PediatriaEmergências Pediátricas

Coma na criança: o que se mede primeiro, o que a imagem responde e o que ela nunca vai mostrar

Rebaixamento de consciência e coma na criança: a ordem do exame, a lesão que comprime e a encefalopatia que não aparece na imagem

Medir a consciência com a escala adaptada à idade, separar no leito a causa que comprime da causa que difunde, saber quando a tomografia precede a punção lombar e reconhecer a encefalopatia aguda com fígado grande cuja tomografia é normal.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Em criança com trauma craniano, qual particularidade deve ser considerada na avaliação?

02

Como esse tema cai

Uma criança que estava bem não acorda. É a cena em que mais se erra por ordem, e não por conhecimento: quase todo mundo sabe a lista de causas, e quase ninguém a percorre na sequência que salva. A ordem certa começa antes do raciocínio diagnóstico, com via aérea, ventilação, circulação e glicemia capilar, e só então mede a consciência.

Medida a consciência, o exame do coma tem uma tarefa específica e limitada: dizer se a lesão comprime ou se ela difunde. Pupilas, reflexos de tronco, padrão respiratório e resposta motora ao estímulo doloroso respondem a essa pergunta em minutos, e é ela que decide entre acionar a neurocirurgia agora e procurar a causa no laboratório.

Este é também um dos poucos capítulos em que a imagem tem de ser entendida pelo que ela não mostra. Há uma encefalopatia aguda grave, com edema cerebral e risco de morte, cuja tomografia inicial pode ser inteiramente normal, e cujo diagnóstico se faz com três exames de sangue e uma pergunta sobre qual antitérmico foi dado em casa. O texto a seguir percorre a ordem do atendimento, a leitura do exame neurológico, a decisão sobre imagem e punção lombar, a via metabólica e a régua brasileira do salicilato na criança.

03

O que muda decisão

Antes de medir a consciência: as quatro coisas que vêm primeiro

Como usar este capítulo: primeiro estabilize ABCDE e meça glicemia; depois quantifique a consciência conforme a idade e separe sinais focais de disfunção difusa. Trate as causas tempo-dependentes antes de esperar pela imagem e use os exames para responder à hipótese construída no leito.

O rebaixamento de consciência é, ele próprio, uma ameaça à via aérea, porque a criança perde o tônus faríngeo e os reflexos protetores. Por isso a primeira decisão não é diagnóstica: é se essa criança consegue manter a própria via aérea. Pontuação baixa na escala de coma, ausência de reflexo de tosse à aspiração, vômito com risco de aspiração e padrão respiratório irregular são indicações de proteção da via aérea, e a intubação não espera o diagnóstico.

A segunda é a ventilação. A hipóxia e a hipercapnia pioram qualquer lesão cerebral: a primeira por falta de oferta, a segunda porque a elevação do gás carbônico dilata o leito vascular encefálico e aumenta o volume dentro de uma caixa fechada. A meta é normóxia e normocapnia, e não hiperventilação profilática, que reduz fluxo e produz isquemia onde o tecido já está sofrendo.

A terceira é a circulação. A perfusão cerebral depende da pressão arterial média menos a pressão intracraniana, e a hipotensão em criança com lesão encefálica é catastrófica porque zera essa diferença. Corrigir hipotensão vem antes de qualquer preocupação com sobrecarga, e o soro de escolha é isotônico — soluções hipotônicas agravam o edema.

A quarta é a glicemia capilar, e ela é a única que se faz enquanto as outras acontecem. A hipoglicemia é causa reversível de coma, é frequente na criança pequena por reserva hepática menor e produz lesão em minutos. Colher glicemia e corrigir de imediato é regra sem exceção, e o mesmo vale para a coleta de uma amostra de sangue antes da correção quando há suspeita de erro do metabolismo, porque depois da glicose o quadro laboratorial se apaga.

Completam essa fase três medidas simples e frequentemente esquecidas: medir a temperatura, porque tanto a febre quanto a hipotermia entram no diagnóstico e a febre piora o dano; garantir acesso venoso calibroso; e retirar a roupa para inspecionar a pele inteira, procurando petéquias, sinais de trauma, marcas de aplicação e lesões em locais improváveis.

Medir a consciência com a régua da idade

A escala de coma clássica avalia três domínios — abertura ocular, resposta verbal e resposta motora — e soma de três a quinze pontos. O problema é que a resposta verbal foi construída para quem já fala em frases estruturadas, e por isso a versão original não se aplica bem abaixo dos cinco anos.

A versão pediátrica modifica exatamente esse domínio. No lactente, avaliam-se o choro e a interação em lugar da fala: balbucia ou sorri e acompanha, como resposta plena; choro irritável, como resposta reduzida; choro apenas à dor; gemido à dor; e ausência de som. A abertura ocular e a resposta motora seguem a mesma lógica da versão original, com a motora adaptada para movimento espontâneo e retirada ao toque nas faixas menores.

A leitura do resultado é o que interessa. Pontuação de treze a quinze indica alteração leve ou ausente, com vigilância; de nove a doze, alteração moderada, que exige investigação e observação intensiva; e oito ou menos define coma e é o limiar clássico de indicação de proteção de via aérea. Esse número é o que aparece em quase toda decisão de conduta.

Três cuidados evitam erro de medida. O primeiro é registrar a pontuação por domínio, e não apenas a soma: dois pacientes com nove pontos podem ter situações neurológicas completamente diferentes, e é o componente motor o que mais se relaciona ao prognóstico. O segundo é registrar o horário de cada medida, porque o que decide conduta é a tendência e não o valor isolado. O terceiro é anotar o que impede a avaliação — sedação, bloqueio neuromuscular, tubo, edema palpebral — em vez de atribuir a pontuação mínima.

Para triagem rápida, antes de calcular a escala, serve a régua de quatro níveis: alerta, responde à voz, responde à dor, não responde. Ela é grosseira e útil na porta, mas não substitui a medida formal, que é a que se repete e se compara.

O exame que localiza: pupilas, tronco, respiração e postura

Feita a medida, o exame neurológico do coma tem quatro estações, e todas respondem à mesma pergunta: a lesão comprime ou difunde?

As pupilas vêm primeiro. Isocóricas e fotorreagentes apontam para causa difusa, metabólica ou tóxica, e o achado é tranquilizador quanto a compressão. Anisocoria com uma pupila dilatada e pouco reativa, em criança com consciência rebaixada, é compressão do terceiro nervo craniano por deslocamento de estrutura temporal e configura emergência neurocirúrgica. Miose puntiforme com reação preservada aponta para lesão de ponte ou para efeito de opioide. Midríase fixa bilateral indica sofrimento grave e, quando não há droga em jogo, é achado de mau prognóstico.

Os reflexos de tronco vêm depois e ordenam a gravidade de cima para baixo: fotomotor, corneopalpebral, oculocefálico e reflexo de tosse. A pesquisa do reflexo oculocefálico exige coluna cervical liberada e não se faz diante de suspeita de trauma. A perda progressiva desses reflexos, no sentido rostrocaudal, é o que caracteriza a deterioração por compressão.

Quatro pares de pupilas esquemáticas em linha: par simétrico de tamanho médio; par assimétrico com uma pupila pequena e outra muito dilatada; par simétrico puntiforme; par simétrico muito dilatado.
A assimetria de diâmetro em criança com consciência rebaixada aponta compressão do terceiro nervo craniano e configura emergência; simetria com reação preservada aponta causa difusa, metabólica ou tóxica; o padrão puntiforme sugere lesão de ponte ou efeito de opioide.

O padrão respiratório acrescenta topografia. A respiração periódica, que cresce e decresce com pausas, sugere sofrimento difuso dos hemisférios; a hiperpneia sustentada, o mesencéfalo; e o padrão irregular e caótico, o bulbo, que antecede a parada respiratória. Em criança, esses padrões são menos nítidos que no adulto e não devem ser forçados dentro de categorias — o que importa é reconhecer irregularidade como sinal de tronco comprometido.

A resposta motora ao estímulo doloroso fecha o exame e deve ser testada nos quatro membros, com estímulo central. Localizar o estímulo é melhor que retirar; retirar é melhor que flexão anormal; flexão anormal é melhor que extensão. A assimetria entre os dimídios é o achado que mais localiza, e postura em extensão indica sofrimento de tronco.

Comprime ou difunde: três perguntas que decidem

A separação entre lesão estrutural e encefalopatia difusa organiza toda a conduta seguinte, e ela se faz com três perguntas.

A primeira é sobre assimetria. Qualquer achado assimétrico — pupila, força, tônus, reflexo, postura — empurra fortemente para lesão estrutural. Encefalopatia metabólica e intoxicação produzem comprometimento simétrico, e é por isso que a anisocoria pesa tanto.

A segunda é sobre a ordem em que as coisas falharam. Na lesão que comprime, a consciência cai e os reflexos de tronco se perdem em sequência, de cima para baixo, num quadro que progride. Na encefalopatia difusa, os reflexos de tronco costumam ser preservados até muito tarde, mesmo com consciência profundamente rebaixada — um paciente sem resposta motora e com fotomotor e corneopalpebral intactos está dizendo que a causa provavelmente não é compressiva.

A terceira é sobre o modo de instalação. Súbito, com cefaleia intensa em criança maior, aponta para evento vascular. Progressivo em horas, com febre, aponta para infecção do sistema nervoso central. Progressivo em horas a poucos dias, com vômitos e alteração de comportamento após quadro viral, aponta para causa metabólica ou tóxica. Flutuante, com melhora e piora, sugere intoxicação ou crises subclínicas.

Há uma quarta pergunta que não localiza, mas muda tudo: houve trauma? A resposta importa duplamente. Trauma craniano explica o quadro e organiza a conduta; e trauma negado diante de achados incompatíveis com o relato — hematomas em estágios diferentes, lesão retiniana, fratura sem mecanismo — levanta a hipótese de violência, que é diagnóstico diferencial de coma na criança pequena e obriga notificação.

Herniação em curso: o que se faz nos próximos cinco minutos

Alguns achados não pedem investigação: pedem tratamento imediato enquanto a investigação corre. São eles a anisocoria de instalação recente, a deterioração rápida da pontuação motora, a postura em extensão e a tríade de hipertensão arterial com bradicardia e respiração irregular, que é achado tardio e grave.

Diante deles, cinco medidas acontecem em paralelo. Elevar a cabeceira a cerca de trinta graus com a cabeça em posição neutra, para facilitar a drenagem venosa — colar cervical apertado e cabeça rodada aumentam a pressão intracraniana por obstrução de retorno jugular. Garantir via aérea protegida com sedação e analgesia adequadas, porque dor, agitação e tosse elevam a pressão. Manter normocapnia, reservando hiperventilação breve apenas como ponte de minutos até a medida definitiva.

A quarta é a terapia osmótica, indicada diante de sinal de herniação: solução salina hipertônica ou manitol, com atenção à volemia e à natremia, e sempre como ponte para a resolução da causa. A quinta é acionar a neurocirurgia imediatamente, porque a medida que resolve é a retirada da massa, do sangue ou a derivação do líquido.

Duas medidas de suporte entram junto e são frequentemente esquecidas. O controle da temperatura, evitando febre, porque cada grau acima do normal aumenta o consumo cerebral de oxigênio. E o controle da glicemia, evitando tanto a hipoglicemia quanto a hiperglicemia, que piora o desfecho neurológico.

Fecha a lista a vigilância de crises subclínicas. Criança em coma pode estar convulsionando sem manifestação motora visível, sobretudo depois de sedação e bloqueio neuromuscular, e a crise mantida agrava a lesão. Quando a consciência não corresponde ao esperado pela lesão observada, a monitorização eletroencefalográfica contínua responde a essa pergunta e a introdução de anticonvulsivante entra no plano.

Tomografia antes da punção lombar, e o antibiótico antes das duas

A criança com rebaixamento de consciência e febre coloca duas condutas em rota de colisão: a punção lombar, que dá o diagnóstico da infecção do sistema nervoso central, e a tomografia, que exclui a lesão que contraindica a punção.

A regra de segurança é conhecida: diante de sinais de hipertensão intracraniana ou de lesão expansiva — consciência rebaixada de forma significativa, déficit neurológico focal, papiledema, crise convulsiva de início recente com déficit persistente, postura anormal —, a imagem precede a punção, porque a retirada de líquido abaixo de uma massa favorece o deslocamento de estruturas.

A regra que a atropela é igualmente firme: o antibiótico não espera. Diante de suspeita de meningite bacteriana, colhe-se hemocultura e inicia-se antimicrobiano empírico de imediato, antes da imagem e antes da punção, porque cada hora de atraso piora o desfecho e a punção feita depois ainda é informativa pelo estudo bioquímico e citológico, mesmo que a cultura perca sensibilidade.

A síntese prática é uma ordem, e ela cabe em uma frase: estabilizar, colher hemocultura, iniciar antibiótico, fazer a imagem, e puncionar quando a imagem liberar. Inverter qualquer par dessa sequência produz um erro clássico — puncionar antes da imagem em criança com sinal focal, ou atrasar o antibiótico esperando a vaga da tomografia.

Vale lembrar o que a tomografia não faz nesse cenário. Ela não afasta meningite, não afasta encefalite e não afasta hipertensão intracraniana difusa, que pode existir com imagem sem massa. Ela responde à pergunta cirúrgica do momento: há massa, há sangue, há hidrocefalia, há desvio de linha média. A decisão de puncionar continua sendo clínica, e uma tomografia normal em criança com deterioração progressiva não autoriza a punção.

Quando a imagem é normal: a via metabólica e tóxica

Uma parte considerável das crianças em coma tem tomografia normal, e é aí que o raciocínio precisa mudar de lugar. A causa deixou de ser um problema de espaço e passou a ser um problema de química.

O painel inicial é curto e responde à maioria: glicemia, eletrólitos com sódio e cálcio, função renal, gasometria com lactato, transaminases, bilirrubinas, coagulograma e amônia. A amônia é a que mais se esquece e a que mais muda conduta, porque a hiperamonemia produz encefalopatia progressiva com edema cerebral e tem tratamento próprio e urgente.

A dosagem de amônia tem armadilha pré-analítica que precisa ser conhecida: a amostra deve ser colhida sem garroteamento prolongado, sem que a criança chore ou faça esforço muscular no momento da coleta, transportada resfriada e processada rapidamente, porque a demora eleva falsamente o valor. Um resultado alto em criança com quadro compatível não deve ser descartado como erro sem repetição adequada, e um valor muito alto exige ação enquanto se repete.

A via tóxica entra em paralelo e exige pergunta ativa. O que existe na casa, na bolsa da mãe e na casa de quem cuidou da criança naquele dia; se há medicação de uso contínuo de algum adulto; se a cartela pode ser trazida com contagem dos comprimidos que faltam. Antiepilépticos, sedativos, anti-histamínicos, álcool em qualquer forma doméstica, antidepressivos e medicamentos cardiológicos de adulto aparecem repetidamente. O serviço regional de informação toxicológica orienta o que dosar e o que administrar no agente específico.

Fecham o painel a triagem de infecção sistêmica, o rastreio de erro do metabolismo em criança pequena com episódios semelhantes prévios ou óbito infantil inexplicado na família, e a função tireoidiana e adrenal quando o contexto sugere. Em todos os casos, colher uma amostra crítica antes de corrigir a glicemia é o que preserva a possibilidade de diagnóstico metabólico.

A encefalopatia com fígado grande e sem icterícia

Existe um quadro que reúne três características incomuns e que, por isso, é reconhecível: encefalopatia aguda progressiva, fígado aumentado, e comprometimento hepático laboratorial sem icterícia.

A sequência típica começa com uma doença viral banal — quadro gripal ou exantema vesicular —, que parecia estar melhorando. Instalam-se então vômitos incoercíveis, e em seguida a alteração do comportamento: agitação, confusão e irritabilidade, evoluindo para sonolência e depois para coma, com postura anormal nas fases avançadas.

O laboratório é característico. Amônia elevada, transaminases elevadas em geral várias vezes o limite superior, hipoglicemia, alargamento do tempo de protrombina, e bilirrubinas normais ou minimamente alteradas — é essa dissociação entre lesão hepática evidente e ausência de icterícia que separa o quadro de uma hepatite grave. A imagem do encéfalo pode ser normal no início e mostrar apenas edema difuso depois, sem lesão focal.

O tratamento é de suporte e agressivo, e as prioridades são três: corrigir a hipoglicemia e manter infusão contínua de glicose em taxa alta, porque a criança está sem substrato; proteger o encéfalo com via aérea garantida, normocapnia, cabeceira elevada, controle de temperatura e terapia osmótica quando há sinal de herniação; e corrigir a coagulopatia conforme o sangramento, com vitamina K e hemocomponentes. Diante de hiperamonemia refratária, entram a restrição proteica e a discussão de terapia de substituição renal com a nefrologia.

O diagnóstico diferencial é obrigatório e inclui hepatite viral fulminante, intoxicação por paracetamol, encefalite herpética, intoxicação pelo próprio salicilato e, sobretudo em criança pequena com episódios prévios, os distúrbios da betaoxidação de ácidos graxos e do ciclo da ureia — que podem produzir quadro idêntico e exigem perfil de acilcarnitinas e ácidos orgânicos urinários.

A régua brasileira do salicilato na criança, e a exceção que ela tem

A associação entre salicilato e essa encefalopatia é a razão pela qual esse fármaco saiu do arsenal antitérmico pediátrico, e as normas brasileiras registram a restrição em dois lugares, com duas idades diferentes.

O protocolo federal de manejo clínico e vigilância epidemiológica da influenza lista, entre as condições e fatores de risco para complicação, os indivíduos menores de dezenove anos em uso prolongado de ácido acetilsalicílico, com a menção expressa ao risco dessa encefalopatia. Repare no sentido dessa entrada: nesse documento, a criança em uso crônico do fármaco não aparece apenas como alguém a quem não se deve dar salicilato — ela aparece como grupo de risco para complicação da influenza, o que a torna candidata a tratamento antiviral.

O alerta da agência reguladora nacional, publicado em 2009, usa outra idade: recomenda que se considere contraindicado o uso de salicilatos em menores de dezoito anos em casos suspeitos ou confirmados de infecção por vírus influenza, orienta os profissionais a alertar pacientes e a notificar a suspeita da reação adversa, e recomenda aos usuários que confiram na embalagem e na bula os princípios ativos, porque o salicilato aparece em associações e em produtos de venda livre sem que a família perceba.

A diferença de um ano entre os dois documentos não muda a conduta prática, e a conduta prática é a mesma nos dois: não usar salicilato como antitérmico ou analgésico em criança e adolescente com doença viral. O antitérmico de escolha na criança é outro, e a pergunta obrigatória na anamnese de qualquer encefalopatia aguda pós-viral é qual medicamento foi dado em casa, nominalmente, incluindo o que a avó ou o vizinho ofereceram.

Existe, porém, uma exceção importante e que costuma ser cobrada: há uma vasculite febril da infância em que o salicilato é prescrito à criança, em dose anti-inflamatória na fase aguda e em dose antiagregante depois, para proteção coronariana. Nela o balanço de risco é outro, o uso é indicado e monitorado, e a família deve ser orientada sobre vacinação contra varicela e influenza e sobre o que fazer se a criança adoecer com essas viroses durante o uso.

Metas do cuidado depois da estabilização

Estabilizada a criança e identificada a causa, o cuidado passa a ser de manutenção de um ambiente que não piore o encéfalo, e ele se organiza por metas explícitas.

Oxigenação e ventilação: manter saturação adequada e gás carbônico na faixa normal, evitando tanto a hipercapnia, que aumenta o volume sanguíneo cerebral, quanto a hipocapnia sustentada, que reduz fluxo. Pressão arterial: manter na faixa normal ou discretamente acima para a idade, porque a perfusão cerebral depende dela, e evitar quedas bruscas com sedação ou com diurético.

Temperatura: evitar febre de forma ativa, com antitérmico e medidas físicas. Glicemia: manter em faixa normal, corrigindo a hipoglicemia rapidamente e evitando o excesso. Sódio: manter normonatremia ou natremia discretamente elevada quando há edema, e evitar soluções hipotônicas, que agravam o edema por gradiente osmótico.

Posição e sedação: cabeceira elevada com cabeça neutra, ambiente com estímulos reduzidos, sedação e analgesia suficientes para evitar picos de pressão com aspiração e mobilização, mas não tão profundas que impeçam a avaliação neurológica seriada, que continua sendo o principal monitor.

Duas coisas continuam obrigatórias enquanto a criança estiver em coma: a reavaliação neurológica programada, com pontuação registrada por domínio e por horário, e a comunicação com a família, que precisa de informação repetida, honesta e sem promessa de desfecho. A gravidade deve ser dita desde a primeira conversa, porque a família que só ouve tranquilização não consegue acompanhar a deterioração quando ela vem.

Quando o coma não reverte: a régua nacional em pediatria

Há um ponto do cuidado em que a pergunta deixa de ser sobre tratamento e passa a ser sobre determinação de morte encefálica, e no Brasil essa determinação tem norma nacional própria, com regras específicas para crianças.

Os procedimentos se iniciam em todo paciente que apresente coma não perceptivo, ausência de reatividade supraespinhal e apneia persistente, e exigem que se tenham afastadas as condições que imitam esse quadro: hipotermia, distúrbio metabólico grave, intoxicação e efeito de sedativos e bloqueadores neuromusculares. São realizados dois exames clínicos, cada um por um médico diferente, ambos especificamente capacitados para o procedimento, além do teste de apneia e de um exame complementar que demonstre ausência de atividade encefálica.

O que muda em pediatria é a idade mínima e o intervalo entre os dois exames. A determinação só se aplica a partir de sete dias completos de vida, ou seja, do recém-nascido a termo com uma semana. O intervalo mínimo entre o primeiro e o segundo exame clínico varia por faixa: de sete dias completos até dois meses incompletos, vinte e quatro horas; de dois a vinte e quatro meses incompletos, doze horas; e a partir de dois anos de idade, uma hora, o mesmo intervalo aplicado ao adulto.

A razão do intervalo maior nas faixas menores é biológica: o encéfalo imaturo tem maior capacidade de recuperação e maior variabilidade de resposta, o que exige um período de observação mais longo antes de afirmar a irreversibilidade. Conhecer esses números importa porque eles são o que organiza a comunicação com a família sobre prazos e sobre o que será feito e quando.

Vale dizer o que essa régua não é. Ela não é um critério de limitação de esforço terapêutico, que é decisão distinta e tomada por outros fundamentos; e ela não se aplica antes dos sete dias de vida, faixa em que a determinação por esses critérios não está prevista. Ambas as distinções aparecem em situações práticas e costumam ser confundidas.

04

Da porta ao diagnóstico: estabilizar, medir, localizar, decidir a imagem

O roteiro abaixo é o dos primeiros trinta minutos. Ele não fecha diagnóstico: decide o que proteger agora, o que a imagem responde e por onde a investigação continua quando a imagem vem normal.

  1. 1Avalie via aérea e decida a proteção: pontuação de coma igual ou menor que oito, ausência de reflexo de tosse, vômitos ou padrão respiratório irregular indicam intubação.
  2. 2Garanta normóxia e normocapnia. Hiperventilação profilática reduz fluxo e produz isquemia; ela é ponte de minutos, não tratamento.
  3. 3Corrija hipotensão com solução isotônica: a perfusão cerebral depende da pressão arterial média menos a pressão intracraniana.
  4. 4Meça a glicemia capilar imediatamente e corrija. Colha amostra crítica antes da correção se houver suspeita de erro do metabolismo.
  5. 5Meça temperatura, obtenha acesso venoso e inspecione a pele inteira procurando petéquias, sinais de trauma e lesões em locais improváveis.
  6. 6Aplique a escala de coma na versão adaptada à idade, registrando a pontuação por domínio e o horário de cada medida.
  7. 7Examine pupilas, reflexos de tronco, padrão respiratório e resposta motora nos quatro membros com estímulo central.
  8. 8Responda às três perguntas: há assimetria? os reflexos de tronco falharam em sequência? qual foi o modo de instalação?
  9. 9Sinal de herniação: cabeceira a trinta graus com cabeça neutra, sedação e analgesia, normocapnia, terapia osmótica e neurocirurgia acionada agora.
  10. 10Suspeita de meningite: hemocultura e antibiótico empírico imediatos; imagem antes da punção quando há sinal focal ou hipertensão intracraniana.
  11. 11Imagem normal: painel metabólico com glicemia, eletrólitos, função renal, gasometria com lactato, transaminases, bilirrubinas, coagulograma e amônia.
  12. 12Pergunte nominalmente por todo medicamento dado em casa e por tudo que existe ao alcance da criança; acione o serviço de informação toxicológica.
  13. 13Consciência que não corresponde à lesão observada: monitorize o eletroencefalograma pela possibilidade de crises sem manifestação motora.

O que vem antes de medir

Via aérea, ventilação com normocapnia, circulação com solução isotônica e glicemia capilar. A hipoglicemia é causa reversível de coma e produz lesão em minutos. Amostra crítica colhida antes da correção preserva o diagnóstico metabólico, que a glicose apaga.

Comprime × difunde

Comprime: assimetria de pupila, força, tônus ou postura; perda de reflexos de tronco em sequência de cima para baixo; quadro progressivo. Difunde: comprometimento simétrico e reflexos de tronco preservados até tarde, mesmo com consciência profundamente rebaixada.

Encefalopatia com fígado grande

Virose que melhorava, vômitos incoercíveis, agitação que vira sonolência e coma. Fígado aumentado, amônia elevada, transaminases elevadas, hipoglicemia, coagulopatia e bilirrubinas normais. Tomografia inicial pode ser normal. Pergunte nominalmente o antitérmico usado em casa.

Achados do exame do coma e o que cada um indica

Estação do exameAchadoO que sugereDecisão que dispara
PupilasIsocóricas e fotorreagentesCausa difusa, metabólica ou tóxicaPainel metabólico e busca ativa de exposição
PupilasAnisocoria com midríase pouco reativaCompressão do terceiro nervo por deslocamento temporalTerapia osmótica e neurocirurgia imediatas
PupilasMiose puntiforme com reação preservadaLesão de ponte ou efeito de opioideConsiderar antagonista e imagem
Reflexos de troncoPerda progressiva no sentido rostrocaudalDeterioração por compressãoMedidas de neuroproteção e imagem imediata
RespiraçãoPadrão irregular e caóticoSofrimento bulbar, antecede parada respiratóriaProteção de via aérea sem espera
MotoraPostura em extensão ou assimetria entre dimídiosSofrimento de tronco ou lesão estruturalImagem imediata e acionamento neurocirúrgico

Números lidos diretamente nos documentos citados

NúmeroO que ele medeFonte
8 ou menosPontuação na escala de coma que define coma e limiar de proteção de via aéreaUso consolidado, reproduzido em protocolos de atendimento pediátrico
Menores de 19 anosFaixa em uso prolongado de ácido acetilsalicílico listada como fator de risco para complicação da influenzaProtocolo de manejo clínico e vigilância epidemiológica da influenza, Ministério da Saúde
Menores de 18 anosFaixa em que o uso de salicilatos é considerado contraindicado em suspeita ou confirmação de influenzaAlerta SNVS/ANVISA/NUVIG/GGFARM nº 1, de 8 de julho de 2009
7 dias completosIdade mínima para aplicação dos procedimentos de determinação de morte encefálicaResolução do Conselho Federal de Medicina nº 2.173, de 23 de novembro de 2017
24 horasIntervalo mínimo entre os dois exames clínicos de 7 dias completos a 2 meses incompletosMesma resolução
12 horasIntervalo mínimo entre os dois exames clínicos de 2 a 24 meses incompletosMesma resolução
1 horaIntervalo mínimo entre os dois exames clínicos a partir de 2 anos de idadeMesma resolução
2 exames clínicosNúmero de exames clínicos exigidos, cada um por médico diferente especificamente capacitadoMesma resolução

Tomografia normal não afasta meningite, encefalite nem hipertensão intracraniana difusa. Ela responde à pergunta cirúrgica: massa, sangue, hidrocefalia, desvio de linha média.

Na encefalopatia aguda com fígado aumentado, a tomografia inicial pode ser normal e o diagnóstico se faz com amônia, transaminases, glicemia e coagulograma.

Amônia colhida com garroteamento prolongado, com a criança chorando ou com transporte demorado vem falsamente elevada; valor alto em quadro compatível exige ação enquanto se repete.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

A partir de que idade o salicilato deixa de ser proibido na criança com virose?

Menores de dezenove anos, e como grupo de risco

O protocolo federal de manejo clínico e vigilância epidemiológica da influenza inclui, no rol de condições e fatores de risco para complicação, os indivíduos menores de dezenove anos de idade em uso prolongado de ácido acetilsalicílico, com menção expressa ao risco da encefalopatia associada. A entrada aparece na mesma lista de pneumopatias, cardiopatias, imunossupressão, obesidade e população indígena aldeada — ou seja, o documento trata essa criança como candidata a tratamento antiviral, e não apenas como alguém a quem não se dá o fármaco.

Ministério da Saúde, Secretaria de Vigilância em Saúde. Protocolo de tratamento de influenza — item de condições e fatores de risco para complicações

Menores de dezoito anos, como contraindicação formal

O alerta da agência reguladora nacional publicado em 8 de julho de 2009 recomenda considerar contraindicado o uso de salicilatos em menores de dezoito anos de idade em casos suspeitos ou confirmados de infecção por vírus influenza, solicita aos profissionais de saúde que orientem os pacientes e notifiquem a suspeita da reação adversa, e recomenda aos usuários de medicamentos que confiram na embalagem e na bula os princípios ativos, porque o salicilato aparece em associações e em produtos de venda livre.

Alerta SNVS/ANVISA/NUVIG/GGFARM nº 1, de 8 de julho de 2009 — ácido acetilsalicílico e encefalopatia associada

A vasculite em que o salicilato é prescrito à criança

Há uma vasculite febril da infância cujo tratamento inclui o próprio salicilato, em dose anti-inflamatória na fase aguda e em dose antiagregante na fase de convalescença, para proteção coronariana, com uso mantido por meses quando há alteração de artérias coronárias. Nesse contexto o balanço de risco é outro, o uso é indicado e monitorado, e a conduta acessória é orientar a família sobre vacinação contra varicela e influenza e sobre o que fazer se a criança adoecer com essas viroses durante o tratamento.

Recomendações de manejo da doença de Kawasaki reproduzidas em protocolos de reumatologia e de cardiologia pediátrica

Na prova

Enunciado que pergunta a faixa etária de restrição pode cobrar dezoito ou dezenove anos conforme o documento de referência, e o par de números é a pista de qual norma está sendo usada: dezenove aparece no protocolo de influenza como fator de risco; dezoito aparece no alerta regulatório como contraindicação. Enunciado que descreve criança com virose e febre e oferece salicilato como antitérmico cobra a proibição, e nele a idade exata é irrelevante. Já enunciado que descreve febre prolongada com conjuntivite não exsudativa, alterações de mucosa oral, exantema, alterações de extremidades e linfonodomegalia cervical está cobrando a exceção, e nele o salicilato é a resposta esperada.

Punção lombar antes ou depois da imagem na criança com febre e rebaixamento?

A imagem precede a punção quando há sinal de risco

A regra de segurança amplamente adotada é que, diante de consciência significativamente rebaixada, déficit neurológico focal, papiledema, crise convulsiva recente com déficit persistente ou postura anormal, a tomografia precede a punção lombar, porque a retirada de líquido abaixo de uma lesão expansiva favorece o deslocamento de estruturas. Uma tomografia normal, contudo, não autoriza automaticamente a punção em criança com deterioração progressiva: a decisão permanece clínica.

Recomendações de segurança para punção lombar reproduzidas em protocolos de emergência pediátrica e em manuais de atendimento ao paciente com rebaixamento de consciência

O antimicrobiano não espera nenhuma das duas

A régua de vigilância e manejo das meningites bacterianas é firme quanto ao tempo: colhida a hemocultura, o antimicrobiano empírico é iniciado de imediato diante da suspeita, sem aguardar a imagem e sem aguardar a punção, porque o atraso piora o desfecho. A punção realizada depois do início do antimicrobiano continua informativa pelos parâmetros bioquímicos e citológicos, ainda que a cultura perca sensibilidade.

Ministério da Saúde. Guia de Vigilância em Saúde — capítulo de meningites, itens de conduta diante de caso suspeito e de coleta de material

Na prova

As duas posições não competem: elas ordenam ações diferentes na mesma cena, e o enunciado costuma testar exatamente a ordem. A sequência que responde é estabilizar, colher hemocultura, iniciar o antimicrobiano, fazer a imagem e puncionar quando a imagem liberar. Alternativa que coloque a punção antes da imagem em criança com déficit focal está errada por segurança; alternativa que adie o antimicrobiano até a punção ou até a vaga da tomografia está errada por tempo. Enunciado que descreve criança febril, alerta, sem déficit e sem sinal de hipertensão intracraniana não exige imagem prévia, e nele a punção imediata é a conduta.

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Caso resolvido

Menino de sete anos, previamente hígido, é trazido pela mãe ao pronto-socorro. Há cerca de uma semana teve quadro gripal com febre, do qual havia melhorado. Há dois dias começou a vomitar de forma persistente, sem diarreia, e desde ontem está estranho: ficou agitado, depois confuso, e hoje pela manhã está sonolento e difícil de despertar. A mãe conta que deu para a febre um comprimido que a avó tinha em casa e que costuma usar para dor. Ao exame: pontuação nove na escala de coma, sem sinais de trauma, sem rigidez de nuca, pupilas isocóricas e fotorreagentes, reflexos de tronco preservados, sem déficit focal, fígado palpável a quatro centímetros do rebordo costal, escleras sem icterícia. Glicemia capilar de 46 mg/dL. Tomografia de crânio sem lesão focal e sem desvio de linha média.
o que se fez primeiro
Via aérea avaliada com pontuação nove e vômitos persistentes, com decisão de proteção diante de qualquer nova queda; normóxia e normocapnia asseguradas; acesso venoso; e correção imediata da hipoglicemia, com coleta de amostra crítica antes da glicose por se tratar de criança com encefalopatia de causa não estabelecida.
comprime ou difunde
Pupilas isocóricas e fotorreagentes, reflexos de tronco preservados, ausência de déficit focal e de assimetria apontam para causa difusa. Reflexos de tronco intactos com consciência muito rebaixada é justamente o padrão que afasta compressão e desloca a investigação para o laboratório.
o que a imagem respondeu
A tomografia respondeu à pergunta cirúrgica e a excluiu: sem massa, sem sangue, sem hidrocefalia, sem desvio de linha média. Ela não afasta meningite, encefalite nem causa metabólica, e neste quadro pode ser normal mesmo com edema cerebral em instalação.
o painel que fecha
Amônia, transaminases, bilirrubinas, coagulograma, glicemia sérica, eletrólitos e gasometria. O padrão esperado é amônia elevada, transaminases elevadas, hipoglicemia e alargamento do tempo de protrombina, com bilirrubinas normais — a dissociação entre lesão hepática e ausência de icterícia é o achado que caracteriza.
a pergunta que fecha o antecedente
Qual foi, nominalmente, o comprimido dado em casa. Salicilato aparece em associações e em produtos de venda livre, e a família raramente o identifica como medicamento de risco. Pede-se a caixa. Dosagem sérica de salicilato entra para separar intoxicação pelo próprio fármaco.
tratamento
Infusão contínua de glicose em taxa alta após a correção inicial; neuroproteção com via aérea garantida, normocapnia, cabeceira elevada com cabeça neutra, controle de temperatura e terapia osmótica se houver sinal de herniação; correção da coagulopatia com vitamina K e hemocomponentes conforme sangramento; restrição proteica e discussão de terapia de substituição renal se a hiperamonemia for refratária.
o que dizer à mãe
Gravidade comunicada em linguagem acessível, sem promessa de desfecho, e sem culpabilizar pelo medicamento administrado. A orientação de que o salicilato é contraindicado em criança com doença viral é dada como informação de segurança para o futuro, e o evento adverso é notificado à vigilância.
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Agora feche você

Menina de nove anos, previamente hígida, é trazida ao pronto-socorro quarenta minutos depois de queixar-se de dor de cabeça súbita e intensa durante a aula, seguida de um vômito e de rebaixamento progressivo. Não houve trauma presenciado e não há febre. Na admissão: pontuação sete na escala de coma, pressão arterial 138 por 84 mmHg, frequência cardíaca 52 bpm, respiração irregular. Pupila direita com 5 mm e pouco reativa, pupila esquerda com 2,5 mm e reativa. Resposta motora em extensão à esquerda e retirada à direita. Glicemia capilar 104 mg/dL. Sem rigidez de nuca e sem petéquias.
o que os sinais vitais dizem
Hipertensão arterial com bradicardia e respiração irregular compõem a resposta tardia à hipertensão intracraniana e indicam que o quadro está avançado. Esse conjunto não é achado a registrar: é indicação de agir enquanto a investigação corre.
o que a assimetria localiza
Anisocoria com midríase pouco reativa à direita, em criança com consciência rebaixada, indica compressão do terceiro nervo craniano por deslocamento de estrutura temporal. A postura em extensão contralateral e a assimetria da resposta motora confirmam lesão estrutural com sofrimento de tronco.
o que já está descartado
Glicemia normal afasta a causa reversível que se corrige em segundos. Ausência de febre e de rigidez de nuca torna improvável a infecção do sistema nervoso central como explicação primária, e o modo súbito com cefaleia intensa em criança maior aponta para evento vascular.
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Onde a banca derruba

  1. 1Começar pelo diagnóstico e deixar a glicemia para depois A hipoglicemia é causa reversível de coma, é frequente na criança pequena pela reserva hepática menor e produz lesão em minutos. A glicemia capilar se mede enquanto as outras medidas acontecem, não depois delas. E quando há suspeita de erro do metabolismo, colher a amostra crítica antes de administrar glicose é o que preserva a chance de diagnóstico, porque a correção apaga o quadro laboratorial.
  2. 2Hiperventilar de rotina para baixar a pressão intracraniana A redução do gás carbônico contrai o leito vascular cerebral e reduz o volume, mas reduz também o fluxo, produzindo isquemia em tecido que já sofre. A meta é normocapnia, e a hiperventilação é ponte de minutos até a medida definitiva diante de sinal de herniação, nunca conduta mantida. Hipocapnia sustentada piora desfecho.
  3. 3Infundir solução hipotônica na criança com edema cerebral O soro de manutenção hipotônico agrava o edema por gradiente osmótico e favorece a hiponatremia, que é ela própria causa de crise convulsiva e de piora neurológica. A reposição e a manutenção se fazem com solução isotônica, e a natremia entra nas metas de acompanhamento junto com glicemia, temperatura e pressão arterial.
  4. 4Puncionar antes da imagem em criança com sinal focal Consciência significativamente rebaixada, déficit focal, papiledema ou postura anormal exigem imagem antes da punção, porque retirar líquido abaixo de uma lesão expansiva favorece o deslocamento de estruturas. O que não pode esperar é o antimicrobiano: colhe-se hemocultura e inicia-se o tratamento empírico antes da imagem e antes da punção.
  5. 5Ler a tomografia normal como se o caso estivesse resolvido A tomografia responde à pergunta cirúrgica do momento — massa, sangue, hidrocefalia, desvio de linha média — e não afasta meningite, encefalite, intoxicação, causa metabólica nem hipertensão intracraniana difusa. Uma criança em coma com imagem normal não tem menos doença: tem outra doença, e a investigação passa a ser de laboratório e de história.
  6. 6Não perguntar nominalmente qual antitérmico foi dado em casa Perguntar se a criança tomou algum remédio costuma render resposta negativa, porque a família não considera medicamento o que comprou sem receita. É preciso perguntar por nome, incluir o que a avó e o vizinho ofereceram, e pedir a caixa. O salicilato aparece em associações e em produtos de venda livre, e é justamente esse o antecedente da encefalopatia aguda com fígado aumentado.
  7. 7Descartar a amônia elevada como erro de coleta A dosagem realmente se eleva falsamente com garroteamento prolongado, com choro e esforço muscular na coleta e com transporte demorado. Mas descartar um valor alto em criança com encefalopatia e vômitos, sem repetir com técnica adequada, é abrir mão do exame que mais muda conduta nesse cenário. Valor muito alto exige ação enquanto se repete.
  8. 8Atribuir a falta de resposta apenas à lesão vista na imagem Criança em coma pode estar convulsionando sem qualquer manifestação motora, sobretudo depois de sedação e de bloqueio neuromuscular, e a crise mantida agrava a lesão. Quando o nível de consciência não corresponde ao que a imagem mostra, a monitorização eletroencefalográfica responde a essa pergunta, e o anticonvulsivante entra no plano.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

A avaliação pediátrica exige adaptação da escala de coma, especialmente do componente verbal, já que o lactente não fala e a resposta esperada é choro, consolabilidade e interação, sob pena de subestimar sistematicamente a pontuação. A escala do adulto aplicada sem adaptação produz classificação errada. Crianças desenvolvem hipertensão intracraniana e têm particularidades como maior tendência a edema difuso. A tomografia é usada com critério, ponderando radiação e utilizando regras de decisão pediátricas, mas não é contraindicada. A fontanela aberta oferece alguma complacência adicional, porém não impede a hipertensão intracraniana.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Escreva de memória a ordem das quatro medidas que precedem a avaliação da consciência e diga por que a glicemia entra em paralelo e não depois. Em seguida, escreva as quatro estações do exame do coma e o que cada achado de pupila indica. Por fim, escreva a sequência correta diante de criança febril com rebaixamento — hemocultura, antimicrobiano, imagem, punção — e os intervalos entre os dois exames clínicos de determinação de morte encefálica por faixa etária.

em 30 dias

Monte, em dez linhas, o atendimento completo de um escolar trazido por cefaleia súbita seguida de rebaixamento progressivo, com anisocoria e postura em extensão: o que proteger, o que administrar, o que pedir e quem acionar, em ordem e com justificativa. Depois refaça o caso trocando um dado por vez — não há anisocoria e as pupilas estão simétricas e reagentes; há febre alta com rigidez de nuca; houve virose há uma semana com vômitos incoercíveis e o fígado está a quatro centímetros do rebordo; a tomografia veio normal — e diga o que cada troca muda na ordem dos exames e na hipótese.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Você recebe uma criança em coma na sala de emergência, com a mãe ao lado e a enfermagem esperando ordens. Estabilize na ordem certa, meça a consciência com a escala adaptada à idade, examine pupilas e reflexos de tronco para decidir se a lesão comprime ou difunde, indique a imagem pela pergunta que ela responde e comunique a gravidade sem prometer desfecho. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Rebaixamento de consciência e coma na criança – Coma na criança: o que se mede primeiro, o que a imagem responde e o que ela nunca vai mostrar — Preparatório para provas | OsceLabs