Ginecologia e ObstetríciaContracepção, ISTs, climatério e uroginecologia

Violência sexual: acolhimento, profilaxias, contracepção de emergência e direitos

A urgência é clínica e humana: acolher sem interrogar, oferecer escolhas dentro das janelas e nunca condicionar cuidado à denúncia.

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Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Adolescente de 15 anos, com gestação de 10 semanas resultante de estupro, comparece ao serviço acompanhada da mãe e solicita a interrupção legal da gestação. A equipe discute quais requisitos são necessários para a realização do procedimento. Segundo a legislação brasileira e a Norma Técnica do Ministério da Saúde, qual condição é indispensável?

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Como esse tema cai

A pessoa chega a um serviço de saúde, não a um interrogatório. O primeiro objetivo é segurança, estabilização, escuta qualificada e devolução de controle. Pergunta-se apenas o necessário para cuidar: quando ocorreu, que tipos de contato e exposição aconteceram, risco de gestação, vacinas, medicamentos, alergias e sintomas.

Nenhuma etapa clínica depende de boletim de ocorrência, exame pericial ou autorização judicial. A decisão de registrar ocorrência pertence à pessoa capaz, respeitadas as obrigações legais de proteção e notificação que recaem sobre o serviço.

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O que muda decisão

Acolhimento que reduz revitimização

Atenda em ambiente reservado, apresente-se, explique cada passo e peça consentimento separado para história, exame, fotografias, coleta de vestígios e tratamentos. Permita acompanhante escolhido quando seguro. Não exija relato repetido nem confronte inconsistências: memória traumática pode ser fragmentada.

Frases úteis são simples: “eu acredito em você”, “você não tem culpa”, “vou explicar suas opções” e “você pode interromper o exame”. Evite “por que você foi?”, “por que não denunciou?” ou qualquer formulação que transfira responsabilidade.

Primeiro, urgências e segurança atual

Hemorragia, trauma craniano, estrangulamento, intoxicação, dor intensa, alteração de consciência, risco de suicídio e ameaça atual exigem resposta imediata. Estrangulamento pode ter poucos sinais externos e ainda assim lesar via aérea e vasos cervicais.

Pergunte se a pessoa pode voltar para casa com segurança e se o agressor tem acesso a ela. Acione serviço social, psicologia e rede de proteção conforme desejo, idade, capacidade e risco. Crianças e adolescentes exigem proteção específica e comunicação aos órgãos competentes.

História e exame orientados pelo consentimento

Registre as palavras da pessoa com objetividade, horário aproximado, tipos de contato, uso de preservativo, ejaculação, perda de consciência, sangramento, banho ou troca de roupas, última menstruação, contracepção e vacinação. Essas perguntas definem profilaxias; não servem para testar credibilidade.

Exame da cabeça aos pés e geniturinário é oferecido, nunca imposto. Achados normais não excluem violência sexual. Descreva lesões por localização, tamanho, cor e forma; use fotografia apenas com consentimento e fluxo institucional seguro.

O relógio: 72 horas, cinco dias e retornos

PEP para HIV deve começar o mais cedo possível e até 72 horas após exposição de risco, por 28 dias. Não se espera resultado do agressor quando isso atrasaria o início. Depois de 72 horas, PEP HIV em geral não é iniciada, mas testagem, prevenção futura, diagnóstico e cuidado permanecem.

Contracepção de emergência com levonorgestrel 1,5 mg em dose única deve ser oferecida o mais cedo possível e pode ser usada até cinco dias, com queda de eficácia ao longo do tempo. DIU de cobre até cinco dias é a opção mais eficaz em pessoas elegíveis, após decisão compartilhada e avaliação de infecção genital e preferências.

Linha do tempo clínica após violência sexual, com marcos imediatos, 72 horas, cinco dias e seguimento, separando PEP HIV, profilaxias, contracepção e retornos.
As janelas não são a porta do cuidado: perder uma medida não elimina as demais nem o direito ao acompanhamento.

PEP, hepatites e outras IST

A indicação de PEP HIV considera material biológico, tipo de exposição, tempo e situação sorológica da fonte quando conhecida. Colha teste basal sem condicionar o início; avalie função renal e interações e organize acesso aos 28 dias e retorno. Teste basal negativo não exclui infecção muito recente.

Para hepatite B, confira registro vacinal e sorologia quando disponível. Inicie ou complete vacinação e indique imunoglobulina em cenários previstos, de preferência cedo. Não há PEP eficaz para hepatite C: faz-se testagem basal e seguimento.

Profilaxia empírica para sífilis, gonorreia, clamídia e tricomoníase pode ser indicada conforme protocolo, idade, peso, possibilidade de gestação, alergias e adesão ao retorno. Coletas não devem atrasar tratamento; em crianças, a interpretação de uma IST tem implicações protetivas e forenses específicas.

Gestação: testar, prevenir e explicar escolhas

Teste de gravidez basal identifica gestação anterior, mas não exclui concepção da violência recente. Oriente repetição no seguimento se houver risco e atraso menstrual. Contracepção de emergência não interrompe gestação estabelecida.

Se ocorrer gestação decorrente de estupro, a interrupção é permitida no Brasil. O acesso ao cuidado não exige boletim de ocorrência nem autorização judicial; o serviço deve acolher, informar opções — manter a gestação, adoção ou interrupção prevista em lei — e encaminhar sem julgamento conforme a rede.

Vestígios e cuidado clínico podem caminhar juntos

Ofereça coleta de vestígios conforme janela e protocolo local, explicando finalidade e limites. Se a pessoa desejar coleta, preservar roupas separadas em papel e evitar banho pode ajudar, mas quem já tomou banho ou trocou de roupa continua tendo direito integral ao atendimento e ainda pode haver material útil.

Cada amostra exige identificação, lacre, registro e cadeia de custódia. A coleta nunca deve atrasar estabilização, PEP, contracepção ou tratamento de lesões. Recusa de uma etapa não significa recusa de todas.

Notificar não é obrigar a denunciar

A violência interpessoal é de notificação compulsória em saúde. Notificação alimenta vigilância e proteção; boletim de ocorrência é procedimento policial. Confundir os dois faz profissionais condicionarem cuidado a uma decisão que não lhes pertence.

Crianças, adolescentes, idosos e pessoas incapazes têm fluxos legais próprios de comunicação e proteção. Para mulheres adultas, há também comunicação externa prevista em lei, com regras e exceções de segurança; o serviço deve seguir protocolo vigente, explicar o processo e preservar o mínimo necessário de informação.

Alta é um plano, não um papel

Antes da saída, entregue por escrito medicamentos, efeitos adversos, sinais de alarme, datas de retorno e contatos da rede. Organize reavaliação precoce para adesão à PEP e resultados e seguimento para HIV, sífilis, hepatites e gravidez conforme protocolo.

Ofereça apoio em saúde mental sem patologizar reação aguda. Insônia, medo e hipervigilância podem ocorrer; risco de autoagressão exige intervenção imediata. Continuidade e possibilidade de escolher profissional e acompanhante devolvem autonomia.

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Atendimento em camadas

Cada camada requer consentimento e nenhuma precisa esperar a seguinte.

  1. 1Garantir privacidade, segurança e tratar urgências clínicas.
  2. 2Ouvir o necessário para definir exposições e janelas, sem interrogatório.
  3. 3Oferecer exame, documentação e coleta de vestígios com consentimentos separados.
  4. 4Iniciar PEP HIV até 72 horas quando indicada; avaliar hepatite B e profilaxia de IST.
  5. 5Oferecer contracepção de emergência até cinco dias e teste basal de gravidez.
  6. 6Notificar conforme norma, ativar proteção quando cabível e agendar seguimento.
MedidaJanela-chaveRegra
PEP HIVQuanto antes, até 72 h28 dias; não atrasar aguardando fonte
LevonorgestrelQuanto antes, até 5 diasNão é abortivo e não depende de teste negativo muito precoce
DIU de cobreAté 5 diasMais eficaz; elegibilidade e decisão compartilhada
Hepatite BO mais cedo possívelVacina ± imunoglobulina conforme status e risco
Cuidado e seguimentoSem prazo de exclusãoMesmo após perder janelas, atendimento continua indicado

O tempo desde a exposição muda intervenções; não muda o direito ao cuidado.

Achado genital normal não exclui violência sexual.

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Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Profilaxia empírica de IST

Favorece proteção quando retorno é incerto.

Tratamento presuntivo

Pode ser considerado em cenários selecionados com seguimento assegurado.

Testar e tratar

Na prova

Seguir o PCDT vigente e individualizar idade, peso, gestação e retorno.

DIU de cobre após violência

Maior eficácia contraceptiva e continuidade como método.

Benefício

Consentimento, risco/diagnóstico de infecção genital e tolerância ao procedimento.

Cautelas

Na prova

É opção eficaz, não obrigação.

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Caso resolvido

Mulher de 24 anos procura emergência 36 horas após violência sexual com penetração vaginal e ejaculação. Está hemodinamicamente estável, não usa contraceptivo e desconhece vacinação contra hepatite B. Diz que não quer ir à polícia.
Acolher sem condicionar
Garantir privacidade, segurança e consentimento; a recusa de boletim de ocorrência não impede nenhuma medida clínica.
Usar as janelas
Oferecer PEP HIV imediata por 28 dias, profilaxias de IST conforme PCDT, vacina/imunoglobulina para hepatite B conforme avaliação e contracepção de emergência.
Construir continuidade
Teste basal, coleta de vestígios apenas se consentida, notificação pelo serviço, plano escrito e retornos para adesão, sorologias e gravidez.
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Agora feche você

Adolescente de 16 anos chega seis dias após violência sexual. Está segura no momento, sem lesões agudas, teste de gravidez negativo. A mãe exige exame “para provar” o ocorrido.
Limite das janelas
PEP HIV e contracepção de emergência já estão fora das janelas usuais; isso não encerra o atendimento.
Autonomia e proteção
Não realizar exame coercitivo; explicar que exame normal não exclui violência e seguir fluxo de proteção de adolescente.
Complete
Quais cuidados, testes, seguimento e medidas de proteção continuam indicados após seis dias? Como orientar sobre direitos e eventual gestação?
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Onde a banca derruba

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Gabarito da questão de abertura
Comentário

Correta: o aborto em caso de gravidez decorrente de estupro é permitido pelo art. 128, II, do Código Penal e não exige BO, laudo pericial ou autorização judicial: basta o consentimento da mulher. Sendo menor de 18 anos, soma-se o consentimento do representante legal; e, por se tratar de vítima menor, é obrigatória a notificação ao Conselho Tutelar. Errada: BO e laudo do IML não são exigidos; condicioná-los é ilegal. Errada: não há necessidade de decisão judicial. Errada: a lei baseia-se no consentimento/palavra da vítima, não em prova pericial de conjunção carnal. Errada: o Código Penal não fixa limite de idade gestacional para essa hipótese.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

Sorteando as questões…

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Plano de revisão

em 7 dias

Reconstrua as janelas de 72 horas e cinco dias. Explique a diferença entre notificação e boletim de ocorrência. Liste cinco frases que acolhem e cinco perguntas que revitimizam.

em 30 dias

Monte um plano de alta com retornos e exames. Revise profilaxia de hepatite B conforme estado vacinal. Resolva um caso após 72 horas sem cair na falsa alta por “janela perdida”.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Treine uma consulta em que cada intervenção é oferecida como escolha: segurança, profilaxia, contracepção, vestígios e rede de apoio. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Violência sexual: acolhimento, profilaxias, contracepção de emergência e direitos — Preparatório para provas | OsceLabs