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Coma na criança: o que se mede primeiro, o que a imagem responde e o que ela nunca vai mostrar
Rebaixamento de consciência e coma na criança: a ordem do exame, a lesão que comprime e a encefalopatia que não aparece na imagem
Medir a consciência com a escala adaptada à idade, separar no leito a causa que comprime da causa que difunde, saber quando a tomografia precede a punção lombar e reconhecer a encefalopatia aguda com fígado grande cuja tomografia é normal.
Responda antes de ler
Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.
Em criança com trauma craniano, qual particularidade deve ser considerada na avaliação?
Como esse tema cai
Uma criança que estava bem não acorda. É a cena em que mais se erra por ordem, e não por conhecimento: quase todo mundo sabe a lista de causas, e quase ninguém a percorre na sequência que salva. A ordem certa começa antes do raciocínio diagnóstico, com via aérea, ventilação, circulação e glicemia capilar, e só então mede a consciência.
Medida a consciência, o exame do coma tem uma tarefa específica e limitada: dizer se a lesão comprime ou se ela difunde. Pupilas, reflexos de tronco, padrão respiratório e resposta motora ao estímulo doloroso respondem a essa pergunta em minutos, e é ela que decide entre acionar a neurocirurgia agora e procurar a causa no laboratório.
Este é também um dos poucos capítulos em que a imagem tem de ser entendida pelo que ela não mostra. Há uma encefalopatia aguda grave, com edema cerebral e risco de morte, cuja tomografia inicial pode ser inteiramente normal, e cujo diagnóstico se faz com três exames de sangue e uma pergunta sobre qual antitérmico foi dado em casa. O texto a seguir percorre a ordem do atendimento, a leitura do exame neurológico, a decisão sobre imagem e punção lombar, a via metabólica e a régua brasileira do salicilato na criança.
O que muda decisão
Antes de medir a consciência: as quatro coisas que vêm primeiro
Como usar este capítulo: primeiro estabilize ABCDE e meça glicemia; depois quantifique a consciência conforme a idade e separe sinais focais de disfunção difusa. Trate as causas tempo-dependentes antes de esperar pela imagem e use os exames para responder à hipótese construída no leito.
O rebaixamento de consciência é, ele próprio, uma ameaça à via aérea, porque a criança perde o tônus faríngeo e os reflexos protetores. Por isso a primeira decisão não é diagnóstica: é se essa criança consegue manter a própria via aérea. Pontuação baixa na escala de coma, ausência de reflexo de tosse à aspiração, vômito com risco de aspiração e padrão respiratório irregular são indicações de proteção da via aérea, e a intubação não espera o diagnóstico.
A segunda é a ventilação. A hipóxia e a hipercapnia pioram qualquer lesão cerebral: a primeira por falta de oferta, a segunda porque a elevação do gás carbônico dilata o leito vascular encefálico e aumenta o volume dentro de uma caixa fechada. A meta é normóxia e normocapnia, e não hiperventilação profilática, que reduz fluxo e produz isquemia onde o tecido já está sofrendo.
A terceira é a circulação. A perfusão cerebral depende da pressão arterial média menos a pressão intracraniana, e a hipotensão em criança com lesão encefálica é catastrófica porque zera essa diferença. Corrigir hipotensão vem antes de qualquer preocupação com sobrecarga, e o soro de escolha é isotônico — soluções hipotônicas agravam o edema.
A quarta é a glicemia capilar, e ela é a única que se faz enquanto as outras acontecem. A hipoglicemia é causa reversível de coma, é frequente na criança pequena por reserva hepática menor e produz lesão em minutos. Colher glicemia e corrigir de imediato é regra sem exceção, e o mesmo vale para a coleta de uma amostra de sangue antes da correção quando há suspeita de erro do metabolismo, porque depois da glicose o quadro laboratorial se apaga.
Completam essa fase três medidas simples e frequentemente esquecidas: medir a temperatura, porque tanto a febre quanto a hipotermia entram no diagnóstico e a febre piora o dano; garantir acesso venoso calibroso; e retirar a roupa para inspecionar a pele inteira, procurando petéquias, sinais de trauma, marcas de aplicação e lesões em locais improváveis.
Medir a consciência com a régua da idade
A escala de coma clássica avalia três domínios — abertura ocular, resposta verbal e resposta motora — e soma de três a quinze pontos. O problema é que a resposta verbal foi construída para quem já fala em frases estruturadas, e por isso a versão original não se aplica bem abaixo dos cinco anos.
A versão pediátrica modifica exatamente esse domínio. No lactente, avaliam-se o choro e a interação em lugar da fala: balbucia ou sorri e acompanha, como resposta plena; choro irritável, como resposta reduzida; choro apenas à dor; gemido à dor; e ausência de som. A abertura ocular e a resposta motora seguem a mesma lógica da versão original, com a motora adaptada para movimento espontâneo e retirada ao toque nas faixas menores.
A leitura do resultado é o que interessa. Pontuação de treze a quinze indica alteração leve ou ausente, com vigilância; de nove a doze, alteração moderada, que exige investigação e observação intensiva; e oito ou menos define coma e é o limiar clássico de indicação de proteção de via aérea. Esse número é o que aparece em quase toda decisão de conduta.
Três cuidados evitam erro de medida. O primeiro é registrar a pontuação por domínio, e não apenas a soma: dois pacientes com nove pontos podem ter situações neurológicas completamente diferentes, e é o componente motor o que mais se relaciona ao prognóstico. O segundo é registrar o horário de cada medida, porque o que decide conduta é a tendência e não o valor isolado. O terceiro é anotar o que impede a avaliação — sedação, bloqueio neuromuscular, tubo, edema palpebral — em vez de atribuir a pontuação mínima.
Para triagem rápida, antes de calcular a escala, serve a régua de quatro níveis: alerta, responde à voz, responde à dor, não responde. Ela é grosseira e útil na porta, mas não substitui a medida formal, que é a que se repete e se compara.
O exame que localiza: pupilas, tronco, respiração e postura
Feita a medida, o exame neurológico do coma tem quatro estações, e todas respondem à mesma pergunta: a lesão comprime ou difunde?
As pupilas vêm primeiro. Isocóricas e fotorreagentes apontam para causa difusa, metabólica ou tóxica, e o achado é tranquilizador quanto a compressão. Anisocoria com uma pupila dilatada e pouco reativa, em criança com consciência rebaixada, é compressão do terceiro nervo craniano por deslocamento de estrutura temporal e configura emergência neurocirúrgica. Miose puntiforme com reação preservada aponta para lesão de ponte ou para efeito de opioide. Midríase fixa bilateral indica sofrimento grave e, quando não há droga em jogo, é achado de mau prognóstico.
Os reflexos de tronco vêm depois e ordenam a gravidade de cima para baixo: fotomotor, corneopalpebral, oculocefálico e reflexo de tosse. A pesquisa do reflexo oculocefálico exige coluna cervical liberada e não se faz diante de suspeita de trauma. A perda progressiva desses reflexos, no sentido rostrocaudal, é o que caracteriza a deterioração por compressão.

O padrão respiratório acrescenta topografia. A respiração periódica, que cresce e decresce com pausas, sugere sofrimento difuso dos hemisférios; a hiperpneia sustentada, o mesencéfalo; e o padrão irregular e caótico, o bulbo, que antecede a parada respiratória. Em criança, esses padrões são menos nítidos que no adulto e não devem ser forçados dentro de categorias — o que importa é reconhecer irregularidade como sinal de tronco comprometido.
A resposta motora ao estímulo doloroso fecha o exame e deve ser testada nos quatro membros, com estímulo central. Localizar o estímulo é melhor que retirar; retirar é melhor que flexão anormal; flexão anormal é melhor que extensão. A assimetria entre os dimídios é o achado que mais localiza, e postura em extensão indica sofrimento de tronco.
Comprime ou difunde: três perguntas que decidem
A separação entre lesão estrutural e encefalopatia difusa organiza toda a conduta seguinte, e ela se faz com três perguntas.
A primeira é sobre assimetria. Qualquer achado assimétrico — pupila, força, tônus, reflexo, postura — empurra fortemente para lesão estrutural. Encefalopatia metabólica e intoxicação produzem comprometimento simétrico, e é por isso que a anisocoria pesa tanto.
A segunda é sobre a ordem em que as coisas falharam. Na lesão que comprime, a consciência cai e os reflexos de tronco se perdem em sequência, de cima para baixo, num quadro que progride. Na encefalopatia difusa, os reflexos de tronco costumam ser preservados até muito tarde, mesmo com consciência profundamente rebaixada — um paciente sem resposta motora e com fotomotor e corneopalpebral intactos está dizendo que a causa provavelmente não é compressiva.
A terceira é sobre o modo de instalação. Súbito, com cefaleia intensa em criança maior, aponta para evento vascular. Progressivo em horas, com febre, aponta para infecção do sistema nervoso central. Progressivo em horas a poucos dias, com vômitos e alteração de comportamento após quadro viral, aponta para causa metabólica ou tóxica. Flutuante, com melhora e piora, sugere intoxicação ou crises subclínicas.
Há uma quarta pergunta que não localiza, mas muda tudo: houve trauma? A resposta importa duplamente. Trauma craniano explica o quadro e organiza a conduta; e trauma negado diante de achados incompatíveis com o relato — hematomas em estágios diferentes, lesão retiniana, fratura sem mecanismo — levanta a hipótese de violência, que é diagnóstico diferencial de coma na criança pequena e obriga notificação.
Herniação em curso: o que se faz nos próximos cinco minutos
Alguns achados não pedem investigação: pedem tratamento imediato enquanto a investigação corre. São eles a anisocoria de instalação recente, a deterioração rápida da pontuação motora, a postura em extensão e a tríade de hipertensão arterial com bradicardia e respiração irregular, que é achado tardio e grave.
Diante deles, cinco medidas acontecem em paralelo. Elevar a cabeceira a cerca de trinta graus com a cabeça em posição neutra, para facilitar a drenagem venosa — colar cervical apertado e cabeça rodada aumentam a pressão intracraniana por obstrução de retorno jugular. Garantir via aérea protegida com sedação e analgesia adequadas, porque dor, agitação e tosse elevam a pressão. Manter normocapnia, reservando hiperventilação breve apenas como ponte de minutos até a medida definitiva.
A quarta é a terapia osmótica, indicada diante de sinal de herniação: solução salina hipertônica ou manitol, com atenção à volemia e à natremia, e sempre como ponte para a resolução da causa. A quinta é acionar a neurocirurgia imediatamente, porque a medida que resolve é a retirada da massa, do sangue ou a derivação do líquido.
Duas medidas de suporte entram junto e são frequentemente esquecidas. O controle da temperatura, evitando febre, porque cada grau acima do normal aumenta o consumo cerebral de oxigênio. E o controle da glicemia, evitando tanto a hipoglicemia quanto a hiperglicemia, que piora o desfecho neurológico.
Fecha a lista a vigilância de crises subclínicas. Criança em coma pode estar convulsionando sem manifestação motora visível, sobretudo depois de sedação e bloqueio neuromuscular, e a crise mantida agrava a lesão. Quando a consciência não corresponde ao esperado pela lesão observada, a monitorização eletroencefalográfica contínua responde a essa pergunta e a introdução de anticonvulsivante entra no plano.
Tomografia antes da punção lombar, e o antibiótico antes das duas
A criança com rebaixamento de consciência e febre coloca duas condutas em rota de colisão: a punção lombar, que dá o diagnóstico da infecção do sistema nervoso central, e a tomografia, que exclui a lesão que contraindica a punção.
A regra de segurança é conhecida: diante de sinais de hipertensão intracraniana ou de lesão expansiva — consciência rebaixada de forma significativa, déficit neurológico focal, papiledema, crise convulsiva de início recente com déficit persistente, postura anormal —, a imagem precede a punção, porque a retirada de líquido abaixo de uma massa favorece o deslocamento de estruturas.
A regra que a atropela é igualmente firme: o antibiótico não espera. Diante de suspeita de meningite bacteriana, colhe-se hemocultura e inicia-se antimicrobiano empírico de imediato, antes da imagem e antes da punção, porque cada hora de atraso piora o desfecho e a punção feita depois ainda é informativa pelo estudo bioquímico e citológico, mesmo que a cultura perca sensibilidade.
A síntese prática é uma ordem, e ela cabe em uma frase: estabilizar, colher hemocultura, iniciar antibiótico, fazer a imagem, e puncionar quando a imagem liberar. Inverter qualquer par dessa sequência produz um erro clássico — puncionar antes da imagem em criança com sinal focal, ou atrasar o antibiótico esperando a vaga da tomografia.
Vale lembrar o que a tomografia não faz nesse cenário. Ela não afasta meningite, não afasta encefalite e não afasta hipertensão intracraniana difusa, que pode existir com imagem sem massa. Ela responde à pergunta cirúrgica do momento: há massa, há sangue, há hidrocefalia, há desvio de linha média. A decisão de puncionar continua sendo clínica, e uma tomografia normal em criança com deterioração progressiva não autoriza a punção.
Quando a imagem é normal: a via metabólica e tóxica
Uma parte considerável das crianças em coma tem tomografia normal, e é aí que o raciocínio precisa mudar de lugar. A causa deixou de ser um problema de espaço e passou a ser um problema de química.
O painel inicial é curto e responde à maioria: glicemia, eletrólitos com sódio e cálcio, função renal, gasometria com lactato, transaminases, bilirrubinas, coagulograma e amônia. A amônia é a que mais se esquece e a que mais muda conduta, porque a hiperamonemia produz encefalopatia progressiva com edema cerebral e tem tratamento próprio e urgente.
A dosagem de amônia tem armadilha pré-analítica que precisa ser conhecida: a amostra deve ser colhida sem garroteamento prolongado, sem que a criança chore ou faça esforço muscular no momento da coleta, transportada resfriada e processada rapidamente, porque a demora eleva falsamente o valor. Um resultado alto em criança com quadro compatível não deve ser descartado como erro sem repetição adequada, e um valor muito alto exige ação enquanto se repete.
A via tóxica entra em paralelo e exige pergunta ativa. O que existe na casa, na bolsa da mãe e na casa de quem cuidou da criança naquele dia; se há medicação de uso contínuo de algum adulto; se a cartela pode ser trazida com contagem dos comprimidos que faltam. Antiepilépticos, sedativos, anti-histamínicos, álcool em qualquer forma doméstica, antidepressivos e medicamentos cardiológicos de adulto aparecem repetidamente. O serviço regional de informação toxicológica orienta o que dosar e o que administrar no agente específico.
Fecham o painel a triagem de infecção sistêmica, o rastreio de erro do metabolismo em criança pequena com episódios semelhantes prévios ou óbito infantil inexplicado na família, e a função tireoidiana e adrenal quando o contexto sugere. Em todos os casos, colher uma amostra crítica antes de corrigir a glicemia é o que preserva a possibilidade de diagnóstico metabólico.
A encefalopatia com fígado grande e sem icterícia
Existe um quadro que reúne três características incomuns e que, por isso, é reconhecível: encefalopatia aguda progressiva, fígado aumentado, e comprometimento hepático laboratorial sem icterícia.
A sequência típica começa com uma doença viral banal — quadro gripal ou exantema vesicular —, que parecia estar melhorando. Instalam-se então vômitos incoercíveis, e em seguida a alteração do comportamento: agitação, confusão e irritabilidade, evoluindo para sonolência e depois para coma, com postura anormal nas fases avançadas.
O laboratório é característico. Amônia elevada, transaminases elevadas em geral várias vezes o limite superior, hipoglicemia, alargamento do tempo de protrombina, e bilirrubinas normais ou minimamente alteradas — é essa dissociação entre lesão hepática evidente e ausência de icterícia que separa o quadro de uma hepatite grave. A imagem do encéfalo pode ser normal no início e mostrar apenas edema difuso depois, sem lesão focal.
O tratamento é de suporte e agressivo, e as prioridades são três: corrigir a hipoglicemia e manter infusão contínua de glicose em taxa alta, porque a criança está sem substrato; proteger o encéfalo com via aérea garantida, normocapnia, cabeceira elevada, controle de temperatura e terapia osmótica quando há sinal de herniação; e corrigir a coagulopatia conforme o sangramento, com vitamina K e hemocomponentes. Diante de hiperamonemia refratária, entram a restrição proteica e a discussão de terapia de substituição renal com a nefrologia.
O diagnóstico diferencial é obrigatório e inclui hepatite viral fulminante, intoxicação por paracetamol, encefalite herpética, intoxicação pelo próprio salicilato e, sobretudo em criança pequena com episódios prévios, os distúrbios da betaoxidação de ácidos graxos e do ciclo da ureia — que podem produzir quadro idêntico e exigem perfil de acilcarnitinas e ácidos orgânicos urinários.
A régua brasileira do salicilato na criança, e a exceção que ela tem
A associação entre salicilato e essa encefalopatia é a razão pela qual esse fármaco saiu do arsenal antitérmico pediátrico, e as normas brasileiras registram a restrição em dois lugares, com duas idades diferentes.
O protocolo federal de manejo clínico e vigilância epidemiológica da influenza lista, entre as condições e fatores de risco para complicação, os indivíduos menores de dezenove anos em uso prolongado de ácido acetilsalicílico, com a menção expressa ao risco dessa encefalopatia. Repare no sentido dessa entrada: nesse documento, a criança em uso crônico do fármaco não aparece apenas como alguém a quem não se deve dar salicilato — ela aparece como grupo de risco para complicação da influenza, o que a torna candidata a tratamento antiviral.
O alerta da agência reguladora nacional, publicado em 2009, usa outra idade: recomenda que se considere contraindicado o uso de salicilatos em menores de dezoito anos em casos suspeitos ou confirmados de infecção por vírus influenza, orienta os profissionais a alertar pacientes e a notificar a suspeita da reação adversa, e recomenda aos usuários que confiram na embalagem e na bula os princípios ativos, porque o salicilato aparece em associações e em produtos de venda livre sem que a família perceba.
A diferença de um ano entre os dois documentos não muda a conduta prática, e a conduta prática é a mesma nos dois: não usar salicilato como antitérmico ou analgésico em criança e adolescente com doença viral. O antitérmico de escolha na criança é outro, e a pergunta obrigatória na anamnese de qualquer encefalopatia aguda pós-viral é qual medicamento foi dado em casa, nominalmente, incluindo o que a avó ou o vizinho ofereceram.
Existe, porém, uma exceção importante e que costuma ser cobrada: há uma vasculite febril da infância em que o salicilato é prescrito à criança, em dose anti-inflamatória na fase aguda e em dose antiagregante depois, para proteção coronariana. Nela o balanço de risco é outro, o uso é indicado e monitorado, e a família deve ser orientada sobre vacinação contra varicela e influenza e sobre o que fazer se a criança adoecer com essas viroses durante o uso.
Metas do cuidado depois da estabilização
Estabilizada a criança e identificada a causa, o cuidado passa a ser de manutenção de um ambiente que não piore o encéfalo, e ele se organiza por metas explícitas.
Oxigenação e ventilação: manter saturação adequada e gás carbônico na faixa normal, evitando tanto a hipercapnia, que aumenta o volume sanguíneo cerebral, quanto a hipocapnia sustentada, que reduz fluxo. Pressão arterial: manter na faixa normal ou discretamente acima para a idade, porque a perfusão cerebral depende dela, e evitar quedas bruscas com sedação ou com diurético.
Temperatura: evitar febre de forma ativa, com antitérmico e medidas físicas. Glicemia: manter em faixa normal, corrigindo a hipoglicemia rapidamente e evitando o excesso. Sódio: manter normonatremia ou natremia discretamente elevada quando há edema, e evitar soluções hipotônicas, que agravam o edema por gradiente osmótico.
Posição e sedação: cabeceira elevada com cabeça neutra, ambiente com estímulos reduzidos, sedação e analgesia suficientes para evitar picos de pressão com aspiração e mobilização, mas não tão profundas que impeçam a avaliação neurológica seriada, que continua sendo o principal monitor.
Duas coisas continuam obrigatórias enquanto a criança estiver em coma: a reavaliação neurológica programada, com pontuação registrada por domínio e por horário, e a comunicação com a família, que precisa de informação repetida, honesta e sem promessa de desfecho. A gravidade deve ser dita desde a primeira conversa, porque a família que só ouve tranquilização não consegue acompanhar a deterioração quando ela vem.
Quando o coma não reverte: a régua nacional em pediatria
Há um ponto do cuidado em que a pergunta deixa de ser sobre tratamento e passa a ser sobre determinação de morte encefálica, e no Brasil essa determinação tem norma nacional própria, com regras específicas para crianças.
Os procedimentos se iniciam em todo paciente que apresente coma não perceptivo, ausência de reatividade supraespinhal e apneia persistente, e exigem que se tenham afastadas as condições que imitam esse quadro: hipotermia, distúrbio metabólico grave, intoxicação e efeito de sedativos e bloqueadores neuromusculares. São realizados dois exames clínicos, cada um por um médico diferente, ambos especificamente capacitados para o procedimento, além do teste de apneia e de um exame complementar que demonstre ausência de atividade encefálica.
O que muda em pediatria é a idade mínima e o intervalo entre os dois exames. A determinação só se aplica a partir de sete dias completos de vida, ou seja, do recém-nascido a termo com uma semana. O intervalo mínimo entre o primeiro e o segundo exame clínico varia por faixa: de sete dias completos até dois meses incompletos, vinte e quatro horas; de dois a vinte e quatro meses incompletos, doze horas; e a partir de dois anos de idade, uma hora, o mesmo intervalo aplicado ao adulto.
A razão do intervalo maior nas faixas menores é biológica: o encéfalo imaturo tem maior capacidade de recuperação e maior variabilidade de resposta, o que exige um período de observação mais longo antes de afirmar a irreversibilidade. Conhecer esses números importa porque eles são o que organiza a comunicação com a família sobre prazos e sobre o que será feito e quando.
Vale dizer o que essa régua não é. Ela não é um critério de limitação de esforço terapêutico, que é decisão distinta e tomada por outros fundamentos; e ela não se aplica antes dos sete dias de vida, faixa em que a determinação por esses critérios não está prevista. Ambas as distinções aparecem em situações práticas e costumam ser confundidas.
Da porta ao diagnóstico: estabilizar, medir, localizar, decidir a imagem
O roteiro abaixo é o dos primeiros trinta minutos. Ele não fecha diagnóstico: decide o que proteger agora, o que a imagem responde e por onde a investigação continua quando a imagem vem normal.
- 1Avalie via aérea e decida a proteção: pontuação de coma igual ou menor que oito, ausência de reflexo de tosse, vômitos ou padrão respiratório irregular indicam intubação.
- 2Garanta normóxia e normocapnia. Hiperventilação profilática reduz fluxo e produz isquemia; ela é ponte de minutos, não tratamento.
- 3Corrija hipotensão com solução isotônica: a perfusão cerebral depende da pressão arterial média menos a pressão intracraniana.
- 4Meça a glicemia capilar imediatamente e corrija. Colha amostra crítica antes da correção se houver suspeita de erro do metabolismo.
- 5Meça temperatura, obtenha acesso venoso e inspecione a pele inteira procurando petéquias, sinais de trauma e lesões em locais improváveis.
- 6Aplique a escala de coma na versão adaptada à idade, registrando a pontuação por domínio e o horário de cada medida.
- 7Examine pupilas, reflexos de tronco, padrão respiratório e resposta motora nos quatro membros com estímulo central.
- 8Responda às três perguntas: há assimetria? os reflexos de tronco falharam em sequência? qual foi o modo de instalação?
- 9Sinal de herniação: cabeceira a trinta graus com cabeça neutra, sedação e analgesia, normocapnia, terapia osmótica e neurocirurgia acionada agora.
- 10Suspeita de meningite: hemocultura e antibiótico empírico imediatos; imagem antes da punção quando há sinal focal ou hipertensão intracraniana.
- 11Imagem normal: painel metabólico com glicemia, eletrólitos, função renal, gasometria com lactato, transaminases, bilirrubinas, coagulograma e amônia.
- 12Pergunte nominalmente por todo medicamento dado em casa e por tudo que existe ao alcance da criança; acione o serviço de informação toxicológica.
- 13Consciência que não corresponde à lesão observada: monitorize o eletroencefalograma pela possibilidade de crises sem manifestação motora.
O que vem antes de medir
Via aérea, ventilação com normocapnia, circulação com solução isotônica e glicemia capilar. A hipoglicemia é causa reversível de coma e produz lesão em minutos. Amostra crítica colhida antes da correção preserva o diagnóstico metabólico, que a glicose apaga.
Comprime × difunde
Comprime: assimetria de pupila, força, tônus ou postura; perda de reflexos de tronco em sequência de cima para baixo; quadro progressivo. Difunde: comprometimento simétrico e reflexos de tronco preservados até tarde, mesmo com consciência profundamente rebaixada.
Encefalopatia com fígado grande
Virose que melhorava, vômitos incoercíveis, agitação que vira sonolência e coma. Fígado aumentado, amônia elevada, transaminases elevadas, hipoglicemia, coagulopatia e bilirrubinas normais. Tomografia inicial pode ser normal. Pergunte nominalmente o antitérmico usado em casa.
Achados do exame do coma e o que cada um indica
| Estação do exame | Achado | O que sugere | Decisão que dispara |
|---|---|---|---|
| Pupilas | Isocóricas e fotorreagentes | Causa difusa, metabólica ou tóxica | Painel metabólico e busca ativa de exposição |
| Pupilas | Anisocoria com midríase pouco reativa | Compressão do terceiro nervo por deslocamento temporal | Terapia osmótica e neurocirurgia imediatas |
| Pupilas | Miose puntiforme com reação preservada | Lesão de ponte ou efeito de opioide | Considerar antagonista e imagem |
| Reflexos de tronco | Perda progressiva no sentido rostrocaudal | Deterioração por compressão | Medidas de neuroproteção e imagem imediata |
| Respiração | Padrão irregular e caótico | Sofrimento bulbar, antecede parada respiratória | Proteção de via aérea sem espera |
| Motora | Postura em extensão ou assimetria entre dimídios | Sofrimento de tronco ou lesão estrutural | Imagem imediata e acionamento neurocirúrgico |
Números lidos diretamente nos documentos citados
| Número | O que ele mede | Fonte |
|---|---|---|
| 8 ou menos | Pontuação na escala de coma que define coma e limiar de proteção de via aérea | Uso consolidado, reproduzido em protocolos de atendimento pediátrico |
| Menores de 19 anos | Faixa em uso prolongado de ácido acetilsalicílico listada como fator de risco para complicação da influenza | Protocolo de manejo clínico e vigilância epidemiológica da influenza, Ministério da Saúde |
| Menores de 18 anos | Faixa em que o uso de salicilatos é considerado contraindicado em suspeita ou confirmação de influenza | Alerta SNVS/ANVISA/NUVIG/GGFARM nº 1, de 8 de julho de 2009 |
| 7 dias completos | Idade mínima para aplicação dos procedimentos de determinação de morte encefálica | Resolução do Conselho Federal de Medicina nº 2.173, de 23 de novembro de 2017 |
| 24 horas | Intervalo mínimo entre os dois exames clínicos de 7 dias completos a 2 meses incompletos | Mesma resolução |
| 12 horas | Intervalo mínimo entre os dois exames clínicos de 2 a 24 meses incompletos | Mesma resolução |
| 1 hora | Intervalo mínimo entre os dois exames clínicos a partir de 2 anos de idade | Mesma resolução |
| 2 exames clínicos | Número de exames clínicos exigidos, cada um por médico diferente especificamente capacitado | Mesma resolução |
Tomografia normal não afasta meningite, encefalite nem hipertensão intracraniana difusa. Ela responde à pergunta cirúrgica: massa, sangue, hidrocefalia, desvio de linha média.
Na encefalopatia aguda com fígado aumentado, a tomografia inicial pode ser normal e o diagnóstico se faz com amônia, transaminases, glicemia e coagulograma.
Amônia colhida com garroteamento prolongado, com a criança chorando ou com transporte demorado vem falsamente elevada; valor alto em quadro compatível exige ação enquanto se repete.
Onde as fontes divergem
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.
Menores de dezenove anos, e como grupo de risco
O protocolo federal de manejo clínico e vigilância epidemiológica da influenza inclui, no rol de condições e fatores de risco para complicação, os indivíduos menores de dezenove anos de idade em uso prolongado de ácido acetilsalicílico, com menção expressa ao risco da encefalopatia associada. A entrada aparece na mesma lista de pneumopatias, cardiopatias, imunossupressão, obesidade e população indígena aldeada — ou seja, o documento trata essa criança como candidata a tratamento antiviral, e não apenas como alguém a quem não se dá o fármaco.
Ministério da Saúde, Secretaria de Vigilância em Saúde. Protocolo de tratamento de influenza — item de condições e fatores de risco para complicações
Menores de dezoito anos, como contraindicação formal
O alerta da agência reguladora nacional publicado em 8 de julho de 2009 recomenda considerar contraindicado o uso de salicilatos em menores de dezoito anos de idade em casos suspeitos ou confirmados de infecção por vírus influenza, solicita aos profissionais de saúde que orientem os pacientes e notifiquem a suspeita da reação adversa, e recomenda aos usuários de medicamentos que confiram na embalagem e na bula os princípios ativos, porque o salicilato aparece em associações e em produtos de venda livre.
Alerta SNVS/ANVISA/NUVIG/GGFARM nº 1, de 8 de julho de 2009 — ácido acetilsalicílico e encefalopatia associada
A vasculite em que o salicilato é prescrito à criança
Há uma vasculite febril da infância cujo tratamento inclui o próprio salicilato, em dose anti-inflamatória na fase aguda e em dose antiagregante na fase de convalescença, para proteção coronariana, com uso mantido por meses quando há alteração de artérias coronárias. Nesse contexto o balanço de risco é outro, o uso é indicado e monitorado, e a conduta acessória é orientar a família sobre vacinação contra varicela e influenza e sobre o que fazer se a criança adoecer com essas viroses durante o tratamento.
Recomendações de manejo da doença de Kawasaki reproduzidas em protocolos de reumatologia e de cardiologia pediátrica
Na prova
Enunciado que pergunta a faixa etária de restrição pode cobrar dezoito ou dezenove anos conforme o documento de referência, e o par de números é a pista de qual norma está sendo usada: dezenove aparece no protocolo de influenza como fator de risco; dezoito aparece no alerta regulatório como contraindicação. Enunciado que descreve criança com virose e febre e oferece salicilato como antitérmico cobra a proibição, e nele a idade exata é irrelevante. Já enunciado que descreve febre prolongada com conjuntivite não exsudativa, alterações de mucosa oral, exantema, alterações de extremidades e linfonodomegalia cervical está cobrando a exceção, e nele o salicilato é a resposta esperada.
A imagem precede a punção quando há sinal de risco
A regra de segurança amplamente adotada é que, diante de consciência significativamente rebaixada, déficit neurológico focal, papiledema, crise convulsiva recente com déficit persistente ou postura anormal, a tomografia precede a punção lombar, porque a retirada de líquido abaixo de uma lesão expansiva favorece o deslocamento de estruturas. Uma tomografia normal, contudo, não autoriza automaticamente a punção em criança com deterioração progressiva: a decisão permanece clínica.
Recomendações de segurança para punção lombar reproduzidas em protocolos de emergência pediátrica e em manuais de atendimento ao paciente com rebaixamento de consciência
O antimicrobiano não espera nenhuma das duas
A régua de vigilância e manejo das meningites bacterianas é firme quanto ao tempo: colhida a hemocultura, o antimicrobiano empírico é iniciado de imediato diante da suspeita, sem aguardar a imagem e sem aguardar a punção, porque o atraso piora o desfecho. A punção realizada depois do início do antimicrobiano continua informativa pelos parâmetros bioquímicos e citológicos, ainda que a cultura perca sensibilidade.
Ministério da Saúde. Guia de Vigilância em Saúde — capítulo de meningites, itens de conduta diante de caso suspeito e de coleta de material
Na prova
As duas posições não competem: elas ordenam ações diferentes na mesma cena, e o enunciado costuma testar exatamente a ordem. A sequência que responde é estabilizar, colher hemocultura, iniciar o antimicrobiano, fazer a imagem e puncionar quando a imagem liberar. Alternativa que coloque a punção antes da imagem em criança com déficit focal está errada por segurança; alternativa que adie o antimicrobiano até a punção ou até a vaga da tomografia está errada por tempo. Enunciado que descreve criança febril, alerta, sem déficit e sem sinal de hipertensão intracraniana não exige imagem prévia, e nele a punção imediata é a conduta.
Caso resolvido
- o que se fez primeiro
- Via aérea avaliada com pontuação nove e vômitos persistentes, com decisão de proteção diante de qualquer nova queda; normóxia e normocapnia asseguradas; acesso venoso; e correção imediata da hipoglicemia, com coleta de amostra crítica antes da glicose por se tratar de criança com encefalopatia de causa não estabelecida.
- comprime ou difunde
- Pupilas isocóricas e fotorreagentes, reflexos de tronco preservados, ausência de déficit focal e de assimetria apontam para causa difusa. Reflexos de tronco intactos com consciência muito rebaixada é justamente o padrão que afasta compressão e desloca a investigação para o laboratório.
- o que a imagem respondeu
- A tomografia respondeu à pergunta cirúrgica e a excluiu: sem massa, sem sangue, sem hidrocefalia, sem desvio de linha média. Ela não afasta meningite, encefalite nem causa metabólica, e neste quadro pode ser normal mesmo com edema cerebral em instalação.
- o painel que fecha
- Amônia, transaminases, bilirrubinas, coagulograma, glicemia sérica, eletrólitos e gasometria. O padrão esperado é amônia elevada, transaminases elevadas, hipoglicemia e alargamento do tempo de protrombina, com bilirrubinas normais — a dissociação entre lesão hepática e ausência de icterícia é o achado que caracteriza.
- a pergunta que fecha o antecedente
- Qual foi, nominalmente, o comprimido dado em casa. Salicilato aparece em associações e em produtos de venda livre, e a família raramente o identifica como medicamento de risco. Pede-se a caixa. Dosagem sérica de salicilato entra para separar intoxicação pelo próprio fármaco.
- tratamento
- Infusão contínua de glicose em taxa alta após a correção inicial; neuroproteção com via aérea garantida, normocapnia, cabeceira elevada com cabeça neutra, controle de temperatura e terapia osmótica se houver sinal de herniação; correção da coagulopatia com vitamina K e hemocomponentes conforme sangramento; restrição proteica e discussão de terapia de substituição renal se a hiperamonemia for refratária.
- o que dizer à mãe
- Gravidade comunicada em linguagem acessível, sem promessa de desfecho, e sem culpabilizar pelo medicamento administrado. A orientação de que o salicilato é contraindicado em criança com doença viral é dada como informação de segurança para o futuro, e o evento adverso é notificado à vigilância.
Agora feche você
- o que os sinais vitais dizem
- Hipertensão arterial com bradicardia e respiração irregular compõem a resposta tardia à hipertensão intracraniana e indicam que o quadro está avançado. Esse conjunto não é achado a registrar: é indicação de agir enquanto a investigação corre.
- o que a assimetria localiza
- Anisocoria com midríase pouco reativa à direita, em criança com consciência rebaixada, indica compressão do terceiro nervo craniano por deslocamento de estrutura temporal. A postura em extensão contralateral e a assimetria da resposta motora confirmam lesão estrutural com sofrimento de tronco.
- o que já está descartado
- Glicemia normal afasta a causa reversível que se corrige em segundos. Ausência de febre e de rigidez de nuca torna improvável a infecção do sistema nervoso central como explicação primária, e o modo súbito com cefaleia intensa em criança maior aponta para evento vascular.
Onde a banca derruba
- 1Começar pelo diagnóstico e deixar a glicemia para depois A hipoglicemia é causa reversível de coma, é frequente na criança pequena pela reserva hepática menor e produz lesão em minutos. A glicemia capilar se mede enquanto as outras medidas acontecem, não depois delas. E quando há suspeita de erro do metabolismo, colher a amostra crítica antes de administrar glicose é o que preserva a chance de diagnóstico, porque a correção apaga o quadro laboratorial.
- 2Hiperventilar de rotina para baixar a pressão intracraniana A redução do gás carbônico contrai o leito vascular cerebral e reduz o volume, mas reduz também o fluxo, produzindo isquemia em tecido que já sofre. A meta é normocapnia, e a hiperventilação é ponte de minutos até a medida definitiva diante de sinal de herniação, nunca conduta mantida. Hipocapnia sustentada piora desfecho.
- 3Infundir solução hipotônica na criança com edema cerebral O soro de manutenção hipotônico agrava o edema por gradiente osmótico e favorece a hiponatremia, que é ela própria causa de crise convulsiva e de piora neurológica. A reposição e a manutenção se fazem com solução isotônica, e a natremia entra nas metas de acompanhamento junto com glicemia, temperatura e pressão arterial.
- 4Puncionar antes da imagem em criança com sinal focal Consciência significativamente rebaixada, déficit focal, papiledema ou postura anormal exigem imagem antes da punção, porque retirar líquido abaixo de uma lesão expansiva favorece o deslocamento de estruturas. O que não pode esperar é o antimicrobiano: colhe-se hemocultura e inicia-se o tratamento empírico antes da imagem e antes da punção.
- 5Ler a tomografia normal como se o caso estivesse resolvido A tomografia responde à pergunta cirúrgica do momento — massa, sangue, hidrocefalia, desvio de linha média — e não afasta meningite, encefalite, intoxicação, causa metabólica nem hipertensão intracraniana difusa. Uma criança em coma com imagem normal não tem menos doença: tem outra doença, e a investigação passa a ser de laboratório e de história.
- 6Não perguntar nominalmente qual antitérmico foi dado em casa Perguntar se a criança tomou algum remédio costuma render resposta negativa, porque a família não considera medicamento o que comprou sem receita. É preciso perguntar por nome, incluir o que a avó e o vizinho ofereceram, e pedir a caixa. O salicilato aparece em associações e em produtos de venda livre, e é justamente esse o antecedente da encefalopatia aguda com fígado aumentado.
- 7Descartar a amônia elevada como erro de coleta A dosagem realmente se eleva falsamente com garroteamento prolongado, com choro e esforço muscular na coleta e com transporte demorado. Mas descartar um valor alto em criança com encefalopatia e vômitos, sem repetir com técnica adequada, é abrir mão do exame que mais muda conduta nesse cenário. Valor muito alto exige ação enquanto se repete.
- 8Atribuir a falta de resposta apenas à lesão vista na imagem Criança em coma pode estar convulsionando sem qualquer manifestação motora, sobretudo depois de sedação e de bloqueio neuromuscular, e a crise mantida agrava a lesão. Quando o nível de consciência não corresponde ao que a imagem mostra, a monitorização eletroencefalográfica responde a essa pergunta, e o anticonvulsivante entra no plano.
A avaliação pediátrica exige adaptação da escala de coma, especialmente do componente verbal, já que o lactente não fala e a resposta esperada é choro, consolabilidade e interação, sob pena de subestimar sistematicamente a pontuação. A escala do adulto aplicada sem adaptação produz classificação errada. Crianças desenvolvem hipertensão intracraniana e têm particularidades como maior tendência a edema difuso. A tomografia é usada com critério, ponderando radiação e utilizando regras de decisão pediátricas, mas não é contraindicada. A fontanela aberta oferece alguma complacência adicional, porém não impede a hipertensão intracraniana.
Recuperação
Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.
Lactente de onze meses chega ao pronto-socorro com febre de 39,4 graus há doze horas, vômitos e sonolência importante. Ao exame apresenta pontuação dez na escala de coma pediátrica, fontanela abaulada, hipoatividade marcada e desvio do olhar para a direita com hemiparesia esquerda. A glicemia capilar é normal. A tomografia de crânio está disponível, mas o aparelho está em uso e a estimativa de espera é de quarenta minutos. Qual é a sequência correta de condutas?
O caso reúne duas regras que precisam ser aplicadas na ordem certa. A primeira é de segurança: déficit neurológico focal, com desvio do olhar e hemiparesia, e sinais de hipertensão intracraniana obrigam a imagem antes da punção lombar, porque a retirada de líquido abaixo de uma lesão expansiva favorece o deslocamento de estruturas. A segunda é de tempo: diante de suspeita de meningite bacteriana, colhe-se hemocultura e inicia-se o antimicrobiano empírico de imediato, sem aguardar imagem nem punção, porque cada hora de atraso piora o desfecho e o estudo realizado depois continua informativo pelos parâmetros bioquímicos e citológicos. A sequência que concilia as duas é estabilizar, colher hemocultura, tratar, imaginar e puncionar quando liberado. Puncionar antes da imagem com déficit focal é erro de segurança. Adiar o antimicrobiano é erro de tempo. Fontanela abaulada não substitui a imagem diante de déficit focal, e a idade não dispensa a regra.
Menino de oito anos é trazido ao pronto-socorro com rebaixamento do nível de consciência de instalação progressiva nas últimas seis horas. Há uma semana teve quadro gripal, do qual havia melhorado, e há dois dias apresenta vômitos persistentes sem diarreia. Ao exame: pontuação nove na escala de coma, afebril, pupilas isocóricas e fotorreagentes, reflexos de tronco preservados, sem rigidez de nuca, sem déficit focal, fígado palpável a quatro centímetros do rebordo costal e escleras sem icterícia. A tomografia de crânio não mostra lesão focal nem desvio de linha média. Qual conjunto de exames é o mais adequado para esclarecer o quadro?
O padrão descrito é o de encefalopatia difusa: consciência muito rebaixada com pupilas simétricas e reagentes, reflexos de tronco preservados e ausência de assimetria, o que afasta a lesão que comprime e desloca a investigação para o laboratório. A sequência de virose que melhorava, vômitos incoercíveis e alteração de comportamento que evolui para sonolência, somada a fígado aumentado sem icterícia, corresponde à encefalopatia aguda com comprometimento hepático, cujo laboratório característico reúne amônia elevada, transaminases elevadas, hipoglicemia e alargamento do tempo de protrombina, com bilirrubinas normais ou minimamente alteradas. A tomografia normal não afasta o quadro, porque a imagem inicial pode ser normal mesmo com edema cerebral em instalação. Punção lombar não se justifica sem febre e sem sinal meníngeo, e imagem adicional não responde à pergunta que os vômitos e o fígado formulam. A investigação metabólica ampla vem depois do painel inicial.
Criança de dois anos e quatro meses, internada em unidade de terapia intensiva pediátrica após afogamento, evolui com coma não perceptivo, ausência de reatividade supraespinhal e apneia persistente, com hipotermia corrigida, sem distúrbio metabólico grave e sem uso de sedativos há mais de setenta e duas horas. A equipe inicia os procedimentos de determinação de morte encefálica. Conforme a norma nacional vigente, qual é o intervalo mínimo entre o primeiro e o segundo exame clínico nessa faixa etária?
A norma nacional que define os critérios de determinação de morte encefálica estabelece intervalos mínimos entre os dois exames clínicos que variam por faixa etária, e a criança descrita tem dois anos e quatro meses. A partir dos dois anos de idade completos, o intervalo mínimo é de uma hora, o mesmo aplicado ao adulto. Abaixo dessa idade os prazos são maiores, porque o encéfalo imaturo tem maior capacidade de recuperação e maior variabilidade de resposta: de dois a vinte e quatro meses incompletos, o intervalo é de doze horas, e de sete dias completos de vida até dois meses incompletos, de vinte e quatro horas. A norma não prevê determinação antes dos sete dias completos de vida. Os pré-requisitos descritos no caso estão cumpridos, incluindo a exclusão de hipotermia, de distúrbio metabólico grave e de efeito de sedativos, sem os quais os procedimentos não podem sequer ser iniciados. São exigidos dois exames clínicos por médicos diferentes especificamente capacitados.
Menina de cinco anos com encefalopatia aguda e vômitos há dois dias tem amônia sérica de 310 micromol/L. O médico residente questiona o resultado porque a coleta foi feita com a criança chorando muito e com garroteamento prolongado, e a amostra demorou a chegar ao laboratório. A criança segue sonolenta, com transaminases elevadas e tempo de protrombina alargado. Qual é a conduta correta diante desse resultado?
A crítica pré-analítica do residente é pertinente: garroteamento prolongado, choro e esforço muscular no momento da coleta e demora no transporte elevam falsamente a dosagem de amônia, que deve ser colhida sem estase, com a criança calma, transportada resfriada e processada rapidamente. Isso justifica repetir o exame com técnica adequada, mas não justifica desconsiderar um valor muito elevado em criança com encefalopatia, vômitos, transaminases elevadas e coagulopatia, porque a hiperamonemia produz edema cerebral e tem tratamento próprio e urgente. A conduta correta reúne as duas coisas: repetir com técnica adequada e, ao mesmo tempo, iniciar as medidas cabíveis, que incluem infusão de glicose em taxa alta, restrição proteica e neuroproteção. Adiar a repetição até que a criança piore, aguardar exames de segunda linha ou instituir jejum prolongado atrasa uma intervenção que muda desfecho em horas.
Uma enfermeira recém-admitida em enfermaria pediátrica procura o plantonista, preocupada com a prescrição de um lactente de dezoito meses internado por doença de Kawasaki, já diagnosticada e em uso de imunoglobulina humana intravenosa. Ela relata ter aprendido que salicilato não se dá a criança pelo risco de encefalopatia grave, e não entende por que o item aparece na folha. O plantonista precisa explicar a razão da prescrição. Qual explicação está correta?
A restrição ao salicitato em crianças e adolescentes se refere ao uso como antitérmico e analgésico em vigência de doença viral, contexto em que se associa à encefalopatia aguda com comprometimento hepático. A doença de Kawasaki é a exceção clássica: nela o fármaco integra o tratamento, em dose anti-inflamatória durante a fase aguda e em dose antiagregante na convalescença, com finalidade de proteção coronariana, e pode ser mantido por meses quando há alteração de artérias coronárias. A indicação existe independentemente de já haver alteração coronariana documentada, e a substituição por outro anti-inflamatório não cumpre o mesmo papel antiagregante. A administração de imunoglobulina não altera a indicação do salicilato, embora tenha implicação sobre o adiamento de vacinas de vírus vivo. A conduta acessória correta é orientar a família sobre vacinação contra varicela e influenza e sobre o que fazer se a criança adoecer com essas viroses durante o uso.
Escolar de sete anos é admitido em coma por hemorragia intracraniana confirmada, já submetido a intubação e a drenagem cirúrgica. Na unidade de terapia intensiva, a equipe define as metas do cuidado neurointensivo das próximas horas. Qual conjunto de metas é o mais apropriado?
As metas do cuidado neurointensivo visam a um ambiente que não agrave a lesão. Normocapnia evita tanto a hipercapnia, que dilata o leito vascular e aumenta o volume dentro de uma caixa fechada, quanto a hipocapnia sustentada, que reduz o fluxo e produz isquemia. A normotermia ativa importa porque cada grau de febre aumenta o consumo cerebral de oxigênio. A pressão arterial mantida na faixa normal para a idade preserva a perfusão cerebral, que depende da pressão arterial média menos a pressão intracraniana, de modo que a hipotensão induzida é especialmente danosa. A normonatremia, com solução isotônica, evita o agravamento do edema que as soluções hipotônicas produzem por gradiente osmótico, e a glicemia deve ficar em faixa normal, sem hipoglicemia e sem hiperglicemia, que piora o desfecho. A sedação deve ser suficiente para evitar picos de pressão, mas não a ponto de impedir a avaliação neurológica seriada, que continua sendo o principal monitor.
Durante a passagem de plantão em uma unidade de emergência, discute-se a conduta com uma criança de três anos em coma, intubada, sedada e em ventilação mecânica, cuja tomografia mostra edema difuso sem lesão focal. O nível de consciência permanece mais rebaixado do que o esperado pela imagem, e não há sinais motores de crise convulsiva. Qual exame deve ser priorizado para esclarecer essa discrepância?
Uma criança em coma pode apresentar crises epilépticas sem qualquer manifestação motora visível, situação que se torna ainda mais provável quando há sedação e bloqueio neuromuscular em curso, e a crise mantida agrava a lesão cerebral existente. Sempre que o nível de consciência não corresponde ao que a imagem mostra, essa hipótese precisa ser testada, e o exame que responde é a monitorização eletroencefalográfica contínua, que também orienta o ajuste do anticonvulsivante. Repetir a tomografia em poucas horas não esclarece atividade elétrica e apenas acrescenta radiação quando não há suspeita de sangramento novo ou de deterioração clínica. O estudo dos vasos investiga fonte de sangramento, que a imagem já afastou ao não mostrar lesão focal. A dosagem de amônia pertence à investigação metabólica e não explica discrepância entre consciência e imagem em criança já em acompanhamento. Imagem de coluna não responde à pergunta formulada.
Menina de seis anos chega ao pronto-socorro em coma após cefaleia súbita e vômito ocorridos há uma hora. Na admissão apresenta pontuação sete na escala de coma, pressão arterial 140 por 86 mmHg, frequência cardíaca 50 bpm, respiração irregular, pupila esquerda com 6 mm e pouco reativa, pupila direita com 3 mm e reativa, e postura em extensão à direita. A glicemia capilar é de 98 mg/dL. Qual é a conduta imediata mais adequada?
A criança apresenta anisocoria de instalação recente com midríase pouco reativa, postura em extensão contralateral e a tríade tardia de hipertensão arterial com bradicardia e respiração irregular. Esse conjunto caracteriza herniação em curso e exige tratamento imediato, em paralelo à investigação: via aérea protegida com sedação e analgesia que evitem picos de pressão, normóxia e normocapnia, cabeceira elevada a cerca de trinta graus com a cabeça em posição neutra para não obstruir o retorno venoso jugular, terapia osmótica e acionamento neurocirúrgico. Punção lombar está formalmente contraindicada diante de sinal de lesão expansiva, porque a retirada de líquido abaixo da massa favorece o deslocamento de estruturas. Aguardar a imagem sem tratar perde os minutos que decidem. Hiperventilação sustentada reduz o fluxo e produz isquemia, servindo apenas como ponte de minutos. Solução hipotônica agrava o edema, e a glicemia está normal.
Uma criança de dez meses chega em coma ao pronto-socorro. A equipe está calculando a escala de coma para registrar a gravidade. Considerando a versão adaptada à idade, qual afirmação sobre a aplicação e a interpretação dessa escala está correta?
A escala original foi construída para quem já produz fala estruturada, e por isso o domínio verbal não se aplica bem abaixo dos cinco anos. A versão pediátrica modifica exatamente esse domínio, substituindo a avaliação da fala pela do choro e da interação: balbucia ou sorri e acompanha como resposta plena, choro irritável como resposta reduzida, choro apenas à dor, gemido à dor e ausência de som. A abertura ocular mantém quatro níveis e a estrutura da versão original, e a pontuação total continua variando de três a quinze, com oito ou menos definindo coma. O registro por domínio é superior à soma isolada no acompanhamento, porque dois pacientes com a mesma soma podem ter situações neurológicas distintas e o componente motor é o que mais se relaciona ao prognóstico. A reavaliação seriada com horário anotado é indispensável, já que o que decide conduta é a tendência ao longo do tempo, e não o valor de uma medida única.
Pré-escolar de quatro anos é encontrado sonolento no quarto pela mãe, que chega ao pronto-socorro trinta minutos depois. Não houve febre, trauma presenciado nem doença recente. Ao exame apresenta pontuação onze na escala de coma pediátrica, flutuando entre sonolência e agitação, pupilas isocóricas de 2 mm e reativas, reflexos de tronco preservados, sem rigidez de nuca, sem déficit focal e sem sinais de trauma. A glicemia capilar é de 92 mg/dL. Qual conduta deve ser priorizada na sequência do atendimento?
O quadro reúne os elementos que apontam para causa exógena: instalação em horas, nível de consciência que flutua entre sonolência e agitação, pupilas simétricas e mióticas com reação preservada, reflexos de tronco intactos, ausência de assimetria, de febre, de sinal meníngeo e de trauma, com glicemia normal. Nessa situação a hipótese de exposição a substância ocupa o topo da lista até que a história diga o contrário, e a investigação é ativa: perguntar o que existe na casa, na bolsa e na casa de quem cuidou da criança naquele dia, incluir medicação de uso contínuo de adultos, pedir a cartela e contar os comprimidos que faltam, além de acionar o serviço regional de informação toxicológica, que orienta o que dosar e o que administrar no agente específico. Imagem por ressonância não responde a essa pergunta e atrasa. Punção lombar e antimicrobiano empírico não se justificam sem febre e sem sinal meníngeo. Terapia osmótica empírica não tem indicação sem sinal de herniação.
Uma equipe discute a restrição do uso de ácido acetilsalicílico em crianças e adolescentes no Brasil. Um profissional pergunta como o protocolo federal de manejo clínico e vigilância epidemiológica da influenza trata os menores de dezenove anos em uso prolongado desse fármaco. Qual afirmação corresponde ao que esse documento estabelece?
O protocolo federal inclui os indivíduos menores de dezenove anos de idade em uso prolongado de ácido acetilsalicílico no rol de condições e fatores de risco para complicação da influenza, com menção expressa ao risco da encefalopatia associada, na mesma lista que reúne pneumopatias, cardiopatias, doenças neurológicas, imunossupressão, obesidade e população indígena aldeada. O sentido dessa entrada costuma passar despercebido: nesse documento a criança em uso crônico do fármaco não aparece apenas como alguém a quem não se deve dar salicilato, e sim como candidata a tratamento antiviral por pertencer a grupo de risco. Pertencer a grupo de risco é justamente o que autoriza iniciar o antiviral por critério clínico, sem aguardar confirmação laboratorial. O documento não proíbe a vacinação nesse grupo, que ao contrário é prioritário para ela, não determina suspensão universal do fármaco, cujo uso pode ser indicado em outras doenças, e não restringe a notificação a essa população.
Qual conjunto de exames iniciais é adequado no paciente com rebaixamento de consciência de causa indeterminada?
A investigação inicial precisa cobrir simultaneamente as causas metabólicas, tóxicas, infecciosas e estruturais, o que exige glicemia, eletrólitos com sódio e cálcio, função renal e hepática, gasometria, hemograma, triagem toxicológica dirigida pela suspeita e neuroimagem, acrescentando punção lombar quando houver suspeita de infecção do sistema nervoso central e eletroencefalograma quando se cogita estado de mal não convulsivo. Restringir a investigação a um único exame é o erro que fecha o diagnóstico em uma hipótese antes de excluir causas tratáveis.
Qual achado do exame neurológico no paciente comatoso sugere lesão estrutural em vez de causa tóxico-metabólica?
Sinais focais persistentes e assimetria pupilar apontam para lesão estrutural, como hemorragia, isquemia extensa, hematoma ou massa com efeito compressivo, e indicam neuroimagem urgente. As causas tóxico-metabólicas costumam produzir comprometimento simétrico e difuso, com pupilas geralmente preservadas em suas respostas, mioclonias, asterixe e alterações do padrão respiratório. Vale a ressalva de que hipoglicemia pode simular déficit focal, motivo pelo qual a glicemia é aferida antes de qualquer interpretação neurológica definitiva.
Quais achados do exame neurológico sugerem coma de causa metabólica em vez de estrutural?
O coma metabólico caracteristicamente poupa a simetria e os reflexos de tronco, com pupilas reativas e ausência de sinais focais, frequentemente acompanhado de mioclonias, tremor e asterixe, refletindo disfunção difusa. Anisocoria, hemiplegia, desvio conjugado do olhar e postura assimétrica apontam para lesão estrutural com efeito de massa. Vale lembrar que causas metabólicas podem, ocasionalmente, desmascarar déficits focais antigos, o que exige cautela na interpretação.
Criança de 4 anos em coma apresenta pupilas puntiformes e reativas, bradipneia e sinais de hipotermia. Qual a hipótese principal?
Miose puntiforme com depressão respiratória compõe a tríade toxicológica clássica dos opioides, e agentes colinérgicos produzem quadro semelhante somado a sialorreia e broncorreia — em ambos há antídoto disponível, o que torna o reconhecimento decisivo. Herniação uncal cursa com pupila dilatada e fixa ipsilateral, padrão oposto ao descrito.
Adolescente de 14 anos é encontrado em coma com hálito adocicado, respiração profunda e rápida e desidratação. Qual exame à beira do leito deve ser realizado imediatamente?
Hálito cetônico com respiração de Kussmaul e desidratação desenha cetoacidose diabética, e a glicemia capilar confirma em segundos o que direciona todo o tratamento. Pedir exames de laboratório central antes desse teste simples atrasa a insulina e o volume. A amônia é útil quando se suspeita de doença hepática ou erro inato, hipóteses que não se encaixam neste padrão respiratório.
Qual a primeira medida na abordagem de uma criança em coma de causa desconhecida?
A sequência de estabilização vem primeiro e a glicemia capilar entra junto, porque a hipoglicemia é causa reversível, frequente e que produz lesão irreversível se não corrigida em minutos. Correr para a tomografia antes de estabilizar é o erro clássico, que transporta um paciente instável para um setor sem recursos e adia o tratamento de causas que se resolvem à beira do leito.
Sobre o uso de antídotos empíricos em criança comatosa de causa desconhecida, assinale a alternativa correta.
Corrigir hipoglicemia e reverter opioide diante de quadro compatível são medidas racionais e salvadoras. O flumazenil empírico é perigoso: em quem usa benzodiazepínico cronicamente ou ingeriu antidepressivo tricíclico, ele pode desencadear convulsão refratária. Carvão ativado em paciente sem via aérea protegida arrisca aspiração e é contraindicado nessa condição.
Qual exame de imagem é o mais indicado na avaliação inicial de criança em coma agudo com suspeita de causa estrutural?
A tomografia sem contraste é rápida e responde às perguntas urgentes: existe sangramento, existe efeito de massa, existe hidrocefalia. A ressonância é superior para causas não estruturais e para a fossa posterior, mas demora e exige sedação, o que a inviabiliza como exame de entrada num paciente instável. Ultrassonografia transfontanelar só é possível com fontanela aberta.
Sobre as causas de coma na criança, qual afirmação está correta?
Na criança predominam as causas difusas — intoxicação, hipoglicemia, distúrbios hidroeletrolíticos, infecções do sistema nervoso central e estados pós-ictais — o que explica por que a tomografia normal é comum e não encerra a investigação. Concluir o raciocínio numa imagem normal é o erro que deixa passar causas tratáveis identificáveis por exames laboratoriais e toxicológicos.
Em criança comatosa com suspeita de hipertensão intracraniana, qual achado indica herniação iminente e exige medida imediata?
Pupila dilatada e arreativa com postura em extensão e ritmo respiratório alterado indica compressão do tronco encefálico, e a resposta é imediata: elevar a cabeceira, hiperventilação transitória e osmoterapia com salina hipertônica ou manitol enquanto se aciona a neurocirurgia. Esperar exame de imagem para agir nesse cenário custa o desfecho neurológico.
Sobre a punção lombar em criança comatosa, assinale a alternativa correta.
Diante de sinais de hipertensão intracraniana, a punção arrisca herniação e deve ser postergada — mas isso jamais adia o antibiótico empírico quando há suspeita de meningite, e essa dissociação entre exame e tratamento é o ponto central da questão. Postergar a punção não significa abrir mão dela: ela é feita quando a condição permitir.
Menino de 6 anos é trazido inconsciente, sem trauma aparente. Ao exame: abre olhos à dor, emite sons incompreensíveis e apresenta flexão anormal ao estímulo doloroso. Qual a pontuação na Escala de Coma de Glasgow?
Abertura ocular à dor corresponde a 2 pontos, sons incompreensíveis a 2 e flexão anormal, que é a decorticação, a 3, totalizando 7 — pontuação que indica coma e, na prática, obriga proteger a via aérea. O erro mais comum é pontuar a flexão anormal como retirada à dor, que vale 4, superestimando o quadro em um ponto e subestimando a gravidade.
Criança de 8 anos em coma, com tomografia de crânio normal, glicemia normal e sem sinais focais, apresenta movimentos oculares errantes e discretos abalos palpebrais. Qual hipótese deve ser considerada?
Alteração persistente de consciência com movimentos oculares anormais e abalos sutis, sem explicação estrutural ou metabólica, deve levantar estado de mal não convulsivo — e o único exame que responde é o eletroencefalograma, porque o diagnóstico é elétrico. É uma causa de coma frequentemente perdida justamente por não produzir a crise motora que se espera.
Em uma criança com derivação ventriculoperitoneal que chega em coma, com bradicardia, hipertensão arterial e pupila anisocórica, qual é a conduta imediata enquanto se aciona a neurocirurgia?
A tríade de Cushing com anisocoria indica herniação em curso, e as medidas iniciais visam reduzir a pressão intracraniana enquanto o tratamento definitivo é organizado: via aérea segura, cabeceira elevada com pescoço neutro para facilitar o retorno venoso, e solução hipertônica ou manitol. Aguardar a tomografia engana quem quer confirmação antes de agir, mas o paciente hernia enquanto espera. A punção lombar é formalmente contraindicada, e a hiperventilação só serve como medida de resgate por curtos períodos.
Na avaliação da criança em coma, qual é a primeira prioridade antes de qualquer investigação etiológica?
A sequência é sempre via aérea, ventilação e circulação, com verificação imediata da glicemia — a hipoglicemia é causa reversível de coma que pode ser corrigida ao lado do leito em segundos e não pode esperar exame algum. Tomografia, toxicológico, líquor e eletroencefalograma são etapas subsequentes e devem ser feitos com o paciente estabilizado. Levar uma criança instável para imagem, ou puncionar antes de excluir hipertensão intracraniana, são erros de sequência com consequências graves.
Criança com encefalopatia aguda apresenta pupilas anisocóricas, hipertensão arterial, bradicardia e padrão respiratório irregular. Qual a conduta imediata?
A tríade de Cushing — hipertensão, bradicardia e respiração irregular — com anisocoria indica hipertensão intracraniana grave e risco de herniação: a conduta é imediata, com proteção de via aérea, cabeceira elevada, normocapnia ou hiperventilação transitória de resgate e terapia hiperosmolar. Punção lombar nesse contexto pode precipitar herniação. Solução hipotônica agrava o edema cerebral. Esperar a tomografia sem tratar perde minutos decisivos, e corticoide inalatório não tem qualquer papel.
Qual escala é utilizada para avaliar o nível de consciência em lactentes e crianças pequenas?
A escala de coma de Glasgow tem versão pediátrica que adapta as respostas verbal e motora à idade, permitindo avaliação seriada do nível de consciência em lactentes que ainda não falam. A escala de Apgar avalia a vitalidade do recém-nascido nos primeiros minutos. Finnegan pontua abstinência neonatal. Bishop avalia a maturidade cervical na obstetrícia. Braden estima risco de lesão por pressão. Usar a escala errada leva a documentação inútil e a decisões clínicas mal fundamentadas.
Qual medida deve ser evitada na criança com encefalopatia aguda e hiperamonemia, por risco de agravar o edema cerebral?
Soluções hipotônicas em volume elevado reduzem a osmolaridade plasmática e agravam o edema cerebral, sendo contraindicadas — a hidratação nesses pacientes deve usar soluções isotônicas com controle rigoroso do balanço. Controle glicêmico, cabeceira elevada, normotermia e monitorização contínua são exatamente as medidas neuroprotetoras recomendadas: tanto a hipoglicemia quanto a hipertermia aumentam o dano cerebral secundário, e a manutenção da perfusão e da oxigenação é o eixo do cuidado.
Qual exame de imagem é indicado na criança com rebaixamento agudo do nível de consciência e suspeita de lesão estrutural, e qual sua limitação?
A tomografia sem contraste é o exame inicial na emergência por ser rápida e detectar sangramento, hidrocefalia e efeito de massa, mas é limitada para lesões isquêmicas precoces, encefalite e alterações de fossa posterior, que a ressonância mostra melhor — só que esta exige tempo e frequentemente sedação. Radiografia de crânio não avalia parênquima. A ultrassonografia transfontanelar depende de fontanela aberta, restringindo-se ao lactente. Angiografia digital é exame invasivo e dirigido, jamais de triagem.
Menino de 3 anos é admitido após queda de laje, apresentando rebaixamento do nível de consciência. A equipe aplica a escala de coma de Glasgow adaptada à faixa etária, considerando que a criança ainda não tem linguagem plenamente desenvolvida. Ao exame apresenta abertura ocular ao chamado, choro irritado e inconsolável e retirada ao estímulo doloroso, com PA 94x58 mmHg, FC 138 bpm, FR 30 ipm, pupilas isocóricas e fotorreagentes e fontanela já fechada. A conduta correta quanto à avaliação neurológica é:
Em crianças pequenas, a resposta verbal da escala de coma de Glasgow é adaptada para considerar choro, irritabilidade e consolabilidade, evitando subestimar o nível de consciência de quem ainda não fala, e a reavaliação seriada é essencial para detectar deterioração. Aplicar a escala do adulto sem adaptação distorce o escore. Considerar coma profundo pela ausência de palavras em criança de três anos com abertura ocular ao chamado é erro grosseiro de interpretação. Pupilas normais não dispensam a reavaliação seriada, pois a deterioração pode ocorrer horas depois.
Lactente de 10 meses é admitido após queda de sofá, apresentando sonolência. Durante a avaliação neurológica, abre os olhos apenas em resposta à dor, emite choro irritado inconsolável e retira o membro ao estímulo doloroso, sem localizar. Exame: pupilas isocóricas fotorreagentes, fontanela normotensa, FC 132 bpm, PA 92/56 mmHg, SatO2 97%, sem outras lesões visíveis ao exame. Qual a pontuação na escala de coma de Glasgow adaptada para lactentes?
A soma corresponde a abertura ocular à dor, que vale 2 pontos, resposta verbal com choro irritado inconsolável, que vale 3 pontos na escala adaptada para lactentes, e resposta motora de retirada ao estímulo doloroso, que vale 4 pontos, totalizando 9. O escore de 3 corresponde à ausência completa de resposta em todos os componentes. O escore de 12 superestima as respostas verbal e motora observadas. O escore de 14 corresponderia a criança quase normal, com apenas um componente discretamente alterado. O escore de 15 indica lactente plenamente reativo, incompatível com a abertura ocular apenas à dor.
Recém-nascido de 10 dias de vida, a termo, está internado em UTI neonatal após parada cardiorrespiratória prolongada por asfixia perinatal. Encontra-se em coma não perceptivo, sem reatividade supraespinhal, com apneia persistente, sem uso de sedativos, temperatura 36,5°C, sódio 142 mEq/L, PA adequada com noradrenalina em baixa dose. A equipe cogita abrir protocolo de morte encefálica. De acordo com a Resolução CFM 2.173/2017, qual é a conduta correta?
A Resolução CFM 2.173/2017 estabelece idade mínima de 7 dias completos de vida para início do protocolo de morte encefálica. Os intervalos entre o primeiro e o segundo exame clínico variam por faixa etária: 7 dias a 2 meses incompletos, 24 horas; 2 meses a 24 meses incompletos, 12 horas; a partir de 2 anos, 1 hora. Como o recém-nascido tem 10 dias, o intervalo mínimo é de 24 horas, com dois exames clínicos por médicos diferentes especificamente capacitados, além do teste de apneia e de um exame complementar obrigatório. Referências: Resolução CFM 2.173/2017 — https://saude.rs.gov.br/upload/arquivos/carga20171205/19140504-resolucao-do-conselho-federal-de-medicina-2173-2017.pdf Protocolo de morte encefálica em pediatria – HU-UFGD/Ebserh — https://www.gov.br/hubrasil/pt-br/hospitais-universitarios/regiao-centro-oeste/hu-ufgd/acesso-a-informacao/pops-protocolos-e-processos/gad/prt-utip-005-morte-encefalica-em-pediatria-condutas-medicas-v-1.pdf
Menino de 5 anos é levado ao pronto-socorro com febre há 24 horas, cefaleia, dois episódios de crise tônico-clônica generalizada nas últimas 3 horas (a última há 20 minutos) e sonolência intensa. Ao exame: abre olhos apenas ao estímulo doloroso, emite sons incompreensíveis, retira o membro à dor sem localizar; pupilas isocóricas, papiledema bilateral à fundoscopia; rigidez de nuca; PA 110/70 mmHg, FC 110 bpm, glicemia 98 mg/dL. Já foram obtidos dois acessos venosos e colhida hemocultura. Qual a sequência de condutas mais adequada?
O Guia de Vigilância do Ministério da Saúde recomenda antibioticoterapia empírica precoce na meningite bacteriana, de preferência logo após a punção lombar e a hemocultura. Quando existem sinais que contraindicam a punção lombar imediata — crise convulsiva recente, papiledema, rebaixamento importante do nível de consciência, sinal focal ou imunossupressão — colhe-se hemocultura, inicia-se o antibiótico empírico sem demora e solicita-se TC de crânio; a punção é realizada depois, quando segura. Adiar o antibiótico aguardando imagem aumenta a letalidade. O esquema empírico para maiores de 2 meses é cefalosporina de terceira geração (ceftriaxona ou cefotaxima), com vancomicina associada quando há preocupação com pneumococo resistente. A curta antibioticoterapia antes da punção reduz a positividade da cultura, mas não anula bacterioscopia, quimiocitológico e PCR do liquor. Referências: Diretrizes para enfrentamento das meningites até 2030 – Ministério da Saúde — https://www.gov.br/saude/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/guias-e-manuais/2024/diretrizes-para-enfrentamento-das-meningites-ate-2030.pdf Guia de Vigilância das Meningites — https://www.saude.ba.gov.br/wp-content/uploads/2019/05/2017-Guia-de-Vigil%C3%A2ncia-das-Meningites.pdf
Lactente de 9 meses é levado à emergência com febre há 2 dias e uma crise convulsiva tônico-clônica generalizada há 40 minutos. Ao chegar, apresenta: torpor profundo, respiração irregular, FC 62 bpm, PA 138/86 mmHg, SatO2 91%, glicemia 88 mg/dL, temperatura 38,9°C. Ao exame neurológico: pupila direita de 5 mm arreativa e esquerda de 3 mm fotorreagente (anisocoria de instalação recente segundo a mãe), postura em extensão dos membros ao estímulo doloroso. Fontanela abaulada. Sódio 138 mEq/L. Após garantir via aérea, oxigenação e acesso venoso, qual a conduta imediata mais adequada antes do transporte para a tomografia?
A tríade clínica — anisocoria nova com pupila fixa dilatada unilateral, postura em extensão e sinais de Cushing (bradicardia, hipertensão, respiração irregular) associada a fontanela abaulada — indica herniação cerebral em curso. O manejo imediato é terapia osmótica (salina hipertônica 3% em bolus, tipicamente 3–5 mL/kg, ou manitol 0,25–1 g/kg), hiperventilação breve como ponte até a descompressão definitiva e acionamento neurocirúrgico, sem aguardar imagem. Hiperventilação profilática sustentada (PaCO2 muito baixa) é deletéria, pois causa vasoconstrição e isquemia. Soro glicosado hipotônico agrava o edema cerebral. Corticoide não tem papel no edema por herniação aguda de causa não tumoral. Fenitoína pode ser considerada para prevenção secundária de crises, mas não trata a herniação em curso. Referencial: consenso pediátrico de neuroproteção (Brain Trauma Foundation pediátrica) e princípios fisiológicos, na ausência de norma nacional específica. Referências: Guia prático de atualização em TCE – Sociedade Brasileira de Pediatria — https://www.sbp.com.br/fileadmin/user_upload/documentos_cientificos/19492c-GP-Trauma-Cranioencefalico.pdf Guidelines for the Management of Pediatric Severe Traumatic Brain Injury — https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27197686/
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em 7 dias
Escreva de memória a ordem das quatro medidas que precedem a avaliação da consciência e diga por que a glicemia entra em paralelo e não depois. Em seguida, escreva as quatro estações do exame do coma e o que cada achado de pupila indica. Por fim, escreva a sequência correta diante de criança febril com rebaixamento — hemocultura, antimicrobiano, imagem, punção — e os intervalos entre os dois exames clínicos de determinação de morte encefálica por faixa etária.
em 30 dias
Monte, em dez linhas, o atendimento completo de um escolar trazido por cefaleia súbita seguida de rebaixamento progressivo, com anisocoria e postura em extensão: o que proteger, o que administrar, o que pedir e quem acionar, em ordem e com justificativa. Depois refaça o caso trocando um dado por vez — não há anisocoria e as pupilas estão simétricas e reagentes; há febre alta com rigidez de nuca; houve virose há uma semana com vômitos incoercíveis e o fígado está a quatro centímetros do rebordo; a tomografia veio normal — e diga o que cada troca muda na ordem dos exames e na hipótese.
Agora atenda
Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.
Você recebe uma criança em coma na sala de emergência, com a mãe ao lado e a enfermagem esperando ordens. Estabilize na ordem certa, meça a consciência com a escala adaptada à idade, examine pupilas e reflexos de tronco para decidir se a lesão comprime ou difunde, indique a imagem pela pergunta que ela responde e comunique a gravidade sem prometer desfecho. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.
