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Puberdade precoce e puberdade tardia

Quatro idades delimitam o normal, e é nas bordas que as réguas brasileiras se desencontram: um ano de vida sem linha na tabela de inclusão, dois cortes diferentes para o mesmo teste de estímulo e uma dose que só é por quilo em quem pesa 40 kg.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Menina de 6 anos e 8 meses é trazida por desenvolvimento mamário há 5 meses (Tanner M3), com pelos pubianos incipientes e aceleração da velocidade de crescimento. A idade óssea está avançada em 2 anos em relação à cronológica. Não há cefaleia nem alterações neurológicas. Qual exame é MAIS apropriado para confirmar puberdade precoce central?

02

Como esse tema cai

Este capítulo trata das duas bordas da puberdade e do que se faz em cada uma: quando o desenvolvimento chega cedo demais, quando não chega, e qual documento brasileiro governa cada decisão. A régua nacional da precocidade é o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Puberdade Precoce Central, do Ministério da Saúde, atualizado em 2022; ao lado dele estão o consenso de 2016 da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia com a Sociedade Brasileira de Pediatria e dois Documentos Científicos da Sociedade Brasileira de Pediatria, de 2023. Onde eles discordam, e discordam em vários pontos, o bloco de divergências mostra de que lado cada número está.

A puberdade normal tem capítulo próprio nesta coleção, e é lá que estão a escala de Tanner, o momento do estirão em cada sexo, a cronologia da menarca e o limite superior do normal na leitura do material do Ministério da Saúde para a atenção básica. Aqui as idades-limite entram só como ponto de partida: o que interessa é o que vem depois delas — qual exame confirma, qual imagem se pede, quem entra em tratamento e com que dose. A leitura de escore Z, percentil e estatura-alvo pertence ao capítulo de acompanhamento do crescimento.

Três recortes ficam de fora. A hiperplasia adrenal congênita, causa clássica de precocidade periférica, tem protocolo e capítulo próprios, e aparece aqui apenas como diagnóstico diferencial e como situação em que a forma periférica ativa secundariamente o eixo. A investigação da baixa estatura por deficiência de hormônio do crescimento é assunto do capítulo de baixa estatura. E a síndrome de Turner e a de Klinefelter entram apenas pelo que interessa ao atraso puberal — o cariótipo como exame que fecha a caixa das gonadotrofinas altas.

03

O que muda decisão

As duas bordas, e a faixa que fica sem nome entre elas

Como usar este capítulo: confirme se o primeiro sinal puberal ocorreu fora da faixa esperada, diferencie ativação central de produção periférica e avalie velocidade de progressão e idade óssea. A investigação e o tratamento dependem do sexo, da idade e do impacto sobre estatura e desenvolvimento.

Quatro números de idade organizam o capítulo. Dois marcam a borda de baixo: caractere sexual secundário antes dos 8 anos na menina e antes dos 9 anos no menino é precocidade. Dois marcam a borda de cima: ausência de mama aos 13 anos na menina e de volume testicular de 4 mL ou mais aos 14 anos no menino é atraso. Entre 8 e 13 na menina e entre 9 e 14 no menino a puberdade é fisiológica — é como o Documento Científico nº 92 da Sociedade Brasileira de Pediatria escreve, dizendo por inclusão o que os outros dizem por exclusão.

Repare que a borda de baixo usa “antes de” e a de cima usa “ausência aos”. A menina que faz 8 anos e tem telarca no mesmo dia não é precoce; o menino que completa 14 anos com 3 mL já é tardio. O aniversário decide dos dois lados, mas em um deles salva e no outro condena.

Entre a borda de baixo e o normal há uma faixa que quase ninguém nomeia. O consenso brasileiro de 2016 da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia com a Sociedade Brasileira de Pediatria chamou de puberdade adiantada o início entre 8 e 9 anos na menina e entre 9 e 10 anos no menino. Não é precocidade, porque a definição já foi cumprida; não é rigorosamente normal, porque está no primeiro decil. E é essa faixa que o protocolo do Ministério da Saúde recolhe, adiante, num critério de inclusão que contradiz a própria definição do documento.

A epidemiologia explica o desenho de quase todo enunciado. A precocidade é de 10 a 23 vezes mais frequente na menina, com incidência dinamarquesa de 20 a 23 casos por 10.000 meninas contra menos de 5 por 10.000 meninos — e na menina a maior parte é idiopática, enquanto no menino não é: o protocolo registra que dois terços dos meninos têm anormalidade neurológica associada e que metade destes tem tumor.

A borda de cima inverte a assimetria: o atraso é mais comum no menino, e nele a causa mais frequente é benigna. O atraso constitucional do crescimento e da puberdade responde por 70% dos meninos e 32% das meninas com atraso puberal.

Central, periférica e as variantes: quem decide é o testículo e o LH

A primeira bifurcação é se o eixo hipotálamo-hipófise-gônada foi ligado. Quando foi, a precocidade é central, dependente de gonadotrofinas, e repete a sequência da puberdade normal, apenas antecipada e mais rápida. Quando não foi, é periférica: o esteroide vem da gônada autônoma, da adrenal ou de fora, e a sequência sai da ordem.

No menino o discriminador é anatômico e dispensa laboratório na primeira leitura. Na forma central o testículo cresce junto com a virilização, porque é a gonadotrofina que o estimula. Na periférica o pênis cresce, aparecem pelos e acne, e o testículo continua pré-puberal ou desproporcional ao grau de virilização. Menino virilizado com testículo de 2 ou 3 mL tem androgênio adrenal ou exógeno até prova em contrário, e o exame é 17-hidroxiprogesterona com avaliação da adrenal, não ressonância. Assimetria testicular aponta tumor gonadal.

Na menina a lista de variantes é maior. Telarca precoce isolada é mama, uni ou bilateral, antes dos 8 anos, sem outro sinal puberal, sem aceleração de crescimento, sem avanço de idade óssea e sem prejuízo estatural; tem duas idades preferenciais, antes dos 2 anos e depois dos 6, e a faixa de 3 a 5 anos é a de maior risco patológico. Adrenarca precoce, que se manifesta como pubarca, é o outro lado: pelo, odor apócrino e acne por androgênio adrenal, sem ativação do eixo gonadal.

As duas são critério de exclusão explícito do protocolo brasileiro, que trata a gonadarca — a criança com pubarca isolada não entra nele nem que o teste de estímulo venha alterado. Mas exclusão não é alta: entre 21% e 64% das meninas com broto mamário antes dos 8 anos têm telarca isolada e não evoluem, em 18% a 20% dos casos a mama ou o pelo é o primeiro sinal de precocidade verdadeira, e a maior coorte descreveu progressão para a forma central em 13%, independentemente da idade de apresentação. O que resolve é o seguimento: na telarca isolada a mama estabiliza ou regride em até seis meses, e crescimento mamário progressivo com aceleração e pubarca nesse intervalo aponta causa patológica.

Os sinais de alerta que tiram a adrenarca precoce do acompanhamento simples e mandam dosar androgênios são objetivos: início antes dos 6 anos; virilização, com hipertrofia de clitóris ou crescimento peniano; idade óssea avançada dois ou mais desvios-padrão; aceleração de crescimento com mudança de 0,5 desvio-padrão ou 10 pontos de percentil em menos de seis meses; timbre vocal mais grave; massa abdominal; assimetria testicular. Sem eles, a Sociedade Brasileira de Pediatria dispensa exame imediato e prescreve reavaliação a cada três meses.

Duas manchas de pele fecham o diferencial mais cobrado, e a borda separa os mecanismos. Bordas irregulares com displasia fibrosa poliostótica é síndrome de McCune-Albright, precocidade periférica por ativação autônoma da gônada, manifestando-se entre 2 e 6 anos; bordas regulares apontam neurofibromatose tipo 1, associada a glioma óptico e, por essa via, a precocidade central.

Uma exceção quebra a regra do crescimento: o hipotireoidismo primário de longa duração não tratado, em que o TSH muito elevado age como o FSH. É a única forma em que a velocidade de crescimento não acelera e a idade óssea não avança — a puberdade precoce paradoxal, que costuma vir com galactorreia por hiperprolactinemia.

O LH basal resolve a maioria, e o teste de estímulo tem duas réguas

O laboratório confirma a suspeita clínica; não a substitui. A dosagem que interessa é o LH, com ensaio de limite de detecção de no mínimo 0,1 unidade internacional por litro. Os cortes basais são específicos do método: acima de 0,3 UI/L por imunoquimioluminescência ou eletroquimioluminescência e acima de 0,6 UI/L por imunofluorometria são puberais em ambos os sexos. Os três documentos brasileiros repetem esse par sem divergir.

O consenso de 2016 acrescenta o que a prática precisa ouvir: quando o LH basal já é puberal, o teste de estímulo não acrescenta e pode ser dispensado. O grupo brasileiro mediu que o LH basal acima de 0,6 por imunofluorometria diagnosticou a forma central em 62,7% das meninas e 71,4% dos meninos, e sugere adotar 0,3 nos ensaios de quimio e eletroquimioluminescência para evitar o teste. Valor basal pré-puberal, porém, não exclui nada — sobretudo na menina, em quem a sobreposição entre pré-púbere e púbere inicial é grande.

Quando o teste é necessário há duas versões dele, com números diferentes, e confundi-las é o erro laboratorial mais caro do tema. Com GnRH nativo, gonadorelina 100 microgramas por via endovenosa e aferições em 0, 30 e 60 minutos, o pico acima de 5 UI/L confirma em ambos os sexos. Com análogo — leuprorrelina 3,75 mg, o que se faz no Brasil pela indisponibilidade do nativo —, a resposta é puberal acima de 10,0 UI/L por imunofluorometria ou de 8,0 UI/L por quimio e eletroquimioluminescência.

A aritmética do erro é direta: um pico de 6 UI/L é puberal se o teste foi com GnRH nativo e pré-puberal se foi com análogo, em qualquer dos dois ensaios; um pico de 9 é puberal por quimioluminescência e pré-puberal por imunofluorometria, no mesmo teste com análogo. Quem decora “acima de 5 confirma” e aplica ao teste com leuprorrelina põe em bloqueio criança sem o eixo ativado.

A hora da coleta também difere. O protocolo do Ministério da Saúde manda dosar o LH 2 a 3 horas após a leuprorrelina; o consenso de 2016 descreve a coleta 30 a 120 minutos após a primeira aplicação do análogo mensal. As duas janelas se tocam num único ponto, exatamente 2 horas — colher aos 90 minutos é válido para um documento e prematuro para o outro. O Endotext amplia mais, situando o pico entre 0,5 e 4 horas.

Dois ajustes finais. A relação LH sobre FSH maior que 1 é mais frequente em quem é púbere e ajuda a separar a forma progressiva da não progressiva. E gonadotrofina em criança abaixo de 2 anos se lê com desconfiança: a minipuberdade só se inibe até os 6 meses em mais de 90% e até os 2 anos na quase totalidade, de modo que LH elevado nessa idade pode ser apenas a fisiologia.

Idade óssea, útero e ovário: três documentos, três pares de números

A radiografia de mão e punho pelo método de Greulich-Pyle é obrigatória em todos os casos, e o critério de avanço significativo tem duas formulações apresentadas como alternativas: avanço de pelo menos 1 ano sobre a idade cronológica ou 2 desvios-padrão acima dela. Não são a mesma coisa: em criança pequena o desvio-padrão da idade óssea é menor que um ano e o critério estatístico dispara antes; em criança maior é o contrário. A frase “ou” esconde duas réguas que não se sobrepõem.

A idade óssea também prevê a altura final pelo método de Bayley-Pinneau, com a ressalva de que a previsão superestima e tem baixa acurácia — e de que se devem preferir as tabelas para idade óssea média às de idade óssea acelerada, porque estas superestimam ainda mais.

A ultrassonografia pélvica é onde os documentos brasileiros mais se afastam. O protocolo considera sugestivos de estímulo estrogênico persistente o útero com comprimento maior que 35 mm, volume maior que 2 mL, aspecto piriforme e endométrio espessado, e diz que ovário com volume maior que 1 cm³ sugere fortemente estimulação gonadotrófica persistente. O consenso de 2016 usa outro par: ovário maior que 1,8 mL e útero maior que 3,4 cm.

A menina com útero de 34,8 mm e ovários de 1,4 mL tem, portanto, estímulo persistente por um documento brasileiro e não tem pelo outro — e a distância entre 1,0 e 1,8 mL de volume ovariano é quase o dobro. Some-se o que os dois lados registram: microcistos e folículos ovarianos são normais em cerca de 40% das meninas pré-púberes, o que esvazia o laudo que apenas os descreve.

Nenhum dos dois faz da ultrassonografia exame obrigatório. O protocolo é explícito: é adicional, solicitada em situação de dúvida, e especialmente útil na menina menor de 3 anos, quando o LH basal e mesmo o teste de estímulo são menos confiáveis. É o exame que a vinheta usa para testar se o candidato sabe que ele não decide sozinho.

Ressonância: quem faz sempre, quem faz se — e o sexto aniversário

Confirmada a forma central, a pergunta seguinte é se há lesão de sistema nervoso central. A régua brasileira é seletiva e tem três linhas: ressonância em todos os meninos; em todas as meninas menores de 6 anos; e nas meninas entre 6 e 8 anos apenas quando houver suspeita clínica de alteração do sistema nervoso central. O Documento Científico nº 92 repete a partição e traz o número que a justifica: lesão anatômica em aproximadamente 3% das meninas com forma central entre 6 e 8 anos.

O vão está no sexto aniversário. A menina de 5 anos e 11 meses tem indicação obrigatória; um mês depois, com o mesmo quadro, passa a ter indicação condicional. Nada mudou no eixo dela — mudou a linha da tabela. E como o exame exige sedação na criança pequena, a decisão não é inócua em nenhuma das duas direções.

O consenso de 2016 não faz essa partição: manda avaliar o sistema nervoso central, preferencialmente por ressonância, em todos os pacientes após a confirmação laboratorial. É divergência real entre dois documentos nacionais, e ela decide conduta na vinheta mais comum do tema — a menina de 6 a 8 anos com exame neurológico normal.

No menino não há discussão, e a razão é epidemiológica: dois terços têm anormalidade neurológica associada e metade destes tem tumor, com o consenso estimando causa orgânica em 60% a 70%. Do outro lado, a proporção idiopática na menina é alta mas os documentos não convergem: o consenso de 2016 escreve 90%, o Documento Científico nº 75 escreve 90% dos casos em geral e o nº 92, posterior, escreve aproximadamente 95% das meninas. Alternativa entre 90% e 95% é sustentável; alternativa com 50% ou 60% para a menina está descrevendo o menino.

Uma nota de sequência: com história familiar positiva, o estudo molecular pode preceder a ressonância. A causa genética mais comum da forma central é a mutação inativadora do gene MKRN3, presente em cerca de 30% das famílias com puberdade precoce familiar e em cerca de 8% dos casos esporádicos — achado que não muda o tratamento, mas muda o aconselhamento.

Quem entra no protocolo: a tabela de faixas e o ano que não tem dono

O protocolo organiza os critérios de inclusão por faixa etária, e aqui a leitura atenta rende mais que a memorização. Meninas menores de 3 anos; meninas entre 3 e 5 anos; meninas entre 6 e 8 anos; meninas entre 8 e 10 anos; meninos menores de 9 anos; meninos entre 9 e 10 anos. Seis linhas, com exigências crescentes de progressão rápida, avanço de idade óssea, velocidade de crescimento acima de 6 cm por ano e comprometimento da estatura final.

Corra os olhos pela lista das meninas outra vez: uma faixa termina em 5 anos e a seguinte começa em 6. A menina de 5 anos e 6 meses com forma central confirmada não aparece em nenhuma linha — um ano inteiro de vida sem critério próprio. Na prática ela é tratada pela linha vizinha, mas a redação não a cobre.

No outro extremo, 8 anos aparece em duas linhas ao mesmo tempo — “entre 6 e 8” e “entre 8 e 10” — que pedem coisas diferentes: a primeira exige comprometimento da estatura final e LH puberal no teste de estímulo, a segunda exige progressão rápida e menarca iminente. O mesmo vale para o menino aos 9 anos, presente em “menores de 9” e em “entre 9 e 10”. Sobreposição de borda é o padrão de faixas escritas com “entre X e Y”.

A linha das meninas entre 8 e 10 anos guarda a contradição mais instrutiva: admite tratar quem teve início puberal “antes dos 8 anos ou em idade limítrofe, entre 8 e 9 anos”, desde que a puberdade seja rapidamente progressiva, a menarca esteja iminente e a estatura final comprometida, especialmente em quem nasceu pequena para a idade gestacional. Só que o mesmo protocolo define precocidade como início antes dos 8. Quem começou entre 8 e 9 não tem puberdade precoce e ainda assim entra no protocolo da puberdade precoce: é a puberdade adiantada recolhida por uma porta lateral.

Os critérios de exclusão são cinco, e três já apareceram: pubarca precoce isolada, telarca precoce isolada e produção de esteroides não dependente de gonadotrofinas. O quarto é a puberdade precoce lentamente progressiva, sem comprometimento da estatura final, em meninas de 6 a 8 anos — porque parte das crianças evolui devagar e alcança altura normal sem tratamento, e por isso o protocolo manda documentar a progressão a cada 3 a 6 meses antes de decidir.

O quinto é numérico e esconde um vão de meio ano: idade óssea acima de 12 anos na menina e de 13 anos no menino. Compare com o item de interrupção, que sugere avaliar a suspensão com idade óssea próxima de 12,5 anos na menina e 13,5 no menino. A menina com idade óssea de 12,3 anos não pode entrar no protocolo, mas, se já estivesse em tratamento, seguiria até 12,5. A porta de entrada fecha meio ano antes de a de saída abrir.

Dois casos especiais o protocolo recolhe de volta: a hiperplasia adrenal congênita mal controlada, em que o estímulo androgênico persistente acaba ativando o eixo e sobrepondo forma central, e a criança nascida pequena para a idade gestacional com puberdade rapidamente progressiva e crescimento abaixo do percentil 5.

A dose que não é por quilo, e a tabela que não fecha

O tratamento da forma central é o agonista de GnRH, e o mecanismo é o do avesso: o gonadotrofo responde a pulso, não a estímulo contínuo. O análogo de depósito transforma o sinal pulsátil em constante, os receptores sofrem regulação para baixo e a secreção de LH e FSH cai — depois de alguns dias de estímulo inicial, que explicam o sangramento vaginal ocasional na primeira aplicação.

A literatura descreve a dose como 75 a 100 microgramas por quilo e acrescenta que, na prática, isso corresponde a 3,75 mg a cada 28 dias. Faça a conta. São 3.750 microgramas fixos: entregar 100 mcg/kg exige pesar 37,5 kg, e entregar 75 mcg/kg exige pesar 50 kg. A dose fixa só cai dentro da faixa citada em crianças de 37,5 a 50 kg — peso que a criança tratada por puberdade precoce quase nunca tem. Uma menina de 24 kg recebe cerca de 156 mcg/kg, mais de uma vez e meia o teto; um adolescente de 60 kg receberia 62,5, abaixo do piso.

Curva decrescente da dose em microgramas por quilograma contra o peso, para a ampola fixa de 3,75 miligramas. A curva atravessa a faixa sombreada de 75 a 100 microgramas por quilo apenas entre 37,5 kg e 50 kg. Aos 24 kg a curva está em cerca de 156 microgramas por quilo e aos 60 kg, em 62,5.
A ampola fixa de 3,75 mg só entrega os 75 a 100 mcg/kg citados em crianças de 37,5 a 50 kg: aos 24 kg saem cerca de 156 mcg/kg e aos 60 kg, 62,5 — a faixa por quilo descreve, não prescreve.

A faixa em microgramas por quilo é, portanto, descritiva, e não fórmula de prescrição. Por isso o escalonamento previsto diante de controle insatisfatório não é recalcular por peso: é subir de 3,75 mg para 7,5 mg mensais de leuprorrelina ou triptorrelina, ou encurtar o intervalo. Para a gosserrelina não há estudo com doses maiores, e o protocolo não preconiza aumento.

A tabela de apresentações também não fecha. Em 24 semanas a leuprorrelina mensal entrega 3,75 mg seis vezes, ou 22,5 mg; a trimestral entrega 11,25 mg duas vezes, os mesmos 22,5 mg; e a semestral entrega 45 mg de uma vez, o dobro. A triptorrelina soma 22,5 mg nos três esquemas, porque a apresentação semestral dela é de 22,5 mg. Ainda assim o protocolo afirma que não há superioridade terapêutica entre as modalidades e que se pode começar por qualquer uma — a vantagem declarada das semestrais é posológica, ligada à adesão.

Duas alternativas servem a um único cenário: reação alérgica local, abscesso estéril ou anafilaxia com o análogo. Entram então o acetato de medroxiprogesterona, 50 a 150 mg intramuscular, mensal, e o acetato de ciproterona, 50 a 100 mg/m² por dia, por via oral. Ambos bloqueiam a progressão e nenhum melhora a altura final, porque não atuam na fisiopatologia — o que basta para reprová-los como primeira escolha.

A ciproterona rende uma aritmética que decide prescrição. Com comprimidos de 50 mg, quantos cabem na faixa depende de onde a superfície corporal está em relação a 1,0 m². Abaixo disso, um comprimido passa do piso de 50 mg/m² e dois ultrapassam o teto de 100: só cabe um. Acima de 1,0 m², um comprimido fica abaixo do piso e são necessários dois. Em 1,0 m² exato — pela fórmula de Mosteller, a criança cujo peso em quilos vezes a altura em centímetros dá 3.600, por exemplo 30 kg e 120 cm — as duas doses caem nas bordas.

A ciproterona pede transaminases e bilirrubinas antes de iniciar e a cada 3 a 6 meses, com reavaliação ou suspensão se a AST subir acima de três vezes o valor normal; a medroxiprogesterona, por efeito semelhante ao do glicocorticoide, pode causar hipertensão e hábito cushingoide; e a gosserrelina, embora conste do protocolo, é pouco usada por dor à injeção.

Monitorar, parar, e o que volta depois que se para

O acompanhamento é clínico primeiro: a cada 3 a 6 meses refaz-se o estadiamento de Tanner, mede-se o crescimento linear e pergunta-se por evento adverso. De um bloqueio eficaz esperam-se regressão ou estabilização dos caracteres sexuais secundários, queda da velocidade de crescimento, retorno das gonadotrofinas a valores pré-puberais e não progressão da idade óssea. A radiografia de mão e punho se repete a cada 12 meses, ou a cada 6 quando o controle parece inadequado.

O parâmetro laboratorial de escolha é o LH dosado após a aplicação do análogo, com alvo abaixo de 4 mUI/mL em qualquer dos três ensaios sensíveis; espera-se também estradiol na menina e testosterona no menino em faixa pré-puberal. Nos primeiros 3 a 6 meses o protocolo recomenda novas dosagens de LH após estímulo, antes da dose seguinte, para documentar o bloqueio.

Quando o controle não se estabelece nem com aumento de dose, a orientação não é insistir: é reavaliar o diagnóstico etiológico. Lembre que a reação local com abscesso estéril impede a absorção e produz falha de supressão que imita refratariedade. A frequência é registrada de modo diferente nos três documentos brasileiros — de 3% a 13% no Documento Científico nº 92, de 5% a 10% no consenso de 2016 e de 10% a 15% no protocolo. Qualquer número nessa vizinhança é defensável; o que a prova cobra é o mecanismo.

A suspensão se avalia com idade óssea próxima de 12,5 anos na menina e 13,5 no menino, com decisão individualizada — o momento razoável é aquele em que a puberdade retomada acompanhará a dos colegas. Depois, o seguimento continua a cada 6 meses até o fim do crescimento longitudinal.

O que volta, volta bem: a menstruação ocorre em média 16 meses após a suspensão, com variação de 2 a 61 meses, ciclos regulares se estabelecem em 60% a 96% e infertilidade não foi relatada. Os questionamentos sobre obesidade e perda de massa óssea não se confirmaram em estudos longitudinais.

O benefício estatural cai pela metade num aniversário: meninas tratadas antes dos 6 anos ganham cerca de 9 a 10 cm, as de início entre 6 e 8 anos ganham 4 a 7 cm, e no menino o benefício não está claramente demonstrado. Junte isso ao critério de inclusão da faixa de 6 a 8 anos, que exige previsão de altura final 8 cm abaixo da estatura-alvo, e a conta fica desconfortável: o ganho esperado pode não fechar sozinho a lacuna que justificou tratar. Na puberdade adiantada ou rápida, o consenso registra que o benefício estatural não foi demonstrado, embora o efeito psicossocial e o adiamento da menarca contem.

E os dois documentos escrevem números diferentes para o mesmo critério de estatura-alvo: o protocolo fala em previsão abaixo do alvo em 8 cm e o consenso de 2016 escreve 8,5 cm. Nenhuma banca constrói alternativa nessa casa decimal, mas quem viu os dois não se abala quando o gabarito comentado citar o outro.

O outro extremo: quatro caixas e um teste que não separa

Puberdade tardia é a ausência de gonadarca em idade cronológica mais de dois desvios-padrão acima da média populacional. Em números: na menina, ausência de mama aos 13 anos, ausência de menarca aos 15 anos ou ausência de menarca 3 anos depois da telarca; no menino, ausência de volume testicular de 4 mL ou mais aos 14 anos.

Os dois critérios femininos de amenorreia não são redundantes: o encontro entre eles depende de quando foi a telarca. Telarca aos 12 faz os dois dispararem juntos, aos 15. Telarca aos 11 antecipa o critério do intervalo para os 14, um ano antes do critério de idade — e a menina de 14 anos e meio com telarca aos 11 já deve estar sendo investigada. Telarca aos 13 empurra o intervalo para os 16, e aí manda o corte de idade. Quem só decora “menarca aos 15” perde a paciente cuja mama começou cedo.

O diferencial cabe em quatro caixas. A primeira é o hipogonadismo hipogonadotrófico transitório, que é o atraso constitucional do crescimento e da puberdade: 70% dos meninos e 32% das meninas com atraso, história familiar positiva em 50% a 75%, sem tratamento obrigatório. A segunda é o hipergonadotrófico, por falência gonadal primária, com LH e FSH altos. A terceira é o hipogonadotrófico congênito ou adquirido, com LH e FSH baixos. A quarta é o hipogonadotrófico funcional, do déficit calórico, do exercício extremo, da doença crônica, do hipotireoidismo, da hiperprolactinemia e dos medicamentos.

A primeira bifurcação laboratorial resolve metade do problema: gonadotrofinas elevadas significam gônada em falência, e o exame seguinte é o cariótipo. A síndrome de Turner, em torno de 1 em 2.500 meninas nascidas vivas, cursa com disgenesia gonadal em 85% dos casos ao nascimento, mas com pubarca em idade normal, porque a adrenal está preservada. A de Klinefelter, estimada em 1 em 667 homens pela citogenética pré-natal, tem armadilha própria: o início da puberdade em geral não é atrasado — vê-se puberdade incompleta, testículo pequeno e firme, estatura alta e ginecomastia, e menos de 10% são diagnosticados antes da puberdade.

A segunda bifurcação não tem solução laboratorial. Gonadotrofinas baixas ou inapropriadamente normais podem ser atraso constitucional ou hipogonadismo hipogonadotrófico congênito, e o Endotext é categórico: os testes de estímulo com agonista de GnRH e com gonadotrofina coriônica falham em distinguir os dois, por sobreposição ampla dos intervalos de referência, e inibina B e LH basais esbarram no mesmo problema. Um achado do exame físico chega mais perto: volume testicular igual ou menor que 1,1 mL teve sensibilidade de 100% e especificidade de 91% para a forma congênita.

O que separa é a anamnese somada ao tempo. A favor do atraso constitucional pesam trajetória de crescimento preservada num canal mais baixo, proporções harmônicas, idade óssea atrasada e compatível com a idade estatural, pubarca também atrasada — porque ali a adrenarca acompanha o relógio biológico — e história familiar. A favor do hipogonadismo congênito pesam anosmia ou hiposmia, micropênis, criptorquidia, defeitos de linha média, agenesia dentária, surdez neurossensorial, agenesia renal unilateral e sincinesia, com adrenarca na idade populacional e proporções eunucoides na envergadura.

Um cuidado de coleta fecha a seção: no começo da puberdade os pulsos de LH aparecem primeiro durante o sono, e uma dosagem isolada no meio da manhã pode voltar pré-puberal em quem já entrou na puberdade. Colha o LH preferencialmente pela manhã, com ensaio ultrassensível, e não feche diagnóstico em amostra única.

Induzir a puberdade: adesivo cortado na menina, éster no menino

A indução hormonal tem dois objetivos que competem: produzir caracteres sexuais secundários em idade socialmente adequada e não fechar as epífises antes da hora. Por isso todo esquema começa baixo e sobe devagar, e por isso o erro mais comum — começar alto — custa estatura e produz mama de aspecto atípico, com mamilo proeminente e pouco tecido de sustentação.

Na menina a via preferida é a transdérmica, que evita a primeira passagem hepática e o efeito sobre fatores de coagulação. As doses iniciais são de 3 a 7 microgramas por dia de estradiol, obtidas cortando adesivos de matriz de 0,014 a 0,025 mg por 24 horas em quartos ou oitavos. A aritmética do corte é o que se prescreve de fato: um adesivo de 25 mcg/24 h em oitavo entrega cerca de 3,1 mcg/dia e, em quarto, cerca de 6,25; um de 14 mcg/24 h em quarto entrega 3,5 e, em metade, 7,0 — exatamente o teto da faixa inicial. A dose sobe a cada seis meses e leva de 24 a 36 meses até a dose adulta.

O progestágeno entra depois, e não junto: cerca de 18 a 24 meses após o início do estrogênio isolado, para induzir sangramento de privação e reduzir o risco de hiperplasia endometrial — ou antes, se houver sangramento de escape. Estrogênios equinos conjugados e etinilestradiol devem ser evitados na indução e na manutenção, e o contraceptivo oral combinado não é ferramenta de indução: a maioria contém etinilestradiol em dose maior que a apropriada, e seu lugar é depois de completado o desenvolvimento puberal.

No menino o esteroide estabelecido é a testosterona em éster intramuscular, enantato ou cipionato, em dose baixa — mas não existe diretriz baseada em evidência para a dose de indução, e o Endotext registra a ausência de ensaios que definam o regime ótimo. O que existe é o formato: 3 a 4 meses de testosterona seguidos de 3 a 4 meses de observação, esquema que serve de tratamento e de prova diagnóstica. Quem tem atraso constitucional costuma seguir sozinho depois do empurrão; quem tem hipogonadismo congênito volta a estacionar. O número que circula no material brasileiro de serviço de referência é 50 mg por mês, intramuscular, por 3 a 6 meses.

Duas ressalvas fecham o raciocínio. A exposição ao esteroide sexual pode produzir reversão do hipogonadismo hipogonadotrófico congênito em parte dos pacientes, o que embaralha a leitura da prova terapêutica. E o atraso constitucional é diagnóstico de exclusão confirmado retrospectivamente, quando a puberdade chega — de modo que a conduta diante de quadro compatível não é declarar o diagnóstico, e sim reavaliar em prazo definido, tipicamente semestral.

E sempre, antes de qualquer hormônio, trata-se a doença de base. Atraso por hipotireoidismo, hiperprolactinemia, doença celíaca, doença inflamatória intestinal, fibrose cística, doença renal crônica ou transtorno alimentar restritivo se resolve pelo controle da causa; o esteroide sexual isolado maquia o sinal sem tratar o que o produziu.

04

Da vinheta ao número: qual pergunta se responde em que ordem

Quatro perguntas resolvem quase toda vinheta do tema, e nenhuma delas é o diagnóstico. Primeiro: a idade está antes da borda de baixo, depois da borda de cima, ou naquela faixa adiantada que não tem nome? Segundo: o eixo está ligado — o que no menino se lê no testículo e em ambos os sexos se lê no LH. Terceiro: qual documento a banca está usando, porque os números de imagem, de progressão e de conduta mudam com ele. Quarto: há indicação de tratar, que não é a mesma coisa que haver diagnóstico.

  1. 11. Idade de início. Antes de 8 na menina ou de 9 no menino é precocidade. Entre 8 e 9 na menina e entre 9 e 10 no menino é puberdade adiantada, que não é precocidade por definição mas pode entrar no protocolo. Ausência de mama aos 13 na menina, ausência de menarca aos 15 ou 3 anos após a telarca, e ausência de testículo com 4 mL ou mais aos 14 no menino, é atraso.
  2. 22. Qual sinal abriu o quadro. Mama isolada sem outro sinal e sem aceleração de crescimento é telarca precoce; pelo, odor e acne isolados são adrenarca precoce com pubarca. Ambos são critério de exclusão do protocolo — mas exigem seguimento a cada 3 meses, não alta.
  3. 33. No menino, meça o testículo antes de pensar. Virilização com testículo pré-puberal é precocidade periférica: peça 17-hidroxiprogesterona e avalie a adrenal. Testículo aumentado bilateralmente é central. Assimetria testicular levanta tumor gonadal.
  4. 44. LH basal primeiro. Acima de 0,3 UI/L por quimio ou eletroquimioluminescência, ou acima de 0,6 por imunofluorometria, já é puberal e dispensa o teste de estímulo. Valor pré-puberal não exclui, sobretudo na menina.
  5. 55. Se for fazer o teste, saiba qual. Com GnRH nativo 100 mcg endovenoso, pico acima de 5 UI/L confirma. Com leuprorrelina 3,75 mg, o corte sobe para 10,0 por imunofluorometria ou 8,0 por quimio e eletroquimioluminescência, e a coleta é 2 a 3 horas depois pelo protocolo brasileiro.
  6. 66. Imagem. Radiografia de mão e punho em todos. Ressonância de crânio em todos os meninos e em todas as meninas menores de 6 anos; entre 6 e 8 anos, na menina, apenas se houver suspeita clínica de alteração do sistema nervoso central. Ultrassonografia pélvica é adicional, nunca obrigatória.
  7. 77. Tratar ou observar. Só entra em bloqueio quem tem progressão documentada e risco estatural; puberdade lentamente progressiva em menina de 6 a 8 anos, sem comprometimento de estatura final, é critério de exclusão. Idade óssea acima de 12 anos na menina ou de 13 no menino também exclui.

As duas réguas do teste de estímulo, lado a lado

GnRH nativo, gonadorelina 100 microgramas endovenosa, coletas em 0, 30 e 60 minutos, pico de LH acima de 5 UI/L confirma em ambos os sexos. Análogo, leuprorrelina 3,75 mg, coleta 2 a 3 horas depois pelo protocolo do Ministério da Saúde ou 30 a 120 minutos pelo consenso de 2016, resposta puberal acima de 10,0 UI/L por imunofluorometria ou acima de 8,0 por quimio e eletroquimioluminescência. Um pico de 6 UI/L é puberal na primeira régua e pré-puberal na segunda.

Dose acumulada em 24 semanas, pela tabela do próprio protocolo

Leuprorrelina mensal: 3,75 mg seis vezes, 22,5 mg. Trimestral: 11,25 mg duas vezes, 22,5 mg. Semestral: 45 mg uma vez, o dobro. Triptorrelina mensal e trimestral somam os mesmos 22,5 mg, e a semestral entrega 22,5 mg de uma vez, sem diferença. O protocolo afirma que não há superioridade terapêutica entre as três modalidades e que qualquer uma serve para iniciar.

Ciproterona, comprimido de 50 mg e o ponto de virada em 1,0 m²

A faixa é de 50 a 100 mg por metro quadrado por dia. Com superfície corporal abaixo de 1,0 m², um comprimido entrega mais que o piso e dois estouram o teto: só cabe um. Acima de 1,0 m², um comprimido fica abaixo do piso e passam a ser necessários dois. Em 1,0 m² exato, que pela fórmula de Mosteller corresponde a peso em quilos vezes altura em centímetros igual a 3.600, as duas doses caem nas bordas da faixa.

Os números que mudam de documento para documento

ItemProtocolo do Ministério da Saúde, 2022Consenso SBEM e SBP, 2016Documento Científico SBP nº 92, 2023
Progressão rápidaMudança de estágio de Tanner em menos de 3 mesesMudança de estágio em menos de 6 meses, com velocidade acima de 6 cm por anoRitmo de progressão mais rápido que o habitual, sem prazo em meses
Ressonância de crânioTodos os meninos e meninas menores de 6 anos; entre 6 e 8, se houver suspeita clínicaTodos os pacientes, após confirmação laboratorialTodos os meninos e meninas menores de 6 anos; entre 6 e 8, se houver sinal clínico
Ovário na ultrassonografiaVolume maior que 1 cm³ sugere fortemente estímulo gonadotróficoVolume maior que 1,8 mL indica estimulação hormonalCita 2 mL e 3,4 cm, com a frase escrita em sentido invertido
Útero na ultrassonografiaComprimento maior que 35 mm e volume maior que 2 mLComprimento maior que 3,4 cmComprimento de 3,4 cm, na mesma frase invertida
Estatura-alvo como critérioPrevisão de altura final abaixo da estatura-alvo em 8 cmPrevisão abaixo da estatura-alvo em 8,5 cmNão fixa número
Reação local com o análogo10% a 15% dos indivíduos5% a 10% dos casos3% a 13% dos pacientes
Proporção idiopática na meninaMaior parte dos casos, sem número90% dos casosAproximadamente 95%

As faixas de inclusão do protocolo saltam de “meninas entre 3 e 5 anos” para “meninas entre 6 e 8 anos”: a menina de 5 anos e meio não tem linha própria. E 8 anos na menina, como 9 no menino, aparece em duas linhas ao mesmo tempo, com exigências diferentes em cada uma.

Idade óssea acima de 12 anos na menina e de 13 no menino é critério de exclusão, mas a suspensão do tratamento só é sugerida perto de 12,5 e 13,5. Quem já está em tratamento continua num intervalo em que não poderia entrar.

O ganho estatural esperado cai pela metade no sexto aniversário: 9 a 10 cm em quem começou antes dos 6 anos, 4 a 7 cm em quem começou entre 6 e 8. No menino, o benefício não está claramente demonstrado.

A dose de 75 a 100 microgramas por quilo citada na literatura só corresponde aos 3,75 mg fixos em crianças de 37,5 a 50 kg. Abaixo disso a criança recebe mais por quilo, e o escalonamento previsto é subir para 7,5 mg mensais, não recalcular por peso.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Em quanto tempo a mudança de estágio de Tanner caracteriza puberdade rapidamente progressiva

Menos de 3 meses

O protocolo define progressão rápida como mudança do estádio puberal em período menor que 3 meses, acompanhada em geral de velocidade de crescimento acima de 6 cm por ano. O prazo curto não é detalhe de redação: ele integra o critério de inclusão das meninas de 6 a 8 anos, das meninas de 8 a 10 anos e dos meninos de 9 a 10 anos, de modo que é ele que decide quem entra no tratamento pelo Sistema Único de Saúde.

Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Puberdade Precoce Central, Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 13, de 27 de julho de 2022, itens 3.1 e 4.

Menos de 6 meses

O consenso brasileiro escreve que a progressão de um estágio a outro em menos de seis meses, somada a velocidade de crescimento acima de 6 cm por ano, caracteriza a condição progressiva. É o dobro do prazo do protocolo, com a mesma consequência prática: definir quem é progressivo e, portanto, quem se trata.

Brito VN, Spinola-Castro AM, Kochi C, Kopacek C, Silva PCA, Guerra-Júnior G. Central precocious puberty: revisiting the diagnosis and therapeutic management. Arch Endocrinol Metab. 2016;60(2):163-72, seção Clinical diagnosis.

Na prova

A diferença é de finalidade, não de evidência: um documento define quem o Estado financia e por isso escreve um gatilho mais estreito; o outro descreve a história natural para o endocrinologista e admite janela maior. O que denuncia o recorte é o vocabulário do enunciado. Questão que fale em critério de inclusão, protocolo, dispensação, Sistema Único de Saúde ou centro de referência está no corpo do Ministério da Saúde e usa 3 meses. Questão ambientada em ambulatório de endocrinologia pediátrica, que fale em condição progressiva, história natural ou decisão de tratar sem citar protocolo, tende ao consenso e aos 6 meses. Repare que os dois lados coincidem na velocidade de crescimento acima de 6 cm por ano, de modo que alternativa que mexa nesse número é distrator em qualquer dos dois mundos. E não confunda esse prazo com o de documentação da progressão, que é de 3 a 6 meses nos dois documentos: um é o intervalo em que se reavalia, o outro é o limiar que define rapidez.

Ressonância de crânio na menina de 6 a 8 anos com puberdade precoce central e exame neurológico normal

Só com suspeita clínica de alteração do sistema nervoso central

Os dois documentos brasileiros partem a indicação por sexo e por idade: ressonância em todos os meninos e em todas as meninas menores de 6 anos, e nas meninas de 6 a 8 anos apenas quando houver sinal clínico sugestivo de alteração do sistema nervoso central. O Documento Científico apresenta o número que sustenta a seletividade: lesão anatômica é encontrada em aproximadamente 3% das meninas com puberdade precoce central nessa faixa.

Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Puberdade Precoce Central, 2022, item 3.3; e Sociedade Brasileira de Pediatria, Documento Científico do Departamento Científico de Endocrinologia nº 92, de 21 de agosto de 2023, seção de avaliação por imagem.

Em todos os pacientes com diagnóstico confirmado

O consenso escreve que, após a confirmação laboratorial de puberdade precoce central, a avaliação anatômica do sistema nervoso central deve ser realizada em todos os pacientes, preferencialmente por ressonância magnética, e observa que a tomografia identifica tumores calcificados mas tem baixa sensibilidade para hamartomas pequenos.

Brito VN e cols. Central precocious puberty: revisiting the diagnosis and therapeutic management. Arch Endocrinol Metab. 2016;60(2):163-72, seção Imaging.

Na prova

Aqui o recorte se lê pelo que a vinheta escolheu contar. Enunciado que descreve exame neurológico normal, ausência de cefaleia, campimetria e fundo de olho sem alterações está sinalizando que a informação foi colocada de propósito, e a resposta esperada costuma ser a régua seletiva brasileira: nessa menina a ressonância não é obrigatória. Enunciado que simplesmente confirma o diagnóstico e pergunta o próximo passo, sem descartar sinais neurológicos, cobra a conduta segura e a ressonância volta a ser a resposta. Preste atenção também no que sobra nas alternativas: se as concorrentes forem iniciar o análogo sem imagem, dosar 17-hidroxiprogesterona ou observar por um ano, a ressonância é a menos errada mesmo na régua seletiva, e a questão não está testando esta divergência. No menino não há divergência nenhuma: os dois lados mandam fazer sempre.

Qual volume ovariano e qual comprimento uterino indicam estímulo persistente

Ovário acima de 1 cm³ e útero acima de 35 mm

O protocolo considera que tamanho uterino maior que 35 mm de comprimento, volume uterino maior que 2 mL, aspecto piriforme e espessamento endometrial sugerem estímulo estrogênico persistente, e que ovários com volume maior que 1 cm³ sugerem fortemente estimulação gonadotrófica persistente. Registra ainda que o exame é adicional e não obrigatório, sendo especialmente útil na menina menor de 3 anos, quando o LH basal e o teste de estímulo são menos confiáveis.

Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Puberdade Precoce Central, 2022, item 3.3.

Ovário acima de 1,8 mL e útero acima de 3,4 cm

O consenso adota volume ovariano maior que 1,8 mL e comprimento uterino maior que 3,4 cm como indicativos de estimulação hormonal, e lembra que microcistos e folículos ovarianos são achados normais em cerca de 40% das meninas pré-púberes. Descreve também o índice de pulsatilidade da artéria uterina como recurso para separar telarca precoce isolada de forma central progressiva, com a ressalva de depender de examinador experiente.

Brito VN e cols. Central precocious puberty: revisiting the diagnosis and therapeutic management. Arch Endocrinol Metab. 2016;60(2):163-72, seção Imaging.

Na prova

Não há aqui uma posição certa e uma errada: são cortes de séries diferentes, com o do consenso quase o dobro do ovário do protocolo. O discriminador consensual, que nenhum dos dois contradiz, é o sentido da desigualdade: útero e ovário aumentados indicam estímulo, e a ultrassonografia entra como exame adicional, jamais como o que fecha o diagnóstico. Por isso a alternativa que subordina a conduta ao resultado da ultrassonografia costuma ser distratora, e a que trata o exame como complemento costuma ser a esperada. Vale um alerta de leitura: o Documento Científico nº 92 da Sociedade Brasileira de Pediatria traz essa mesma informação com o sinal invertido, escrevendo que volume ovariano menor que 2 mL e comprimento uterino inferior a 3,4 cm indicariam estimulação hormonal — o que contraria os outros dois documentos e a própria fisiologia. Quem estudou por esse trecho e vê uma alternativa dizendo que o útero pequeno indica estímulo tende a marcá-la.

06

Caso resolvido

Menina de 5 anos e 7 meses, 21 kg, 118 cm, trazida por crescimento de mamas iniciado há cinco meses. Ao exame, mamas em M3, pelos pubianos em P2, sem virilização e sem manchas de pele; a estatura subiu do percentil 50 para o percentil 90 em um ano. Idade óssea pelo método de Greulich-Pyle de 8 anos. LH basal de 0,9 UI/L por eletroquimioluminescência. Exame neurológico normal, sem cefaleia e sem alteração visual.
O diagnóstico já está feito antes do teste de estímulo
Sinais puberais antes dos 8 anos, com progressão, aceleração da velocidade de crescimento e avanço de idade óssea, mais LH basal de 0,9 UI/L num ensaio de eletroquimioluminescência, cujo corte de faixa puberal é 0,3. O consenso brasileiro diz expressamente que, nessa situação, o teste de estímulo pode ser dispensado. Pedi-lo não é erro grave, mas gastar semanas esperando por ele antes de seguir adiante é.
A idade dela decide a imagem sem margem para discussão
Ela tem 5 anos e 7 meses, portanto é menina menor de 6 anos, e a ressonância de crânio é obrigatória tanto pela régua seletiva brasileira quanto pelo consenso, que manda fazer em todos. Se ela tivesse cinco meses a mais, o exame neurológico normal a colocaria na faixa em que a ressonância só entra por suspeita clínica pelo protocolo do Ministério da Saúde, embora seguisse obrigatória pelo consenso. Aqui não há conflito, e o exame se pede.
Ela também é a menina que a tabela de inclusão não cobre
As faixas de critério de inclusão do protocolo vão de meninas entre 3 e 5 anos direto para meninas entre 6 e 8 anos. Com 5 anos e 7 meses, ela não aparece em nenhuma linha. Na prática se aplica a linha vizinha, que já é a mais exigente, mas convém saber que o documento não a nomeia — e que nenhuma alternativa que cite uma faixa dos 5 aos 6 anos está citando o protocolo.
Confirmada a forma central e afastada lesão, o tratamento é o análogo
Agonista de GnRH de depósito. Pode começar por leuprorrelina 3,75 mg intramuscular a cada 28 dias, por 11,25 mg a cada 84 dias ou pelas apresentações semestrais: o protocolo afirma que não há superioridade terapêutica entre as modalidades. A escolha se faz por adesão e por disponibilidade, e não por eficácia.
A dose fixa entrega muito mais por quilo do que a literatura descreve
São 3.750 microgramas para 21 kg, ou cerca de 179 microgramas por quilo — quase o dobro do teto de 100 citado como faixa habitual. Isso não é erro de prescrição: a faixa por quilo é descritiva, e a dose fixa é o que os estudos usaram. O que muda diante de controle insatisfatório não é o cálculo por peso, e sim subir para 7,5 mg mensais ou encurtar o intervalo.
O benefício estatural aqui é o maior possível, e isso pesa na decisão
Meninas tratadas antes dos 6 anos são o grupo que mais ganha, com cerca de 9 a 10 cm. Se a mesma criança chegasse dois anos depois, com início entre 6 e 8 anos, o ganho esperado cairia para 4 a 7 cm. A janela de maior retorno é curta, e é ela que transforma o encaminhamento rápido da atenção primária em desfecho de altura.
O seguimento tem alvo laboratorial e data de parada
Reavaliação clínica a cada 3 a 6 meses com Tanner e crescimento linear, idade óssea anual, LH após o análogo mantido abaixo de 4 mUI/mL e estradiol em faixa pré-puberal. Nos primeiros 3 a 6 meses, dosagem de LH após estímulo antes da dose seguinte, para documentar o bloqueio. A suspensão se avalia com idade óssea próxima de 12,5 anos, com decisão individualizada. Depois de parar, a menstruação vem em média 16 meses depois, com variação larga.
07

Agora feche você

Menino de 14 anos e 1 mês é levado ao ambulatório porque é o menor da turma e não teve mudança de voz. Nasceu a termo, sem doenças crônicas, com desenvolvimento normal. Estatura no percentil 3, velocidade de crescimento de 4,2 cm por ano, mantendo o mesmo canal desde os 5 anos. Ao exame: Tanner G1 P1, testículos de 2 mL bilateralmente, envergadura 2 cm maior que a estatura, olfato preservado, sem dismorfismos, sem defeitos de linha média. Idade óssea de 11 anos e 9 meses. O pai teve estirão tardio.
Diga se ele preenche a definição, e com qual número
Escreva o critério de atraso puberal masculino com as palavras da fonte e mostre o encaixe: qual é o volume testicular que marca o início da puberdade, qual é a idade-limite e por que a ancoragem é estatística. Depois diga o que a idade óssea atrasada em relação à cronológica acrescenta, e por que a velocidade de crescimento precisa ser lida contra a idade óssea, não contra a idade cronológica.
Separe as quatro caixas e diga qual exame abre a primeira porta
Nomeie as quatro categorias de atraso puberal e diga qual resultado de LH e FSH manda direto para o cariótipo. Explique por que, neste menino, o resultado esperado das gonadotrofinas não resolve o problema, e cite o dado do exame físico que chega mais perto de separar atraso constitucional de hipogonadismo hipogonadotrófico congênito do que qualquer teste de estímulo.
Liste o que você procuraria e não encontrou neste exame físico
Aponte os achados que, se estivessem presentes, apontariam para hipogonadismo congênito — no olfato, na genitália, na linha média, na audição, nos dentes, nos rins e nos movimentos. Diga o que a envergadura informa e por que 2 cm acima da estatura não é o mesmo que proporção eunucoide. Comente o que a pubarca ausente acrescenta ao raciocínio.
Decida entre observar e fazer a prova terapêutica, e diga por quê
Descreva o formato da prova com esteroide sexual: quantos meses de tratamento, quantos meses de observação e qual resultado esperado em cada hipótese ao fim do período. Diga por que a decisão de tratar não é biológica, e sim de repercussão sobre o adolescente. Registre também qual é o estado da evidência sobre a dose de indução, com a frase que o próprio texto de referência usa.
Nomeie o que precisa ser excluído antes de qualquer hormônio
Liste as condições sistêmicas e endócrinas capazes de produzir hipogonadismo hipogonadotrófico funcional, e diga qual delas você investigaria neste menino de crescimento lento, além de que exames gerais entram na primeira avaliação. Explique por que tratar com esteroide sexual sem excluir essas causas maquia o sinal em vez de resolver o problema.
08

Onde a banca derruba

  1. 1Aplicar o corte de 5 UI/L ao teste feito com análogo de GnRH O pico acima de 5 UI/L é o critério do teste com GnRH nativo, gonadorelina 100 microgramas endovenosa. Quando o teste é feito com leuprorrelina 3,75 mg, que é o que se faz no Brasil pela indisponibilidade do nativo, o corte brasileiro sobe para 10,0 UI/L por imunofluorometria ou 8,0 por quimio e eletroquimioluminescência. Um pico de 6 ou 7 UI/L após leuprorrelina não é resposta puberal por nenhum desses dois cortes, e chamá-la de puberal coloca em bloqueio uma criança que não tem o eixo ativado. Quando o enunciado já declara entre parênteses que a resposta é puberal, ele resolveu isso por você — o que não impede que a alternativa correta dependa de saber a diferença.
  2. 2Pedir teste de estímulo em quem já tem LH basal puberal O consenso brasileiro é explícito ao sugerir o corte de LH basal de 0,3 por quimio e eletroquimioluminescência como indicativo de puberdade precoce central, evitando a necessidade do teste de estímulo, que é inviável em muitos centros. Com LH basal de 0,8 UI/L num ensaio sensível, o teste não acrescenta. O erro simétrico é pior e mais comum: concluir que LH basal pré-puberal exclui o diagnóstico. Na menina, a sobreposição entre pré-púbere e púbere inicial é grande, e o valor baixo apenas devolve a decisão à clínica.
  3. 3Tratar a puberdade precoce paradoxal como se fosse central O hipotireoidismo primário de longa duração, não tratado, é a única forma de precocidade sexual em que a velocidade de crescimento não está acelerada e a idade óssea não está avançada — porque o excesso de TSH estimula receptores de FSH sem que o eixo gonadotrófico tenha sido ligado. Pode vir com galactorreia por hiperprolactinemia. O tratamento é levotiroxina, não análogo de GnRH. Vinheta com criança com sinais puberais, baixa estatura e crescimento lento está pedindo TSH e T4 livre.
  4. 4Confundir a borda da mancha café com leite Manchas de bordas irregulares, com displasia fibrosa poliostótica, apontam síndrome de McCune-Albright, que produz precocidade periférica por ativação autônoma da gônada e cursa com LH e FSH suprimidos. Manchas de bordas regulares apontam neurofibromatose tipo 1, associada a glioma óptico e, por essa via, a precocidade central, com eixo ativado. A mesma lesão de pele leva a mecanismos opostos, e a conduta diverge: o análogo de GnRH só funciona na forma central.
  5. 5Declarar atraso constitucional em vez de reavaliar O atraso constitucional do crescimento e da puberdade é diagnóstico de exclusão confirmado retrospectivamente, quando a puberdade chega. Nenhum teste laboratorial o separa com segurança do hipogonadismo hipogonadotrófico congênito: o estímulo com agonista de GnRH e com gonadotrofina coriônica falha por sobreposição de valores, e inibina B e LH basais também. Por isso a alternativa correta em vinheta compatível costuma ser reavaliar em prazo definido, e não afirmar o diagnóstico nem descartar as demais hipóteses.
  6. 6Esperar que a síndrome de Klinefelter atrase o início da puberdade Em geral o início não é atrasado. O que se vê é puberdade que começa e não completa, com testículos pequenos e firmes, estatura alta, proporções eunucoides e ginecomastia — e menos de um décimo dos casos é diagnosticado antes da puberdade. Klinefelter entra pela caixa das gonadotrofinas elevadas, junto com a síndrome de Turner, e o exame que fecha as duas é o cariótipo. Na síndrome de Turner, lembre que a pubarca costuma ocorrer em idade normal, porque a adrenal está preservada e apenas a gônada falhou.
  7. 7Ler os dois critérios de amenorreia da menina como se fossem o mesmo Ausência de menarca aos 15 anos e ausência de menarca 3 anos depois da telarca são critérios independentes, e só coincidem em quem teve telarca exatamente aos 12. Telarca aos 11 antecipa a investigação para os 14; telarca aos 13 empurra o critério do intervalo para os 16, e aí manda o corte de idade. Quem só decora o número 15 deixa passar a adolescente cuja mama começou cedo e que já cumpriu três anos sem menstruar.
  8. 8Prescrever contraceptivo combinado para induzir puberdade na menina A indução se faz com estradiol em dose baixa, preferencialmente transdérmico, começando em 3 a 7 microgramas por dia e subindo a cada seis meses ao longo de 24 a 36 meses; o progestágeno entra 18 a 24 meses depois, ou antes se houver sangramento de escape. A maioria dos contraceptivos combinados contém etinilestradiol em dose maior que a apropriada para indução, e etinilestradiol e estrogênios equinos conjugados devem ser evitados também na manutenção. Dose inicial alta produz mama de aspecto atípico e antecipa o fechamento epifisário.
  9. 9Achar que pubarca isolada aos 5 anos tem a mesma conduta que aos 7 A adrenarca precoce sem sinal de alerta dispensa exame imediato e pede reavaliação clínica a cada três meses. Mas o início antes dos 6 anos está na lista de alerta do documento da Sociedade Brasileira de Pediatria, ao lado de virilização, idade óssea avançada em dois ou mais desvios-padrão, aceleração de crescimento com mudança de 0,5 desvio-padrão ou 10 pontos de percentil em menos de seis meses, timbre vocal grave, massa abdominal e assimetria testicular. Nessa faixa, dosam-se sulfato de deidroepiandrosterona, testosterona, 17-hidroxiprogesterona e androstenediona.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Puberdade precoce central (dependente de GnRH) em menina antes dos 8 anos confirma-se pelo teste de estímulo com análogo de GnRH, que demonstra resposta puberal do LH (pico de LH elevado, com predomínio de LH sobre FSH), indicando ativação do eixo hipotálamo-hipófise-gonadal. Estradiol basal é pouco sensível e frequentemente indetectável mesmo com eixo ativo. SDHEA avalia adrenarca/fontes adrenais de androgênios (útil na pubarca precoce), não o eixo central. Cariótipo não confirma puberdade precoce. 17-OHP investiga hiperplasia adrenal congênita, causa de pseudopuberdade, não de PPC.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

Sorteando as questões…

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Plano de revisão

em 7 dias

Recite as quatro idades que abrem e fecham a puberdade nos dois sexos e diga qual delas usa a fórmula “antes de” e qual usa “ausência aos”. Depois, sem consultar, dê os dois cortes de LH basal por método e os dois cortes de pico do teste de estímulo, dizendo qual pertence ao GnRH nativo e qual ao análogo. Por fim, diga em uma frase quem faz ressonância sempre, quem faz por suspeita e onde está o aniversário que separa os dois grupos.

em 30 dias

Reconstrua as três tabelas que decidem número. Primeiro a de inclusão do protocolo: as seis faixas por sexo e idade, apontando o intervalo de um ano que não tem linha e as duas idades que aparecem em duas linhas ao mesmo tempo. Depois a de tratamento: apresentações mensal, trimestral e semestral de leuprorrelina e de triptorrelina, com a dose acumulada de cada esquema em 24 semanas e a única que dobra. Por fim, a do atraso puberal: as quatro caixas do diferencial, o resultado de gonadotrofinas que manda ao cariótipo, e por que a outra metade só se resolve com tempo. Feche recitando de memória os alvos de monitoramento — LH abaixo de 4, idade óssea anual, suspensão perto de 12,5 e 13,5 — e o ganho estatural esperado antes e depois dos 6 anos.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Menina de 6 anos e 9 meses chega ao ambulatório trazida pela mãe, que percebeu crescimento das mamas há sete meses e diz que a filha “passou a usar roupa de menina de 9”. Você tem a curva de crescimento antiga na mesa, uma radiografia de mão e punho e um resultado de LH basal. Conduza a consulta: caracterize o que começou e quando, meça o que precisa ser medido, decida se pede o teste de estímulo, defina se essa menina tem indicação de ressonância de crânio pela régua brasileira e diga à mãe, em linguagem que ela entenda, o que muda se a decisão for observar por três meses antes de tratar. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.