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Outras EspecialidadesDermatologia

Psoríase e dermatite atópica

Gravidade, escalonamento terapêutico e opções do SUS

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Mulher de 45 anos apresenta placas eritemato-descamativas bem delimitadas, com escamas prateadas grossas, localizadas em cotovelos, joelhos e couro cabeludo, há 1 ano. Ao remover a escama observa-se sangramento puntiforme. Refere também unhas com depressões puntiformes. Qual é o sinal semiológico caracterizado pelo sangramento puntiforme após a raspagem das escamas?

02

Como esse tema cai

As provas de residência já cobram bem a metade morfológica destas duas doenças, e quem chegou até aqui provavelmente acerta essa metade. Sabe que o sangramento puntiforme após raspar a escama é o sinal de Auspitz e que a lesão nova sobre a cicatriz é o fenômeno de Koebner. Sabe que a curetagem metódica de Brocq dá primeiro o sinal da vela e depois o orvalho sanguíneo. Sabe reconhecer o pitting ungueal, a erupção em gota duas a três semanas depois de uma faringoamigdalite, e sabe separar isso da pitiríase rósea com medalhão e distribuição em árvore de Natal. Do lado do eczema, sabe a distribuição por faixa etária, a xerose, a história familiar de atopia e a piora abrupta com vesículas monomórficas que é eczema herpético.

Este capítulo pega o eixo que ainda não foi treinado, e que é onde as bancas de residência têm colocado a pergunta difícil: depois do diagnóstico, quem decide que aquele paciente é grave, com qual instrumento, contra qual limiar — e quem paga o que foi decidido. São duas réguas diferentes e elas não coincidem. A régua clínica mede gravidade com escores. A régua de financiamento define em qual componente da Assistência Farmacêutica cada medicamento está, e é ela que determina se o paciente sai da consulta com a receita atendida na unidade básica ou com um processo administrativo para abrir.

O capítulo é escrito para o adulto. A dermatite atópica do lactente e da criança, com a marcha atópica e o eczema herpético, tem capítulo próprio na apostila de imunologia pediátrica; aqui o eczema entra pelo que o adulto traz de diferente — o diagnóstico formalizado por critérios e a escala de gravidade que abre o degrau sistêmico.

03

O que muda decisão

As formas que mudam de degrau, e o remédio que desencadeia a pior delas

O protocolo brasileiro lista as formas clínicas da psoríase como crônica em placas (ou vulgar), em gotas, pustulosa, eritrodérmica, invertida (flexora) e ungueal, e observa que elas podem se sobrepor e estar ou não associadas à artrite psoriásica. A pustulosa se subdivide em três: a difusa de von Zumbusch, a pustulose palmoplantar e a acropustulose. A forma em placas responde por 75% a 90% dos casos; cerca de 80% dos casos são leves a moderados e melhoram com tratamento tópico, e os 20% a 30% considerados graves frequentemente precisam de terapêutica sistêmica.

As duas formas que interessam ao pronto-socorro são exatamente as que quase não aparecem nas provas: a pustulosa generalizada e a eritrodérmica. Elas tiram o paciente da lógica ambulatorial porque comprometem a barreira cutânea de forma difusa, com perda de calor e de líquido, e porque a escolha do sistêmico muda: a acitretina é o tratamento em que o protocolo registra os melhores resultados nas formas pustulosas localizada e generalizada e na eritrodérmica, e é ali que ela é considerada de primeira linha. Na psoríase em placas os efeitos da acitretina são descritos como mais modestos.

O protocolo lista os fatores desencadeantes: clima frio, infecções (estreptococo, HIV), estresse e fármacos. A lista de fármacos merece ser decorada porque cai literalmente — bloqueadores adrenérgicos, antimaláricos, lítio, inibidores da enzima conversora de angiotensina, sais de ouro, interferona alfa, corticosteroides sistêmicos e anti-inflamatórios não esteroidais. O corticosteroide sistêmico é a armadilha do conjunto, porque parece a conduta óbvia para uma dermatose inflamatória extensa e está na lista dos que pioram a doença. Nas provas ele aparece como distrator em vinhetas de doença refratária, e quem só decorou a resposta certa não aprendeu por que a errada é errada.

O protocolo também não manda simplesmente suspender esses medicamentos. A instrução é que os casos sejam discutidos de forma multidisciplinar, com vistas à troca de classe farmacêutica para o tratamento da doença de base; e, caso a suspensão não seja possível, o paciente ainda assim pode ser incluído no protocolo pelos critérios de inclusão. Enunciado que descreve um hipertenso em uso de betabloqueador com psoríase em piora não está pedindo a suspensão automática do anti-hipertensivo.

Três instrumentos, um limiar só: como o PASI é construído

O protocolo mede a psoríase por três instrumentos. O PASI estima extensão e gravidade das lesões. A superfície corporal acometida dá a mesma leitura por outro caminho. E o DLQI mede o impacto na qualidade de vida: são dez itens pontuados de 0 a 3, escore total de 0 a 30, tanto melhor quanto menor, e uma redução de 5 pontos já tem significado clínico como desfecho de intervenção.

O PASI se constrói em duas etapas. Primeiro, o corpo é dividido em quatro regiões — cabeça, tronco, membros superiores e membros inferiores. Em cada região se avaliam três parâmetros de gravidade: eritema, infiltração e descamação, cada um de 0 (ausente) a 4 (muito intenso); a soma dos três é o índice de gravidade da região, que vai de 0 a 12. Ainda em cada região se pontua a extensão da doença de 0 a 6, por faixas de percentual da região acometida. Segundo, o produto da extensão pelo índice de gravidade é multiplicado pelo peso daquela região, que é a fração da superfície corporal que ela representa. A soma das quatro regiões é o PASI, e o protocolo declara que o resultado vai de 0 a 72.

Vale conferir esse teto, porque é uma conta que o aluno pode refazer em quinze segundos e que fixa a estrutura do índice. O máximo de cada região é extensão 6 vezes gravidade 12, ou seja 72, multiplicado pelo peso; como os quatro pesos somam 1, o total máximo é 6 × 12 × 1 = 72. O teto declarado fecha com a construção descrita.

O limiar é o mesmo para os três instrumentos e é o número 10. O protocolo estratifica em leve (PASI igual ou inferior a 10) e moderada a grave (PASI superior a 10), e usa o mesmo corte para a superfície corporal em percentual e para o DLQI. Essa coincidência é o que se costuma chamar de regra dos dez, e é ela que o enunciado está testando quando fornece os três números de uma vez.

O teto de 72 confere e mesmo assim a tabela de pesos está trocada

Há um detalhe no Quadro 2 do protocolo que merece atenção, e ele é interessante justamente porque a verificação mais óbvia não o detecta. O quadro atribui os pesos regionais assim: cabeça 0,1, tronco 0,2, membros superiores 0,3 e membros inferiores 0,4, com a nota de rodapé explicando que se trata da porcentagem da superfície corporal que cada região representa.

O peso do PASI é, por definição, a fração da superfície corporal da região. Pela regra dos nove, a cabeça e o pescoço valem cerca de 9%, cada membro superior 9% (18% no total), o tronco 36% e os membros inferiores 36%. Arredondando: cabeça 0,1, membros superiores 0,2, tronco 0,3 e membros inferiores 0,4 — que é exatamente a atribuição do artigo original de 1978, citado como fonte do próprio quadro. No quadro do protocolo, tronco e membros superiores aparecem invertidos. O tronco, que é a maior das quatro regiões depois dos membros inferiores, recebe peso menor que os braços.

O que torna o achado instrutivo é que a trava aritmética mais natural não o pega. Somar os pesos dá 1 nas duas versões, porque trocar dois valores de posição não altera a soma; e o máximo continua sendo 72 nas duas. Ou seja: conferir o teto declarado valida a estrutura do índice e não diz absolutamente nada sobre a atribuição. Uma conta que passa não é prova de que a tabela está certa — ela só é prova de que aquela conta específica está certa.

O teste que discrimina é outro: um paciente com doença em uma região só. Com lesões restritas ao tronco, extensão 5 (70% a 90% da região) e índice de gravidade 8, a versão impressa dá 0,2 × 5 × 8 = 8,0, abaixo do limiar, portanto leve; a versão canônica dá 0,3 × 5 × 8 = 12,0, acima do limiar, portanto moderada a grave. É o mesmo paciente em dois lados da linha que abre a terapia sistêmica. Espelhando o caso para lesões restritas aos membros superiores, a inversão se inverte junto e o paciente é promovido em vez de rebaixado. Varrendo todas as combinações possíveis de extensão e gravidade, existem doze pares que trocam de classe por causa da inversão — todos na janela em que o produto da extensão pelo índice de gravidade fica entre 34 e 50.

Duas tabelas de pesos regionais do PASI lado a lado: no protocolo, cabeça 0,1, tronco 0,2, membros superiores 0,3 e membros inferiores 0,4; no artigo original, cabeça 0,1, membros superiores 0,2, tronco 0,3 e membros inferiores 0,4, com setas cruzadas mostrando a troca entre tronco e membros superiores. As duas somam 1 e as duas têm máximo 72. Abaixo, eixo vertical de PASI de 0 a 15 com linha tracejada em 10: o paciente com lesões só no tronco, extensão 5 e gravidade 8 marca 8,0 pela tabela do protocolo, classificado como leve, e 12,0 pela tabela original, classificado como moderada a grave.
Somar os pesos e conferir o teto de 72 dá certo nas duas versões da tabela; só o cálculo de um paciente com doença numa região só revela a inversão, que move o mesmo PASI de 8,0 para 12,0 sobre o limiar de 10.

Na prática do consultório a inversão raramente importa, porque a psoríase costuma acometer várias regiões e os erros se compensam parcialmente. A lição não é desconfiar do protocolo inteiro; é saber que o PASI é um índice ponderado por superfície e que, se a questão pedir o cálculo, o peso do tronco é o maior entre tronco e braços.

A regra dos dez tem uma fresta, e é por ela que a prova entra

Os critérios de inclusão do protocolo são escritos assim: entram os pacientes com psoríase cutânea tegumentar leve definida por um dos seguintes critérios — PASI igual ou inferior a 10, acometimento igual ou inferior a 10% da superfície corporal, ou DLQI igual ou inferior a 10. E entram também os pacientes com doença moderada a grave definida por um dos seguintes — PASI superior a 10, acometimento superior a 10% da superfície corporal, ou DLQI superior a 10.

As duas definições usam a mesma fórmula, um dos seguintes, e por isso não são mutuamente exclusivas. Um paciente com PASI 4, superfície corporal de 25% e DLQI 3 satisfaz o primeiro critério da lista da leve e o segundo critério da lista da moderada a grave, ao mesmo tempo. Numa grade de todos os trios possíveis de PASI, superfície corporal e DLQI, metade das combinações satisfaz as duas definições — todas aquelas em que os três instrumentos discordam entre si. A leitura que resolve, e que é como a regra dos dez é aplicada na literatura, é assimétrica: basta um dos três acima de 10 para a doença ser moderada a grave, e portanto a doença só é leve quando os três estão em 10 ou menos.

Isso tem uma consequência prática direta. Diante de um enunciado que entrega os três números, o aluno deve procurar o maior deles, não fazer média nem escolher o instrumento que achar mais confiável. Um PASI baixo não protege ninguém de ser classificado como moderado a grave se a superfície corporal ou o índice de qualidade de vida estourarem o limiar.

Os critérios de sítio especial: o paciente pequeno que é grave

A parte do protocolo que mais separa quem leu do que decorou o número 10 vem logo depois. A lista da doença moderada a grave não termina nos três escores: ela continua com três critérios que não dependem de extensão nenhuma.

O primeiro é a psoríase que acomete extensamente o aparelho ungueal, definida como onicólise ou onicodistrofia em ao menos duas unhas. O segundo é a psoríase palmo-plantar resistente a tratamentos tópicos de uso padrão — corticosteroides de alta potência, análogo da vitamina D e queratolíticos como o ácido salicílico a 5% — com uso contínuo por três meses. O terceiro é a psoríase que acomete outras áreas especiais, como genitália, rosto, couro cabeludo e dobras, resistentes a medicamentos tópicos e à fototerapia com uso contínuo por três meses.

Um paciente com 4% de superfície corporal, PASI 6 e DLQI 9 é leve pelos três escores e é moderado a grave pelo protocolo se tiver onicólise em três unhas, ou se as lesões palmoplantares já resistiram a três meses de tópico. As vinhetas mais comuns de terapia sistêmica usam o caminho fácil, com superfície corporal de 25%; a que separa candidatos é a do paciente de doença pequena e sítio ruim.

Vale notar quem fica de fora: os critérios de exclusão retiram do protocolo quem tem diagnóstico de artrite psoriásica, porque essa condição tem protocolo próprio do Ministério da Saúde. O paciente com pele e articulação acometidas não deixa de ser tratado — ele muda de documento normativo.

A segunda régua: quem dispensa o que, e por que o clobetasol não sai na unidade básica

O protocolo da psoríase não define financiamento. Ele encerra a seção de regulação mandando verificar, na Relação Nacional de Medicamentos Essenciais vigente, em qual componente da Assistência Farmacêutica cada medicamento preconizado se encontra. Quem responde essa pergunta é a RENAME, e a resposta é contraintuitiva.

Na RENAME 2024, o propionato de clobetasol 0,5 mg/g creme e a solução capilar estão no Componente Especializado. O calcipotriol 50 mcg/g pomada, também. A acitretina 10 e 25 mg cápsula, a ciclosporina, o metotrexato, o etanercepte, o adalimumabe, o secuquinumabe, o ustequinumabe e o risanquizumabe, igualmente. Já a dexametasona 1 mg/g creme dermatológico está no Componente Básico, e no Básico também estão o alcatrão mineral, o ácido salicílico e o cetoconazol xampu.

Repare no que isso significa. O protocolo trata a psoríase leve com tópicos, e escolhe o clobetasol como o corticoide de uso amplo justamente por ser de potência muito alta, reservando a dexametasona, de potência média, para as regiões em que o clobetasol arriscaria atrofia e telangiectasia — face, áreas flexurais e genitais. A escada clínica sobe da dexametasona para o clobetasol. A escada de dispensação corre no sentido contrário: o degrau clínico de baixo é o que está no Componente Básico, e o degrau de cima já é do Componente Especializado.

A consequência é que o paciente de psoríase leve, tratado só com tópico, já entra na via do Componente Especializado para obter clobetasol e calcipotriol gratuitamente. Isso implica laudo de solicitação, receita com posologia, termo de esclarecimento e responsabilidade, exames de acompanhamento e renovação periódica — a mesma engrenagem administrativa de quem usa biológico, para um paciente que a régua clínica chama de leve. É por isso que os critérios de inclusão do protocolo incluem explicitamente a doença leve: sem estar incluído no protocolo, não há como dispensar o tópico.

O escalonamento sistêmico também é determinado, e não fica ao gosto do prescritor. Depois de falha, toxicidade ou contraindicação à terapia padrão — metotrexato, acitretina e ciclosporina —, o adalimumabe é a primeira etapa de segunda linha; secuquinumabe, ustequinumabe ou risanquizumabe vêm na etapa seguinte, após falha, toxicidade ou contraindicação ao adalimumabe. Em paciente pediátrico de 6 a 18 anos, o etanercepte é que ocupa a primeira etapa de segunda linha, sendo o único biológico aprovado nessa faixa para psoríase em placas moderada a grave.

Quando parar, e as contraindicações que a prova gosta

Os tratamentos sistêmicos e a fototerapia são usados até melhora clínica completa ou parcial, e o protocolo define a melhora parcial em números: escore PASI 75 a 90, ou DLQI igual ou inferior a 5. Depois disso a dose é reduzida paulatinamente e mantida na menor dose necessária, com o tópico reinstituído seguindo o mesmo escalonamento. O conceito de suspender tudo após a remissão e só reiniciar na recidiva vem sendo abandonado, porque a psoríase é hoje entendida como doença inflamatória crônica multissistêmica e esses pacientes morrem mais, principalmente por causas cardiovasculares.

O Quadro 3 do protocolo lista as contraindicações absolutas e algumas delas são material clássico de prova. A acitretina é contraindicada em gestação, lactação e concepção, em insuficiência hepática ou renal graves, em hipertrigliceridemia grave com triglicerídeos acima de 800 mg/dL e em etilismo. O metotrexato é contraindicado em gestação, lactação e concepção, para homens e mulheres, além de insuficiência hepática e renal graves, síndromes de imunodeficiência e discrasias sanguíneas. A ciclosporina tem uma contraindicação absoluta de uma linha só e fácil de esquecer: tratamento com fototerapia UVB e PUVA. Adalimumabe e etanercepte são contraindicados em insuficiência cardíaca congestiva classes III e IV, tuberculose ativa e infecções ativas.

Há ainda os prazos de contracepção depois de biológico, que o protocolo fixa: gravidez deve ser descartada e a contracepção eficaz mantida até 5 meses após a interrupção do adalimumabe e até 15 semanas após a interrupção do ustequinumabe. E há a advertência sobre corticoide tópico que vale para as duas doenças deste capítulo: apesar de seguros nos estudos, o uso prolongado carrega risco de rebote na retirada, atrofia cutânea e taquifilaxia, e por isso o protocolo preconiza períodos restritos, de 15 a 60 dias conforme o tipo de pele, poupando pele fina — pescoço, região inguinal, axilas, região inframamária, fossa cubital e poplítea.

A dermatite atópica do adulto: o diagnóstico é por critérios, não por impressão

O protocolo brasileiro da dermatite atópica não define a doença por descrição narrativa. Ele adota dois instrumentos e inclui no protocolo quem preencher um deles: os critérios clássicos de Hanifin e Rajka, com três ou mais critérios maiores e três ou mais critérios menores, ou os critérios do grupo de trabalho do Reino Unido, que exigem prurido nos últimos doze meses associado a três ou mais critérios.

Os quatro critérios maiores de Hanifin e Rajka são prurido; morfologia e distribuição típicas — liquenificação ou linearidade de superfícies flexoras no adulto, envolvimento de face ou de superfícies extensoras em bebês e crianças; dermatite crônica ou cronicamente recidivante; e história pessoal ou familiar de atopia. Os menores são uma lista longa, e vale reconhecer os que caem: xerose, hiperlinearidade palmar, elevação de imunoglobulina E sérica, início precoce, tendência a infecções cutâneas por Staphylococcus aureus e herpes-vírus simples, eczema do mamilo, queilite, conjuntivite recorrente, dobra infraorbitária de Dennie-Morgan, escurecimento orbitário, pitiríase alba, dobra cervical anterior e prurido ao suar.

A gravidade tem instrumentos próprios, e nenhum deles é o PASI. O Quadro 5 do protocolo lista o EASI, com faixas de limpo (0), quase limpo (0,1 a 1,0), leve (1,1 a 7), moderada (7,1 a 21), grave (21,1 a 50) e muito grave (50,1 a 72); o SCORAD, com limpo (0 a 9,9), leve (10 a 28,9), moderada (29 a 48,9) e grave (49 a 103); e o POEM, respondido pelo paciente, com limpo ou quase limpo (0 a 2), leve (3 a 7), moderada (8 a 16), grave (17 a 24) e muito grave (25 a 28). Há ainda o PO-SCORAD, o vIGA-AD e o IGA, este último sem validação registrada no quadro.

As faixas do quadro da dermatite atópica são internamente consistentes e vale conferir por que. O EASI se constrói como o PASI — quatro regiões ponderadas por superfície, extensão de 0 a 6 —, mas com quatro itens de gravidade pontuados de 0 a 3 em vez de três itens de 0 a 4; nos dois casos a gravidade máxima da região é 12, os pesos somam 1 e o teto do índice é 72. O SCORAD soma a extensão dividida por 5, mais sete meios da intensidade, mais os sintomas subjetivos: 20 + 63 + 20 = 103, exatamente o teto da faixa de doença grave. O POEM tem sete itens de 0 a 4, teto 28. E as faixas de cada escala encaixam sem sobreposição e sem lacuna, com passo de 0,1 no EASI e no SCORAD e passo inteiro no POEM.

Onde isso vira decisão: para prescrever ciclosporina no protocolo da dermatite atópica, não basta o diagnóstico. O paciente precisa apresentar doença moderada a grave evidenciada por uma das escalas de gravidade. O diagnóstico abre o protocolo; a escala abre o sistêmico.

As duas na mesma vinheta: o que separa placa de eczema no adulto

Quando o enunciado descreve um adulto com lesões eritemato-descamativas crônicas, o discriminador mais confiável não é a topografia isolada, e sim o conjunto de três coisas: limite, escama e sintoma. A placa psoriásica é bem delimitada, com escama branco-prateada espessa e aderente, e o prurido é discreto ou ausente. A lesão eczematosa é mal delimitada, com descamação fina sobre pele xerótica, escoriações, liquenificação, e o prurido é o sintoma dominante, a ponto de atrapalhar o sono.

A topografia ajuda como segundo critério e costuma ser oposta: a psoríase prefere superfícies extensoras — cotovelos, joelhos —, além de couro cabeludo e região sacra; a dermatite atópica do adulto prefere as flexuras, além de mãos, pescoço e face. A exceção que a prova gosta é a psoríase invertida, que ocupa dobras e ali perde a escama por causa da umidade, ficando eritematosa e brilhante, o que a aproxima do eczema e das micoses.

Os sinais de manobra fecham a discussão quando presentes: Auspitz e curetagem de Brocq positivos são da psoríase, e não há equivalente no eczema. As unhas também: pitting, onicólise e onicodistrofia apontam psoríase e, como visto, mudam a classificação de gravidade. Já a história familiar e pessoal de atopia, com asma e rinite, e a elevação de imunoglobulina E puxam para dermatite atópica.

Por fim, o instrumento citado no enunciado é uma pista sobre o que a banca quer. PASI, superfície corporal e DLQI compõem a régua da psoríase. EASI, SCORAD e POEM compõem a régua da dermatite atópica. O instrumento errado colado à doença certa é um distrator que as bancas usam de propósito, e ele aparece também fora deste par: em vinheta de necrólise epidérmica tóxica, o índice PASI é oferecido como alternativa enquanto a resposta é o escore prognóstico específico daquela farmacodermia.

04

Classificar antes de tratar, e saber qual régua responde a pergunta

Na psoríase a conduta terapêutica de abertura quase nunca separa as alternativas: hidratar, corticoide tópico e análogo da vitamina D estão em todas as listas. O que separa é a classificação de gravidade que o enunciado pede implicitamente, e a régua a que a pergunta pertence. Cada pergunta tem dono.

  1. 11. O enunciado é de psoríase ou de eczema? Limite nítido, escama prateada aderente e prurido discreto puxam para psoríase; limite indistinto, xerose, escoriação e prurido dominante puxam para dermatite atópica. Instrumento citado confirma: PASI, superfície corporal e DLQI são da psoríase; EASI, SCORAD e POEM são da dermatite atópica.
  2. 22. Se é psoríase, algum dos três escores passa de 10? Basta um. PASI acima de 10, ou superfície corporal acima de 10%, ou DLQI acima de 10 já classifica como moderada a grave. Só é leve quando os três estão em 10 ou menos.
  3. 33. Se os três estão em 10 ou menos, ainda falta checar os sítios especiais: onicólise ou onicodistrofia em ao menos duas unhas; palmoplantar resistente a três meses de tópico padrão; genitália, rosto, couro cabeludo ou dobras resistentes a três meses de tópico e fototerapia. Qualquer um deles promove o paciente a moderada a grave sem olhar extensão.
  4. 44. Há artrite psoriásica diagnosticada? Então o paciente sai deste protocolo e entra no protocolo próprio da artrite psoriásica.
  5. 55. É forma pustulosa generalizada ou eritrodérmica? A acitretina é o sistêmico em que o protocolo registra primeira linha para essas formas, e a ciclosporina pode ser associada pela rapidez de ação, retirada depois que a remissão for atingida.
  6. 66. Precisa de sistêmico? A ordem é fixa: terapia padrão (metotrexato, acitretina, ciclosporina); depois adalimumabe, primeira etapa de segunda linha, ou etanercepte em paciente de 6 a 18 anos; depois secuquinumabe, ustequinumabe ou risanquizumabe.
  7. 77. A pergunta é sobre acesso, dispensação, laudo, renovação ou componente da assistência farmacêutica? Então a régua não é o protocolo clínico, é a RENAME: clobetasol, calcipotriol, acitretina, ciclosporina, metotrexato e todos os biológicos no Componente Especializado; dexametasona creme, ácido salicílico, alcatrão e cetoconazol xampu no Componente Básico.
  8. 88. A pergunta é sobre quando parar? Melhora parcial é PASI 75 a 90 ou DLQI igual ou inferior a 5, seguida de redução paulatina até a menor dose eficaz — não de suspensão.

Régua clínica da psoríase

Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Psoríase, Portaria Conjunta nº 18, de 14 de outubro de 2021. Define formas clínicas, fatores desencadeantes, PASI (Quadros 1 e 2), critérios de inclusão por PASI, superfície corporal e DLQI com limiar 10, critérios de sítio especial, contraindicações absolutas (Quadro 3), escalonamento sistêmico e critérios de interrupção. Exclui quem tem artrite psoriásica, que tem protocolo próprio.

Régua de financiamento

Relação Nacional de Medicamentos Essenciais 2024. É o documento que o próprio protocolo manda consultar para saber o componente de cada medicamento. Clobetasol creme e solução capilar, calcipotriol pomada, acitretina, ciclosporina, metotrexato, etanercepte, adalimumabe, secuquinumabe, ustequinumabe e risanquizumabe estão no Componente Especializado. Dexametasona creme dermatológico, alcatrão mineral, ácido salicílico e cetoconazol xampu estão no Componente Básico.

Régua clínica da dermatite atópica

Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Dermatite Atópica, Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 34, de 20 de dezembro de 2023. Diagnóstico por Hanifin e Rajka (três ou mais maiores e três ou mais menores) ou pelos critérios do Reino Unido (prurido em doze meses mais três ou mais critérios). Gravidade por EASI, SCORAD, POEM, PO-SCORAD, vIGA-AD ou IGA. Ciclosporina exige doença moderada a grave demonstrada por uma dessas escalas.

Régua histórica do índice

Fredriksson e Pettersson, 1978, artigo em que o PASI foi descrito e que o Quadro 2 do protocolo brasileiro cita como fonte. Fixa os pesos regionais pela fração de superfície corporal: cabeça 0,1, membros superiores 0,2, tronco 0,3, membros inferiores 0,4. É a referência que resolve a inversão impressa no quadro.

PASI — como cada região é pontuada (Quadro 1 do protocolo)

Extensão da regiãoFaixa impressa no protocoloFaixa disjunta equivalenteÍndice de gravidade (eritema + infiltração + descamação)
0ausente0%cada parâmetro: 0 ausente
1abaixo de 10%1% a 9%cada parâmetro: 1 leve
210%-30%10% a 29%cada parâmetro: 2 moderado
330%-50%30% a 49%cada parâmetro: 3 intenso
450%-70%50% a 69%cada parâmetro: 4 muito intenso
570%-90%70% a 89%soma dos três: 0 a 12
6acima de 90%90% a 100%

PASI — pesos regionais: o que o quadro imprime e o que o índice define

RegiãoFração da superfície corporal (regra dos nove)Peso no Quadro 2 do protocoloPeso no PASI original (1978)
Cabeça e pescoçocerca de 9%0,10,1
Membros superiorescerca de 18%0,30,2
Troncocerca de 36%0,20,3
Membros inferiorescerca de 36%0,40,4
Soma100%1,0 (máximo 72)1,0 (máximo 72)

Psoríase — o que classifica como moderada a grave (basta um critério)

CritérioDefinição no protocoloDepende de extensão?
PASIsuperior a 10sim
Superfície corporalsuperior a 10%sim
DLQIsuperior a 10não, mede qualidade de vida
Aparelho unguealonicólise ou onicodistrofia em ao menos duas unhasnão
Palmo-plantarresistente a corticoide de alta potência, análogo da vitamina D e ácido salicílico a 5% por três meses contínuosnão
Outras áreas especiaisgenitália, rosto, couro cabeludo e dobras resistentes a tópicos e fototerapia por três meses contínuosnão

Componente da Assistência Farmacêutica (RENAME 2024) — a escada que corre ao contrário

MedicamentoApresentaçãoComponenteDegrau clínico no protocolo
Dexametasona creme dermatológico1 mg/g (0,1%)Básicocorticoide de média potência, para face, flexuras e genitais
Ácido salicílico50 mg/g (5%) pomadaBásicoqueratolítico nas lesões hiperceratóticas
Alcatrão mineral10 mg/g (1%) pomadaBásicouso diário nas lesões
Propionato de clobetasol0,5 mg/g creme e solução capilarEspecializadocorticoide de muito alta potência, primeira linha da doença leve
Calcipotriol50 mcg/g (0,005%) pomadaEspecializadoanálogo da vitamina D, associado ao corticoide
Acitretina10 e 25 mg cápsulaEspecializadoterapia padrão; primeira linha na pustulosa e na eritrodérmica
Adalimumabe40 mg solução injetávelEspecializadoprimeira etapa de segunda linha
Secuquinumabe, ustequinumabe, risanquizumabeinjetáveisEspecializadosegunda etapa de segunda linha

Dermatite atópica — escalas de gravidade e seus tetos (Quadro 5 do protocolo)

EscalaQuem respondeFaixasTeto e como se chega nele
EASIavaliadorlimpo 0; quase limpo 0,1-1,0; leve 1,1-7; moderada 7,1-21; grave 21,1-50; muito grave 50,1-7272 = extensão 6 × (4 itens de 0 a 3) × soma dos pesos 1
SCORADavaliador, com parte subjetiva do pacientelimpo 0-9,9; leve 10-28,9; moderada 29-48,9; grave 49-103103 = extensão/5 (20) + 7 × intensidade/2 (63) + subjetivo (20)
POEMpaciente ou cuidadorlimpo ou quase limpo 0-2; leve 3-7; moderada 8-16; grave 17-24; muito grave 25-2828 = 7 itens × 4
PO-SCORADpaciente ou cuidadormesmas faixas do SCORAD103
vIGA-ADavaliador treinadolimpo 0; quase limpo 1; leve 2; moderada 3; grave 44, avaliação global validada
IGAavaliador treinadolimpo 0; quase limpo 1; leve 2; moderada 3; grave 44, sem validação registrada no quadro

O limiar 10 vale para os três instrumentos da psoríase, mas a leitura correta é assimétrica: basta um acima de 10 para ser moderada a grave, logo a doença só é leve quando os três estão em 10 ou menos. Enunciado que entrega os três números está pedindo o maior deles.

O DLQI é o único dos três que pode classificar como grave um paciente de pele quase limpa, porque mede impacto e não extensão. Dez itens de 0 a 3, total de 0 a 30, e redução de 5 pontos já é ganho clinicamente significativo.

Os critérios de sítio especial exigem tempo documentado: três meses contínuos de tópico padrão na forma palmo-plantar, e três meses contínuos de tópico e fototerapia nas outras áreas especiais. Enunciado que diz apenas 'não melhorou' sem prazo não fechou o critério.

A questão de acesso e a questão clínica podem apontar para lados diferentes na mesma vinheta. Clinicamente o tópico é conduta de atenção primária; administrativamente, clobetasol e calcipotriol exigem a via do Componente Especializado, com laudo, termo de esclarecimento e responsabilidade, exames e renovação periódica.

O corticosteroide sistêmico está na lista de fármacos que desencadeiam ou pioram a psoríase, junto de bloqueadores adrenérgicos, antimaláricos, lítio, inibidores da enzima conversora de angiotensina, sais de ouro, interferona alfa e anti-inflamatórios não esteroidais. Ele é distrator recorrente em vinheta de doença extensa.

A ciclosporina tem contraindicação absoluta ao tratamento com fototerapia UVB e PUVA. É a contraindicação mais curta do Quadro 3 e a mais esquecida.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Qual é o limiar de superfície corporal da psoríase leve

Critérios de inclusão do protocolo (seção 4)

Doença leve é definida por PASI igual ou inferior a 10, acometimento igual ou inferior a 10% da superfície corporal, ou DLQI igual ou inferior a 10. O corte é 10% e é o mesmo número dos outros dois instrumentos.

Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Psoríase, Portaria Conjunta nº 18/2021, seção 4 — Critérios de inclusão.

Seção de tratamento do mesmo protocolo (seção 7.1)

A maioria dos pacientes com psoríase tem doença limitada, com menos de 5% da superfície corporal, podendo ser tratada com fármacos de uso tópico que oferecem alto padrão de segurança e eficácia. O corte citado aqui é 5%.

Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Psoríase, Portaria Conjunta nº 18/2021, seção 7.1 — Psoríase leve.

Na prova

O mesmo documento usa dois números para a mesma classe, em seções diferentes, e os dois circulam nas provas. A pista está no verbo do enunciado: quando a pergunta é de classificação, elegibilidade, inclusão no protocolo ou indicação de sistêmico, a régua é a seção de critérios de inclusão e o número é 10%. Quando a pergunta é descritiva, do tipo 'a maioria dos pacientes' ou 'doença limitada tratável com tópico', o número que aparece é 5%. Enunciado com superfície corporal entre 5% e 10% e pergunta sobre conduta é justamente o que explora a fresta — e nele os outros dois instrumentos, PASI e DLQI, é que decidem.

Quanto pesa o tronco no cálculo do PASI

Quadro 2 do protocolo brasileiro

A tabela de cálculo atribui cabeça 0,1, tronco 0,2, membros superiores 0,3 e membros inferiores 0,4, com nota de rodapé dizendo que os valores representam a porcentagem da superfície corporal de cada região.

Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Psoríase, Portaria Conjunta nº 18/2021, Quadro 2 — Cálculo do Psoriasis Area and Severity Index.

Descrição original do índice, citada como fonte do próprio quadro

Os pesos são a fração de superfície corporal de cada região: cabeça 0,1, membros superiores 0,2, tronco 0,3 e membros inferiores 0,4. Isso coincide com a regra dos nove, em que o tronco vale cerca de 36% e os membros superiores cerca de 18%.

Fredriksson T, Pettersson U. Dermatologica. 1978;157(4):238-44, referência citada no rodapé do Quadro 2.

Na prova

Questão que apenas pede o valor máximo do PASI não distingue as duas versões, porque os quatro pesos somam 1 nas duas e o teto é 72 nas duas. A distinção só aparece em enunciado com doença concentrada em uma região: se as lesões estão no tronco, o peso a usar é o maior entre tronco e membros superiores, e é assim que a literatura e o índice original operam. Se a questão citar explicitamente o quadro do protocolo brasileiro, ela está cobrando a leitura do documento, e aí o que se espera é reproduzir a tabela como impressa — reconhecer qual dos dois recortes a banca fez é o que resolve.

Onde o paciente de psoríase leve retira o corticoide tópico

Régua clínica

A psoríase leve é doença de manejo ambulatorial e de atenção primária, tratada com emolientes, corticoide tópico e análogo da vitamina D, com o clobetasol como corticoide de uso amplo e a dexametasona reservada para face, flexuras e genitais.

Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Psoríase, Portaria Conjunta nº 18/2021, seção 7 — Tratamento tópico.

Régua de financiamento

Na lista nacional, o propionato de clobetasol creme e solução capilar e o calcipotriol pomada estão no Componente Especializado da Assistência Farmacêutica; a dexametasona creme dermatológico está no Componente Básico. O paciente de doença leve, tratado só com tópico, precisa da via do Componente Especializado para obter os dois primeiros.

Relação Nacional de Medicamentos Essenciais 2024, listas do Componente Básico e do Componente Especializado.

Na prova

O enunciado avisa qual régua quer pelo vocabulário. Palavras como laudo, autorização, componente, dispensação, renovação, termo de esclarecimento e responsabilidade ou serviço de referência pertencem à régua de financiamento, e a resposta esperada é o Componente Especializado mesmo em doença leve. Palavras como primeira linha, potência, área poupada, tempo de uso e efeito adverso pertencem à régua clínica, e aí a resposta é a escada terapêutica. A pegadinha é a vinheta de doença leve com pergunta administrativa, porque a intuição do aluno associa doença leve a farmácia básica.

06

Caso resolvido

Dois homens de 38 anos chegam ao mesmo ambulatório de dermatologia na mesma manhã, encaminhados pela unidade básica. Os dois têm psoríase em placas há cerca de cinco anos, os dois usaram corticoide tópico de forma irregular, e os dois têm exatamente o mesmo grau de intensidade das lesões ao exame: eritema intenso, infiltração intensa e descamação moderada, o que dá índice de gravidade 8. Os dois têm entre 70% e 90% da região acometida, o que dá extensão 5. A diferença é a topografia: o primeiro tem as lesões restritas ao tronco, poupando cabeça e membros; o segundo tem as lesões restritas aos membros superiores, poupando o resto. Nenhum dos dois tem acometimento ungueal, artrite, lesão palmoplantar ou de área especial, e ambos relatam DLQI 7.
Passo 1 — montar o cálculo antes de discutir o peso
Nos dois pacientes a doença está em uma região só, então o PASI é o produto de três números: o peso da região, a extensão e o índice de gravidade. Extensão 5 e índice de gravidade 8 dão 40 nos dois casos. O que resta é multiplicar por um peso, e é ali que o valor do índice se decide. Convém separar desde já o que o PASI responde do que ele não responde: o índice de qualidade de vida é 7 nos dois, abaixo do limiar, e não classifica ninguém; a superfície corporal, essa sim, já é informação suficiente por si — o tronco representa cerca de 36% do corpo e os membros superiores cerca de 18%, e com 70% a 90% da região acometida os dois pacientes ultrapassam 10% de superfície corporal total. O exercício do PASI aqui serve para entender o instrumento, e a última etapa mostra o que acontece quando os instrumentos discordam.
Passo 2 — aplicar o peso do índice original
Pelo peso do índice original, o tronco vale 0,3 e os membros superiores valem 0,2. O primeiro paciente fica com 0,3 × 40 = 12,0, acima do limiar de 10. O segundo fica com 0,2 × 40 = 8,0, abaixo do limiar. A mesma intensidade e a mesma extensão relativa produzem escores diferentes, e isso é o índice funcionando como projetado: o tronco é o dobro dos braços em superfície, então a mesma doença nele pesa mais.
Passo 3 — ver o que aconteceria com o quadro impresso
Se os pesos usados fossem os do Quadro 2 do protocolo, com tronco 0,2 e membros superiores 0,3, os dois resultados trocariam de lugar: o paciente do tronco cairia para 8,0 e o dos braços subiria para 12,0. É esse par de valores, 8,0 e 12,0, que ilustra por que a inversão importa: os dois números caem em lados opostos do limiar que abre a terapia sistêmica no protocolo.
Passo 4 — a conta que confere e não resolve
Um aluno cuidadoso poderia tentar validar a tabela somando os pesos e checando o teto. Os quatro pesos somam 1,0 nas duas versões, e o máximo do índice, extensão 6 vezes gravidade 12 vezes soma 1, dá 72 nas duas. A verificação passa e não distingue nada, porque trocar dois valores de posição não altera nem a soma nem o produto máximo. Serve como lembrete de método: uma conta que fecha valida a estrutura, não a atribuição.
Passo 5 — o que fazer com o segundo paciente
O paciente cujo PASI fica em 8,0 não sai do protocolo. Ele continua com superfície corporal acima de 10%, o que já basta para classificá-lo como moderado a grave pelos critérios de inclusão, já que a lista exige apenas um dos critérios. Este é o mesmo mecanismo da fresta descrita antes, agora funcionando a favor do paciente: quando os instrumentos discordam, o que decide é o que estourou o limiar, não o que ficou abaixo dele.
07

Agora feche você

Uma mulher de 46 anos, professora, chega ao ambulatório com psoríase em placas diagnosticada há três anos. Ao exame, as placas estão em cotovelos e região sacra e somam cerca de 4% da superfície corporal. O PASI calculado é 6 e ela responde ao questionário de qualidade de vida com escore 9. Ela usa clobetasol creme e calcipotriol pomada de forma contínua e comprovada há quatro meses, prescritos na unidade básica, e refere que as placas dos cotovelos melhoraram bastante. O que não melhorou foram as lesões das palmas, que fissuram, sangram e a impedem de escrever no quadro. Ao exame ungueal há onicólise distal em três unhas das mãos. Não há dor nem edema articular, e o exame das articulações é normal. Ela pergunta duas coisas: se o caso dela é leve, e por que ela precisou levar tantos papéis à farmácia para pegar os dois tubos.
Pista 1
Os três instrumentos numéricos estão todos em 10 ou menos: PASI 6, superfície corporal 4% e índice de qualidade de vida 9. Se a classificação parasse nos escores, a resposta seria doença leve, e o único caminho seria continuar com tópico.
Pista 2
A lista de critérios da doença moderada a grave não termina nos escores. Ela inclui o acometimento extenso do aparelho ungueal, definido como onicólise ou onicodistrofia em ao menos duas unhas, e a forma palmo-plantar resistente a tratamentos tópicos de uso padrão — corticoide de alta potência, análogo da vitamina D e queratolítico — com uso contínuo por três meses.
Pista 3
A paciente tem onicólise em três unhas, portanto acima do mínimo de duas. E tem lesão palmoplantar sem resposta após quatro meses de clobetasol e calcipotriol de uso contínuo e comprovado, portanto acima do mínimo de três meses. Os critérios exigem número de unhas e tempo documentado, e os dois estão cumpridos.
Pista 4
O exame articular normal importa para a segunda metade da pergunta. Se houvesse artrite psoriásica diagnosticada, o critério de exclusão a tiraria deste protocolo e a mandaria para o protocolo específico da artrite psoriásica, que é outro documento.
Pista 5
Sobre os papéis: os dois medicamentos que ela já vinha usando não são do Componente Básico. Na lista nacional, o propionato de clobetasol creme e o calcipotriol pomada estão no Componente Especializado, ao lado da acitretina, da ciclosporina, do metotrexato e dos biológicos. A dexametasona creme dermatológico é que está no Básico.
08

Onde a banca derruba

  1. 1Concluir que a doença é leve porque o PASI ficou abaixo de 10 Os critérios de inclusão exigem apenas um dos itens de cada lista, e a leitura consistente é assimétrica: basta um dos três instrumentos acima de 10 para a doença ser moderada a grave. Um PASI 4 acompanhado de superfície corporal de 25% classifica como moderada a grave. Enunciado que entrega os três números está pedindo o maior deles, não a média nem o instrumento preferido do aluno.
  2. 2Parar a classificação nos escores e ignorar os sítios especiais Três critérios da lista de doença moderada a grave não dependem de extensão nenhuma: onicólise ou onicodistrofia em ao menos duas unhas; forma palmo-plantar resistente a três meses contínuos de tópico padrão; e áreas especiais como genitália, rosto, couro cabeludo e dobras resistentes a três meses de tópico e fototerapia. O paciente de 4% de superfície corporal com unha acometida é candidato a sistêmico.
  3. 3Prescrever corticosteroide sistêmico para a psoríase extensa O corticosteroide sistêmico está na própria lista de fatores desencadeantes do protocolo, ao lado de bloqueadores adrenérgicos, antimaláricos, lítio, inibidores da enzima conversora de angiotensina, sais de ouro, interferona alfa e anti-inflamatórios não esteroidais. Aparece como distrator em vinhetas de doença refratária justamente porque parece a conduta intuitiva para uma dermatose inflamatória extensa.
  4. 4Suspender automaticamente o betabloqueador ou o lítio do paciente O protocolo manda discutir o caso de forma multidisciplinar, com vistas à troca de classe farmacêutica para o tratamento da doença de base, e diz explicitamente que, se a suspensão não for possível, o paciente ainda assim pode ser incluído no protocolo conforme os critérios de inclusão. A conduta esperada é discutir alternativa, não retirar o anti-hipertensivo ou o estabilizador de humor por conta própria.
  5. 5Usar o PASI na dermatite atópica ou o SCORAD na psoríase PASI, superfície corporal e DLQI compõem a régua da psoríase; EASI, SCORAD, POEM, PO-SCORAD e vIGA-AD compõem a da dermatite atópica. Instrumento errado colado à doença certa é distrator deliberado: em vinheta de necrólise epidérmica tóxica, por exemplo, o índice PASI costuma aparecer entre as alternativas erradas, sendo o escore próprio daquele quadro o esperado. Antes de escolher a escala, confirme de qual das duas doenças o enunciado está falando.
  6. 6Achar que o EASI e o PASI são o mesmo índice com outro nome Os dois usam quatro regiões, os mesmos pesos e extensão de 0 a 6, e os dois têm teto 72, mas chegam lá por caminhos diferentes: o PASI soma três parâmetros de 0 a 4 — eritema, infiltração e descamação —, enquanto o EASI soma quatro parâmetros de 0 a 3. Em ambos a gravidade máxima por região é 12. Coincidência de teto não é identidade de construção.
  7. 7Associar ciclosporina a fototerapia O Quadro 3 do protocolo lista, como contraindicação absoluta da ciclosporina, o tratamento com fototerapia UVB e PUVA. É a linha mais curta da tabela de contraindicações e a mais esquecida, e a combinação parece atraente em paciente grave justamente porque ambas as modalidades são efetivas isoladamente.
  8. 8Tratar a psoríase pustulosa generalizada e a eritrodérmica como caso ambulatorial comum São as formas em que a acitretina é registrada como primeira linha no protocolo, e em que a ciclosporina pode ser associada pela rapidez de ação, sendo retirada depois da remissão e mantendo-se apenas a acitretina. As duas formas aparecem pouco nas provas, o que faz delas terreno favorável para a banca que quer separar candidatos.
  9. 9Supor que o tópico da psoríase leve sai na farmácia da unidade básica O clobetasol creme, a solução capilar de clobetasol e o calcipotriol pomada estão no Componente Especializado da lista nacional. No Componente Básico estão a dexametasona creme dermatológico, o ácido salicílico, o alcatrão mineral e o cetoconazol xampu. A escada de dispensação corre em sentido oposto à escada de potência, e o protocolo remete essa consulta à lista nacional em vez de resolvê-la.
  10. 10Diagnosticar dermatite atópica por impressão clínica quando o enunciado cita o protocolo O protocolo brasileiro inclui quem preencher um de dois instrumentos: Hanifin e Rajka, com três ou mais critérios maiores e três ou mais menores, ou os critérios do grupo de trabalho do Reino Unido, que exigem prurido nos últimos doze meses associado a três ou mais critérios. E a ciclosporina exige, além do diagnóstico, doença moderada a grave evidenciada por uma das escalas de gravidade.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

O sangramento puntiforme após remoção das escamas na psoríase é o sinal de Auspitz, decorrente da lesão dos capilares dilatados nas papilas dérmicas. O fenômeno de Koebner é o surgimento de lesões em locais de trauma. O sinal de Nikolsky (descolamento epidérmico) ocorre em doenças bolhosas como pênfigo/NET. O sinal de Darier é o surgimento de urticária ao friccionar lesão de mastocitose. As estrias de Wickham são retículo esbranquiçado do líquen plano, não um fenômeno isomórfico.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

Sorteando as questões…

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Plano de revisão

em 7 dias

Escreva de memória as seis maneiras de classificar uma psoríase como moderada a grave pelo protocolo brasileiro, separando as três que dependem de extensão das três que não dependem, e anote ao lado de cada uma o número exato que a define — o limiar dos escores, o mínimo de unhas e o tempo contínuo de tópico. Em seguida, monte o PASI de um paciente com lesões restritas ao tronco, extensão 5 e índice de gravidade 8, e diga em que lado do limiar ele cai. Por fim, liste os oito fármacos que o protocolo aponta como desencadeantes.

em 30 dias

Resolva cinco vinhetas curtas dizendo, antes de responder, qual régua governa a pergunta. Paciente com PASI 4, superfície corporal de 25% e índice de qualidade de vida 3, e a pergunta é sobre classificação. Paciente com 4% de superfície corporal e onicólise em três unhas, e a pergunta é sobre indicação de sistêmico. Paciente de psoríase leve que recebeu receita de clobetasol na unidade básica e pergunta onde retira o medicamento. Adulto com placas bem delimitadas de escama prateada nos cotovelos e prurido discreto contra adulto com lesões mal delimitadas nas flexuras, xerose e prurido que tira o sono, e a pergunta é o instrumento de gravidade adequado. Paciente em metotrexato há dezesseis semanas com redução de 80% no escore inicial, e a pergunta é se o tratamento deve ser suspenso. Depois, reconstrua os tetos do EASI, do SCORAD e do POEM a partir da fórmula de cada um e confira se batem com a última faixa de cada escala.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Um pedreiro de 34 anos chega ao ambulatório com placas avermelhadas e espessas, cobertas de escama esbranquiçada, que apareceram há oito meses nos cotovelos e depois nos joelhos, no couro cabeludo e na região lombar. Conta que piora no inverno e no estresse, melhora no sol, e que há dois meses um dedo da mão amanheceu inchado e dolorido. Conduza a consulta: caracterize as lesões dizendo em voz alta limite, escama e distribuição, faça a curetagem metódica e descreva o que aparece, examine unhas, couro cabeludo e região retroauricular, e some a extensão do que está acometido na superfície corporal. Pergunte o que a doença tira do sono, do trabalho e da vida social, levante a lista de medicamentos em uso, e então decida: qual degrau de tratamento esse paciente ocupa e por qual critério ele foi atingido, e o que aquele dedo inchado muda no caminho dele dentro do serviço. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Psoríase e dermatite atópica — Preparatório para provas | OsceLabs