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Outras EspecialidadesDermatologia

Alopecias

Óstio folicular, padrão de perda e causas sistêmicas

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Criança tratada com antifúngico oral por tinha do couro cabeludo mantém, ao final de 8 semanas, área de alopecia com pele lisa e brilhante, sem descamação e sem óstios foliculares visíveis. Qual é a explicação?

02

Como esse tema cai

A queixa chega sempre igual: o cabelo está caindo. O que muda é tudo o que vem depois, e a maior parte do que decide a resposta cabe no exame de dois minutos que separa uma alopecia da outra. Quem chegou até aqui já reconhece a placa arredondada e assintomática da areata, já sabe que a rarefação difusa do topo com preservação da linha frontal é padrão feminino, e já ouviu falar em pelos em ponto de exclamação.

O eixo que decide a questão difícil é anterior a tudo isso, e é anatômico: os óstios foliculares estão preservados ou apagados? Essa pergunta divide as alopecias em dois mundos com prognósticos opostos, e é ela que determina se a conduta é tratar esperando repilação ou correr para conter a destruição antes que ela avance. Enunciado que descreve a superfície do couro cabeludo está oferecendo a resposta, não o cenário.

Há depois um conjunto de números que só existe se tiver sido lido: as faixas de extensão que classificam a gravidade da areata, os critérios que promovem um paciente leve para moderado sem que a extensão mude, a concentração e o intervalo da infiltração intralesional, e a latência que separa o gatilho da queda no eflúvio telógeno. São todos verificáveis em documento brasileiro recente.

E há uma armadilha que não é dermatológica. Uma parte das alopecias em placas que chegam ao ambulatório não é doença do cabelo: é manifestação de outra doença, cujo tratamento não passa por nada que se aplique no couro cabeludo. Reconhecê-la muda a conduta inteira e é frequentemente o que o enunciado está testando quando descreve um adulto jovem com falhas capilares e alguma outra coisa no exame.

03

O que muda decisão

A primeira bifurcação não é o diagnóstico, é o óstio folicular

Antes de nomear qualquer alopecia, o exame precisa responder a uma pergunta binária: os óstios foliculares estão visíveis ou desapareceram? O óstio é a abertura do folículo na superfície, o pequeno ponto de onde o fio emerge. Enquanto ele estiver lá, o folículo existe e a repilação é possível. Quando ele some, substituído por pele lisa e brilhante, o folículo foi destruído e substituído por fibrose — e nenhum tratamento traz de volta o que já foi perdido.

Essa é a divisão entre alopecia não cicatricial e alopecia cicatricial, e ela reorganiza a urgência do caso. Na não cicatricial, o tempo trabalha a favor: a areata pode repilar espontaneamente, o eflúvio telógeno se resolve sozinho, a alopecia de padrão progride devagar. Na cicatricial, cada semana de doença ativa é folículo perdido em definitivo, e o objetivo do tratamento passa a ser conter a borda que avança, não recuperar o centro.

Dois cortes esquemáticos de couro cabeludo lado a lado: um com aberturas foliculares regulares e folículos íntegros, outro com superfície lisa sem aberturas e faixas fibrosas no lugar dos folículos.
A pergunta que abre toda avaliação de alopecia é anatômica: enquanto houver óstio folicular, há folículo e há chance de repilação; superfície lisa sem óstio significa fibrose, e o que se perdeu ali não volta.

Do lado não cicatricial ficam a alopecia de padrão, a areata, o eflúvio telógeno e anágeno, a alopecia por tração em fase inicial, a tricotilomania e a alopecia sifilítica. Do lado cicatricial ficam o líquen plano pilar, a alopecia frontal fibrosante, o lúpus discoide do couro cabeludo, a foliculite decalvante e a fase tardia da tração mantida por anos.

Dois grupos merecem cuidado porque atravessam a fronteira. A alopecia por tração começa não cicatricial e, mantida por tempo suficiente, destrói folículo e vira cicatricial — o que explica por que a orientação de suspender penteados tracionados vale mesmo quando a rarefação ainda parece discreta. E a tinha do couro cabeludo costuma ser não cicatricial, mas a forma inflamatória com quérion pode deixar alopecia definitiva se o tratamento demorar.

O exame que responde à pergunta não exige equipamento. Basta afastar os fios com boa iluminação e olhar a superfície. Onde há dúvida, a tricoscopia resolve, e a biópsia fecha os casos em que a distinção muda a conduta — o que, na prática, quer dizer todos os casos com suspeita de doença cicatricial ativa.

Tricoscopia: os achados que decidem

A tricoscopia é a dermatoscopia aplicada ao couro cabeludo, e ela transformou o diagnóstico das alopecias porque cada doença tem um conjunto de achados razoavelmente próprio. Vale conhecer os que aparecem nos enunciados.

Na alopecia de padrão, o achado central é a diversidade de diâmetro dos fios: pelos terminais grossos convivendo com fios finos e curtos, resultado da miniaturização progressiva do folículo. Somam-se a redução da densidade na área acometida, com preservação da região occipital, e o sinal peripilar, um halo acastanhado ao redor do óstio. A miniaturização é o que dá nome ao processo e é o que se pretende reverter.

Na alopecia areata, os achados clássicos são os pelos em ponto de exclamação — fios curtos que afinam em direção à base, mais estreitos embaixo do que em cima —, os pontos amarelos, que correspondem a óstios dilatados preenchidos por material sebáceo e queratina, os pontos pretos, que são fios quebrados na saída do óstio, e os pelos velus. Nada disso é cicatricial: os óstios estão todos lá, e é por isso que a repilação espontânea existe.

Na tinha do couro cabeludo, aparecem pelos em vírgula e pelos em saca-rolha, além de descamação e fios quebrados rentes. É um dos poucos quadros em que a tricoscopia sugere um agente infeccioso, e o achado deve disparar o micológico direto e a cultura.

Nas alopecias cicatriciais, o achado que importa é negativo: a ausência de óstios foliculares. Somam-se eritema perifolicular e descamação perifolicular no líquen plano pilar e na alopecia frontal fibrosante; tampões foliculares, pontos vermelhos e áreas de atrofia com discromia no lúpus discoide; e tufos de vários fios saindo de um mesmo óstio na foliculite decalvante.

Na tricotilomania, os fios têm comprimentos irregulares dentro da mesma área, há fios quebrados em alturas diferentes e não há o afinamento basal do ponto de exclamação. O contorno da falha costuma ser geométrico e de bordas anguladas, ao contrário da placa arredondada e regular da areata — sinal indireto de que a perda foi mecânica.

Uma leitura de conjunto ajuda mais do que memorizar achado por achado. Fios do mesmo comprimento e mesma fase, com óstios preservados, sugerem doença que ataca o folículo em bloco. Fios de comprimentos variados sugerem quebra mecânica. Fios de diâmetros variados sugerem miniaturização. E superfície sem óstio encerra a discussão sobre repilação.

Teste de tração: o que ele mede e o que ele não mede

O teste de tração consiste em segurar delicadamente um feixe de fios próximo ao couro cabeludo e tracioná-lo com firmeza suave até as pontas, contando quantos se soltam. Ele responde a uma pergunta específica: há queda ativa agora? Não responde qual é o diagnóstico.

A leitura mais aceita considera o teste positivo quando se solta mais de um décimo dos fios tracionados. É um teste que precisa de contexto para ser interpretado: lavagem recente reduz o número de fios soltos e pode produzir resultado falsamente tranquilizador, e escovação vigorosa antes da consulta faz o mesmo.

Onde o teste é feito muda o que ele significa. No eflúvio telógeno, ele tende a ser positivo de forma difusa, em várias regiões do couro cabeludo, porque a fase de queda atingiu os folículos em bloco. Na alopecia areata, o teste é positivo na borda da placa e negativo no couro cabeludo distante, porque a atividade da doença está na periferia da lesão que se expande — daí a importância de testar a borda, e não o centro. Na alopecia de padrão, o teste costuma ser negativo, já que o problema é miniaturização progressiva e não queda maciça, e um teste positivo em rarefação de padrão levanta a hipótese de eflúvio sobreposto.

Na tricotilomania, o teste é caracteristicamente negativo dentro da falha: os fios que restaram são os que não puderam ser apreendidos, curtos demais para serem arrancados, e estão firmemente ancorados. Positividade dentro de uma placa de contorno geométrico deve fazer reconsiderar o diagnóstico.

Um detalhe que o consenso brasileiro de alopecia areata acrescenta e que costuma escapar: um teste de tração positivo em mais de um sítio é um dos critérios que promovem o paciente de faixa de gravidade, mesmo sem aumento da extensão medida. O achado deixa de ser apenas descritivo e passa a ter consequência de classificação.

Vale ainda separar o teste de tração do exame que a família costuma fazer em casa: contar fios no travesseiro ou no ralo. A perda fisiológica diária é da ordem de dezenas de fios e varia com a frequência de lavagem, de modo que a contagem doméstica quase nunca distingue normal de anormal. O que distingue é a comparação da densidade entre regiões, a presença de miniaturização e o teste feito com técnica.

Alopecia de padrão: a escada muda com o sexo

A alopecia de padrão é a causa mais comum de rarefação capilar em ambos os sexos e tem uma característica que a define: ela é regional, não difusa. Existe uma área que perde e uma área que não perde, e a área poupada é sempre a mesma — a região occipital, cujos folículos não respondem ao estímulo que miniaturiza os demais.

No homem, o padrão descrito na escala de Hamilton e Norwood começa pela recessão das entradas temporais e pela rarefação do vértice, que progridem uma em direção à outra até confluírem, deixando uma faixa de cabelo em ferradura nas regiões parietais e occipital.

Na mulher, o padrão descrito por Ludwig é outro: rarefação difusa do topo com alargamento da risca central, que vai ficando mais larga à medida que a densidade cai, e preservação da linha de implantação frontal. Essa preservação da linha frontal é o achado que mais rende, porque é ele que separa a alopecia de padrão de outra doença que ocupa o mesmo território e evolui em sentido oposto.

A escala de Ludwig tem três graus, do rareamento perceptível apenas na risca central até a perda extensa do topo com a linha frontal ainda de pé. A leitura prática é simples: a paciente costuma perceber primeiro pela largura da risca no espelho e pelo volume do rabo de cavalo, não por queda maciça.

A investigação da mulher com rarefação de padrão tem um princípio que evita exame desnecessário: dosagem androgênica não é obrigatória em toda paciente, e sim naquelas com sinais clínicos de hiperandrogenismo — irregularidade menstrual, hirsutismo, acne persistente, virilização. Numa mulher com ciclos regulares e sem hirsutismo, o rendimento da dosagem hormonal é baixo, e o que rende é procurar carência de ferro e disfunção tireoidiana.

O que se promete no tratamento também precisa ser calibrado. O objetivo inicial é estabilizar a perda, e só depois recuperar densidade; o efeito depende de uso continuado, e a suspensão devolve o paciente à trajetória anterior em meses. Registro fotográfico padronizado no mesmo enquadramento e na mesma iluminação é o que permite comparar, porque a percepção do próprio cabelo no espelho é notoriamente pouco confiável.

Um detalhe do exame que separa duas doenças no mesmo consultório: a alopecia de padrão feminina preserva a linha frontal e a alopecia frontal fibrosante recua a linha frontal, deixando uma faixa de pele lisa, pálida e sem óstios entre a testa antiga e a nova implantação, com perda das sobrancelhas e, às vezes, fios isolados sobreviventes à frente da linha. A primeira é não cicatricial e a segunda é cicatricial; confundi-las é confundir prognóstico.

Alopecia areata: as faixas de gravidade e o que promove de degrau

A alopecia areata é uma doença autoimune órgão-específica em que linfócitos atacam o folículo em fase anágena. O quadro típico é a placa arredondada, de instalação rápida, assintomática, sem descamação e com óstios preservados, que pode ser única ou múltipla. Não há contágio, e essa frase precisa ser dita ao paciente com todas as letras.

A extensão dá nome às formas: placas isoladas, forma total quando todo o couro cabeludo é acometido, e forma universal quando também se perdem os pelos do corpo. A quantificação usa o percentual de couro cabeludo sem cabelo, e é sobre esse percentual que o consenso brasileiro constrói as faixas de gravidade.

As faixas são três. Leve corresponde a acometimento de até 20% do couro cabeludo. Moderada, de 21% a 49%. Grave, de 50% a 100%. Elas importam porque a faixa é o que orienta a escolha do tratamento, e não a impressão de quanto o paciente está incomodado.

E há uma regra de promoção que costuma ser o ponto da questão: casos leves ou moderados sobem uma faixa na presença de qualquer um de quatro achados — acometimento de sobrancelhas ou cílios, resposta inadequada após seis meses de tratamento, teste de tração positivo em mais de um sítio, e impacto psicossocial negativo. Isso significa que um paciente com 15% de couro cabeludo acometido e perda de sobrancelhas é conduzido como moderado, e que um paciente moderado com sofrimento psíquico relevante é conduzido como grave.

Repare no que essa regra faz. Ela introduz, dentro de uma classificação de extensão, três variáveis que não são de extensão: uma topográfica (sobrancelha e cílio), uma temporal (falha de resposta em seis meses) e uma subjetiva mas explícita (impacto psicossocial). Enunciado que oferece um percentual pequeno e, no meio do texto, menciona falhas na sobrancelha, está pedindo que a promoção seja aplicada.

As associações valem ser lembradas porque orientam a investigação: atopia, doença tireoidiana autoimune e vitiligo são as companhias mais frequentes, e o antecedente familiar de doença autoimune é comum. O acometimento ungueal existe e o achado mais característico é a depressão puntiforme, as pequenas covinhas na lâmina; unha acometida é marcador de doença mais extensa e de curso menos favorável.

O prognóstico é honestamente imprevisível, e dizer isso faz parte do tratamento. Repilação espontânea ocorre, recidiva ocorre, e o curso não se deixa prever pelo tamanho da placa inicial. Fatores associados a evolução menos favorável incluem início na infância, doença de longa duração, forma em faixa na região occipital e temporal, acometimento ungueal e atopia.

O que o consenso brasileiro coloca em primeira linha

A recomendação que mais aparece em prova é a do adulto com doença localizada: a corticoterapia intralesional é a primeira opção para adultos com alopecia areata leve a moderada, e os candidatos ideais são pacientes com áreas isoladas e pequenas.

Os números da técnica estão no documento e são cobráveis. A triancinolona é usada na concentração de 2,5 a 10 mg/mL para o couro cabeludo e de 2,5 a 5 mg/mL para a face — a concentração menor na face existe por causa do risco de atrofia em pele fina. A infiltração é de 0,02 a 0,1 mL por ponto, distribuída pela área, e o intervalo entre as sessões é de quatro a seis semanas.

Na criança, a lógica muda por razão prática antes de farmacológica: infiltrar exige colaboração que a maioria das crianças pequenas não tem. Para casos leves na infância, recomendam-se corticosteroides tópicos, preferencialmente de média a alta potência, e figuram como alternativas a antralina, a difenciprona e o minoxidil.

Para a doença grave, os inibidores de Janus quinase são os medicamentos com maior nível de evidência. Dois têm aprovação em bula no Brasil para essa indicação, com faixas etárias diferentes: o baricitinibe, na dose de 4 mg por dia, para maiores de 18 anos, e o ritlecitinibe, na dose de 50 mg por dia, a partir dos 12 anos. Essa diferença de idade é o que torna o segundo a única opção aprovada em bula para o adolescente com doença extensa.

Duas condutas continuam pedindo atenção porque são erros recorrentes. A primeira é a corticoterapia sistêmica prolongada como estratégia de manutenção: ela controla enquanto dura e recidiva quando se retira, ao custo dos efeitos adversos conhecidos, o que a torna má escolha para uma doença de curso crônico e imprevisível. A segunda é prometer resultado rápido: mesmo com tratamento adequado, a avaliação de resposta pede meses, e o próprio critério de promoção de faixa usa a janela de seis meses.

Fecha o pacote o que não é medicamento e costuma valer ponto na estação: explicar a natureza autoimune e a ausência de contágio, oferecer apoio psicológico, orientar fotoproteção das áreas descobertas, discutir recursos de camuflagem e programar retorno para reavaliar extensão e resposta.

Eflúvio telógeno: a queda que tem data

O eflúvio telógeno é o resultado de um evento que empurra, de uma vez, uma proporção anormal de folículos da fase de crescimento para a fase de repouso. Como o fio em repouso demora a cair, existe uma latência característica entre o gatilho e a queda, tipicamente de dois a quatro meses. É essa latência que dá ao quadro a sua marca clínica: quando o paciente procura ajuda, o evento que causou a queda já passou e frequentemente já foi esquecido.

Os gatilhos são reconhecíveis e devem ser perguntados nominalmente: parto, cirurgia de grande porte, doença febril, perda ponderal rápida ou dieta muito restritiva, hemorragia importante, estresse emocional intenso, introdução ou suspensão de medicamentos e descompensação tireoidiana. Perguntar apenas por estresse tem rendimento baixo; perguntar pelos eventos um a um tem rendimento alto.

O quadro é difuso, sem placas, sem falhas circunscritas e sem alteração inflamatória do couro cabeludo. A paciente descreve queda maciça, com tufos na mão e no ralo, e não descreve afinamento gradual. O teste de tração é positivo em várias regiões. Os óstios estão preservados e não há miniaturização importante — quando há, costuma haver alopecia de padrão coexistindo, e o eflúvio apenas desmascarou o que já estava em curso.

O curso natural é a resolução. O eflúvio agudo tende a se resolver em poucos meses depois de removido o gatilho, com recuperação da densidade. Quando a queda ultrapassa seis meses, fala-se em eflúvio telógeno crônico, e aí a busca por causa persistente ganha peso: carência de ferro mantida, doença tireoidiana não tratada, medicamento em uso continuado, doença sistêmica.

A conversa terapêutica mais importante é a de expectativa. O tratamento é a remoção da causa; não há medicamento que encurte de forma confiável o processo, e a densidade retorna no ritmo do ciclo do folículo, não no ritmo da ansiedade do paciente. Prometer resposta rápida é o caminho mais seguro para perder a adesão quando ela for realmente necessária.

Duas diferenças fecham o raciocínio. O eflúvio anágeno é outra coisa: a queda ocorre em dias a poucas semanas, não em meses, porque o agente interrompe a mitose do folículo em plena fase de crescimento — é o padrão da quimioterapia. E a alopecia de padrão não tem gatilho datável nem queda maciça: tem afinamento progressivo com topografia definida.

A alopecia que não é doença do cabelo

Existe uma alopecia em placas cujo tratamento não passa por nada aplicado no couro cabeludo, e ela é cobrada com frequência exatamente por isso. Na sífilis secundária, a perda capilar aparece como falhas irregulares e de contorno mal definido, descritas como alopecia em clareira, que dão ao couro cabeludo um aspecto roído. A perda de terço distal das sobrancelhas, a madarose, acompanha o quadro.

O protocolo nacional de infecções sexualmente transmissíveis lista a alopecia em clareira e a madarose entre as manifestações cutâneo-mucosas do secundarismo, ao lado da roséola, das placas mucosas, das sifílides papulosas, das sifílides palmoplantares, do condiloma plano e da rouquidão, e situa esse conjunto na janela de seis semanas a seis meses após a cicatrização do cancro. Acompanham micropoliadenopatia, com a característica identificação dos gânglios epitrocleares, e sintomas gerais inespecíficos.

A consequência prática é direta: adulto com vida sexual ativa e alopecia em placas de contorno irregular merece exame do restante do tegumento, com atenção às regiões palmar e plantar, palpação de cadeias linfonodais e testagem. O mesmo protocolo estabelece a periodicidade do rastreio por população, com testagem anual para adolescentes e jovens até 30 anos com vida sexual ativa e semestral para populações de maior exposição.

A segunda alopecia que engana é a tinha do couro cabeludo. Predomina em crianças, cursa com descamação e fios quebrados rentes à superfície, pode ter linfonodo cervical palpável e, na forma inflamatória, produzir o quérion, uma placa elevada, dolorosa e supurativa que pode ser confundida com abscesso bacteriano. O ponto que decide a questão é terapêutico: o tratamento da tinha do couro cabeludo é sistêmico, porque o fungo está dentro da haste e o tópico não alcança o folículo; antifúngico tópico isolado não trata, e xampu tem papel apenas adjuvante para reduzir a dispersão de esporos.

A terceira é a alopecia por tração, produzida por penteados que mantêm tensão sustentada nos fios — tranças apertadas, coques altos, extensões, uso continuado de aparelhos de fixação. Localiza-se preferencialmente nas margens, em regiões frontotemporais, e tem um achado descrito característico: a preservação de uma fileira fina de fios bem na borda da implantação, poupada porque sofre menos tração. Enquanto houver óstio, a suspensão do hábito permite recuperação; mantida por anos, a doença se torna cicatricial.

A quarta é a tricotilomania, em que a perda decorre de arrancamento repetido, muitas vezes não plenamente admitido. Falha de contorno geométrico, fios de comprimentos irregulares dentro da área e teste de tração negativo dentro da placa compõem o quadro, e o manejo é conjunto com a saúde mental.

Fecha a lista o lúpus discoide do couro cabeludo, que é cicatricial: placas eritematosas com escama aderente, tampões foliculares, atrofia central com discromia e perda de óstios. Diante dele, a biópsia não é preciosismo — é o que distingue uma doença que ainda pode ser contida de uma área já perdida.

Ferro, tireoide e o que vale medir

A investigação laboratorial das alopecias tem um risco duplo: pedir de menos e perder uma causa tratável, ou pedir de mais e transformar achados irrelevantes em tratamento desnecessário. Alguns princípios organizam a decisão.

O hemograma com ferritina rende quando há sangramento crônico, fluxo menstrual volumoso, dieta restritiva, cirurgia bariátrica ou queda difusa. A ferritina é o marcador mais sensível de estoque de ferro, com uma ressalva importante: ela é proteína de fase aguda e sobe em inflamação e infecção, de modo que um valor normal em paciente inflamado não afasta carência. Nessas situações, a saturação de transferrina ajuda.

A função tireoidiana rende quando há sintomas sugestivos, bócio, antecedente pessoal ou familiar de tireoidopatia, ou quando o quadro é de eflúvio sem gatilho identificado. Hipotireoidismo e hipertireoidismo produzem queda difusa, e a correção do distúrbio corrige o cabelo com a latência habitual do ciclo folicular.

A testagem para sífilis e para o vírus da imunodeficiência humana rende diante de alopecia em placas de contorno irregular, de exposição sexual desprotegida e de qualquer achado sistêmico associado. É um exame barato que muda o diagnóstico inteiro.

As dosagens androgênicas rendem quando há sinais clínicos de hiperandrogenismo, e não como triagem em toda mulher com rarefação. Pedir testosterona e sulfato de deidroepiandrosterona em paciente com ciclos regulares, sem hirsutismo e sem acne produz, na maioria das vezes, resultado normal e nenhuma mudança de conduta — e, ocasionalmente, um valor limítrofe que gera uma investigação inteira sem destino.

O micológico direto e a cultura do raspado rendem sempre que houver descamação, fios quebrados rentes ou qualquer suspeita de tinha, sobretudo em criança. É o exame que impede tratar como areata uma dermatofitose e, ao contrário, é o que autoriza um tratamento sistêmico prolongado que ninguém deve começar às cegas.

A biópsia de couro cabeludo entra quando a distinção entre cicatricial e não cicatricial não se resolve pelo exame, quando há suspeita de doença cicatricial ativa e quando a resposta ao tratamento não corresponde à hipótese. Colhe-se de preferência a borda ativa, e não do centro já fibrótico, porque o que se procura é o infiltrado que está destruindo o folículo agora.

Um último princípio, útil quando o enunciado oferece uma lista longa de exames: a alopecia de padrão e a areata são diagnósticos clínicos, sustentados por história, exame e tricoscopia. O laboratório entra para procurar causa associada e para preparar tratamento, não para confirmar o que já está diagnosticado à inspeção.

04

Do óstio à faixa de gravidade: a ordem que resolve

Em alopecia, o nome da doença raramente separa as alternativas — todas são plausíveis à primeira leitura. O que separa é a ordem do raciocínio: primeiro a anatomia da superfície, depois o padrão de perda, depois o número que classifica. Cada etapa descarta um grupo inteiro.

  1. 11. Os óstios foliculares estão visíveis? Se não estiverem, e a superfície for lisa e brilhante, trata-se de alopecia cicatricial: a conduta muda de recuperar para conter, e a biópsia da borda ativa passa a ser necessária.
  2. 22. Se os óstios estão preservados, a perda é em placas ou difusa? Placas apontam para areata, tinha, tricotilomania, tração e sífilis. Perda difusa aponta para eflúvio telógeno e alopecia de padrão.
  3. 33. Se é em placas, há descamação e fios quebrados rentes? Então é tinha até prova em contrário, e o tratamento será sistêmico. Há pelos em ponto de exclamação, pontos amarelos e pontos pretos, com placa arredondada e assintomática? Então é areata.
  4. 44. Se é em placas com contorno irregular e aspecto roído, em adulto com vida sexual ativa, teste para sífilis e para o vírus da imunodeficiência humana, e examine palmas, plantas, mucosas e cadeias linfonodais.
  5. 55. Se é difusa, há gatilho datável dois a quatro meses antes, com queda maciça e teste de tração positivo em várias regiões? Então é eflúvio telógeno, e o tratamento é remover a causa.
  6. 66. Se é difusa com afinamento progressivo, diversidade de diâmetro dos fios, área occipital poupada e linha frontal preservada na mulher, então é alopecia de padrão.
  7. 77. Se o diagnóstico é areata, calcule a faixa pela extensão do couro cabeludo e, antes de escolher o tratamento, aplique a regra de promoção: sobrancelha ou cílio acometidos, seis meses sem resposta, tração positiva em mais de um sítio, ou impacto psicossocial negativo sobem uma faixa.
  8. 88. A pergunta é sobre exame complementar? Ferritina e função tireoidiana rendem em queda difusa e em fatores de risco identificados; dosagem androgênica só rende com sinal clínico de hiperandrogenismo; micológico rende diante de descamação; biópsia rende diante de suspeita de doença cicatricial.

Régua da gravidade da areata

II Consenso da Sociedade Brasileira de Dermatologia para tratamento da alopecia areata, 2025. Leve corresponde a até 20% do couro cabeludo, moderada de 21% a 49% e grave de 50% a 100%. Casos leves ou moderados sobem uma faixa se houver acometimento de sobrancelhas ou cílios, resposta inadequada após seis meses de tratamento, teste de tração positivo em mais de um sítio, ou impacto psicossocial negativo.

Régua do tratamento da areata

Mesmo consenso. Corticoterapia intralesional é a primeira opção no adulto com doença leve a moderada, com triancinolona de 2,5 a 10 mg/mL no couro cabeludo e de 2,5 a 5 mg/mL na face, de 0,02 a 0,1 mL por ponto, em sessões separadas por quatro a seis semanas. Em crianças com doença leve, corticosteroide tópico de média a alta potência. Na doença grave, inibidores de Janus quinase: baricitinibe 4 mg por dia a partir dos 18 anos e ritlecitinibe 50 mg por dia a partir dos 12 anos.

Régua da alopecia que é infecção

Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Atenção Integral às Pessoas com Infecções Sexualmente Transmissíveis, 2022. A sífilis secundária inclui alopecia em clareira e madarose entre as manifestações cutâneo-mucosas, na janela de seis semanas a seis meses após a cicatrização do cancro, acompanhada de micropoliadenopatia com gânglios epitrocleares. O mesmo documento fixa o rastreio anual para jovens até 30 anos com vida sexual ativa.

Réguas do padrão feminino

A descrição de Ludwig, de 1977, fixa os três graus do padrão feminino com alargamento da risca central e preservação da linha frontal. O artigo de Olsen, de 2001, consolida a expressão alopecia de padrão feminino no lugar de alopecia androgenética feminina, porque a dependência androgênica não está demonstrada em boa parte das pacientes — o que muda quando a investigação hormonal é obrigatória.

O que cada alopecia faz no exame, e o que decide

QuadroÓstio folicularPadrão da perdaAchado que decide
Alopecia de padrãoPreservadoRegional, com occipital poupadaDiversidade de diâmetro dos fios e miniaturização
Alopecia areataPreservadoPlacas arredondadas assintomáticasPelo em ponto de exclamação, ponto amarelo, ponto preto
Eflúvio telógenoPreservadoDifusa, sem placasGatilho datável dois a quatro meses antes
Tinha do couro cabeludoPreservado, em regraPlaca descamativa com fios quebradosMicológico e cultura; tratamento sistêmico
Alopecia sifilíticaPreservadoFalhas irregulares, aspecto roídoAchados de secundarismo e testagem reagente
TricotilomaniaPreservadoFalha de contorno geométricoFios de comprimentos variados e tração negativa na placa
Alopecia por traçãoPreservado no inícioMargens frontotemporaisHábito de tração e fileira fina poupada na borda
Alopecia frontal fibrosanteApagadoRecuo da linha frontalFaixa lisa sem óstios e perda de sobrancelhas
Lúpus discoide do couro cabeludoApagadoPlacas com atrofia centralEscama aderente, tampão folicular e discromia

A regra de promoção de faixa da areata introduz três variáveis que não são de extensão: topografia, tempo de falha terapêutica e impacto psicossocial. Enunciado que oferece percentual pequeno e menciona falha de sobrancelha está pedindo a promoção.

Teste de tração positivo na borda da placa e negativo longe dela é o padrão da areata em expansão. Positivo em várias regiões é o padrão do eflúvio. Negativo dentro de falha geométrica sugere arrancamento.

Tinha do couro cabeludo exige tratamento sistêmico. Antifúngico tópico isolado não resolve porque o fungo está dentro da haste, e xampu serve apenas para reduzir a dispersão de esporos.

Alopecia por tração começa não cicatricial e pode terminar cicatricial. A orientação de suspender o hábito vale enquanto ainda houver óstio, o que torna o diagnóstico precoce uma decisão de prognóstico.

A preservação da linha de implantação frontal separa a alopecia de padrão feminina da alopecia frontal fibrosante, que recua essa linha e deixa faixa de pele lisa sem óstios, frequentemente com perda de sobrancelhas.

Depressão puntiforme ungueal na areata é marcador de doença mais extensa e de curso menos favorável, não achado incidental.

A ferritina é proteína de fase aguda: valor normal em paciente inflamado não afasta carência de ferro, e a saturação de transferrina ajuda nesses casos.

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Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Como se chama, e como se investiga, a rarefação de padrão na mulher

Nomenclatura androgenética

A rarefação difusa do topo com preservação da linha frontal é descrita como alopecia androgenética feminina, com três graus, dentro da mesma família da calvície comum masculina e atribuída à ação androgênica sobre folículos geneticamente suscetíveis.

Ludwig E. Br J Dermatol. 1977;97(3):247-54.

Nomenclatura de padrão

A expressão preferida passa a ser alopecia de padrão feminino, porque grande parte das pacientes tem androgênios normais, nem todas respondem a antiandrogênio e a dependência androgênica não está demonstrada como na forma masculina.

Olsen EA. Female pattern hair loss. J Am Acad Dermatol. 2001;45(3 Suppl):S70-80.

Na prova

As duas expressões descrevem a mesma paciente e a diferença de nome não muda o exame. O que muda é a consequência sobre a investigação: quem adota a leitura androgenética tende a pedir dosagem hormonal em toda paciente, e quem adota a leitura de padrão reserva a dosagem para quem tem sinal clínico de hiperandrogenismo. Enunciado que descreve ciclos regulares, sem hirsutismo e sem acne, e pergunta pela conduta de investigação, está testando a segunda leitura. Enunciado que descreve irregularidade menstrual e hirsutismo pede a dosagem em qualquer das duas leituras.

Qual é o tratamento da alopecia areata grave

Régua clínica

Os inibidores de Janus quinase são o tratamento com maior nível de evidência para a doença grave, com duas moléculas aprovadas em bula no país e faixas etárias distintas: baricitinibe a partir dos 18 anos e ritlecitinibe a partir dos 12 anos.

II Consenso da Sociedade Brasileira de Dermatologia para tratamento da alopecia areata. An Bras Dermatol. 2025;100:328-41.

Régua de financiamento público

A avaliação de tecnologias para incorporação no sistema público analisa essas moléculas para a indicação e, até o momento, a alopecia areata segue conduzida no serviço público com as opções previamente disponíveis, sem linha de cuidado incorporada para os inibidores de Janus quinase nessa indicação.

Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde. Relatórios de recomendação sobre inibidores de Janus quinase para alopecia areata.

Na prova

O verbo do enunciado entrega a régua. Perguntas com as expressões maior nível de evidência, tratamento de escolha, primeira linha ou aprovado em bula pertencem à régua clínica, e a resposta esperada é o inibidor de Janus quinase, com atenção à idade do paciente para escolher a molécula. Perguntas com as expressões disponível no sistema público, componente da assistência farmacêutica, dispensação ou conduta na unidade pertencem à régua de financiamento, e a resposta muda. Quando o enunciado descreve um adolescente com doença extensa e pergunta a opção aprovada, a idade é o dado que resolve.

Qual valor de ferritina justifica repor ferro em quem está perdendo cabelo

Régua da carência de ferro

Os pontos de corte usados para caracterizar depleção de estoques de ferro na população geral são os que constam das recomendações de avaliação do estado nutricional de ferro e das faixas de referência dos métodos laboratoriais, e são baixos.

Organização Mundial da Saúde. Serum ferritin concentrations for the assessment of iron status in individuals and populations. Genebra, 2020.

Régua da tricologia

A literatura de doenças capilares propõe alvos de ferritina mais altos do que os usados para caracterizar carência de ferro na população geral, sob o argumento de que o folículo responde a estoques marginais, e reconhece que não há ensaio que estabeleça um número único.

Trost LB, Bergfeld WF, Calogeras E. J Am Acad Dermatol. 2006;54(5):824-44.

Na prova

O terreno é reconhecidamente instável e por isso o enunciado bem construído não pede um número: pede a conduta. O que é seguro afirmar em qualquer das duas leituras é que ferritina francamente baixa com queda difusa justifica repor ferro e investigar a causa da perda, e que ferritina normal em paciente com processo inflamatório ou infeccioso ativo não afasta carência, porque ela é proteína de fase aguda. Diante de um valor limítrofe isolado, o que muda o desfecho é procurar o sangramento, não discutir o ponto de corte.

06

Caso resolvido

Dois pacientes são atendidos na mesma tarde por perda capilar em placas. O primeiro é um homem de 19 anos, estudante, com cinco meses de evolução: três falhas arredondadas e de bordas regulares no couro cabeludo, todas assintomáticas, sem descamação, com a superfície mantendo pequenos pontos de onde emergem fios curtos. À tricoscopia há pelos que afinam em direção à base, pontos amarelos e pontos pretos. Ele tem duas áreas de rarefação na barba e, nas unhas das mãos, pequenas depressões puntiformes. O couro cabeludo acometido corresponde a cerca de 15% da superfície. O segundo é um homem de 27 anos, com três meses de evolução: falhas de contorno mal definido e distribuição irregular, dando ao couro cabeludo um aspecto roído, também sem descamação e com óstios preservados. Ele tem rarefação no terço distal das sobrancelhas, algumas máculas acastanhadas em palmas e plantas que não notara, e refere que teve, há cerca de quatro meses, uma ferida genital indolor que cicatrizou sozinha. Ambos negam prurido e ambos querem saber se o cabelo volta.
Passo 1 — a superfície é a mesma nos dois, e isso já elimina metade das hipóteses
Os dois têm óstios foliculares preservados, o que coloca ambos no grupo não cicatricial e, em princípio, com repilação possível. Nenhum dos dois tem descamação nem fios quebrados rentes, o que torna a tinha do couro cabeludo improvável nos dois. Nenhum dos dois tem falha de contorno geométrico com fios de comprimentos variados, o que afasta arrancamento. A partir daqui, o que separa os dois casos é o contorno das placas e o que existe fora do couro cabeludo.
Passo 2 — o contorno da placa é o divisor
Placas arredondadas de bordas regulares, assintomáticas, com pelos em ponto de exclamação, pontos amarelos e pontos pretos compõem o quadro da areata no primeiro paciente, e as depressões puntiformes ungueais reforçam a hipótese. Falhas de contorno mal definido e aspecto roído compõem o padrão descrito como alopecia em clareira, que é a assinatura capilar do secundarismo sifilítico. O contorno, sozinho, já orienta caminhos diferentes.
Passo 3 — o exame fora do couro cabeludo fecha o segundo caso
No segundo paciente, três achados convergem: madarose com rarefação do terço distal das sobrancelhas, máculas em palmas e plantas, e história de úlcera genital indolor de resolução espontânea há cerca de quatro meses. Esse intervalo cai dentro da janela de seis semanas a seis meses após a cicatrização do cancro em que o protocolo nacional situa o secundarismo. Falta procurar micropoliadenopatia, com atenção aos gânglios epitrocleares, e a conduta imediata é testagem para sífilis e para o vírus da imunodeficiência humana.
Passo 4 — classificar o primeiro paciente pela régua certa
Com cerca de 15% do couro cabeludo acometido, o primeiro paciente cairia na faixa leve, que vai até 20%. Mas ele tem acometimento de área pilosa da face, com duas falhas na barba, e o consenso brasileiro promove uma faixa diante de acometimento de sobrancelhas ou cílios, resposta inadequada após seis meses, tração positiva em mais de um sítio, ou impacto psicossocial negativo. Vale, portanto, checar ativamente cada um desses critérios antes de fechar a faixa: perguntar por cílio e sobrancelha, testar a tração na borda de mais de uma placa e investigar o quanto o quadro está pesando na vida dele.
Passo 5 — o tratamento de cada um
No primeiro paciente, com doença localizada e leve a moderada em adulto, a primeira opção é a corticoterapia intralesional, com triancinolona de 2,5 a 10 mg/mL no couro cabeludo, 0,02 a 0,1 mL por ponto, em sessões separadas por quatro a seis semanas. Entram junto a explicação da natureza autoimune, a informação de que não há contágio, o aviso de curso imprevisível com possibilidade de repilação espontânea e de recidiva, e o rastreio das associações: função tireoidiana com anticorpos e investigação de carência de ferro. No segundo, nada será aplicado no couro cabeludo: o tratamento é o da sífilis, com notificação, testagem para outras infecções sexualmente transmissíveis e convocação das parcerias.
Passo 6 — a resposta à pergunta que os dois fizeram
Os dois quadros são não cicatriciais e a repilação é esperada nos dois, mas por caminhos diferentes. No primeiro, a repilação depende do controle da doença autoimune e o curso é imprevisível, o que precisa ser dito sem promessa de prazo. No segundo, a alopecia é manifestação transitória do secundarismo e regride com o tratamento da infecção, o que costuma ser a melhor notícia que o paciente recebe naquela consulta — e a que mais ajuda a garantir que ele volte para o seguimento sorológico.
07

Agora feche você

Uma mulher de 38 anos, assistente administrativa, procura o ambulatório por rarefação capilar progressiva com cinco anos de evolução. Descreve afinamento gradual dos fios e alargamento da risca central quando penteia, com redução visível do volume do rabo de cavalo, e diz que nunca teve queda maciça, nunca encontrou tufos no ralo e nunca notou falhas circunscritas. Nega prurido, descamação, dor e qualquer lesão no couro cabeludo. Ao exame, a linha de implantação frontal está íntegra, os óstios foliculares são visíveis em toda a área rarefeita, a densidade na região occipital está preservada e há fios de calibres visivelmente diferentes convivendo no topo. O teste de tração é negativo. Ela refere ciclos menstruais irregulares, com intervalos que chegam a 60 dias, fluxo volumoso e prolongado quando menstrua, e aumento de pelos em buço e mento nos últimos anos. Traz hemograma com hemoglobina de 10,9 g/dL e volume corpuscular médio de 74 fL. Pergunta se vai ficar careca e se existe algum exame que descubra a causa.
Pista 1
Óstios visíveis em toda a área rarefeita colocam o quadro no grupo em que a repilação é possível e afastam, de saída, o grupo cujo tratamento tem outro objetivo.
Pista 2
A perda é regional e não difusa: há uma área que perdeu e uma área que não perdeu. Repare em qual região foi poupada e em que isso significa sobre o mecanismo.
Pista 3
Fios de calibres diferentes convivendo na mesma área têm nome e apontam para um processo específico, diferente de queda em bloco. O teste de tração negativo reforça essa leitura.
Pista 4
A integridade da linha de implantação frontal é o achado que separa esse quadro de uma doença que ocupa o mesmo território, evolui em sentido oposto e tem prognóstico bem pior.
Pista 5
Ciclos longos, fluxo volumoso e aumento de pelos em áreas androgênicas mudam a resposta à segunda pergunta dela, sobre exames. Existe um critério que decide quando a investigação hormonal rende, e ele é clínico.
Pista 6
O hemograma traz dois números que apontam para a mesma direção e que se conectam ao fluxo menstrual descrito. Vale pensar no exame que confirma esse eixo e no cuidado de interpretação que ele exige.
08

Onde a banca derruba

  1. 1Nomear a alopecia antes de olhar a superfície do couro cabeludo A primeira pergunta é anatômica e binária: há óstio folicular visível? Superfície lisa, brilhante e sem óstios significa fibrose, e nenhum tratamento devolve o que ali foi perdido — o objetivo passa a ser conter a borda ativa. Começar pelo nome da doença faz perder a informação que muda o prognóstico e a urgência do caso.
  2. 2Tratar tinha do couro cabeludo com antifúngico tópico O fungo coloniza o interior da haste e o tópico não alcança o folículo, de modo que o tratamento é sistêmico. Xampu tem papel adjuvante para reduzir a dispersão de esporos e proteger contatos, não para curar. Em criança com placa descamativa e fios quebrados rentes, o micológico e a cultura precedem o tratamento prolongado que se vai iniciar.
  3. 3Ler uma alopecia em placas de contorno irregular como areata sem examinar o resto A alopecia em clareira da sífilis secundária tem contorno mal definido e aspecto roído, ao contrário da placa arredondada e regular da areata, e vem acompanhada de outras manifestações: roséola, sifílides palmoplantares, placas mucosas, condiloma plano, madarose, rouquidão e micropoliadenopatia com gânglios epitrocleares. O exame do restante do tegumento e a testagem custam pouco e mudam o diagnóstico inteiro.
  4. 4Fazer o teste de tração no centro da placa de areata A atividade da doença está na periferia da lesão que se expande, e é ali que o teste é positivo. Testado no centro, ou longe da placa, ele tende a ser negativo e leva à conclusão errada de doença inativa. E, no consenso brasileiro, tração positiva em mais de um sítio é critério de promoção de faixa de gravidade, não achado descritivo.
  5. 5Classificar a areata só pela extensão As faixas por percentual de couro cabeludo são o ponto de partida, mas casos leves ou moderados sobem uma faixa diante de acometimento de sobrancelhas ou cílios, resposta inadequada após seis meses, teste de tração positivo em mais de um sítio, ou impacto psicossocial negativo. Um paciente com pouca extensão e falha de sobrancelha não é conduzido como leve.
  6. 6Confundir preservação com recuo da linha frontal A alopecia de padrão feminina rareia o topo e alarga a risca central, mantendo a linha de implantação frontal. A alopecia frontal fibrosante faz o oposto: recua a linha, deixa uma faixa de pele lisa, pálida e sem óstios e costuma levar as sobrancelhas junto. A primeira é não cicatricial e a segunda é cicatricial, de modo que confundi-las é errar o prognóstico e o tempo de resposta.
  7. 7Pedir dosagem androgênica para toda mulher com rarefação A investigação hormonal rende quando há sinal clínico de hiperandrogenismo — irregularidade menstrual, hirsutismo, acne persistente, virilização. Em paciente com ciclos regulares e exame sem esses achados, a dosagem quase sempre volta normal e não muda a conduta, e um valor limítrofe isolado costuma abrir uma investigação sem destino. O que rende ali é procurar carência de ferro e disfunção tireoidiana.
  8. 8Esperar que o eflúvio telógeno tenha causa recente A latência entre o gatilho e a queda é de dois a quatro meses, então o evento já passou quando o paciente procura ajuda e frequentemente foi esquecido. Perguntar genericamente por estresse tem rendimento baixo; perguntar nominalmente por parto, cirurgia, doença febril, perda ponderal rápida, hemorragia, mudança de medicação e descompensação tireoidiana no intervalo certo tem rendimento alto.
  9. 9Manter corticoide sistêmico para segurar a areata A doença tem curso crônico e imprevisível, e a corticoterapia sistêmica prolongada controla enquanto dura e recidiva à retirada, ao custo dos efeitos adversos conhecidos. O documento brasileiro coloca a corticoterapia intralesional como primeira opção no adulto com doença leve a moderada e reserva os inibidores de Janus quinase para a doença grave.
  10. 10Biopsiar o centro da placa cicatricial O centro já é fibrose e devolve um laudo inespecífico de alopecia cicatricial em fase final, sem dizer qual doença a produziu. O que se procura é o infiltrado que está destruindo folículos agora, e ele está na borda ativa. Colher no lugar errado transforma um exame que decidiria a conduta em um exame que apenas confirma o que já se via a olho nu.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

A perda dos óstios foliculares com pele lisa e brilhante indica destruição do folículo, ou seja, alopecia cicatricial, sequela das formas inflamatórias e do tratamento tardio, que não regride com mais antifúngico e pode exigir abordagem cirúrgica no futuro. Repetir o antifúngico diante de sequela é o erro que expõe a criança sem benefício, e o que sinaliza doença ativa é descamação, tonsura e micológico positivo. A griseofulvina não causa alopecia cicatricial.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Escreva de memória a lista das alopecias não cicatriciais e a das cicatriciais, e ao lado de cada uma anote o achado de exame que a coloca naquele grupo. Em seguida, reproduza as três faixas de gravidade da alopecia areata com seus percentuais e os quatro critérios que promovem um paciente de faixa. Por fim, escreva os números da corticoterapia intralesional: concentração para couro cabeludo, concentração para face, volume por ponto e intervalo entre sessões.

em 30 dias

Resolva seis quadros curtos dizendo, antes de responder, qual grupo de alopecia está em jogo. Criança de 7 anos com placa descamativa e fios quebrados rentes, e a pergunta é o tratamento. Mulher de 32 anos com queda maciça difusa iniciada três meses após parto, e a pergunta é a conduta. Homem de 26 anos com falhas irregulares no couro cabeludo, lesões palmoplantares e gânglios epitrocleares, e a pergunta é o exame a solicitar. Mulher de 55 anos com recuo da linha frontal, faixa lisa sem óstios e perda de sobrancelhas, e a pergunta é o prognóstico. Homem de 30 anos com três placas arredondadas, pelos em ponto de exclamação e depressões puntiformes ungueais, com 15% do couro cabeludo acometido e perda de sobrancelha, e a pergunta é a faixa de gravidade. Mulher de 40 anos com risca central alargada, linha frontal preservada, ciclos regulares e sem hirsutismo, e a pergunta é quais exames pedir.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Uma mulher de 38 anos, assistente administrativa, chega ao ambulatório queixando-se de rarefação capilar progressiva há cinco anos, com alargamento da risca central e perda de volume do cabelo, sem episódios de queda maciça e sem falhas circunscritas. Conduza a consulta: caracterize o padrão da rarefação e pergunte explicitamente se houve queda em tufos, falhas em placas, prurido, dor, descamação ou lesão no couro cabeludo. Investigue os gatilhos de eflúvio um a um, o fluxo menstrual e sinais de carência de ferro, a regularidade dos ciclos e o aumento de pelos em áreas androgênicas, os medicamentos em uso, as práticas capilares de tração e química, e o antecedente familiar de rarefação semelhante. No exame, inspecione a linha de implantação frontal, compare a densidade do topo com a da região occipital, faça a tricoscopia das duas regiões e o teste de tração, e examine sobrancelhas, cílios, unhas e o restante do tegumento. Então decida: qual é o padrão, quais exames rendem nesta paciente e por qual critério clínico, e o que exatamente você promete a ela sobre o resultado do tratamento. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Alopecias — Preparatório para provas | OsceLabs