PediatriaEmergências Pediátricas

Choque na criança

Três documentos da mesma sociedade, três definições e quatro tetos de volume — e a régua muda com o prédio, não com a criança

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Menina, 3 anos, previamente hígida, admitida com febre alta, prostração e petéquias há 12 horas. Ao exame inicial: letárgica, FC 180 bpm, PA 74/40 mmHg, tempo de enchimento capilar 5 segundos, extremidades frias e moteadas, pulsos periféricos finos. Foram obtidos acesso intraósseo, colhidas culturas, iniciada antibioticoterapia de amplo espectro na primeira hora e administrados 60 mL/kg de cristaloide isotônico em alíquotas de 20 mL/kg, com reavaliação entre elas. Apesar disso, mantém-se hipotensa, letárgica, com TEC de 5 segundos e extremidades frias. Qual é a próxima medida terapêutica mais adequada?

02

Como esse tema cai

Este capítulo trata da criança que ainda tem pressão, ainda responde e ainda está fora da parada — e da hora em que se decide quanto volume ela recebe. O eixo é o choque séptico, porque é onde os documentos brigam e onde a prova cobra número; o hipovolêmico e o distributivo entram pelo que os separa dele à beira do leito.

A matéria-prima são quatro textos: o manual de orientação da Sociedade Brasileira de Pediatria de 2019, que ainda ensina o algoritmo de choque frio e quente; o documento científico de 2021, que resume a Campanha de Sobrevivência à Sepse de 2020 e divide a conduta pela existência de terapia intensiva no serviço; a própria diretriz de 2020, de onde saem as forças de recomendação e o ensaio que as sustenta; e o documento científico de 2024, que troca a definição inteira pelo escore de Phoenix.

Fica de fora, com capítulo próprio: o pacote de primeira hora da sepse do adulto; a sepse neonatal; o choque da dengue; a anafilaxia; e a reanimação cardiopulmonar pediátrica. A reidratação da diarreia — planos A, B e C — também é de outro capítulo, e este só encosta nela num ponto: a diarreia é a exceção escrita à regra de não fazer bolus.

03

O que muda decisão

Reconhecer choque: perfusão antes da hipotensão

Como usar este capítulo: reconheça o choque ainda compensado, defina o fenótipo, faça intervenções em pequenas etapas e reavalie após cada uma. Hipotensão é sinal tardio; volume, vasoativo e suporte respiratório dependem da resposta, não de uma receita executada até o fim.

O Departamento Científico de Medicina Intensiva Pediátrica da Sociedade Brasileira de Pediatria publicou, em cinco anos, três textos sobre a mesma criança. Os três continuam no ar, no mesmo diretório do site, e nenhum deles carrega marca de revogação. O manual de orientação de 2019 define sepse grave como sepse com disfunção de pelo menos um órgão, e choque séptico como hipotensão persistente não responsiva a volume. O documento científico de 2021, que resume a Campanha de Sobrevivência à Sepse de 2020, muda o tratamento sem mexer na definição. O documento científico nº 133, de fevereiro de 2024, muda a definição e derruba as duas palavras: escreve que o termo SIRS não deve mais ser usado para diagnóstico de sepse e que o termo anterior sepse grave não deve mais ser usado, porque sepse já é, por definição, disfunção orgânica ameaçadora da vida — e o adjetivo, portanto, é redundante.

O que entra no lugar é o escore de Phoenix, construído a partir de mais de três milhões de consultas hospitalares de pacientes com menos de 18 anos. Ele soma quatro sistemas — respiratório de 0 a 3 pontos, cardiovascular de 0 a 6, coagulação de 0 a 2 e neurológico de 0 a 2. Sepse passa a ser infecção suspeitada com escore total de pelo menos 2 pontos. Choque séptico passa a ser sepse com pelo menos 1 ponto no componente cardiovascular, que pontua por três coisas: uso de droga vasoativa, lactato e pressão arterial média para a idade.

A prova não escolhe entre as três por gosto. Ela escolhe pelo vocabulário do enunciado. Enunciado que diz "sepse grave" está escrito na régua de 2019 e vai cobrar a resposta de 2019; enunciado que cita Phoenix, ou que dá um escore, está em 2024; enunciado que fala em serviço com ou sem terapia intensiva pediátrica está em 2021. Quem decorou uma só das três erra as outras duas, e quem não percebe que são três documentos acha que decorou errado.

Choque frio e quente: os sinais que realmente diferenciam

O manual de 2019 traz uma tabela de duas colunas, "choque quente" e "choque frio", com sete sinais clínicos em cada uma. Vale contar as linhas em vez de aceitar a moldura. Na coluna do quente: pele quente; enchimento capilar menor que 2 segundos ou em flush; taquicardia; pulsos amplos; alteração do nível de consciência com irritabilidade ou sonolência; oligúria menor que 1 mL/kg/hora; pressão arterial adequada para a idade no início ou hipotenso. Na coluna do frio: pele marmórea e fria; enchimento capilar prolongado, acima de 2 segundos; taquicardia; pulsos finos; alteração do nível de consciência com irritabilidade ou sonolência; oligúria menor que 1 mL/kg/hora; pressão arterial adequada para a idade no início ou hipotenso.

Quatro das sete linhas são idênticas, palavra por palavra, nas duas colunas. Taquicardia, alteração do nível de consciência, oligúria e a frase sobre a pressão arterial aparecem exatamente iguais dos dois lados. Só três sinais discriminam: a pele, o tempo de enchimento capilar e a amplitude do pulso. Não é uma tabela de sete critérios com dois desfechos: é uma tabela de três critérios com quatro linhas de contexto compartilhado.

Essa contagem explica a recomendação que aparece dois anos depois. O documento de 2021 escreve, com todas as letras, que não se deve utilizar apenas sinais clínicos de beira de leito para categorizar o choque séptico como quente ou frio, e sugere que as variáveis clínicas venham acompanhadas de parâmetros hemodinâmicos avançados — débito e índice cardíacos, índice de resistência vascular sistêmica, saturação venosa central de oxigênio e tendência do lactato. A recomendação é fraca, com qualidade de evidência muito baixa. Não é o caso de tratar a categorização como erro: é o caso de saber que ela repousa em três achados, e que dois deles — pele e enchimento capilar — são justamente os que mais dependem da temperatura da sala e de quem examina.

Contraponto honesto: não é verdade que "as duas escolas mediam coisas diferentes". Elas medem quase as mesmas coisas. O que mudou foi o peso dado a três sinais quando eles conflitam com o resto do quadro.

Hipotensão por idade: use a régua declarada

Hipotensão parece o número mais duro do capítulo e é o mais escorregadio. Três documentos que a criança em choque atravessa no mesmo plantão dão três cortes.

A tabela de sinais vitais do suporte avançado de vida em pediatria, reproduzida no manual de 2019, dá a pressão sistólica: menor que 60 mmHg do nascimento até 1 mês; menor que 70 mmHg de 1 mês a 1 ano; menor que 70 + (idade em anos × 2) de 1 a 10 anos; e menor que 90 mmHg acima dos 10 anos. A Campanha de Sobrevivência à Sepse de 2020, ao definir hipotensão "para os fins desta recomendação" de fluido em serviço sem terapia intensiva, dá outra: menor que 50 mmHg abaixo de 12 meses, menor que 60 mmHg entre 1 e 5 anos, menor que 70 mmHg acima de 5 anos. E o escore de Phoenix não usa sistólica nenhuma — usa pressão arterial média, com faixas por idade, e manda calcular a média como um terço da sistólica somado a dois terços da diastólica quando não houver medida invasiva.

A conta que interessa é a de uma criança concreta. Menino de 3 anos. Pela fórmula do suporte avançado, ele é hipotenso abaixo de 70 + (3 × 2) = 76 mmHg. Pela régua da campanha de 2020, ele é hipotenso abaixo de 60 mmHg. A distância entre as duas é de 16 mmHg, e ela não é acadêmica: em serviço sem terapia intensiva pediátrica, a palavra "hipotenso" é o que separa "até 40 mL/kg na primeira hora" de "não administrar bolus". Esse menino com sistólica de 68 mmHg é hipotenso por uma régua e normotenso pela outra, no mesmo minuto e com o mesmo manguito.

No aniversário de 1 ano a coisa fica mais estreita ainda. A tabela do suporte avançado tem uma linha para "maior que 3 meses a 1 ano" com corte de 70 mmHg e a linha seguinte para "maior que 1 ano a 2 anos" com o corte da fórmula, que aos 12 meses dá 72 mmHg. A criança ganha 2 mmHg de piso ao completar um ano de vida, e o dia do aniversário fica na primeira linha, porque a segunda começa em "maior que 1 ano".

Expansão volêmica em alíquotas e reavaliação

O fluxograma de reposição volêmica do documento de 2021 divide a criança em choque séptico por uma variável que não é dela: a existência de unidade de terapia intensiva pediátrica no serviço.

Em serviço com terapia intensiva pediátrica, perfusão anormal com ou sem hipotensão, sem sinais de sobrecarga: bolus de cristaloide balanceado de 10 a 20 mL/kg, até o máximo de 40 a 60 mL/kg. Em serviço sem terapia intensiva pediátrica e com hipotensão: bolus de 10 a 20 mL/kg, até o máximo de 40 mL/kg. Em serviço sem terapia intensiva pediátrica e sem hipotensão: não administrar bolus, iniciar fluidos de manutenção — a não ser que haja sinais de desidratação ou perda hídrica, como diarreia.

Traduzido para uma criança de 12 kg: o teto com terapia intensiva vai a 720 mL; sem terapia intensiva, com hipotensão, para em 480 mL; sem terapia intensiva e sem hipotensão, zero. A diferença entre os dois tetos — 240 mL — é exatamente um bolus de 20 mL/kg, que é a unidade em que o próprio fluxograma manda infundir. A criança não mudou; mudou o prédio.

O quarto teto está dentro da diretriz internacional que o documento brasileiro resume, e é o mais baixo de todos. Ao tratar da criança hipotensa em ambiente de poucos recursos, o texto de 2020 registra que a Organização Mundial da Saúde recomenda 10 a 20 mL/kg de cristaloide isotônico em 30 a 60 minutos, seguidos de mais 10 mL/kg em 30 minutos se não houver melhora e não surgirem sinais de sobrecarga, insuficiência cardíaca ou deterioração neurológica. Somando: 20 a 30 mL/kg em até 90 minutos — para os mesmos 12 kg, 240 a 360 mL. O teto que a diretriz cita é 10 mL/kg mais baixo que o teto que ela própria recomenda para o mesmo cenário. E o texto admite, na mesma página, que o painel não revisou abordagens diferentes de fluidoterapia na criança hipotensa em ambiente de poucos recursos. É uma janela cega declarada, sem data de reabertura.

A força das recomendações é o que quase ninguém lê, e é o que decide a questão. As duas recomendações que mandam infundir são fracas, com evidência de baixa qualidade. A única que manda não infundir — sem terapia intensiva e sem hipotensão — é recomendação forte, com evidência de alta qualidade. A diretriz tem mais certeza sobre não dar volume do que sobre dar. O documento brasileiro de 2021 usa os rótulos de força ao longo de todo o texto, com a legenda no quadro de abertura; no fluxograma de fluidos, nenhum dos três braços traz rótulo. Quem lê só a figura recebe as três condutas como se pesassem o mesmo.

Gráfico de barras horizontais com o teto de volume na primeira hora para uma criança de 12 quilos. Serviço com terapia intensiva pediátrica: até 720 mililitros, correspondentes a 40 a 60 mL/kg. Serviço sem terapia intensiva com hipotensão: até 480 mililitros, ou 40 mL/kg. Ambiente de poucos recursos: 240 a 360 mililitros, ou 20 a 30 mL/kg em até 90 minutos. Serviço sem terapia intensiva e sem hipotensão: nenhum bolus. Uma chave mede os 240 mililitros de diferença entre os dois primeiros tetos. As duas primeiras condutas têm recomendação fraca e evidência de baixa qualidade; a de não infundir tem recomendação forte e evidência de alta qualidade.
A mesma criança de 12 quilos tem quatro tetos de volume na primeira hora, e a única conduta amparada por recomendação forte e evidência de alta qualidade é justamente a de não infundir bolus.

Evidência e limites do volume no choque séptico

A recomendação forte contra o bolus vem de um único ensaio. Ele randomizou 3.141 crianças africanas com infecção e perfusão comprometida para albumina humana a 5%, salina a 0,9% ou nenhum bolus. Os dois braços de bolus tiveram mortalidade maior que o braço sem bolus; entre albumina e salina não houve diferença, com risco relativo de 1,02 e intervalo de confiança de 95% de 0,8 a 1,28. É desse ensaio que sai, também, a recomendação contra albumina de rotina — e é curioso que o documento brasileiro de 2021 reproduza a conduta sem nomear o estudo uma única vez.

Duas construções do ensaio limitam o que ele pode afirmar, e a própria diretriz as declara. A primeira: crianças com gastroenterite foram excluídas, porque perda continuada de líquido tem de ser reposta. A segunda, mais decisiva: todas as crianças com hipotensão "grave" receberam 40 mL/kg de bolus — nenhuma foi alocada ao braço sem bolus. A diretriz escreve que, por isso, não se sabe se a fluidoterapia em bolus foi benéfica ou danosa nesse subgrupo.

Vale nomear o que cada exclusão comprou, porque só uma delas comprou algo. A exclusão da gastroenterite não inflou o sinal de dano: ela retirou do estudo justamente as crianças em que o volume é indiscutivelmente certo. O efeito é estreitar a regra, não fortalecê-la — e é por isso que a exceção aparece escrita no fluxograma brasileiro. Já a não randomização da hipotensão grave é o artefato que morde: o número de 40 mL/kg que a diretriz sugere para a criança hipotensa em serviço sem terapia intensiva foi tirado do volume que aquelas crianças receberam, num estrato sem grupo de comparação. O número não é fruto de uma medida de eficácia; é a descrição de um protocolo.

E há o número que mais assusta, que é o que menos se sustenta. Numa análise posterior, restrita às crianças com hipotensão "moderada" — as únicas efetivamente randomizadas —, o bolus não foi benéfico nem danoso: risco relativo de morte de 1,48, intervalo de 0,61 a 3,66, p de 0,41. No recorte das que preenchiam os três critérios de choque da Organização Mundial da Saúde — extremidades frias, enchimento capilar acima de 3 segundos e pulso fino e rápido —, a mortalidade foi de 48% nos grupos com bolus contra 20% no controle, sem significância estatística, com p de 0,07. Eram 72 crianças com hipotensão moderada, 2,3% da amostra, e 65 com os três critérios completos, 2%. Recalculando dos numeradores: 72 sobre 3.141 dá 2,29%, e a arredondamento para 2,3% confere; 65 sobre 3.141 dá 2,07%, que a mesma casa decimal escreveria 2,1% e o texto imprime como 2%. O contraste 48% contra 20% não pode ser recalculado: o texto não informa como as 65 crianças se dividiram entre bolus e controle, e nenhum par de inteiros plausível reproduz as duas porcentagens. Fica como está impresso, e não vira aritmética.

A inversão que a prova adora: "a criança que piorou depois do volume prova que o volume fez mal". Não prova. Piora após expansão é o curso natural do choque que não respondeu, e a distinção entre "piorou por causa do fluido" e "piorou apesar do fluido" não sai da beira do leito — sai de um braço de comparação, que é exatamente o que falta no estrato de onde o número de 40 mL/kg foi tirado.

Desidratação com choque: a exceção operacional

A frase de escape do fluxograma de 2021 é curta e é o ponto onde este capítulo encosta no de diarreia e desidratação: em serviço sem terapia intensiva e sem hipotensão, não se faz bolus, a não ser que a criança apresente sinais de desidratação ou perda hídrica, por exemplo diarreia. Essa exceção não é bom senso solto: é um critério de exclusão do ensaio, convertido em regra clínica.

A comparação com o Plano C desfaz uma intuição errada. Menina de 2 anos, 12 kg, desidratação grave por diarreia aguda: o Plano C manda 30 mL/kg em 30 minutos e depois 70 mL/kg em 2 horas e 30 minutos — 360 mL na primeira meia hora e 1.200 mL no total. O teto séptico do mesmo peso, em serviço sem terapia intensiva, é de 480 mL para a primeira hora inteira. A primeira etapa do Plano C corre a 720 mL por hora; o teto do choque séptico corre a 480 mL por hora. O protocolo que o aluno chama de conservador é o da diarreia, e ele é o mais rápido dos dois.

A leitura correta é que não são dois tetos disputando a mesma criança. São dois problemas: no choque séptico o vaso está vazando e o coração pode estar falhando, e o excesso de volume tem para onde ir errado; na desidratação por diarreia falta água no compartimento, e repor é devolver o que saiu. A pergunta que decide não é "quantos mL/kg", é de onde o líquido sumiu.

Vasoativos: quando começar e como escolher

Aqui mora um defeito de transcrição que muda a conduta. A diretriz de 2020 tem duas recomendações separadas e nenhuma delas é qualificada por padrão hemodinâmico: sugere usar epinefrina em vez de dopamina em crianças com choque séptico, com evidência de baixa qualidade, e sugere usar norepinefrina em vez de dopamina em crianças com choque séptico, com evidência de qualidade muito baixa. As duas frases terminam do mesmo jeito, em "crianças com choque séptico", sem adjetivo.

O documento brasileiro de 2021 reescreve assim: usar epinefrina em vez de dopamina em choque com baixo débito cardíaco; usar norepinefrina em vez de dopamina em choque hipotensivo. O qualificador não está na fonte. E ele reintroduz, na linha da droga, exatamente a categorização que o mesmo documento havia proibido três parágrafos antes — porque "baixo débito" e "hipotensivo" são, na cabeceira, o frio e o quente com outro nome. O próprio texto sente o atrito e emenda uma observação: a primeira medicação depende do padrão hemodinâmico, de fatores locais e do paciente, sendo que, na prática, epinefrina ou norepinefrina podem ser utilizadas.

O que sobra de firme, e o que a prova cobra: dopamina saiu de primeira linha nas duas situações; epinefrina e norepinefrina podem começar por veia periférica em concentração diluída, sem esperar acesso central; vasopressina entra quando as catecolaminas chegam a doses altas; e os inodilatadores não receberam recomendação. Na diretriz internacional consta ainda que a dopamina pode substituir as duas se nenhuma estiver prontamente disponível — o que é uma regra de disponibilidade, não de preferência.

O acesso é parte da droga. Se a punção periférica não sai de imediato, a via é intraóssea, que a própria diretriz descreve como rápida e eficaz e que serve para fluido, antimicrobiano e vasoativo. O antimicrobiano, no choque séptico, é de primeira hora, com recomendação forte; na sepse sem choque, sugere-se até três horas, com recomendação fraca, e as hemoculturas cedem a vez se atrasarem o antibiótico.

Escore Phoenix: como aplicar a disfunção orgânica

Volte ao menino de 3 anos com sistólica de 68 mmHg, e suponha diastólica de 30 mmHg. A pressão arterial média calculada pela fórmula do próprio documento é um terço de 68 somado a dois terços de 30: 22,7 + 20 = 42,7 mmHg. Na faixa de 2 a menos de 5 anos, o escore de Phoenix dá 0 ponto acima de 44, 1 ponto entre 32 e 44 e 2 pontos abaixo de 32. Ele pontua 1 no cardiovascular. A conversão fecha, e é bom conferi-la: uma sistólica que a régua do suporte avançado chama de hipotensão cai, na régua da média, na faixa intermediária — não na pior.

Só que 1 ponto cardiovascular, sozinho, dá escore total de 1. E sepse, por Phoenix, exige total de pelo menos 2. Sem disfunção respiratória, de coagulação ou neurológica, esse menino não preenche sepse e, portanto, não preenche choque séptico pelo critério de 2024 — enquanto continua hipotenso pela tabela do suporte avançado e continua elegível a volume pelo fluxograma de 2021. Um paciente, três documentos, dois rótulos opostos.

A reconciliação existe e está escrita em nota de rodapé do próprio documento: o escore de Phoenix não é proposto para triagem, nem para reconhecimento de possível sepse e tratamento antes das disfunções orgânicas. Ele é instrumento de definição e de epidemiologia, não gatilho de conduta. Daí a inversão que não se inverte: de "choque séptico exige Phoenix cardiovascular de pelo menos 1 ponto" não segue "Phoenix baixo autoriza esperar". A primeira frase é uma definição; a segunda seria uma decisão, e o documento recusa fazê-la.

O fluxograma diagnóstico do documento de 2024 tem, aliás, um deslize de transcrição que a aritmética entrega. A tabela define choque séptico como sepse com pelo menos 1 ponto no escore cardiovascular. A figura, na caixa correspondente, escreve "Escore Phoenix Total ≥1". Não pode ser o total: a caixa anterior já exigiu total de pelo menos 2 para chamar de sepse, e um ramo que pedisse total de pelo menos 1 depois disso não filtraria ninguém. Vale a tabela.

Duas outras leituras do mesmo documento pedem cuidado com a ordem dos números. Ele registra que crianças com disfunção orgânica distante do foco primário têm mortalidade maior que aquelas com disfunção do órgão primário, e imprime o par "8,0% vs 32,3%"; e que a mortalidade foi maior nos locais com recursos limitados, imprimindo "1,7% vs 6,1%". Nos dois casos o par vem na ordem inversa da frase que o introduz — o grupo citado primeiro carrega o número maior, que é o segundo do par. Quem lê o par pela posição inverte os dois achados. Quem lê pelo comparativo da frase acerta os dois.

Choque não séptico: hipovolêmico, distributivo e limites do capítulo

O choque hipovolêmico é o mais comum da infância e o mais direto: perda de volume por diarreia e vômito, por hemorragia no trauma, por plasma na queimadura extensa. O ponto que a prova explora é a compensação: a criança mantém pressão sistólica normal às custas de taquicardia e vasoconstrição por muito mais tempo que o adulto, e por isso hipotensão em criança é sinal tardio, não critério de entrada. Enchimento capilar prolongado, pulso periférico fino com central palpável, extremidades frias, taquicardia sem febre que a explique e queda do débito urinário abaixo de 1 mL/kg/hora chegam antes. A pressão de pulso estreita antes de a sistólica cair.

O choque distributivo entra por três portas na pediatria: séptico, anafilático e neurogênico. O anafilático tem capítulo próprio, e é lá que ficam a dose e a via da adrenalina intramuscular e os critérios diagnósticos; aqui basta a fronteira — choque com início em minutos após exposição, com urticária, angioedema ou broncoespasmo, é anafilaxia até prova em contrário, e adrenalina intramuscular vem antes de qualquer expansão. O neurogênico, raro na criança, acompanha lesão medular alta e é o único em que a taquicardia pode faltar: hipotensão com bradicardia e pele quente e seca abaixo do nível da lesão.

Fica fora deste capítulo, porque já está escrito: o pacote da primeira hora do adulto séptico, com os 30 mL/kg e a lista brasileira de disfunções; a sepse do recém-nascido nos primeiros dias de vida, com a janela de 36 a 48 horas da terapia empírica; o choque da dengue, com a régua própria de pressão de pulso e os planos de hidratação por gravidade; a anafilaxia; e a reanimação da parada, para onde esta criança vai se o choque não for revertido. O que este capítulo acrescenta é o intervalo entre o reconhecimento e a parada — a hora em que a decisão é quanto volume, por qual acesso, com qual droga, e sob qual das três réguas o serviço em que você está resolveu operar.

04

As três réguas, lado a lado

Nenhuma das três está errada. Elas respondem perguntas diferentes, e a prova pede que você reconheça qual delas o enunciado está usando antes de escolher o número.

  1. 1Reconhecer: alteração de consciência, perfusão anormal, taquicardia sem febre que a explique, débito urinário abaixo de 1 mL/kg/hora
  2. 2Acesso: periférico em duas tentativas; se falhar, intraósseo — serve para fluido, antibiótico e vasoativo
  3. 3Antibiótico: primeira hora no choque séptico (recomendação forte); hemocultura antes, desde que não atrase
  4. 4Perguntar de onde o líquido sumiu: perda externa evidente (diarreia, vômito, sangue, queimadura) muda a régua
  5. 5Volume: 10 a 20 mL/kg por bolus, com o teto definido pela existência de terapia intensiva no serviço e pela presença de hipotensão
  6. 6Reavaliar entre bolus: hepatomegalia, crepitações e piora respiratória interrompem a expansão
  7. 7Vasoativo se o choque persiste: epinefrina ou norepinefrina, por veia periférica diluída se o central não estiver pronto
  8. 8Vasopressina quando as catecolaminas chegam a doses altas; inodilatador sem recomendação formal

Hipotensão por idade — a mesma criança em três documentos

IdadeSuporte avançado pediátrico (manual SBP 2019)Campanha 2020, para fins da recomendação de fluidoPhoenix 2024 (pressão arterial média, 2 pontos)
0 a 1 mêssistólica < 60 mmHgsistólica < 50 mmHgmédia < 17 mmHg
1 a 12 mesessistólica < 70 mmHgsistólica < 50 mmHgmédia < 25 mmHg
1 a 2 anossistólica < 70 + (idade × 2) → 72 mmHg aos 12 mesessistólica < 60 mmHgmédia < 31 mmHg
2 a 5 anossistólica < 70 + (idade × 2) → 76 mmHg aos 3 anossistólica < 60 mmHgmédia < 32 mmHg
5 a 12 anossistólica < 70 + (idade × 2) até os 10 anossistólica < 70 mmHgmédia < 36 mmHg
Acima de 12 anossistólica < 90 mmHgsistólica < 70 mmHgmédia < 38 mmHg

Teto de volume na primeira hora — criança de 12 kg

CenárioRéguaVolume em 12 kgForça da recomendação
Serviço com terapia intensiva pediátrica, com ou sem hipotensão10-20 mL/kg por bolus, até 40-60 mL/kg480 a 720 mLFraca, evidência de baixa qualidade
Serviço sem terapia intensiva, com hipotensão10-20 mL/kg por bolus, até 40 mL/kg480 mLFraca, evidência de baixa qualidade
Serviço sem terapia intensiva, sem hipotensãoNão fazer bolus; iniciar manutenção0 mLForte, evidência de alta qualidade
Exceção escrita: desidratação ou perda hídrica (diarreia)Repor a perda; segue o plano de reidrataçãoPlano C: 100 mL/kg em 3 h = 1.200 mLExceção citada no fluxograma
OMS, citada dentro da própria diretriz de 202010-20 mL/kg em 30-60 min + 10 mL/kg em 30 min240 a 360 mLCitada, não recomendada pelo painel

Choque frio × choque quente na tabela de 2019 — sete linhas, quatro idênticas

SinalChoque quenteChoque frioDiscrimina?
PeleQuenteMarmórea e friaSim
Enchimento capilar< 2 s ou flush> 2 s, prolongadoSim
PulsosAmplosFinosSim
Frequência cardíacaTaquicardiaTaquicardiaNão
Nível de consciênciaIrritabilidade ou sonolênciaIrritabilidade ou sonolênciaNão
Débito urinário< 1 mL/kg/hora< 1 mL/kg/horaNão
Pressão arterialAdequada no início ou hipotensoAdequada no início ou hipotensoNão

A fórmula 70 + (idade em anos × 2) vale de 1 a 10 anos na tabela do suporte avançado; acima disso o corte é fixo em 90 mmHg.

A pressão arterial média do escore de Phoenix é a invasiva quando disponível; sem ela, o próprio documento manda calcular um terço da sistólica mais dois terços da diastólica.

O componente cardiovascular do escore de Phoenix pontua por três coisas independentes — droga vasoativa, lactato e pressão média —, e cada uma soma sozinha.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Categorizar o choque à beira do leito como frio ou quente

Categorização clínica governa a droga

Titular epinefrina de 0,05 a 0,3 µg/kg/min para choque frio, e titular norepinefrina a partir de 0,05 µg/kg/min para reverter choque quente, com dopamina como substituta quando a droga de escolha não estiver disponível.

Sociedade Brasileira de Pediatria, Departamento Científico de Terapia Intensiva. Manual de orientação 'Sepse grave e choque séptico pediátrico', 2019, algoritmo ACCM/PALS

Sinais de beira de leito não bastam

Sugere-se não utilizar apenas sinais clínicos de beira de leito para categorizar o choque séptico como quente ou frio, e sim variáveis clínicas somadas a parâmetros hemodinâmicos avançados — recomendação fraca, com evidência de qualidade muito baixa.

Surviving Sepsis Campaign, diretriz pediátrica de 2020, resumida pelo Documento Científico nº 6 da SBP (2021)

Na prova

O recorte se revela pelo verbo e pela data. Enunciado que descreve extremidades e enchimento capilar e pede a droga está no algoritmo de 2019 e espera epinefrina para o frio, norepinefrina para o quente. Enunciado que menciona monitorização hemodinâmica, débito cardíaco ou saturação venosa central está em 2020 e espera que os sinais de beira de leito não decidam sozinhos. Quando o enunciado oferece as duas drogas sem dar nenhum parâmetro avançado, a banca quase sempre está cobrando o algoritmo antigo — e a chave é que ele continua publicado.

Quanto volume na primeira hora, e quem decide o teto

Com terapia intensiva disponível

Sugere-se administrar até 40 a 60 mL/kg em bolus (10 a 20 mL/kg por bolus) ao longo da primeira hora, titulados a marcadores clínicos de débito cardíaco e interrompidos se surgirem sinais de sobrecarga — recomendação fraca, evidência de baixa qualidade.

Surviving Sepsis Campaign 2020, recomendação 17 (via PMC7095013) e fluxograma do Documento Científico nº 6 da SBP (2021)

Sem terapia intensiva e sem hipotensão

Recomenda-se contra a administração de bolus, iniciando fluidos de manutenção — recomendação forte, evidência de alta qualidade, a única desse grau no bloco de fluidoterapia.

Surviving Sepsis Campaign 2020, recomendação 18 (via PMC7095013)

A régua da OMS, citada na mesma página

A Organização Mundial da Saúde recomenda 10 a 20 mL/kg de cristaloide isotônico em 30 a 60 minutos, seguidos de mais 10 mL/kg em 30 minutos se não houver melhora — teto somado de 30 mL/kg, abaixo dos 40 mL/kg que a própria diretriz sugere para o mesmo cenário.

Surviving Sepsis Campaign 2020, texto de fundamentação da recomendação 19 (via PMC7095013)

Na prova

Repare em quem é o sujeito do enunciado. Se o cenário nomeia unidade de terapia intensiva pediátrica, sala de emergência de hospital terciário ou transferência já garantida, o teto cobrado é 40 a 60 mL/kg. Se o cenário é unidade de pronto atendimento, hospital de pequeno porte ou serviço rural, a pergunta muda de eixo: a banca quer saber se você percebe que a ausência de hipotensão, ali, proíbe o bolus. E quando o enunciado descreve diarreia com desidratação, o teto do choque séptico não é a régua — a régua é o plano de reidratação.

Qual definição de sepse e de choque séptico responder

Definição por SIRS e por resposta a volume

Sepse grave é sepse com disfunção de pelo menos um órgão; choque séptico é hipotensão persistente, não responsiva a volume, com o critério cardiovascular exigindo persistência apesar de mais de 40 mL/kg de salina na primeira hora.

Sociedade Brasileira de Pediatria, Manual de orientação 'Sepse grave e choque séptico pediátrico', 2019

Definição por escore de disfunção orgânica

Sepse é infecção suspeitada com escore de Phoenix de pelo menos 2 pontos; choque séptico é sepse com pelo menos 1 ponto no componente cardiovascular. O termo SIRS e o termo sepse grave não devem mais ser usados.

Sociedade Brasileira de Pediatria, Documento Científico nº 133, 23 de fevereiro de 2024, 'Diretrizes para Novas Definições de Sepse e Choque Séptico em Pediatria – 2024 Phoenix Sepsis Score'

Na prova

A palavra 'sepse grave' no enunciado é uma data disfarçada: ela só existe na régua anterior a 2024, e a alternativa que a trata como categoria válida costuma ser a esperada nesse tipo de questão. Enunciado que fornece escore, ou que cita Phoenix pelo nome, exige o total de pelo menos 2 pontos para sepse e pelo menos 1 ponto cardiovascular para choque. E enunciado que descreve critérios de resposta inflamatória sistêmica está cobrando o que o documento de 2024 manda abandonar — leia o comando antes de decidir se ele quer o certo ou o vigente.

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Caso resolvido

Menino de 3 anos, 14 kg, levado a uma unidade de pronto atendimento sem terapia intensiva pediátrica, com febre há dois dias e prostração desde a manhã. Está sonolento mas desperta ao chamado, com extremidades frias, enchimento capilar de 4 segundos, pulso radial fino e central palpável, frequência cardíaca de 168 bpm, frequência respiratória de 40 irpm, saturação de 95% em ar ambiente e pressão arterial de 68 × 30 mmHg. Sem diarreia, sem vômitos, sem exantema. Glicemia capilar 84 mg/dL.
Diga se ele é hipotenso, e por qual régua
Pela tabela do suporte avançado pediátrico, o corte aos 3 anos é 70 + (3 × 2) = 76 mmHg, e 68 mmHg está abaixo: hipotenso. Pela régua que a Campanha de 2020 usa para fins da recomendação de fluido, o corte de 1 a 5 anos é 60 mmHg, e 68 mmHg está acima: não hipotenso. As duas respostas são corretas dentro de seus documentos, e a distância entre elas é de 16 mmHg. Como a decisão de volume neste serviço depende da palavra hipotensão, é a régua da própria recomendação que governa aqui — e ela o coloca fora do braço hipotensivo.
Decida o volume, e diga o teto em mL
Serviço sem terapia intensiva pediátrica. Se ele for tratado como não hipotenso pela régua da recomendação, o braço aplicável é o de não fazer bolus e iniciar manutenção — a única recomendação forte com evidência de alta qualidade do bloco. Se for tratado como hipotenso, o teto é 40 mL/kg, ou 560 mL para 14 kg, em bolus de 10 a 20 mL/kg, isto é, 140 a 280 mL cada. Não existe cenário, neste serviço, em que 60 mL/kg (840 mL) seja o teto: esse número pressupõe terapia intensiva no local.
Diga o que faz enquanto a discussão do volume corre
Nada disso adia o resto. Acesso periférico em duas tentativas e, se falhar, intraósseo. Hemocultura se não atrasar, e antibiótico de amplo espectro dentro da primeira hora, que é recomendação forte no choque séptico. Oxigênio, monitorização, glicemia e cálcio conferidos. E acionamento da transferência: a decisão mais importante num serviço sem retaguarda não é o mililitro, é o telefonema.
Diga o que interrompe a expansão
Reavaliação entre bolus, não ao fim deles. Surgimento de hepatomegalia, crepitações à ausculta ou piora do desconforto respiratório interrompe a infusão, independentemente de quanto falta para o teto. O teto é limite superior, não meta a cumprir.
Escolha o vasoativo se o choque persistir
Epinefrina ou norepinefrina, e não dopamina. A diretriz não amarra a escolha ao padrão hemodinâmico — quem amarrou foi a tradução brasileira, acrescentando 'baixo débito' e 'hipotensivo' a frases que na fonte terminam em 'crianças com choque séptico'. Pode começar por veia periférica em concentração diluída, sem esperar o central.
07

Agora feche você

Menina de 2 anos, 12 kg, trazida a um hospital com terapia intensiva pediátrica por febre alta há três dias e recusa alimentar. Está irritada, com pele quente e hiperemiada, enchimento capilar de 1 segundo em flush, pulsos amplos, frequência cardíaca de 175 bpm e pressão arterial de 78 × 32 mmHg. Diurese de 0,4 mL/kg/hora nas últimas seis horas. Lactato de 5,4 mmol/L. Sem diarreia. Recebeu, até agora, nenhum fluido.
Classifique pelas três réguas, uma de cada vez
Diga se ela é hipotensa pela tabela do suporte avançado e pela régua da Campanha de 2020, mostrando a conta de cada uma. Depois calcule a pressão arterial média pela fórmula do documento de 2024 e diga quantos pontos ela soma no componente cardiovascular do escore de Phoenix, considerando também o lactato. Some o total e diga se ela preenche sepse e choque séptico pelo critério de 2024.
Dê o teto de volume em mL e a força da recomendação
Diga o teto que se aplica a este serviço, converta para mililitros no peso dela e informe o tamanho de cada bolus em mL. Diga qual é a força dessa recomendação e qual é a força da recomendação que se aplicaria se este mesmo hospital não tivesse terapia intensiva pediátrica e ela não estivesse hipotensa.
Enfrente a categorização
O quadro descrito é o retrato de livro do choque quente. Conte quantos dos sete sinais da tabela de 2019 realmente separam quente de frio e quantos são idênticos nas duas colunas. Depois diga o que o documento de 2021 recomenda sobre categorizar por sinais de beira de leito, com a força dessa recomendação, e o que ele sugere acrescentar.
Escolha o vasoativo e justifique sem usar a categoria
Diga qual droga você inicia se o choque persistir depois da expansão e por qual via, e explique por que a justificativa 'porque é choque quente' não vem da diretriz de 2020. Diga o que a diretriz escreve, literalmente, sobre epinefrina e norepinefrina em relação à dopamina.
08

Onde a banca derruba

  1. 1Tratar a ausência de hipotensão como ausência de choque A criança compensa por vasoconstrição e taquicardia por muito mais tempo que o adulto; a sistólica cai tarde. Enchimento capilar prolongado, pulso periférico fino com central palpável, extremidades frias e débito urinário abaixo de 1 mL/kg/hora definem choque com pressão normal. O erro clássico é dar alta ou postergar o acesso porque o manguito veio bom.
  2. 2Aplicar o teto de 40 a 60 mL/kg em qualquer serviço O teto de 40 a 60 mL/kg pressupõe terapia intensiva pediátrica disponível. Sem ela e sem hipotensão, a diretriz recomenda contra o bolus — e é a única recomendação forte, com evidência de alta qualidade, de todo o bloco de fluidos. Repetir o número maior num serviço sem retaguarda inverte a única certeza do capítulo.
  3. 3Achar que a proibição do bolus alcança a criança com diarreia O fluxograma escreve a exceção: desidratação ou perda hídrica, por exemplo diarreia, saem da regra. A origem é o próprio ensaio, que excluiu crianças com gastroenterite porque perda continuada tem de ser reposta. A criança do Plano C recebe volume mais rápido que o teto séptico, não mais devagar.
  4. 4Ler o par de porcentagens pela posição, e não pelo comparativo O documento de 2024 escreve que a mortalidade é maior no grupo citado primeiro e imprime o par com o número maior em segundo lugar — 8,0% contra 32,3% e 1,7% contra 6,1%. Quem lê pela ordem inverte os dois achados. A frase manda; o par vem na ordem do referencial.
  5. 5Usar o escore de Phoenix como gatilho para esperar O próprio documento registra em nota que o escore não é proposto para triagem nem para reconhecimento de possível sepse e tratamento antes das disfunções orgânicas. Ele define quem já tem disfunção; escore baixo não autoriza adiar antibiótico nem acesso na criança que está mal.
  6. 6Dar dopamina como primeira droga A diretriz de 2020 desloca a dopamina nas duas situações: sugere epinefrina em vez de dopamina e norepinefrina em vez de dopamina. A dopamina só volta como substituta quando nenhuma das duas estiver prontamente disponível — critério de disponibilidade, não de padrão hemodinâmico.
  7. 7Esperar o acesso central para começar o vasoativo As medicações vasoativas podem ser iniciadas por veia periférica em concentração diluída, e o acesso intraósseo serve para fluido, antibiótico e vasoativo. Segurar a droga até puncionar o central é perder a hora que a diretriz nomeia como a que muda o prognóstico.
  8. 8Concluir que o ensaio provou dano do bolus no choque hipotensivo Todas as crianças com hipotensão grave receberam 40 mL/kg — nenhuma foi alocada ao braço sem bolus. A diretriz escreve que, por isso, não se sabe se o bolus foi benéfico ou danoso nesse subgrupo. O número de 40 mL/kg descreve o protocolo daquele estrato, não mede a eficácia dele.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Trata-se de choque séptico FRIO (vasoconstrição: extremidades frias/moteadas, pulsos finos, TEC muito prolongado) REFRATÁRIO A VOLUME (persiste após 40–60 mL/kg). A conduta é iniciar droga vasoativa em infusão contínua; nas diretrizes atuais (Surviving Sepsis Campaign pediátrico), a ADRENALINA é a primeira linha no choque frio. Correta: Erra a noradrenalina é preferida no choque QUENTE (vasodilatado, pulsos amplos, TEC em flash), não no frio desta paciente. Erra: a dopamina deixou de ser vasoativo de primeira linha em pediatria — associa-se a pior desfecho comparada a adrenalina/noradrenalina. Erra: a paciente já recebeu 60 mL/kg e é refratária; insistir em bolus sem iniciar vasoativo retarda o tratamento e aumenta o risco de sobrecarga hídrica. Erra: dobutamina isolada não corrige a hipotensão por não ter ação vasopressora significativa — usada, quando indicada, como inotrópico associado após pressão restaurada.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Recite os números na ordem em que a questão os usa. Hipotensão aos 3 anos: 76 mmHg pela fórmula do suporte avançado, 60 mmHg pela régua da Campanha de 2020, 16 mmHg de diferença. Tetos de volume na primeira hora: 40 a 60 mL/kg com terapia intensiva, 40 mL/kg sem terapia intensiva e com hipotensão, zero sem terapia intensiva e sem hipotensão, e 30 mL/kg somados na régua da OMS citada na mesma diretriz. Para 12 kg: 480 a 720 mL, 480 mL, zero, 240 a 360 mL. Forças: fraca, fraca, forte com evidência alta. Bolus de 10 a 20 mL/kg. Phoenix: sepse com total de pelo menos 2, choque séptico com pelo menos 1 no cardiovascular, quatro sistemas, cardiovascular de 0 a 6. Tabela de 2019: sete linhas, quatro idênticas, três discriminam. Antibiótico na primeira hora no choque, até três horas na sepse sem choque.

em 30 dias

Refaça sem consultar as três contas que separam as réguas. Primeira: a fórmula 70 + (idade × 2) para 1, 3, 5 e 8 anos, e diga em cada idade se a criança com sistólica de 68 mmHg é hipotensa pela tabela do suporte avançado e pela régua da Campanha de 2020. Segunda: a conversão de pressão média — um terço da sistólica mais dois terços da diastólica — para 68 × 30 e para 78 × 32, e a pontuação de cada uma no escore de Phoenix aos 3 e aos 2 anos. Terceira: os quatro tetos de volume em uma criança de 8 kg e em uma de 20 kg, em mililitros, com a força de cada recomendação. Depois explique em voz alta, sem número, por que a única recomendação forte do bloco de fluidos é a que manda não infundir, e por que a criança com diarreia é a exceção escrita a ela.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Lactente de 11 meses, 9 kg, chega a uma unidade de pronto atendimento sem terapia intensiva pediátrica com febre há dois dias e sonolência. Extremidades frias, enchimento capilar de 4 segundos, pulso radial fino, frequência cardíaca de 190 bpm, pressão arterial de 66 × 30 mmHg, diurese ausente há oito horas. Conduza o atendimento: reconheça o choque sem depender do manguito, diga por qual régua esta criança é ou não hipotensa, escolha o acesso, decida o volume com o teto correto para este serviço e diga o que interrompe a expansão antes do teto. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Choque na criança — Preparatório para provas | OsceLabs