Ginecologia e ObstetríciaContracepção, ISTs, climatério e uroginecologia

Corrimento vaginal

A prova entrega uma mulher com corrimento e cobra três decisões encadeadas: o corrimento vem da vagina ou do colo, qual das três causas é, e o que fazer com a parceria sexual — que é diferente em cada uma. O eixo do raciocínio é o pH, e o esquema de tratamento do SUS vem em comprimidos de 250 mg.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Mulher de 28 anos queixa-se de corrimento vaginal branco, grumoso, em placas aderidas à parede vaginal, acompanhado de prurido vulvar intenso e ardência. Ao exame especular, observa-se mucosa vaginal hiperemiada com secreção em 'leite talhado'. Qual é o agente etiológico mais provável? Assinale a alternativa correta.

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Como esse tema cai

Corrimento vaginal é a queixa mais frequente das mulheres em idade reprodutiva nos serviços que atendem infecções sexualmente transmissíveis, e entre gestantes disputa o primeiro lugar da consulta com a verruga anogenital. É também um tema soberanamente brasileiro: existe protocolo clínico do Ministério da Saúde, existem fluxogramas oficiais, os medicamentos saem de graça na farmácia do SUS e o sistema trabalha por abordagem sindrômica. A banca não quer saber sua preferência terapêutica — quer saber se você sabe percorrer o fluxograma com o que a unidade tem na mão naquele momento.

Este capítulo trata do corrimento que vem da vagina: vaginose bacteriana, candidíase vulvovaginal e tricomoníase, mais o suficiente das causas não infecciosas para que elas não sejam confundidas com as três. O corrimento que vem do colo do útero é outra doença e tem capítulo próprio: cervicite por gonococo e clamídia, com sua abordagem sindrômica específica. Doença inflamatória pélvica e úlceras genitais também são de lá. A separação não é organizacional — é exatamente o primeiro nó de decisão do fluxograma do Ministério da Saúde, que manda olhar o colo antes de qualquer outra coisa.

Três números organizam o capítulo inteiro. O pH vaginal, que separa candidíase de tudo o mais. O corte de três dos quatro critérios de Amsel, que fecha vaginose. E a regra da parceria sexual, que é diferente em cada uma das três — e é a pegadinha clássica, porque a lógica não é de sintoma, e sim de mecanismo: duas dessas infecções nascem dentro da própria mulher e uma vem de fora.

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O que muda decisão

Vaginal ou cervical: a bifurcação que abre o fluxograma

A primeira pergunta do fluxograma de corrimento vaginal do Ministério da Saúde não é sobre a cor do corrimento nem sobre o cheiro. É sobre o colo do útero: há dor à mobilização do colo, material mucopurulento saindo do orifício externo, edema cervical ou sangramento ao toque da espátula ou do swab? Qualquer um desses sinais tira a paciente da rota das vulvovaginites e a coloca na rota da cervicite — investigar cervicite e doença inflamatória pélvica, e tratar clamídia e gonorreia.

A razão anatômica é simples e vale decorar. Vulvovaginite e vaginose são afecções do epitélio estratificado da vulva e da vagina; a secreção se forma nas paredes vaginais. Cervicite é inflamação da mucosa endocervical, e a secreção sai do canal do colo. Chlamydia trachomatis e Neisseria gonorrhoeae frequentemente não produzem corrimento vaginal nenhum — em até 93% dos casos a cervicite é assintomática —, mas quando o espéculo mostra muco-pus cervical, friabilidade do colo ou teste do cotonete positivo, o tratamento para gonorreia e clamídia é indicado ali mesmo.

Só depois de o colo estar liberado é que o fluxograma pergunta se o corrimento se confirma ao exame. Essa ordem é o que impede dois erros simétricos: tratar como vulvovaginite uma cervicite que vai virar doença inflamatória pélvica, e tratar com ceftriaxona e azitromicina uma mulher que tem apenas vaginose bacteriana.

Corte sagital do trato genital inferior feminino, com o canal vaginal e o colo do útero, mostrando separadamente o conteúdo que se forma nas paredes da vagina e o muco que sai do orifício externo do colo.
As duas origens do corrimento. O que se forma nas paredes da vagina é vulvovaginite ou vaginose; o que sai do orifício do colo é cervicite. A primeira pergunta do fluxograma do Ministério da Saúde é exatamente essa, e ela vem antes de qualquer descrição do corrimento.

O conteúdo fisiológico e o pH que o protege

A vagina em equilíbrio é dominada por lactobacilos, que fermentam glicogênio e mantêm o meio ácido. Esse pH ácido é a defesa: é ele que dificulta o crescimento de anaeróbios e é ele que a vaginose bacteriana e a tricomoníase destroem. O conteúdo vaginal fisiológico é claro a leitoso, sem grumos, sem odor desagradável, e varia em quantidade ao longo do ciclo. Não é doença e não se trata.

O fluxograma tem um desfecho explícito para isso. Colo sem sinais de cervicite, corrimento não confirmado ao exame: causa fisiológica. A conduta é orientar e aproveitar a consulta para verificar se o exame preventivo de câncer de colo do útero está em dia. O protocolo chega a instruir o profissional a avaliar a percepção da própria mulher sobre o que ela chama de corrimento — porque parte considerável das consultas é de conteúdo normal interpretado como doença.

Duas consequências práticas. Primeira, prescrever antifúngico ou metronidazol para conteúdo fisiológico não é apenas inútil: destrói a microbiota que está funcionando. Segunda, a queixa de corrimento nem sempre é de corrimento — prurido vulvovaginal sem corrimento aponta para dermatite alérgica ou irritativa por sabonete, perfume ou látex, e para doenças de pele como líquen e psoríase, que não entram em nenhum dos esquemas deste capítulo.

Vaginose bacteriana: um desequilíbrio, não uma infecção transmitida

A vaginose bacteriana é a desordem mais frequente do trato genital inferior em mulheres em idade reprodutiva, gestantes ou não, e a causa mais prevalente de corrimento com odor fétido. O mecanismo é a perda dos lactobacilos e o crescimento de uma flora anaeróbia mista, com Gardnerella vaginalis à frente, seguida de Atopobium vaginae, Mobiluncus spp., Bacteroides spp., Prevotella spp., Mycoplasma hominis, Ureaplasma urealyticum e Streptococcus agalactiae. Note a palavra que falta: transmissão. O protocolo brasileiro classifica vaginose bacteriana e candidíase como infecções endógenas, e reserva a categoria de infecção sexualmente transmissível à tricomoníase, à clamídia e ao gonococo.

O odor tem explicação bioquímica direta, e ela é a chave do exame. Sem lactobacilos, o pH sobe; a Gardnerella produz aminoácidos que os anaeróbios quebram em aminas voláteis, putrescina e cadaverina. Aminas voláteis se soltam em meio alcalino — por isso o cheiro piora depois do coito e depois da menstruação, que alcalinizam o conteúdo vaginal, e por isso ele aparece quando se pinga KOH a 10% na lâmina. O corrimento é homogêneo, fino, acinzentado ou perolado, banha as paredes vaginais e pode ter bolhas, justamente pelas aminas.

O que torna a vaginose mais do que um incômodo é a lista de complicações. Ela aumenta o risco de adquirir infecções sexualmente transmissíveis, incluindo o HIV. Na gravidez, associa-se a ruptura prematura de membranas, corioamnionite, prematuridade e endometrite pós-cesárea. E quando está presente durante procedimentos invasivos — curetagem uterina, biópsia de endométrio, inserção de dispositivo intrauterino — aumenta o risco de doença inflamatória pélvica.

Daí a regra de rastreamento, que a prova adora inverter. Não há indicação de rastrear vaginose bacteriana em mulher assintomática. Mas trata-se a assintomática quando ela está grávida, especialmente com histórico de parto pré-termo, comorbidade ou risco potencial de complicação, e trata-se antes de inserção de DIU, cirurgia ginecológica e exame invasivo do trato genital. E o protocolo é explícito num ponto que costuma ser respondido errado: o tratamento é simultâneo ao procedimento, não havendo razão para suspendê-lo ou adiá-lo.

Amsel e Nugent: como a vaginose se fecha

Havendo microscopia, o diagnóstico de vaginose bacteriana se faz pelos critérios de Amsel, e bastam três dos quatro: corrimento vaginal homogêneo; pH acima de 4,5; presença de clue cells no exame a fresco; e teste de Whiff positivo, que é o odor fétido das aminas quando se acrescenta hidróxido de potássio a 10%. Três de quatro. Exigir os quatro é um erro que rende alternativa errada em prova e paciente sem tratamento na vida real.

Clue cells são células epiteliais recobertas por cocobacilos aderidos, de tal forma que a borda da célula deixa de ser nítida e passa a parecer granulosa. É o achado mais característico, e é o que o fluxograma procura quando a microscopia a fresco está disponível na consulta.

O padrão-ouro laboratorial, porém, não é Amsel — é a coloração de Gram do fluido vaginal, quantificada pelo escore de Nugent. O escore soma a pontuação de lactobacilos, de bacilos do tipo Gardnerella e Bacteroides e de bacilos curvos, e a leitura é fechada: de 0 a 3, negativo para vaginose; de 4 a 6, microbiota alterada, a chamada faixa intermediária; 7 ou mais, vaginose bacteriana. Um enunciado que entrega um escore de Nugent está cobrando essas três faixas, e nada mais.

Vale conhecer o desempenho comparado, porque explica por que o SUS aceita Amsel. Contra o escore de Nugent, os critérios de Amsel têm sensibilidade de 37% a 70% e especificidade de 94% a 99%. Ou seja: Amsel deixa passar vaginose, mas quando dá positivo raramente está errado — perfil adequado a um critério de consultório.

Candidíase vulvovaginal: prurido sem odor, e o pH que não sobe

Candida albicans responde por 80% a 92% dos casos de candidíase vulvovaginal; o restante fica com as espécies não albicans — glabrata, tropicalis, krusei, parapsilosis — e com Saccharomyces cerevisiae. Um dado que muda conduta: durante a vida reprodutiva, de 10% a 20% das mulheres são colonizadas por Candida de forma assintomática, e essa colonização não requer tratamento. Cultura positiva em mulher sem sintoma não é doença.

O quadro clássico é de prurido e ardência intensos, corrimento geralmente grumoso e sem odor, dispareunia de introito vaginal e disúria externa. Ao exame, eritema e fissuras vulvares, corrimento grumoso com placas brancas aderidas à parede vaginal, edema vulvar, escoriações e lesões satélites, às vezes pustulosas pelo ato de coçar. A ausência de odor é discriminante e cai muito: vaginose e tricomoníase cheiram, candidíase não.

O diagnóstico microscópico é a citologia a fresco com soro fisiológico e hidróxido de potássio a 10%, procurando hifas e esporos. E aqui está o número que organiza o capítulo inteiro: a candidíase se associa a pH vaginal normal, abaixo de 4,5. É a única das três que não alcaliniza a vagina, e é por isso que o fluxograma consegue separá-la das outras duas só com uma fita de papel indicador.

Diante de suspeita forte com citologia a fresco negativa, o caminho é a cultura vaginal específica, em meio de Sabouraud, Nickerson ou Microstix-candida. Os fatores predisponentes que valem citar em vinheta são gravidez, obesidade, diabetes descompensado, uso de corticoide, de antibiótico, de contraceptivo oral, de imunossupressor ou quimioterapia e radioterapia, imunodeficiência, infecção pelo HIV, hábitos de higiene e vestuário que aumentem umidade e calor, e contato com talco, perfume, sabonete ou desodorante íntimo.

Complicada e não complicada: a classificação que decide o esquema

A candidíase vulvovaginal se divide em não complicada e complicada, e a divisão não é acadêmica: ela é o que separa um creme por sete dias de um esquema de seis meses. É não complicada quando estão presentes todos os critérios a seguir — sintomas leves ou moderados, frequência esporádica, agente Candida albicans e ausência de comorbidades.

É complicada quando está presente pelo menos um destes: sintomas intensos, frequência recorrente, agente não albicans como glabrata ou krusei, comorbidade como diabetes ou infecção pelo HIV, ou gestação. Note a assimetria lógica — todos os critérios para ser simples, um só critério para ser complicada. Gestação, sozinha, já classifica como complicada.

Cerca de 5% das mulheres não conseguem controlar o processo agudo e evoluem para a forma recorrente, que é o caso complicado mais cobrado. Nos casos recorrentes ou de difícil controle, a instrução do protocolo é investigar as causas sistêmicas predisponentes: diabetes, imunodepressão, incluindo a infecção pelo HIV, e uso de corticoide. Prescrever mais antifúngico sem procurar a causa de fundo é o erro que devolve a paciente ao consultório em quarenta dias.

Tricomoníase: a única das três que é IST

Trichomonas vaginalis é um protozoário flagelado unicelular, e a tricomoníase é a única das três causas deste capítulo que se transmite sexualmente. Tudo o que diferencia sua conduta decorre disso: parceria tratada, oferta de testagem para as outras infecções sexualmente transmissíveis, abstinência sexual durante o tratamento.

O quadro característico é de corrimento vaginal intenso, amarelo-esverdeado, por vezes acinzentado, bolhoso e espumoso, com odor fétido que na maioria dos casos lembra peixe, e prurido eventual. Havendo inflamação intensa, o corrimento aumenta e podem surgir sinusiorragia e dispareunia; edema vulvar e sintomas urinários como disúria completam o quadro. Cerca de 30% dos casos são assintomáticos.

Dois achados de exame são quase patognomônicos em prova. No espéculo, microulcerações dão ao colo o aspecto de morango ou framboesa, o chamado teste de Schiller onçoide ou tigroide. E a transudação inflamatória das paredes vaginais eleva o pH para 6,7 a 7,5 — o pH mais alto das três. Nesse meio alcalino floresce flora anaeróbia, o que estabelece uma vaginose bacteriana associada e explica por que a tricomoníase costuma vir com teste das aminas positivo e com bolhas no corrimento.

O diagnóstico laboratorial mais comum é o exame a fresco: uma gota do conteúdo vaginal com soro fisiológico, e ao microscópio se vê o protozoário flagelado em movimento, com grande número de leucócitos. O pH quase sempre é maior que 5,0. À bacterioscopia por Gram, o parasita aparece Gram-negativo e de morfologia característica. A cultura fica para casos de difícil diagnóstico, em meio de Diamond, Trichosel ou In Pouch TV.

Na mulher, complicações sérias são raras, mas a tricomoníase facilita a transmissão de outros agentes, favorece doença inflamatória pélvica e vaginose bacteriana e, na gestação não tratada, pode evoluir para rotura prematura das membranas. Um detalhe que costuma virar questão: a tricomoníase altera a classe da citologia oncótica. Havendo alteração morfológica celular junto com tricomoníase, trata-se e repete-se a citologia após três meses, para avaliar se a alteração persiste.

O pH é o divisor — e a coinfecção é a exceção que a prova adora

Junte as três e o desenho fica evidente. Candidíase mantém o pH abaixo de 4,5. Vaginose sobe o pH acima de 4,5. Tricomoníase sobe mais ainda, quase sempre acima de 5,0. Por isso o fluxograma consegue tomar decisão útil com uma fita de papel indicador e um frasco de KOH: pH acima de 4,5 e/ou teste das aminas positivo manda tratar vaginose bacteriana e tricomoníase, as duas; pH abaixo de 4,5 e/ou aminas negativo empurra a decisão para o aspecto do corrimento e da vulva.

A técnica da medida importa e é cobrada. A fita de papel indicador fica um minuto encostada na parede vaginal lateral, evitando tocar o colo. O motivo é que o muco cervical é alcalino: fita encostada no colo devolve pH falsamente alto e transforma uma candidíase em vaginose no papel. Para o teste de Whiff, acrescenta-se uma gota de KOH a 10% sobre o conteúdo vaginal colhido em lâmina ou chumaço de gaze; o teste é positivo se aparecer cheiro de peixe podre.

E vem a exceção que o protocolo faz questão de registrar: a mulher pode apresentar mais de uma infecção ao mesmo tempo, e o resultado é um corrimento de aspecto inespecífico. É por isso que, na perna da microscopia, o fluxograma não escolhe um diagnóstico entre três — ele lê o que a lâmina mostra e soma. Clue cells mais Trichomonas na mesma lâmina significa tratar vaginose bacteriana e tricomoníase. Um enunciado que descreve achados de duas doenças não está mal escrito: está cobrando exatamente isso.

Tratar: as doses, e o que muda na gestante

Antes das doses, uma observação de leitura que evita metade dos erros de alternativa. O protocolo brasileiro escreve metronidazol 250 mg, 2 comprimidos, por via oral, 2 vezes ao dia — porque 250 mg é a apresentação dispensada na farmácia do SUS. Isso é 500 mg de 12 em 12 horas. Um enunciado que traga metronidazol 500 mg, por via oral, de 12 em 12 horas, por 7 dias está descrevendo o mesmo esquema de primeira opção da vaginose bacteriana.

Vaginose bacteriana, primeira opção, incluindo gestantes e lactantes: metronidazol 250 mg, 2 comprimidos, por via oral, 2 vezes ao dia, por 7 dias; ou metronidazol gel vaginal 100 mg/g, um aplicador cheio por via vaginal, à noite ao deitar-se, por 5 dias. Segunda opção: clindamicina 300 mg, por via oral, 2 vezes ao dia, por 7 dias. Para as puérperas, o mesmo esquema das gestantes.

Candidíase vulvovaginal, primeira opção: miconazol creme a 2%, ou outro derivado imidazólico, por via vaginal, um aplicador cheio à noite ao deitar-se, por 7 dias; ou nistatina 100.000 UI, uma aplicação por via vaginal à noite, por 14 dias. Segunda opção: fluconazol 150 mg, por via oral, em dose única; ou itraconazol 100 mg, 2 comprimidos, por via oral, 2 vezes ao dia, por 1 dia.

Tricomoníase, primeira opção, incluindo gestantes e lactantes: metronidazol 400 mg, 5 comprimidos, por via oral, em dose única, totalizando 2 g; ou metronidazol 250 mg, 2 comprimidos, por via oral, 2 vezes ao dia, por 7 dias. O quadro do protocolo lista os dois como primeira opção — não há um esquema de segunda linha à parte.

A gestação é o ponto onde o capítulo se parte em dois, e vale gravar a assimetria. Para vaginose bacteriana e para tricomoníase, o esquema oral com metronidazol é a primeira opção também na gestante e na lactante — nenhuma restrição de via, nenhuma restrição de trimestre no protocolo brasileiro. Para candidíase, é o contrário: o tratamento em gestantes e lactantes é somente por via vaginal, e o tratamento oral está contraindicado. Fluconazol para gestante com candidíase é o erro mais cobrado do tema.

Três orientações fecham qualquer um dos três tratamentos: suspender as relações sexuais durante o tratamento; manter o tratamento durante a menstruação; e, no que depender do protocolo brasileiro, evitar a ingestão de álcool enquanto se usa metronidazol. Em pessoas vivendo com HIV, os esquemas são os habituais, com a ressalva de deixar duas horas entre a tomada do metronidazol e a do ritonavir, para não somar náusea e vômito e comprometer a adesão ao antirretroviral.

A parceria: três regras diferentes

Este é o parágrafo que decide questão. Vaginose bacteriana: o tratamento das parcerias sexuais não está recomendado. Candidíase vulvovaginal: as parcerias não precisam ser tratadas, exceto as sintomáticas. Tricomoníase: as parcerias sexuais devem ser tratadas com o mesmo esquema terapêutico. Três doenças, três regras, e a lógica é de mecanismo — as duas endógenas não se transmitem, a que é infecção sexualmente transmissível sim.

Quando o tratamento da parceria está indicado, o protocolo detalha como fazê-lo, e esses detalhes também caem. O atendimento deve ser preferencialmente presencial, com a devida orientação, solicitação de exames para outras infecções sexualmente transmissíveis — sífilis, HIV, hepatites B e C — e identificação, captação e tratamento das demais parcerias sexuais, buscando a cadeia de transmissão. Entregar uma receita para o parceiro levar embora não cumpre a recomendação.

Há uma consequência escondida do fluxograma que quase ninguém percebe. Quando a unidade não tem microscopia e o pH vem acima de 4,5, o protocolo manda tratar vaginose bacteriana e tricomoníase. Ao tratar empiricamente para tricomoníase, entra junto a obrigação da parceria — porque a conduta assumiu a possibilidade de uma infecção sexualmente transmissível. É um dos custos reais da abordagem sindrômica, e é matéria-prima de questão discursiva.

Tricomoníase é IST: o que isso obriga, e o que não obriga

O diagnóstico de uma infecção sexualmente transmissível carrega implicações que as infecções endógenas não têm, e o protocolo lista as orientações gerais que se aplicam a todas elas, no próprio rodapé do fluxograma: orientação centrada na pessoa e em suas práticas sexuais; contribuir para que ela reconheça e minimize o próprio risco; oferecer testagem para HIV, sífilis e hepatites B e C; oferecer testagem molecular para clamídia e gonococo; oferecer vacinação para hepatites A e B e para HPV quando indicado; informar sobre prevenção combinada; tratar, acompanhar e orientar a pessoa e suas parcerias; e notificar o caso quando indicado.

A palavra quando faz muito trabalho nessa última linha, e ela é a resposta ao que a tricomoníase obriga em vigilância. A notificação é obrigatória no país para sífilis adquirida, sífilis em gestante, sífilis congênita, hepatites virais B e C, aids, infecção pelo HIV, infecção pelo HIV em gestante, parturiente ou puérpera, e criança exposta ao risco de transmissão vertical do HIV. As demais infecções sexualmente transmissíveis, quando se considerar conveniente, podem ser incluídas na lista de notificação dos estados, do Distrito Federal e dos municípios.

Traduzindo para a prova: tricomoníase não é agravo de notificação compulsória nacional. Pode ser notificável no seu município ou no seu estado, por decisão local. Rastrear outras infecções sexualmente transmissíveis, sim, sempre — é orientação geral para toda IST. Preencher ficha do Sinan por causa de uma tricomoníase, não, salvo norma local.

Recorrência: réguas distintas para candidíase e para vaginose

Candidíase vulvovaginal recorrente, na definição brasileira, é a paciente que relata quatro ou mais episódios sintomáticos em um ano. Guarde o quatro: o CDC americano usa três episódios em menos de um ano, e uma vinheta com exatamente três episódios em doze meses está sentada em cima dessa diferença.

O esquema tem duas fases. Indução: fluconazol 150 mg, por via oral, 1 vez ao dia, nos dias 1, 4 e 7; ou itraconazol 100 mg, 2 comprimidos, por via oral, 2 vezes ao dia, por 1 dia; ou miconazol creme vaginal tópico diário por 10 a 14 dias. Manutenção: fluconazol 150 mg, por via oral, 1 vez por semana, por 6 meses; ou miconazol creme vaginal tópico 2 vezes por semana; ou óvulo vaginal 1 vez por semana, durante 6 meses. E, sempre, investigar diabetes, imunodepressão — inclusive infecção pelo HIV — e uso de corticoide.

A vaginose bacteriana tem outro tipo de régua: números de história natural, não de definição. De 15% a 30% das mulheres voltam a apresentar vaginose sintomática de 30 a 90 dias após a antibioticoterapia, e 70% experimentam recorrência em nove meses. Antes de escalar o tratamento, o protocolo manda procurar as causas de falha: atividade sexual frequente sem preservativo, duchas vaginais, uso de DIU, resposta imune inadequada e resistência bacteriana aos imidazólicos. Cepas de Atopobium vaginae resistentes ao metronidazol aparecem em várias portadoras de vaginose recorrente, e são sensíveis à clindamicina e às cefalosporinas — o que explica a segunda opção do quadro de tratamento.

O esquema da vaginose recorrente é metronidazol 250 mg, 2 comprimidos, por via oral, 2 vezes ao dia, por 10 a 14 dias; ou metronidazol gel vaginal 100 mg/g, um aplicador cheio por via vaginal, 1 vez ao dia, por 10 dias, seguido de tratamento supressivo com óvulo de ácido bórico intravaginal de 600 mg ao dia por 21 dias e metronidazol gel vaginal 2 vezes por semana, por 4 a 6 meses. O papel do ácido bórico é remover o biofilme vaginal que facilita a persistência das bactérias. O próprio protocolo qualifica esse regime triplo como promissor e ainda carente de validação por estudo prospectivo randomizado e controlado — é uma recomendação com ressalva declarada, e escrevê-la assim é mais honesto do que decorá-la como dogma.

O que não é nenhuma das três: citolítica, descamativa e atrófica

Vaginose citolítica entra no diagnóstico diferencial da candidíase recorrente e é a armadilha mais elegante do tema. O mecanismo é o oposto da vaginose bacteriana: há lactobacilos em excesso, o pH permanece na faixa ácida da normalidade e a acidez exagerada lisa as células epiteliais. Os sintomas imitam candidíase — prurido, ardência, corrimento branco e espesso —, tipicamente com piora na segunda metade do ciclo. O que a denuncia é a microscopia: lactobacilos abundantes e fragmentos de células epiteliais lisadas, sem fungo, sem clue cells, sem tricomonas. Paciente tratada três vezes com antifúngico sem melhora e com pH normal é a apresentação clássica, e a lógica terapêutica é alcalinizar o meio, não matar fungo que não está lá.

Vaginite inflamatória descamativa é a que mais se confunde com vaginose bacteriana pelo pH, e não poderia ser mais diferente na lâmina. É mais frequente em mulheres com hipoestrogenismo, na perimenopausa e na pós-menopausa. O corrimento é francamente purulento, amarelado, às vezes esverdeado ou acinzentado, refratário aos tratamentos habituais, e cerca de 90% das pacientes referem também dispareunia e desconforto vulvovaginal em queimação. O pH é invariavelmente maior que 4,5; o exame a fresco mostra aumento marcado de células inflamatórias com predomínio de neutrófilos, razão de leucócitos por células epiteliais maior que 1, aumento de células parabasais e escassez de lactobacilos — e ausência de clue cells. Em 30% a 70% dos casos há petéquias, erosões, equimoses ou eritema difuso nas paredes. É diagnóstico de exclusão: afastam-se Trichomonas, Candida, vaginose bacteriana, vaginite atrófica, líquen plano erosivo e as doenças bolhosas. O tratamento se apoia em clindamicina a 2% ou corticoide por via vaginal, com necessidade frequente de manutenção prolongada, porque cerca de um terço das que melhoram recidiva em seis semanas.

Vaginite atrófica é a causa não infecciosa de corrimento na pós-menopausa, por hipoestrogenismo. O contraste com as três principais está no conjunto: secura vaginal e dispareunia dominam o quadro, o corrimento é escasso e sem odor, o pH está elevado, a microscopia mostra células parabasais sem agente algum, e a resposta é a estrogenoterapia local. É tema do capítulo de climatério desta mesma apostila; aqui basta que ela não seja tratada com metronidazol por causa do pH alto.

Fechando a lista de diferenciais não infecciosos que o protocolo cita: drenagem de material mucoide fisiológico em excesso e presença de corpo estranho na vagina. E, para o prurido sem corrimento, as dermatites alérgicas ou irritativas e as dermatoses como líquen e psoríase.

O que não fazer

Ducha vaginal não trata corrimento — piora. Ela está listada entre as causas de falha terapêutica da vaginose bacteriana, ao lado da atividade sexual sem preservativo e do uso de DIU, e a razão é que remove mecanicamente a microbiota protetora que o tratamento pretende restaurar. A orientação de não recomendar duchas vaginais aparece explicitamente no protocolo, também no manejo da doença inflamatória pélvica.

Não tratar corrimento fisiológico. O fluxograma tem um desfecho chamado causa fisiológica, e ele existe para ser usado. Tratar conteúdo normal expõe a mulher a antibiótico sem indicação, alimenta resistência bacteriana e frequentemente inaugura o ciclo de candidíase pós-antibiótico que trará a paciente de volta.

Não usar o exame preventivo de câncer de colo do útero nem a colposcopia para diagnosticar vulvovaginite, vaginose ou cervicite. O protocolo é literal nesse ponto: quando esses exames estiverem indicados por outro motivo, como o rastreio de neoplasia intraepitelial cervical, devem ser feitos preferencialmente após o tratamento das infecções do trato reprodutivo.

Não tratar colonização assintomática por Candida, que ocorre em 10% a 20% das mulheres em idade reprodutiva. Não rastrear vaginose bacteriana em mulher assintomática fora das situações listadas. E não substituir a consulta por antibiótico ou antifúngico por conta própria: sem o exame especular não se olha o colo, e sem olhar o colo o primeiro nó do fluxograma — aquele que separa uma vulvovaginite de uma cervicite a caminho de doença inflamatória pélvica — simplesmente não é percorrido.

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As três lado a lado, e o caminho do fluxograma

A primeira tabela é o coração do capítulo: as três causas de corrimento vaginal comparadas no que o consultório consegue medir, com o conteúdo fisiológico na primeira coluna para servir de referência. O fluxo abaixo reproduz o caminho de decisão do fluxograma do Ministério da Saúde, incluindo as duas pernas que existem porque a unidade pode não ter microscópio. Os cards mostram o que se vê na lâmina em cada uma das três — que são categorias distintas, não graus de uma mesma coisa. As tabelas seguintes fecham o que a vinheta cobra no fim: dose, parceria e recorrência.

  1. 1Anamnese e exame ginecológico com toque e exame especular. Pergunte consistência, cor e alteração de odor do corrimento, prurido e irritação local; data da última menstruação; práticas de higiene vaginal e uso de medicamentos tópicos ou sistêmicos; práticas sexuais e fatores de risco para IST (idade abaixo de 30 anos, parcerias novas ou múltiplas, parceria com IST, IST prévia ou atual, uso irregular de preservativo).
  2. 2Olhe o colo antes de tudo. Dor à mobilização do colo uterino, material mucopurulento no orifício externo, edema cervical ou sangramento ao toque da espátula ou do swab? Havendo qualquer um deles, saia desta rota: investigue cervicite e doença inflamatória pélvica e trate clamídia e gonorreia.
  3. 3Colo sem esses sinais: o corrimento se confirma ao exame? Se não, o desfecho é causa fisiológica — não trate, oriente e verifique se o exame preventivo de câncer de colo do útero está em dia.
  4. 4Corrimento confirmado e microscopia a fresco disponível na consulta: colha material. Clue cells indicam vaginose bacteriana; Trichomonas sp. em movimento indica tricomoníase; hifas indicam candidíase. Os achados somam — havendo clue cells e Trichomonas na mesma lâmina, tratam-se as duas. Quando a coleta for para coloração de Gram, use o resultado do Gram para conduzir o caso.
  5. 5Sem microscopia, mas com fita de pH vaginal e/ou KOH a 10%: pH acima de 4,5 e/ou teste das aminas positivo manda tratar vaginose bacteriana e tricomoníase. pH abaixo de 4,5 e/ou aminas negativo leva ao passo seguinte.
  6. 6Nessa perna do pH baixo, pergunte: corrimento grumoso ou eritema vulvar? Sim, trate candidíase. Não, o desfecho é causa fisiológica.
  7. 7Sem microscopia e sem fita de pH nem KOH: trate vaginose bacteriana e tricomoníase.
  8. 8Feche a consulta com as orientações que valem para toda IST: testagem para HIV, sífilis e hepatites B e C; testagem molecular para clamídia e gonococo; vacinação para hepatites A e B e para HPV quando indicada; tratamento e orientação das parcerias quando indicado; e notificação quando indicada.

Vaginose bacteriana — clue cells

Célula epitelial vaginal recoberta por cocobacilos aderidos, de modo que a borda deixa de ser nítida e passa a parecer granulosa e apagada. Ao redor, escassez de lactobacilos e poucos leucócitos — vaginose é desequilíbrio de flora, não inflamação. É um dos quatro critérios de Amsel, dos quais três bastam; o padrão-ouro laboratorial continua sendo o Gram quantificado pelo escore de Nugent, com 7 ou mais fechando o diagnóstico.

Candidíase — hifas e esporos

Citologia a fresco com soro fisiológico e hidróxido de potássio a 10%, procurando filamentos ramificados com estrangulamentos e pequenas formas arredondadas em brotamento. Acompanha pH normal, abaixo de 4,5, e teste das aminas negativo. Suspeita forte com lâmina negativa pede cultura vaginal em meio de Sabouraud, Nickerson ou Microstix-candida — que também é o caminho para identificar as espécies não albicans, responsáveis por 8% a 20% dos casos.

Tricomoníase — protozoário flagelado móvel

Uma gota do conteúdo vaginal com soro fisiológico revela o parasita piriforme com flagelos anteriores, membrana ondulante e axóstilo, em movimento característico, cercado de grande número de leucócitos. O pH quase sempre passa de 5,0 e o teste das aminas costuma ser positivo, pela vaginose bacteriana que se instala no meio alcalino. Ao Gram o parasita aparece Gram-negativo; a cultura em meio de Diamond, Trichosel ou In Pouch TV fica para os casos de difícil diagnóstico.

O que se avaliaConteúdo fisiológicoVaginose bacterianaCandidíase vulvovaginalTricomoníase
AgenteNenhum — predomínio de lactobacilosPerda de lactobacilos e crescimento de flora anaeróbia mista, com Gardnerella vaginalis à frente (Atopobium vaginae, Mobiluncus, Bacteroides, Prevotella, Mycoplasma hominis, Ureaplasma, Streptococcus agalactiae)Candida albicans em 80% a 92%; o restante, espécies não albicans (glabrata, tropicalis, krusei, parapsilosis) e Saccharomyces cerevisiaeTrichomonas vaginalis, protozoário flagelado unicelular
Aspecto e corClaro a leitoso, sem grumos, quantidade variável no cicloHomogêneo e fino, acinzentado ou perolado, banhando as paredes, por vezes bolhosoGrumoso, em placas brancas aderidas à parede vaginalAbundante, amarelo-esverdeado (às vezes acinzentado), bolhoso e espumoso
OdorSem odor desagradávelFétido, de peixe, pior após o coito e após a menstruaçãoSem odorFétido, na maioria dos casos lembrando peixe
Prurido e ardênciaAusentesAusentes ou discretos — a queixa dominante é o cheiroPrurido e ardência intensos, dispareunia de introito, disúria externaPrurido eventual, com ardência, edema vulvar e sintomas urinários
pH vaginalAbaixo de 4,5Acima de 4,5Abaixo de 4,5 (pH normal)Quase sempre acima de 5,0; a transudação inflamatória leva a 6,7 a 7,5
Teste das aminas / Whiff com KOH a 10%NegativoPositivo — é um dos critérios de AmselNegativoPositivo na maioria dos casos
Microscopia a frescoLactobacilos, poucos leucócitosClue cells: células epiteliais recobertas de cocobacilos, com bordas apagadas; escassez de lactobacilosHifas, pseudo-hifas e esporos, com soro fisiológico e KOH a 10%Protozoário flagelado em movimento e grande número de leucócitos
Achado do exame especularParedes e colo sem alteraçãoParedes íntegras, corrimento perolado e bolhoso; teste de Schiller marrom e homogêneoEritema e fissuras vulvares, edema, escoriações e lesões satélitesMicroulcerações que dão ao colo aspecto de morango ou framboesa; teste de Schiller onçoide ou tigroide
É infecção sexualmente transmissível?Não se aplicaNão — infecção endógenaNão — infecção endógenaSim

Tratamento: dose, via e duração — e o que muda na gestante

CondiçãoPrimeira opçãoSegunda opçãoGestante e lactante
Vaginose bacterianaMetronidazol 250 mg, 2 comprimidos, VO, 2x/dia, por 7 dias (equivale a 500 mg de 12/12 h); OU metronidazol gel vaginal 100 mg/g, um aplicador cheio, via vaginal, à noite, por 5 diasClindamicina 300 mg, VO, 2x/dia, por 7 diasA primeira opção já inclui gestantes e lactantes — a via oral está liberada. Puérpera segue o esquema da gestante
Candidíase vulvovaginalMiconazol creme a 2%, ou outro derivado imidazólico, via vaginal, um aplicador cheio à noite, por 7 dias; OU nistatina 100.000 UI, uma aplicação via vaginal à noite, por 14 diasFluconazol 150 mg, VO, dose única; OU itraconazol 100 mg, 2 comprimidos, VO, 2x/dia, por 1 diaSomente por via vaginal. O tratamento oral está contraindicado — nada de fluconazol nem itraconazol
TricomoníaseMetronidazol 400 mg, 5 comprimidos, VO, dose única (2 g no total); OU metronidazol 250 mg, 2 comprimidos, VO, 2x/dia, por 7 diasO quadro do protocolo lista os dois esquemas acima como primeira opção; não há segunda linha à parteOs mesmos esquemas, inclusive a via oral, já são a primeira opção para gestantes e lactantes. Puérpera igual

Parceria sexual: três regras diferentes

CondiçãoTratar a parceria?Por que a regra é essa
Vaginose bacterianaNão. O tratamento das parcerias sexuais não está recomendadoInfecção endógena: é desequilíbrio da microbiota vaginal, não transmissão
Candidíase vulvovaginalSomente a parceria sintomáticaTambém endógena. De 10% a 20% das mulheres são colonizadas por Candida sem sintoma e sem indicação de tratamento — o mesmo raciocínio se aplica à parceria
TricomoníaseSim, sempre, com o mesmo esquema terapêuticoÉ infecção sexualmente transmissível. O atendimento é preferencialmente presencial, com solicitação de exames para sífilis, HIV e hepatites B e C, e identificação e captação das outras parcerias, buscando a cadeia de transmissão

Recorrência: o que a define e qual é o esquema

CondiçãoO que defineEsquema
Candidíase vulvovaginal recorrenteQuatro ou mais episódios sintomáticos em um ano (definição do protocolo brasileiro). Atinge cerca de 5% das mulheres e classifica o caso como candidíase complicadaIndução: fluconazol 150 mg, VO, 1x/dia, nos dias 1, 4 e 7; OU itraconazol 100 mg, 2 comprimidos, VO, 2x/dia, por 1 dia; OU miconazol creme vaginal diário por 10 a 14 dias. Manutenção: fluconazol 150 mg, VO, 1x/semana, por 6 meses; OU miconazol creme vaginal 2x/semana; OU óvulo vaginal 1x/semana, por 6 meses. Investigar diabetes, imunodepressão (inclusive HIV) e uso de corticoide
Vaginose bacteriana recorrenteNão há contagem de episódios: de 15% a 30% das mulheres voltam a ter vaginose sintomática 30 a 90 dias após o tratamento, e 70% recorrem em nove meses. Antes de escalar, afastar as causas de falha — sexo sem preservativo, ducha vaginal, DIU, resposta imune inadequada, resistência aos imidazólicosMetronidazol 250 mg, 2 comprimidos, VO, 2x/dia, por 10 a 14 dias; OU metronidazol gel vaginal 100 mg/g, um aplicador, via vaginal, 1x/dia, por 10 dias, seguido de óvulo de ácido bórico intravaginal 600 mg/dia por 21 dias e metronidazol gel vaginal 2x/semana, por 4 a 6 meses. O ácido bórico atua removendo o biofilme vaginal

Metronidazol 250 mg, 2 comprimidos, 2 vezes ao dia é 500 mg de 12 em 12 horas. O protocolo escreve na apresentação dispensada pela farmácia do SUS; o enunciado pode escrever na dose. São o mesmo esquema, e alternativa que apresenta um dos dois formatos não está errada por causa disso.

Técnica que decide o resultado: a fita de papel indicador fica um minuto na parede vaginal lateral, evitando encostar no colo — o muco cervical é alcalino e devolve pH falsamente alto. Para o teste de Whiff, uma gota de KOH a 10% sobre o conteúdo colhido em lâmina ou gaze; positivo se surgir cheiro de peixe podre.

Amsel exige três dos quatro critérios, não os quatro. Contra o escore de Nugent, os critérios de Amsel têm sensibilidade de 37% a 70% e especificidade de 94% a 99% — deixam passar vaginose, mas quando positivos raramente erram.

Nugent lê em três faixas: 0 a 3, negativo; 4 a 6, microbiota alterada; 7 ou mais, vaginose bacteriana.

Candidíase recorrente tem duas definições em circulação: quatro ou mais episódios em um ano no protocolo brasileiro, três ou mais em menos de um ano no documento do CDC. Vinheta com exatamente três episódios em doze meses está construída em cima dessa diferença.

Vaginose bacteriana não se rastreia em assintomática. Mas se trata a assintomática grávida — sobretudo com histórico de parto pré-termo, comorbidade ou risco de complicação — e antes de inserção de DIU, cirurgia ginecológica e exame invasivo do trato genital, com tratamento simultâneo ao procedimento, sem suspendê-lo nem adiá-lo.

Colonização assintomática por Candida ocorre em 10% a 20% das mulheres em idade reprodutiva e não requer tratamento. Cultura positiva sem sintoma não é doença.

O exame preventivo de câncer de colo do útero e a colposcopia não servem para diagnosticar vulvovaginite, vaginose ou cervicite; quando indicados por outro motivo, ficam preferencialmente para depois do tratamento.

A tricomoníase altera a classe da citologia oncótica. Havendo alteração morfológica celular junto com tricomoníase, trata-se e repete-se a citologia após três meses.

Durante o tratamento de qualquer uma das três: suspender as relações sexuais e manter o tratamento durante a menstruação. Em pessoas vivendo com HIV, esquemas habituais, com intervalo de duas horas entre metronidazol e ritonavir.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Tratar pelo fluxograma sindrômico ou pelo agente identificado

PCDT IST do Ministério da Saúde (2022): o fluxograma decide, com ou sem laboratório

O protocolo brasileiro constrói o manejo em degraus de disponibilidade. Havendo microscopia a fresco na consulta, colhe-se e trata-se pelo achado. Não havendo, usa-se a fita de pH e o KOH a 10%: pH acima de 4,5 e/ou aminas positivo manda tratar vaginose bacteriana e tricomoníase, as duas ao mesmo tempo; pH abaixo de 4,5 e/ou aminas negativo leva à pergunta sobre corrimento grumoso e eritema vulvar, que aponta candidíase. Não havendo nem microscopia nem fita, trata-se vaginose bacteriana e tricomoníase. A lógica é de oportunidade: a mulher sai da unidade tratada na mesma consulta, sem depender de retorno para buscar resultado — e retorno perdido, num sistema de acesso irregular, significa infecção não tratada.

Brasil, Ministério da Saúde, PCDT para Atenção Integral às Pessoas com IST, 2022, capítulo 7, Figura 11 (anexo em vigor alterado em 4 de julho de 2024)

Organização Mundial da Saúde (2021): teste molecular primeiro, teste rápido depois, sindrômico por último

O documento da OMS organiza as opções em hierarquia explícita. Para pessoas com corrimento vaginal, recomenda-se tratar para gonococo, clamídia e Trichomonas na mesma consulta, e sugere-se que o tratamento siga o resultado de ensaio molecular de qualidade assegurada quando isso for factível naquela visita. Onde o resultado molecular na mesma consulta não é viável, ou onde o teste molecular é limitado ou ausente, sugere-se tratar com base em teste rápido de qualidade assegurada no ponto de atendimento — e só então o tratamento sindrômico. A causa da hierarquia é o custo do erro etiológico: quem recebe esquema de vaginose e tricomoníase por um pH alto pode estar sendo tratada por infecção que não tem, com a obrigação de convocar a parceria que vem junto do rótulo de infecção sexualmente transmissível, enquanto a candidíase não albicans e a vaginite descamativa seguem sem identificação.

World Health Organization, Guidelines for the management of symptomatic sexually transmitted infections, 2021, capítulo de corrimento vaginal

Na prova

Três pistas identificam o recorte. O cenário: unidade básica de saúde, ausência de microscópio, menção a fita de pH ou a KOH a 10%, referência ao Ministério da Saúde ou ao SUS colocam a questão dentro do fluxograma nacional. A presença de resultado laboratorial na vinheta: enunciado que já entrega biologia molecular, cultura ou escore de Nugent está pedindo conduta pelo agente, e o fluxograma sindrômico deixa de ser o eixo. E as próprias alternativas: opção redigida como tratar vaginose bacteriana e tricomoníase, sem nomear qual das duas a paciente tem, só existe no mundo sindrômico — sua presença na lista denuncia que a questão foi construída sobre o fluxograma. Prova oficial do MEC tende a conduta SUS; em outras bancas, o que as alternativas revelam vale mais que a citação no enunciado.

Tratar a parceria masculina na vaginose bacteriana

PCDT IST do Ministério da Saúde (2022) e CDC (2021): a parceria não entra no tratamento

O quadro de tratamento da vaginose bacteriana do protocolo brasileiro traz a frase sem qualificação: o tratamento das parcerias sexuais não está recomendado. O documento americano de 2021 sustenta a mesma conduta e explicita a base — ensaios anteriores de tratamento da parceria masculina com antibiótico por via oral isolado não reduziram a recorrência na mulher. A classificação de fundo é a mesma nos dois: vaginose bacteriana é infecção endógena, um desequilíbrio da microbiota vaginal, e não uma infecção transmitida por via sexual.

Brasil, Ministério da Saúde, PCDT IST, 2022, Quadro 34; e Workowski et al., Sexually Transmitted Infections Treatment Guidelines, MMWR Recomm Rep, 2021

Ensaio StepUp (New England Journal of Medicine, 2025): tratar o parceiro reduziu a recorrência pela metade

Ensaio aberto randomizado australiano com mulheres na pré-menopausa, sintomáticas, com parceria masculina única e regular, todas recebendo o tratamento de primeira linha. No grupo de intervenção, o parceiro recebeu metronidazol 400 mg por via oral duas vezes ao dia e clindamicina creme a 2% aplicada topicamente duas vezes ao dia, ambos por sete dias. Recorrência em 12 semanas: 35% no grupo com parceria tratada contra 63% no grupo de cuidado usual, o que corresponde a 1,6 contra 4,2 recorrências por pessoa-ano. O ensaio foi interrompido na análise interina. O que muda em relação aos estudos antigos é o desenho: terapia combinada oral e tópica no homem, e não antibiótico oral isolado. O documento brasileiro é de 2022 e o americano de 2021, ambos anteriores à publicação.

Vodstrcil et al., Male-Partner Treatment to Prevent Recurrence of Bacterial Vaginosis, N Engl J Med, v. 392, n. 10, p. 947-957, 2025

Na prova

O recorte se identifica pela ancoragem documental. Enunciado que cita o protocolo do Ministério da Saúde, o SUS ou a lista de orientações da consulta está no mundo em que a parceria da vaginose bacteriana não é convocada — e a alternativa que manda tratar o parceiro costuma vir como distrator construído sobre a confusão com tricomoníase. Enunciado que nomeia o ensaio de 2025, que descreve o esquema duplo com metronidazol oral mais clindamicina tópica no parceiro, ou que insiste em recorrência apesar de tratamento adequado, está cobrando a novidade. Note ainda o vocabulário: o desenho do ensaio fala em parceria masculina única e regular, condição que não aparece em nenhum dos protocolos e que denuncia de onde a questão foi tirada.

Metronidazol e álcool

PCDT IST do Ministério da Saúde (2022): evitar álcool durante o tratamento

O protocolo brasileiro registra a orientação entre as observações que fecham o capítulo de tratamento: durante o tratamento com metronidazol, deve-se evitar a ingestão de álcool, pelo efeito antabuse decorrente da interação de derivados imidazólicos com álcool, caracterizado por mal-estar, náuseas, tonturas e gosto metálico na boca. É a orientação que consta da bula brasileira do medicamento e a que estrutura a conversa de balcão na farmácia do SUS.

Brasil, Ministério da Saúde, PCDT IST, 2022, capítulo 7, item 7.4, Observações

CDC (2021): a revisão de evidência não sustentou a interação, e a abstinência deixou de ser orientada

O documento americano de 2021 registra que uma revisão sobre consumo de álcool durante o tratamento com metronidazol não encontrou estudo in vitro, modelo animal, relato de efeito adverso ou estudo clínico com evidência convincente de interação semelhante à do dissulfiram. O alerta anterior se apoiava em experimentos de laboratório e em relatos isolados nos quais as reações descritas podiam ser igualmente explicadas pelo álcool sozinho ou pelos efeitos adversos do próprio metronidazol. O mecanismo também não se sustenta: o metronidazol não inibe a aldeído desidrogenase, como o dissulfiram faz. A conclusão registrada no texto é que abster-se de álcool durante o uso de metronidazol ou de tinidazol é desnecessário.

Workowski et al., Sexually Transmitted Infections Treatment Guidelines, MMWR Recomm Rep, v. 70, n. 4, 2021, seção de vaginose bacteriana

Na prova

Aqui a pista é o verbo do enunciado. Pergunta sobre qual orientação dar à paciente, em cenário de unidade do SUS, com ou sem citação nominal do protocolo brasileiro ou da bula, está no terreno da abstinência — é o que está escrito no documento que rege a prescrição no país. Pergunta que cita o documento americano de 2021, que menciona revisão sistemática ou revisão de evidência, ou que apresenta a interação dissulfiram-símile como afirmativa a ser julgada verdadeira ou falsa, está cobrando a releitura. Repare também no par tinidazol e metronidazol: o tinidazol não faz parte dos esquemas do protocolo brasileiro, e sua presença no enunciado costuma sinalizar origem internacional.

Tricomoníase na mulher: dose única de 2 g ou sete dias

PCDT IST do Ministério da Saúde (2022): dose única de 2 g e esquema de sete dias, ambos como primeira opção

O quadro de tratamento da tricomoníase apresenta duas alternativas de primeira opção, válidas inclusive para gestantes e lactantes: metronidazol 400 mg, 5 comprimidos, por via oral, em dose única, totalizando 2 g; ou metronidazol 250 mg, 2 comprimidos, por via oral, duas vezes ao dia, por sete dias. Não há distinção por sexo, e não há esquema de segunda linha listado à parte. A dose única aparece primeiro, e sua vantagem operacional é conhecida: pode ser tomada diante do profissional, o que resolve o problema de adesão num programa de larga escala.

Brasil, Ministério da Saúde, PCDT IST, 2022, Quadro 35

CDC (2021): sete dias para a mulher, dose única de 2 g para o homem

O documento americano separa a recomendação por sexo. Para mulheres, metronidazol 500 mg por via oral duas vezes ao dia por sete dias; para homens, metronidazol 2 g por via oral em dose única; e tinidazol 2 g em dose única como alternativa para ambos. A base declarada é um ensaio randomizado que mostrou que o esquema de múltiplas doses reduziu pela metade a proporção de mulheres com teste positivo na visita de controle de cura de um mês, na comparação com a dose única de 2 g. O texto registra também que nenhum ensaio randomizado publicado comparou essas doses entre homens — daí a assimetria — e recomenda retestar todas as mulheres sexualmente ativas cerca de três meses após o tratamento, independentemente de acreditarem que a parceria foi tratada.

Workowski et al., Sexually Transmitted Infections Treatment Guidelines, MMWR Recomm Rep, v. 70, n. 4, 2021, seção de tricomoníase

Na prova

Duas pistas resolvem. A primeira é o cenário: unidade básica, fluxograma, farmácia do SUS, tratamento supervisionado na consulta apontam para o esquema do protocolo brasileiro, com a dose única disponível. A segunda está nas próprias alternativas: opção que prescreve esquemas diferentes para a mulher e para o parceiro homem não tem paralelo no documento brasileiro, que manda tratar a parceria com o mesmo esquema terapêutico — sua presença na lista sinaliza questão construída sobre o documento americano. Vocabulário de retestagem em três meses e de teste de cura também é marca internacional, já que o protocolo brasileiro só prevê repetir exame nos casos em que a citologia oncótica veio alterada junto com a tricomoníase.

06

Caso resolvido

Mulher de 26 anos procura a unidade básica de saúde referindo corrimento vaginal amarelado e abundante há cerca de três semanas, com odor forte que piora depois da relação sexual, além de ardência vulvar e desconforto ao urinar. Refere parceria sexual única nos últimos oito meses, uso irregular de preservativo, ciclos regulares e última menstruação há doze dias. Nega uso recente de antibiótico, de corticoide ou de medicamento vaginal, nega ducha vaginal e nega comorbidades. Ao exame ginecológico, vulva discretamente hiperemiada, sem fissuras; ao espéculo, corrimento amarelo-esverdeado, bolhoso, ocupando o fundo de saco; paredes vaginais hiperemiadas; colo sem material mucopurulento no orifício externo, sem friabilidade ao toque do swab e sem dor à mobilização. A unidade não dispõe de microscópio, mas tem fita de papel indicador de pH e hidróxido de potássio a 10%. A fita, mantida um minuto na parede vaginal lateral, marca 6,0; ao acrescentar KOH a 10% sobre o conteúdo colhido, surge odor de peixe.
achado
Colo liberado: sem material mucopurulento no orifício externo, sem friabilidade e sem dor à mobilização. O primeiro nó do fluxograma está resolvido — não é cervicite, e a rota é a das vulvovaginites e vaginoses.
achado
Corrimento confirmado ao exame, com aspecto amarelo-esverdeado e bolhoso e paredes vaginais hiperemiadas. A queixa não é de conteúdo fisiológico, e o desfecho de causa fisiológica está afastado.
achado
Microscopia a fresco indisponível na consulta, mas com fita de pH e KOH a 10% à mão. O fluxograma segue pela perna do pH: 6,0, acima do corte de 4,5, e teste de Whiff positivo.
raciocínio
pH acima de 4,5 e/ou teste das aminas positivo, sem microscopia, tem uma única saída no fluxograma do Ministério da Saúde: tratar vaginose bacteriana e tricomoníase, as duas. O aspecto bolhoso e esverdeado e o pH de 6,0 apontam fortemente para tricomoníase, mas a conduta protocolar não obriga a escolher — e a coexistência das duas é comum, porque o meio alcalinizado pelo Trichomonas favorece a flora anaeróbia.
conduta
Metronidazol 400 mg, 5 comprimidos, por via oral, em dose única, totalizando 2 g, cobre a tricomoníase; ou, se preferir o esquema estendido que cobre as duas com a mesma prescrição, metronidazol 250 mg, 2 comprimidos, por via oral, 2 vezes ao dia, por 7 dias — que é ao mesmo tempo a primeira opção da vaginose bacteriana e uma das primeiras opções da tricomoníase. Orientar suspensão das relações sexuais durante o tratamento, manutenção do tratamento durante a menstruação e, conforme o protocolo brasileiro, evitar álcool no período.
conduta
Convocar a parceria sexual para tratamento com o mesmo esquema, preferencialmente de forma presencial. A obrigação vem junto com o tratamento empírico para tricomoníase — ao assumir a possibilidade de uma infecção sexualmente transmissível, assume-se a cadeia de transmissão. Na consulta da parceria, solicitar exames para sífilis, HIV e hepatites B e C e identificar outras parcerias.
conduta
Aplicar as orientações gerais de IST: oferecer testagem para HIV, sífilis e hepatites B e C; oferecer testagem molecular para clamídia e gonococo; oferecer vacinação para hepatites A e B e para HPV conforme indicação; e verificar se o exame preventivo de câncer de colo do útero está em dia — sem usá-lo, porém, como método diagnóstico da vulvovaginite.
conduta
Não preencher ficha de notificação compulsória por causa da tricomoníase: a obrigatoriedade nacional alcança sífilis adquirida, sífilis em gestante, sífilis congênita, hepatites B e C, aids, infecção pelo HIV, HIV em gestante, parturiente ou puérpera e criança exposta à transmissão vertical. As demais IST podem ser incluídas por decisão do estado, do Distrito Federal ou do município — conferir a norma local.
07

Agora feche você

Gestante de 24 anos, com 27 semanas de idade gestacional por ultrassonografia de primeiro trimestre, comparece à consulta de pré-natal referindo prurido vulvar intenso há cinco dias, com ardência ao urinar que ela descreve como sendo por fora, e dor no início da relação sexual. Nota corrimento branco e espesso, em maior quantidade que o habitual, e diz que não sente cheiro nenhum. Pré-natal sem intercorrências, sem uso de antibiótico recente, glicemia de jejum e teste de tolerância à glicose normais no rastreamento do segundo trimestre. Ao exame, vulva com eritema difuso e duas fissuras superficiais, escoriações de coçadura e discreto edema; ao espéculo, corrimento grumoso em placas brancas aderidas à parede vaginal; colo de aspecto gravídico habitual, sem material mucopurulento no orifício externo, sem friabilidade e sem dor à mobilização. A unidade dispõe de microscópio. A fita de pH na parede vaginal lateral marca 4,0; o teste com KOH a 10% não produz odor; a citologia a fresco com soro fisiológico e hidróxido de potássio mostra pseudo-hifas e esporos, sem clue cells e sem protozoário móvel.
achado
Colo sem sinais de cervicite — sem muco-pus no orifício externo, sem friabilidade e sem dor à mobilização. O primeiro nó do fluxograma está resolvido e o caso segue pela rota das vulvovaginites.
achado
Quadro clínico típico de candidíase vulvovaginal: prurido intenso, corrimento grumoso em placas brancas aderidas, disúria externa, dispareunia de introito, eritema e fissuras vulvares, escoriações e edema. E, discriminante, ausência de odor.
achado
pH de 4,0, abaixo do corte de 4,5, e teste das aminas negativo — o padrão que separa a candidíase das outras duas. Com microscopia disponível, a citologia a fresco confirma pseudo-hifas e esporos, sem clue cells e sem Trichomonas, o que afasta coinfecção.
achado
A gestação, sozinha, classifica esta candidíase como complicada na régua do protocolo brasileiro — a classificação exige todos os critérios para ser não complicada e apenas um para ser complicada. Isso não muda o diagnóstico, mas muda a via de administração.
conduta
08

Onde a banca derruba

  1. 1Prescrever fluconazol para gestante com candidíase Atrai porque a dose única oral é cômoda, resolve em um comprimido e é exatamente o que se prescreve fora da gestação. Só que o protocolo brasileiro é literal: o tratamento em gestantes e lactantes é somente por via vaginal, e o tratamento oral está contraindicado. A armadilha fica ainda mais escorregadia porque na mesma consulta, se a paciente tivesse vaginose bacteriana ou tricomoníase, o metronidazol oral seria a primeira opção — inclusive na gestante. A restrição é do antifúngico azólico, não do metronidazol.
  2. 2Tratar a parceria sexual da vaginose bacteriana Atrai porque parece coerente: se a mulher tem corrimento e o quadro recorre, tratar o parceiro soa como completar o trabalho. Mas o quadro do protocolo diz que o tratamento das parcerias sexuais não está recomendado, e o motivo é de mecanismo — vaginose bacteriana é infecção endógena. A confusão nasce da vizinhança com a tricomoníase, que compartilha o metronidazol e o odor de peixe, e nessa sim a parceria é sempre tratada com o mesmo esquema.
  3. 3Exigir os quatro critérios de Amsel Atrai porque a lista tem quatro itens e a memória guarda listas inteiras. Bastam três dos quatro. Uma paciente com corrimento homogêneo, pH acima de 4,5 e teste de Whiff positivo tem vaginose bacteriana fechada mesmo sem clue cells visualizadas — e a alternativa que nega o diagnóstico por causa da microscopia é o distrator construído sobre esse erro.
  4. 4Achar que odor de peixe fecha o diagnóstico de vaginose bacteriana Atrai porque o odor é a queixa mais característica da vaginose e porque o teste das aminas é um dos critérios de Amsel. Só que o teste das aminas também é positivo na maioria dos casos de tricomoníase, justamente porque o meio alcalinizado pelo protozoário faz florescer a flora anaeróbia que produz as aminas. É por isso que, na perna sem microscopia, o fluxograma manda tratar as duas, e não apenas a vaginose.
  5. 5Encostar a fita de pH no colo do útero Atrai porque o colo é o alvo visual mais evidente ao espéculo e porque o corrimento costuma estar acumulado no fundo de saco. Mas o muco cervical é alcalino: a fita encostada ali devolve pH falsamente alto, converte uma candidíase em vaginose no papel e leva a paciente para o braço errado do fluxograma. A técnica é fita na parede vaginal lateral, por um minuto, evitando o colo.
  6. 6Rastrear e tratar vaginose bacteriana em assintomática Atrai porque a lista de complicações obstétricas e infecciosas da vaginose é longa e assusta. Mas não há indicação de rastreamento em mulher assintomática. As exceções são taxativas: a assintomática grávida, especialmente com histórico de parto pré-termo, comorbidade ou risco de complicação, e a assintomática que vai inserir DIU, operar ou fazer exame invasivo do trato genital. E, nessas, o tratamento é simultâneo ao procedimento — adiar a inserção do DIU para tratar antes é o segundo erro escondido nessa mesma questão.
  7. 7Contar três episódios de candidíase e chamar de recorrente Atrai porque três é o número da definição americana e porque circula em muito material de estudo. Na régua do protocolo brasileiro, candidíase vulvovaginal recorrente é quatro ou mais episódios sintomáticos em um ano. Uma vinheta com exatamente três episódios em doze meses está construída em cima da diferença, e a pista é a ancoragem do enunciado.
  8. 8Insistir em antifúngico na candidíase que não melhora Atrai porque os sintomas são idênticos aos da candidíase e porque o reflexo é aumentar dose ou trocar o azólico. Duas hipóteses ficam de fora nesse reflexo. A primeira é a causa sistêmica predisponente — diabetes, imunodepressão, incluindo infecção pelo HIV, e uso de corticoide —, que o protocolo manda investigar antes de escalar. A segunda é a vaginose citolítica, em que há excesso de lactobacilos, o pH permanece ácido, a microscopia mostra células epiteliais lisadas sem fungo algum e a lógica terapêutica é alcalinizar, não antifúngica.
  9. 9Pedir o preventivo para investigar o corrimento Atrai porque a paciente está na maca, o espéculo já está colocado e a citologia de fato costuma vir com laudo de flora. Mas o protocolo diz que o exame preventivo de câncer de colo do útero e a colposcopia não devem ser realizados com o intuito de diagnosticar vulvovaginite, vaginose ou cervicite; quando indicados por outro motivo, ficam preferencialmente para depois do tratamento. Um corolário cai muito: tricomoníase altera a classe da citologia oncótica, e havendo alteração morfológica junto com tricomoníase, trata-se e repete-se a citologia em três meses.
  10. 10Ignorar o colo porque a queixa é de corrimento Atrai porque o enunciado descreve corrimento com riqueza de detalhes — cor, cheiro, consistência — e induz a começar pelo diagnóstico diferencial das três vulvovaginites. Mas o fluxograma abre pelo colo, e por um bom motivo: dor à mobilização, muco-pus no orifício externo, edema cervical ou sangramento ao toque da espátula mudam a rota inteira para cervicite e doença inflamatória pélvica, com tratamento para clamídia e gonorreia. Corrimento descrito em detalhe e colo descrito em uma linha é frequentemente uma questão sobre a linha do colo.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

O corrimento branco, grumoso, em 'leite talhado', aderido à parede vaginal, com prurido intenso, é o quadro típico de candidíase vulvovaginal, causada pela Candida albicans. O Trichomonas vaginalis causa corrimento amarelo-esverdeado, bolhoso, com colo em framboesa. A Gardnerella (vaginose bacteriana) cursa com corrimento branco-acinzentado, homogêneo e odor de peixe, sem prurido intenso. A Neisseria gonorrhoeae e a Chlamydia trachomatis causam cervicite, geralmente com secreção mucopurulenta, não o padrão descrito.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Os números, na ordem em que a vinheta os usa. Fluxograma: olhe o colo primeiro — dor à mobilização, muco-pus no orifício externo, edema cervical ou sangramento ao toque saem da rota e vão para cervicite e doença inflamatória pélvica. Colo liberado e corrimento não confirmado: causa fisiológica, sem tratamento. Com microscopia: clue cells é vaginose, Trichomonas móvel é tricomoníase, hifas é candidíase, e os achados somam. Sem microscopia, com fita e KOH: pH acima de 4,5 e/ou aminas positivo trata vaginose e tricomoníase; pH abaixo de 4,5 e/ou aminas negativo leva à pergunta sobre corrimento grumoso ou eritema vulvar, que aponta candidíase. Sem fita nem microscopia: vaginose e tricomoníase. pH: candidíase abaixo de 4,5; vaginose acima de 4,5; tricomoníase quase sempre acima de 5,0, chegando a 6,7 a 7,5. Amsel: corrimento homogêneo, pH acima de 4,5, clue cells e Whiff positivo — três dos quatro bastam. Nugent: 0 a 3 normal, 4 a 6 microbiota alterada, 7 ou mais vaginose. Tratamento: vaginose e tricomoníase com metronidazol 250 mg, 2 comprimidos, VO, 2x/dia, por 7 dias, que é 500 mg de 12 em 12 horas, inclusive na gestante; tricomoníase também com 400 mg, 5 comprimidos, VO, dose única, somando 2 g; candidíase com miconazol creme a 2% por 7 dias ou nistatina 100.000 UI por 14 dias, e só por via vaginal na gestante e na lactante. Parceria: vaginose não, candidíase só se sintomática, tricomoníase sempre com o mesmo esquema.

em 30 dias

As decisões, não os números. O eixo do capítulo é o pH: a única das três que não alcaliniza a vagina é a candidíase, e é isso que permite ao fluxograma decidir com uma fita de papel. A regra da parceria segue o mecanismo, não o sintoma: vaginose bacteriana e candidíase são infecções endógenas e a parceria fica de fora, exceto o parceiro sintomático da candidíase; tricomoníase é infecção sexualmente transmissível e a parceria é tratada com o mesmo esquema, presencialmente, com exames para sífilis, HIV e hepatites B e C — mas sem notificação compulsória nacional, que alcança apenas sífilis, HIV e aids, hepatites B e C e a criança exposta à transmissão vertical. A gestação parte o capítulo em dois: metronidazol oral é primeira opção para vaginose e tricomoníase, e o tratamento da candidíase é somente vaginal. Recorrência tem duas réguas diferentes: candidíase recorrente é contagem — quatro ou mais episódios em um ano, com indução nos dias 1, 4 e 7 e manutenção semanal por seis meses, sempre procurando diabetes, imunodepressão e corticoide; vaginose recorrente é história natural, com 70% de recorrência em nove meses, e antes de escalar o esquema se afastam ducha vaginal, sexo sem preservativo e DIU. E o que não se faz: ducha vaginal, tratamento de conteúdo fisiológico, tratamento de colonização assintomática por Candida, rastreio de vaginose em assintomática fora das situações listadas, e preventivo pedido para diagnosticar corrimento.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Mulher de 26 anos com corrimento amarelo-esverdeado, bolhoso e de odor fétido há três semanas, ardência vulvar e disúria externa; colo sem muco-pus e sem dor à mobilização, pH vaginal de 6,0 e teste das aminas positivo, em unidade básica de saúde sem microscópio — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Corrimento vaginal — Preparatório para provas | OsceLabs