Ginecologia e ObstetríciaContracepção, ISTs, climatério e uroginecologia

Contracepção hormonal combinada

A prova quase nunca pergunta qual pílula. Pergunta se esta mulher pode usar — e a resposta sai de um sistema de quatro categorias da OMS que o Ministério da Saúde adota. Quem decora a lista da categoria 4 e as janelas do pós-parto resolve a vinheta em dois passos.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Mulher de 30 anos, sem comorbidades, deseja iniciar método contraceptive hormonal combinado (estrogênio + progestagênio). Durante a anamnese, qual das condições a seguir é considerada contraindicação a esse método? Assinale a alternativa correta.

02

Como esse tema cai

A prova de residência quase nunca pergunta qual pílula prescrever. Pergunta se aquela mulher pode usar. A vinheta chega com uma mulher que quer anticoncepcional e com dois ou três dados aparentemente decorativos — uma enxaqueca com escotomas, um maço por dia aos trinta e sete anos, uma pressão de 152 por 96, um parto há cinco semanas — e o que ela cobra é a leitura de um sistema: os critérios médicos de elegibilidade da Organização Mundial da Saúde, quatro categorias, de 1 a 4, que o Ministério da Saúde adota e reproduz nos seus protocolos. Quem decora a lista da categoria 4 e as janelas do pós-parto resolve a questão em dois passos: identificar a condição e ler a categoria.

Este capítulo trata do combinado — estrogênio mais progestágeno, na pílula, no adesivo, no anel vaginal e no injetável mensal. O progestágeno isolado aparece aqui só como o que ele é na prática: a saída quando o estrogênio está vedado. Os métodos reversíveis de longa duração, o dispositivo intrauterino de cobre, o hormonal e o implante, têm capítulo próprio, e a contracepção de emergência também. A separação não é organizacional: o combinado é o único grupo cuja prescrição depende de uma triagem de risco vascular, e é exatamente essa triagem que a banca cobra.

Três números organizam o capítulo. O primeiro é 4, a categoria que proíbe — e a lista das condições que a alcançam é curta, memorizável e quase toda explicada pelo mesmo mecanismo. O segundo é 35, a idade a partir da qual o cigarro deixa de ser advertência e vira contraindicação. O terceiro é 6 semanas, o corte do pós-parto na lactante. A régua brasileira em vigor na Atenção Básica reproduz a edição de 2010 dos critérios da OMS, e o protocolo da Febrasgo, de 2025, cita a quinta edição, de 2015; a OMS, por sua vez, publicou a sexta edição em 2025. Nos pontos que a prova cobra, os três coincidem — e onde não coincidem, coincidem entre si o Brasil e a OMS, e diverge o documento norte-americano.

03

O que muda decisão

O que é combinado, e o que o SUS entrega

Anticoncepcional hormonal combinado é toda formulação que junta um componente estrogênico a um progestagênico. As vias são quatro: oral, transdérmica, vaginal e injetável. A pílula é a mais usada no Brasil e no mundo, e é o método contraceptivo reversível moderno mais conhecido. O adesivo libera 30 microgramas de etinilestradiol e 150 microgramas de norelgestromina por dia, é trocado uma vez por semana durante três semanas e tem uma restrição própria que a prova gosta: não é recomendado acima de 90 quilos, porque a eficácia cai. O anel vaginal libera 15 microgramas de etinilestradiol e 120 microgramas de etonogestrel por dia, fica 21 dias e é retirado por 7. O injetável combinado é aplicado a cada 30 dias, com tolerância de três dias para mais ou para menos.

A régua de elegibilidade é a mesma para os quatro. O protocolo da Febrasgo é literal quanto a isso em duas passagens: os critérios de elegibilidade do anel são os mesmos da pílula, e as contraindicações do injetável combinado são as mesmas da anticoncepção combinada oral. Isso desmonta a intuição de que a via injetável seria mais branda por não passar pelo fígado na primeira passagem, ou de que o anel seria mais leve por liberar menos hormônio. O que trava o combinado é o estrogênio, e ele está em todos.

No SUS, de combinado existem exatamente dois produtos. A pílula é etinilestradiol 0,03 miligrama mais levonorgestrel 0,15 miligrama, monofásica — ou seja, 30 microgramas de estrogênio com um progestágeno de segunda geração. O injetável mensal é enantato de noretisterona 50 miligramas mais valerato de estradiol 5 miligramas. Não há adesivo nem anel na lista nacional. Essa informação tem consequência prática: a combinação que o sistema público entrega é justamente aquela em que os estudos observaram os menores riscos de trombose, o etinilestradiol com levonorgestrel. Toda a discussão sobre gerações de progestágeno, que ocupa metade das provas privadas, tem pouco alcance na farmácia da unidade básica.

Fora do combinado, o Ministério da Saúde oferta minipílula de noretisterona 0,35 miligrama, injetável trimestral de acetato de medroxiprogesterona 150 miligramas, anticoncepção de emergência com levonorgestrel 0,75 miligrama, dispositivo intrauterino de cobre TCu-380A, implante subdérmico de etonogestrel, preservativos interno e externo, diafragma e os métodos cirúrgicos definitivos. É dessa lista que sai a alternativa quando o combinado cai na categoria 3 ou 4 — e ela é curta o bastante para ser dita de cor na consulta.

Como o combinado impede a gravidez

O efeito principal é a anovulação, e quem a produz é o progestágeno. Os combinados agem primariamente inibindo a secreção de gonadotrofinas; o progestágeno é o principal responsável pelo efeito contraceptivo, e o modo como ele o faz é bloqueando o pico pré-ovulatório do hormônio luteinizante. Sem pico de LH, não há ovulação. Essa é a frase que resolve a questão de mecanismo, e o erro clássico é atribuir o efeito principal ao estrogênio.

O estrogênio faz outra coisa: inibe a secreção do hormônio folículo-estimulante e, com isso, impede a seleção e o crescimento do folículo dominante. Ele também estabiliza o endométrio — é por isso que a mulher tem um padrão de sangramento previsível em vez de escapes constantes — e potencializa a ação do progestágeno aumentando o número de receptores intracelulares de progesterona. O estrogênio, portanto, é o componente que dá controle de ciclo e reforça a anovulação; não é o componente que a garante.

Os mecanismos acessórios são três e todos vêm do progestágeno: espessamento do muco cervical, que dificulta a ascensão dos espermatozoides; efeito antiproliferativo sobre o endométrio, que o torna não receptivo à implantação; e alteração da secreção e do peristaltismo das tubas uterinas. Vale reter que eles são acessórios, não principais — a vinheta que descreve uma mulher com ovulação documentada em uso correto de combinado está descrevendo uma falha, não o funcionamento esperado.

Essa arquitetura explica duas coisas que a prova cobra em outros lugares do capítulo. Primeiro, por que o intervalo sem hormônio é o ponto frágil: sete dias sem esteroide começam a liberar o eixo, e um dia a mais de intervalo pode ser o suficiente para um folículo escapar. Segundo, por que o retorno da fertilidade é rápido: o bloqueio é funcional e reversível, não há depósito nem consumo de reserva ovariana.

Esquema do eixo hipotálamo-hipófise-ovariano com sinal descendente interrompido e ovário sem folículo dominante; ao lado, corte do útero com endométrio fino, muco espesso no canal cervical e uma tuba uterina.
O efeito principal e os acessórios. O progestágeno bloqueia o pico pré-ovulatório de LH e impede a ovulação — é daí que vem a eficácia. O estrogênio inibe o FSH e impede a seleção do folículo dominante. Muco cervical espesso, endométrio não receptivo e motilidade tubária alterada são reforços, não o mecanismo principal.

Eficácia: os dois números que não são o mesmo

A eficácia dos contraceptivos se mede pelo índice de Pearl, que é o número de gestações não planejadas a cada 100 mulheres em um ano de uso. Quanto menor, mais eficaz. Métodos de alta eficácia são os que ficam abaixo de 1.

Para a pílula combinada, o uso perfeito dá 0,3 — três gestações a cada mil mulheres por ano. O uso típico, que é o modo como as pessoas de fato tomam, sujeito a esquecimento, vômito e diarreia, dá 9 na tabela da Febrasgo, adaptada de Trussell, e 8 na tabela do Ministério da Saúde, que vem dos documentos da OMS de 2010. A diferença de um ponto entre as duas fontes não separa alternativa nenhuma; o que separa é a distância entre 0,3 e 9, ou seja, cerca de trinta vezes. A pílula não é um método pouco eficaz: é um método muito eficaz cuja eficácia depende inteiramente da usuária.

O injetável mensal tem uso perfeito de 0,2 e uso típico de 6 na régua da Febrasgo, e 0,05 e 3 na do Ministério. Ele é melhor que a pílula no uso típico pela razão óbvia: quem aplica é o serviço, não a mulher, e o intervalo é mensal em vez de diário.

O terceiro número da eficácia é o menos citado e o mais útil na consulta: cerca de um terço das usuárias abandona o combinado no primeiro ano — 33% de descontinuidade na tabela da Febrasgo, e manutenção de uso de 68% em um ano na tabela do Ministério. As duas fontes dizem a mesma coisa por caminhos diferentes. É por isso que o protocolo da Febrasgo abre dizendo que o seguimento próximo no primeiro ano aumenta as chances de continuidade: a maior parte da falha do método não é farmacológica, é de adesão, e ela se perde nos primeiros doze meses.

A régua: as quatro categorias da OMS

A sexta edição dos critérios médicos de elegibilidade, de 2025, define as quatro categorias em linguagem de risco, e o texto vale decorar porque as alternativas são escritas com essas palavras. Categoria 1: condição para a qual não há restrição ao uso do método. Categoria 2: condição em que as vantagens de usar o método geralmente superam os riscos teóricos ou comprovados. Categoria 3: condição em que os riscos teóricos ou comprovados geralmente superam as vantagens. Categoria 4: condição que representa risco inaceitável à saúde se o método for usado.

Traduzir isso em conduta é o que a prova cobra. O quadro do Ministério da Saúde faz a tradução em uma coluna só, e é a mais operacional que existe: categoria 1, pode ser usado em qualquer circunstância; categoria 2, uso permitido em geral; categoria 3, o uso geralmente não é recomendado, com exceção feita a quando outros métodos indicados não estejam disponíveis ou não sejam aceitáveis; categoria 4, não deve ser usado, risco inaceitável. E, ao lado, uma coluna com a pergunta que fecha a consulta — pode ser usado? Sim para 1 e 2, não para 3 e 4.

Essa redução a duas colunas não é uma simplificação de conveniência brasileira: a própria OMS a traz, para uso em serviços com recursos clínicos limitados, e ela é a chave da questão de prova. Categoria 3 não significa pode com cuidado. Significa não, com uma porta de saída estreita: só se não houver método mais adequado disponível ou aceitável, e, se for fornecido, com acompanhamento próximo. A alternativa que oferece o combinado a uma mulher categoria 3 sem dizer que nenhum outro método serve está errada.

Duas leituras finas fecham o sistema. A primeira é a distinção entre introdução e manutenção: uma mesma condição pode ser categoria 2 para começar e 3 para continuar, porque quem já usa há anos sem evento tem informação que a candidata não tem, e porque retirar um método que funciona também tem custo. Quando a tabela traz dois números, o primeiro vale para iniciar e o segundo para seguir usando. A segunda é a regra de combinação: quando há mais de uma condição, a categoria não é a média nem a soma — vale a mais restritiva. A exceção que a própria tabela cria é a linha múltiplos fatores de risco para doença cardiovascular, categoria 3 ou 4: idade avançada, tabagismo, diabetes e hipertensão, cada um deles isoladamente de categoria menor, juntos passam a valer 3 ou 4.

Categoria 4: a lista que se decora

O protocolo da Febrasgo de 2025 traz a lista fechada das contraindicações absolutas, e ela cabe na memória se for organizada por mecanismo em vez de por ordem alfabética. São quatro blocos: trombose venosa, doença arterial, o fígado e a mama, e o puerpério.

O bloco venoso tem quatro entradas. Trombose venosa profunda ou embolia pulmonar, atual ou pregressa, independentemente do uso de anticoagulante. Trombofilia conhecida. Cirurgia maior com imobilização prolongada — note o qualificador: cirurgia maior sem imobilização prolongada é categoria 2, e a imobilização é que faz a diferença. E lúpus eritematoso sistêmico com anticorpo antifosfolípide positivo ou desconhecido, que entra aqui porque o mecanismo é trombótico, não inflamatório.

O bloco arterial tem seis. Doença cardíaca isquêmica atual ou pregressa. Acidente vascular cerebral atual ou pregresso. Hipertensão descompensada, com sistólica igual ou maior que 160 milímetros de mercúrio ou diastólica igual ou maior que 100. Hipertensão associada a doença vascular. Doença valvar complicada — a que cursa com hipertensão pulmonar, fibrilação atrial ou história de endocardite bacteriana. E múltiplos fatores de risco para doença cardiovascular. A enxaqueca com aura pertence a este bloco e é tratada em seção própria, por ser a linha que mais decide vinheta.

O bloco hepático e mamário tem três. Câncer de mama atual — o câncer de mama passado, sem evidência de doença há cinco anos, cai para categoria 3, e não para 1. Cirrose descompensada. Adenoma hepatocelular e hepatoma, sendo que para o injetável a categoria é 3.

O bloco do puerpério tem duas entradas, e ambas são de tempo: lactante nas primeiras 6 semanas pós-parto; e puérpera que não amamenta, com fator de risco para trombose, nos primeiros 21 dias. Os fatores de risco que a Febrasgo lista são passado de trombose venosa profunda, trombofilia, obesidade, hemorragia ou transfusão sanguínea pós-parto, imobilidade, pré-eclâmpsia, tabagismo e cesariana imediata.

Fecham a lista duas entradas que são de tempo somado a exposição: tabagismo de 15 cigarros por dia ou mais em mulher de 35 anos ou mais; e diabetes complicado com nefropatia, retinopatia, neuropatia ou outra vasculopatia, ou com mais de 20 anos de doença. O que essas dezoito situações têm em comum é o estrogênio: todas elas são leituras de risco vascular, hepático ou hormônio-dependente que o componente estrogênico agrava. É por isso que a conduta diante de qualquer uma delas é sempre a mesma frase — o método sem estrogênio.

Enxaqueca: a linha que separa 2 de 4

Enxaqueca com aura é categoria 4 em qualquer idade, em todas as fontes — OMS na sexta edição, Ministério da Saúde e Febrasgo. Não há corte etário, não há corte de frequência e não há corte de tempo desde a última crise. Uma mulher de 22 anos com duas crises por ano, a última há um ano, com aura visual, é categoria 4. O mecanismo é o risco de acidente vascular cerebral isquêmico, que a aura já eleva por si e que o estrogênio eleva de novo; a meta-análise Cochrane citada pela Febrasgo dá risco relativo de 1,7, com intervalo de confiança de 95% entre 1,5 e 1,9, para acidente vascular isquêmico em usuárias de combinado em geral, sempre maior nas formulações com mais estrogênio.

Aura, no sentido que interessa aqui, é o sintoma neurológico focal, tipicamente visual, que precede a cefaleia — escotomas cintilantes, linhas em ziguezague, perda de campo — e que se instala e se resolve em minutos. Fotofobia, náusea e cefaleia pulsátil unilateral não são aura; são a própria enxaqueca. Essa distinção é a que a vinheta esconde na descrição do sintoma, e é dela que sai o gabarito.

Enxaqueca sem aura tem duas leituras por idade. Abaixo dos 35 anos, a sexta edição da OMS dá categoria 2, e a tabela do Ministério da Saúde detalha 2 para iniciar e 3 para manter. A partir dos 35 anos, a OMS dá 3, e tanto a tabela do Ministério quanto o Quadro 5 da Febrasgo trazem 4 para continuar o uso. É aqui que a régua norte-americana se separa: o documento do CDC de 2024 dá categoria 2 para enxaqueca sem aura em qualquer idade.

Há uma regra de manutenção que vale mais que a tabela e que o Ministério da Saúde escreve sem ambiguidade no seu quadro de manejo: com o aparecimento da enxaqueca, com ou sem aura, independentemente da idade da mulher, deve-se interromper o uso do método se houver estrogênio, e orientar a escolha de método sem estrogênio. Ou seja, a enxaqueca que surge ou piora durante o uso não é efeito adverso a tolerar — é sinal de saída. Vinheta que descreve cefaleia nova com fenômeno visual em usuária de pílula não está pedindo analgésico.

Pós-parto e amamentação: as janelas exatas

Duas coisas competem no puerpério. Uma é o risco de trombose, que é máximo nos primeiros dias e cai ao longo de seis semanas — e é ele que fecha a porta do estrogênio para toda puérpera, amamentando ou não. A outra é o leite: o estrogênio pode reduzir o volume da produção láctea, e esse é o motivo pelo qual a janela da lactante é mais longa que a da mulher que não amamenta.

Na régua da OMS, que é a que o Ministério da Saúde reproduz, a lactante segue três faixas: menos de 6 semanas de parto, categoria 4; de 6 semanas a 6 meses, categoria 3; a partir de 6 meses, categoria 2. Ou seja, o combinado só deixa de ter restrição relevante na lactante depois do sexto mês. O Fluxograma 4 do protocolo brasileiro diz isso em linguagem de consultório: em geral, os anticoncepcionais orais combinados não são usados em mulheres nos primeiros seis meses do pós-parto que estejam amamentando.

Na mulher que não amamenta, a janela é curta e o divisor é o vigésimo primeiro dia. Antes de 21 dias, sem outro fator de risco para trombose, categoria 3; com fator de risco, categoria 4. De 21 a 42 dias, sem fator de risco, categoria 2; com fator de risco, categoria 3. Depois de 42 dias, categoria 1, sem restrição. O protocolo brasileiro converte isso numa instrução única: pode iniciar o combinado em qualquer momento após o vigésimo primeiro dia do pós-parto, desde que com certeza razoável de que não está grávida.

Pós-aborto é outra história e a resposta é generosa: pode começar imediatamente. Iniciando nos sete dias seguintes ao abortamento, espontâneo ou não, não é preciso método de apoio; passados sete dias, começa desde que haja certeza razoável de que não está grávida. A lógica é que o risco trombótico do abortamento de primeiro trimestre não se compara ao do parto a termo, e que o retorno da ovulação é rápido.

A idade não contraindica; o cigarro depois dos 35 sim

A idade isolada nunca chega à categoria 3. Da menarca aos 40 anos, categoria 1. A partir dos 40 anos, categoria 2. É isso, nas duas réguas. A prova finge que não é assim com alguma regularidade — a vinheta traz uma mulher de 43 anos, saudável, e oferece como alternativa suspender o combinado por causa da idade. Não há amparo nos critérios para isso.

O que existe é uma leitura de contexto, e a Febrasgo a explicita: o uso acima dos 40 anos é recomendado pelas comissões norte-americanas desde que se trate de mulher saudável, com perfil de risco conhecido, de preferência em baixas concentrações de estrogênio e progestágeno; mas, como idade e obesidade são fatores de risco independentes para eventos cardiovasculares e para tromboembolismo — marcadamente em usuárias com mais de 39 anos —, a relação risco-benefício deve ser individualizada. Isso não transforma a idade em contraindicação; transforma a idade em motivo para procurar as outras linhas da tabela.

O cigarro, sim, é uma contraindicação por idade — mas por idade somada a quantidade. Abaixo dos 35 anos, fumar é categoria 2, qualquer que seja o número de cigarros. A partir dos 35 anos, menos de 15 cigarros por dia é categoria 3; 15 cigarros por dia ou mais é categoria 4. Os dois números precisam ser lidos juntos, e a vinheta costuma dar um e esconder o outro. Uma mulher de 36 anos que fuma 10 cigarros por dia é categoria 3, não 4; uma de 34 anos que fuma um maço é categoria 2.

Vale notar o que a obesidade faz e o que não faz: índice de massa corporal igual ou maior que 30 é categoria 2 isoladamente, tanto na tabela do Ministério quanto na sexta edição da OMS. A obesidade entra na conta como um dos fatores que, combinados, levam à linha de múltiplos fatores de risco cardiovascular, e como fator de risco para trombose no puerpério — mas sozinha não proíbe.

Antes de prescrever: o que se mede e o que não se pede

O protocolo da Febrasgo é explícito e a frase é de prova: não é necessária a solicitação de exames subsidiários para o uso de anticoncepcional hormonal combinado, mas a aferição da pressão arterial e uma cuidadosa anamnese a respeito de antecedentes pessoais e familiares de trombofilias, neoplasias hormônio-dependentes, eventos tromboembólicos e enxaqueca com aura são mandatórias. Ou seja: o único procedimento obrigatório é medir a pressão. Tudo o mais que decide a categoria vem da conversa.

Disso decorre que não se rastreia trombofilia com painel laboratorial antes de prescrever. A trombofilia entra na régua quando é conhecida — porque já foi investigada por outro motivo, ou porque houve evento. Pedir dosagem de fator V de Leiden para toda mulher que quer pílula é exame subsidiário, e o protocolo diz que exame subsidiário não é necessário.

Decorre também o que o Fluxograma 4 do Ministério diz com todas as letras: não é preciso realizar colpocitologia, exame de mamas ou exame pélvico para iniciar o uso. Condicionar a receita ao preventivo em dia é criar barreira de acesso sem ganho de segurança — o preventivo é rastreamento de câncer de colo e continua indicado por seus próprios critérios, mas não é pré-requisito de anticoncepção.

Quanto ao início, a régua brasileira tem duas partes. A preferência é começar entre o primeiro e o quinto dia do ciclo menstrual, quando não é preciso método de apoio. Mas o método pode ser fornecido em qualquer momento para que a mulher inicie depois, e pode ser iniciado a qualquer dia desde que haja certeza razoável de que ela não está grávida — nesse caso, com método de apoio por sete dias. O documento é enfático: a anticoncepção oral pode ser fornecida à mulher em qualquer momento, e não há motivo para que isso não seja feito.

Vale saber as transições, porque a vinheta gosta delas. Quem vem de método não hormonal começa em qualquer momento do mês, com apoio por sete dias — e, se está com dispositivo intrauterino, inicia imediatamente após a retirada. Quem vem de outro método hormonal começa imediatamente; vindo de injetável, na data em que a próxima injeção seria dada. Quem acaba de usar anticoncepção de emergência começa no dia em que parar de tomá-la, com apoio por sete dias.

Esquecimento: a régua das 48 horas

O algoritmo norte-americano de 2024, que é o mais detalhado e o que usa cortes em horas, tem três degraus. Atraso de menos de 24 horas desde o horário em que o comprimido deveria ter sido tomado, ou um comprimido perdido, definido como 24 a menos de 48 horas: tomar o comprimido atrasado o quanto antes, seguir os demais no horário habitual mesmo que isso signifique tomar dois no mesmo dia, e nenhuma proteção adicional é necessária. Contracepção de emergência em geral não é preciso, mas pode ser considerada se houve esquecimentos antes no ciclo ou na última semana do ciclo anterior.

Dois ou mais comprimidos consecutivos perdidos, definidos como 48 horas ou mais desde o horário devido, mudam tudo: tomar o comprimido perdido mais recente o quanto antes e descartar os outros perdidos; seguir os demais no horário habitual; e usar método de apoio, ou evitar relação sexual, até que se tenham tomado comprimidos hormonais por sete dias consecutivos.

Duas ramificações se somam a isso, e são elas que separam alternativas. Se o esquecimento ocorreu na última semana de comprimidos ativos — os dias 15 a 21 de uma cartela de 28 —, suprime-se o intervalo sem hormônio: termina-se a cartela atual e inicia-se a nova no dia seguinte, sem pausa. Se não for possível iniciar a cartela nova imediatamente, mantém-se o método de apoio até completar sete dias de comprimidos da nova cartela. E se o esquecimento foi na primeira semana e houve relação sexual desprotegida nos cinco dias anteriores, a contracepção de emergência deve ser considerada.

A razão de todo o algoritmo é uma só e vale mais que a decoração: o perigo não está no comprimido perdido, está no tamanho do intervalo sem hormônio. Sete dias de pausa já são o limite do que o eixo tolera sem recrutar um folículo; esquecimentos colados ao início ou ao fim da cartela alongam esse intervalo e é aí que a ovulação escapa. Esquecer no meio da cartela é menos grave que esquecer nas bordas, e é por isso que a conduta na terceira semana é emendar as cartelas.

A régua brasileira em vigor na Atenção Básica conta comprimidos em vez de horas e dispara mais tarde. No Fluxograma 4 do Ministério da Saúde, esquecer um ou dois comprimidos, ou atrasar o início da nova cartela em um ou dois dias, resolve-se tomando um comprimido de imediato e o seguinte no horário regular, com a observação de que o risco de gravidez é muito baixo. É a partir de três comprimidos esquecidos que entram o método de apoio por sete dias e a avaliação de anticoncepção de emergência se houve sexo nos últimos cinco dias.

Vômito e diarreia entram no mesmo raciocínio: vomitar nas primeiras duas horas depois de tomar o comprimido equivale a não tê-lo tomado, e a conduta é repetir a dose assim que possível. Vômitos ou diarreia por mais de dois dias equivalem a esquecimento múltiplo, e seguem a regra do método de apoio.

O que reduz a eficácia: as interações que importam

A lista é curta e a Febrasgo a fecha em duas linhas: anticonvulsivantes — fenitoína, carbamazepina, barbitúricos, primidona, topiramato, oxcarbazepina e lamotrigina — e rifampicina. Na régua da OMS, todos esses são categoria 3 para o combinado, e a rifabutina acompanha a rifampicina. O mecanismo dos primeiros é a indução enzimática hepática, que acelera a depuração dos esteroides contraceptivos e derruba os níveis séricos.

A tabela do Ministério da Saúde traz uma nota de rodapé que resolve questão: ácido valproico não entra nessa lista. Ele não é indutor enzimático relevante, e a mulher em uso de valproato não tem redução da eficácia do combinado por essa via. É o distrator mais elegante que a lista permite.

A lamotrigina é caso à parte e merece atenção porque a lógica se inverte. O problema não é o anticonvulsivante derrubar o contraceptivo; é o contraceptivo derrubar o anticonvulsivante. O combinado reduz os níveis séricos de lamotrigina, com risco de perda de controle das crises — e, quando o combinado é suspenso, os níveis sobem e o risco passa a ser de toxicidade. Por isso a categoria 3 existe mesmo com a eficácia contraceptiva preservada.

O antirretroviral não é o vilão que parece. O Fluxograma 4 do Ministério da Saúde diz literalmente que mulheres infectadas pelo HIV, que tenham aids ou que estejam em terapia antirretroviral podem utilizar os anticoncepcionais orais combinados com segurança, e a sexta edição da OMS classifica a terapia antirretroviral em categoria 2 para o combinado. A orientação que acompanha é de dupla proteção — preservativo somado ao método hormonal —, e ela é por prevenção de transmissão, não por falha contraceptiva. Vinheta que oferece suspender a pílula porque a mulher iniciou terapia antirretroviral está oferecendo conduta sem amparo.

Quando a interação existe e é relevante, a saída não é aumentar a dose de estrogênio: é trocar por método que não dependa do metabolismo hepático de primeira passagem, ou por método de longa duração, que têm capítulo próprio. A categoria 3 permite manter o combinado quando não há alternativa disponível ou aceitável, e nesse caso o acompanhamento é próximo e o preservativo, associado.

Efeitos adversos: o que passa, o que faz trocar, o que faz parar

Os efeitos que passam são os primeiros meses. Náusea e tontura respondem a tomar o comprimido na hora de dormir ou junto do alimento. Mastalgia responde a sutiã firme, compressa e analgésico. Cefaleia comum responde a analgésico — e, quando ocorre justamente na semana sem hormônio, responde a regime estendido ou contínuo, que é a solução mais elegante do capítulo porque trata a causa em vez do sintoma. Alteração de humor que se concentra nos dias sem hormônio tem a mesma saída.

Sangramento de escape merece parágrafo próprio porque é a queixa que mais faz abandonar o método. Ele é esperado nos primeiros ciclos e perde intensidade ou cessa com o tempo. A conduta do Ministério da Saúde tem ordem: primeiro garantir que o uso está correto e de preferência sempre no mesmo horário; anti-inflamatório não esteroidal para alívio de curto prazo; e, na persistência da queixa, avaliar a troca da fórmula por uma com maior concentração de etinilestradiol, ou, se já estiver em 30 a 35 microgramas, avaliar formulação bifásica ou trifásica. E sempre considerar condição subjacente não relacionada ao método. Formulações ultrabaixas, de 15 microgramas, produzem mais escape e mais ausência de sangramento de privação — se a mulher está numa delas, a explicação pode ser a dose.

Sangramento inexplicável, intenso ou prolongado é outra coisa: pede avaliação com história e exame pélvico, diagnóstico e tratamento apropriados. A mulher pode continuar tomando o anticoncepcional enquanto o problema é avaliado, inclusive se o sangramento for causado por infecção sexualmente transmissível ou inflamação pélvica em tratamento. Ausência de sangramento pede afastar gravidez antes de qualquer outra conduta.

Dois mitos custam prescrição. O primeiro é o ganho de peso: o protocolo da Febrasgo registra que não foi observada relação entre ganho de peso e uso de combinado, apesar do relato de algumas mulheres. O segundo é o humor: um estudo observacional evidenciou discreto aumento do uso de antidepressivos entre usuárias de contracepção hormonal, na ordem de uma em cada mil usuárias, independentemente da formulação ou da via — um sinal real, de magnitude pequena, que não justifica desaconselhar o método por antecipação. Acne, ao contrário do que se teme, em geral melhora; se piorar, o protocolo sugere avaliar formulação com acetato de ciproterona ou drospirenona por três meses.

O que faz parar é curto: enxaqueca que aparece ou piora, com ou sem aura, em qualquer idade; pressão arterial que sobe para além dos cortes; icterícia; e qualquer sinal de evento trombótico. Nesses casos a conversa não é de troca de fórmula — é de retirada do estrogênio.

O que o combinado dá além de não engravidar — e o que ele cobra

Os benefícios não contraceptivos são argumento de adesão e são cobrados como conhecimento. O protocolo da Febrasgo os lista: melhora de acne e da oleosidade da pele e do couro cabeludo, sobretudo com progestágenos antiandrogênicos; menor risco de doenças benignas da mama e de cistos funcionais de ovário; melhora de dismenorreia, tensão pré-menstrual, cefaleia menstrual, adenomiose, miomatose uterina e endometriose; menor sangramento uterino anormal e, por consequência, menos deficiência de ferro e anemia; proteção endometrial em anovuladoras, na síndrome dos ovários policísticos e na perimenopausa; tendência de proteção da massa óssea; e redução no risco de câncer de endométrio, de ovário e colorretal.

Os dois números oncológicos vêm de reanálises colaborativas de grande porte. Para o ovário, a reanálise de 45 estudos com 23.257 casos encontrou redução proporcional de risco por 5 anos de uso de 29% quando o uso cessou há menos de 10 anos, 19% quando cessou há 10 a 19 anos e 15% quando cessou há 20 a 29 anos — ou seja, a proteção existe, é grande e decai lentamente depois de parar. Para o endométrio, a meta-análise de dados individuais de 36 estudos com 27.276 casos encontrou redução de 24% a cada 5 anos de uso, com o efeito mantido por mais de 30 anos após a interrupção.

A conta do outro lado também tem número. O combinado induz aumento da resistência à proteína C ativada e cria um estado pró-trombótico: duplica a sextuplica o risco relativo de trombose venosa profunda em relação a não usuárias, a depender da dose de etinilestradiol e do progestágeno associado. Para o território arterial, a meta-análise Cochrane citada pelo protocolo dá risco relativo de 1,6, com intervalo de 1,2 a 2,1, para infarto agudo do miocárdio, e de 1,7, com intervalo de 1,5 a 1,9, para acidente vascular cerebral isquêmico — sempre maior nas composições com mais estrogênio e nas que empregam progestágenos diferentes do levonorgestrel.

Daí a regra de dose que a prova cobra em uma linha: contraceptivos com menos de 50 microgramas de etinilestradiol, inclusive os de 15 microgramas, têm a mesma eficácia contraceptiva com menor risco de fenômenos tromboembólicos e cardiovasculares. Formulações com mais de 30 microgramas foram abandonadas como escolha contraceptiva. Não existe justificativa para prescrever alta dose de estrogênio com finalidade anticoncepcional.

Parar: o retorno da fertilidade

O bloqueio do combinado é funcional e reversível, e o retorno da fertilidade é imediato no sentido clínico da palavra: as taxas de concepção em 12 meses em ex-usuárias de pílula combinada ficam entre 72% e 94%, semelhantes às de mulheres que descontinuaram outros métodos. Quando existe atraso, ele é temporário e se limita aos primeiros meses depois da parada. A pílula não causa infertilidade, não exige período de descanso antes de tentar engravidar e não consome reserva ovariana.

O contraste que fixa a informação está dentro do próprio protocolo brasileiro, no fluxograma dos injetáveis: no caso do injetável trimestral de progestágeno, o retorno à fertilidade é gradual, mas pode apresentar alguma demora. Ou seja, a demora que o senso comum atribui à pílula pertence, quando pertence, ao trimestral — e não ao combinado, seja oral ou mensal.

Não existe, por fim, indicação de pausa periódica no uso. A ideia de dar um descanso ao corpo a cada tantos anos não tem amparo nos documentos, e tem custo real: o intervalo sem método é onde a gravidez não planejada acontece.

04

A régua completa: categoria por condição, e o que fazer com cada uma

As quatro categorias da Organização Mundial da Saúde são uma escala ordinal de verdade: vão de nenhuma restrição a risco inaceitável, e cada degrau muda a conduta. Os cards mostram os quatro degraus. O fluxo é a consulta na ordem em que ela acontece. A tabela principal é o coração do capítulo — a categoria do combinado, condição por condição, na sexta edição da OMS, que é a edição vigente. As tabelas seguintes fecham o que a vinheta cobra depois: as janelas do pós-parto, com a régua brasileira e a norte-americana lado a lado; o algoritmo do esquecimento em horas; e o que o SUS de fato entrega.

  1. 1Pergunte o que tranca, antes de escolher a via. A anamnese dirigida tem itens fixos: enxaqueca e, se houver, se vem com aura; trombose venosa profunda ou embolia pulmonar, pessoal ou familiar, e trombofilia conhecida; câncer de mama atual ou passado; tabagismo, com quantos cigarros por dia; idade; tempo desde o parto e se amamenta; hipertensão; diabetes, com quantos anos de doença e se há nefropatia, retinopatia ou neuropatia; doença isquêmica do coração, acidente vascular cerebral, doença valvar, lúpus; hepatopatia; cirurgia programada com imobilização; e todos os medicamentos em uso.
  2. 2Meça a pressão arterial. É o único procedimento obrigatório antes de prescrever, e é o que separa a categoria 2 da 3 e da 4 na linha da hipertensão.
  3. 3Não peça exame subsidiário. Nem colpocitologia, nem exame de mamas, nem exame pélvico, nem painel de trombofilia. Nenhum deles é pré-requisito para iniciar o método, e exigi-los cria barreira de acesso sem ganho de segurança.
  4. 4Classifique pela condição de maior categoria, não pela média. Havendo mais de uma condição, vale a mais restritiva. A exceção que a própria tabela cria é a linha de múltiplos fatores de risco para doença cardiovascular, que é 3 ou 4 mesmo quando cada fator, isolado, seria menor.
  5. 5Leia a categoria como conduta. 1 ou 2: pode usar. 3: o uso geralmente não é recomendado, e só se sustenta se nenhum outro método adequado estiver disponível ou for aceitável, com acompanhamento próximo. 4: não usar, e a conversa muda de assunto para os métodos sem estrogênio.
  6. 6Havendo dois números na linha, o primeiro vale para iniciar e o segundo para continuar. A mesma condição pode permitir seguir usando e não permitir começar, ou o contrário.
  7. 7Defina quando começar. Entre o primeiro e o quinto dia do ciclo, sem método de apoio. Em qualquer outro dia, desde que haja certeza razoável de que não está grávida, com método de apoio por sete dias. A caixa pode ser entregue hoje para começar depois.
  8. 8Oriente o esquecimento e as interações antes de a mulher sair da sala. É a única parte do método que depende inteiramente dela, e é onde o uso típico se afasta do uso perfeito por um fator de trinta.
  9. 9Marque retorno no primeiro ano, e reavalie a régua a cada consulta. A categoria muda com o tempo: a mulher faz 35 anos e continua fumando, a pressão sobe, aparece uma aura, ela engravida e volta no puerpério. A elegibilidade não é uma decisão única, é uma leitura repetida.

Categoria 1 — sem restrição

Condição para a qual não há restrição ao uso do método. Na tradução operacional do Ministério da Saúde: pode ser usado em qualquer circunstância. Entram aqui, entre outras, a idade da menarca até os 40 anos, a puérpera que não amamenta com mais de 42 dias de parto, e a mulher com infecção sexualmente transmissível que não seja HIV nem hepatite.

Categoria 2 — as vantagens superam os riscos

Condição em que as vantagens de usar o método geralmente superam os riscos teóricos ou comprovados. Uso permitido, em geral, sem necessidade de acompanhamento diferente do habitual. Entram aqui idade a partir de 40 anos, obesidade com índice de massa corporal igual ou maior que 30, tabagismo abaixo dos 35 anos em qualquer quantidade, enxaqueca sem aura abaixo dos 35 anos, terapia antirretroviral e cirurgia maior sem imobilização prolongada.

Categoria 3 — os riscos superam as vantagens

Condição em que os riscos teóricos ou comprovados geralmente superam as vantagens. O uso geralmente não é recomendado, com uma exceção estreita: quando outros métodos indicados não estejam disponíveis ou não sejam aceitáveis — e, nesse caso, com acompanhamento próximo. Na coluna que reduz a escala a duas respostas, a resposta aqui já é não. Entram hipertensão de 140 a 159 por 90 a 99 milímetros de mercúrio, tabagismo abaixo de 15 cigarros por dia a partir dos 35 anos, lactante de 6 semanas a 6 meses, câncer de mama passado sem doença há 5 anos, anticonvulsivante indutor enzimático e rifampicina.

Categoria 4 — risco inaceitável

Condição que representa risco inaceitável à saúde se o método for usado. Não deve ser usado — é contraindicação absoluta, sem exceção de disponibilidade. Entram enxaqueca com aura em qualquer idade, trombose venosa profunda ou embolia pulmonar atual ou pregressa, trombofilia conhecida, hipertensão a partir de 160 por 100, tabagismo de 15 cigarros por dia ou mais a partir dos 35 anos, doença isquêmica do coração, acidente vascular cerebral, lúpus com anticorpo antifosfolípide, câncer de mama atual, cirrose descompensada e lactante nas primeiras 6 semanas de pós-parto.

CondiçãoCategoria do combinado — OMS, 6ª edição (2025)O detalhe que a vinheta usa
Idade, isoladamente: da menarca aos 40 anos1Idade sozinha nunca contraindica. Não há corte que a leve a 3 ou 4.
Idade a partir de 40 anos2Continua liberado. A individualização vem da soma com obesidade e outros fatores, não da idade em si.
Tabagismo abaixo dos 35 anos, qualquer quantidade2O número de cigarros só passa a contar a partir dos 35 anos.
Tabagismo a partir dos 35 anos, menos de 15 cigarros por dia3Mulher de 36 anos que fuma 10 cigarros é 3, não 4.
Tabagismo a partir dos 35 anos, 15 cigarros por dia ou mais4Os dois números — idade e quantidade — precisam estar presentes.
Hipertensão com sistólica de 140 a 159 ou diastólica de 90 a 99 mmHg3É o corte que mais separa a régua brasileira da norte-americana.
Hipertensão com sistólica de 160 ou mais, ou diastólica de 100 ou mais4Contraindicação absoluta, mesmo sem lesão de órgão.
Hipertensão adequadamente controlada, em acompanhamento3Controlada não devolve o método: continua sendo 3.
Hipertensão associada a doença vascular4A doença vascular sobrepõe qualquer nível pressórico.
Múltiplos fatores de risco para doença cardiovascular3 ou 4Idade avançada, tabagismo, diabetes e hipertensão somados. É a única linha em que a soma vale mais que cada parte.
Trombose venosa profunda ou embolia pulmonar atual4
Trombose venosa profunda ou embolia pulmonar pregressa4Não importa há quanto tempo foi.
Trombose venosa profunda ou embolia pulmonar em uso de anticoagulante4O anticoagulante não devolve o método na régua da OMS e na da Febrasgo.
Trombofilia conhecida (mutação trombogênica)4Conhecida — não se rastreia trombofilia antes de prescrever.
Cirurgia maior com imobilização prolongada4Cirurgia maior sem imobilização prolongada é 2. O qualificador é a imobilização.
Doença isquêmica do coração, atual ou pregressa4
Acidente vascular cerebral, atual ou pregresso4
Doença valvar complicada (hipertensão pulmonar, fibrilação atrial, endocardite bacteriana)4Doença valvar não complicada é 2.
Miocardiopatia periparto, menos de 6 meses4A partir de 6 meses, cai para 3.
Enxaqueca com aura, em qualquer idade4Sem corte etário, sem corte de frequência, sem corte de tempo desde a última crise.
Enxaqueca sem aura, abaixo dos 35 anos2A tabela do Ministério detalha 2 para iniciar e 3 para manter.
Enxaqueca sem aura, a partir dos 35 anos3Ministério e Febrasgo trazem 4 para continuar o uso.
Câncer de mama atual4
Câncer de mama passado, sem evidência de doença há 5 anos3Não volta a 1 — para em 3.
Lúpus eritematoso sistêmico com anticorpo antifosfolípide positivo ou desconhecido4Desconhecido conta como positivo.
Diabetes com nefropatia, retinopatia, neuropatia, outra vasculopatia ou mais de 20 anos de doença3 ou 4Diabetes sem complicação e com menos de 20 anos não entra aqui.
Cirrose descompensada4Adenoma hepatocelular e hepatoma também são 4 (para o injetável, 3).
Obesidade, índice de massa corporal igual ou maior que 302Isolada, não proíbe. Conta como fator na linha dos múltiplos fatores de risco e no puerpério.
Anticonvulsivante indutor enzimático (fenitoína, carbamazepina, barbitúricos, primidona, topiramato, oxcarbazepina) e lamotrigina3Ácido valproico não entra nesta lista.
Rifampicina ou rifabutina3Indução enzimática — a eficácia contraceptiva cai.
Terapia antirretroviral2O protocolo brasileiro é explícito: podem usar o combinado com segurança, com dupla proteção por prevenção de transmissão.

Pós-parto e amamentação: as janelas, com as duas réguas lado a lado

SituaçãoOMS 6ª ed. (2025) e Ministério da SaúdeCDC (2024)O que fazer
Amamentando, até 21 dias de parto44Sem estrogênio, sem discussão.
Amamentando, de 21 a 30 dias43A janela brasileira só termina às 6 semanas.
Amamentando, de 30 a 42 dias42 sem outro fator de risco para trombose; 3 com fator de riscoO ponto de maior distância entre as duas réguas.
Amamentando, de 6 semanas a 6 meses32Na régua brasileira, o uso geralmente não é recomendado nessa faixa.
Amamentando, 6 meses ou mais22Aqui as duas réguas voltam a coincidir.
Não amamentando, até 21 dias, sem fator de risco para trombose34Aqui a régua norte-americana é a mais restritiva.
Não amamentando, até 21 dias, com fator de risco para trombose44Fatores: trombose prévia, trombofilia, obesidade, hemorragia ou transfusão pós-parto, imobilidade, pré-eclâmpsia, tabagismo, cesariana imediata.
Não amamentando, de 21 a 42 dias, sem fator de risco22É a partir do 21º dia que o protocolo brasileiro autoriza iniciar.
Não amamentando, de 21 a 42 dias, com fator de risco33
Pós-abortamento, espontâneo ou provocadoPode iniciar imediatamentePode iniciar imediatamenteIniciando em até 7 dias, sem método de apoio; depois disso, com certeza razoável de não estar grávida.

Esquecimento de comprimido: o algoritmo em horas

SituaçãoO que fazer com os comprimidosMétodo de apoioContracepção de emergência
Atraso de menos de 24 horasTomar o comprimido atrasado o quanto antes e seguir os demais no horário habitual, mesmo que isso signifique dois no mesmo dia.Não é necessárioEm geral não é preciso; pode ser considerada se houve esquecimentos antes no ciclo ou na última semana do ciclo anterior.
Um comprimido perdido (24 a menos de 48 horas)Mesma conduta: tomar o quanto antes e seguir no horário habitual.Não é necessárioMesma ressalva da linha acima.
Dois ou mais comprimidos consecutivos perdidos (48 horas ou mais)Tomar o comprimido perdido mais recente o quanto antes e descartar os outros perdidos; seguir os demais no horário habitual.Sim, até completar 7 dias consecutivos de comprimidos hormonaisConsiderar conforme as duas linhas abaixo.
Esquecimento de 2 ou mais na última semana de comprimidos ativos (dias 15 a 21 de uma cartela de 28)Suprimir o intervalo sem hormônio: terminar a cartela atual e iniciar a nova no dia seguinte, sem pausa.Se não for possível iniciar a nova cartela imediatamente, manter o apoio até 7 dias de comprimidos da cartela nova
Esquecimento de 2 ou mais na primeira semana, com relação desprotegida nos 5 dias anterioresSeguir a conduta dos 2 ou mais comprimidos.Sim, 7 diasDeve ser considerada
Vômito nas primeiras 2 horas após tomar o comprimidoRepetir a dose assim que possível e continuar normalmente.Não é necessário se a dose foi reposta
Vômito ou diarreia por mais de 2 diasTratar como esquecimento múltiplo.Sim, 7 diasConsiderar se houve relação desprotegida

O que o SUS entrega, com apresentação e dose

MétodoApresentação padronizadaÉ combinado?
Anticoncepcional oral combinado, monofásicoEtinilestradiol 0,03 mg + levonorgestrel 0,15 mgSim — é a pílula do capítulo
Injetável mensalEnantato de noretisterona 50 mg + valerato de estradiol 5 mgSim — mesma régua de elegibilidade da pílula
MinipílulaNoretisterona 0,35 mgNão — é a saída quando o estrogênio está vedado
Injetável trimestralAcetato de medroxiprogesterona 150 mgNão — progestágeno isolado
Anticoncepção hormonal de emergênciaLevonorgestrel 0,75 mgNão — tem capítulo próprio
Dispositivo intrauterino de cobreTCu-380ANão — tem capítulo próprio
Implante subdérmicoEtonogestrelNão — tem capítulo próprio
BarreiraPreservativo interno e externo; diafragmaNão
DefinitivosLaqueadura tubária e vasectomiaNão

Categoria 3 não é pode com cuidado. A própria OMS reduz a escala a duas respostas para serviços com recursos clínicos limitados: 1 e 2 significam que a mulher pode usar; 3 e 4 significam que ela não é elegível. A porta que a categoria 3 deixa aberta é estreita e condicional — só quando nenhum outro método adequado está disponível ou é aceitável, e com acompanhamento próximo.

Quando a linha traz dois números, o primeiro vale para introduzir o método e o segundo para mantê-lo. É por isso que enxaqueca sem aura a partir dos 35 anos aparece como 3 para iniciar e 4 para continuar na régua brasileira: a mulher que desenvolve o quadro em uso está numa situação diferente da que chega com ele.

Havendo mais de uma condição, vale a de maior categoria — as categorias não se somam nem se promediam. A exceção é a linha múltiplos fatores de risco para doença cardiovascular, que existe justamente para o caso em que vários fatores de categoria menor coexistem.

A régua do injetável mensal é a mesma da pílula, e a do anel e a do adesivo também. O que trava o método é o componente estrogênico, e ele está em todas as vias. O adesivo tem uma restrição extra e só dele: não é recomendado acima de 90 quilos, por queda de eficácia.

Passados 42 dias do parto, na mulher que não amamenta, o combinado é categoria 1 — sem restrição.

A régua brasileira do esquecimento conta comprimidos e dispara mais tarde que a norte-americana: no Fluxograma 4 do Ministério da Saúde, um ou dois comprimidos esquecidos, ou um a dois dias de atraso no início da nova cartela, resolvem-se tomando um comprimido de imediato, com a observação de que o risco de gravidez é muito baixo; é a partir de três comprimidos que entram o método de apoio por sete dias e a avaliação de contracepção de emergência se houve sexo nos últimos cinco dias.

O risco do esquecimento não está no comprimido perdido, e sim no tamanho do intervalo sem hormônio. Sete dias já são o limite do que o eixo tolera; esquecimentos colados às bordas da cartela alongam esse intervalo e é aí que a ovulação escapa. Por isso a conduta na terceira semana é emendar as cartelas.

Gravidez não é categoria 4 para o combinado. A tabela do Ministério da Saúde a marca com uma nota que diz que ainda não há riscos demonstrados para o feto, para a mulher ou para a evolução da gestação quando o método é usado acidentalmente na gravidez. O método simplesmente não serve. Para o dispositivo intrauterino de cobre, gravidez é categoria 4.

Índice de Pearl é o número de gestações a cada 100 mulheres em um ano. Para a pílula combinada: 0,3 no uso perfeito; 9 no uso típico pela tabela da Febrasgo e 8 pela do Ministério. Para o injetável mensal: 0,2 e 6 pela Febrasgo, 0,05 e 3 pelo Ministério. Cerca de um terço das usuárias abandona o método no primeiro ano.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Quando o combinado é liberado para a lactante

Organização Mundial da Saúde (6ª edição, 2025) e Ministério da Saúde (2016): a lactante só sai da restrição aos 6 meses

A régua é de três faixas e é a mesma nos dois documentos: amamentando com menos de 6 semanas de parto, categoria 4; de 6 semanas a 6 meses, categoria 3; a partir de 6 meses, categoria 2. O Fluxograma 4 do protocolo brasileiro traduz isso em instrução direta — em geral, os anticoncepcionais orais combinados não são usados em mulheres nos primeiros seis meses do pós-parto que estejam amamentando. A causa da faixa longa não é trombose, que se resolve nas primeiras semanas: é o efeito do estrogênio sobre o volume da produção láctea. O documento é escrito para sistemas de saúde em que a amamentação tem peso decisivo na sobrevida e na nutrição do lactente, e em que a alternativa ao leite materno pode não ser segura — nesse contexto, qualquer redução de volume é um risco que pesa mais do que a conveniência da via.

World Health Organization, Medical eligibility criteria for contraceptive use, 6ª edição, 2025, seção 5, tabela dos contraceptivos hormonais combinados; Brasil, Ministério da Saúde e Instituto Sírio-Libanês, Protocolos da Atenção Básica: Saúde das Mulheres, 2016, Quadro 2 (critérios de elegibilidade da OMS por condição clínica)

Centers for Disease Control and Prevention (2024): a lactante sai da restrição entre 30 e 42 dias

As faixas norte-americanas são mais curtas e ancoradas no risco trombótico. Amamentando com menos de 21 dias de parto, categoria 4; de 21 a 30 dias, categoria 3; de 30 a 42 dias, categoria 2 quando não há outro fator de risco para tromboembolismo, e 3 quando há. Ou seja, a mulher que amamenta e teve parto há cinco semanas, sem comorbidade, é categoria 2 nessa régua e categoria 4 na brasileira. A causa da diferença é a leitura da evidência sobre a lactação: o documento norte-americano não considerou o efeito sobre o leite suficiente para sustentar restrição além da janela trombótica, e passou a governar a decisão pelos fatores de risco para tromboembolismo, que é o desfecho de mortalidade em jogo.

Centers for Disease Control and Prevention, U.S. Medical Eligibility Criteria for Contraceptive Use, 2024, MMWR Recommendations and Reports 73(4)

Na prova

Três pistas identificam o recorte. O cenário: unidade básica de saúde, consulta puerperal, menção ao Ministério da Saúde, ao SUS ou à Atenção Básica colocam a vinheta dentro da faixa de 6 meses. A unidade de tempo do enunciado: um enunciado que descreve o pós-parto em semanas e em meses trabalha com a régua brasileira, que corta em 6 semanas e 6 meses; um que descreve em dias e destaca fatores de risco para tromboembolismo trabalha com a régua norte-americana, que corta em 21, 30 e 42 dias. E as próprias alternativas: opção que oferece o combinado a uma lactante de dois meses só existe no mundo norte-americano, e a presença dela na lista denuncia a origem da questão. Prova oficial do MEC tende a conduta SUS; em outras bancas, o que as alternativas revelam pesa mais que a citação no enunciado.

Hipertensão de 140 a 159 por 90 a 99 milímetros de mercúrio

Organização Mundial da Saúde (6ª edição, 2025) e Ministério da Saúde (2016): categoria 3

A pressão sistólica entre 140 e 159, ou diastólica entre 90 e 99, é categoria 3 para o combinado — o uso geralmente não é recomendado, salvo quando nenhum outro método adequado está disponível ou é aceitável. A mesma régua classifica como 3 a hipertensão adequadamente controlada em acompanhamento e a hipertensão sem acompanhamento, o que revela a lógica: o documento é escrito para cenários em que a pressão pode não ser remedida com regularidade e em que o etinilestradiol, que aumenta a síntese hepática de angiotensinogênio e eleva a pressão sistêmica pelo sistema renina-angiotensina-aldosterona, seria acrescentado a um risco arterial que ninguém está monitorando.

World Health Organization, Medical eligibility criteria for contraceptive use, 6ª edição, 2025, seção 5, tabela dos contraceptivos hormonais combinados; Brasil, Ministério da Saúde e Instituto Sírio-Libanês, Protocolos da Atenção Básica: Saúde das Mulheres, 2016, Quadro 2 (critérios de elegibilidade da OMS por condição clínica)

Centers for Disease Control and Prevention (2024): categoria 2

Na régua norte-americana, a mesma faixa pressórica é categoria 2 — as vantagens superam os riscos, e o método pode ser oferecido. A partir de 160 por 100, as duas réguas voltam a coincidir em categoria 4. A causa da diferença está no que entra na conta do outro prato da balança: em um sistema com aferição pressórica regular e acesso a anti-hipertensivo, o risco arterial acrescido nessa faixa é pequeno diante do risco de uma gravidez não planejada em mulher hipertensa, que é um desfecho obstétrico de alto risco por si.

Centers for Disease Control and Prevention, U.S. Medical Eligibility Criteria for Contraceptive Use, 2024, MMWR Recommendations and Reports 73(4)

Na prova

O enunciado que traz uma pressão dentro dessa faixa está construído em cima da bifurcação, e a pista está no que ele faz com o número. Enunciado que cita o Ministério da Saúde, a Atenção Básica ou os critérios da OMS, e que descreve a mulher sem seguimento pressórico regular, trabalha com categoria 3 e com a conduta de oferecer método sem estrogênio. Enunciado que descreve consulta com aferição em série, tratamento anti-hipertensivo em curso e retorno programado, e que oferece entre as alternativas manter o combinado com controle pressórico, está no recorte norte-americano. Vale lembrar que, nas duas réguas, 160 por 100 é 4 — quando a vinheta cruza esse valor, a bifurcação desaparece.

Enxaqueca sem aura a partir dos 35 anos

Organização Mundial da Saúde (6ª edição, 2025), Ministério da Saúde (2016) e Febrasgo (2025): 3 para iniciar, 4 para continuar

A sexta edição dos critérios da OMS traz categoria 3 para enxaqueca sem aura a partir dos 35 anos. A tabela do Ministério da Saúde desdobra o número em introdução e manutenção: 3 para iniciar e 4 para continuar em uso. O Quadro 5 do protocolo da Febrasgo é ainda mais explícito e lista, entre as contraindicações absolutas, a enxaqueca sem aura somada a idade igual ou maior que 35 anos para continuar em uso do combinado. Abaixo dos 35 anos, a mesma condição é categoria 2. O fundamento é o risco de acidente vascular cerebral isquêmico, que sobe com a idade e sobe de novo com o estrogênio, e a leitura de que a enxaqueca que persiste depois dos 35 anos em usuária de combinado sinaliza um substrato vascular.

World Health Organization, Medical eligibility criteria for contraceptive use, 6ª edição, 2025, seção 5, tabela dos contraceptivos hormonais combinados; Brasil, Ministério da Saúde e Instituto Sírio-Libanês, Protocolos da Atenção Básica: Saúde das Mulheres, 2016, Quadro 2 (critérios de elegibilidade da OMS por condição clínica); Febrasgo, Anticoncepção hormonal combinada, Protocolo Febrasgo de Ginecologia nº 78, Femina 2025;53(12):1382-9, Quadro 5

Centers for Disease Control and Prevention (2024): categoria 2 em qualquer idade

Na régua norte-americana, enxaqueca sem aura é categoria 2 em qualquer idade — não há desdobramento por faixa etária e não há mudança entre iniciar e continuar. A distinção que essa régua faz é única e é a da aura: com aura, categoria 4 em qualquer idade; sem aura, categoria 2 em qualquer idade. A causa é uma leitura mais restrita da evidência: o incremento de risco de acidente vascular isquêmico associado à enxaqueca aparece atrelado à aura, e não à cefaleia enxaquecosa em si, de modo que a idade sem aura não foi considerada suficiente para deslocar a categoria.

Centers for Disease Control and Prevention, U.S. Medical Eligibility Criteria for Contraceptive Use, 2024, MMWR Recommendations and Reports 73(4)

Na prova

As duas réguas concordam em tudo o que envolve aura, e discordam só na cefaleia sem aura depois dos 35 anos. Por isso a primeira coisa a fazer é ler a descrição do sintoma: se há fenômeno neurológico focal precedendo a dor, a bifurcação some e a categoria passa a ser a mesma em todas as fontes. Havendo enxaqueca sem aura em mulher de 35 anos ou mais, o recorte se identifica pelo verbo do enunciado — iniciar o método puxa para a categoria 3, manter o método em uso puxa para a leitura de continuação, que é a mais restritiva na régua brasileira. Alternativa redigida como manter o combinado e reavaliar em três meses só faz sentido no mundo em que a condição é categoria 2.

Quantos comprimidos esquecidos disparam o método de apoio

Ministério da Saúde (2016): a partir do terceiro comprimido

O Fluxograma 4 do protocolo brasileiro conta comprimidos. Esquecer um ou dois comprimidos, ou atrasar o início da nova cartela em um ou dois dias, resolve-se tomando um comprimido de imediato e o seguinte no horário regular, com a observação textual de que nesses casos o risco de gravidez é muito baixo — sem método de apoio. É a partir de três comprimidos esquecidos que entram o método contraceptivo de apoio por sete dias e a avaliação da necessidade de anticoncepção de emergência quando houve sexo nos últimos cinco dias. A régua é construída para orientação verbal em unidade básica, com a instrução mais simples possível de memorizar e de repetir.

Brasil, Ministério da Saúde e Instituto Sírio-Libanês, Protocolos da Atenção Básica: Saúde das Mulheres, 2016, Quadro 2 (critérios de elegibilidade da OMS por condição clínica), Fluxograma 4 (anticoncepcional oral combinado e minipílula)

Centers for Disease Control and Prevention (2024) e Organização Mundial da Saúde (4ª edição das recomendações de prática, 2025): a partir de 48 horas

As duas réguas internacionais contam horas, não comprimidos, e disparam antes. Um comprimido perdido, definido como 24 a menos de 48 horas desde o horário devido, não exige proteção adicional. Dois ou mais comprimidos consecutivos perdidos, definidos como 48 horas ou mais, exigem método de apoio até que se completem sete dias consecutivos de comprimidos hormonais, com supressão do intervalo sem hormônio quando o esquecimento ocorreu na última semana de comprimidos ativos e com contracepção de emergência quando ocorreu na primeira semana e houve relação desprotegida nos cinco dias anteriores. Contar em horas resolve o caso da mulher que toma o comprimido em horários muito variáveis, que o critério do número de comprimidos não distingue.

Centers for Disease Control and Prevention, U.S. Medical Eligibility Criteria for Contraceptive Use, 2024, MMWR Recommendations and Reports 73(4); Centers for Disease Control and Prevention, Recommended Actions After Late or Missed Combined Oral Contraceptives, quadro das U.S. Selected Practice Recommendations for Contraceptive Use, 2024; World Health Organization, Selected practice recommendations for contraceptive use, 4ª edição, 2025

Na prova

A questão que separa as réguas é exatamente a do esquecimento de dois comprimidos — é o único número em que elas dão condutas diferentes. Um comprimido não dispara apoio em nenhuma das duas; três disparam em ambas. Identificar o recorte é ler a unidade em que o enunciado escreve: vinheta que fala em quantos comprimidos ela esqueceu está na régua brasileira; vinheta que informa quantas horas se passaram desde o horário habitual está na régua internacional. Menção a unidade básica, a Atenção Básica ou ao Ministério da Saúde reforça a primeira leitura. Quando o esquecimento é de três ou mais, a bifurcação desaparece e a conduta é a mesma: método de apoio por sete dias e avaliação de contracepção de emergência se houve relação desprotegida nos últimos cinco dias.

O risco de tromboembolismo muda com a geração do progestágeno

Meta-análise de Kemmeren e estudos de coorte: os progestágenos de terceira geração e a drospirenona têm risco maior

A meta-análise de Kemmeren e colaboradores encontrou, para contraceptivos combinados com progestágenos de terceira geração, o dobro do risco relativo de fenômenos tromboembólicos em relação aos combinados com levonorgestrel — risco relativo de 1,7, com intervalo de confiança de 95% de 1,4 a 2,0. Estudos posteriores que incluíram a drospirenona também a associaram a maior risco, entre eles a coorte dinamarquesa de Lidegaard e os estudos aninhados de caso-controle em bases britânicas. O menor risco observado em toda a literatura foi o do etinilestradiol com levonorgestrel, que é justamente a formulação padronizada no SUS. O protocolo da Febrasgo sintetiza a magnitude do efeito de classe: os combinados duplicam a sextuplicam o risco relativo de trombose venosa profunda em relação a não usuárias, a depender da dose de etinilestradiol e do progestágeno associado.

Febrasgo, Anticoncepção hormonal combinada, Protocolo Febrasgo de Ginecologia nº 78, Femina 2025;53(12):1382-9, citando Kemmeren et al., BMJ 2001;323:131-4, Lidegaard et al., BMJ 2011;343:d6423, e Vinogradova et al., BMJ 2015;350:h2135

Estudo internacional de vigilância ativa: as taxas são semelhantes entre progestágenos

O International Active Surveillance Study of Women Taking Oral Contraceptives, conduzido nos Estados Unidos e em nove países europeus com 85.109 mulheres acompanhadas de 2 a 6 anos, observou taxas semelhantes de tromboembolismo venoso e de tromboembolismo arterial entre usuárias de combinados com drospirenona e com qualquer outro progestágeno, inclusive o levonorgestrel. A diferença de desenho explica a diferença de resultado: vigilância ativa prospectiva com coleta padronizada não sofre o viés de prescrição das bases retrospectivas, em que as formulações mais novas são preferencialmente dadas a mulheres que estão começando a usar contraceptivo — e o primeiro ano de uso é exatamente o de maior incidência de trombose, qualquer que seja a pílula.

Febrasgo, Protocolo nº 78, Femina 2025, citando Dinger, Bardenheuer e Heinemann, Contraception 2014;89(4):253-63

Na prova

Este é um caso em que a controvérsia raramente decide uma alternativa, e saber disso é o que economiza tempo. As duas posições concordam no que a questão costuma cobrar: o combinado aumenta o risco de trombose em relação a não usar nada; a dose de etinilestradiol importa e formulações acima de 30 microgramas foram abandonadas; e nenhum progestágeno devolve a mulher categoria 4 ao método. O recorte se identifica pelo vocabulário: enunciado que nomeia gerações de progestágeno, drospirenona, gestodeno ou desogestrel está construído sobre a literatura de coorte; enunciado que cita vigilância ativa ou compara taxas absolutas de incidência trabalha com o outro corpo. Em cenário de SUS a discussão é praticamente inexistente, porque a única pílula combinada padronizada é etinilestradiol com levonorgestrel.

06

Caso resolvido

Mulher de 33 anos procura a unidade básica de saúde querendo iniciar anticoncepcional oral, indicada por uma amiga. Nuligesta, ciclos regulares de 28 dias, última menstruação há três dias, vida sexual ativa com parceria única, uso irregular de preservativo. Relata cefaleia recorrente desde os 17 anos, cerca de duas a três crises por ano, que descreve assim: cerca de vinte minutos antes da dor começa a enxergar pontos brilhantes que se movem e uma faixa em ziguezague no campo visual direito, que somem sozinhos, e só então vem a dor pulsátil de um lado só, com náusea e incômodo com a luz. A última crise foi há sete meses. Nega tabagismo, nega hipertensão, nega trombose pessoal ou familiar, nega uso de qualquer medicamento contínuo. Ao exame: pressão arterial de 112 por 74 mmHg, índice de massa corporal de 23,4 kg/m², exame físico sem alterações. A unidade dispõe do anticoncepcional oral combinado padronizado, do injetável mensal, da minipílula, do injetável trimestral e do dispositivo intrauterino de cobre.
achado
A descrição da cefaleia contém aura: fenômeno neurológico focal visual — pontos brilhantes em movimento e faixa em ziguezague em um hemicampo — que se instala e se resolve em minutos e precede a dor. Fotofobia, náusea e dor pulsátil unilateral são a enxaqueca em si e não caracterizam aura; o que caracteriza é o sintoma visual que vem antes.
achado
Nenhuma outra linha da tabela é alcançada: 33 anos é categoria 1 pela idade; não fuma, então a linha do tabagismo nem se abre; pressão de 112 por 74 é categoria 1; índice de massa corporal de 23,4 é categoria 1; sem trombose, sem trombofilia conhecida, sem medicamento indutor enzimático.
raciocínio
Enxaqueca com aura é categoria 4 para o combinado em qualquer idade, em todas as fontes — sexta edição da OMS, tabela do Ministério da Saúde e Quadro 5 da Febrasgo. Não existe corte etário que a atenue, não existe corte de frequência e não existe prazo de carência desde a última crise. Duas crises por ano, a última há sete meses, aos 33 anos, é a mesma categoria 4 de vinte crises por mês aos 45.
raciocínio
A categoria 4, ao contrário da 3, não tem porta de saída por indisponibilidade: risco inaceitável significa não usar, ponto. E a proibição alcança as quatro vias — pílula, adesivo, anel e injetável mensal —, porque a régua de elegibilidade do injetável combinado é a mesma da pílula. Trocar a via não resolve; o que trava é o estrogênio.
raciocínio
O motivo é vascular arterial: a aura eleva por si o risco de acidente vascular cerebral isquêmico, e o estrogênio o eleva de novo — a meta-análise Cochrane citada pelo protocolo da Febrasgo dá risco relativo de 1,7, com intervalo de 1,5 a 1,9, para acidente vascular isquêmico em usuárias de combinado, sempre maior nas formulações com mais estrogênio.
conduta
Não prescrever combinado, em nenhuma via. Explicar à mulher, com essas palavras, que a cefaleia com sintoma visual antes da dor é o que impede o método, e que a proibição vale para a pílula e para a injeção mensal. Oferecer os métodos sem estrogênio disponíveis na unidade: minipílula, injetável trimestral e dispositivo intrauterino de cobre — na tabela do Ministério da Saúde, todos com categoria compatível com o quadro. Reforçar dupla proteção com preservativo, dado o uso irregular. Medir a pressão e registrar. Marcar retorno próximo, porque é no primeiro ano que a descontinuidade acontece.
conduta
Não pedir exame nenhum para isso: nem colpocitologia, nem exame de mamas, nem exame pélvico, nem painel de trombofilia. A decisão inteira saiu da anamnese e de uma aferição de pressão arterial, que é o único procedimento obrigatório antes de prescrever.
07

Agora feche você

Puérpera de 27 anos comparece à consulta na unidade básica com 10 semanas de parto, trazendo o filho para a consulta de puericultura. Parto vaginal a termo, sem intercorrências, sem hemorragia e sem transfusão. Amamentação exclusiva, mamadas frequentes, criança ganhando peso adequadamente. Ainda não menstruou. Voltou a ter relações sexuais há duas semanas, sem preservativo, e diz que não quer engravidar de novo agora — pede a pílula que já tomava antes da gestação, a mesma que a unidade dispensa. Nega tabagismo, nega enxaqueca, nega trombose pessoal ou familiar, nega comorbidades e não usa medicamento algum. Ao exame: pressão arterial de 106 por 68 mmHg, índice de massa corporal de 26,1 kg/m², sem alterações. A unidade tem o anticoncepcional oral combinado, o injetável mensal, a minipílula, o injetável trimestral e o dispositivo intrauterino de cobre.
achado
Dez semanas de parto são cerca de dois meses e meio: passou das 6 semanas e está longe dos 6 meses. A mulher amamenta de forma exclusiva. Essa é a faixa intermediária da tabela — amamentando, de 6 semanas a 6 meses de parto.
achado
Nenhuma outra condição da régua está presente: 27 anos é categoria 1; não fuma; pressão normal; índice de massa corporal de 26,1 é abaixo de 30; sem enxaqueca, sem trombose, sem trombofilia conhecida, sem medicamento. O único item que decide o caso é o tempo de pós-parto somado à amamentação.
achado
Há um segundo problema no caso, e ele não é de elegibilidade: relações desprotegidas há duas semanas, sem retorno da menstruação. Antes de iniciar qualquer método é preciso ter certeza razoável de que ela não está grávida.
raciocínio
conduta
08

Onde a banca derruba

  1. 1Tratar a idade, sozinha, como contraindicação Atrai porque a frase pílula depois dos 40 é perigosa circula há décadas em consultório e em prova. Só que a tabela é literal: da menarca aos 40 anos, categoria 1; a partir dos 40, categoria 2. Idade isolada nunca chega a 3. O que existe é a recomendação de individualizar acima dos 40, preferindo baixas concentrações, porque idade e obesidade são fatores de risco independentes para eventos cardiovasculares e tromboembólicos — mas isso é motivo para procurar as outras linhas da tabela, não para negar o método a uma mulher de 43 anos saudável, não fumante e normotensa.
  2. 2Achar que a enxaqueca com aura só proíbe depois dos 35 anos Atrai porque a linha vizinha da tabela, a da enxaqueca sem aura, é justamente uma linha que muda aos 35 anos — e porque o tabagismo, que fica logo acima, também. A leitura correta é o inverso: a aura é a única condição neurológica que dispensa qualquer qualificador. Categoria 4 em qualquer idade, com qualquer frequência, mesmo que a última crise tenha sido anos atrás. Aos 22 anos com duas crises por ano é a mesma proibição que aos 44.
  3. 3Ler categoria 3 como pode, com acompanhamento Atrai porque 3 não é 4, e porque a redação do critério fala em exceção. Mas a própria OMS reduz a escala a duas colunas e coloca 3 do lado do não: 1 e 2 significam que ela pode usar; 3 e 4, que não é elegível. A exceção da categoria 3 é condicional e estreita — só quando nenhum outro método adequado está disponível ou é aceitável. Numa unidade com minipílula, injetável trimestral e dispositivo intrauterino na prateleira, a condição da exceção não se cumpre.
  4. 4Pedir exames antes de prescrever a pílula Atrai porque parece cuidado. O protocolo da Febrasgo diz o contrário com todas as letras: não é necessária a solicitação de exames subsidiários para o uso de combinado. O que é mandatório é aferir a pressão arterial e fazer anamnese cuidadosa sobre trombofilias, neoplasias hormônio-dependentes, eventos tromboembólicos e enxaqueca com aura. O Fluxograma 4 do Ministério acrescenta que não é preciso colpocitologia, exame de mamas ou exame pélvico para iniciar o uso. Painel de trombofilia é exame subsidiário e não entra: a trombofilia pesa na régua quando é conhecida.
  5. 5Tirar a média das categorias quando há mais de uma condição Atrai porque parece uma leitura razoável de risco somado. A regra é a oposta: vale a condição de maior categoria. Uma mulher categoria 2 por obesidade e categoria 4 por trombofilia é categoria 4. A única linha em que a soma opera é a de múltiplos fatores de risco para doença cardiovascular — idade avançada, tabagismo, diabetes e hipertensão —, que é 3 ou 4 mesmo quando cada fator, isolado, seria menor. Ou seja: a soma nunca alivia, e às vezes agrava.
  6. 6Achar que o injetável mensal é mais brando que a pílula Atrai porque a via injetável não passa pelo fígado na primeira passagem, e porque o intervalo mensal parece uma exposição menor. O protocolo da Febrasgo é explícito: as contraindicações do injetável combinado são as mesmas da anticoncepção combinada oral. O mesmo vale para o anel e para o adesivo. Oferecer a injeção mensal a uma mulher com enxaqueca com aura é repetir o erro por outra via.
  7. 7Suspender o combinado porque a mulher iniciou terapia antirretroviral Atrai porque antirretroviral é um mundo de interações, e porque a orientação de preservativo vem junto. Mas o Fluxograma 4 do Ministério da Saúde diz que mulheres com HIV, com aids ou em terapia antirretroviral podem utilizar os combinados com segurança, e a sexta edição da OMS classifica a terapia antirretroviral em categoria 2. O preservativo é orientado por prevenção de transmissão, não por falha contraceptiva. O que de fato derruba a eficácia é rifampicina e anticonvulsivante indutor enzimático.
  8. 8Colocar o ácido valproico na lista dos anticonvulsivantes que derrubam a pílula Atrai porque é o anticonvulsivante mais lembrado e porque a lista da tabela é longa. A nota de rodapé do Quadro 2 do Ministério da Saúde resolve: os anticonvulsivantes que entram são fenitoína, carbamazepina, topiramato, oxcarbazepina, barbitúricos e primidona, e não entra nessa lista o ácido valproico. A lamotrigina entra, mas por um motivo invertido — não é ela que derruba o contraceptivo, é o contraceptivo que derruba os níveis dela.
  9. 9Trocar de pílula porque a mulher engordou Atrai porque a queixa é frequente e porque parece um efeito de hormônio. O protocolo da Febrasgo registra que não foi observada relação entre ganho de peso e uso de combinado, apesar do relato de algumas mulheres. Trocar de fórmula por esse motivo troca um método que está funcionando por outro que também não fará a mulher emagrecer, com o custo de reiniciar o período de adaptação e de escape.
  10. 10Recomendar pausa periódica para descansar o corpo Atrai porque soa prudente e porque as usuárias perguntam. Não existe pausa recomendada nos documentos, e ela tem custo mensurável: o intervalo sem método é onde a gravidez não planejada acontece. O raciocínio vizinho, de que a pílula atrasaria a fertilidade e por isso conviria parar antes de tentar engravidar, também não se sustenta — as taxas de concepção em doze meses em ex-usuárias ficam entre 72% e 94%, iguais às de quem parou outros métodos. A demora gradual que o senso comum atribui à pílula pertence, no próprio protocolo brasileiro, ao injetável trimestral.
  11. 11Tratar o sangramento de escape do segundo mês como falha do método Atrai porque sangramento fora de hora assusta e porque parece indicar que a pílula não está fazendo efeito. Escape nos primeiros ciclos é esperado e costuma ceder sozinho. A conduta tem ordem: garantir uso correto e sempre no mesmo horário, anti-inflamatório não esteroidal para alívio de curto prazo e, só na persistência, avaliar troca de fórmula — por uma com maior concentração de etinilestradiol, ou, se já estiver em 30 a 35 microgramas, por bifásica ou trifásica. Formulações ultrabaixas, de 15 microgramas, produzem mais escape por desenho. E sangramento inexplicável, intenso ou prolongado é outra coisa: investiga-se, e ela pode continuar tomando durante a investigação.
  12. 12Marcar gravidez como categoria 4 para a pílula Atrai por simetria com o dispositivo intrauterino, para o qual gravidez é mesmo categoria 4. Para o combinado, a tabela do Ministério da Saúde não atribui categoria de risco: a nota diz que ainda não há riscos demonstrados para o feto, para a mulher ou para a evolução da gestação quando o método é usado acidentalmente na gravidez. A mulher grávida não precisa de anticoncepcional — mas ter tomado a pílula sem saber que estava grávida não é motivo de alarme, e essa é a informação que a consulta precisa entregar.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

O antecedente de trombose venosa profunda (fenômeno tromboembólico) é contraindicação ao uso de contraceptivos hormonais combinados, pois o estrogênio aumenta o risco trombótico (categoria 4 dos critérios de elegibilidade da OMS). A cefaleia tensional ocasional, ciclos regulares, dismenorreia primária leve e IMC normal (22 kg/m²) não contraindicam o método; aliás, a dismenorreia pode até se beneficiar do uso do contraceptivo combinado.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Os números, na ordem em que a vinheta os usa. Categorias: 1 sem restrição; 2 as vantagens superam os riscos; 3 os riscos superam as vantagens, uso geralmente não recomendado salvo se nenhum outro método adequado estiver disponível ou for aceitável; 4 risco inaceitável, não usar. Na coluna de duas respostas: 1 e 2 pode, 3 e 4 não pode. Categoria 4 completa: trombose venosa profunda ou embolia pulmonar atual ou pregressa, mesmo em anticoagulante; trombofilia conhecida; cirurgia maior com imobilização prolongada; lúpus com anticorpo antifosfolípide positivo ou desconhecido; doença valvar complicada; tabagismo de 15 cigarros por dia ou mais a partir dos 35 anos; doença isquêmica do coração atual ou pregressa; hipertensão com sistólica igual ou maior que 160 ou diastólica igual ou maior que 100; hipertensão com doença vascular; múltiplos fatores de risco cardiovascular; acidente vascular cerebral atual ou pregresso; enxaqueca com aura em qualquer idade; enxaqueca sem aura a partir dos 35 anos para continuar em uso; câncer de mama atual; diabetes com nefropatia, retinopatia, neuropatia, outra vasculopatia ou mais de 20 anos; cirrose descompensada, adenoma hepatocelular e hepatoma; lactante nas primeiras 6 semanas; puérpera não lactante com fator de risco para trombose nos primeiros 21 dias. Idade: até 40 anos é 1, a partir de 40 é 2 — nunca contraindica. Tabagismo: abaixo dos 35 anos é 2; a partir dos 35 com menos de 15 cigarros é 3; com 15 ou mais é 4. Hipertensão: 140 a 159 por 90 a 99 é 3; 160 por 100 é 4. Amamentando: menos de 6 semanas é 4, de 6 semanas a 6 meses é 3, a partir de 6 meses é 2. Não amamentando: menos de 21 dias é 3 sem fator de risco e 4 com; de 21 a 42 dias é 2 sem e 3 com; acima de 42 dias é 1. Eficácia: uso perfeito 0,3 e uso típico 9 (8 na tabela do Ministério); injetável mensal 0,2 e 6; um terço abandona no primeiro ano. Esquecimento: até 48 horas nada muda; 48 horas ou mais, apoio até 7 dias consecutivos de comprimido, suprimir o intervalo sem hormônio se foi na última semana ativa, e contracepção de emergência se foi na primeira semana com sexo desprotegido nos 5 dias anteriores — na régua do Ministério, o gatilho é o terceiro comprimido. Interações: fenitoína, carbamazepina, barbitúricos, primidona, topiramato, oxcarbazepina, lamotrigina e rifampicina, todos categoria 3; ácido valproico não entra; antirretroviral é 2. SUS: etinilestradiol 0,03 mg com levonorgestrel 0,15 mg, e injetável mensal de enantato de noretisterona 50 mg com valerato de estradiol 5 mg.

em 30 dias

As decisões, não os números. O eixo do capítulo é uma pergunta só — esta mulher pode usar estrogênio? — e todas as dezoito situações de categoria 4 são a mesma resposta escrita de dezoito jeitos: risco vascular venoso, risco vascular arterial, doença hepática ou tumor hormônio-dependente, e o puerpério. Por isso a conduta diante de qualquer uma delas é uma frase única, oferecer método sem estrogênio, e por isso trocar de via não resolve: pílula, adesivo, anel e injetável mensal compartilham a régua. O sistema tem três leituras finas que separam quem decorou de quem entendeu: categoria 3 é não, com porta condicional, não é pode com cuidado; havendo duas condições vale a mais restritiva, e a única linha em que a soma opera é a dos múltiplos fatores de risco cardiovascular; e quando a tabela traz dois números, o primeiro é para iniciar e o segundo para continuar, o que significa que a elegibilidade é uma leitura repetida a cada consulta, não uma decisão única — a mulher faz 35 anos fumando, a pressão sobe, aparece uma aura. A prescrição em si é barata: mede-se a pressão, faz-se a anamnese e não se pede exame nenhum, nem preventivo, nem mamas, nem trombofilia. O que custa é a adesão, porque a distância entre 0,3 e 9 é inteiramente da usuária, e um terço abandona no primeiro ano — daí o retorno próximo valer mais que a escolha da fórmula. E o que a mulher leva além de não engravidar é grande e tem número: 29% menos câncer de ovário a cada 5 anos de uso quando o uso cessou há menos de 10 anos, 24% menos câncer de endométrio a cada 5 anos, com efeito mantido por mais de 30 anos, além de menos dismenorreia, menos sangramento e menos anemia — em troca de um risco de trombose que duplica a sextuplica em termos relativos e que, na formulação padronizada no SUS, é o menor de todos.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Mulher de 33 anos na unidade básica de saúde querendo iniciar a pílula, com cefaleia recorrente precedida de escotomas cintilantes e faixa em ziguezague no campo visual, duas a três crises por ano, sem tabagismo, pressão de 112 por 74 mmHg e sem outras comorbidades — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Contracepção hormonal combinada — Preparatório para provas | OsceLabs