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Outras EspecialidadesDermatologia

Carcinoma basocelular e espinocelular

Reconhecimento da lesão, biópsia e estratificação de risco

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Mulher de 34 anos procura a UBS com lesão única no dorso da mão direita, notada há 8 meses. Ao exame: pápula perolada, brilhante, com telangiectasias na superfície e discreta ulceração central, medindo cerca de 6 mm, indolor, de crescimento muito lento. Nega febre ou outros sintomas. Relata trabalhar como agricultora com grande exposição solar ao longo da vida. Qual é a hipótese diagnóstica mais provável?

02

Como esse tema cai

O câncer de pele não melanoma é o tumor maligno mais incidente do Brasil: 263.280 casos novos por ano no triênio 2026-2028, 33,7% de todos os cânceres registrados no país. Nenhum outro chega perto. Isso explica por que ele aparece em prova de residência fora da Dermatologia — cai em Preventiva (rastrear ou não), em Medicina do Trabalho (radiação solar ocupacional) e em Cirurgia (margem e reconstrução).

A prova não pede via Hedgehog nem mutação de p53. Ela escreve uma lesão e cobra o que você faz com ela. Duas famílias de questão se repetem: a primeira dá a descrição morfológica e pergunta o diagnóstico ou o próximo passo; a segunda dá um espinocelular com um detalhe carregado — lábio inferior, orelha, cicatriz de queimadura, transplantado renal — e cobra que você reconheça o alto risco antes de escolher a conduta.

Existe um terceiro recorte, mais recente e mal explorado pelos resumos: o que o SUS efetivamente oferece. Em setembro de 2023 a terapia fotodinâmica foi incorporada ao SUS para carcinoma basocelular superficial e nodular; em junho de 2026 o vismodegibe foi recusado para o basocelular avançado. São duas decisões oficiais brasileiras, datadas, sobre a mesma doença e em sentidos opostos — material de questão pronto.

Melanoma tem capítulo próprio e não é o assunto aqui. Ele entra neste texto só como diferencial de duas lesões que enganam: o basocelular pigmentado e a ceratose seborreica.

03

O que muda decisão

O terreno: dano actínico, ceratose actínica e campo de cancerização

Os dois carcinomas nascem do mesmo terreno — pele com dano actínico acumulado. O INCA lista como fatores de risco a exposição cumulativa à radiação ultravioleta (sol ou câmara de bronzeamento), pele e olhos claros, cabelos ruivos ou loiros, albinismo, xeroderma pigmentoso, cicatrizes de queimadura, história pessoal ou familiar do tumor e um bloco ocupacional que a prova adora: trabalhador rural, pescador, operário da construção, carteiro, gari. Fora a radiação solar, entram no bloco ocupacional a radiação ionizante, o arsênico, os óleos industriais e os derivados de alcatrão de hulha.

Isso muda a leitura do enunciado. Quando a banca diz 'lavrador de 68 anos' ou 'pescador aposentado', ela não está enfeitando a vinheta — está entregando o fator de risco. A mesma informação abre a porta para a pergunta de saúde do trabalhador: a prevenção ocupacional recomendada é o equipamento de proteção individual — roupa de manga longa, luvas, chapéu, óculos de proteção e protetor solar —, não o afastamento nem o exame periódico de imagem.

A ceratose actínica é a lesão-ponte. Mácula ou pápula eritematosa áspera, com escama aderente, em área fotoexposta — muitas vezes você a percebe melhor com o dedo do que com o olho. É precursora do espinocelular, e a chance de uma ceratose isolada virar carcinoma é pequena; o problema é que ela raramente vem sozinha. Quando toda a região está salpicada de lesões, o conceito que responde a questão é o campo de cancerização: a área inteira sofreu o mesmo dano e o tratamento tem de ser de campo (5-fluorouracila tópica, imiquimode, terapia fotodinâmica), não lesão a lesão com nitrogênio.

Duas entidades vizinhas caem como distrator. A doença de Bowen é o carcinoma espinocelular in situ — placa eritêmato-descamativa bem delimitada, de crescimento lento, que costuma ser confundida com eczema ou psoríase resistente ao corticoide. O ceratoacantoma é o nódulo de crescimento explosivo, em semanas, com cratera central de ceratina; comporta-se como um espinocelular bem diferenciado e é tratado como tal, não observado. A ceratose seborreica, ao contrário, é benigna: lesão 'colada' na pele, verrucosa, marrom, com aspecto de cera pingada — não vira câncer e não justifica exérese oncológica.

Imunossupressão merece parágrafo próprio. Transplantado de órgão sólido, sobretudo o renal em uso crônico de imunossupressor, desenvolve muito mais espinocelular do que a população geral, com lesões múltiplas, mais precoces e de comportamento mais agressivo — e nesse grupo a proporção entre os dois tumores se inverte em relação ao habitual. Em vinheta, 'transplantado renal há 12 anos' é sinal de alto risco, não detalhe de antecedente.

Carcinoma basocelular: o que a descrição entrega

O basocelular é 80% do câncer de pele não melanoma. Cresce devagar, em área cronicamente fotoexposta, com franca preferência pelos dois terços superiores da face — nariz, região periorbitária, fronte, pavilhão auricular. A descrição que a banca usa é quase sempre a mesma: pápula ou nódulo perolado, translúcido, com telangiectasias na superfície e borda em rolete, às vezes com crosta central que sai e volta. O INCA resume em uma frase que vale decorar: lesão, ferida ou nódulo de bordos róseos, translúcidos ou perolados, que não cicatriza.

Os subtipos importam porque decidem o tratamento. O nodular é o mais comum — 56,7% dos casos na maior série brasileira publicada, com 769 tumores. O superficial é a placa eritêmato-descamativa de crescimento centrífugo, mais frequente no tronco, que imita eczema e é o alvo preferencial dos tratamentos não cirúrgicos. O pigmentado é o nodular com melanina — e é a armadilha do melanoma, porque a prova descreve uma lesão escura na face e espera que você repare no brilho perolado e na telangiectasia, que o melanoma não tem. O esclerodermiforme (ou morfeiforme, ou infiltrativo) é o perigoso: placa branco-amarelada, endurecida, com aspecto de cicatriz, mal delimitada, cujas bordas reais vão muito além do que se vê. Na mesma série brasileira, subtipos agressivos apareceram em 32,9% dos casos.

O basocelular praticamente não metastatiza. Isso leva o aluno desavisado a tratá-lo como lesão benigna, e é erro grosseiro: a morbidade dele é local e pode ser devastadora. O ulcus rodens é a forma ulcerada que corrói em profundidade e destrói asa nasal, pálpebra, cartilagem e órbita se for deixado crescer. Não se examina cadeia linfonodal por causa de um basocelular típico — mas se opera com margem, e com margem definida pelo subtipo e pela localização.

Recidiva não é rara nem é fracasso técnico isolado. Na série brasileira de dez anos, 9,6% recidivaram, e os fatores associados foram idade avançada ao diagnóstico, tumor com 20 mm ou mais, localização em zona H da face e subtipo histopatologicamente agressivo. Esses quatro itens são exatamente os que a prova espalha pela vinheta quando quer que você escolha uma conduta mais agressiva do que a excisão simples.

Ilustração comparando duas lesões: à esquerda, nódulo perolado com telangiectasias e crosta central na asa do nariz; à direita, placa ulcerada, endurecida e ceratósica no lábio inferior.
A morfologia entrega o diagnóstico: brilho perolado, borda em rolete e telangiectasias apontam para o basocelular; superfície ceratósica, endurecimento e ulceração em lábio apontam para o espinocelular.

Carcinoma espinocelular: quando a lesão descama, endurece e cresce rápido

O espinocelular (epidermoide) é os outros 20%. A frase do INCA para ele também é curta: mancha vermelha que descama e sangra, formando uma ferida. Na prática, é uma lesão ceratósica, endurecida à palpação, que ulcera, dói e cresce em semanas a meses — não em anos. A base costuma ser infiltrada; quando você aperta, sente uma placa dura por baixo, e é isso que separa clinicamente o espinocelular da ceratose actínica que o precedeu.

A localização é meio caminho do diagnóstico. Lábio inferior, pavilhão auricular, dorso das mãos, couro cabeludo de homem calvo e a semimucosa labial de quem fuma e trabalha ao sol são os sítios clássicos. Também surge onde a pele já foi agredida de outro modo: cicatriz de queimadura, úlcera crônica de perna, fístula, área previamente irradiada. O carcinoma que aparece sobre cicatriz de queimadura ou úlcera crônica tem nome próprio — úlcera de Marjolin — e é espinocelular, com prognóstico pior que o do espinocelular comum.

A diferença que muda a conduta é o potencial metastático. Enquanto o basocelular fica onde nasceu, o espinocelular dissemina por via linfática para a cadeia de drenagem regional. Consequência prática e cobrada: em todo paciente com espinocelular, o exame físico inclui a palpação das cadeias linfonodais correspondentes. Linfonodo endurecido, fixo ou maior que dois centímetros no território de drenagem de um espinocelular não é reativo até prova em contrário — é estadiamento.

Alto risco é conceito operacional, não adjetivo. Contam para ele: diâmetro de 2 cm ou mais; espessura maior que 6 mm ou invasão além da gordura subcutânea; localização em lábio, orelha ou nas áreas centrais da face; grau histológico pouco diferenciado; invasão perineural; lesão recidivada; surgimento sobre cicatriz, úlcera crônica ou área irradiada; e paciente imunossuprimido. Basta um desses para o tumor sair do algoritmo simples. O laudo histopatológico, portanto, não pode se limitar a dizer 'carcinoma espinocelular' — tem de trazer subtipo, grau de diferenciação, espessura, invasão perineural e estado das margens, porque é dessa lista que sai a decisão seguinte.

Como se fecha o diagnóstico

Dermatoscopia ajuda e não fecha. O INCA é explícito: a dermatoscopia é útil, mas precisa ser complementada pela histopatologia, que confirma o diagnóstico e orienta o tratamento preciso. Em prova, alternativa que oferece 'iniciar tratamento com base no aspecto dermatoscópico' está errada por definição quando o tratamento pretendido destrói a lesão.

A escolha do tipo de biópsia segue o tamanho e o local. Lesão pequena, em área com pele de sobra, resolve-se com biópsia excisional, que já é diagnóstico e tratamento. Lesão grande, ou em região onde a reconstrução é problema (nariz, pálpebra, orelha, lábio), pede biópsia incisional ou por punch, feita na área mais representativa — de preferência na borda infiltrada, não no centro necrótico, que costuma vir com material inconclusivo.

Há um motivo administrativo, além do clínico, para não pular a histologia no Brasil: as opções não cirúrgicas oferecidas pelo SUS são delimitadas por subtipo. A terapia fotodinâmica foi incorporada para o basocelular superficial e nodular — e subtipo não se determina no olho, se determina na lâmina. Tratar sem biópsia é, na prática, tratar sem saber se a indicação existe.

Estadiamento formal é assunto do espinocelular, não do basocelular. O sistema TNM da 8ª edição do AJCC é aplicado principalmente aos tumores de cabeça e pescoço; o basocelular raramente é estadiado, porque seu comportamento é local. Para a prova de residência, o que rende é a estratificação de risco (baixo × alto) — ela decide margem, técnica e seguimento —, não a memorização das categorias T.

Tratamento: o que resolve e o que o SUS entrega

O tratamento padrão dos dois tumores é cirúrgico, e a razão é o controle histopatológico da peça: só a cirurgia permite dizer se o tumor saiu inteiro. Nada do que vem a seguir substitui esse princípio; tudo o mais é alternativa para situação delimitada.

As margens de referência do basocelular saem das zonas de risco da face. Em zona L, com tumor não agressivo menor que 20 mm, 4 mm de margem. Em zona H ou M, com tumor não agressivo, 5 mm. Em tumor de subtipo agressivo nessas zonas, mais de 5 mm. No espinocelular, a régua praticada é 4 mm no de baixo risco e 6 mm no de alto risco, com o objetivo de deixar cerca de 95% das peças com margem histológica livre.

A cirurgia micrográfica de Mohs é a técnica que examina 100% da margem no intraoperatório e reexcisa só onde há tumor. Suas indicações são as previsíveis: zona H, tumor recidivado, subtipo agressivo ou esclerodermiforme, lesão mal delimitada, tumor grande e paciente imunossuprimido — ou seja, exatamente onde a taxa de recidiva da excisão convencional é maior e onde poupar tecido vale mais. É custo-efetiva e tem disponibilidade limitada na rede pública brasileira, o que faz do algoritmo cirúrgico convencional a alternativa realista na maior parte do país.

A terapia fotodinâmica é a novidade brasileira que a maioria dos resumos ainda não incorporou. A mesma comissão que, em 2020, recusou a tecnologia, recomendou por unanimidade a incorporação em 28 de junho de 2023, e a decisão foi tornada pública pela Portaria sectics/MS nº 46, de 5 de setembro de 2023: terapia fotodinâmica no SUS para câncer de pele não melanoma do tipo carcinoma basocelular superficial e nodular, conforme Protocolo de Uso do Ministério da Saúde, com prazo de 180 dias para efetivar a oferta. A decisão registra índice de cura em torno de 90% nos ensaios brasileiros que a sustentaram. Repare no recorte: superficial e nodular. Esclerodermiforme e espinocelular invasivo não estão na indicação.

As demais opções têm cada uma o seu nicho. A criocirurgia com nitrogênio líquido serve a lesões superficiais pequenas e deixa como sequela a mácula acrômica. A imunoterapia tópica com imiquimode e a quimioterapia tópica com 5-fluorouracila atendem ao basocelular superficial, ao Bowen e ao campo de cancerização. A curetagem com eletrocoagulação resolve lesões pequenas de baixo risco fora de áreas pilosas, e não serve onde é preciso saber da margem. A radioterapia é opção curativa para quem não pode operar, e é considerada como adjuvante no espinocelular de alto risco — invasão perineural extensa, margem comprometida sem possibilidade de reabordagem, doença linfonodal.

No basocelular localmente avançado ou metastático sem indicação de cirurgia e de radioterapia, existe terapia-alvo oral: o vismodegibe, inibidor da via Hedgehog, de uso continuado enquanto houver resposta. A página do INCA já registrava que o produto é de alto custo e não está disponível no serviço público, e a régua brasileira se firmou em 2026: a Portaria SCTIE/MS nº 29, de 12 de junho de 2026, tornou pública a decisão de não incorporar o vismodegibe ao SUS para essa indicação. A justificativa divulgada foi a limitação da evidência de eficácia somada ao impacto econômico sobre a sustentabilidade do sistema — não a afirmação de que o medicamento não funciona.

O seguimento é parte do tratamento, porque quem teve um carcinoma de pele tende a fazer outro: o campo continua lá. No espinocelular de baixo risco, revisão a cada seis meses nos três primeiros anos e anual depois; no de alto risco, a cada quatro a seis meses nos três primeiros anos e anual em seguida. O INCA recomenda consulta anual com especialista e vigilância das lesões pré-malignas, pelo risco elevado de recidiva e de novos tumores.

Prevenção e a pergunta que a prova adora: rastrear ou não?

A resposta oficial brasileira é não. O INCA afirma que não há evidência científica de que o rastreamento do câncer de pele não melanoma na população em geral traga mais benefícios do que riscos e que, portanto, até o momento, ele não é recomendado — a mesma posição vale para o melanoma. Alternativa que propõe exame dermatológico periódico de toda a população, ou mutirão de rastreamento como política, contraria o documento nacional.

O que se recomenda é diagnóstico precoce, que é outra coisa: não se procura doença em quem não tem queixa, procura-se encurtar o tempo entre o aparecimento da lesão e a consulta. O gatilho é objetivo — qualquer lesão ou ferimento de pele sem resolução em 15 dias deve ser avaliado por especialista. Manchas que coçam, ardem, descamam ou sangram e feridas que não cicatrizam, principalmente em face, pescoço e orelhas, entram na mesma regra.

Vigilância de grupo de risco também não é rastreamento populacional, e a distinção derruba questão. Pessoas com história pessoal ou familiar do tumor, imunodeficiência, pele e olhos claros e história de queimaduras solares na infância podem se beneficiar de acompanhamento periódico com médico. A conduta é dirigida ao risco individual, não à população.

A prevenção primária continua sendo fotoproteção, com um braço ocupacional que raramente é lembrado. Para quem trabalha exposto ao sol, o INCA recomenda o uso adequado de equipamento de proteção individual — roupas de manga longa, luvas, chapéu, óculos de proteção e protetor solar — mais o cumprimento das normas de segurança. É a ponte entre a dermatologia e a Medicina do Trabalho: câncer de pele em trabalhador rural, pescador ou operário de construção tem exposição ocupacional documentável e cabe no raciocínio de nexo.

04

Da lesão à conduta: separar os dois tumores e estratificar o risco

A sequência é sempre a mesma e não tem atalho: descrever a lesão, confirmar na histologia, classificar o risco e só então escolher a técnica. A localização entra duas vezes — na hipótese diagnóstica e na definição da margem — porque a face é dividida em zonas de risco de recidiva.

  1. 1Lesão suspeita: ferida que não cicatriza em 15 dias, lesão que cresce, endurece, ulcera ou sangra em área fotoexposta
  2. 2Descrever: brilho perolado, telangiectasia e borda em rolete apontam para basocelular; superfície ceratósica, base endurecida e crescimento rápido apontam para espinocelular
  3. 3Palpar cadeias linfonodais de drenagem sempre que a hipótese for espinocelular
  4. 4Confirmar com histopatologia — o laudo tem de trazer subtipo, grau, espessura, invasão perineural e margens
  5. 5Classificar em baixo ou alto risco pela soma de tamanho, local, subtipo, histologia e imunossupressão
  6. 6Escolher a técnica: excisão com margem definida pela zona e pelo risco; Mohs nas situações de alto risco; alternativas não cirúrgicas só nos subtipos em que estão indicadas
  7. 7Programar o seguimento e tratar o campo de cancerização remanescente

Zona L — tronco e extremidades (exceto pré-tibial, mãos e pés)

Menor risco de recidiva. Basocelular não agressivo com menos de 20 mm nessa zona é excisado com margem de 4 mm.

Zona M — fronte, couro cabeludo, pescoço, região pré-tibial

Risco intermediário. Basocelular não agressivo nessa zona já pede margem de 5 mm.

Zona H — máscara central da face, pálpebras, nariz, lábios, orelhas, região periorbitária

Maior risco de recidiva e de destruição local. Margem de 5 mm no não agressivo, mais de 5 mm no agressivo, e é a zona onde a cirurgia micrográfica de Mohs mais se justifica.

Carcinoma basocelularCarcinoma espinocelular
Proporção entre os não melanomaCerca de 80%Cerca de 20%
Lesão típicaPápula ou nódulo perolado, translúcido, com telangiectasias e borda em rolete; crosta central que sai e voltaLesão ceratósica de base endurecida, que ulcera, dói e sangra
VelocidadeAnosSemanas a meses
Sítios preferenciaisDois terços superiores da face: nariz, região periorbitária, fronte, orelhaLábio inferior, orelha, dorso das mãos, couro cabeludo calvo
Lesão precursora ou terrenoPele fotoexposta, sem precursor definidoCeratose actínica, doença de Bowen, cicatriz de queimadura, úlcera crônica, área irradiada
MetástaseExcepcional; a morbidade é local e pode destruir nariz, pálpebra e órbitaDissemina por via linfática para a cadeia regional
Exame de linfonodosNão faz parte da avaliação de rotinaObrigatório em toda avaliação
EstadiamentoRaramente estadiadoTNM (AJCC 8ª edição), sobretudo em cabeça e pescoço

Carcinoma espinocelular: baixo risco × alto risco

CritérioBaixo riscoAlto risco
DiâmetroMenor que 2 cm2 cm ou mais
Espessura e profundidadeSuperficial, limitado à dermeMais de 6 mm ou invasão além da gordura subcutânea
LocalizaçãoTronco e extremidadesLábio, orelha, máscara central da face
HistologiaBem diferenciado, sem invasão perineuralPouco diferenciado ou com invasão perineural ou linfovascular
História da lesãoPrimária, sobre pele fotoexpostaRecidivada, ou sobre cicatriz, úlcera crônica ou área irradiada
HospedeiroImunocompetenteImunossuprimido, sobretudo transplantado de órgão sólido
Consequência práticaExcisão com margem de 4 mm; seguimento semestral por 3 anos e anual depoisMargem de 6 mm ou Mohs, avaliação linfonodal, radioterapia adjuvante em situações selecionadas; seguimento a cada 4 a 6 meses por 3 anos

Margens de referência e quando fugir da excisão simples

SituaçãoConduta de referência
Basocelular não agressivo, zona L, menor que 20 mmExcisão com margem de 4 mm
Basocelular não agressivo, zona H ou MExcisão com margem de 5 mm
Basocelular de subtipo agressivo em zona H ou MExcisão com margem maior que 5 mm ou cirurgia micrográfica de Mohs
Basocelular recidivado, mal delimitado ou esclerodermiformeCirurgia micrográfica de Mohs quando disponível
Basocelular superficial ou nodular sem indicação cirúrgicaTerapia fotodinâmica pelo Protocolo de Uso do Ministério da Saúde, criocirurgia ou imiquimode
Espinocelular de baixo riscoExcisão com margem de 4 mm
Espinocelular de alto riscoExcisão com margem de 6 mm ou Mohs, com avaliação da cadeia linfonodal
Paciente sem condição cirúrgicaRadioterapia com intenção curativa
Basocelular localmente avançado ou metastático sem cirurgia nem radioterapia possíveisTerapia-alvo com vismodegibe existe, mas está fora do SUS desde a decisão de junho de 2026

As margens de 4 mm e 5 mm por zona vêm da série brasileira de 769 basocelulares publicada nos Anais Brasileiros de Dermatologia em 2023, que aplica a estratificação da NCCN 2022.

Margem comprometida no laudo não obriga automaticamente à reexcisão: na mesma série, a decisão levou em conta localização, tamanho, subtipo, tumores prévios e condição clínica do paciente, e a reexcisão foi feita em 18,9% dos casos.

Zona L não inclui mãos, pés e região pré-tibial — essas áreas sobem de categoria.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Terapia fotodinâmica para basocelular: a mesma comissão brasileira decidiu duas vezes, em sentidos opostos

Conitec, 2020: não recomendar a incorporação

Na 85ª Reunião Ordinária, os membros deliberaram por unanimidade não recomendar a incorporação da terapia fotodinâmica ao SUS como alternativa à cirurgia. O recorte avaliado era esse: substituir a cirurgia, que é o padrão por permitir controle histopatológico da peça.

Conitec — 85ª Reunião Ordinária, 2020

Conitec, 2023: incorporar, com indicação delimitada por subtipo

Na 120ª Reunião Ordinária, de 28 de junho de 2023, a deliberação foi unânime pela incorporação para carcinoma basocelular nodular e superficial, conforme Protocolo de Uso; a Portaria SECTICS/MS nº 46, de 5 de setembro de 2023, tornou pública a decisão, com prazo de 180 dias para efetivar a oferta. Pesaram ensaios clínicos brasileiros com índice de cura em torno de 90% e taxas mínimas de recidiva, e o fato de a tecnologia entrar como opção para casos em que a intervenção cirúrgica não é recomendada — não como substituta universal da cirurgia.

Portaria SECTICS/MS nº 46, de 5/9/2023, e Relatório de Recomendação nº 835 da Conitec

Na prova

O que separa as duas posições é a data e o recorte da pergunta. Enunciado ambientado antes de setembro de 2023, ou que pergunte se a fotodinâmica substitui a cirurgia como tratamento padrão, opera na régua de 2020. Enunciado que cite o Protocolo de Uso do Ministério da Saúde, que fale em oferta no SUS ou que descreva paciente sem condição cirúrgica opera na régua de 2023. Repare também no subtipo escrito na vinheta: as alternativas que oferecem fotodinâmica para basocelular esclerodermiforme ou para espinocelular invasivo estão fora da indicação incorporada, e essa escolha de subtipo costuma ser o que a questão está testando.

Vismodegibe no basocelular avançado: o que a literatura descreve e o que o SUS oferece

Terapia-alvo como opção no basocelular avançado — literatura internacional e a descrição do próprio INCA

Para basocelular localmente avançado ou metastático existe terapia-alvo oral inibidora da via Hedgehog. A página do INCA para profissionais descreve o vismodegibe como medicamento que apresenta excelentes resultados durante o seu uso, com a ressalva de que o uso deve ser mantido por toda a vida e de que o produto é de alto custo.

INCA — Câncer de pele não melanoma, versão para profissionais de saúde

Fora do SUS — decisão da Conitec de 2026

A Portaria SCTIE/MS nº 29, de 12 de junho de 2026, tornou pública a decisão de não incorporar o vismodegibe ao SUS para pacientes com carcinoma basocelular localmente avançado ou metastático. A justificativa divulgada combina limitação da evidência de eficácia e impacto econômico sobre a sustentabilidade do sistema. A causa do afastamento é econômico-regulatória e de qualidade da evidência disponível, não uma afirmação de que o medicamento seja ineficaz.

Portaria SCTIE/MS nº 29, de 12/6/2026, e relatório de recomendação da Conitec

Na prova

O cenário denuncia a régua. Vinheta de unidade básica, de rede pública ou pergunta redigida como 'conduta disponível no SUS' pede o corpo brasileiro, em que a saída para o tumor irressecável é radioterapia e discussão em serviço de referência. Vinheta de centro terciário, de estado da arte ou que cite explicitamente a via Hedgehog pede o corpo farmacológico internacional. Prova oficial do MEC tende a conduta SUS; em outras bancas, olhe as alternativas — se nenhuma outra opção de tratamento sistêmico aparece na lista, a questão provavelmente está testando o reconhecimento do fármaco, e não a política de incorporação.

06

Caso resolvido

Homem de 68 anos, lavrador, pele e olhos claros, procura a unidade básica por uma 'ferida no nariz que não sara' há cerca de um ano. Refere que a lesão cria casca, a casca cai e ela volta a sangrar. Ao exame, na asa nasal direita, pápula de 9 mm, translúcida, com brilho perolado, borda elevada em rolete, telangiectasias finas na superfície e pequena crosta central. Não há linfonodos palpáveis em cadeias cervicais.
achado que fecha o quadro
Brilho perolado, borda em rolete e telangiectasias sobre a lesão, em área cronicamente fotoexposta de um trabalhador rural, com evolução arrastada de um ano. É a descrição do carcinoma basocelular.
o que não está aqui
Não há endurecimento da base, crescimento rápido nem linfonodo palpável — os elementos que apontariam para espinocelular. E não há assimetria, bordas irregulares e policromia que sustentariam melanoma. A ausência desses dados é parte do diagnóstico.
próximo passo
Biópsia para confirmação histológica e definição do subtipo. O subtipo não é detalhe acadêmico: ele decide a margem e libera ou barra as opções não cirúrgicas.
estratificação
A asa nasal é zona H. Com 9 mm, o tumor está abaixo dos 20 mm; se o laudo vier nodular, é um basocelular não agressivo em zona H.
tratamento
Excisão cirúrgica com margem de 5 mm e controle histopatológico. Se o laudo mostrar subtipo esclerodermiforme ou infiltrativo, a margem passa de 5 mm e a cirurgia micrográfica de Mohs se torna a melhor escolha onde estiver disponível, pela combinação de zona H com subtipo agressivo.
seguimento
Consulta anual com especialista, avaliação de toda a superfície fotoexposta e tratamento das ceratoses actínicas que restarem. Quem teve um carcinoma de pele tem risco alto de fazer outro, porque o campo danificado continua no lugar.
prevenção
Orientação de fotoproteção com braço ocupacional: manga longa, chapéu de aba larga, óculos e protetor solar durante o trabalho no campo, além do cumprimento das normas de segurança.
07

Agora feche você

Mulher de 74 anos, aposentada, trabalhou 40 anos na lavoura, tabagista de longa data. Há quatro meses notou uma lesão no lábio inferior que cresceu, ulcerou e agora sangra ao comer. Ao exame, lesão de 2,5 cm no vermelhão do lábio inferior, ceratósica, ulcerada no centro, com base infiltrada e endurecida à palpação. Na cadeia submandibular esquerda há um linfonodo de 1,5 cm, endurecido e pouco móvel. O restante da face mostra múltiplas máculas eritematosas ásperas em fronte e dorso do nariz.
achado
Lesão ceratósica ulcerada, de base endurecida, no lábio inferior de uma paciente com exposição solar ocupacional crônica e tabagismo — carcinoma espinocelular até prova em contrário. As máculas ásperas espalhadas pela face são ceratoses actínicas: o campo de cancerização de onde a lesão saiu.
estratificação de risco
conduta
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Onde a banca derruba

  1. 1Tratar a lesão com criocirurgia ou fotodinâmica sem biópsia prévia Atrai porque a lesão 'é claramente um basocelular' e o método parece pouco invasivo. Só que a indicação incorporada ao SUS é por subtipo — superficial e nodular —, e subtipo se determina na lâmina, não no olho. Método destrutivo sem histologia apaga a lesão e a informação que decidiria a conduta.
  2. 2Tratar basocelular como se fosse lesão benigna porque 'não dá metástase' A frase é verdadeira e a conclusão é falsa. A morbidade do basocelular é local: o ulcus rodens destrói asa nasal, pálpebra, cartilagem e órbita, e o subtipo esclerodermiforme se estende muito além da borda visível. Ele exige margem, controle histopatológico e seguimento como qualquer carcinoma.
  3. 3Aplicar a regra do ABCDE ao basocelular pigmentado A vinheta descreve lesão escura na face e o aluno dispara o algoritmo do melanoma. O que separa é o resto da descrição: brilho perolado, translucidez e telangiectasias na superfície pertencem ao basocelular. O ABCDE é ferramenta para lesão melanocítica, não senha para qualquer lesão pigmentada.
  4. 4Não examinar as cadeias linfonodais no espinocelular Erro de omissão, difícil de perceber na hora. Como o basocelular não metastatiza, o aluno generaliza para os dois tumores. O espinocelular dissemina por via linfática, e linfonodo endurecido no território de drenagem é estadiamento, não achado incidental.
  5. 5Ler 'úlcera crônica de perna' ou 'cicatriz de queimadura' como comorbidade e não como diagnóstico A banca coloca a queimadura de 30 anos atrás no antecedente, longe da descrição da lesão. Carcinoma sobre cicatriz de queimadura ou úlcera crônica é a úlcera de Marjolin: espinocelular, com prognóstico pior que o do espinocelular comum.
  6. 6Propor rastreamento populacional de câncer de pele Soa responsável e contraria o documento nacional: o INCA afirma que não há evidência de que o rastreamento na população geral traga mais benefício do que risco e que ele não é recomendado. A resposta é diagnóstico precoce — lesão sem resolução em 15 dias vai ao especialista — mais acompanhamento dirigido a quem tem risco individual aumentado.
  7. 7Tratar a ceratose actínica lesão a lesão e ignorar o campo Congelar as três lesões mais visíveis resolve o que se vê e deixa o terreno intacto. Quando a área está salpicada de ceratoses, o alvo é o campo de cancerização, com tratamento de campo: 5-fluorouracila tópica, imiquimode ou terapia fotodinâmica.
  8. 8Oferecer vismodegibe como conduta de rotina no basocelular avançado do paciente do SUS O medicamento existe, tem indicação descrita e é lembrado com facilidade. A régua brasileira, porém, é explícita: a Portaria SCTIE/MS nº 29, de 12 de junho de 2026, tornou pública a decisão de não incorporá-lo ao SUS para o basocelular localmente avançado ou metastático.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

A pápula perolada com telangiectasias, brilho e ulceração central em área fotoexposta, de crescimento lento, é a apresentação clássica do carcinoma basocelular (o câncer de pele mais comum). Melanoma nodular tende a ser pigmentado, de crescimento rápido e sem aspecto perolado. Ceratose seborreica é lesão marrom, verrucosa e com aspecto 'colado'. Molusco contagioso são pápulas umbilicadas, múltiplas, em jovens/imunossuprimidos. Granuloma piogênico é lesão vascular vermelha, friável e de crescimento rápido, geralmente após trauma.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Refaça de cabeça a tabela das duas colunas: basocelular é 80%, cresce em anos, é perolado com telangiectasia e borda em rolete, fica nos dois terços superiores da face e não metastatiza; espinocelular é 20%, cresce em meses, é ceratósico de base endurecida, prefere lábio inferior, orelha e dorso das mãos, nasce sobre ceratose actínica ou cicatriz e vai para linfonodo. Depois responda em voz alta: quais são as margens de 4, 5 e 6 mm e a que situação cada uma pertence?

em 30 dias

Escreva as três decisões brasileiras que datam o tema, com ano e sentido: rastreamento populacional não recomendado pelo INCA; terapia fotodinâmica incorporada ao SUS em 2023 para basocelular superficial e nodular; vismodegibe não incorporado em 2026 para o basocelular avançado. Em seguida, liste os oito critérios que transformam um espinocelular em alto risco e diga, para cada um, o que ele muda na conduta.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Homem de 71 anos, pescador aposentado, chega à unidade básica com uma lesão no pavilhão auricular direito que 'virou ferida' há cinco meses, sangra ao encostar e vem crescendo. Você tem a consulta para caracterizar a lesão, examinar o restante da pele fotoexposta, palpar as cadeias cervicais e decidir entre biopsiar, encaminhar ou tratar. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Carcinoma basocelular e espinocelular — Preparatório para provas | OsceLabs