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Causas externas na infância

Acidentes na infância: prevenção, afogamento, queimadura e intoxicação exógena

Afogamento, queimadura, intoxicação e engasgo não têm mecanismo em comum — têm prevenção com idade-alvo e uma conduta inicial que a prova cobra de cor. O gradiente etário resolve as questões de prevenção; a classificação brasileira em seis graus resolve o afogamento; e a lista de antídotos rende ponto pelo que se deixa de fazer.

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Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Um menino de 4 anos é resgatado por familiares após submersão em piscina de uso doméstico. Foi retirado da água em menos de 2 minutos, tossindo, e levado imediatamente à Unidade de Saúde da Família. Na chegada, cerca de 40 minutos após o evento, encontra-se alerta, sem tosse no momento, eupneico, com frequência respiratória de 24 irpm, ausculta pulmonar limpa, saturação de oxigênio em ar ambiente de 98% e sem qualquer sinal de desconforto respiratório. Os pais estão ansiosos e desejam ir embora. Qual é a conduta mais adequada para este paciente?

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Como esse tema cai

Causas externas passam a ser a principal causa de morte da criança brasileira a partir do primeiro ano de vida, e é isso que faz o tema render questão: o candidato que decorou mortalidade infantil por causa perinatal e infecciosa encontra, do segundo ano em diante, um quadro epidemiológico inteiro governado por afogamento, trânsito, sufocação, queimadura e intoxicação. Este capítulo trata dos quatro assuntos que a prova junta sob esse guarda-chuva, e o que os une não é o mecanismo — é que todos têm prevenção com idade-alvo e todos têm uma conduta inicial padronizada que o enunciado testa.

A primeira metade do capítulo é epidemiologia aplicada: qual mecanismo mata em cada faixa etária e o que se orienta na consulta de puericultura em cada uma delas. O gradiente é a chave, porque o que mata o lactente não é o que mata o escolar, e a orientação genérica de tomar cuidado não protege ninguém. A segunda metade é conduta: a classificação brasileira de afogamento em seis graus, que é de autor nacional e cai com nome e sobrenome; a queimadura da criança, que difere da do adulto na conta da superfície e no limiar de reposição; e a intoxicação exógena, com a abordagem geral e a lista de agentes que a questão cobra pelo antídoto nomeado.

Três recortes ficam de fora porque têm capítulo próprio nesta coleção, e são remetidos aqui em uma linha cada. A extensão e a profundidade da queimadura, a regra dos nove, o diagrama de Lund-Browder, a fórmula de Parkland e os critérios de encaminhamento a centro de tratamento de queimados estão nos dois capítulos de Queimados. A parada cardiorrespiratória e o suporte avançado de vida estão no capítulo de PCR e suporte avançado. E a suspeita de violência — o que obriga a comunicar, para quem, em que prazo e o que custa a omissão — está no capítulo de Maus-tratos na infância, no início desta mesma apostila. Aqui a queimadura e a intoxicação entram como agravo em si, e a violência aparece só no ponto em que o próprio desenho da lesão levanta a suspeita.

O erro que mais derruba candidato neste tema é tratar prevenção como conselho e conduta como intuição. Prevenção, aqui, tem número: altura de cerca, vão entre grades, temperatura de aquecedor, lâmina de água, idade de bloqueio de cozinha. E conduta tem trava: no afogamento a sequência é ventilar primeiro, e duas manobras que o senso comum sugere estão formalmente proibidas; na intoxicação a maior parte do cuidado é suporte, o carvão ativado tem janela e contraindicação, e o antídoto mais lembrado pelo aluno — o flumazenil — é justamente o que a diretriz brasileira classifica como raramente indicado.

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O que muda decisão

A partir de 1 ano o mecanismo muda com a idade — e é essa a tabela que resolve prevenção

Como usar este capítulo: organize o tema por mecanismo. Em cada bloco, percorra prevenção por idade, estabilização inicial, conduta específica e providências após o atendimento. Afogamento, queimadura e intoxicação têm algoritmos próprios, mas todos começam pelo ABCDE.

O enunciado quase nunca pergunta qual a principal causa de morte na infância sem qualificar a faixa. Ele entrega uma idade e espera que o candidato saiba qual mecanismo domina ali, porque a exposição da criança é determinada pelo desenvolvimento motor, não pela intenção de quem cuida. O bebê que ainda não rola morre de asfixia no ambiente onde é colocado; o que já rola alcança tomada e fio; o que anda entra na cozinha; o que abre porta chega à piscina; o que sabe nadar entra em água natural com correnteza. A escada de exposição sobe junto com a escada de marcos.

O afogamento é o mecanismo que melhor mostra o gradiente, e a régua brasileira é explícita: segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria, o afogamento é a primeira causa de morte na faixa de 1 a 4 anos, a segunda entre 5 e 9 anos e a terceira entre 10 e 14 anos. Muda também o cenário: a criança menor de 9 anos se afoga mais em piscina e dentro de casa, e a partir dos 10 anos o afogamento migra para águas naturais — rios, represas e praias. Uma lâmina de 5 cm de líquido basta para afogar criança pequena, o que coloca balde, banheira, vaso sanitário e tanque na mesma lista de risco da piscina.

A intoxicação exógena tem pico ainda mais estreito. Os dados do Sinitox reunidos pela Sociedade Brasileira de Pediatria contam mais de 245 mil casos e 240 óbitos em pessoas de zero a 19 anos ao longo de 18 anos, entre 1999 e 2016 — o equivalente a 37 crianças e adolescentes por dia. Desse total, 130 mil casos, ou 53%, concentram-se na faixa de 1 a 4 anos. A letalidade global desse conjunto é de 0,098%, aproximadamente um óbito para cada mil casos: um agravo de altíssima frequência e baixa letalidade, o oposto do afogamento, e é por isso que a prova cobra prevenção em um e conduta no outro.

A queimadura é a quarta causa de morte e de hospitalização por acidente em crianças e adolescentes até 14 anos, segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria, e também tem agente típico por idade: abaixo dos 5 anos a escaldadura por líquido quente é a principal causa, e na adolescência entra a queimadura elétrica por alta tensão, tipicamente ao manusear pipa perto da rede. O álcool líquido atravessa todas as faixas como causador de queimadura grave, e a soda cáustica é o químico que mais aparece.

A aspiração de corpo estranho fecha o quadro no extremo mais novo: predomina entre 1 e 3 anos, com mais da metade das aspirações abaixo dos 4 anos e mais de 94% antes dos sete, porque a criança dessa idade ainda não tem molares para triturar sólido. Grão de milho, feijão e amendoim são os mais comuns no Brasil; balão de borracha e estruturas esféricas são os que se associam a óbito imediato por asfixia. Em uma linha, o que a prova cobra do engasgo: obstrução completa em maior de 1 ano se desobstrui com compressão abdominal, e em menor de 1 ano com cinco percussões dorsais alternadas com cinco compressões torácicas; corpo estranho visível na boca se retira, e varredura digital às cegas nunca se faz, porque empurra o objeto e lesa a via aérea. Se a obstrução evoluir para parada, o caminho é o do capítulo de PCR e suporte avançado de vida.

O que faz esse conjunto valer um capítulo é a moral que a Sociedade Brasileira de Pediatria escreve com todas as letras: a prevenção na infância é totalmente passiva. Cabe ao adulto conhecer o desenvolvimento da criança e retirar o risco do ambiente, sem esperar que ela aprenda com o erro ou com a dor, porque nos primeiros anos ela é incapaz de relacionar causa com efeito. Toda orientação que dependa de a criança lembrar de não fazer algo é orientação que já falhou no papel.

Escada de quatro degraus por faixa etária, do lactente ao adolescente, com os mecanismos de causa externa que predominam em cada uma: asfixia e tomada no primeiro ano; balde, medicamento e fogão de 1 a 4 anos; piscina, bicicleta e travessia de 5 a 9 anos; rio, pipa na rede elétrica e trânsito de 10 a 14 anos.
A exposição da criança acompanha o marco motor, não a intenção do cuidador. É por isso que a orientação de prevenção tem de ser refeita a cada consulta de puericultura, e não entregue uma vez.

Orientação antecipatória: prevenção com número, não com conselho

Orientação antecipatória é a parte da consulta de puericultura em que o pediatra antecipa o risco do próximo intervalo, e não o do intervalo que já passou. A diferença entre orientação útil e orientação decorativa está no grau de especificação: dizer que se deve cuidar da água quente não muda nada; dizer que o banho do bebê é dado com água entre 36 e 37 graus, que na banheira se coloca primeiro a água fria e depois a quente misturando bem, e que o aquecedor central fica regulado abaixo de 40 graus, muda. A Sociedade Brasileira de Pediatria escreve a orientação nesse nível, e é nesse nível que a questão cobra.

No primeiro semestre o risco é térmico e postural. A mamadeira nunca é aquecida no micro-ondas — o alimento é aquecido em outro recipiente, testado e só então transferido —, e a chupeta recém-fervida acumula água quente no interior, capaz de causar queimadura grave em cavidade oral. Não se prepara alimento, não se manuseia líquido quente e não se come com bebê ou criança no colo, porque a chance de a criança tentar alcançar o que o adulto leva à boca é integral. Nada de líquido quente em beirada de balcão ou sobre toalha que possa ser puxada.

A partir do quinto ao sexto mês o bebê vira, rola e engatinha, e nesse instante o mapa de riscos da casa se amplia para tudo que está no chão e ao alcance da mão: tomada sem proteção, fio desencapado e extensão elétrica saem do ambiente. Ferro de passar, aquecedor e fogareiro ficam fora do alcance e nunca no chão, mesmo desligados — se a criança se habitua a tocá-los frios, não distinguirá quando estiverem quentes.

Entre 1 e 4 anos a criança anda, abre e alcança, e é a faixa em que afogamento e intoxicação estão no pico. A cozinha é onde ocorre grande parte das queimaduras da infância, e a orientação é bloquear o acesso de menores de quatro anos com grade ou portão; cabos de panela sempre voltados para trás do fogão, e nada de líquido quente ou fritura nas bocas da frente. Medicamentos e produtos de limpeza vão para os locais mais altos, de preferência em armário com chave — e a dose de medicamento é medida com dispositivo padronizado, nunca com colher de casa. Agrotóxicos, pesticidas, ácidos e soda cáustica não são guardados em residência. Pilhas e baterias, sobretudo as de disco, ficam em local protegido, porque a ingestão é lesão cáustica e não é intoxicação sistêmica banal.

Ainda na mesma faixa, a prevenção do afogamento é a que tem os números mais duros. Balde e piscina inflável são esvaziados ou tampados depois do uso; a criança pequena não permanece sozinha na banheira em nenhum momento, e todos os itens do banho ficam à mão antes de começar, justamente para que ninguém precise sair do banheiro. Piscina residencial exige cerca com 1,5 m de altura, vão entre grades de no máximo 12 cm e portão com tranca — e, na régua da sobrasa, portão que abre para fora da área aquática, com fecho auto-travante. Brinquedo dentro da piscina é convite, e por isso sai da água quando o banho termina. Supervisão de criança pequena em ambiente aquático é à distância de um braço, mesmo havendo guarda-vidas.

Na idade escolar o risco muda de endereço: sai de dentro de casa e vai para a rua. Atropelamento, queda de árvore e de muro, tombo de bicicleta, skate e patins passam a dominar, e a orientação migra para equipamento de proteção, travessia e supervisão em atividade coletiva. Na adolescência entram três agravantes que a prova gosta de misturar na vinheta: água natural em vez de piscina, álcool, e superestimação da própria capacidade — 46,6% das pessoas que se afogam acham que sabem nadar. Colete salva-vidas em rio e em embarcação, e regra de nunca nadar sozinho, são as duas orientações que sobrevivem a qualquer versão da questão.

Duas orientações desta seção convivem com divergência entre documentos brasileiros e estão registradas no bloco de divergências: a idade em que se recomenda iniciar o aprendizado de natação e o limiar de área queimada que a orientação familiar usa para mandar procurar atendimento. Nenhuma das duas muda a conduta de emergência.

Afogamento: a classificação brasileira em seis graus, e por que ela é de gravidade e não de evolução

A classificação de afogamento usada no Brasil nasceu no Rio de Janeiro em 1972, foi revista em 1997 e revalidada em 2001, e é de autoria nacional — David Szpilman. O artigo que a fixou analisou 41.279 casos de afogamento resgatados na orla carioca entre 1972 e 1991, dos quais 2.304, ou 5,5%, foram encaminhados ao Centro de Recuperação de Afogados; desses, 1.831 tinham registro de todos os parâmetros clínicos e formaram a base da estratificação. O mérito da classificação é ser feita apenas com variáveis de exame de primeiro atendimento: presença de respiração, pulso arterial, ausculta pulmonar e pressão arterial.

Antes de graduar, separa-se resgate de afogamento, e essa é a primeira pegadinha do tema. Resgate é a pessoa retirada viva da água que não apresenta tosse nem espuma na boca ou no nariz — pode ser liberada no próprio local, após avaliação, quando consciente e sem comorbidade. Afogamento é a pessoa retirada da água com evidência de aspiração de líquido, e evidência de aspiração significa tosse, ou espuma em boca ou nariz. Sintomas inespecíficos como náusea, vômito, tremor, cefaleia, cansaço e dor muscular aparecem em qualquer dos dois grupos e decorrem do esforço físico sob estresse — não graduam nada.

Os seis graus vão de tosse a parada cardiorrespiratória, e a mortalidade sobe de forma não linear. Grau 1 é ausculta pulmonar normal com tosse: mortalidade 0%. Grau 2 é ausculta anormal com estertores em alguns campos: 0,6%. Grau 3 é ausculta de edema agudo de pulmão sem hipotensão arterial: 5,2%. Grau 4 é edema agudo de pulmão com hipotensão arterial: 19,4%. Grau 5 é parada respiratória isolada: 44%. Grau 6 é parada cardiorrespiratória: 93%. A separação entre grau 3 e grau 4 é a pressão arterial, e a separação entre grau 4 e grau 5 é a presença de respiração — dois dados que se obtêm na areia, sem exame nenhum.

A distribuição dos casos explica por que a prova insiste na parte leve do espectro. Dos 1.831 classificados, 1.189 eram grau 1 — 65% do total — e 338 eram grau 2, ou 18,4%. Somados, quase 84% dos afogamentos que chegam a atendimento são graus 1 e 2. Grau 3 respondeu por 58 casos (3,2%), grau 4 por 36 (2%), grau 5 por 25 (1,4%) e grau 6 por 185 (10%). Aplicando a mortalidade publicada a cada grupo, o total de óbitos da série fica em torno de 195 casos, algo como 10,6% da coorte — e cerca de 172 desses óbitos, quase nove em cada dez, estão no grau 6. A gravidade do afogamento é quase inteiramente uma questão de ter havido ou não parada.

A classificação não tem caráter evolutivo. Ela é estabelecida no local do afogamento ou no primeiro atendimento e acompanhada do relato de melhora ou piora — o paciente não é reclassificado a cada mudança de ausculta. Isso importa em prova, porque o enunciado às vezes descreve um paciente que chega grau 3 e é intubado: ele continua sendo um afogamento grau 3 que necessitou de ventilação mecânica, e não um grau 4.

Fora da escala ficam dois rótulos. Um é resgate, já definido. O outro é cadáver por afogamento: tempo de submersão superior a uma hora ou sinais evidentes de morte — rigidez cadavérica, livores ou decomposição corporal. Nesse caso não se inicia reanimação e o corpo segue para o serviço médico-legal. Termos como quase afogamento, afogamento seco ou molhado, afogamento ativo ou passivo e afogamento secundário são obsoletos e devem ser evitados; a prova que usa qualquer um deles no enunciado geralmente está testando exatamente isso.

Afogamento: ventilar primeiro — e as duas manobras que estão proibidas

O afogamento é a exceção clássica à sequência de reanimação que o aluno decorou. Como o mecanismo é hipóxia, e a parada cardíaca é consequência da apneia e não da arritmia, no afogamento se segue a sequência ABC. A diretriz brasileira registra que o ILCOR já adotava essa exceção em 2010 e 2015, e a atualização de 2025 da American Heart Association e do ILCOR reforçou a mesma direção: a reanimação do afogado inclui compressões e ventilações, com ênfase nas ventilações, e a reanimação com ventilações deve ser iniciada antes de aplicar o desfibrilador externo automático. A razão é aritmética de ritmo: a parada por afogamento, sem comorbidade ou fator precipitante, ocorre em assistolia — não há o que desfibrilar no primeiro minuto.

A ventilação começa antes da água acabar. Cerca de 99,5% das ocorrências envolvem afogado consciente, que só precisa ser trazido à terra; os 0,5% inconscientes são o cenário em que a ventilação dentro da água muda o desfecho, e a diretriz quantifica: a ressuscitação ainda dentro da água, apenas com ventilação, dá à vítima uma chance quatro vezes maior de sobrevivência sem sequelas. Compressão torácica não é efetiva na água e só se faz fora dela. Em terra, no paciente sem respiração, iniciam-se cinco ventilações boca-a-boca, com intervalo suficiente para o tórax subir e esvaziar entre elas, e só então se checam sinais de circulação.

Se há pulso e não há respiração, o caso é grau 5, parada respiratória isolada, e a conduta é manter apenas a ventilação — de 10 a 12 vezes por minuto — até o retorno da respiração espontânea, o que costuma ocorrer antes de terminar as dez ventilações. Se não há sinal de circulação, entra a alternância de compressões e ventilações; a diretriz do afogamento usa 30 compressões para 2 ventilações com um socorrista e 15 para 2 com dois socorristas, e reavaliação a cada 2 minutos.

Duas manobras que o senso comum sugere estão formalmente proibidas, e é aqui que a questão costuma armar a alternativa errada. A primeira é a manobra de compressão abdominal — Heimlich — usada com a intenção de retirar água do pulmão: é ineficaz para isso e gera risco significativo de vômito com aumento da aspiração. A manobra continua tendo indicação para obstrução por corpo estranho, inclusive no afogado em que a ventilação boca-a-boca não é efetiva mesmo após refazer a hiperextensão do pescoço; o que está proibido é o uso para drenar água.

A segunda é a drenagem ativa da água aspirada, tipicamente colocando a vítima com a cabeça abaixo do nível do corpo. A diretriz brasileira quantifica o dano: essa tentativa aumenta em mais de cinco vezes as chances de vômito e leva a um aumento de 19% na mortalidade. E o vômito não é evento raro no afogamento — ocorre em mais de 65% das vítimas que precisam de ventilação de urgência, em 86% das que precisam de respiração assistida ou reanimação, e em 50% mesmo daquelas que não precisam de intervenção alguma após o resgate. Diante de vômito, vira-se a cabeça lateralmente, remove-se com o dedo indicador usando lenço ou aspiração, e retoma-se a ventilação.

Uma terceira conduta habitual também sai de cena: a imobilização de rotina da coluna cervical durante o resgate aquático, em vítima sem sinais de trauma, não é recomendada, porque a incidência de trauma raquimedular em salvamento aquático é baixa e o procedimento desperdiça o tempo que deveria ir para ventilação e oxigenação. Trauma raquimedular é menos comum em praia oceânica de água clara e mais comum em rio, cachoeira, lago e local de visibilidade ruim — é o cenário, não o protocolo, que levanta a suspeita.

A conduta por grau é a parte que a vinheta cobra diretamente. Resgate e grau 1 não precisam de oxigênio nem de suporte ventilatório e podem ser liberados, na ausência de comorbidade. Grau 2 resolve com 5 L/min de oxigênio por cânula nasofaríngea em 93,2% dos casos, com recuperação satisfatória em 6 a 24 horas sob observação hospitalar. Grau 3 recebe oxigênio a 15 L/min por máscara facial, mas apenas 27,6% conseguem permanecer sem tubo — 72,4% acabam necessitando de intubação e ventilação mecânica. Grau 4 necessita de intubação em 100% dos casos, porque cursa com saturação abaixo de 92%, frequência respiratória alta e grande esforço; e, se a hipotensão não corrigir com oxigênio, a primeira medida é infusão rápida de cristaloide, independentemente do tipo de água. Hospitalização é recomendada para todos os graus 2 a 6, e os graus 3 a 6 geralmente vão para terapia intensiva.

Sobre quando insistir e quando parar, o afogamento tem régua própria. Inicia-se reanimação em todo afogado em parada com tempo de submersão inferior a uma hora e sem rigidez cadavérica, livores ou decomposição — o reflexo de mergulho, a continuidade da troca gasosa após a submersão e a hipotermia explicam a tolerância maior à anóxia, e a taxa de consumo de oxigênio cerebral cai cerca de 5% para cada grau Celsius de queda entre 37 e 20 graus. Para a equipe médica, a reanimação só se encerra quando a vítima estiver com temperatura corporal acima de 34 graus e mantiver assistolia. Graus 1 a 5 recebem alta hospitalar sem sequela em 95% dos casos; no grau 6 o prognóstico é neurológico, e nenhuma variável clínica isolada é confiável para prevê-lo na cena.

Comparação entre a sequência de reanimação da parada cardíaca e a do afogamento: na parada cardíaca compressão vem primeiro e o desfibrilador entra cedo; no afogamento a via aérea e cinco ventilações iniciais vêm primeiro e o desfibrilador entra depois, porque o ritmo mais comum é assistolia. Ao lado, duas manobras riscadas: compressão abdominal para tirar água e drenagem com a cabeça abaixo do corpo.
No afogamento a hipóxia é a causa e a parada é a consequência, e por isso a sequência é ABC. As duas manobras riscadas não são apenas inúteis: a drenagem ativa aumenta o vômito em mais de cinco vezes e a mortalidade em 19%.

Queimadura na criança: a conta é outra, e às vezes o desenho da lesão acusa

A extensão e a profundidade da queimadura, a regra dos nove com correção por idade, o diagrama de Lund-Browder, a fórmula de Parkland e os critérios de encaminhamento a centro de tratamento de queimados são assunto dos capítulos de Queimados desta coleção, e é lá que estão as contas. O que interessa aqui é o conjunto de diferenças que fazem a criança não ser um adulto pequeno, e o ponto em que a queimadura deixa de ser um agravo e passa a ser um achado.

A primeira diferença é de proporção corporal. A cabeça da criança pequena representa uma fração da superfície muito maior que a do adulto, e os membros inferiores uma fração menor — é exatamente por isso que a regra dos nove do adulto não se aplica e que o diagrama de Lund-Browder tem colunas por faixa de idade. A régua de bolso continua valendo em qualquer idade, desde que se use a mão certa: a silhueta da mão da própria criança, e não a do examinador, corresponde a cerca de 1% da superfície corporal dela.

A segunda diferença é o limiar. Na criança a reposição volêmica formal começa em superfície queimada menor que no adulto, e o mesmo vale para o encaminhamento a centro de queimados e para a instalação de sonda vesical — os cortes exatos, o alvo de diurese e a conta de Parkland estão no capítulo de extensão e profundidade e no de centro de queimados. Na prática do enunciado, isso significa que a mesma porcentagem que em um adulto seria manejada ambulatorialmente, em uma criança dispara reposição e transferência.

O primeiro atendimento tem uma lista curta do que fazer e uma lista igualmente curta do que não fazer, e a segunda rende mais alternativa. Faz-se: remoção delicada de roupa aderida, retirada de anel, pulseira e colar antes do edema, resfriamento com água corrente fria até o alívio da dor, envolvimento com lençol limpo e analgesia. Não se faz: gelo, rompimento de bolha, e aplicação de pomada ou produto caseiro — clara de ovo, pó de café e banha são os três que a orientação brasileira nomeia. Todo produto aplicado no pré-hospitalar atrapalha a avaliação da profundidade e vira contaminação.

O ponto em que a queimadura vira suspeita de violência é o desenho da lesão, e a nota de alerta da Sociedade Brasileira de Pediatria com o Colégio Brasileiro de Radiologia, de outubro de 2024, lista três padrões entre as lesões externas clássicas de trauma intencional. O primeiro é a queimadura por líquido quente que não obedece à lei da gravidade — porque escaldadura acidental escorre, e o escorrimento deixa bordas irregulares, profundidade variável e marcas de respingo. O segundo é a queimadura de cigarro: arredondada, com maior profundidade central, e a nota a classifica como indicativa de tortura. O terceiro é a queimadura em luva, em meia ou em região de períneo, indicando imersão em líquido quente.

O que une os três padrões é a assinatura da contenção. A imersão forçada produz limite nítido, profundidade uniforme e simetria, e preserva o que ficou fora do líquido: as pregas de flexão e o ponto de apoio glúteo comprimido contra o fundo mais frio do recipiente — as estrias em zebra e a área poupada nas nádegas descritas na literatura dermatológica brasileira. A escaldadura acidental faz o oposto: borda irregular, profundidade desigual, várias áreas atingidas e marca de respingo. A pergunta prática não é qual a profundidade, é se o desenho da lesão é compatível com a história contada.

Reconhecido o padrão, o que se faz com ele é assunto do capítulo de Maus-tratos na infância, no início desta apostila: para onde vai a comunicação, em que prazo, e o que a omissão custa. Aqui basta a regra de ouro: o que a lei pede do médico é comunicação de suspeita, não diagnóstico de violência, e nenhum exame confirma maus-tratos.

Comparação esquemática entre escaldadura acidental, irregular e com respingos, e queimadura por imersão, simétrica e com limite nítido em padrão de meia.
Na escaldadura acidental, a gravidade produz escorrimento, respingos, bordas irregulares e profundidade variável. A imersão forçada tende a ser simétrica, uniforme e nitidamente delimitada; o desenho incompatível com a história exige comunicação da suspeita.

Intoxicação exógena: o que se faz sempre, e o que quase nunca se faz

Intoxicação exógena, na definição do Guia de Vigilância em Saúde, é o conjunto de efeitos nocivos manifestados por alterações clínicas ou laboratoriais em razão do desequilíbrio orgânico causado pela interação do sistema biológico com um ou mais agentes tóxicos. A intoxicação aguda decorre de exposição única, ou de exposições sucessivas ocorridas em um prazo médio de 24 horas. Os grupos que o próprio guia aponta como mais suscetíveis são gestantes, lactantes, crianças e idosos, e intoxicação de criança está na lista de pontos de atenção que exigem medida imediata.

A sintomatologia é inespecífica, e por isso o guia estrutura a anamnese em seis perguntas que valem ser decoradas na ordem: quem, o que e quanto, qual a via de exposição, onde, como e há quanto tempo. Quem cobre idade, gravidez, doenças e uso de álcool ou medicamentos; o que e quanto pede o agente e a quantidade, com a recomendação prática de verificar embalagem e bula; a via separa oral, dérmica, inalatória e intravenosa; como determina a circunstância — acidental, tentativa de suicídio, agressão, ocupacional ou ambiental —, e é essa pergunta que decide se haverá uma segunda ficha de notificação; e há quanto tempo estabelece o intervalo entre exposição e atendimento, que é o dado que abre ou fecha a janela de descontaminação.

O tratamento começa e frequentemente termina no suporte. A maior parte das intoxicações é tratada apenas com medidas de suporte e sintomáticos; antídoto não é a primeira conduta na maioria das situações. Descontaminação varia com a via: exposição cutânea pede retirada de roupa impregnada e lavagem abundante; inalatória, remoção do local e oxigênio suplementar umidificado; ocular, irrigação com soro fisiológico ou água por pelo menos cinco minutos, sempre da região medial para a externa, com avaliação oftalmológica.

A descontaminação gastrintestinal é a parte que a prova mais cobra, e é onde as réguas brasileiras divergem — o detalhe está no bloco de divergências. O carvão ativado é o consenso: a diretriz de antídotos da Sociedade Brasileira de Toxicologia e da Abracit, de 2025, indica dose única em exposição tóxica potencialmente grave até 60 minutos da ingestão, na dose de 1 g/kg na criança, com máximo de 50 g, e 50 g no adulto. Doses múltiplas, a cada 4 a 6 horas, servem a xenobióticos com circulação êntero-hepática — dapsona, fenobarbital, carbamazepina, teofilina e quinina.

As contraindicações do carvão ativado são o que rende alternativa. Não se administra carvão a paciente com nível de consciência rebaixado sem via aérea protegida, pelo risco de aspiração; nem na ingestão de corrosivos; nem na de hidrocarbonetos; nem para substâncias que ele não adsorve — álcoois tóxicos como etilenoglicol, metanol, dietilenoglicol e butilglicol, lítio, e metais e seus sais, incluindo arsênio, chumbo, ferro e mercúrio. O ferro é a armadilha mais frequente em pediatria: sulfato ferroso é um dos comprimidos mais disponíveis em casa com criança, e é justamente um dos que o carvão não adsorve.

A indução de vômito saiu do arsenal. A conduta brasileira em cáustico é explícita em não induzir vômito e não tentar neutralizar o agente com ácido ou base, porque a reação de neutralização é exotérmica e acrescenta lesão térmica à química, e porque o retorno do cáustico pela mesma via queima o esôfago duas vezes. O manual de toxicologia clínica de São Paulo é direto: em caso de ingestão de cáustico, a descontaminação gastrintestinal é contraindicada, e antídoto não se aplica.

O que se faz no cáustico é endoscopia. A avaliação endoscópica é indicada sempre que haja forte suspeita de ingestão, mesmo sem lesão oral — em até 22% dos casos em que se verificou lesão de esôfago, não havia lesão oral descrita, e é por isso que boca limpa não libera criança nenhuma. A endoscopia é feita precocemente, de preferência nas primeiras 24 horas, com manobras delicadas, introdução sob visão direta e pouca insuflação, sem ultrapassar lesão grave; está contraindicada diante de suspeita de perfuração. E há uma janela proibida: entre o 5º e o 15º dia após a ingestão é preferível evitar a endoscopia, porque a mucosa está mais friável e o risco de perfuração é maior. O achado endoscópico é graduado pela classificação de Zargar, que orienta suporte nutricional e prognóstico de estenose. Ácido produz necrose de coagulação, com lesão principalmente abaixo de pH 3; álcali produz necrose de liquefação, com lesão principalmente acima de pH 11, e é o que penetra fundo.

Bateria de disco merece linha própria, porque é a ingestão pediátrica que não espera. Bateria localizada em esôfago ou estômago é removida imediatamente por endoscopia, para prevenir perfuração; se já está no intestino, a conduta é laxante suave e acompanhamento radiológico da eliminação.

Tóxico e antídoto: os agentes que a questão cobra pelo nome

A lista de antídotos que a prova de residência realmente usa é curta, e cada item costuma vir com uma pegadinha embutida. A referência brasileira vigente é a diretriz de indicações, uso e estoque de antídotos elaborada pelo CIATox de Campinas e referendada pela Sociedade Brasileira de Toxicologia e pela Abracit, de março de 2025.

Paracetamol e N-acetilcisteína abrem a lista. A dose tóxica na criança abaixo de 6 anos é de 200 mg/kg, e acima dessa idade cai para 150 mg/kg; no adulto fica entre 7,5 e 10 g. O nível sérico só serve se colhido a partir de 4 horas da ingestão e é interpretável no nomograma de Rumack-Matthew apenas entre 4 e 24 horas, em ingestão aguda única — nível colhido antes de 4 horas não prevê toxicidade, e nomograma não vale para apresentação de liberação prolongada nem para ingestão crônica ou repetida. A N-acetilcisteína deve ser iniciada dentro das primeiras 8 horas em qualquer paciente com risco possível de hepatotoxicidade, e a decisão de tratar não espera o nível quando o tempo de ingestão é desconhecido. O esquema intravenoso da diretriz de 2025 entrega 300 mg/kg em 12 horas, em duas bolsas: 100 mg/kg em 2 horas seguidos de 200 mg/kg em 10 horas. O alerta pediátrico está escrito em caixa alta no documento: em criança com menos de 40 kg, a concentração da solução e o volume de infusão precisam ser ajustados ao peso — o volume padrão do adulto, infundido em criança pequena, é sobrecarga hídrica, não terapia.

Organofosforado e carbamato têm dois antídotos com papéis diferentes, e confundi-los é o erro clássico. A atropina antagoniza os efeitos muscarínicos da acetilcolina — sialorreia, broncorreia, broncoespasmo, bradicardia, hipotensão — e não antagoniza os efeitos nicotínicos, ou seja, não resolve fasciculação, mioclonia nem fraqueza muscular. A dose inicial em criança é de 0,03 a 0,05 mg/kg intravenosa na diretriz de 2025, e no adulto de 1 a 4 mg intravenosos, com doses adicionais conforme a evolução; nos casos graves considera-se infusão contínua após a estabilização, iniciando em 0,02 mg/kg/h na criança. O alvo é a atropinização plena, e ela se reconhece pela secura de pele e mucosas, pela melhora da hipersecreção pulmonar e do broncoespasmo e pela elevação da frequência cardíaca — nunca pela pupila: a miose é um dos últimos parâmetros a reverter e não deve ser usada para avaliar melhora. A oxima é o segundo fármaco, e o efeito esperado dela é outro: reativar a acetilcolinesterase. Indica-se nas intoxicações moderadas a graves por organofosforado, tão precocemente quanto possível e sobretudo nas primeiras 24 horas, antes da inativação permanente da enzima. Em carbamato a regra é mais fina: a oxima é contraindicada especificamente para o carbaril, e é aceitável nas intoxicações graves por carbamato de alta toxicidade aguda, como o aldicarbe.

Opioide e naloxona trazem uma armadilha de farmacocinética. Na criança abaixo de 12 anos, em overdose aguda com depressão respiratória e sem risco de abstinência, a dose inicial é de 0,1 mg/kg intravenosos, com máximo de 2 mg, repetível a cada 2 a 3 minutos até o total de 2 mg. Acima de 12 anos e no adulto, inicia-se com 0,4 mg. Quando há risco de síndrome de abstinência — usuário crônico —, as doses iniciais caem muito, para 1 a 10 mcg/kg na criança. A armadilha é a meia-vida: a naloxona dura de 30 a 90 minutos no adulto, menos que a maioria dos opioides, e por isso o paciente revertido pode voltar a deprimir. Diante de opioide de ação prolongada ou de várias doses necessárias para a reversão inicial, indica-se infusão contínua, começando em 60% a 75% da dose total que foi necessária para reverter.

Ferro e desferoxamina fecham o bloco dos medicamentos domésticos. A desferoxamina está indicada quando há hipotensão ou choque, letargia ou coma, sangramento digestivo, coagulopatia ou acidose metabólica — e está indicada independentemente das manifestações clínicas quando o ferro sérico ultrapassa 500 mcg/dL. Na criança inicia-se infusão contínua com 5 mg/kg, subindo após 15 minutos para 15 mg/kg/h se houver tolerância e não surgir hipotensão. O tratamento é limitado a 24 horas, para reduzir o risco de toxicidade pulmonar. E a trava já mencionada: carvão ativado não adsorve ferro.

Monóxido de carbono tem como antídoto o próprio oxigênio. Administra-se oxigênio a 100% por máscara não reinalante até que o paciente esteja assintomático e a carboxiemoglobina caia abaixo de 5%. Duas travas de prova: a oximetria de pulso mostra saturação normal mesmo com carboxiemoglobina alta, de modo que oximetria normal não exclui nada; e a câmara hiperbárica tem indicação delimitada — coma, alteração importante do estado mental ou déficit neurológico, evidência de isquemia, acidose metabólica persistente, gestante com sofrimento fetal, ou carboxiemoglobina acima de 25%. A meia-vida do monóxido, de 4 a 6 horas em ar ambiente, cai para cerca de 20 minutos em câmara hiperbárica. Vale lembrar que incêndio domiciliar expõe simultaneamente a monóxido e a cianeto, e que o antídoto de escolha do cianeto, sobretudo em vítima de incêndio, é a hidroxicobalamina.

Benzodiazepínico e flumazenil são o item em que o candidato erra por saber demais. A diretriz brasileira de 2025 é taxativa: o flumazenil é geralmente indicado apenas para reverter a sedação de benzodiazepínico em procedimento anestésico, a indicação é altamente questionável mesmo nas intoxicações exclusivas por benzodiazepínico, e o documento escreve que ele é raramente indicado. A indicação restrita é a intoxicação exclusiva por benzodiazepínico que cursa com depressão neurológica importante e comprometimento da ventilação. As duas contraindicações são formais e ambas caem: usar flumazenil como teste diagnóstico, porque pode desencadear convulsão em paciente epiléptico; e usar em intoxicação por benzodiazepínico associada a droga pró-convulsivante e cardiotóxica, como antidepressivo tricíclico ou carbamazepina, porque pode induzir arritmia grave e estado de mal convulsivo. Diante de coma de causa desconhecida, portanto, a resposta é suporte ventilatório, não flumazenil.

Cáustico é o item da lista que não tem antídoto, e é isso que o enunciado testa. Não se neutraliza, não se induz vômito, não se passa carvão e não se lava o estômago: o que existe é suporte, analgesia, inibidor de bomba de prótons e endoscopia na janela correta.

Tabela de sete agentes tóxicos com a conduta ou o antídoto correspondente, incluindo alertas para flumazenil e para a ausência de antídoto nos cáusticos.
Pares essenciais para prova e emergência: N-acetilcisteína, atropina com oxima, naloxona, desferoxamina e oxigênio a 100%. Flumazenil tem uso raro e contraindicações importantes; cáusticos não têm antídoto nem devem ser neutralizados.

O telefone, a ficha e o prazo: o que se faz depois de estabilizar

Informação toxicológica em tempo real é um recurso do SUS e tem número nacional. O Guia de Vigilância em Saúde publica o Disque-Intoxicação, 0800 722 6001, que dá acesso ao Centro de Informação e Assistência Toxicológica — o CIATox — de referência da região. A diretriz brasileira de antídotos vai além e recomenda expressamente que a indicação e o tratamento com antídotos, soros antivenenos e métodos de remoção extracorpórea sigam a orientação do CIATox regional. Em vinheta de prova, ligar para o centro de informação toxicológica é conduta correta e nunca é a alternativa errada por omissão.

A intoxicação exógena é agravo de notificação compulsória, e o detalhe que a questão cobra é a periodicidade: a notificação é semanal, conforme a Portaria nº 1.061/2020, e se faz pela Ficha de Investigação de Intoxicação Exógena no Sinan. Notifica-se o caso suspeito — o guia define caso exposto como o indivíduo com história provável ou conhecida de exposição a substância química, apresentando ou não sinal, sintoma ou alteração laboratorial. Ou seja: exposição sem sintoma já é caso, e já se notifica. O registro é feito sempre pelo município que atendeu, independentemente de onde a pessoa mora ou onde se expôs, e os dados são processados assim que se toma conhecimento do caso, sem esperar o encerramento da investigação. O encerramento ocorre em no máximo 180 dias a partir da data de notificação.

Há um caso em que uma ficha vira duas, com relógios diferentes, e essa é a pegadinha mais elegante do tema. Quando a intoxicação exógena envolve tentativa de suicídio, o guia determina notificação na Ficha de Investigação de Intoxicações Exógenas e também na Ficha de Notificação Individual de Violência Interpessoal/Autoprovocada, no prazo de até 24 horas, para a Secretaria Municipal de Saúde — no Distrito Federal, para a Secretaria Estadual. Adolescente que ingere comprimidos após discussão familiar, portanto, gera duas notificações e o prazo que manda é o de 24 horas.

A investigação classifica o caso em cinco categorias que às vezes aparecem em questão de vigilância: intoxicação confirmada, quando há antecedente comprovado de exposição com manifestação clínica ou alteração laboratorial que a evidencie; só exposição, quando há história de exposição sem sinal, sintoma ou alteração; reação adversa, que é a resposta nociva e não intencional a medicamento em qualquer dose; outro diagnóstico; e síndrome de abstinência.

O terceiro caminho de comunicação é o da proteção, e ele não passa pelo Sinan. Quando a lesão — queimadura com padrão de imersão, intoxicação deliberadamente provocada, história que não fecha com o exame — levanta suspeita de violência contra criança ou adolescente, existe uma comunicação própria, com destinatário próprio e prazo próprio, detalhada no capítulo de Maus-tratos na infância. A regra que este capítulo precisa deixar assentada é que os dois caminhos coexistem: notificar a intoxicação no Sinan não substitui a comunicação de proteção, e comunicar a suspeita não dispensa a ficha de agravo.

04

Da cena à ficha: classificar, tratar e notificar causa externa na criança

O fluxo abaixo serve às quatro situações do capítulo e é escrito na ordem em que o enunciado costuma entregar os dados. As tabelas trazem as três réguas que a questão cobra de cor: o mecanismo dominante por faixa etária, os seis graus do afogamento com mortalidade e conduta, e a correspondência entre agente tóxico e antídoto. Os cartões destrincham os graus de afogamento, que é a classificação de autor brasileiro mais cobrada do tema.

  1. 11 · Estabilize antes de classificar. Em qualquer causa externa, o primeiro passo é a avaliação inicial padronizada, e a suspeita de violência não altera uma linha dela. No afogado, porém, a sequência é ABC e não CAB: via aérea e ventilação vêm antes da compressão, porque a parada é hipóxica.
  2. 22 · No afogamento, separe resgate de afogamento pela evidência de aspiração. Sem tosse e sem espuma em boca ou nariz é resgate: avalia-se e libera-se no local, se consciente e sem comorbidade. Com tosse ou espuma é afogamento, e aí se gradua.
  3. 33 · Gradue o afogamento com quatro dados de beira de maca: existe respiração, existe pulso, como está a ausculta pulmonar e como está a pressão arterial. Ausculta normal com tosse é grau 1; estertores em alguns campos é grau 2; edema agudo de pulmão sem hipotensão é grau 3; com hipotensão é grau 4; parada respiratória isolada é grau 5; parada cardiorrespiratória é grau 6. A classificação é de gravidade, feita na cena, e não se refaz a cada mudança clínica.
  4. 44 · Trate o afogado pelo grau. Resgate e grau 1 dispensam oxigênio e podem ir para casa. Grau 2 recebe 5 L/min por cânula nasofaríngea e observação hospitalar de 6 a 24 horas. Grau 3 recebe 15 L/min por máscara facial, com alta probabilidade de precisar de tubo. Grau 4 é intubação em todos. Grau 5 é ventilação isolada de 10 a 12 por minuto. Grau 6 é reanimação com ênfase em ventilação, desfibrilador só depois das ventilações. Interne todo grau 2 a 6.
  5. 55 · No afogado, não faça compressão abdominal para retirar água, não coloque a cabeça abaixo do nível do corpo para drenar, e não imobilize a coluna cervical de rotina se não há sinal de trauma. Diante de vômito, vire a cabeça, limpe e retome a ventilação.
  6. 66 · Na queimadura, resfrie com água corrente fria, retire adornos antes do edema e cubra com pano limpo. Não use gelo, não rompa bolha e não aplique produto caseiro. Calcule a superfície pela régua pediátrica — a mão da própria criança vale cerca de 1% — e leve extensão, profundidade, reposição e critério de transferência para os capítulos de Queimados.
  7. 77 · Diante de queimadura, pergunte se o desenho da lesão combina com a história. Líquido quente que não obedece à lei da gravidade, lesão arredondada de cigarro com maior profundidade central, e padrão em luva, em meia ou em períneo são lesões externas clássicas de trauma intencional, e obrigam a acionar o caminho de proteção descrito no capítulo de Maus-tratos.
  8. 88 · Na intoxicação, cumpra a anamnese em seis perguntas — quem, o que e quanto, qual via, onde, como e há quanto tempo — e trate primeiro com suporte. Descontamine pela via de exposição. Carvão ativado em dose única, 1 g/kg na criança com máximo de 50 g, na janela de até 60 minutos, e nunca em rebaixamento de consciência sem via aérea protegida, corrosivo, hidrocarboneto, álcool tóxico, lítio, ferro ou outro metal.
  9. 99 · Em cáustico, não neutralize, não induza vômito, não passe carvão e não lave o estômago. Encaminhe para endoscopia digestiva alta precoce, de preferência nas primeiras 24 horas, e evite o exame entre o 5º e o 15º dia. Bateria de disco em esôfago ou estômago sai por endoscopia imediatamente.
  10. 1010 · Ligue para o CIATox — 0800 722 6001 — antes de indicar antídoto, e cheque a pegadinha do agente: nada de flumazenil em coma de causa desconhecida ou com suspeita de tricíclico; oximetria normal não exclui monóxido de carbono; e carvão ativado não adsorve ferro.
  11. 1111 · Notifique. Intoxicação exógena é notificação compulsória semanal pela Portaria nº 1.061/2020, na Ficha de Investigação de Intoxicação Exógena do Sinan, pelo município que atendeu, já no caso suspeito. Se houve tentativa de suicídio, preencha também a Ficha de Violência Interpessoal/Autoprovocada em até 24 horas. Se houve suspeita de violência contra a criança, o caminho de proteção corre em paralelo e não substitui nem é substituído pela ficha de agravo.
0 %

Resgate — sem tosse, sem espuma

Retirado vivo da água sem evidência de aspiração. Pode ser liberado no local após avaliação, se consciente e sem comorbidade. Sintomas inespecíficos — náusea, tremor, cefaleia, dor muscular — decorrem do esforço sob estresse e não graduam nada. Mortalidade da série: não se aplica, porque não é afogamento.

0 %

Grau 1 — tosse, ausculta normal

Tosse com ausculta pulmonar normal. Mortalidade 0% na série de 1.831 casos, e o grau mais frequente de todos: 1.189 casos, 65% do total. Não precisa de oxigênio nem de suporte ventilatório; pode ir para casa se não houver comorbidade ou doença associada.

0,6 %

Grau 2 — estertores em alguns campos

Ausculta anormal com estertores em alguns campos pulmonares. Mortalidade 0,6% — cerca de 2 óbitos entre os 338 casos da série. Oxigênio a 5 L/min por cânula nasofaríngea resolve 93,2% dos casos, com recuperação satisfatória em 6 a 24 horas sob observação hospitalar. É o primeiro grau que interna.

PA ok5,2 %

Grau 3 — edema agudo sem hipotensão

Ausculta de edema agudo de pulmão com pressão arterial preservada. Mortalidade 5,2%. Oxigênio a 15 L/min por máscara facial mantém sem tubo apenas 27,6% dos casos: 72,4% acabam precisando de intubação e ventilação mecânica. Internação, em geral em terapia intensiva.

PA baixa19,4 %

Grau 4 — edema agudo com hipotensão

Edema agudo de pulmão com hipotensão arterial. Mortalidade 19,4%. Intubação em 100% dos casos, porque cursa com saturação abaixo de 92%, taquipneia e grande esforço respiratório. Se a hipotensão não corrige com oxigênio, infusão rápida de cristaloide vem antes de reduzir a PEEP ou iniciar droga vasoativa — independentemente do tipo de água.

44 %

Grau 5 — parada respiratória isolada

Apneia com pulso presente. Mortalidade 44%. A conduta é ventilação artificial imediata e isolada, de 10 a 12 vezes por minuto, até o retorno da respiração espontânea — que costuma ocorrer antes de terminar as dez ventilações. Depois de restaurada a respiração, segue-se o protocolo do grau 4.

93 %

Grau 6 — parada cardiorrespiratória

Parada cardiorrespiratória. Mortalidade 93%, e é onde se concentra quase toda a mortalidade da série: cerca de 172 dos aproximadamente 195 óbitos calculados. O ritmo é assistolia em 100% dos casos sem comorbidade ou fator precipitante — daí ventilar antes de aplicar o desfibrilador. Reanimar se submersão inferior a uma hora e sem sinal evidente de morte; encerrar apenas com temperatura acima de 34 °C e assistolia mantida.

> 1 hora

Cadáver por afogamento

Submersão superior a uma hora, ou sinais evidentes de morte — rigidez cadavérica, livores, decomposição corporal. Não se inicia reanimação e o corpo segue para o serviço médico-legal. É a única situação do tema em que não reanimar é a conduta correta.

Faixa etáriaMecanismo que dominaCenário típicoO que se orienta na consulta
Menor de 1 anoSufocação e asfixia; escaldaduraAmbiente de sono; banho, mamadeira e chupeta; tomada e fio a partir do 5º ao 6º mês, quando o bebê rola e engatinhaÁgua do banho entre 36 e 37 °C, fria antes da quente; aquecedor abaixo de 40 °C; mamadeira aquecida fora dela e nunca no micro-ondas; nada de líquido quente com a criança no colo; tomadas protegidas e extensões fora do alcance
1 a 4 anosAfogamento (1ª causa de morte na faixa) e intoxicação (53% dos casos de 0 a 19 anos)Balde, banheira, vaso sanitário, tanque e piscina; cozinha; medicamento e produto de limpeza ao alcanceLâmina de 5 cm já afoga: esvaziar ou tampar recipientes; nunca sozinha na banheira; cerca de piscina de 1,5 m com vão de até 12 cm e portão com tranca; cozinha bloqueada; cabos de panela para trás; medicamento em armário alto e com chave, dose medida com dispositivo padronizado
5 a 9 anosAfogamento (2ª causa de morte na faixa); trânsito e quedasPiscina e ainda dentro de casa; travessia de rua; queda de árvore e de muro; bicicleta, skate e patinsAprender a nadar e regras de segurança na água; nunca nadar sozinho; equipamento de proteção; supervisão em atividade coletiva
10 a 14 anosAfogamento (3ª causa de morte na faixa); trânsito; queimadura elétricaÁguas naturais — rio, represa e praia; pipa perto da rede elétrica de alta tensãoColete salva-vidas em rio e em embarcação; entrar com os pés primeiro em água rasa, escura ou desconhecida; pipa longe de fiação e sem cerol
15 a 19 anosAfogamento em água natural somado a álcoolRio e represa; superestimação da capacidade de nadarEvitar álcool antes da água; nunca nadar sozinho; obedecer sinalização — 46,6% das pessoas que se afogam acham que sabem nadar

Afogamento: os seis graus, a mortalidade e a conduta

GrauAchado que defineMortalidadeConduta e destino
ResgateSem tosse e sem espuma em boca ou narizAvaliar e liberar no local, se consciente e sem comorbidade
1Tosse com ausculta pulmonar normal0%Sem oxigênio e sem suporte ventilatório; alta domiciliar
2Estertores em alguns campos pulmonares0,6%Oxigênio 5 L/min por cânula nasofaríngea; observação hospitalar de 6 a 24 h
3Edema agudo de pulmão sem hipotensão5,2%Oxigênio 15 L/min por máscara; 72,4% acabam intubados; internação
4Edema agudo de pulmão com hipotensão19,4%Intubação em 100%; cristaloide rápido se a hipotensão não corrigir com oxigênio; UTI
5Parada respiratória isolada44%Ventilação isolada de 10 a 12/min até retorno; depois, protocolo do grau 4
6Parada cardiorrespiratória93%Reanimação com ênfase em ventilação; desfibrilador só após as ventilações; UTI
CadáverSubmersão > 1 h ou sinal evidente de morteNão iniciar reanimação; corpo ao serviço médico-legal

Agente tóxico e antídoto: o que a questão nomeia

AgenteAntídotoDose de partida na criançaA pegadinha
ParacetamolN-acetilcisteína300 mg/kg no total: 100 mg/kg em 2 h, depois 200 mg/kg em 10 hNível sérico só a partir de 4 h e interpretável até 24 h; iniciar dentro de 8 h; em criança abaixo de 40 kg, ajustar concentração e volume ao peso
Organofosforado e carbamatoAtropina; oxima como segundo fármacoAtropina 0,03 a 0,05 mg/kg IV, repetida conforme a evoluçãoAtropina não reverte efeito nicotínico; a miose é dos últimos sinais a ceder e não serve de alvo; a oxima reativa a enzima e é contraindicada no carbaril
OpioideNaloxona0,1 mg/kg IV abaixo de 12 anos, máximo de 2 mgMeia-vida de 30 a 90 min é menor que a do opioide: pode haver nova depressão; considerar infusão contínua a 60–75% da dose que reverteu
FerroDesferoxaminaInfusão contínua iniciando em 5 mg/kg, subindo a 15 mg/kg/h após 15 minIndicada independentemente da clínica se o ferro sérico passar de 500 mcg/dL; carvão ativado não adsorve ferro; limitar a 24 h
Monóxido de carbonoOxigênio a 100%Máscara não reinalante até assintomático e carboxiemoglobina abaixo de 5%Oximetria de pulso é normal apesar da carboxiemoglobina alta; câmara hiperbárica tem lista fechada de indicações, entre elas COHb acima de 25%
BenzodiazepínicoFlumazenil — raramente indicadoIndicação e dose seguem orientação do CIATox regionalContraindicado como teste diagnóstico e na associação com tricíclico ou carbamazepina; em coma de causa desconhecida, a resposta é suporte ventilatório
CáusticoSem antídoto — a conduta é endoscópicaSuporte, analgesia e inibidor de bomba de prótonsNão neutralizar, não induzir vômito, não passar carvão, não lavar o estômago; endoscopia nas primeiras 24 h e evitada entre o 5º e o 15º dia

Ranking do afogamento por faixa etária: a Sociedade Brasileira de Pediatria o coloca como 1ª causa de morte de 1 a 4 anos, 2ª de 5 a 9 e 3ª de 10 a 14; a diretriz da SOBRASA de 2017 usa outras faixas e outra posição — 2ª causa de 1 a 9 anos, 3ª de 10 a 19 e 4ª de 20 a 25. As faixas não coincidem e as posições tampouco. Este capítulo adota a régua da SBP na tabela, por ser a que recorta as faixas do jeito que a prova de pediatria costuma recortar.

As faixas etárias publicadas nos dados pediátricos do Sinitox se sobrepõem: há um estrato de 10 a 14 anos e outro de 14 a 19, de modo que a idade de 14 anos cai em dois estratos. A soma dos estratos publicados também não recompõe o total, porque o estrato dos menores de 1 ano não é discriminado. O percentual usado no texto — 130 mil casos em 1 a 4 anos, ou 53% — fecha contra o total de mais de 245 mil.

A letalidade de 0,098% do conjunto pediátrico de intoxicações é calculada a partir dos 240 óbitos sobre os mais de 245 mil casos publicados; o documento traz os dois números absolutos e não a razão entre eles.

O número aproximado de óbitos por grau da série de afogamento — cerca de 2 no grau 2, 3 no grau 3, 7 no grau 4, 11 no grau 5 e 172 no grau 6, totalizando por volta de 195 — é calculado aplicando a mortalidade publicada ao número de casos de cada grau. O artigo publica a mortalidade percentual e a contagem por grau, não os óbitos.

A diretriz da SOBRASA de 2017 recomenda encorajar o aprendizado de natação a partir dos 2 anos; a orientação da Sociedade Brasileira de Pediatria situa esse início aos 4 anos e sugere preferir escolas sem piscina para menores de 6 anos. A divergência é de orientação preventiva e não altera conduta de emergência.

A orientação familiar da SBP manda procurar atendimento quando a queimadura ultrapassa 15 a 20% da superfície corporal, entre outros critérios como acometimento de face, articulações e genitália. Esse limiar é de porta de entrada e não se confunde com os cortes assistenciais brasileiros, mais baixos na criança, que definem reposição volêmica e encaminhamento a centro de tratamento de queimados — esses estão nos capítulos de Queimados desta coleção e são os que valem na sala de emergência.

Dois números do capítulo de monóxido de carbono do manual de São Paulo convivem no mesmo documento com formas diferentes: a meia-vida do CO aparece como 252 minutos na farmacocinética e como 4 a 6 horas na seção de eliminação, o que é compatível; já a redução obtida com oxigênio a 100% aparece grafada como 6 a 75 minutos, faixa larga o bastante para não sustentar afirmação. O capítulo adota apenas os valores estáveis: 4 a 6 horas em ar ambiente e cerca de 20 minutos em câmara hiperbárica.

A dose tóxica de paracetamol publicada pelo manual de São Paulo é de 200 mg/kg para criança com menos de 6 anos e 150 mg/kg para criança com mais de 6 anos — a idade de exatamente 6 anos fica sem categoria. Na prática do enunciado, use o corte mais conservador, 150 mg/kg, para a criança de 6 anos.

Nos quadros 33 e 34 do manual de São Paulo, a coluna intitulada volume do diluente contém doses em mg/kg, e o volume propriamente dito aparece na coluna de forma de aplicação. Lidos no texto plano, os dois quadros embaralham as colunas; foram conferidos por renderização da página.

A tabela de cenário do afogamento na diretriz da SOBRASA usa os cortes menor de 9 anos, para piscina e ambiente doméstico, e maior de 10 anos, para águas naturais — de modo que as idades de 9 e 10 anos ficam sem categoria. O capítulo mantém os cortes como publicados e trata a transição de cenário como gradual, que é o modo como a vinheta costuma apresentá-la.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Descontaminação gastrintestinal: lavagem gástrica de rotina antes do carvão, ou carvão ativado isolado com janela curta

Lavagem gástrica seguida de carvão ativado, como procedimento habitual em duas etapas

O manual de toxicologia clínica descreve a descontaminação gastrintestinal como habitualmente dividida em duas etapas — lavagem gástrica seguida de administração de carvão ativado —, com técnica detalhada: sonda de grande calibre, decúbito lateral esquerdo, 10 mL/kg por infusão na criança até um volume total que vai de 0,5 L no recém-nascido a 4 ou 5 L no escolar. Situa o maior benefício nas ingestões recentes, de até 1 a 2 horas, e contraindica a lavagem em cáusticos, solventes e risco de perfuração ou sangramento.

Manual de Toxicologia Clínica, COVISA/Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo, 2017

Carvão ativado em dose única, até 60 minutos, sem lavagem gástrica de rotina

A diretriz de antídotos brasileira vigente descreve o carvão ativado como a medida de descontaminação gastrintestinal, em dose única a ser considerada em exposição tóxica potencialmente grave até 60 minutos da ingestão, para substâncias efetivamente adsorvidas, com dose de 1 g/kg na criança e 50 g no adulto. O documento lista o carvão entre os antídotos e substâncias auxiliares e não posiciona a lavagem gástrica como etapa prévia obrigatória.

Diretrizes de indicações, uso e estoque de antídotos — CIATox de Campinas, referendadas pela SBTox e pela ABRACIT, março de 2025

Na prova

O recorte se identifica pelo relógio do enunciado e pela palavra usada. Vinheta que diz quanto tempo se passou desde a ingestão está testando a janela, e a janela mais curta e mais recente é a de 60 minutos para o carvão. Vinheta que descreve técnica — calibre de sonda, decúbito, volume por quilo — está pedindo o procedimento da lavagem gástrica, e aí a resposta é a técnica do manual. Quando o enunciado não dá tempo nem técnica e pergunta simplesmente qual a medida de descontaminação, a alternativa segura é carvão ativado, que é o item em que as duas réguas concordam. E a contraindicação vale nas duas: cáustico não recebe nem lavagem nem carvão.

Esquema de N-acetilcisteína intravenosa no paracetamol: três bolsas em 21 horas ou duas bolsas em 12 horas

Protocolo de Prescott, três bolsas em 21 horas

O manual de toxicologia clínica publica o protocolo de N-acetilcisteína intravenosa de 21 horas, de Prescott, em três etapas: dose de ataque de 150 mg/kg em 200 mL de soro glicosado a 5% em 60 minutos; manutenção I de 50 mg/kg em 500 mL em 4 horas; manutenção II de 100 mg/kg em 1.000 mL em 16 horas. O mesmo manual traz o protocolo oral alternativo, com ataque de 140 mg/kg seguido de 70 mg/kg a cada 4 horas num total de 17 doses.

Manual de Toxicologia Clínica, COVISA/Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo, 2017 (quadros 33 e 34)

Esquema SNAP, duas bolsas em 12 horas

A diretriz de antídotos vigente adota o esquema de infusão intravenosa de duas bolsas em 12 horas, o SNAP: primeira dose de 100 mg/kg diluída em 200 mL para correr em 2 horas, a 50 mg/kg/h; segunda dose de 200 mg/kg diluída em 1.000 mL para correr em 10 horas, a 20 mg/kg/h. Para criança com menos de 40 kg, o documento determina em caixa alta o ajuste da concentração da solução e do volume de infusão de acordo com o peso, e exemplifica o cálculo para uma criança de 10 kg.

Diretrizes de indicações, uso e estoque de antídotos — CIATox de Campinas, referendadas pela SBTox e pela ABRACIT, março de 2025

Na prova

Os dois esquemas entregam a mesma dose total, 300 mg/kg — o que muda é em quantas horas e em quantas bolsas. Enunciado que nomeia Prescott, que fala em 21 horas ou que descreve três etapas está pedindo o esquema clássico; enunciado que fala em duas bolsas, em 12 horas ou que cita o SNAP está pedindo o esquema atual. O que realmente separa candidato é o detalhe pediátrico, e ele independe do esquema escolhido: em criança de baixo peso, o volume de diluente do adulto é sobrecarga hídrica, e a resposta correta é ajustar concentração e volume ao peso. E a decisão de iniciar o antídoto — dentro de 8 horas, sem esperar o nível quando o tempo de ingestão é desconhecido — não é objeto de divergência nenhuma.

Dose inicial de atropina na criança com intoxicação por inibidor de colinesterase

0,03 a 0,05 mg/kg intravenosa

A diretriz de antídotos vigente recomenda, como dose inicial em criança, de 0,03 a 0,05 mg/kg por via intravenosa, com doses adicionais conforme piora ou recorrência da síndrome colinérgica, e prevê infusão contínua nos casos graves após a estabilização, iniciando em 0,02 mg/kg/h na criança.

Diretrizes de indicações, uso e estoque de antídotos — CIATox de Campinas, referendadas pela SBTox e pela ABRACIT, março de 2025

0,05 a 0,1 mg/kg intravenosa, em bolus

O manual de toxicologia clínica recomenda sulfato de atropina intravenoso na dose de 1 a 4 mg no adulto e de 0,05 a 0,1 mg/kg na criança, em bolus, repetido a cada 2 a 15 minutos até a atropinização plena. O mesmo documento desaconselha a infusão contínua, por considerá-la menos eficaz para obter a atropinização e por aumentar o risco de intoxicação atropínica.

Manual de Toxicologia Clínica, COVISA/Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo, 2017

Na prova

As faixas se tocam em 0,05 mg/kg, e é por isso que esse valor aparece como resposta em provas que usam qualquer uma das duas fontes. A dose do adulto, de 1 a 4 mg, é idêntica nos dois documentos e é a que o enunciado usa quando quer evitar a controvérsia. O ponto que a questão realmente cobra não é o número e sim o alvo terapêutico e o que não serve de alvo: atropiniza-se até secar secreção, melhorar broncoespasmo e subir a frequência cardíaca — e a miose, que é dos últimos sinais a ceder, não mede resposta. A infusão contínua é o segundo eixo da divergência: prevista na diretriz de antídotos para caso grave estabilizado, desaconselhada pelo manual paulistano.

06

Caso resolvido

Menino de 6 anos é retirado de uma represa por familiares após submersão testemunhada de cerca de dois minutos. Ao ser colocado na margem, está consciente, agitado, com tosse intensa e espuma na narina. Frequência respiratória 34 irpm, saturação de 90% em ar ambiente, pressão arterial 100 × 60 mmHg, frequência cardíaca 128 bpm. À ausculta, estertores finos em bases, sem sinais de má perfusão. Um familiar pergunta se deve virá-lo de cabeça para baixo para tirar a água. A equipe do serviço de atendimento móvel chega em cinco minutos.
achado
Há evidência de aspiração — tosse e espuma na narina —, o que exclui a categoria resgate e classifica o caso como afogamento. A ausculta mostra estertores em alguns campos, sem edema agudo de pulmão e sem hipotensão.
classificação
Afogamento grau 2: ausculta anormal com estertores em alguns campos pulmonares. Mortalidade publicada de 0,6%. Não é grau 1 porque a ausculta não está normal; não é grau 3 porque não há quadro de edema agudo de pulmão; e a pressão arterial preservada afasta o grau 4.
o que não fazer
A resposta ao familiar é não. Colocar a vítima com a cabeça abaixo do nível do corpo para drenar água aumenta em mais de cinco vezes a chance de vômito e associa-se a aumento de 19% na mortalidade. Compressão abdominal para retirar água também está proibida — é ineficaz e provoca vômito com aspiração.
conduta imediata
Oxigênio a 5 L/min por cânula nasofaríngea, que resolve 93,2% dos afogados grau 2. Manter a criança em posição confortável, aquecida, com monitorização de saturação e frequência respiratória, e preparar transporte. Imobilização cervical de rotina não está indicada, porque não há sinal de trauma — ainda que represa seja cenário de visibilidade ruim, o gatilho é o sinal clínico e não o local.
destino
Internação. A hospitalização é recomendada para todos os graus 2 a 6, e o grau 2 costuma resolver com oxigênio não invasivo em 6 a 24 horas, com alta em seguida. Se houver deterioração clínica, o destino passa a ser unidade de cuidados intermediários para observação prolongada.
o que fica para depois
Antes da alta, orientação antecipatória dirigida à faixa: nesta idade o afogamento é a segunda causa de morte e o cenário começa a migrar de piscina para água natural. Colete salva-vidas em represa e a regra de nunca nadar sozinho são as duas orientações que mudam risco. Se a história do evento não fechar com o exame, o caminho é o do capítulo de Maus-tratos.
07

Agora feche você

Menina de 2 anos e 11 meses, 13 kg, é trazida pela avó 40 minutos depois de ser encontrada na cozinha com um frasco aberto de paracetamol gotas e comprimidos de sulfato ferroso espalhados pelo chão. A avó não sabe quanto a criança ingeriu e não sabe dizer se ela chegou a engolir os comprimidos. A criança está ativa, corada, sem vômitos, com sinais vitais normais e exame físico sem alterações. A avó relata que deu um copo de leite e tentou fazer a criança vomitar, sem sucesso, e pergunta se deve dar carvão ativado, que tem em casa.
achado
Ingestão de dois agentes com janelas e antídotos diferentes, quantidade desconhecida, tempo estimado de 40 minutos, criança assintomática. Assintomática, aqui, não tranquiliza: a fase 1 da intoxicação por paracetamol, até 24 horas, é assintomática ou tem apenas sintomas gastrintestinais.
o primeiro telefonema
Acionar o Centro de Informação e Assistência Toxicológica de referência — Disque-Intoxicação 0800 722 6001 —, que é a conduta recomendada pela própria diretriz brasileira de antídotos antes de indicar antídoto. Em paralelo, completar a anamnese nas seis perguntas do Guia de Vigilância em Saúde e pedir que a embalagem e a bula sejam trazidas, porque a concentração da apresentação define a dose máxima possível.
descontaminação
A resposta à avó sobre o carvão tem duas metades. O carvão ativado é adequado para o paracetamol, dentro da janela, na dose de 1 g/kg — 13 g para esta criança —, mas não adsorve ferro, de modo que ele não resolve metade do problema e não pode ser usado como se resolvesse. E indução de vômito não faz parte da conduta em nenhuma das duas intoxicações.
o que decide o paracetamol
A dose tóxica abaixo de 6 anos é de 200 mg/kg, o que nesta criança corresponde a 2.600 mg. Como a quantidade é desconhecida, a conduta é dosar paracetamol sérico a partir de 4 horas da ingestão e lançar o resultado no nomograma de Rumack-Matthew, que só é interpretável entre 4 e 24 horas. Nível colhido agora, aos 40 minutos, não previne nem prevê nada.
08

Onde a banca derruba

  1. 1Iniciar a reanimação do afogado pelas compressões O afogamento é a exceção que confirma a regra: a parada é hipóxica, não arrítmica, e por isso a sequência é ABC, com cinco ventilações iniciais. A atualização de 2025 da AHA e do ILCOR reforçou a ênfase nas ventilações e a ordem de ventilar antes de aplicar o desfibrilador, porque a parada por afogamento primário ocorre em assistolia — não há ritmo chocável para encontrar no primeiro minuto.
  2. 2Usar a manobra de compressão abdominal para tirar água do pulmão Está formalmente proibida com essa finalidade: é ineficaz e gera risco significativo de vômito com aumento da aspiração. A manobra continua indicada para obstrução por corpo estranho — inclusive no afogado em que a ventilação não é efetiva mesmo após refazer a hiperextensão do pescoço. O que muda é a indicação, não a técnica.
  3. 3Virar a vítima de cabeça para baixo para drenar a água aspirada Aumenta em mais de cinco vezes a chance de vômito e associa-se a aumento de 19% na mortalidade. E o vômito já é frequente sem ajuda: ocorre em mais de 65% das vítimas que precisam de ventilação de urgência, em 86% das que precisam de respiração assistida ou reanimação, e em 50% mesmo das que não precisam de intervenção após o resgate.
  4. 4Reclassificar o grau de afogamento conforme a evolução A classificação é de gravidade e é estabelecida no local do afogamento ou no primeiro atendimento, acompanhada do relato de melhora ou piora. Paciente que chega grau 3 e acaba intubado continua sendo um grau 3 que precisou de ventilação mecânica — o que é aliás o desfecho de 72,4% dos graus 3.
  5. 5Imobilizar a coluna cervical de rotina em todo afogado Em vítima sem sinais de trauma, a imobilização de rotina durante o resgate aquático não é recomendada: a incidência de trauma raquimedular no salvamento aquático é baixa e o procedimento consome o tempo que deveria ir para ventilação e oxigenação. A suspeita nasce do sinal clínico e do mecanismo, com risco maior em rio, cachoeira e água de má visibilidade.
  6. 6Tratar oximetria de pulso normal como exclusão de intoxicação por monóxido de carbono A oximetria de pulso mede saturação normal mesmo na presença de níveis significativos de carboxiemoglobina — é limitação do método, não boa notícia. O exame que decide é a dosagem de carboxiemoglobina, e o antídoto é oxigênio a 100% por máscara não reinalante até o paciente ficar assintomático com carboxiemoglobina abaixo de 5%.
  7. 7Dar flumazenil no coma de causa desconhecida A diretriz brasileira de antídotos classifica o flumazenil como raramente indicado e proíbe formalmente o uso como teste diagnóstico, porque pode desencadear convulsão em paciente epiléptico, e o uso em intoxicação por benzodiazepínico associada a droga pró-convulsivante e cardiotóxica, como tricíclico ou carbamazepina, pelo risco de arritmia grave e estado de mal convulsivo. A indicação restrita é a intoxicação exclusiva por benzodiazepínico com depressão neurológica e comprometimento da ventilação.
  8. 8Neutralizar o cáustico, induzir vômito ou passar carvão Na ingestão de cáustico a descontaminação gastrintestinal é contraindicada e não há antídoto. Carvão ativado e lavagem gástrica são contraindicados, tentar neutralizar acrescenta lesão térmica à química, e induzir vômito faz o agente queimar o esôfago pela segunda vez. A conduta é suporte, inibidor de bomba de prótons e endoscopia precoce, de preferência nas primeiras 24 horas, evitada entre o 5º e o 15º dia.
  9. 9Liberar a criança que ingeriu cáustico porque a boca está limpa Em até 22% dos casos em que se verificou lesão de esôfago não havia lesão oral descrita. A avaliação endoscópica é indicada sempre que haja forte suspeita de ingestão, mesmo sem lesão em boca. E bateria de disco alojada em esôfago ou estômago é remoção endoscópica imediata, não observação.
  10. 10Contar com o carvão ativado para o ferro O carvão ativado não adsorve metais e seus sais — arsênio, chumbo, ferro e mercúrio —, nem álcoois tóxicos nem lítio. Sulfato ferroso é um dos comprimidos mais presentes em casa com criança pequena, e o antídoto é a desferoxamina, indicada por critério clínico ou, independentemente da clínica, quando o ferro sérico ultrapassa 500 mcg/dL.
  11. 11Usar a miose como marcador de resposta à atropina A miose é um dos últimos parâmetros a reverter na intoxicação por inibidor de colinesterase e não deve ser usada para avaliar melhora. A atropinização adequada se reconhece por secura de pele e mucosas, melhora da hipersecreção pulmonar e do broncoespasmo e elevação da frequência cardíaca. E atropina não resolve efeito nicotínico: fasciculação e fraqueza muscular não respondem a ela.
  12. 12Dar alta ao paciente revertido com naloxona sem observação A meia-vida da naloxona é de 30 a 90 minutos no adulto — menor que a da maioria dos opioides —, de modo que a depressão respiratória pode retornar depois de o paciente ter acordado. Diante de opioide de ação prolongada, ou quando várias doses foram necessárias para a reversão inicial, indica-se infusão contínua começando em 60% a 75% da dose total que reverteu.
  13. 13Notificar a intoxicação só quando o caso estiver confirmado Notifica-se o caso suspeito. O guia define caso exposto como quem tem história provável ou conhecida de exposição, apresentando ou não sinal, sintoma ou alteração laboratorial, e determina que os dados sejam processados assim que se toma conhecimento do caso, sem esperar o encerramento da investigação. A notificação é compulsória semanal pela Portaria nº 1.061/2020, e o encerramento é que tem prazo — no máximo 180 dias.
  14. 14Esquecer a segunda ficha quando a intoxicação foi tentativa de suicídio Nesse caso são duas fichas com relógios diferentes: a Ficha de Investigação de Intoxicação Exógena, de notificação semanal, e a Ficha de Notificação Individual de Violência Interpessoal/Autoprovocada, esta em até 24 horas para a Secretaria Municipal de Saúde — no Distrito Federal, para a Secretaria Estadual. O prazo que manda na alternativa é o de 24 horas.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Correta: mesmo assintomática ou minimamente sintomática após afogamento, a criança deve permanecer em observação por 6 a 8 horas, pois a lesão pulmonar (edema/alteração do surfactante) pode manifestar-se tardiamente; a alta segue-se apenas se mantiver exame respiratório e saturação normais ao fim do período. Liberar de imediato ignora o risco de deterioração tardia. Antibiótico e corticoide profiláticos não são recomendados de rotina — antibiótico só se houver infecção estabelecida. Intubação profilática é desnecessária e agressiva em paciente eupneico, com saturação e ausculta normais.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Recite os seis graus do afogamento na ordem, com o achado que define cada um e a mortalidade: 1, tosse com ausculta normal, 0%; 2, estertores em alguns campos, 0,6%; 3, edema agudo de pulmão sem hipotensão, 5,2%; 4, edema agudo com hipotensão, 19,4%; 5, parada respiratória isolada, 44%; 6, parada cardiorrespiratória, 93%. Acrescente os dois rótulos de fora da escala — resgate, sem tosse e sem espuma, e cadáver, submersão acima de uma hora ou sinal evidente de morte. Depois escreva de memória a conduta de cada grau e o corte de internação, que é do grau 2 para cima. Termine com as duas manobras proibidas e o número que as condena: drenagem com a cabeça abaixo do corpo, vômito cinco vezes mais frequente e 19% mais mortalidade.

em 30 dias

Refaça sem consultar a tabela de agente e antídoto, dizendo em voz alta a pegadinha de cada linha: paracetamol e N-acetilcisteína, com o nível sérico válido só entre 4 e 24 horas e o início do antídoto em 8 horas; organofosforado, atropina que não pega efeito nicotínico e oxima que reativa a enzima; opioide e naloxona, com meia-vida menor que a do agente; ferro e desferoxamina, com o carvão que não adsorve; monóxido de carbono e oxigênio a 100%, com oximetria que engana; benzodiazepínico e flumazenil, raramente indicado e proibido como teste diagnóstico; cáustico, sem antídoto e com endoscopia nas primeiras 24 horas. Depois escreva a régua de prevenção por faixa etária com os números que ela carrega — 5 cm de lâmina, cerca de 1,5 m com vão de 12 cm, cozinha bloqueada abaixo dos 4 anos, banho entre 36 e 37 °C, aquecedor abaixo de 40 °C. Feche com o circuito das notificações: semanal para intoxicação, 24 horas para violência autoprovocada, 180 dias para encerrar o caso.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Criança de 3 anos é trazida ao pronto-socorro pela mãe, que relata queimadura ocorrida durante o banho há cerca de uma hora. Ao exame há lesão em ambos os pés e terço distal das pernas, com limite superior nítido e horizontal, profundidade uniforme e ausência de marcas de respingo. A mãe conta que a criança entrou sozinha na banheira. Conduza o atendimento: faça o primeiro cuidado da queimadura, estime a superfície acometida pela régua pediátrica, decida o destino da criança e diga o que a leitura do padrão da lesão obriga a fazer. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Acidentes na infância – Causas externas na infância — Preparatório para provas | OsceLabs