PediatriaEmergências Pediátricas

Intoxicações agudas na criança e no adolescente

O diagnóstico nasce da cena, do toxíndrome e do ECG; a conduta começa com suporte e descontaminação seletiva, e o antídoto só entra quando substância, tempo e gravidade autorizam.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Qual conduta em ingestão de cáustico?

02

Como esse tema cai

Intoxicação aguda pediátrica exige raciocínio sindrômico e suporte imediato. Crianças pequenas costumam ter exposições não intencionais; adolescentes concentram exposições voluntárias, uso recreativo e risco de autolesão. A ausência de uma história confiável não autoriza espera: ABCDE, glicemia, temperatura e ECG guiam as primeiras decisões.

Em provas, o núcleo é reconhecer toxíndromes, escolher exames que mudam conduta, saber quando carvão ativado é útil e associar antídotos a síndromes específicas. Na prática brasileira, o Centro de Informação e Assistência Toxicológica deve ser contatado precocemente pelo 0800 722 6001.

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O que muda decisão

1. Segurança, estabilização e história dirigida

Proteja equipe e paciente de contaminação secundária. Retire roupas contaminadas e irrigue pele ou olhos quando houver exposição externa, usando equipamento de proteção. No ABCDE, avalie via aérea, frequência e esforço respiratório, perfusão, consciência, pupilas, temperatura e glicemia. Administre oxigênio e ventilação assistida quando indicados; convulsões, choque, disritmias e hipoglicemia são tratados de imediato.

A história útil inclui substância, formulação, concentração, quantidade máxima possível, horário, via, sintomas, peso e tratamentos prévios. Leve embalagens e fotografias, mas não induza vômito. Para estimar a dose, use a pior hipótese plausível: quantidade que faltava × concentração ÷ peso. Medicamentos de visitantes, produtos artesanais e combinações devem ser lembrados.

Em adolescentes, converse em ambiente reservado assim que a condição permitir. Pergunte por coingestão, álcool, drogas, intenção suicida, coerção e acesso recorrente a medicamentos. A estabilização não substitui avaliação de saúde mental e proteção antes da alta.

2. Toxíndromes: padrões que reduzem a incerteza

Toxíndrome é um conjunto de achados autonômicos e neurológicos. A síndrome opioide combina depressão do nível de consciência, hipoventilação e miose, embora pupilas possam variar. A colinérgica cursa com secreções abundantes, broncorreia, broncoespasmo, vômitos, diarreia, sudorese, miose, fasciculações e fraqueza.

A anticolinérgica produz midríase, pele e mucosas secas, rubor, hipertermia, retenção urinária, íleo, taquicardia, agitação e delirium. A simpaticomimética também causa midríase, taquicardia, hipertensão, hipertermia e agitação, mas tipicamente com sudorese e ruídos intestinais preservados. Sedativo-hipnótica cursa com depressão do SNC, ataxia e fala arrastada, frequentemente sem a hipoventilação intensa do opioide isolado.

Toxíndromes podem ser incompletas por dose, tempo ou coingestão. Não se deve forçar um diagnóstico quando o exame é discordante.

Comparação visual de quatro toxíndromes pediátricas por pupilas, pele, secreções e estado neurológico
Toxíndromes orientam o diagnóstico quando a substância é desconhecida: opioide (miose e hipoventilação), colinérgica (miose e secreções), anticolinérgica (midríase e pele seca) e simpaticomimética (midríase, sudorese e agitação).

3. Exames que realmente mudam conduta

Glicemia e ECG de 12 derivações têm alto rendimento. No ECG, procure QRS alargado, QTc prolongado, bloqueios, ectopia e padrão compatível com bloqueio de canal de sódio. QRS largo em exposição a antidepressivo tricíclico ou outro bloqueador de canal de sódio indica bicarbonato de sódio, sobretudo diante de hipotensão, arritmia ventricular ou acidose.

Dosagem de paracetamol é recomendada em ingestão intencional ou história incerta, pois a fase inicial pode ser assintomática. Em ingestão aguda única com horário conhecido, a concentração obtida a partir de 4 horas é interpretada pelo nomograma de Rumack–Matthew. O nomograma não se aplica a ingestão repetida supraterapêutica, horário desconhecido ou apresentação tardia.

Eletrólitos, gasometria, função renal e hepática, osmolaridade, lactato, creatinoquinase, salicilato, ferro e teste de gravidez são solicitados conforme suspeita. Triagens urinárias amplas raramente definem manejo agudo e podem gerar falsos positivos; um resultado nunca substitui a clínica.

4. Descontaminação: menos é mais

Retire contaminantes da pele e irrigue olhos copiosamente. Não provoque vômito. Lavagem gástrica não é rotina e só é cogitada em cenário excepcional, muito precoce, potencialmente letal, após discussão com toxicologia e com via aérea protegida quando necessário.

Carvão ativado em dose única, usualmente 1 g/kg (máximo 50 g), pode ser considerado idealmente até 1 hora após ingestão potencialmente tóxica de substância adsorvível. O benefício pode persistir mais tarde em alguns fármacos de liberação prolongada ou que retardam esvaziamento, sempre individualizado. É contraindicado quando a via aérea não está protegida, há risco importante de aspiração, perfuração/obstrução intestinal ou ingestão de substância não adsorvida.

Carvão não adsorve adequadamente álcoois, lítio, ferro e diversos cáusticos. Irrigação intestinal total é reservada a situações selecionadas, como formulações de liberação prolongada, ferro, lítio ou body packing, com orientação especializada. Cáusticos não devem ser neutralizados nem submetidos a carvão; o foco é via aérea, analgesia e avaliação endoscópica conforme indicação.

5. Antídotos e terapias específicas de alto rendimento

Naloxona é indicada diante de hipoventilação compatível com opioide; titule para restaurar ventilação, não necessariamente vigília completa, e observe recorrência porque sua duração pode ser menor que a do agente. Na intoxicação por paracetamol, N-acetilcisteína é mais eficaz quando iniciada precocemente e não deve ser adiada se a apresentação ultrapassa cerca de 8 horas, há nível tóxico ou lesão hepática compatível.

Na síndrome colinérgica, atropina é titulada para secar secreções brônquicas e melhorar ventilação, não para normalizar pupilas ou frequência cardíaca. Pralidoxima é considerada em organofosforados, sobretudo com fraqueza ou manifestações nicotínicas, em consulta ao CIATox. Bicarbonato de sódio trata toxicidade por bloqueio de canal de sódio com QRS largo, arritmia ou hipotensão.

Fomepizol bloqueia metabolismo de metanol e etilenoglicol; casos graves podem exigir hemodiálise. Hidroxocobalamina é opção para cianeto; azul de metileno para metemoglobinemia sintomática, com cautela em deficiência de G6PD. Flumazenil raramente é apropriado na intoxicação indiferenciada, pois pode precipitar convulsões em usuário crônico, coingestão pró-convulsivante ou epilepsia.

6. Síndromes específicas que aparecem em prova

Salicilato pode produzir náusea, vômito, zumbido, taquipneia e padrão ácido-básico misto. Corrija volume, potássio e glicose; alcalinização com bicarbonato aumenta eliminação. Intubação é de alto risco porque queda da ventilação eleva rapidamente a acidemia e a fração não ionizada; quando inevitável, mantenha ventilação minuto elevada e envolva toxicologia/nefrrologia.

Ferro causa sintomas gastrointestinais, choque, acidose e hepatotoxicidade. Radiografia pode mostrar comprimidos, mas exame normal não exclui. Concentração sérica no tempo adequado e gravidade guiam deferoxamina. Beta-bloqueadores podem requerer glucagon e insulina em altas doses; bloqueadores de canal de cálcio também podem exigir cálcio e insulina euglicêmica, sempre em ambiente intensivo.

Monóxido de carbono pode apresentar cefaleia, náusea, confusão ou síncope; o oxímetro de pulso comum pode parecer normal. Administre oxigênio a 100% e meça carboxi-hemoglobina, discutindo oxigenoterapia hiperbárica em manifestações neurológicas, cardiovasculares, acidose grave ou gestação.

7. Observação, destino e vigilância

O tempo de observação depende do agente, formulação, dose, sintomas e meia-vida. Preparações de liberação prolongada, substâncias cardiotóxicas e agentes com metabólitos ativos exigem períodos maiores. Alta só ocorre após janela segura, exame e sinais vitais normais, possibilidade de alimentação, plano de retorno e ambiente protegido.

Exposição intencional requer avaliação de risco suicida, supervisão e restrição de acesso antes da alta. Suspeita de negligência, violência ou administração maliciosa aciona a rede de proteção. Casos devem ser notificados conforme normas locais e orientados pelo CIATox.

8. Padrão mental para a prova

Diante de uma exposição desconhecida, pense: primeiro fisiologia, depois toxíndrome, ECG e exames-alvo; só então descontaminação e antídoto. A pergunta correta não é apenas “o que foi ingerido?”, mas “qual falência mata primeiro e qual intervenção tem benefício imediato?”. Em opções de prova, indução de vômito, lavagem rotineira, carvão em paciente rebaixado sem via aérea protegida e espera pela toxicologia laboratorial costumam estar erradas.

04

Abordagem estruturada da intoxicação

Suporte e reconhecimento sindrômico precedem a confirmação laboratorial.

  1. 1Interromper exposição e estabilizar
  2. 2Calcular pior dose plausível
  3. 3Reconhecer toxíndrome e obter ECG
  4. 4Contatar CIATox 0800 722 6001
  5. 5Definir observação, antídoto e destino

1. ABCDE

Via aérea, ventilação, circulação, consciência, glicemia e temperatura.

2. Síndrome

Pupilas, secreções, pele, ruídos intestinais, frequência cardíaca e comportamento.

3. Risco elétrico

ECG com QRS e QTc, repetido se houver agente cardiotóxico.

4. Específico

Descontaminação seletiva, antídoto e eliminação aumentada quando indicados.

Toxíndromes de alto rendimento

SíndromePupilas/peleAchados-chaveExemplos
OpioideMiose; pele variávelHipoventilação e comaMorfina, fentanil
ColinérgicaMiose; sudoreseBroncorreia, diarreia, fasciculaçõesOrganofosforados
AnticolinérgicaMidríase; seca e quenteDelirium, retenção, íleoAnti-histamínicos, tricíclicos
SimpaticomiméticaMidríase; sudoreseAgitação, hipertensão, hipertermiaCocaína, anfetaminas
Sedativo-hipnóticaVariávelDepressão do SNC, ataxiaBenzodiazepínicos, álcool

Não induzir vômito.

Em adolescente, sempre avaliar intencionalidade e segurança.

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Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Carvão ativado após uma hora

Regra geral

Maior benefício quando administrado precocemente, em geral até 1 hora.

Manuais de toxicologia

Exceções

Liberação prolongada ou esvaziamento retardado podem justificar uso mais tardio.

Avaliação toxicológica

Na prova

Nunca o indique automaticamente; confirme substância adsorvível e via aérea segura.

Flumazenil na sedação por benzodiazepínico

Uso restrito

Pode ser considerado em exposição iatrogênica selecionada, sem dependência ou coingestão.

Toxicologia clínica

Evitar no desconhecido

Pode precipitar abstinência, convulsão e arritmia.

Segurança

Na prova

Na overdose intencional ou indiferenciada, suporte ventilatório costuma ser a resposta segura.

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Caso resolvido

Adolescente de 15 anos é encontrado sonolento, FR 6 irpm, SpO₂ 86%, pupilas puntiformes e glicemia 102 mg/dL. A família não sabe o que ocorreu.
Prioridade
Abrir via aérea, fornecer oxigênio e ventilar com bolsa-válvula-máscara.
Reconhecimento
Coma, hipoventilação e miose formam toxíndrome opioide.
Terapia
Administrar naloxona titulada à ventilação e continuar suporte.
Vigilância
Observar ressedações, pois o opioide pode durar mais que a naloxona.
Depois
Investigar coingestões, obter ECG e realizar avaliação de saúde mental/proteção.
07

Agora feche você

Criança de 4 anos chega 40 minutos após possível ingestão de antidepressivo tricíclico. Está sonolenta, PA baixa e ECG mostra QRS alargado.
Suporte imediato
ABCDE, oxigenação, ventilação e acesso.
Terapia específica
_____
Descontaminação
_____
08

Onde a banca derruba

  1. 1Induzir vômito Não reduz risco e aumenta aspiração.
  2. 2Carvão para qualquer agente Álcoois, ferro, lítio e cáusticos não são adequadamente adsorvidos.
  3. 3Confiar no oxímetro no CO Pode mostrar saturação falsamente tranquilizadora.
  4. 4Normalizar frequência com atropina Na síndrome colinérgica, o alvo é secar secreções e melhorar ventilação.
  5. 5Usar nomograma fora do contexto Rumack–Matthew não vale para tempo desconhecido ou ingestão repetida.
  6. 6Alta sem avaliação psicossocial Exposição intencional exige avaliação de risco e segurança.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Neutralização e vômito agravam lesão.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Desenhe uma matriz com pupila, pele, secreções, intestino e ventilação para quatro toxíndromes. Associe cada uma ao antídoto principal.

em 30 dias

Resolva três cenários: paracetamol com tempo desconhecido, tricíclico com QRS largo e organofosforado com broncorreia. Justifique descontaminação e destino.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Organize o atendimento pela fisiologia, verbalize a toxíndrome e contate precocemente o CIATox. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Intoxicações agudas na criança e no adolescente — Preparatório para provas | OsceLabs