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Outras EspecialidadesDermatologia

Micoses superficiais

Sítio, via terapêutica, duração e disponibilidade no SUS

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Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Mulher, 34 anos, professora, procura atendimento por manchas hipocrômicas no tórax anterior, dorso e ombros há cerca de 4 meses, com discreta descamação furfurácea quando a pele é estirada. Refere que as lesões ficaram mais evidentes após exposição solar no verão e são levemente pruriginosas em dias quentes. Nega uso de imunossupressores. Ao exame, notam-se máculas coalescentes, algumas hipocrômicas e outras acastanhadas, com descamação fina ao estiramento (sinal de Zileri positivo). À luz de Wood, observa-se fluorescência amarelo-dourada nas lesões. Qual é o agente etiológico mais provável?

02

Como esse tema cai

Micose superficial é infecção que fica na camada córnea, no pelo e na unha, sem invadir a derme. Três grupos ocupam esse território e são clinicamente distintos: os dermatófitos (gêneros Trichophyton, Microsporum e Epidermophyton), que digerem queratina e produzem as tineas; a Malassezia, levedura lipofílica que já mora no folículo sebáceo e, quando prolifera, produz a pitiríase versicolor; e a Candida, levedura oportunista que só faz doença onde há umidade, oclusão ou queda de defesa. Micose subcutânea — paracoccidioidomicose, esporotricose, cromoblastomicose, micetoma — é outro capítulo da vida e vai direto para o especialista.

A questão de prova quase nunca pergunta o nome do fungo. Ela pergunta a via e o tempo. O sítio define o agente provável, o agente define a droga e o sítio define se dá para tratar por fora: couro cabeludo e unha são sistêmicos por definição, porque creme não alcança fungo dentro do folículo nem debaixo da lâmina ungueal. O erro clássico não é escolher o azólico errado — é tratar tinea capitis com creme por três semanas e chamar isso de falha terapêutica.

Há ainda uma camada brasileira que separa a resposta "estado da arte" da resposta "o que sai da farmácia da UBS". A terbinafina, primeira escolha dos protocolos para onicomicose e uma das duas primeiras escolhas para tinea capitis, não está na Rename 2024. A griseofulvina, a outra primeira escolha da tinea capitis, também não está — e, no Brasil, ainda precisa vir da farmácia de manipulação, na forma micronizada. O que está na lista federal é miconazol tópico, nistatina oral, cetoconazol 2% xampu, fluconazol e itraconazol. Saber de que lado o enunciado está falando resolve mais questões do que decorar dose.

03

O que muda decisão

Três fungos, três lógicas de tratamento

Dermatófitos são queratinofílicos: vivem da queratina da pele glabra, do pelo e da unha, e por isso as tineas se organizam por sítio (corporis, cruris, pedis, manuum, capitis, unguium). A fonte de contágio é humana, animal ou do solo, e o principal fator de risco é o contato direto com pessoa ou animal doente ou portador — objetos e ambientes contaminados, como escovas de cabelo, roupa de cama, vestiários e carpetes, também transmitem. É por isso que tinea capitis é doença de casa e de escola, não de indivíduo.

Malassezia não é dermatófito e não vem de fora: é comensal do folículo sebáceo. A pitiríase versicolor é um desequilíbrio da própria flora do paciente, favorecido por calor, sudorese e oleosidade. A consequência prática é que recidiva não é sinal de tratamento malfeito — é o comportamento esperado da doença, e por isso o protocolo prevê profilaxia com xampu de cetoconazol nos meses quentes.

Candida também é oportunista, mas depende de um fator que abra a porta: umidade e oclusão em dobra, diabetes, incontinência urinária, corticoide tópico, imunossupressor, prótese dentária mal ajustada. Tratar candidíase sem corrigir o fator predisponente é garantir o retorno do paciente. Em adulto com candidíase orofaríngea sem causa evidente, o fator predisponente é o próprio diagnóstico a ser feito.

Essa separação tem consequência direta na prescrição. A nistatina cobre Candida e não cobre dermatófito — o protocolo do TelessaúdeRS registra que nistatina tópica não é efetiva em dermatofitose e não deve ser usada. Os azólicos tópicos (miconazol, clotrimazol, cetoconazol) cobrem os três grupos. A terbinafina é excelente contra dermatófito, mas por via oral não trata pitiríase versicolor: a droga não alcança a superfície onde a Malassezia vive, e os documentos brasileiros não a listam entre as opções sistêmicas para versicolor. Já o cetoconazol por via sistêmica saiu do jogo nas duas indicações, por perfil de risco-benefício desfavorável diante das outras opções — sobra dele o xampu 2%.

Dermatofitoses: a borda diz o diagnóstico

A tinea corporis começa como placa eritematosa, pruriginosa, com descamação e bordas mais elevadas. O crescimento é centrífugo, com tendência ao clareamento central; quando várias lesões crescem e se agrupam, assumem padrão circinado. É essa borda ativa com centro mais limpo que separa a tinea do eczema numerular e da psoríase em placas.

A tinea cruris acomete a virilha, a face medial das coxas e a região púbica, é mais comum em homens, e repete a mesma arquitetura: placa que evolui de forma centrífuga, clareamento central, bordas elevadas, eritematosas, bem delimitadas e com pequenas vesículas. Os diferenciais que caem em prova são psoríase invertida, dermatite seborreica, candidíase inguinal e eritrasma — este último é bacteriano, causado por Corynebacterium, e se entrega sob a luz de Wood pela fluorescência vermelho-coral.

A tinea pedis tem três apresentações: interdigital, com lesão pruriginosa e eritematosa entre os dedos e fissuras que doem; hiperceratótica, com placa espessa envolvendo planta e bordas laterais e mediais do pé, no padrão "mocassim"; e vesicobolhosa, com erupção pruriginosa geralmente na região medial. A tinea manuum acomete a mão, frequentemente de forma unilateral e na mão dominante, como placa descamativa hiperceratótica bem delimitada na palma — e vem quase sempre acompanhada de tinea pedis ou tinea cruris, que precisam ser procuradas e tratadas juntas, sob pena de recidiva.

Duas regras de aplicação valem para todas as tineas de pele glabra. O antifúngico tópico é passado na lesão e mais 2 centímetros ao redor, sobre a pele aparentemente sã, porque a borda ativa avança além do que se vê. E corticoide tópico não entra: ele alivia o prurido, apaga a borda inflamatória e deixa a lesão espalhar com morfologia atípica e mal definida — o quadro que se descreve como tinea incognita, em que o micológico continua positivo mas o desenho anular desapareceu.

Três aspectos lado a lado: placa anular com borda descamativa elevada e centro mais claro no antebraço; dobra úmida avermelhada com pequenas lesões separadas na periferia; e manchas claras descamativas confluentes no dorso.
As três morfologias que separam os grupos: borda ativa com clareamento central (dermatófito), dobra macerada com lesões-satélite (Candida) e máculas descamativas do tronco (Malassezia).

Tinea capitis: sistêmico desde o primeiro dia

A tinea capitis é infecção do couro cabeludo que ocorre primariamente em crianças em idade pré-escolar; depois dos 16 anos é rara, e quando aparece costuma ser em área rural. A apresentação mais comum são placas de alopecia, únicas ou múltiplas, com prurido, descamação e pontos pretos — que são os fios tonsurados, quebrados rente ao couro cabeludo. Há ainda a forma de descamação difusa com discreta perda de fios; o quérion, placa edematosa, exsudativa e dolorosa; e a tinea favosa, com lesões pustulosas crateriformes em torno dos óstios foliculares. Dermatite seborreica e psoríase são os diferenciais: descamam, mas não quebram o fio.

O tratamento é sempre com antifúngico sistêmico. Não existe versão tópica dessa conduta, porque o fungo está dentro do folículo, fora do alcance do creme. O xampu antifúngico tem papel de bloqueio da transmissão, não de tratamento do doente. As duas primeiras escolhas são griseofulvina e terbinafina; fluconazol e itraconazol têm indicação limitada por eficácia inferior, e cetoconazol sistêmico não deve ser usado.

Griseofulvina micronizada, no protocolo de 2023, vai de 20 a 25 mg/kg/dia em tomada única, com dose máxima diária de 1.000 mg, por 6 a 12 semanas, e cobre a partir de 1 mês de idade. Absorve melhor com alimento gorduroso. Em pessoa sem comorbidade não é preciso exame antes de começar; se o tratamento passar de 8 semanas, pedir hemograma, plaquetas, TGO e TGP. A terbinafina é dosada por peso — 62,5 mg entre 10 e 20 kg, 125 mg entre 20 e 40 kg, 250 mg acima de 40 kg e no adulto —, uma vez ao dia, por 4 a 6 semanas, em crianças acima de 4 anos. Nela, o ideal é ter função hepática antes, mas essa conduta não deve atrasar o início em quem não tem doença hepática conhecida; se o tratamento passar de 6 semanas, repetir TGO, TGP, hemograma e plaquetas.

O caso não termina no paciente. Os conviventes devem ser examinados e tratados se tiverem lesão, porque familiares assintomáticos funcionam como reservatório e devolvem a infecção. Contatos assintomáticos usam xampu antifúngico — sulfeto de selênio 2,5%, cetoconazol 2% ou ciclopirox 1% — por 2 a 4 semanas. Roupa de cama e travesseiro do doente são lavados, e acessórios de cabelo não são compartilhados enquanto durar a infecção. Cães e gatos podem ser reservatórios assintomáticos ou ter lesão visível, e devem ser avaliados por veterinário, sobretudo quando várias pessoas da casa adoecem ou o quadro recidiva.

Onicomicose: o tratamento é longo, então o diagnóstico vem antes

Na unha, a primeira pergunta é qual fungo. Onicomicose de mão por Candida costuma vir associada a paroníquia crônica, onicólise e coloração amarelada, e é típica de quem trabalha em contato frequente com água — a orientação de usar luvas faz parte do tratamento. Onicomicose de mão por dermatófito normalmente aparece junto com onicomicose dos pés, e o exame dos pés é que fecha o raciocínio.

Nos pés, a divisão que comanda a conduta é de gravidade. Leve a moderada é o acometimento distal ou lateral de menos de 50% da unha, sem atingir a matriz nem a lúnula: aqui cabe tratamento tópico com esmalte — amorolfina 5% uma vez por semana por 9 a 12 meses, retirando o produto anterior com álcool antes de cada aplicação, ou ciclopirox 8% diariamente por até 12 meses, removendo o produto uma vez por semana — ou já o sistêmico. Grave é acometimento de mais de 50%, comprometimento da matriz ou da lúnula, forma subungueal proximal ou onicomicose distrófica total: nesse caso o esmalte não alcança e o tratamento é sistêmico.

A droga de primeira linha é a terbinafina 250 mg por dia: 6 semanas nas unhas das mãos e 3 meses nas dos pés. A segunda linha é o itraconazol, em pulso — 400 mg/dia (100 mg, 2 cápsulas, 2 vezes ao dia) durante uma semana por mês, repetido por 2 meses nas mãos e 3 meses nos pés — ou contínuo, 200 mg/dia por 6 semanas nas mãos e 12 semanas nos pés. Na onicomicose de mão por Candida, o itraconazol é que abre a fila, no mesmo esquema de pulso por 2 meses ou contínuo por 6 semanas.

Segurança: com terbinafina, pedir transaminases antes se houver perspectiva de uso por mais de 3 a 4 semanas, e repetir AST e ALT em 4 a 6 semanas apenas em doença hepática conhecida, abuso de álcool, hepatite medicamentosa prévia, ou se surgirem náuseas, vômitos, icterícia, colúria ou acolia. Com itraconazol diário por mais de 3 a 4 semanas, transaminases antes e a cada 4 a 6 semanas; em pulsoterapia, no paciente sem hepatopatia, história de hepatite medicamentosa ou outras drogas hepatotóxicas, não é necessário. E o itraconazol tem contraindicações que caem em prova: uso concomitante com sinvastatina e insuficiência cardíaca, com cautela em quem tem fator de risco para IC.

Nem toda unha distrófica é fungo — psoríase ungueal, trauma repetido, líquen plano e onicodistrofia por hábito produzem lâminas parecidas. Como o tratamento sistêmico dura meses, a confirmação laboratorial muda a decisão, e o protocolo de regulação pede o laudo de cultura ou micológico direto no conteúdo do encaminhamento. "Suspeita de alteração ungueal não associada à infecção fúngica" é, aliás, um dos critérios formais de encaminhamento à dermatologia.

Pitiríase versicolor: a mancha que descama quando se estira

A pitiríase versicolor é a proliferação da Malassezia na camada córnea, com máculas hipo ou hipercrômicas, de descamação fina, no tronco, ombros e pescoço — as áreas de maior densidade de glândula sebácea. A hipocromia se explica pela inibição da tirosinase do melanócito por metabólitos do fungo, e é a razão de a mancha "não pegar sol": a lesão fica evidente justamente quando a pele ao redor bronzeia.

Dois sinais de beira de leito confirmam a descamação que o olho não vê: o sinal de Zileri, em que a escama aparece ao estirar a pele sobre a lesão, e o sinal da unhada, ou de Besnier, em que a escama se destaca ao raspar. O micológico direto mostra hifas curtas e septadas junto de aglomerados de leveduras, a imagem descrita como "espaguete com almôndegas". À luz de Wood, a fluorescência é amarelo-dourada, mas pode faltar — ausência de fluorescência não exclui o diagnóstico. O diferencial que mais aparece é o vitiligo, que é acromia de limite nítido e sem descamação, e a hipocromia pós-inflamatória, que tem história de lesão prévia no mesmo lugar.

O tratamento começa tópico: azólico em creme, loção ou spray — miconazol, cetoconazol, clotrimazol, oxiconazol — uma a duas vezes ao dia por 1 a 4 semanas; ou cetoconazol 2% xampu, deixado em contato com a pele por 5 a 10 minutos, uma vez ao dia, por 1 a 4 semanas. Entre todas essas opções, o xampu de cetoconazol 2% é a que está na Rename 2024, o que faz dele a espinha do tratamento na UBS.

O sistêmico fica reservado para quadro extenso, recorrente ou refratário: fluconazol 300 mg uma vez por semana por 2 a 4 semanas, ou itraconazol 200 mg por dia por 5 a 7 dias. Cetoconazol por via oral não entra, pelo mesmo motivo das dermatofitoses. Para quem recidiva, cabe profilaxia com cetoconazol 2% xampu aplicado no corpo todo, mantido por 10 minutos, uma vez por mês, principalmente nos meses quentes.

A orientação que evita o retorno desnecessário é sobre a cor: as áreas de hipopigmentação podem permanecer depois do tratamento, e a repigmentação é gradual, ao longo de meses. Mancha branca persistente com a descamação já resolvida não é falha terapêutica e não pede troca de droga.

Candidíase cutâneo-mucosa: trate o fungo e o que abriu a porta

A candidíase orofaríngea aparece como placas brancas removíveis na mucosa jugal, língua e palato (o muguet), como forma eritematosa e atrófica sob prótese dentária, ou como queilite angular. Em adulto sem fator explicativo — sem prótese, sem corticoide inalatório, sem diabetes descompensado, sem antibiótico recente, sem quimioterapia — o achado é indicação de investigar imunossupressão, o teste de HIV incluído.

No adulto, o tratamento é nistatina suspensão 100.000 UI/mL, 4 a 6 mL, bochechando e engolindo, 4 vezes ao dia, por 7 a 14 dias; ou nitrato de miconazol gel oral 2%, 1,25 mL, 4 vezes ao dia, por 7 a 14 dias. Sem resposta, ou em caso extenso ou recorrente, fluconazol 150 mg por dia por 7 a 14 dias. Em crianças o esquema tópico é o mesmo, e o resgate é fluconazol 6 mg/kg no primeiro dia e 3 mg/kg/dia depois, por 7 a 14 dias, com máximo de 200 mg/dia. Em bebês, a nistatina vai em 2 mL, 1 mL em cada bochecha, 4 vezes ao dia.

Duas medidas fazem parte do tratamento e costumam ser esquecidas. Na estomatite por dentadura, trata-se também a prótese: removê-la antes de dormir, escovar vigorosamente e imergir em solução de clorexidina ou em água sanitária diluída (10 gotas em um copo cheio de água), além de revisar se está adequada. No bebê, ferver bicos e brinquedos levados à boca por 1 minuto após cada uso e, se estiver em aleitamento, avaliar os mamilos da mãe — sem isso, mãe e filho se recontaminam em ciclo.

O intertrigo por Candida ocupa as dobras — submamária, inguinal, interglútea, abdominal — com eritema, maceração no fundo da dobra e, na periferia, as lesões-satélite que dão o diagnóstico. Antes da droga, os fatores predisponentes: diabetes tipo 2, hiperidrose, incontinência urinária, uso de corticoide tópico e de imunossupressores. Quadro leve a moderado é tratado com miconazol 2% creme (ou nistatina, ciclopirox ou outro azólico) duas vezes ao dia até a melhora completa, cerca de 2 a 4 semanas. Em falha terapêutica ou apresentação extensa, o adulto recebe fluconazol 150 mg por semana ou itraconazol 200 mg duas vezes ao dia, por 2 a 6 semanas; a criança, fluconazol 6 mg/kg no primeiro dia e 3 mg/kg/dia depois, ou itraconazol 5 a 10 mg/kg/dia dividido em duas tomadas, pelo mesmo período.

Quando o laboratório entra: micológico, cultura e luz de Wood

O diagnóstico das micoses superficiais é clínico na maioria das vezes. O exame micológico direto é indicado em duas situações que os dois documentos do TelessaúdeRS repetem: dúvida diagnóstica e falha ao tratamento. A isso soma-se uma terceira, que é decisão de custo e de risco: antes de comprometer o paciente com meses de antifúngico sistêmico por uma unha, a confirmação muda a conduta — e o protocolo de regulação pede o laudo, preferencialmente, no encaminhamento.

A cultura vai além e identifica gênero e espécie. Ela importa quando a escolha da droga depende do agente, o que acontece na tinea capitis, e quando há recidiva ou surto familiar em que se quer saber se a fonte é animal (Microsporum canis, zoofílico) ou humana (Trichophyton tonsurans, antropofílico) — informação que redireciona as medidas de bloqueio.

A luz de Wood é rápida, mas é preciso saber o que ela responde. Microsporum fluoresce em verde-azulado; Trichophyton não fluoresce, e como ele é o gênero mais frequente no Brasil, lâmpada de Wood negativa não exclui tinea capitis. A Malassezia da pitiríase versicolor dá fluorescência amarelo-dourada, e o eritrasma — que não é fungo, é o Corynebacterium — dá vermelho-coral, o que resolve a dúvida com a tinea cruris na virilha.

Encaminhar à dermatologia é indicado em micose subcutânea suspeita ou confirmada; e, em candidíase mucocutânea, dermatofitose ou pitiríase versicolor, quando o quadro é extenso em paciente imunocomprometido (por medicamento, HIV ou imunodeficiência primária) ou refratário ao tratamento clínico otimizado. Na onicomicose, a exigência é dupla: refratariedade ao tratamento otimizado mais pelo menos um entre episódio de erisipela ou celulite no membro ipsilateral, presença de dor ou desconforto, e suspeita de alteração ungueal não associada a infecção fúngica. O encaminhamento leva descrição e tempo de evolução, fotografias de todas as áreas acometidas, laudo do exame confirmatório se houver, os tratamentos já feitos com dose e duração, e a informação sobre imunossupressão e episódios prévios de erisipela.

04

Escolher a via, a droga e o tempo

A sequência é sempre a mesma: sítio, morfologia, via, droga, duração — e, no fim, o que evita a recidiva. As doses abaixo são as do protocolo do TelessaúdeRS-UFRGS com a Secretaria Estadual da Saúde do RS, versão 2023, e a disponibilidade é a da Rename 2024.

  1. 1Nomeie o sítio: pele glabra, dobra, pé, couro cabeludo, unha ou mucosa. O sítio já restringe o agente e, sozinho, decide a via em dois casos.
  2. 2Procure a borda. Borda elevada e ativa com clareamento central é dermatófito; dobra macerada com lesões-satélite é Candida; mancha do tronco que descama ao estirar é Malassezia.
  3. 3Decida a via antes da droga: couro cabeludo e unha são sistêmicos; o resto começa tópico, aplicado na lesão e 2 cm além, sobre pele sã.
  4. 4Se a via é sistêmica e o uso vai passar de 3 a 4 semanas, peça transaminases antes de iniciar.
  5. 5Confirme no laboratório quando há dúvida diagnóstica, quando o tópico falhou, e antes de meses de sistêmico por causa de uma unha.
  6. 6Trate o que alimenta a recidiva: tinea pedis e onicomicose do mesmo paciente, conviventes e animais na tinea capitis, umidade, prótese e diabetes na candidíase.

Onicomicose leve a moderada — matriz livre

Acometimento distal ou lateral de menos de metade da lâmina, sem atingir a matriz nem a lúnula. Cabe tratamento tópico com esmalte — amorolfina 5% uma vez por semana por 9 a 12 meses, ou ciclopirox 8% diário por até 12 meses — ou já o sistêmico, à escolha.

Onicomicose grave — matriz tomada

Mais de metade da lâmina, acometimento da matriz ou da lúnula, forma subungueal proximal ou distrofia total. Esmalte não alcança: o tratamento é sistêmico, terbinafina 250 mg/dia por 3 meses nos pés.

ApresentaçãoComo começaSe falhar, ou se for extensoDuração
Tinea corporis e tinea crurisAntifúngico tópico (ex.: miconazol 2% creme), 2x/dia, na lesão e 2 cm alémTerbinafina 250 mg/dia ou itraconazol 200 mg/diaTópico 1 a 3 semanas; terbinafina 1 a 2 semanas; itraconazol 1 semana
Tinea pedis e tinea manuumAntifúngico tópico, 2x/diaTerbinafina 250 mg/dia; itraconazol 400 mg/dia; fluconazol 150 a 200 mg/semanaTópico 1 a 4 semanas; terbinafina 2 semanas; itraconazol 1 semana; fluconazol 2 a 6 semanas
Tinea capitisSistêmico desde o início — tópico isolado não resolveGriseofulvina micronizada 20 a 25 mg/kg/dia (máx. 1.000 mg) ou terbinafina por pesoGriseofulvina 6 a 12 semanas; terbinafina 4 a 6 semanas
Onicomicose dos pés, leve a moderadaEsmalte de amorolfina 5% semanal ou ciclopirox 8% diário — ou já sistêmicoTerbinafina 250 mg/diaEsmalte 9 a 12 meses; terbinafina 3 meses
Onicomicose dos pés, graveSistêmicoTerbinafina 250 mg/dia; alternativa: itraconazol 400 mg/dia em pulso, 1 semana por mês3 meses
Onicomicose das mãos por dermatófitoSistêmicoTerbinafina 250 mg/dia; alternativa: itraconazol em pulso ou 200 mg/dia6 semanas
Onicomicose das mãos por CandidaSistêmico, com luvas para contato com águaItraconazol 400 mg/dia em pulso (1 semana por mês) ou 200 mg/diaPulso por 2 meses; contínuo por 6 semanas
Pitiríase versicolorAzólico tópico 1 a 2x/dia, ou cetoconazol 2% xampu com 5 a 10 min de contatoFluconazol 300 mg/semana ou itraconazol 200 mg/diaTópico 1 a 4 semanas; fluconazol 2 a 4 semanas; itraconazol 5 a 7 dias
Candidíase orofaríngeaNistatina 100.000 UI/mL, 4 a 6 mL 4x/dia (bochechar e engolir), ou miconazol gel oral 2%, 1,25 mL 4x/diaFluconazol 150 mg/dia7 a 14 dias
Intertrigo por CandidaMiconazol 2% creme 2x/dia, com correção da umidade e do fator predisponenteFluconazol 150 mg/semana ou itraconazol 200 mg 2x/diaTópico 2 a 4 semanas; sistêmico 2 a 6 semanas

O que existe na prateleira do SUS: antifúngicos na Rename 2024

AntifúngicoApresentação na Rename 2024ComponenteO que isso significa na prática
Nistatina100.000 UI/mL suspensão oralBásicoA candidíase orofaríngea de qualquer idade se resolve na UBS
Nitrato de miconazol2% em creme, loção, pó, gel oral e creme vaginalBásicoÉ o azólico tópico de referência para tinea de pele glabra e para intertrigo
Cetoconazol2% xampuBásicoSustenta tratamento e profilaxia da pitiríase versicolor; não há creme nem comprimido na lista
Fluconazol100 e 150 mg cápsula; 10 mg/mL suspensão oral (injetável 2 mg/mL no Estratégico)BásicoÉ o sistêmico disponível para versicolor, candidíase e segunda linha de tinea
Itraconazol100 mg cápsula; 10 mg/mL solução oralBásico (cápsula também no Estratégico)É o outro sistêmico disponível, usado em tinea, onicomicose e versicolor
Terbinafinanão constaPrimeira escolha dos protocolos na onicomicose e uma das duas na tinea capitis; a compra depende de pactuação estadual ou municipal
Griseofulvinanão constaPrimeira escolha na tinea capitis e, no Brasil, obtida sob manipulação, na forma micronizada
Clotrimazol, ciclopirox e amorolfinanão constamAlternativas tópicas e os dois esmaltes de onicomicose ficam fora do financiamento federal

Tinea capitis: as duas primeiras escolhas, lado a lado

ItemGriseofulvina micronizadaTerbinafina
Dose20 a 25 mg/kg/dia, 1x/dia, máximo de 1.000 mg/dia10 a 20 kg: 62,5 mg; 20 a 40 kg: 125 mg; acima de 40 kg e adulto: 250 mg, 1x/dia
Duração6 a 12 semanas4 a 6 semanas
Idade mínima no protocolo de 2023acima de 1 mêsacima de 4 anos
Absorçãomelhora com alimento gordurososem exigência alimentar registrada
Examessem exame prévio em pessoa sem comorbidade; hemograma, plaquetas, TGO e TGP se passar de 8 semanasfunção hepática antes, de preferência, sem atrasar o início; repetir se passar de 6 semanas
Agente em que rende mais (Cochrane, 2016)Microsporum spp.Trichophyton tonsurans
Disponibilidadenão consta na Rename 2024; no Brasil, sob manipulaçãonão consta na Rename 2024

Nistatina tópica não trata dermatofitose — o TeleCondutas de 2017 e o protocolo de 2023 dizem isso com todas as letras. Ela cobre Candida; dermatófito, não.

Cetoconazol por via sistêmica está fora tanto das dermatofitoses quanto da pitiríase versicolor, por risco-benefício desfavorável diante das outras opções. O que sobrevive é o cetoconazol 2% xampu.

A dose diária de itraconazol muda com a indicação dentro do mesmo protocolo: 200 mg/dia na tinea corporis e cruris, e 400 mg/dia na tinea pedis, no intertrigo por Candida e nos pulsos de onicomicose.

Itraconazol é contraindicado em uso concomitante com sinvastatina e em insuficiência cardíaca, e pede cautela em quem tem fator de risco para IC.

A idade mínima da terbinafina mudou entre duas versões do mesmo serviço: a TeleConduta de 2017 trabalha com crianças acima de 2 anos e o protocolo de regulação de 2023 fixa acima de 4 anos. A régua vigente é a de 2023.

Griseofulvina aparece com faixas de dose diferentes conforme a indicação no material de 2017: 10 a 20 mg/kg/dia na tinea corporis e 20 a 25 mg/kg/dia na tinea capitis. A dose maior é a do couro cabeludo, e é a que o protocolo de 2023 mantém.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Primeira escolha na tinea capitis, e o que sobra quando ela não está na lista federal

Griseofulvina ou terbinafina, sem hierarquia entre as duas — protocolo TelessaúdeRS-UFRGS com a SES-RS

As duas entram juntas como primeira escolha, e fluconazol e itraconazol ficam com indicação limitada por eficácia inferior nessa indicação. A griseofulvina é micronizada, obtida sob manipulação, e cobre a partir de 1 mês de vida; a terbinafina, a partir de 4 anos. Cetoconazol sistêmico não é usado.

Protocolos de Regulação Ambulatorial — Dermatologia Adulto, TelessaúdeRS-UFRGS e SES-RS, versão digital 2023, quadro 16

A diferença aparece quando se separa por gênero do fungo — revisão Cochrane de 2016

Em 25 ensaios randomizados com 4.449 participantes, terbinafina e griseofulvina se equivalem no conjunto de crianças com infecção mista. Separando por agente, a terbinafina rende mais nas infecções por Trichophyton tonsurans e a griseofulvina rende mais nas causadas apenas por Microsporum. Esse recorte só é operacional onde há cultura para identificar a espécie.

CHEN, X. et al. Systemic antifungal therapy for tinea capitis in children. Cochrane Database of Systematic Reviews, CD004685, 2016 (resumo público)

Nenhuma das duas consta da lista federal — Rename 2024

Terbinafina e griseofulvina não aparecem na Rename 2024. Os antifúngicos sistêmicos do Componente Básico são fluconazol e itraconazol, exatamente os dois que o protocolo classifica como de eficácia inferior no couro cabeludo. Comprar a primeira escolha depende de pactuação estadual ou municipal, e a griseofulvina depende ainda de farmácia de manipulação. A causa da distância é de disponibilidade e de financiamento, não de evidência.

Relação Nacional de Medicamentos Essenciais — Rename 2024, Ministério da Saúde

Na prova

O enunciado costuma entregar de que mundo está falando. Se cita a UBS, a dispensação pela farmácia básica ou pergunta o que está disponível, o eixo é a lista federal, e as alternativas tendem a trazer fluconazol e itraconazol como opções plausíveis. Se cita cultura, nomeia o gênero isolado (Microsporum canis, Trichophyton tonsurans) ou compara durações de tratamento, o eixo é a eficácia por agente. Menção nominal a um documento ou a uma sociedade fecha a questão naquele documento. Vale a régua geral: prova oficial do MEC tende à conduta possível no SUS; em outras bancas, quem denuncia o recorte é o distrator — um esmalte de amorolfina numa questão ambientada em UBS não estaria ali por acaso. E há o piso que independe da controvérsia: a via é sistêmica em qualquer das leituras.

Qual dermatófito predomina na tinea capitis no Brasil

Microsporum canis à frente, com Trichophyton tonsurans em segundo — casuística de São Paulo, 1992 a 2002

Em 655 cepas isoladas entre 15.300 pacientes ambulatoriais, o agente principal no couro cabeludo foi o M. canis, com 65,0%, seguido de T. tonsurans, com 28,3%. Somando todas as dermatofitoses, o T. rubrum liderou com 48,7%, e M. canis veio com 20,9%.

CHIMELLI, P. A. V. et al. Dermatophyte agents in the city of São Paulo, from 1992 to 2002. Revista do Instituto de Medicina Tropical de São Paulo, v. 45, n. 5, 2003

Trichophyton tonsurans em larga maioria — casuística de Fortaleza, 1996 a 1998

Entre 2.297 pacientes com lesão suspeita, 534 tiveram dermatófito isolado; no couro cabeludo o T. tonsurans respondeu por 73,9%, e os autores registram no próprio título que se trata de patógeno emergente naquela cidade, contrariando o padrão descrito em outras regiões brasileiras e na literatura internacional. No conjunto, T. rubrum ficou com 49,6%.

Epidemiologia e ecologia das dermatofitoses na cidade de Fortaleza: o Trichophyton tonsurans como importante patógeno emergente da Tinea capitis. Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, v. 33, n. 5, 2000

Na prova

São dois documentos brasileiros, de bases regionais e períodos distintos, e eles não se anulam: a proporção entre M. canis e T. tonsurans muda com a região e com a década, o que é a causa do desencontro. O enunciado dá as pistas na história: contato com gato ou cachorro, lesão que fluoresce em verde-azulado à luz de Wood e criança única na casa apontam Microsporum, zoofílico; pontos pretos, vários casos na mesma escola e luz de Wood sem fluorescência apontam Trichophyton, antropofílico. Quando a questão não informa região nem cultura, ela costuma cobrar o que não depende do agente — que o tratamento é sistêmico e que os conviventes precisam ser examinados.

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Caso resolvido

Menino de 6 anos, 22 kg, levado à UBS por "caspa que não sai". Há dois meses surgiu uma falha de cabelo no alto da cabeça, que aumentou; a mãe comprou um creme antifúngico e passou por três semanas, sem mudança. Ao exame, placa de 4 cm com descamação e fios quebrados rente ao couro cabeludo, deixando pontos pretos; sem dor, sem flutuação, sem febre. Em casa há mais dois irmãos, um deles com descamação discreta no couro cabeludo, e um gato adotado há seis meses.
achado
Placa de alopecia com descamação e fios tonsurados em pré-escolar é tinea capitis. Dermatite seborreica e psoríase descamam o couro cabeludo, mas não quebram o fio nem deixam pontos pretos.
por que o creme não funcionou
O antifúngico tópico não alcança o fungo dentro do folículo piloso. Falha de creme no couro cabeludo não é resistência do fungo: é via errada, e mais três semanas de creme repetiriam o mesmo resultado.
conduta
Antifúngico sistêmico desde o início. Griseofulvina micronizada 20 a 25 mg/kg/dia, em tomada única, junto de refeição gordurosa, por 6 a 12 semanas; ou terbinafina pelo peso — com 22 kg, 125 mg/dia por 4 a 6 semanas. As duas são primeira escolha; nenhuma consta da Rename 2024, e é isso que precisa ser resolvido com a farmácia antes de mandar a receita.
exames
Sem comorbidade, a griseofulvina não exige exame antes de começar; se o tratamento passar de 8 semanas, hemograma, plaquetas, TGO e TGP. Com terbinafina, função hepática de preferência antes, sem que a espera atrase o início, e repetição se passar de 6 semanas. O micológico direto não é obrigatório para começar, mas a cultura vale quando se quer saber se a fonte é o gato ou o irmão.
o que mais precisa ser feito
Examinar os conviventes e tratar quem tiver lesão — o irmão com descamação entra em avaliação. Os contatos assintomáticos usam xampu de sulfeto de selênio 2,5%, cetoconazol 2% ou ciclopirox 1% por 2 a 4 semanas. Lavar roupa de cama e travesseiro, não compartilhar acessórios de cabelo enquanto durar a infecção, e encaminhar o gato ao veterinário.
quando o caso sai da UBS
Refratariedade ao tratamento otimizado ou quadro extenso em paciente imunocomprometido indicam dermatologia. O encaminhamento leva descrição e tempo de evolução, fotografias das áreas acometidas, o laudo do micológico ou da cultura se houver, e os tratamentos já feitos com dose e duração.
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Agora feche você

Homem de 24 anos, trabalha ao ar livre, procura a UBS no fim do verão por manchas claras no tórax e nos ombros, surgidas há dois meses, que "não pegam sol". Coçam pouco. Ao exame, máculas hipocrômicas confluentes no dorso e nos ombros; ao estirar a pele sobre uma delas, aparece descamação fina. Sem uso de medicação, sem lesão prévia no mesmo local.
achado
Máculas hipocrômicas no tronco com descamação furfurácea que se revela ao estiramento — o sinal de Zileri — configuram pitiríase versicolor, por Malassezia. O micológico direto mostra hifas curtas com aglomerados de leveduras, e a luz de Wood costuma dar fluorescência amarelo-dourada, embora possa faltar.
por que não é vitiligo nem hipocromia pós-inflamatória
Vitiligo é acromia de limites nítidos, sem descamação. Hipocromia pós-inflamatória exige lesão anterior no mesmo lugar, que ele nega. Aqui há hipocromia com escama, que aparece ao estirar ou ao raspar a pele.
conduta
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Onde a banca derruba

  1. 1Tratar tinea capitis com creme antifúngico É um fungo, está na pele, e o creme é o que existe à mão — a lógica parece fechar. Só que o fungo está dentro do folículo piloso, onde o tópico não chega. O tratamento é sistêmico desde o primeiro dia, e o xampu antifúngico serve para bloquear a transmissão, não para curar o doente.
  2. 2Prescrever nistatina para dermatofitose A nistatina é o antifúngico mais familiar da atenção básica e está na Rename, o que a torna a escolha instintiva. Mas ela cobre Candida e não cobre dermatófito: o protocolo diz explicitamente que nistatina tópica não é efetiva em dermatofitose e não deve ser usada. Para tinea de pele glabra, o azólico tópico disponível é o miconazol 2%.
  3. 3Usar terbinafina oral na pitiríase versicolor Como a terbinafina é a droga mais potente contra dermatófito, parece natural estendê-la a qualquer micose superficial. A Malassezia vive na superfície da camada córnea, onde a terbinafina por via oral não alcança concentração útil — e por isso ela não aparece entre as opções sistêmicas para versicolor. Fluconazol e itraconazol, sim; a terbinafina tópica também funciona.
  4. 4Passar corticoide na placa que coça O corticoide reduz o prurido e o eritema em poucos dias, o que dá a falsa impressão de acerto. Ele apaga a borda ativa, permite a lesão se espalhar e produz o quadro atípico e mal delimitado descrito como tinea incognita. O micológico continua positivo; o desenho anular é que sumiu.
  5. 5Chamar a mancha branca residual de falha terapêutica O paciente volta com a mancha do mesmo tamanho e a tentação é trocar de droga ou partir para o sistêmico. A descamação é que responde ao tratamento; a repigmentação é gradual e leva meses. Sem escama, o fungo já foi — o que resta é pigmento voltando.
  6. 6Meses de antifúngico sistêmico numa unha sem confirmar o diagnóstico Unha grossa, amarelada e quebradiça parece autoexplicativa, mas psoríase ungueal, trauma repetido e líquen plano produzem lâminas parecidas. Como o tratamento dura de 6 semanas a 3 meses e exige controle de transaminases, a confirmação laboratorial muda a decisão — e a suspeita de alteração ungueal não fúngica é, por si só, critério de encaminhamento.
  7. 7Confundir quérion com abscesso bacteriano A placa edematosa, exsudativa e dolorosa no couro cabeludo puxa o raciocínio para drenagem e antibiótico. O quérion é a forma inflamatória da tinea capitis, e a resposta inflamatória intensa é do hospedeiro, não de piogênico — o que resolve é o antifúngico sistêmico.
  8. 8Tratar a tinea cruris e ignorar os pés A virilha melhora, o paciente recebe alta e volta em dois meses com a mesma lesão. Tinea pedis e onicomicose no mesmo paciente funcionam como reservatório e realimentam a virilha; o protocolo pede que sejam avaliadas e tratadas junto, sob pena de recorrência.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Correta: o quadro é pitiríase versicolor — máculas hipo/hipercrômicas descamativas em áreas seborreicas (tórax, dorso, ombros), sinal de Zileri (descamação ao estiramento) e fluorescência amarelo-dourada à luz de Wood são clássicos. O agente é a levedura lipofílica Malassezia (M. furfur/globosa). T. rubrum causa dermatofitoses (tinea corporis/pedis/unguium), com lesões anulares de bordas ativas, não máculas furfuráceas. M. canis é dermatófito zoofílico (tinea capitis/corporis), fluorescência verde à luz de Wood, não amarelo-dourada. C. albicans causa candidíase de áreas úmidas/intertriginosas com lesões eritematosas satélites, não este padrão. E. floccosum é dermatófito (tinea cruris/pedis), sem descamação furfurácea nem fluorescência dourada.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Duas perguntas: quais são as duas situações em que o tratamento é sistêmico desde o início, e por quê. E qual antifúngico tópico não trata dermatofitose. Depois, recite a tríade da versicolor — sinal de Zileri, hifas curtas com leveduras em cacho no micológico, fluorescência amarelo-dourada à luz de Wood — e diga por que a mancha branca demora a sumir.

em 30 dias

Reconstrua a tabela de vias e durações de cabeça: tinea corporis, pedis, capitis, onicomicose leve e grave, versicolor, candidíase oral e intertrigo. Em seguida, liste quais antifúngicos constam da Rename 2024 e quais não constam, e diga o que isso muda na prescrição de uma tinea capitis e de uma onicomicose. Fecha com os critérios de encaminhamento da onicomicose: refratariedade mais um entre erisipela prévia no membro, dor, e suspeita de alteração não fúngica.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Mulher de 58 anos, diabética tipo 2 em uso irregular de metformina, chega à UBS com ardência e vermelhidão sob as mamas há três semanas, piorada com o calor. Ao exame, eritema com maceração no fundo da dobra submamária, bordas com pequenas lesões arredondadas separadas da placa principal, e glicemia capilar de 268 mg/dL. Conduza a consulta: identifique a micose, o fator que a mantém e o tratamento possível com o que existe na farmácia da unidade. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Micoses superficiais — Preparatório para provas | OsceLabs