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Dermatoses vulvares e prurido vulvar crônico

Coça há anos, não tem corrimento e o antifúngico não resolve. O líquen escleroso é a dermatose que apaga a arquitetura da vulva, poupa a vagina e responde a corticoide de altíssima potência — e o tratamento mantido muda o desfecho, não só o sintoma.

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Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Mulher de 58 anos com prurido vulvar crônico há anos, apresentando pele vulvar esbranquiçada, atrófica, com aspecto de "papel de cigarro", reabsorção de pequenos lábios e estenose do intróito. Qual o diagnóstico e o tratamento?

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Como esse tema cai

O recorte é a vulva que coça de forma crônica sem corrimento: reconhecer o líquen escleroso, separá-lo das dermatoses que o imitam, saber quando tirar um fragmento, prescrever o corticoide certo no esquema certo e organizar o seguimento pelo risco de neoplasia. Não cobre estadiamento e tratamento do câncer de vulva, nem dermatoses sistêmicas em suas manifestações extragenitais.

A prova cobra o tema em quatro formatos. O primeiro entrega uma mulher na pós-menopausa com prurido vulvar de anos, tratada repetidamente com antifúngico sem melhora, e pede o diagnóstico. O segundo entrega o mesmo quadro e pede o tratamento, esperando corticoide tópico de altíssima potência. O terceiro entrega uma paciente já em acompanhamento que desenvolve uma lesão que não cicatriza e pede a conduta. O quarto pede a diferenciação entre duas dermatoses brancas, ou entre dermatose e atrofia da menopausa.

Três vizinhanças concentram os erros. A primeira é o corrimento vaginal: ali a queixa vem com secreção, o pH orienta o raciocínio e o tratamento é antimicrobiano; aqui não há corrimento, o pH pode estar normal e o tratamento é anti-inflamatório tópico. A segunda é a úlcera genital: naquele território a lesão é aguda, dói ou não dói, e a pergunta é qual agente; aqui a lesão é uma placa branca crônica, e a pergunta é qual dermatose — com uma exceção importante, que é a paciente com líquen escleroso que desenvolve uma úlcera que não fecha. A terceira é a dermatologia geral, com as dermatoses bolhosas autoimunes e os distúrbios da pigmentação, que também produzem lesões brancas ou erosivas na região.

A régua do tema é boa e é internacional: existe diretriz dedicada, de 2018, que fixa o esquema de tratamento. Do lado brasileiro há uma série descritiva de 166 casos e um protocolo de sociedade sobre câncer de vulva que descreve a via de patogênese que liga uma coisa à outra. Não há protocolo clínico nacional específico para o líquen escleroso vulvar, e é por isso que o esquema de corticoide que se decora vem de fora.

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O que muda decisão

O prurido que não vem do corrimento

A queixa que abre o assunto é sempre a mesma: coceira na vulva, intensa, que não passa. O que a diferencia do território das vaginites é o que falta — não há corrimento, ou o que existe é escasso e não explica o sintoma; não há odor; e o prurido tem duração de meses a anos, não de dias.

O padrão temporal é o primeiro filtro. Candidíase, vaginose e tricomoníase produzem episódios: começam, incomodam por dias a semanas, tratam-se e cessam. Uma coceira que dura três anos, com predomínio noturno, intensa a ponto de interromper o sono e de produzir escoriações por coçadura, não é um episódio infeccioso arrastado — é uma dermatose crônica.

O segundo filtro é a história terapêutica. Quase toda paciente com dermatose vulvar crônica chega tendo usado, por conta própria ou por prescrição, uma sucessão de antifúngicos tópicos e cremes de balcão. A ausência de resposta a antifúngico repetido é informação clínica, não fracasso da paciente: ela diz que o problema não é fúngico. E o uso repetido de produtos com veículo irritante costuma somar um componente de dermatite de contato ao quadro de base.

O terceiro filtro é a inspeção. É aqui que se perde mais tempo na prática: o exame ginecológico é feito, o espéculo é introduzido, o material é coletado, e ninguém olhou a vulva com a paciente em posição adequada e com boa iluminação, afastando os pequenos lábios e examinando o sulco interlabial, o capuz do clitóris, a fúrcula e a região perianal. Dermatose vulvar é diagnóstico de inspeção. Sem olhar, não se faz.

Vale enunciar o que a ausência de corrimento não exclui. Uma mulher com dermatose vulvar crônica pode ter, simultaneamente, atrofia genitourinária da menopausa, candidíase de repetição por diabetes mal controlado, ou dermatite de contato pelos produtos que vem usando. As condições se somam, e tratar uma delas às vezes revela a outra. O erro é supor que uma explicação exclui as demais.

Uma pergunta separa as quatro: a vagina está dentro?

Quatro entidades disputam o mesmo enunciado, e há uma pergunta que separa a maior parte dos casos: a vagina está acometida?

No líquen escleroso a resposta é não. A doença acomete a pele e a mucosa modificada da vulva e a região perianal, e poupa a vagina. Essa é a característica mais útil do diagnóstico diferencial, porque a doença que mais se parece com ela na apresentação erosiva é justamente a que faz o contrário.

No líquen plano erosivo a resposta é sim. Ele produz erosões vermelho-vivas de bordas esbranquiçadas na vulva e frequentemente acomete a vagina, com sinéquias e estenose vaginal, e costuma vir acompanhado de acometimento da mucosa oral, com estrias esbranquiçadas em rede na face interna das bochechas. Ver a boca da paciente é parte do exame — e essa é uma das poucas manobras em medicina que custa dez segundos e muda o diagnóstico.

O líquen simples crônico é a dermatose do ciclo coçar-espessar-coçar: a pele responde ao atrito repetido com liquenificação, isto é, espessamento com acentuação dos sulcos naturais, coloração acinzentada e aspecto de couro. Não apaga a arquitetura, não produz placas nacaradas e melhora quando o ciclo é interrompido. Frequentemente ele se instala sobre outra dermatose, o que significa que encontrá-lo não encerra a investigação.

A atrofia genitourinária da menopausa é hipoestrogenismo: mucosa pálida e fina, perda de rugosidade vaginal, ressecamento, dispareunia e sintomas urinários. Ela acomete a vagina, é responsiva a estrogênio local e não produz as placas brancas nacaradas nem a reabsorção de estruturas que caracterizam o líquen escleroso. Confundi-la com dermatose é o erro que mantém a paciente anos em estrogênio tópico sem resolver a coceira.

Um lembrete de método: essas quatro condições coexistem com frequência em mulheres na pós-menopausa. A pergunta sobre a vagina orienta a hipótese principal; ela não impede que a paciente tenha duas coisas ao mesmo tempo.

Líquen escleroso: o que se vê

O achado que dá nome à doença é a placa branca nacarada, de superfície brilhante e textura fina, por vezes com aspecto de papel de cigarro amassado. Ela costuma ocupar os pequenos lábios, o capuz do clitóris, o sulco interlabial e a fúrcula, e estender-se para a região perianal.

A distribuição perianal produz o padrão descrito como em oito ou em ampulheta: uma alça em torno do introito e outra em torno do ânus, unidas pelo períneo. Reconhecer esse padrão exige uma decisão simples e frequentemente esquecida — examinar a região perianal. Uma inspeção que para na fúrcula perde metade da lesão.

A alteração que muda a vida da paciente não é a cor: é a perda de arquitetura. Os pequenos lábios se reabsorvem e desaparecem no relevo dos grandes lábios; o capuz do clitóris se funde sobre a glande, enterrando-a; a fúrcula estreita e o introito se reduz. Essas modificações são progressivas e, uma vez instaladas, não regridem com o tratamento — o que dá ao tratamento precoce uma finalidade que vai além do alívio do prurido.

Três achados completam o quadro e explicam sintomas. As fissuras, tipicamente na fúrcula e no sulco interlabial, produzem ardência ao urinar quando a urina toca a fissura e dor à evacuação quando a fissura é perianal — sintomas que a paciente costuma atribuir a infecção urinária e a hemorroida. As equimoses e púrpuras, decorrentes da fragilidade capilar da derme alterada, surgem com traumas mínimos e assustam. E as escoriações por coçadura noturna testemunham a intensidade do prurido.

Vale registrar o que faz o médico mudar de raciocínio dentro da própria doença. Espessamento nodular, área de hiperceratose grosseira, erosão que não cicatriza, úlcera e eritema fixo persistente não são a doença de base fazendo seu curso: são sinais que exigem tirar um fragmento, e serão retomados adiante.

Duas idades, dois erros

O líquen escleroso vulvar tem distribuição etária com dois picos, e cada um deles carrega um erro característico.

O pico da pós-menopausa é o mais frequente. Na série brasileira de 166 casos, a idade média foi de 64 anos, com desvio de 10 anos, e 93% das mulheres estavam na pós-menopausa. O erro clássico nessa faixa é atribuir tudo à falta de hormônio: a paciente relata clareamento e afinamento da pele vulvar, o médico chama de atrofia da idade, prescreve estrogênio tópico e o prurido continua. O que separa uma coisa da outra é a placa nacarada com perda de arquitetura e o acometimento perianal, que o hipoestrogenismo não produz.

O pico da infância, em meninas pré-púberes, é menos frequente e mais delicado. A apresentação reúne prurido, escoriações, fissuras e equimoses na região vulvar e perianal — achados que podem levantar a suspeita de violência sexual, e a suspeita precisa ser avaliada com seriedade e pelo protocolo próprio. O que o capítulo acrescenta é o outro lado: reconhecer que existe uma dermatose que produz exatamente esses achados evita tanto a acusação equivocada quanto a atribuição apressada de um sinal de violência a uma doença de pele. As duas hipóteses são consideradas, não uma no lugar da outra.

O segundo erro da infância é terapêutico. Circula a ideia de que a doença 'passa com a puberdade' e de que basta esperar. Esperar deixa a menina anos com prurido intenso e permite a instalação de cicatrizes e de perda de arquitetura, que não regridem. A doença pré-púbere é tratada com corticoide tópico como a do adulto, com acompanhamento.

Há ainda o contexto autoimune que acompanha a doença nos dois picos. Tireoidite autoimune, vitiligo, alopecia areata e anemia perniciosa aparecem com frequência maior nessas pacientes e nas suas famílias, e perguntar por elas — e pelos sintomas de disfunção tireoidiana — faz parte da consulta.

Biopsiar: quando é obrigatório, e quando não é

Em muitos casos, o diagnóstico do líquen escleroso é clínico. Placa nacarada com perda de arquitetura, distribuição em oito, prurido crônico e vagina poupada, em mulher na pós-menopausa, formam um quadro reconhecível. A diretriz britânica não exige comprovação histológica em todo caso típico, e o tratamento pode ser iniciado com base no exame.

Existem, porém, situações em que tirar um fragmento deixa de ser opcional. A primeira é a dúvida diagnóstica: quadro atípico, distribuição incomum, ou impossibilidade de separar clinicamente do líquen plano. A segunda é a falha de resposta a tratamento adequado: uma doença que não melhora após esquema correto e bem aplicado ou não é o que se pensou, ou tem outra coisa por cima.

A terceira é a mais importante e é imperativa: suspeita de neoplasia. A diretriz britânica orienta encaminhamento urgente para coleta de tecido diante de erosões, úlceras e áreas de eritema fixo que persistem. Some-se a isso qualquer área de espessamento nodular, hiperceratose grosseira, lesão vegetante ou pigmentada nova. A frase operacional é simples: numa vulva com líquen escleroso, lesão que não cicatriza é neoplasia até prova em contrário.

Corte histológico esquemático comparando pele normal e pele com líquen escleroso: à direita, epiderme adelgaçada com camada córnea espessada, faixa homogênea e clara logo abaixo da junção, e faixa de células inflamatórias em banda por baixo dela.
Os quatro achados que o patologista descreve — epiderme atrófica com hiperceratose, degeneração vacuolar da camada basal, faixa de homogeneização do colágeno na derme papilar e infiltrado linfocitário em banda por baixo dela — desenham o que a mão sente à inspeção: pele fina, brilhante e endurecida.

A vulvoscopia com ácido acético não faz o diagnóstico e não substitui a coleta de tecido, mas serve para dirigir onde tirar o fragmento numa vulva com lesões extensas e heterogêneas, mostrando áreas acetobrancas e permitindo evitar as regiões que só têm alteração inespecífica. O que se procura, e que muda a conduta, são mosaico, pontilhado e vasos atípicos.

Uma advertência sobre o momento da coleta: se a paciente vem usando corticoide de altíssima potência, o achado histológico pode estar atenuado. Quando a dúvida é diagnóstica e não oncológica, faz sentido coletar antes de iniciar o tratamento ou após uma pausa curta. Quando a suspeita é de neoplasia, não se espera nada: coleta-se.

Clobetasol: o esquema, a quantidade e o erro de usar só na crise

O tratamento de primeira linha é corticoide tópico de altíssima potência, e o fármaco de referência é o propionato de clobetasol a 0,05%, em pomada. A diretriz britânica descreve um esquema inicial de três meses: uma vez ao dia por um mês, em dias alternados por um mês e duas vezes por semana por um mês, associado a substituto de sabonete e a uma preparação de barreira.

Três detalhes da prescrição fazem diferença e costumam ser omitidos. O primeiro é o veículo: pomada, não creme — o creme costuma conter conservantes e álcoois que ardem numa pele fissurada e podem sensibilizar. O segundo é a quantidade, que precisa ser conversada: a diretriz orienta discutir com a paciente quanto usar, onde aplicar e como usar com segurança um corticoide dessa potência. O terceiro é o local: a aplicação é dirigida às áreas acometidas, incluindo a região perianal quando ela está envolvida, e não espalhada por toda a região genital.

Terminado o esquema inicial, vem a decisão que separa o tratamento bom do ruim. Para as pacientes que mantêm doença ativa apesar de boa adesão, a diretriz orienta oferecer o uso continuado do corticoide de altíssima potência, com esquema individualizado, para manter o controle e prevenir a cicatrização. O objetivo declarado não é apenas o alívio do sintoma: é impedir a progressão anatômica.

O erro mais comum é o oposto disso: usar o corticoide 'quando piora'. Nesse regime a doença é permanentemente subtratada, o prurido volta em ciclos e a arquitetura continua se perdendo em silêncio, porque a atividade inflamatória segue enquanto o sintoma está controlado. O contraponto do erro é o medo do corticoide, frequente na paciente e às vezes no prescritor: quando aplicado na quantidade correta, na área correta e sob acompanhamento, o índice de efeitos adversos significativos é baixo — 3,7% na série brasileira de 166 casos.

Ao redor do corticoide há um conjunto de medidas simples que melhoram o resultado: substituto de sabonete no lugar de sabonetes perfumados e antissépticos; emoliente ou preparação de barreira; suspensão de cremes e produtos irritantes de balcão; e roupa que não retenha umidade. E há o tratamento das condições associadas: anti-histamínico à noite para o prurido que interrompe o sono e estrogênio tópico quando há atrofia concomitante — na série brasileira, 22% responderam ao clobetasol com anti-histamínico e 18% ao clobetasol com estrogênio tópico, contra 45% com clobetasol isolado.

Os números que mudam a conversa

Duas séries dão à consulta um conteúdo que a torna concreta, e elas respondem a perguntas diferentes.

A série brasileira de 166 mulheres dimensiona o risco de progressão neoplásica em uma população acompanhada: 2,4% progrediram para neoplasia intraepitelial vulvar e/ou carcinoma invasor, e a conclusão registrada é de baixa probabilidade de progressão. Ela também mostra o desfecho anatômico: 3% precisaram de cirurgia por deformidade. E dá a taxa de resposta ao tratamento — 45% com clobetasol isolado, chegando a 85% quando somadas as associações com anti-histamínico e com estrogênio tópico, com resposta incompleta em 5%.

A coorte prospectiva australiana de 507 mulheres com diagnóstico comprovado por biópsia responde a outra pergunta: o que muda quando o tratamento é mantido. A remissão de sintomas foi de 98% entre as aderentes e 75% entre as parcialmente aderentes. Aderências e cicatrização ocorreram em 12 pacientes aderentes, 3,4%, contra 60 parcialmente aderentes, 40,0%. E houve diferença significativa entre os grupos quanto ao controle de sintomas, à cicatrização e à ocorrência de carcinoma vulvar.

A conclusão daquele estudo é a frase que vale levar para o consultório: esquemas preventivos individualizados de corticoide tópico que alcancem normalidade objetiva de cor e textura da pele podem modificar o curso da doença. Isso desloca o alvo do tratamento. Não se trata a coceira até ela sumir; trata-se até a pele voltar a ter cor e textura normais, e mantém-se o suficiente para que continue assim.

Vale ler as duas séries com honestidade sobre o que elas são. Uma é descritiva e brasileira, com 166 casos; a outra é prospectiva, mas de consultório privado de dois especialistas em uma cidade, com 507 mulheres. Nenhuma é ensaio randomizado, e a comparação entre aderentes e parcialmente aderentes não é uma randomização: quem adere pode diferir de quem não adere em muitas outras coisas. O que as duas sustentam, juntas, é uma direção clara — tratamento mantido, com alvo objetivo na pele —, e não uma taxa exata a ser decorada.

A via que liga a dermatose ao câncer

O carcinoma de células escamosas responde por 90% dos casos de câncer de vulva, e sua patogênese ocorre por duas vias distintas, que se refletem em características epidemiológicas, clínicas e biomoleculares diferentes.

A via relacionada ao papilomavírus humano tem como lesão precursora a lesão intraepitelial escamosa de alto grau, tende a ser multifocal, predomina em mulheres jovens e apresenta marcação imuno-histoquímica positiva e difusa para p16. Nessas pacientes, com lesões de alto grau associadas ao vírus, a progressão pode ocorrer como lesões multifocais micro ou macroinvasoras, e o teste para o vírus da imunodeficiência humana é recomendado.

A via independente do papilomavírus é a que interessa aqui. Sua lesão precursora é a neoplasia intraepitelial diferenciada, que surge em substrato de inflamação crônica ou doença autoimune — e o líquen escleroso é o exemplo canônico desse substrato. Nessa via, a doença invasora costuma ser única, e o marcador imuno-histoquímico é a expressão aberrante de p53. O protocolo brasileiro registra que, em mulheres mais velhas, o câncer de vulva está geralmente associado a processo inflamatório crônico, sobretudo ao líquen escleroso. Vale notar que não é incomum a sobreposição de características das duas vias.

Dois números do mesmo protocolo situam a doença. A idade média ao diagnóstico é de 65 anos, e a incidência aumenta com a idade — embora venha caindo a média por conta do aumento em mulheres jovens pela via do vírus. E há o número que envergonha: um estudo alemão mostrou atraso médio no diagnóstico entre 186 e 328 dias, mais comumente associado ao diagnóstico equivocado de inflamação vulvovaginal.

É esse último dado que fecha o argumento clínico. A mulher que recebe antifúngico por anos para um prurido vulvar crônico está exatamente na trajetória descrita: a dermatose não é tratada, a inflamação crônica persiste, a neoplasia intraepitelial diferenciada tem substrato para se instalar e, quando o carcinoma aparece, ele já esperou meses para ser nomeado. Tratar o líquen escleroso e reexaminar a vulva com regularidade é o que interrompe essa sequência.

O que não é líquen escleroso

Cinco diagnósticos aparecem no lugar do líquen escleroso, e cada um tem um discriminador prático.

A candidíase vulvar crônica produz eritema, edema, fissuras e prurido, e melhora com antifúngico — ao menos parcialmente e ao menos por um tempo. Ela não produz placas nacaradas nem apaga a arquitetura. Em mulher com candidíase de repetição, procurar diabetes é obrigatório, e vale lembrar que candidíase pode se instalar sobre um líquen escleroso, de modo que uma melhora parcial com antifúngico não exclui a dermatose.

A psoríase invertida produz placas eritematosas bem delimitadas, de superfície lisa e brilhante, nas dobras — inguinal, interglútea, submamária —, sem a descamação prateada das lesões de superfícies extensoras. Procurar placas em cotovelos, joelhos e couro cabeludo e examinar as unhas resolve boa parte dos casos.

A dermatite de contato é a mais frequente comorbidade da região e a mais fácil de esquecer, porque o agente costuma ser aquilo que a própria paciente está usando para tratar-se: sabonetes íntimos perfumados, lenços umedecidos, antifúngicos em creme, anestésicos tópicos, absorventes diários. Suspender tudo e usar apenas substituto de sabonete e emoliente é diagnóstico e tratamento ao mesmo tempo.

O vitiligo genital é despigmentação, e essa é a palavra que o separa do líquen escleroso. A pele fica branca sem mudar de textura: não há brilho nacarado, não há espessamento, não há fissura, não há perda de arquitetura, e em geral não há prurido. As bordas são nítidas e há frequentemente lesões em outros sítios. É uma lesão branca que não é dermatose inflamatória cicatrizante — e a confusão entre as duas é a razão pela qual 'mancha branca na vulva' não é diagnóstico.

As dermatoses bolhosas autoimunes — penfigoide das mucosas, em especial — produzem erosões e sinéquias na região genital e podem imitar tanto o líquen plano erosivo quanto o líquen escleroso em fase avançada. A pista é o acometimento de outras mucosas, sobretudo a ocular e a oral, e o diagnóstico exige coleta de tecido com imunofluorescência direta, que é um exame diferente da histologia convencional e precisa ser pedido como tal.

O seguimento, e a lesão que muda tudo

O líquen escleroso é doença crônica, e o seguimento tem duas finalidades distintas: manter o controle da inflamação e vigiar o aparecimento de neoplasia. Confundir as duas leva a consultas em que se pergunta apenas se a coceira melhorou.

A diretriz britânica é seletiva quanto a quem precisa de seguimento prolongado em serviço especializado, reservando-o a pacientes com sintomas incômodos, doença atípica, câncer prévio, neoplasia intraepitelial diagnosticada ou de natureza incerta. As demais podem ser acompanhadas fora do serviço especializado — o que não significa deixar de acompanhar, e sim que o acompanhamento não precisa ser terciário.

O que se examina no retorno é objetivo: cor e textura da pele, presença de fissura, de erosão, de área espessada ou nodular, e a arquitetura — se os pequenos lábios ainda estão presentes, se o capuz do clitóris permanece móvel, qual o calibre do introito. Registrar isso por escrito na primeira consulta é o que permite dizer, um ano depois, se a doença progrediu.

A paciente também precisa saber o que procurar. A orientação cabe em uma frase: qualquer ferida que não cicatrize em poucas semanas, caroço novo, área que sangra sem trauma ou mancha escura nova deve ser mostrada, sem esperar o retorno agendado. É a única parte da vigilância que funciona entre as consultas.

Aqui se fecha a fronteira com o território das úlceras genitais. Naquele campo, a lesão é aguda, a pergunta é qual agente infeccioso e o protocolo manda tratar antes de saber. Nesta paciente, com placa branca crônica e anos de doença, uma úlcera que não cicatriza tem outro significado: não é sífilis, não é herpes, e não se trata empiricamente. É carcinoma escamoso até que um fragmento diga o contrário — e a coleta é urgente, porque a média de atraso diagnóstico nesse cenário se conta em centenas de dias.

O resumo cabe em quatro decisões. Primeira: diante de prurido vulvar crônico sem corrimento, inspecionar a vulva e a região perianal com a paciente bem posicionada. Segunda: usar a vagina como divisor — poupada aponta para líquen escleroso, acometida aponta para líquen plano ou para atrofia. Terceira: prescrever corticoide de altíssima potência em pomada, no esquema de três meses, e manter tratamento individualizado com alvo objetivo de cor e textura normais. Quarta: reexaminar com regularidade e coletar tecido de toda erosão, úlcera, eritema fixo ou área espessada que persista.

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Separar as dermatoses e decidir a coleta

A primeira tabela reúne os discriminadores clínicos das entidades que disputam o mesmo enunciado. A segunda organiza a decisão sobre tirar ou não um fragmento, que é onde se concentra o risco de perder um carcinoma.

  1. 1Prurido vulvar crônico sem corrimento que explique o sintoma: inspecionar a vulva com boa iluminação e posicionamento, afastando os pequenos lábios, e examinar a região perianal.
  2. 2Perguntar sobre a vagina: poupada aponta para líquen escleroso ou líquen simples crônico; acometida aponta para líquen plano erosivo, atrofia da menopausa ou candidíase.
  3. 3Examinar a mucosa oral e a pele de outros sítios; perguntar por doenças autoimunes pessoais e familiares e por sintomas de disfunção tireoidiana.
  4. 4Suspender tudo o que a paciente vem aplicando; prescrever substituto de sabonete e emoliente ou preparação de barreira.
  5. 5Quadro típico: iniciar propionato de clobetasol a 0,05% em pomada — diário por um mês, em dias alternados por um mês, duas vezes por semana por um mês. Quadro atípico ou dúvida: coletar antes.
  6. 6Erosão, úlcera, eritema fixo, área nodular ou hiperceratótica: coleta urgente, sem esperar o tratamento agir.
  7. 7Reavaliar ao final dos três meses com alvo objetivo — cor e textura normais da pele — e definir esquema de manutenção individualizado para quem mantém doença ativa.
  8. 8Registrar a arquitetura por escrito, orientar a paciente sobre o que mostrar entre as consultas e manter reexame periódico da vulva.

As dermatoses que produzem prurido vulvar crônico

EntidadeVaginaAspectoArquiteturaDiscriminador prático
Líquen esclerosoPoupadaPlacas brancas nacaradas, brilhantes, com fissuras e equimosesReabsorção dos pequenos lábios, fimose do capuz do clitóris, estreitamento do introitoDistribuição em oito, incluindo a região perianal
Líquen plano erosivoAcometidaErosões vermelho-vivas com bordas esbranquiçadasSinéquias e estenose, inclusive vaginalEstrias esbranquiçadas em rede na mucosa oral
Líquen simples crônicoPoupadaLiquenificação: espessamento acinzentado com sulcos acentuadosPreservadaInstala-se sobre outra dermatose; melhora ao interromper o ciclo de coçadura
Atrofia genitourinária da menopausaAcometidaMucosa pálida e fina, com perda de rugosidade vaginalPreservadaResponde a estrogênio local; pH vaginal elevado e células parabasais
Candidíase vulvar crônicaAcometidaEritema, edema e fissuras, com ou sem corrimentoPreservadaMelhora, ao menos parcial, com antifúngico; investigar diabetes
Dermatite de contatoPoupadaEritema difuso, edema, por vezes vesículasPreservadaMelhora ao suspender os produtos em uso
Vitiligo genitalPoupadaMancha branca de bordas nítidas, sem alteração de texturaPreservadaDespigmentação sem brilho nacarado, sem fissura e em geral sem prurido
Penfigoide das mucosasPode ser acometidaErosões e sinéquiasSinéquiasAcometimento de outras mucosas; exige imunofluorescência direta

Coletar tecido: quando é obrigatório

SituaçãoCondutaPor quê
Quadro típico, com placa nacarada, distribuição em oito e vagina poupadaDiagnóstico clínico; iniciar tratamentoA diretriz não exige comprovação histológica no caso típico
Dúvida diagnóstica ou apresentação atípicaColetar antes de iniciar o corticoide, ou após pausa curtaO corticoide de altíssima potência atenua os achados histológicos
Ausência de resposta a esquema adequado e bem aplicadoColetarOu não é a doença que se pensou, ou há outra condição sobreposta
Erosão, úlcera ou eritema fixo persistentesEncaminhamento urgente para coletaNuma vulva com líquen escleroso, lesão que não cicatriza é neoplasia até prova em contrário
Espessamento nodular, hiperceratose grosseira, lesão vegetante ou pigmentada novaColetarSão os aspectos da neoplasia intraepitelial diferenciada e do carcinoma invasor
Lesões extensas e heterogêneasVulvoscopia para dirigir o local da coletaIdentifica áreas acetobrancas e evita amostrar região sem alteração
Suspeita de dermatose bolhosa autoimuneColetar com imunofluorescência direta, pedida explicitamenteÉ exame distinto da histologia convencional e não sai por acaso

Pomada, não creme: o creme costuma arder na pele fissurada e traz conservantes que sensibilizam.

Perda de arquitetura instalada não regride com tratamento. É por isso que tratar cedo tem finalidade além do alívio do prurido.

Melhora parcial com antifúngico não exclui líquen escleroso: candidíase pode estar sobreposta à dermatose.

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Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Depois dos três meses iniciais: manter corticoide continuado ou usar apenas nas crises?

Manutenção oferecida a quem mantém doença ativa apesar de boa adesão

A diretriz britânica de 2018 orienta oferecer o uso continuado de propionato de clobetasol a 0,05% para doença ativa em curso, e considerar um esquema individualizado de corticoide tópico para manter o controle da doença e prevenir a cicatrização em pacientes do sexo feminino com doença ativa persistente apesar de boa adesão. A orientação é, portanto, condicionada à atividade e individualizada, e vem acompanhada da recomendação de discutir com a paciente a quantidade a ser usada, o local de aplicação e o uso seguro de um corticoide dessa potência.

LEWIS, F. M. et al. British Association of Dermatologists guidelines for the management of lichen sclerosus, 2018. British Journal of Dermatology, v. 178, n. 4, p. 839-853

Manutenção preventiva para todas, com alvo objetivo na pele

A coorte prospectiva de 507 mulheres sustenta uma posição mais ampla: esquemas preventivos individualizados de corticoide tópico que alcancem normalidade objetiva de cor e textura da pele podem modificar o curso da doença. Nesse estudo, a remissão de sintomas foi de 98% entre as aderentes e 75% entre as parcialmente aderentes, com aderências e cicatrização em 3,4% das aderentes contra 40,0% das parcialmente aderentes, além de diferença significativa na ocorrência de carcinoma vulvar. O alvo do tratamento deixa de ser o sintoma e passa a ser o aspecto da pele.

LEE, A.; BRADFORD, J.; FISCHER, G. Long-term Management of Adult Vulvar Lichen Sclerosus: A Prospective Cohort Study of 507 Women. JAMA Dermatology, v. 151, n. 10, p. 1061-1067, 2015

Na prova

Enunciado que descreve paciente cujo prurido melhorou com o esquema inicial e pergunta a conduta seguinte espera manutenção com esquema individualizado, e não suspensão com retorno apenas se voltar a coçar. Alternativa que proponha usar o corticoide 'somente durante as crises' costuma ser a errada, porque desconsidera que a atividade inflamatória segue com o sintoma controlado e que a perda de arquitetura não regride. Se o enunciado enfatizar risco de efeito adverso do corticoide de altíssima potência, a resposta esperada continua sendo manter com acompanhamento — o índice de efeitos adversos significativos foi de 3,7% na série brasileira.

O risco de carcinoma vulvar é um atributo fixo da doença ou é modificável pelo tratamento?

Risco inerente à doença, que exige vigilância prolongada

A diretriz britânica trata o risco de carcinoma escamoso genital como atributo da doença, que justifica seguimento prolongado, e concentra a vigilância especializada nos grupos de maior risco: pacientes com sintomas incômodos, doença atípica, câncer prévio, neoplasia intraepitelial diagnosticada ou de natureza patologicamente incerta. Determina ainda encaminhamento urgente para coleta de tecido diante de erosões, úlceras e áreas de eritema fixo persistentes, para excluir neoplasia intraepitelial ou carcinoma escamoso invasor.

LEWIS, F. M. et al. British Association of Dermatologists guidelines for the management of lichen sclerosus, 2018 — seções de risco de malignidade e de seguimento

Risco modificável pela adesão ao tratamento tópico

A coorte prospectiva de 507 mulheres encontrou diferenças significativas entre aderentes e parcialmente aderentes quanto ao controle de sintomas, à cicatrização e à ocorrência de carcinoma vulvar, e concluiu que esquemas preventivos individualizados podem modificar o curso da doença. É preciso ler o desenho com honestidade: a comparação entre aderentes e não aderentes não é uma randomização, e quem adere pode diferir de quem não adere em vários outros aspectos. Do lado brasileiro, a série de 166 casos registrou progressão para neoplasia intraepitelial e/ou carcinoma invasor em 2,4% e concluiu por baixa probabilidade de progressão.

LEE, A.; BRADFORD, J.; FISCHER, G. JAMA Dermatology, v. 151, n. 10, p. 1061-1067, 2015; e AGRESTA, I. M.; CHAGAS, J. P. C. L.; FONSECA, F. V. Femina, v. 49, n. 5, p. 314-320, 2021

Na prova

Enunciado que pergunta se o líquen escleroso aumenta o risco de câncer de vulva espera sim, e a via é a neoplasia intraepitelial diferenciada, com expressão aberrante de p53, independente do papilomavírus. Enunciado que ofereça uma porcentagem exata de progressão exige atenção, porque as séries divergem — a brasileira registrou 2,4%. Já enunciado que pergunte a finalidade do tratamento prolongado espera controle da inflamação e prevenção de cicatrização e de neoplasia, e não apenas alívio do prurido. Alternativa que afirme que o líquen escleroso não tem relação com câncer de vulva é errada em qualquer leitura.

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Caso resolvido

Mulher de 58 anos, na pós-menopausa desde os 51, procura o ambulatório de ginecologia por prurido vulvar há três anos, de predomínio noturno, intenso o bastante para interromper o sono e provocar escoriações por coçadura. Refere fissuras recorrentes, com ardência ao urinar apenas quando há fissura, e dor à evacuação quando a fissura é perianal. Descreve clareamento e afinamento progressivos da pele da vulva, que atribui à idade. Usou repetidamente pomada antipruriginosa de balcão e antifúngico tópico, com alívio parcial e passageiro. Refere dispareunia que a fez interromper a vida sexual. Tem tireoidite de Hashimoto em acompanhamento. Nega sangramento genital. Última colpocitologia há sete anos. Ao exame, placas brancas nacaradas e brilhantes nos pequenos lábios, no sulco interlabial e na fúrcula, estendendo-se para a região perianal em padrão de oito; pequenos lábios pouco individualizados; capuz do clitóris aderido; fissura na fúrcula; equimoses puntiformes; introito estreitado. Espéculo pequeno mostra mucosa vaginal atrófica, sem lesões. Mucosa oral sem alterações.
Separar do território das vaginites
Três elementos tiram o caso do capítulo do corrimento. O tempo: três anos de prurido não é episódio infeccioso. A ausência de secreção que explique o sintoma. E a história terapêutica: antifúngico repetido com alívio parcial e passageiro é informação diagnóstica, porque diz que o problema não é fúngico — e o alívio parcial provavelmente vem do veículo, não do princípio ativo. A partir daí, a pergunta deixa de ser qual agente e passa a ser qual dermatose.
Usar a vagina como divisor e a boca como confirmação
A vagina está atrófica, compatível com hipoestrogenismo, mas não erosada e sem sinéquias. A mucosa oral não tem estrias em rede. Esses dois achados negativos afastam o líquen plano erosivo, que é a principal entidade a competir com o diagnóstico. O que sobra do lado positivo é o conjunto que define o líquen escleroso: placas nacaradas, distribuição em oito com envolvimento perianal, fissura na fúrcula, equimoses por fragilidade capilar e — o mais importante — a perda de arquitetura, com pequenos lábios pouco individualizados, capuz do clitóris aderido e introito estreitado. A tireoidite de Hashimoto reforça o contexto autoimune que acompanha a doença.
Decidir sobre o fragmento
O quadro é típico e o diagnóstico é clínico: a diretriz não exige comprovação histológica no caso típico, e o tratamento pode ser iniciado com base no exame. Ainda assim, é preciso percorrer a lista das situações que tornam a coleta obrigatória e verificar que nenhuma está presente — não há erosão, úlcera, eritema fixo persistente, área nodular, hiperceratose grosseira nem lesão pigmentada nova. Se houvesse qualquer uma delas, a conduta mudaria para encaminhamento urgente para coleta, sem esperar a resposta ao tratamento. Vale acrescentar que a colpocitologia atrasada há sete anos é uma pendência de rastreamento a ser resolvida na mesma consulta, e não parte da investigação da dermatose.
Prescrever com os três detalhes que costumam faltar
Propionato de clobetasol a 0,05% em pomada, no esquema de três meses: uma vez ao dia por um mês, em dias alternados por um mês e duas vezes por semana por um mês. Os detalhes: pomada, não creme, porque o creme arde na pele fissurada e traz conservantes que sensibilizam; quantidade e local conversados explicitamente, incluindo a região perianal acometida; e substituto de sabonete com emoliente ou preparação de barreira, junto com a suspensão de tudo o que ela vem aplicando. Como há atrofia vaginal concomitante e dispareunia, o estrogênio tópico entra somado ao corticoide — na série brasileira, 18% responderam a essa associação —, e um anti-histamínico à noite ajuda no prurido que interrompe o sono.
Definir o alvo do tratamento, que não é a coceira
A paciente precisa sair sabendo três coisas. A primeira é que não é câncer, e que a doença tem tratamento. A segunda é que a coceira deve ceder, mas o alvo do tratamento é a pele voltar a ter cor e textura normais — e é esse alvo que se reavalia ao final dos três meses. A terceira é que as alterações de arquitetura já instaladas não voltam ao que eram, e que a finalidade de manter o tratamento é impedir que avancem: a coorte de 507 mulheres registrou aderências e cicatrização em 3,4% das aderentes contra 40,0% das parcialmente aderentes. Usar o corticoide só nas crises é justamente o regime que produz o segundo número.
Organizar o seguimento e a vigilância
Registrar a arquitetura por escrito nesta consulta — presença dos pequenos lábios, mobilidade do capuz do clitóris, calibre do introito — é o que permitirá dizer, em um ano, se houve progressão. O retorno reavalia cor, textura, fissuras, áreas espessadas e a arquitetura registrada, e define o esquema de manutenção individualizado. E a paciente sai com uma frase para levar: qualquer ferida que não cicatrize em poucas semanas, caroço novo, área que sangra sem trauma ou mancha escura nova deve ser mostrada antes do retorno agendado, porque, nessa vulva, lesão que não fecha é neoplasia até prova em contrário.
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Agora feche você

Mulher de 71 anos, com diagnóstico de líquen escleroso vulvar feito há nove anos, comparece ao ambulatório fora da data de retorno. Usou propionato de clobetasol de forma irregular ao longo dos anos, aplicando apenas quando a coceira piorava, e interrompia assim que melhorava. Há cerca de três meses notou uma área endurecida no grande lábio direito, que evoluiu com ferida que não cicatriza e sangra ao toque. Relata dor local e ardência ao urinar. Nega febre, corrimento e sangramento vaginal. Não tem parceria sexual há doze anos. Ao exame, placas brancas nacaradas difusas com perda completa dos pequenos lábios e capuz do clitóris fundido sobre a glande; no terço médio do grande lábio direito, lesão ulcerada de cerca de 2 cm, de bordas elevadas e endurecidas, com áreas de hiperceratose ao redor; não se palpam linfonodos inguinais aumentados. Mucosa oral sem alterações.
Passo 1
Diga qual é a hipótese principal para a lesão ulcerada e por que, nesta paciente, ela tem prioridade sobre as causas infecciosas de úlcera genital. Explique em que a conduta aqui difere da conduta diante de uma úlcera genital aguda em mulher sexualmente ativa, citando o que o protocolo brasileiro determina naquele cenário e por que ele não se aplica a este.
Passo 2
Escreva a conduta imediata, nomeando o procedimento diagnóstico, o caráter de urgência e o que a diretriz britânica orienta diante de erosões, úlceras e áreas de eritema fixo persistentes. Diga também qual exame pode ser usado para dirigir o local da coleta em uma vulva com lesões extensas e o que se procura nele.
Passo 3
Explique a via de patogênese que liga o líquen escleroso ao carcinoma nesta paciente, nomeando a lesão precursora e o marcador imuno-histoquímico correspondente. Contraste com a outra via, dizendo qual é a lesão precursora, qual o marcador, em que faixa etária predomina e se a lesão tende a ser única ou multifocal.
Passo 4
O uso irregular do corticoide ao longo de nove anos é um dado relevante do caso. Explique por que o regime de aplicar apenas nas crises é inadequado, citando o que a diretriz orienta quanto à manutenção e os números da coorte prospectiva de 507 mulheres sobre aderências e cicatrização. Diga qual deveria ter sido o alvo objetivo do tratamento ao longo desses anos.
Passo 5
Escreva, em duas frases e sem jargão, o que você diria a esta paciente ao indicar a coleta de tecido, sem prometer resultado e sem minimizar. Depois, liste três informações que precisam constar do encaminhamento para o serviço de referência e justifique cada uma pelo que ela decide.
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Onde a banca derruba

  1. 1Prescrever o quarto antifúngico para o prurido vulvar de três anos Atrai porque candidíase é a causa mais comum de prurido vulvar, porque a paciente relata alívio parcial com o creme e porque o exame a fresco não foi feito. Mas prurido crônico de anos, com predomínio noturno, sem corrimento que o explique, e sem resposta a antifúngico repetido, não é candidíase: a ausência de resposta é o dado clínico. O custo do erro é medido: um estudo alemão registrou atraso médio no diagnóstico de câncer de vulva entre 186 e 328 dias, mais comumente associado ao diagnóstico equivocado de inflamação vulvovaginal. O que interrompe a sequência é inspecionar a vulva e a região perianal com a paciente bem posicionada.
  2. 2Chamar de atrofia da menopausa a placa branca com perda de arquitetura Atrai porque a paciente tem a idade certa, relata clareamento e afinamento da pele, e porque o hipoestrogenismo de fato produz mucosa pálida e fina. O que separa as duas condições é o conjunto: brilho nacarado, fissuras, equimoses, distribuição em oito com envolvimento perianal e reabsorção dos pequenos lábios com fimose do capuz do clitóris. Nada disso é atrofia. A atrofia acomete a vagina, cursa com pH elevado e células parabasais e responde a estrogênio local; o líquen escleroso poupa a vagina e responde a corticoide de altíssima potência. Manter a paciente em estrogênio tópico enquanto a arquitetura se perde é o preço desse erro.
  3. 3Usar o corticoide só quando piora Atrai porque parece prudente com um corticoide de altíssima potência e porque, com o sintoma controlado, tratar parece desnecessário. Mas a atividade inflamatória segue depois que a coceira passa, e a perda de arquitetura avança em silêncio e não regride. A diretriz orienta oferecer uso continuado para doença ativa, com esquema individualizado, para manter controle e prevenir cicatrização. A coorte de 507 mulheres quantifica a diferença: aderências e cicatrização em 3,4% das aderentes contra 40,0% das parcialmente aderentes. E o medo do corticoide tem contraponto medido: efeitos adversos significativos em 3,7% na série brasileira de 166 casos.
  4. 4Tratar empiricamente a úlcera vulvar de quem tem líquen escleroso Atrai porque, no território das úlceras genitais, o protocolo brasileiro manda tratar antes de saber o agente — e essa é a conduta correta lá. Aqui não é. Numa vulva com dermatose crônica de anos, uma lesão que não cicatriza tem outro significado: a diretriz orienta encaminhamento urgente para coleta de tecido diante de erosões, úlceras e áreas de eritema fixo persistentes, para excluir neoplasia intraepitelial ou carcinoma escamoso invasor. A via aqui é a independente do papilomavírus, cuja precursora é a neoplasia intraepitelial diferenciada, que surge sobre inflamação crônica e expressa p53 de forma aberrante. Antibiótico e antiviral não fecham essa ferida.
  5. 5Parar a inspeção na fúrcula Atrai porque o exame ginecológico tem uma sequência automatizada que termina no espéculo e no toque, e porque examinar a região perianal exige mudar a posição da paciente e pedir licença de novo. Mas a distribuição característica é em oito, com uma alça em torno do introito e outra em torno do ânus. Uma inspeção que para na fúrcula perde metade da lesão, deixa de reconhecer o padrão que faz o diagnóstico e ainda deixa sem explicação a dor à evacuação, que a paciente costuma atribuir a hemorroida e que decorre de fissura perianal. O mesmo vale para o outro lado do corpo: olhar a mucosa oral custa dez segundos e separa líquen escleroso de líquen plano.
  6. 6Esperar a puberdade resolver o líquen escleroso da menina Atrai porque circula a ideia de que a doença regride espontaneamente na adolescência e porque prescrever corticoide de altíssima potência numa criança assusta. Esperar deixa a menina anos com prurido intenso, escoriações e fissuras, e permite a instalação de cicatrizes e de perda de arquitetura que não regridem depois. A doença pré-púbere é tratada como a do adulto, com corticoide tópico e acompanhamento. Vale registrar o outro cuidado dessa faixa: prurido, escoriações, fissuras e equimoses vulvares e perianais também levantam suspeita de violência sexual, que precisa ser avaliada pelo protocolo próprio. As duas hipóteses são consideradas, e nenhuma substitui a outra.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

O líquen escleroso produz o quadro descrito — pele branca e adelgaçada com textura de papel de cigarro, apagamento de estruturas anatômicas e estenose do intróito — e responde a corticoide tópico de alta potência, como o propionato de clobetasol. O ponto essencial é que ele confere risco aumentado de carcinoma escamoso de vulva, o que obriga seguimento a longo prazo e biópsia de qualquer área que se torne endurecida, ulcerada ou hiperceratótica. Tratá-lo apenas como problema dermatológico e dar alta é o erro que faz perder o carcinoma que surge anos depois sobre a lesão crônica.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Sete dias depois, recupere sem consultar: (1) os três filtros que separam prurido vulvar crônico de vaginite — tempo, resposta a antifúngico e inspeção; (2) a pergunta que separa as quatro dermatoses principais e o que cada resposta indica; (3) os achados do líquen escleroso — placa nacarada, distribuição em oito, fissuras, equimoses e as três perdas de arquitetura; (4) o esquema inicial de três meses de propionato de clobetasol a 0,05% em pomada; (5) as cinco situações em que tirar um fragmento deixa de ser opcional; (6) a via independente do papilomavírus, sua lesão precursora e seu marcador; (7) o que se examina no retorno e o que a paciente deve mostrar entre as consultas. Se algo falhar, o que costuma faltar é a lista das indicações de coleta, não o tratamento.

em 30 dias

Trinta dias depois, o teste é de aplicação. Construa três mulheres com prurido vulvar crônico e mude um elemento em cada uma: na primeira, placas brancas nacaradas com reabsorção dos pequenos lábios, vagina de aspecto normal e envolvimento perianal; na segunda, erosões vermelho-vivas com bordas esbranquiçadas, sinéquias vaginais e estrias em rede na mucosa oral; na terceira, mucosa vaginal pálida e fina, pH de 6,0, células parabasais e arquitetura vulvar preservada. Escreva o diagnóstico, o tratamento e o seguimento de cada uma, dizendo qual achado mudou o trilho. Depois, acrescente à primeira uma úlcera de 2 cm no grande lábio que não cicatriza há dois meses e escreva a conduta, justificando por que ela é diferente da conduta diante de uma úlcera genital aguda. Por fim, reconstrua as duas divergências: o que a diretriz condiciona e o que a coorte amplia na manutenção, e o que separa risco inerente de risco modificável.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Mulher de 58 anos chega ao ambulatório de ginecologia com prurido vulvar há três anos que não a deixa dormir. Já usou várias pomadas por conta própria e antifúngico prescrito, sem resolver, e demorou a procurar ajuda por constrangimento. Percebeu que a pele da vulva ficou mais clara e mais fina e acha que é da idade. Conduza a consulta: caracterize o prurido e o impacto no sono, investigue fissuras, sangramento por coçadura e os tratamentos já usados, pergunte pelas doenças autoimunes e pelo rastreamento em dia, examine a vulva e a região perianal com consentimento e privacidade, decida se é preciso tirar um fragmento e explique a ela, sem jargão, o que ela tem, por que não é câncer, por que o tratamento é prolongado e o que ela deve mostrar entre as consultas. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Dermatoses vulvares e prurido vulvar crônico — Preparatório para provas | OsceLabs