alguma coisa em todo o bloco: no paciente com instabilidade hemodinâmica ou perfuração, não se tenta extração transanal — vai para laparotomia de urgência e controle de danos. A segunda é a endoscopia depois da retirada, proctoscopia ou retossigmoidoscopia flexível, para avaliar a parede intestinal, procurar objeto supranumerário e localizar fragmentos do que foi retirado; a recomendação é fraca, mas o argumento é bom, porque há relato de taxa significativa de perfuração pós-extração e o exame endoscópico é relativamente seguro. A terceira é o antibiótico: contra o uso rotineiro no paciente sem sinal de infecção ou perfuração, e a favor do amplo espectro quando há perfuração ou instabilidade.

O paciente que oculta drogas — o transportador com pacotes no reto — é uma categoria à parte, e a regra é não fazer. Qualquer manobra capaz de romper o invólucro está contraindicada, inclusive a retirada endoscópica, porque a ruptura entrega ao paciente uma overdose potencialmente fatal. Quando pacotes são detectados na região anorretal, é preciso examinar todo o trato gastrointestinal, porque muitos foram engolidos e não introduzidos por via retrógrada.

Quando a causa é violência, existe um segundo relógio

A diretriz internacional é explícita ao dizer que todos os achados do exame físico devem ser registrados com precisão — aspecto externo da região perianal, presença de escoriações ou equimoses e estado do esfíncter anal — porque são necessários para investigar uma alegação de violência sexual. Esse é o ponto em que o tema deixa de ser só cirúrgico. No Brasil, a Lei nº 12.845/2013 obriga todos os hospitais da rede SUS ao atendimento imediato, e o § 2º do seu art. 3º põe a regra que atinge diretamente o cirurgião: no tratamento das lesões, cabe ao médico preservar materiais que possam ser coletados no exame médico-legal. Desbridar e lavar um períneo com pressa resolve a ferida e apaga o vestígio.

A mesma lei lista o que o atendimento imediato compreende: diagnóstico e tratamento das lesões físicas no aparelho genital e nas demais áreas afetadas; amparo médico, psicológico e social imediatos; facilitação do registro da ocorrência e encaminhamento ao órgão de medicina legal e às delegacias especializadas; profilaxia da gravidez; profilaxia das infecções sexualmente transmissíveis; coleta de material para exame de HIV com acompanhamento posterior; e informação à vítima sobre seus direitos e sobre os serviços disponíveis. Tudo gratuito. O exame de DNA para identificação do agressor cabe ao órgão de medicina legal, não ao hospital.

Os prazos correm em paralelo à cirurgia e não esperam a alta. A violência sexual é agravo de notificação compulsória imediata, em até 24 horas, na Lista Nacional de Notificação Compulsória — a régua completa da notificação, com o que muda quando a vítima é criança ou adolescente, está no capítulo de maus-tratos na infância da apostila de Emergências Pediátricas. A profilaxia pós-exposição ao HIV precisa começar em até 72 horas da exposição e dura 28 dias, conforme o protocolo nacional vigente; esquema, indicações e exceções estão no capítulo de HIV/aids da apostila de Infectologia. Para o cirurgião que recebe o paciente com lesão anorretal, o que precisa estar automatizado é o gatilho: lesão anorretal sem mecanismo compatível, corpo estranho retal em criança e qualquer relato de violência acionam os três relógios ao mesmo tempo — preservar vestígio, notificar em 24 horas e avaliar profilaxia em 72 horas.

04

Da suspeita à conduta

O tema tem duas sequências, e as duas são cobradas pelo que vem antes, não pelo que vem depois. No trauma, localizar em relação à reflexão peritoneal antecede graduar. No corpo estranho, a imagem antecede o toque. Inverter qualquer uma das duas é o erro que a banca desenha.

  1. 1Comece pelo mecanismo, não pelo exame: ferimento transpélvico, trauma contuso de alta energia com fratura de pelve por compressão anteroposterior, alargamento da sínfise púbica, lesão de bexiga e empalamento obrigam a procurar lesão retal.
  2. 2Faça o toque retal dirigido, procurando sangue, defeito na parede, tônus esfincteriano reduzido, fragmentos ósseos e próstata deslocada. Achado positivo confirma; toque normal não exclui, porque a sensibilidade fica entre 33% e 52%.
  3. 3No estável, peça tomografia com contraste venoso para localizar a lesão em relação à reflexão peritoneal e achar lesões associadas. Contraste retal sem extravasamento não afasta a lesão: a sensibilidade dele é de 12,5%.
  4. 4Complete com exame sob anestesia e retossigmoidoscopia rígida ou flexível. Sangue no reto já fecha o diagnóstico mesmo sem visualizar a laceração — e lembre que a laparoscopia não avalia o reto extraperitoneal.
  5. 5Classifique por localização antes de graduar: intraperitoneal segue a regra do cólon; extraperitoneal decide-se pelo corte de 25% da circunferência entre não destrutiva e destrutiva.
  6. 6No instável, pule a investigação e vá para controle de danos: laparotomia, controle de contaminação por derivação proximal ou reparo primário na lesão não destrutiva, sem dissecção extensa do reto.
  7. 7Não acrescente dreno pré-sacral nem lavado retal distal de rotina, e mantenha o antibiótico de amplo espectro com cobertura para anaeróbios por até 24 horas.
  8. 8No corpo estranho, inverta a ordem habitual: radiografia em duas incidências antes do toque, extração à beira do leito no objeto baixo, endoscopia no alto, endoscopia de novo depois de retirado, e nenhuma tentativa transanal se houver perfuração ou instabilidade.
  9. 9Havendo qualquer suspeita de violência — e sempre que o paciente for criança —, preserve material coletável no exame médico-legal, registre por escrito o aspecto perianal e o estado do esfíncter, notifique em até 24 horas e avalie profilaxia pós-exposição dentro de 72 horas.
até 25%

Intraperitoneal — vale a regra do cólon

A lesão está acima da linha oblíqua, na porção coberta pelo peritônio. O reto aqui se comporta como cólon: lesão não destrutiva é desbridada até tecido sadio e reparada primariamente, sem necessidade de derivação proximal. A parede anterior é intraperitoneal por mais tempo que a posterior, e é por isso que a mesma altura pode dar dois diagnósticos diferentes.

até 25%

Extraperitoneal não destrutiva — menos de 25% da circunferência

Mesmo tamanho de lesão do card anterior, do outro lado da linha. Aqui cabe reparo primário quando o acesso permite — inclusive por via transanal — ou manejo conservador com vigilância clínica seriada do períneo e dos orifícios traumáticos. A derivação proximal é recomendada pela diretriz da EAST, mas de forma condicional, e é justamente o ponto em que as fontes discordam.

mais de 25%

Extraperitoneal destrutiva — mais de 25% da circunferência

Passado o corte de 25% da circunferência, a lesão extraperitoneal é chamada destrutiva e a recomendação é colostomia — procedimento rápido e efetivo para controlar a contaminação em uma pelve estreita, onde o reparo consome tempo que o paciente instável não tem. Perda tecidual adjacente grave conta como destrutiva mesmo com circunferência menor.

25%50%

25% e 50% não são a mesma régua

O corte de 25% separa lesão destrutiva de não destrutiva e decide colostomia. O corte de 50% separa o grau II do grau III na escala AAST e não decide nada sozinho. Uma laceração de 30% da circunferência é, ao mesmo tempo, grau II e destrutiva — quem responde pela escala quando a pergunta é de conduta troca colostomia por reparo.

SituaçãoO que levanta a suspeitaO que confirmaConduta cirúrgicaO que não fazer
Lesão retal intraperitonealFerimento transpélvico, peritonite, ar livre na cavidadeTomografia com contraste venoso e inspeção na laparotomiaMesma regra do cólon: desbridar e reparar se não destrutiva; ressecar se destrutivaTratar como entidade separada do trauma de cólon
Lesão retal extraperitoneal não destrutiva (menos de 25% da circunferência)Trajeto transpélvico, fratura de pelve por compressão anteroposterior, lesão de bexigaExame sob anestesia com retossigmoidoscopia rígida ou flexívelReparo primário quando acessível, inclusive por via transanal, ou manejo conservador; derivação proximal com recomendação condicionalDar por excluída a lesão porque a laparoscopia ou a laparotomia não a viu
Lesão retal extraperitoneal destrutiva (mais de 25% da circunferência)Alta energia, perda tecidual perineal, empalamentoRetossigmoidoscopia mais avaliação da circunferência acometidaColostomia para controle da contaminaçãoInsistir em reparo primário em pelve estreita e paciente instável
Instabilidade hemodinâmica com suspeita de lesão retalPressão sistólica baixa, resposta transitória a volumeNão se busca confirmação antes: a exploração é a prioridadeControle de danos: ressuscitação, laparotomia, controle de contaminação por derivação ou reparoDissecção e mobilização extensas do reto na primeira laparotomia
Corpo estranho retal sem sinal de perfuraçãoDor retal ou abdominal, constipação, sangue vivo; em até 20% o objeto não é a queixa referidaRadiografia em duas incidências do tórax, do abdome e da pelveEscada: extração à beira do leito no objeto baixo, endoscópica no alto, anestesia antes de desistir, laparoscopia com ordenha antes da colotomiaAntibiótico de rotina, e toque retal antes da radiografia
Corpo estranho retal com perfuração ou instabilidadePeritonite, pneumoperitônio, febre, taquicardia, hipotensãoTomografia com contraste se estável; nenhuma imagem se instávelLaparotomia de urgência com princípios de controle de danos e antibiótico de amplo espectroQualquer tentativa de extração transanal — é a única proibição forte do tema

Escala AAST de lesão do reto (a de 1990, que a atualização de 2020 não alcançou)

GrauTipo de lesãoDescrição
IHematoma / laceraçãoContusão ou hematoma sem desvascularização; ou laceração de espessura parcial
IILaceraçãoLaceração de menos de 50% da circunferência
IIILaceraçãoLaceração de 50% ou mais da circunferência
IVLaceraçãoLaceração de espessura total com extensão ao períneo
VVascularSegmento desvascularizado
Regra de ajusteAvança-se um grau quando há lesões múltiplas, até o grau III

Corpo estranho anorretal: a escada e a força de cada recomendação (WSES-AAST, 2021)

SituaçãoRecomendaçãoForça e qualidade da evidência
Suspeita de corpo estranho retidoRadiografia simples em duas incidências — lateral e anteroposterior — do tórax, do abdome e da pelveForte, evidência de qualidade moderada (1B)
Estável, com suspeita de perfuraçãoTomografia de abdome com contrasteForte, evidência de qualidade moderada (1B)
InstávelNão atrasar o tratamento cirúrgico para fazer imagemFraca, evidência de baixa qualidade (2C)
Objeto baixo, sem sinal de perfuraçãoTentativa de extração à beira do leito como primeira linhaFraca, evidência de baixa qualidade (2C)
Objeto alto, acima da junção retossigmoideTentativa de extração endoscópica como primeira linhaFraca, evidência de baixa qualidade (2C)
Falha da extração à beira do leitoBloqueio do nervo pudendo, raquianestesia, sedação consciente ou anestesia geralFraca, evidência de baixa qualidade (2C)
Depois de retirado o objetoProctoscopia ou retossigmoidoscopia flexível para avaliar a paredeFraca, evidência de baixa qualidade (2C)
Suspeita de ocultação de drogasContra qualquer manobra capaz de romper o invólucro, inclusive a retirada endoscópicaFraca, evidência de baixa qualidade (2C)
Sem sinal de infecção ou perfuraçãoContra o uso rotineiro de antimicrobianoFraca, evidência de baixa qualidade (2C)
Instabilidade hemodinâmica ou perfuraçãoContra a extração transanalForte, evidência de baixa qualidade (1C)

A escala AAST do reto é a de 1990. A atualização de 2020 da AAST cobriu intestino e mesentério, incluindo o cólon, e não alcançou o reto. Vale ainda a nota de rodapé original: avança-se um grau quando há lesões múltiplas, até o grau III.

Duas versões da mesma tabela AAST circulam. A tradução em espanhol publicada em consenso latino-americano traz o grau III como mais de 50% da circunferência — o que deixa exatamente 50% sem categoria — e o grau IV com extensão ao peritônio. A tabela em inglês reproduzida na revisão de 2024 traz 50% ou mais e extensão ao períneo. Vale a segunda: grau IV é a laceração que desce para o períneo, não a que sobe para a cavidade.

A série histórica de mortalidade militar aparece com números diferentes na tabela e no texto do mesmo artigo: Primeira Guerra Mundial, 60% a 90% na tabela e 60% a 75% no texto; Segunda Guerra, 30% a 40% na tabela e 53% a 59% caindo para 22% a 35% no texto; conflitos da Iugoslávia, 8% na tabela e cerca de 5% no texto. Fique com a direção da série — queda de praticamente 100% para um dígito — e não com os valores intermediários.

O mesmo texto que publica sensibilidade de 33% a 52% para o toque retal informa taxa de falsos negativos de 63% a 67%. As duas afirmações só fecham no extremo inferior: o complementar de uma sensibilidade de 33% a 52% é 48% a 67%. Use a faixa de sensibilidade, que é a informação primária.

A proporção de trauma penetrante muda conforme o empalamento seja ou não contado como penetrante. A série brasileira separa os dois e publica 60% de penetrante com 28,6% de empalamento — somados, 88,6%, dentro da faixa de 80% a 95% das séries que não separam.

No estudo brasileiro de fechamento de colostomia, dois pacientes com complicação de linha de sutura são glosados como 2,7%, mas 2 de 35 são 5,7%. E a introdução cita morbidez de 0% a 50% na literatura enquanto a discussão do mesmo artigo cita 4,9% a 50%. Nenhum dos dois defeitos atinge os resultados principais, que fecham: 9 de 35 são os 25,7% de complicações globais, e 5 de 14 mais 4 de 21 são exatamente esses 9.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Qual porção do reto é a mais frequentemente lesada

A extraperitoneal isolada é a mais frequente, com quase 53%

Na avaliação do National Trauma Data Bank, as lesões extraperitoneais isoladas foram as mais frequentemente encontradas, respondendo por quase 53% de todas as lesões retais; os 47% restantes reúnem as intraperitoneais isoladas e as combinações de intra e extraperitoneal. A consequência prática é direta: a maioria das lesões está na porção que a laparotomia e a laparoscopia diagnóstica não avaliam, e é isso que sustenta a exigência de exame sob anestesia com retossigmoidoscopia.

Clark NM, Maine RG, Clinics in Colon and Rectal Surgery, 2024, citando análise do National Trauma Data Bank

O segmento intraperitoneal é o mais comumente afetado

O consenso latino-americano abre a introdução afirmando que, apesar da baixa prevalência do trauma retal nas duas porções, o segmento intraperitoneal é o mais comumente afetado. O mesmo documento registra que 80% das lesões retais são secundárias a trauma penetrante e que as lesões extraperitoneais têm alto risco de passar despercebidas pela anatomia — ou seja, sustenta o predomínio intraperitoneal e, ao mesmo tempo, a recomendação de procurar ativamente a extraperitoneal.

Saldarriaga LG et al., Colombia Médica, 2021 (consenso do grupo de Trauma e Emergências de Cali, com a Sociedad Panamericana de Trauma)

Na prova

A causa da diferença é de base de dados: um lado fala de registro nacional de trauma civil e o outro, de consenso construído sobre casuística de centro de trauma latino-americano com predomínio de arma de fogo. Identifique o recorte pelo que o enunciado quer que você conclua: se a pergunta é sobre risco de lesão passar despercebida, sobre limitação da laparoscopia ou sobre necessidade de retossigmoidoscopia, a questão trabalha com o predomínio extraperitoneal — e essa é a leitura que sustenta a conduta. Se o enunciado apenas afirma o predomínio intraperitoneal como dado de abertura, está reproduzindo o consenso latino-americano e o ponto da questão está em outro lugar. Não vale discutir a premissa: identifique-a e responda pelo resto do enunciado.

Qual porcentagem da circunferência define lesão destrutiva

25% da circunferência, para a lesão extraperitoneal

O consenso adota a proposta de classificar as lesões extraperitoneais em destrutivas e não destrutivas tomando 25% da circunferência como ponto de corte. Comprometendo mais de 25%, recomenda-se colostomia; comprometendo menos, a lesão pode ser reparada ou manejada de forma conservadora, com seguimento clínico seriado dos tecidos moles do períneo e dos orifícios traumáticos, ou ainda por sutura transanal quando há experiência e instrumental.

Saldarriaga LG et al., Colombia Médica, 2021, adotando a classificação de Gonzalez RP et al., Journal of Trauma, 2006

Não destrutiva abaixo de 25%, destrutiva acima de 50%

A revisão descreve a lesão não destrutiva como tipicamente definida por menos de 25% da circunferência do reto, que deve ser desbridada até tecido sadio e pode ser reparada primariamente sem colostomia, e a lesão destrutiva como a que envolve mais de 50% da circunferência luminal ou vem com perda tecidual adjacente grave. As duas definições, postas lado a lado no mesmo parágrafo, deixam a faixa entre 25% e 50% sem categoria explícita.

Clark NM, Maine RG, Clinics in Colon and Rectal Surgery, 2024

Na prova

A causa é de linhagem de estudo: o corte de 25% nasceu de série civil dedicada à lesão extraperitoneal penetrante não destrutiva, e o corte de 50% vem da tradição do trauma de cólon, em que destrutivo é mais de metade da circunferência ou desvascularização. Identifique o recorte pela localização citada no enunciado: quando o caso é de reto extraperitoneal e a alternativa em disputa é colostomia contra reparo, a régua é 25%. Quando o caso é intraperitoneal, ou quando o enunciado fala em ressecção e anastomose, a régua é a do cólon. E desconfie do enunciado que cita 50% junto da palavra destrutiva sem dizer a localização: nesse caso a resposta costuma estar na escala AAST, e não na decisão cirúrgica.

Derivação proximal na lesão extraperitoneal penetrante não destrutiva

Derivar, com recomendação condicional

A diretriz da EAST recomenda condicionalmente a derivação proximal no manejo da lesão retal extraperitoneal penetrante não destrutiva. A base é a análise agregada dos dados disponíveis, que sugere complicações infecciosas mais frequentes nos pacientes não derivados. As outras duas recomendações do mesmo documento vão na direção contrária ao dogma: evitar dreno pré-sacral de rotina e evitar lavado retal distal.

Bosarge PL et al., Eastern Association for the Surgery of Trauma, Journal of Trauma and Acute Care Surgery, 2016

Reparar por via transanal quando acessível, e reservar a derivação

A revisão registra que pacientes com lesões extraperitoneais acessíveis para reparo transanal podem ter menor morbidade e menor tempo de internação quando comparados aos submetidos a reparo primário com derivação, e conclui que a via transanal pode ser considerada nas lesões não destrutivas quando tecnicamente viável, ficando a derivação reservada às lesões mais graves ou inacessíveis. Registra também que a colostomia laparoscópica é bem tolerada quando as demais lesões não obrigam a laparotomia.

Clark NM, Maine RG, Clinics in Colon and Rectal Surgery, 2024

Na prova

A causa é de horizonte de desfecho: a diretriz olha para complicação infecciosa em dados agregados e a revisão olha para morbidade global e tempo de internação em pacientes selecionados para reparo transanal. Identifique o recorte pela menção nominal à sociedade e pelo acesso descrito no enunciado. Enunciado que cita a EAST, ou que descreve lesão inacessível pela via transanal, trabalha com a derivação. Enunciado que descreve lesão baixa, acessível, em paciente estável, e que oferece reparo transanal entre as alternativas, trabalha com a corrente que poupa a estomia. Quando nenhuma sociedade é citada e o paciente está instável, a discussão nem chega aqui: é controle de danos.

06

Caso resolvido

Ronei, 24 anos, chega à emergência 40 minutos após ferimento por projétil de arma de fogo com orifício de entrada na nádega esquerda e saída na região inguinal direita. Pressão arterial de 96 x 62 mmHg, frequência cardíaca de 118 bpm, respondendo à reposição volêmica. A radiografia de pelve mostra fratura do ramo púbico e alargamento da sínfise. O toque retal, feito na sala de emergência, mostra sangue na luva, sem defeito palpável. Levado à laparotomia, o cirurgião encontra hematoma pélvico não expansivo, duas perfurações de intestino delgado que são rafiadas e nenhuma lesão do reto intraperitoneal. Conclui que não há lesão retal, deixa um dreno pré-sacral 'por segurança', irriga o reto distal com soro pela via transanal e fecha. No terceiro dia de pós-operatório o paciente apresenta febre de 39 °C, dor perineal intensa e crepitação na fossa isquiorretal esquerda.
achado que já estava dado
Trajeto transpélvico, fratura de pelve com alargamento da sínfise púbica e sangue no toque retal. Cada um desses três, isolado, já obriga a procurar lesão retal; os três juntos tornam a lesão a hipótese principal. Sangue no toque é achado positivo de um exame de baixa sensibilidade — vale muito quando aparece, e foi o que apareceu.
erro cometido
Concluir pela ausência de lesão retal a partir da laparotomia. O reto extraperitoneal não é avaliável de dentro da cavidade, e é justamente a porção mais frequentemente lesada, com quase 53% das lesões retais no National Trauma Data Bank. Faltou o exame que fecha o diagnóstico: exame sob anestesia com retossigmoidoscopia rígida ou flexível, que poderia ter sido feito na mesma anestesia.
segundo erro, por excesso
Dreno pré-sacral e lavado retal distal. São as duas letras das quatro D que a diretriz da EAST recomenda condicionalmente evitar de rotina, e o dreno tem contra si o único estudo randomizado publicado sobre o assunto, que encontrou mais complicações infecciosas nos pacientes drenados. Aqui não houve nem o benefício suposto nem a indicação, porque a lesão sequer havia sido diagnosticada.
conduta agora
Febre, dor perineal e crepitação na fossa isquiorretal indicam sepse pélvica por lesão extraperitoneal não tratada. O caminho é reexploração com desbridamento do espaço isquiorretal, avaliação endoscópica do reto para caracterizar a lesão, e derivação proximal para controle da contaminação, além de antibiótico de amplo espectro com cobertura para anaeróbios. Fechada a colostomia adiante, a reconstrução do trânsito só se faz depois de estudo radiológico contrastado confirmando a cicatrização da lesão retal.
o que deveria ter sido feito na primeira ida ao centro cirúrgico
Na mesma anestesia da laparotomia, retossigmoidoscopia rígida ou flexível. Encontrada lesão extraperitoneal, classificá-la pelo comprometimento da circunferência: acima de 25%, colostomia; abaixo, reparo primário quando acessível ou manejo conservador, com derivação proximal discutida caso a caso — a diretriz da EAST a recomenda, mas de forma condicional. Sem dreno pré-sacral e sem lavado distal.
07

Agora feche você

Anderson, 38 anos, procura o pronto-socorro às 3 h da manhã com dor abdominal em cólica e dor retal há cerca de 10 horas. Relata, depois de conversa reservada, que introduziu um frasco de vidro no reto e não conseguiu retirá-lo. Está corado, afebril, com frequência cardíaca de 92 bpm, pressão arterial de 132 x 80 mmHg. O abdome é doloroso à palpação no hipogástrio, sem descompressão dolorosa, sem defesa e com ruídos hidroaéreos presentes. Não há sangramento anal ativo à inspeção, e a região perianal não tem escoriações nem equimoses. Nega uso de drogas.
primeiro exame a pedir
Radiografia simples do tórax, do abdome e da pelve em duas incidências, lateral e anteroposterior — recomendação forte, evidência de qualidade moderada. Ela dá posição, forma, tamanho, número e orientação do objeto e procura pneumoperitônio, e é o que separa objeto baixo de objeto alto, que é a bifurcação da conduta.
o que fazer com o toque retal
Fazer, mas depois da radiografia e com cuidado. O objeto é de vidro; a diretriz orienta o toque preferencialmente após a radiografia de abdome, justamente para evitar lesão acidental do examinador por objeto cortante. O toque informa a altura do objeto e a extensão da lesão local.
tentativa de retirada
depois de retirado
antibiótico
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Onde a banca derruba

  1. 1Fazer o toque retal antes da radiografia no paciente com corpo estranho Parece bom exame físico e é a inversão que a diretriz corrige por escrito: o toque retal é crucial, mas deve ser feito com cuidado e, de preferência, depois da radiografia de abdome, para evitar lesão acidental do examinador por objeto cortante. A radiografia em duas incidências — lateral e anteroposterior, do tórax, do abdome e da pelve — é recomendação forte e informa forma, tamanho, número, orientação e pneumoperitônio antes que qualquer dedo entre. Trocar a ordem não muda o diagnóstico; muda quem sai machucado.
  2. 2Achar que a laparotomia ou a laparoscopia exclui lesão do reto É o erro anatômico mais caro do tema. A laparoscopia diagnóstica avalia bem o conteúdo intra-abdominal e não avalia o reto extraperitoneal — e, na análise do National Trauma Data Bank, a lesão extraperitoneal isolada respondeu por quase 53% de todas as lesões retais. Ou seja: a maioria das lesões está exatamente onde o abdome aberto não mostra. Quem tem mecanismo compatível e abdome negativo continua devendo exame sob anestesia com retossigmoidoscopia rígida ou flexível.
  3. 3Exigir enxergar a laceração para aceitar o diagnóstico de lesão retal Sangue visto à retossigmoidoscopia rígida tem sensibilidade descrita de até 90% para lesão retal, e é achado suficiente. Na série brasileira do Hospital João XXIII, em 8 dos 14 pacientes do grupo de fechamento precoce a lesão não foi visualizada nem no exame proctológico nem no ato cirúrgico: o diagnóstico foi estabelecido pela presença de sangue no reto, e esses pacientes foram tratados como portadores de lesão. Esperar o defeito aparecer, num intestino não preparado e com campo sanguinolento, é como decidir não diagnosticar.
  4. 4Prescrever antibiótico de rotina no corpo estranho retal sem perfuração Atrai porque parece prudente e porque o reto é sujo. A diretriz da WSES com a AAST sugere contra o uso rotineiro de antimicrobiano no corpo estranho anorretal, e justifica pela ausência de dados somada ao aumento global da resistência. O antibiótico de amplo espectro entra com recomendação forte apenas quando há instabilidade hemodinâmica ou perfuração. A regra é o inverso da do trauma retal, em que o amplo espectro com cobertura para anaeróbios é dado antes do procedimento e mantido por até 24 horas — e o que separa as duas situações é a contaminação, não o órgão.
  5. 5Fazer drenagem pré-sacral e lavado retal distal porque é o clássico das quatro D As quatro D — desbridamento, derivação, drenagem pré-sacral e lavado distal — vieram da experiência militar e são a resposta que a memória entrega primeiro. A diretriz da EAST, de 2016, recomenda condicionalmente evitar o dreno pré-sacral de rotina e o lavado retal distal na lesão extraperitoneal penetrante não destrutiva. O argumento contra o dreno não é só ausência de benefício: o único estudo randomizado publicado sobre drenagem pré-sacral encontrou risco maior de complicações infecciosas nos pacientes drenados. Das quatro letras, a que sobreviveu com recomendação própria é a derivação — e mesmo ela é condicional.
  6. 6Tentar extração transanal no paciente instável ou com sinais de perfuração É a única coisa que a diretriz do corpo estranho proíbe com recomendação forte. Havendo instabilidade hemodinâmica ou perfuração, a conduta é laparotomia de urgência com princípios de controle de danos, não manobra transanal. Peritonite ou pneumoperitônio já bastam para contraindicar a extração à beira do leito e mandar o paciente para exploração cirúrgica urgente, depois de ressuscitação com fluidos e antibiótico venoso. A tentativa nessas condições atrasa o controle da contaminação e pode ampliar a perfuração.
  7. 7Tentar retirar o pacote do transportador de drogas por endoscopia Parece a solução elegante e é a que mata. Havendo suspeita de ocultação de drogas, qualquer manobra capaz de romper o invólucro está contraindicada, e a retirada endoscópica está nomeada entre elas: rompido o pacote, o paciente recebe uma overdose. Some-se a isso que pacotes detectados na região anorretal obrigam a examinar todo o trato gastrointestinal, porque muitos são engolidos e não introduzidos por via retrógrada, e que a toxicologia sérica é obrigatória nesses casos.
  8. 8Repetir a radiografia simples depois da extração e se tranquilizar com a ausência de pneumoperitônio Alguns autores defendem a radiografia repetida para garantir que não houve perfuração durante a retirada, mas a própria diretriz registra que, dada a baixa sensibilidade da radiografia simples para pneumoperitônio, esse uso rotineiro pode ser deletério — pelo falso negativo que tranquiliza. O exame que a diretriz sugere depois da extração é endoscópico: proctoscopia ou retossigmoidoscopia flexível, para avaliar a parede, procurar objeto supranumerário e localizar fragmentos do que foi retirado.
  9. 9Desbridar e lavar o períneo sem preservar vestígio, e tratar a notificação como papel da alta O § 2º do art. 3º da Lei nº 12.845/2013 é explícito: no tratamento das lesões, cabe ao médico preservar materiais que possam ser coletados no exame médico-legal. A diretriz internacional pede o mesmo pelo lado clínico, ao exigir registro preciso do aspecto perianal, de escoriações, de equimoses e do estado do esfíncter, porque são necessários para investigar alegação de violência sexual. E os prazos não esperam a alta: violência sexual é notificação compulsória imediata, em até 24 horas, e a profilaxia pós-exposição ao HIV tem janela de 72 horas. Corpo estranho retal em criança entra automaticamente nesse trilho, porque nessa faixa etária costuma resultar de agressão ou maus-tratos.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Correta: Diante de corpo estranho retal, o primeiro passo após o exame físico é a radiografia simples de abdome (para definir tamanho, forma, número e altura do objeto) associada à radiografia de tórax/abdome em ortostase, que detecta pneumoperitônio e sinaliza perfuração — orientando remoção transanal versus abordagem cirúrgica. Colonoscopia diagnóstica precoce não é o passo inicial e a insuflação de ar pode agravar uma perfuração ainda não identificada. A RM não tem papel na avaliação de urgência e retarda a conduta. A USG endoanal avalia esfíncteres/planos, não a posição de um corpo estranho alto nem pneumoperitônio. Contraste baritado é contraindicado pelo risco de peritonite química se houver perfuração.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

Sorteando as questões…

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Plano de revisão

em 7 dias

Desenhe o reto de perfil e marque a reflexão peritoneal: dois terços superiores à frente, terço superior atrás. Diga em voz alta o que muda de cada lado — acima, trata-se como cólon; abaixo, discute-se derivar. Depois recite a escala AAST do reto do grau I ao V, com os dois números que importam (menos de 50% é grau II, 50% ou mais é grau III) e com o grau IV estendendo-se ao períneo, não ao peritônio. Termine dizendo as quatro D e qual delas sobreviveu.

em 30 dias

Reconstrua sem consultar a sequência do corpo estranho retal: radiografia em duas incidências antes do toque, tentativa transanal à beira do leito no objeto baixo, endoscopia no objeto alto, anestesia antes de desistir, escada cirúrgica começando por laparoscopia com ordenha, endoscopia depois da retirada, antibiótico só com perfuração ou instabilidade, e a proibição forte de extração transanal no instável ou perfurado. Depois refaça a régua brasileira: preservar material coletável no exame médico-legal durante o tratamento da lesão, notificação imediata em até 24 horas na violência sexual, e profilaxia pós-exposição iniciada em até 72 horas por 28 dias.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Homem de 29 anos é trazido ao pronto-socorro após queda de altura sobre uma cerca metálica, com ferimento perineal. Está consciente, com pressão arterial de 104 x 68 mmHg e frequência cardíaca de 106 bpm. Conduza o atendimento: identifique os elementos do mecanismo que obrigam a procurar lesão retal, decida quais exames pedir e em que ordem, diga o que a laparoscopia não vai responder, e explique ao paciente por que ele pode precisar de uma colostomia temporária e o que define quando ela poderá ser fechada. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Corpo estranho retal e trauma anorretal — Preparatório para provas | OsceLabs