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Hiperplasia adrenal congênita e ambiguidade genital

Uma fração de perda de sal que sai de 60 e chega a 75 entre dois documentos do mesmo Ministério, um quadro nacional montado sobre a coluna que os autores do estudo rejeitaram, dois pesos de nascimento que não cabem em faixa nenhuma, e o comprimido que a régua prescreve e o país não vende

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Recém-nascida com 12 dias de vida é trazida por vômitos, recusa alimentar, perda de peso e desidratação. Ao exame nota-se hiperpigmentação e genitália externa com clitoromegalia e fusão labial parcial. Exames: Na+ 122 mEq/L, K+ 6,8 mEq/L, glicemia 48 mg/dL. Qual é o diagnóstico mais provável?

02

Como esse tema cai

Este capítulo trata da deficiência de 21-hidroxilase — a causa de cerca de 95% das hiperplasias adrenais congênitas e a principal causa de genitália atípica no recém-nascido. O eixo é o que a prova cobra: reconhecer a menina virilizada na sala de parto, reconhecer o menino que não tem sinal nenhum e chega em choque na segunda semana, ler a 17-OH-progesterona do papel-filtro contra a faixa de peso certa, e tratar a crise antes de qualquer confirmação.

Três coisas ficam de fora. A triagem neonatal como programa — o calendário do pezinho, as etapas, o prematuro, a transfusão — tem capítulo próprio. A puberdade precoce periférica entra aqui só como consequência do subtratamento; a investigação da precocidade tem capítulo próprio, e é ele que cede este assunto ao dizer que a hiperplasia adrenal congênita tem protocolo e capítulo próprios. E a forma não clássica da mulher adulta com hirsutismo é resolvida, no Brasil, por outro protocolo — o que é, em si, um dos achados do capítulo.

O material é quase todo brasileiro e quase todo contraditório entre si. São quatro réguas nacionais: o protocolo do Ministério de 2010, o manual técnico do mesmo Ministério de 2016, o guia da Sociedade Brasileira de Pediatria de 2019 e o documento da sociedade de triagem neonatal de 2022. Elas discordam sobre quantos afetados perdem sal, sobre qual percentil corta a triagem, sobre o teto da fludrocortisona, sobre o alvo laboratorial do seguimento e sobre se o tratamento normaliza a estatura final. O capítulo é escrito nessas costuras, porque é nelas que a vinheta é construída.

03

O que muda decisão

Por que o recém-nascido masculino pode parecer normal

Como usar este capítulo: em recém-nascido com genitália atípica, vômitos, perda de peso ou choque, trate possível crise adrenal antes do resultado. Depois interprete 17-hidroxiprogesterona conforme idade e peso, confirme a etiologia e organize reposição de glicocorticoide, mineralocorticoide e sódio.

A deficiência de 21-hidroxilase é autossômica recessiva e nasce de mutações no CYP21A2, no braço curto do cromossomo 6. A enzima faz duas conversões: progesterona em desoxicorticosterona e 17-OH-progesterona em 11-desoxicortisol. Perdida a enzima, faltam cortisol e aldosterona, o hormônio adrenocorticotrófico sobe sem freio, o córtex hiperplasia e o precursor represado é desviado para a via androgênica. Daí os três eixos que se combinam em proporções diferentes: insuficiência glicocorticoide, insuficiência mineralocorticoide e excesso de androgênio.

A consequência anatômica separa os sexos de um jeito que decide o prognóstico. No feto 46,XX o androgênio adrenal viriliza a genitália externa em graus que vão da clitoromegalia isolada até uma genitália de aparência masculina sem gônadas palpáveis. No feto 46,XY não há nada para virilizar: a genitália se diferencia normalmente, e no máximo aparecem macrogenitossomia e hiperpigmentação escrotal, que ninguém nota. A menina tem um sinal visível ao nascimento; o menino não tem sinal nenhum até a crise.

A crise chega quando a aldosterona faz falta. O manual técnico do Ministério situa a apresentação "mais frequentemente a partir da segunda semana"; o guia da Sociedade Brasileira de Pediatria estreita para entre o 8º e o 15º dia de vida; o protocolo de 2010 escreve apenas "nos primeiros dias de vida", sem janela. Repare no que a janela significa: o recém-nascido recebe alta em 48 horas, sem sinal físico, e adoece uma semana depois em casa, com vômito e recusa alimentar — dois sintomas que o plantão lê como refluxo, alergia à proteína do leite de vaca ou gastroenterite, três confusões que o documento da sociedade de triagem lista com todas as letras.

O que o exame encontra é o padrão eletrolítico invertido em relação ao vômito comum do lactente: hiponatremia com hipercalemia, e não a alcalose hipoclorêmica com hipocalemia da estenose de piloro. O protocolo nacional fixa os números da deficiência mineralocorticoide em sódio abaixo de 135 mEq/L e potássio acima de 5,5 mEq/L, com renina acima e aldosterona abaixo da referência. Some a hipoglicemia, da falta de cortisol, e a hiperpigmentação, do excesso de hormônio adrenocorticotrófico, e o quadro fecha antes de qualquer dosagem hormonal.

Triagem neonatal: pontos de corte e necessidade de confirmação

Qual fração dos afetados pela forma clássica vai perder sal é a pergunta que decide quantas famílias precisam sair do ambulatório com um cartão de estresse na carteira. O Brasil tem duas respostas oficiais, ambas do mesmo Ministério.

O protocolo de 2010 escreve que a forma clássica perdedora de sal "constitui a forma mais comum de HAC clássica (60% dos casos)". O manual técnico de triagem neonatal, publicado pelo mesmo Ministério em 2016, escreve que ela "constitui a forma clínica mais comum da deficiência da 21-hidroxilase (70%–75% dos casos de forma clássica)". O guia da Sociedade Brasileira de Pediatria de 2019 fica com o manual: 70-75%. O documento mais antigo é justamente o que tem força normativa — é ele que rege a dispensação do medicamento.

Traduza a divergência em crianças. Em cada 100 nascidos com a forma clássica, o protocolo espera 60 perdedores de sal e o manual espera de 70 a 75. A diferença é de 10 a 15 crianças em cada 100 — crianças cuja família seria ou não instruída sobre dobrar a dose na febre, e cujo risco de morte por crise adrenal é o que o próprio protocolo descreve como permanente mesmo sob tratamento, quando falha o entendimento da doença.

A mesma discordância aparece na segunda enzima. O protocolo de 2010 diz que a 11-beta-hidroxilase é a segunda causa, "em aproximadamente 5% dos casos". O manual de 2016 corrige para o país: no Brasil, a 21-hidroxilase é seguida da 17-alfa-hidroxilase, "sendo a 11-beta-hidroxilase muito rara" — e as duas sociedades repetem a correção. Três documentos contra um, e a diferença não é acadêmica: a deficiência de 11-beta cursa com virilização e hipertensão por acúmulo de desoxicorticosterona; a de 17-alfa, com subvirilização do 46,XY e hipertensão. Trocar uma pela outra troca o sexo do paciente da vinheta.

Incidência e formas clínicas: como interpretar os números

O protocolo de 2010 informa que no Brasil a incidência da forma perdedora de sal "parece ser de aproximadamente 1:7.500 a 1:10.000 nascidos-vivos". O piso vem de uma revisão internacional de 1993; o teto vem de um estudo goiano cujo próprio título registra que a incidência brasileira pode não ser tão alta quanto se inferia.

Agora tome a fração de perda de sal do próprio protocolo — 60% — e volte para a forma clássica inteira: se a perdedora de sal é 1:7.500 e é 60% da clássica, a clássica seria 1:4.500; a 1:10.000, seria 1:6.000. Compare com o que os programas brasileiros mediram: Goiás 1:10.325, São Paulo 1:10.460, Bahia 1:11.000, Rio Grande do Sul 1:13.551, Santa Catarina 1:14.972 e Minas Gerais 1:19.927. O piso do protocolo implica uma doença de 1,7 a 4,4 vezes mais frequente do que a medida em qualquer um dos seis estados com dados publicados.

Os números estaduais valem por si. Minas Gerais e Goiás são vizinhos e diferem por um fator de 1,93 para a mesma doença autossômica recessiva — o que diz menos sobre genética populacional e mais sobre qual percentil cada serviço adotou. A incidência medida de uma doença rastreada é, em boa parte, uma função do corte escolhido.

Há ainda a forma que ninguém rastreia. O protocolo de 2010 e o manual de 2016 dizem, com as mesmas palavras, que a forma não clássica é "cerca de 15 vezes mais frequente do que a forma clássica". Aplicada à incidência paulista de 1:10.460, essa razão coloca a forma não clássica em torno de 1:700. E ela não tem lugar no protocolo da própria doença: o homem assintomático não precisa de tratamento, e a mulher é conduzida pelo protocolo do hirsutismo — ou, pelo manual de 2016, pelo protocolo "da Síndrome dos Ovários Policísticos e Hirsutismo". A forma mais comum da doença é tratada, no Brasil, fora do documento que leva o nome dela.

17-hidroxiprogesterona no papel-filtro: limiares por peso e idade

A triagem dosa 17-OH-progesterona em papel-filtro entre o 3º e o 5º dia, e o valor normal depende do peso ao nascer: prematuridade e baixo peso respondem por cerca de 70% de todos os falso-positivos, porque o córtex imaturo e o estresse neonatal mantêm o precursor alto sem doença nenhuma. O guia da Sociedade Brasileira de Pediatria explica por que o Brasil estratifica por peso e não por idade gestacional — a ultrassonografia obstétrica não é feita de rotina no país, e o peso é o que se tem. O detalhe honesto está na bibliografia: o mesmo guia cita o trabalho de van der Kamp e colaboradores de 2005, cujo título afirma que esses cortes "deveriam ser baseados na idade gestacional em vez do peso ao nascer".

O problema é que o país tem duas tabelas em circulação, no mesmo documento. O Quadro 2 do guia reproduz a recomendação do Ministério, com corte no percentil 99: para o recém-nascido acima de 2.501 g, normal abaixo de 15 ng/mL, elevado de 15 a menos de 30, muito elevado a partir de 30. O Quadro 3 reproduz a recomendação da Universidade de São Paulo, com corte no percentil 99,8 e uma coluna a mais para o tempo de vida: para o acima de 2.500 g colhido depois de 72 horas, normal abaixo de 25, elevado de 25 a 50, muito elevado acima de 50.

Ponha uma criança nessa fenda. Recém-nascido de 2.600 g, coleta no 4º dia, 17-OH-progesterona de 20 ng/mL: pela tabela do Ministério está elevada e repete-se o papel-filtro; pela tabela da universidade está normal e não se investiga mais nada. Suba para 35 ng/mL: pelo Ministério é convocação de emergência; pela universidade continua sendo repetir o papel-filtro, porque a emergência só começa acima de 50. A mesma gota de sangue, o mesmo peso, o mesmo dia. E a escolha do percentil não é detalhe de estatístico: por construção, o percentil 99 sinaliza 1 em cada 100 recém-nascidos e o 99,8 sinaliza 2 em cada 1.000 — o corte nacional convoca cinco vezes mais crianças.

Duas colunas de faixas de 17-OH-progesterona em papel-filtro comparadas num eixo de 0 a 60 nanogramas por mililitro, para recém-nascido acima de 2.500 gramas. Pelo quadro do Ministério da Saúde, no percentil 99, normal abaixo de 15, elevada de 15 a menos de 30 e muito elevada a partir de 30. Pelo quadro da Universidade de São Paulo, no percentil 99,8 e colhido depois de 72 horas de vida, normal abaixo de 25, elevada de 25 a 50 e muito elevada acima de 50. Linhas tracejadas em 20 e em 35 nanogramas por mililitro mostram condutas opostas nas duas colunas.
A mesma gota de sangue, o mesmo peso e o mesmo dia: 20 ng/mL manda repetir num quadro e é normal no outro; 35 ng/mL é convocação de emergência num quadro e apenas repetição no outro.

Leia agora a coluna de peso do quadro nacional como está impressa: menos de 1500 g; de 1501 a 1999 g; de 2000 a 2499 g; a partir de 2501 g. Onde entra o recém-nascido de exatamente 1.500 g? E o de exatamente 2.500 g? São dois pesos órfãos numa tabela de quatro faixas — e são justamente os limites do muito baixo peso e do baixo peso, as duas cifras mais impressas em vinheta de neonatologia. A tabela da universidade não tem o defeito: menos de 1500, de 1500 a 2000, de 2001 a 2500 e acima de 2500, contíguas. E o estudo paulista de origem erra na direção oposta, com grupos de 1.501 a 2.000 g e de 2.000 a 2.500 g, de modo que o de exatos 2.000 g pertence aos dois.

Limitações da triagem e risco de falso-negativo

O estudo paulista de 2011 analisou 67.640 recém-nascidos e determinou, para cada faixa de peso, os valores dos percentis 97,5, 99, 99,5 e 99,8. Os do percentil 99 são 110,4 para menos de 1.500 g; 43 para 1.501 a 2.000 g; 28,2 para 2.001 a 2.500 g; e 15,1 para acima de 2.500 g. Compare com o quadro nacional: 110, 43, 28 e 15. O quadro do Ministério é essa coluna, arredondada.

E é dessa coluna que os autores escrevem, no mesmo artigo, que as taxas dos percentis 97,5 e 99 "ainda são inadequadas para um programa público de triagem neonatal". A conclusão do trabalho recomenda o percentil 99,8. A régua nacional adotou a coluna que o estudo de origem rejeita.

Os números de falso-positivo explicam por quê. Com o corte único de 20 ng/mL usado antes da estratificação, a taxa foi de 28% entre os menores de 1.500 g contra 0,2% entre os maiores de 2.500 g: aqueles 229 prematuros produziram cerca de 64 convocações falsas, e os 62.827 nascidos a termo, cerca de 126 — um punhado de prematuros gerou metade do alarme falso do berçário inteiro.

Vá para a comparação que interessa. Entre os nascidos a termo, o percentil 99 deixa 1% de falso-positivos e o 99,8 deixa 0,2%. Nos 62.827 bebês a termo da coorte isso é a diferença entre cerca de 628 e cerca de 126 convocações — mais de quinhentas famílias a mais chamadas de volta para encontrar os mesmos sete casos, já que a sensibilidade foi de 100% nos dois cortes. Por caso encontrado, o corte nacional custa cerca de 90 convocações; o alternativo, cerca de 18.

Agora leia "sensibilidade de 100%" com o denominador na mão: a coorte inteira tinha sete afetados. Zero falhas em sete observações é compatível, pela regra dos três, com uma taxa real de perda de até 43% — o estudo não exclui que o corte mais alto deixe passar quase metade dos casos. E o melhor valor preditivo positivo do trabalho foi de 2%: no melhor cenário testado, 49 de cada 50 convocações de emergência são de crianças sem a doença.

Do resultado alterado à conduta clínica

O mesmo estudo publica a tabela dos sete afetados, e um deles resolve a discussão inteira. A paciente número 2 é do sexo feminino, nasceu com 2.950 g, teve a amostra colhida com 46 horas de vida e apresentou 17-OH-progesterona de 31 ng/mL, na forma perdedora de sal. E, entre as duas meninas afetadas da série, ela foi aquela cuja genitália ambígua só foi reconhecida depois que o resultado da triagem chegou: o exame da sala de parto passou.

Passe o número dela pelas duas tabelas. Faixa acima de 2.500 g. Pela tabela do Ministério, corte 15 e dobro 30: os 31 ng/mL disparam convocação de emergência para coleta sérica. Pela tabela da universidade, na coluna de menos de 72 horas, normal abaixo de 20 e muito elevado acima de 40: os 31 ng/mL caem na faixa do meio e a conduta é repetir o papel-filtro.

Ponha o relógio ao lado. A repetição do papel-filtro implica nova coleta, novo envio, nova leitura e nova convocação, e a crise perdedora de sal chega entre o 8º e o 15º dia. O corte estatisticamente superior é o que, aplicado à própria criança que o estudo relata, teria trocado a emergência por uma segunda via — e a diferença entre as duas condutas cabe dentro da janela em que a criança adoece.

Note ainda que a amostra dela foi colhida às 46 horas: antes das 48 horas que os documentos apontam como causa de falso-negativo, e antes do 3º dia para o qual a tabela nacional está rotulada. O valor foi produzido por uma coleta que ambas as réguas consideram precoce demais — e ainda assim acendeu a luz numa tabela e não na outra. A lição não é escolher a tabela: é saber que o número do papel-filtro não é veredicto e que, diante de vômito e desidratação no fim da segunda semana, sódio e potássio custam menos e chegam antes.

Hidrocortisona: formulações, dose e dificuldades práticas

O tratamento de manutenção é repor o que falta com a menor dose que segure o androgênio. O guia da Sociedade Brasileira de Pediatria e o documento da sociedade de triagem prescrevem a mesma coisa: hidrocortisona 10 a 15 mg/m² por dia, em três tomadas, por via oral, em comprimidos. E o guia acrescenta, no mesmo parágrafo, que "o acetato de cortisona e hidrocortisona, sob a forma de comprimidos, não são comercializados no Brasil", exigindo farmácia de manipulação, e encerra pedindo ao Ministério e à agência reguladora "soluções imediatas para esse problema". A alternativa óbvia está vetada duas linhas antes: a suspensão é inadequada porque o fármaco não se distribui de maneira uniforme na solução. O que sobra é macerar um comprimido manipulado imediatamente antes de dar.

O protocolo do Ministério não resolve — piora. Na lista de apresentações, a hidrocortisona aparece apenas como "solução injetável de 100 e 500 mg"; no esquema, lê-se "administrada por intramuscular ou endovenosa"; e na tabela de glicocorticoides a coluna de vias traz, para ela, apenas endovenosa e intramuscular, enquanto prednisona, prednisolona e dexametasona trazem a via oral. O documento nacional prescreve, para uso diário e vitalício em duas a quatro tomadas, um medicamento para o qual ele mesmo não registra via oral nem apresentação oral.

As doses também não coincidem, e a incoerência é interna. A prosa do protocolo escreve, para crianças, dose inicial de 12 a 18 mg/m²/dia; a tabela do mesmo protocolo, duas páginas adiante, escreve 10 a 18; o guia da sociedade escreve 10 a 15. O piso nacional muda de 10 para 12 dentro do próprio documento, e o teto nacional é 20% mais alto que o da sociedade. Um terceiro número dá escala: o protocolo informa que a produção fisiológica de cortisol é de 6 a 7 mg/m²/dia em crianças e adolescentes. Tomando 6,5 como referência, a manutenção da sociedade fica em 1,5 a 2,3 vezes o fisiológico e o teto do protocolo em 2,8 vezes — e é o mesmo protocolo que adverte que tanto o excesso de androgênio quanto o de glicocorticoide prejudicam o crescimento.

Uma nota final sobre a lista de fármacos. O protocolo diz que o tratamento "pode ser realizado com qualquer um dos glicocorticoides listados", e a lista inclui a dexametasona a 0,27 mg/m²/dia. A tabela de potências do mesmo documento atribui à dexametasona supressão do eixo 17 vezes a do cortisol, meia-vida acima de 48 horas e retenção salina zero. Um fármaco com essas três propriedades é o pior candidato possível para uma criança em crescimento que precisa também de efeito mineralocorticoide — e está listado como equivalente aos demais.

Reposição de mineralocorticoide e sódio

A forma perdedora de sal precisa de mineralocorticoide e de sal. A fludrocortisona é o mineralocorticoide, e sua potência de retenção salina é, pela tabela do protocolo, 125 vezes a do cortisol. As doses brasileiras não fecham. O guia da sociedade indica 100 a 200 microgramas por dia no período neonatal, com média de cerca de 200 até o sexto mês, caindo para 100 a 150 aos 2 anos e cerca de 50 aos 4 anos. O documento da sociedade de triagem começa em cerca de 100 microgramas e admite subir até 300 microgramas por dia, atento ao risco de insuficiência cardíaca de alto débito; o protocolo do Ministério escreve o mesmo teto em outra unidade, 0,1 mg/dia "podendo variar de 0,05 a 0,3 mg/dia". Como um escreve em miligramas e os outros em microgramas, o leitor apressado compara 0,3 com 200 e não percebe que está diante de um teto 50% mais alto. O comprimido é de 0,1 mg: o teto de 300 são três comprimidos, o de 200 são dois.

Há ainda uma contradição de sentido dentro do protocolo. Ele escreve que em crianças com menos de 6 meses, pela menor sensibilidade renal ao mineralocorticoide, "pode ser necessário uso de doses altas de fludrocortisona" — e é justamente para crianças que a sua tabela dá o teto mais baixo, 0,3 mg/dia, contra 0,4 mg/dia nos adultos. O grupo que o texto declara precisar de mais é o grupo com o limite impresso menor.

O sal é o caso mais bonito. O guia da sociedade prescreve 1 a 2 gramas por dia de cloreto de sódio e faz a gentileza de imprimir a conversão: 17 a 34 miliequivalentes por dia. O protocolo do Ministério prescreve 1 a 3 gramas por dia. E o documento da sociedade de triagem escreve, numa linha só, "na dose de 1 g ou 4 mEq/kg/dia (média de 1 a 2 gramas/dia)".

Esse "ou" junta duas coisas que não são a mesma. Um grama de cloreto de sódio equivale a 17,1 miliequivalentes de sódio, um valor fixo; 4 mEq/kg/dia cresce com a criança. Elas se igualam em 4,3 kg: no recém-nascido de 3,5 kg a regra por quilo entrega 14 miliequivalentes, menos que o grama fixo; no lactente de 8 kg do sexto mês, entrega 32, quase o dobro. A mesma frase, lida por dois prescritores, produz doses que diferem por um fator de dois. E o teto do protocolo merece conta à parte: três gramas são 51 miliequivalentes, ou cerca de 14,7 mEq/kg/dia num recém-nascido de 3,5 kg, sobre o leite — algo como cinco vezes a necessidade diária habitual de 2 a 3 mEq/kg/dia, oferecido como suplemento. O documento da sociedade de triagem dá o conselho que falta aos outros: antes de subir a fludrocortisona, confira se o sal está sendo dado direito.

Crise adrenal: tratar antes do resultado

Diante de vômito, desidratação, hipotensão, hiponatremia e hipercalemia em recém-nascido de duas semanas, colhe-se sangue e trata-se. O documento da sociedade de triagem escreve o esquema de forma operacional: soro fisiológico a 0,9% em 20 mL/kg, repetível até três vezes; soro glicosado a 10% em 2 a 4 mL/kg em bolus; e hidrocortisona em bolus endovenoso, com manutenção a cada 6 horas. Duas escolhas de fármaco são determinísticas e explicam metade das alternativas erradas: a dexametasona tem retenção salina zero pela tabela do próprio protocolo, e a fludrocortisona só existe em comprimido oral, inútil em quem vomita e está em choque. Em dose alta a hidrocortisona tem efeito mineralocorticoide próprio, e por isso é a escolha única da fase aguda.

As doses de estresse, porém, estão escritas em duas gramáticas incompatíveis. O protocolo do Ministério fixa 60 a 100 mg/m²/dia para estresse e crise em crianças; o documento da sociedade de triagem escreve 50 a 100 mg/m² em bolus, seguido de manutenção a cada 6 horas. É o mesmo par de números aparecendo, num documento, como a dose do dia inteiro e, no outro, como o primeiro empurrão. Quem ler o segundo com a régua do primeiro subdosa; quem ler o primeiro com a régua do segundo entrega, em um dia, várias vezes o previsto.

O guia da sociedade de pediatria escapa da superfície corporal e usa uma escada por faixa etária: 25 mg para lactentes e pré-escolares, 50 mg para escolares, 100 mg para adolescentes, por via intramuscular ou endovenosa, mantendo depois metade a um quarto da dose inicial a cada 6 horas. É aí que a aritmética morde. Uma criança de 20 kg e 110 cm tem cerca de 0,78 m²: chamada de pré-escolar recebe 25 mg, ou 32 mg/m²; chamada de escolar recebe 50 mg, ou 64 mg/m². A mesma criança recebe o dobro conforme o rótulo, e a leitura mais baixa fica abaixo do piso de 60 mg/m² do protocolo nacional. No outro extremo, o lactente de 4 kg com 0,25 m² recebe cerca de 100 mg/m² num único bolus — o teto da faixa nacional. A escada plana varia de 32 a 100 mg/m² sem que nada mude além da palavra usada para descrever o paciente.

Por fim, o porteiro da febre aparece dos dois lados da mesma linha. O texto do guia manda dobrar ou triplicar a dose em situações de estresse, dando como exemplo temperatura acima de 38,5 ºC; o cartão do mesmo guia classifica como estresse leve as "infecções com febre (até 38,5 ºC)" e manda, para elas, dobrar ou triplicar. O mesmo número, no mesmo documento, uma vez como início do estresse e outra como fim dele. Na dúvida, vale o cartão: a criança com hiperplasia adrenal congênita e febre recebe mais corticoide, não menos, e o mineralocorticoide não precisa ser aumentado.

Seguimento: controlar andrógenos sem suprimir excessivamente

O seguimento da forma clássica tem uma inversão que confunde: não se busca normalizar a 17-OH-progesterona. Suprimi-la até o normal exige uma dose de glicocorticoide que custa crescimento. O protocolo do Ministério fixa o alvo entre 4 e 12 ng/mL, com androstenediona e testosterona pouco acima do limite superior de referência. O guia da sociedade dá a régua pelo outro lado: com valores abaixo de 10 ng/mL, observe a velocidade de crescimento; com valores abaixo de 5 ng/mL, reduza a dose para evitar supertratamento.

As duas réguas se cruzam numa faixa estreita e desconfortável: um paciente com 4,5 ng/mL está dentro do alvo do protocolo nacional e, ao mesmo tempo, abaixo do limiar que faz a sociedade mandar reduzir a dose. E há um eco diagnóstico no mesmo número: no recém-nascido, valores séricos abaixo de 10 ng/mL excluem a doença — de modo que um paciente tratado, no alvo, carrega um valor que, lido como teste diagnóstico, diria que ele não tem o que tem.

O calendário de consultas tem três versões, e uma delas erra o crédito. O protocolo de 2010 manda a cada 3 meses até o primeiro ano. O Quadro 7 do guia da sociedade de pediatria — apresentado explicitamente como "Recomendações do Ministério da Saúde" — manda mensal dos 2 aos 6 meses e a cada 2 meses dos 6 aos 12. Vale abrir a referência: o quadro atribui ao Ministério um calendário três vezes mais frequente do que o documento do Ministério imprime. Sobre o começo, todos concordam: nos primeiros dois meses de tratamento, o acompanhamento do perdedor de sal é semanal. A idade óssea segue a mesma sina — o protocolo manda radiografia anual de mãos e punhos sem idade de partida, e o guia especifica punho e mão esquerda anualmente após os 2 anos.

O desfecho de estatura é onde os dois documentos do Ministério colidem de frente. O protocolo de 2010 escreve que o tratamento "melhora o padrão de crescimento sem, entretanto, normalizá-lo", e que pacientes adequadamente tratados atingem altura final cerca de 1,5 desvio-padrão — aproximadamente 10 cm — abaixo da altura prevista. O manual técnico de 2016 escreve que "o diagnóstico precoce e o tratamento adequado melhoram o padrão de crescimento, podendo normalizá-lo na maior parte dos casos". Um diz que se perde uma década de centímetros; o outro, que na maioria não se perde nada. Nenhum cita o outro.

Fecham o seguimento duas decisões que não são hormonais. A genitoplastia feminizante é indicada, pelas duas sociedades, antes dos 2 anos de idade, com avaliação multidisciplinar e consentimento dos pais; no diagnóstico tardio, só depois de avaliação psicológica que defina a identidade de gênero. E toda família sai com identificação portátil dizendo que aquela criança usa corticoide crônico por hiperplasia adrenal congênita — mais a linha que o anestesista precisa ler: hidrocortisona endovenosa na indução anestésica de qualquer cirurgia.

04

Como decidir, do papel-filtro ao cartão de estresse

A sequência abaixo é a que resolve vinheta. Ela separa três decisões que a prova costuma embaralhar: quem investigar, quando tratar sem esperar resultado, e com que número acompanhar depois.

  1. 1Olhe a genitália antes de olhar qualquer exame. Todo recém-nascido com atipia genital e sem gônadas palpáveis no períneo ou na região inguinal é investigado para hiperplasia adrenal congênita antes da alta do berçário e antes do cariótipo — o cariótipo demora em média 30 dias, e a pesquisa de sequências do cromossomo Y por reação em cadeia da polimerase é mais rápida.
  2. 2No menino, não espere sinal. Genitália masculina normal é a regra, e o único caminho até o diagnóstico antes da crise é a triagem neonatal.
  3. 3Leia a 17-OH-progesterona do papel-filtro contra a faixa de peso ao nascer e contra o dia da coleta, nunca contra um número único.
  4. 4Acima do corte mas abaixo do dobro, repita o papel-filtro. Acima do dobro do corte, convoque em emergência para dosagem sérica de 17-OH-progesterona, cortisol, androstenediona, testosterona, sódio e potássio.
  5. 5Diante de vômito, desidratação, hipotensão, hiponatremia e hipercalemia no fim da segunda semana, colha e trate: soro fisiológico a 0,9% em 20 mL/kg, glicose para a hipoglicemia e hidrocortisona parenteral. Não se adia o corticoide para esperar a 17-OH-progesterona.
  6. 6Na confirmação, saiba que patamar decide o quê: abaixo de 10 ng/mL no soro do neonato exclui; acima de 100 ng/mL confirma a forma clássica e é o critério de inclusão para dispensação do glicocorticoide.
  7. 7Para a forma não clássica, a suspeita nasce da 17-OH-progesterona basal — acima de 0,8 ng/mL em crianças e acima de 2 ng/mL em mulheres adultas, colhida pela manhã na fase folicular. Valor intermediário exige teste de estímulo com 250 microgramas de hormônio adrenocorticotrófico; estimulada acima de 10 ng/mL confirma.
  8. 8Peça ultrassonografia pélvica no recém-nascido com atipia genital para procurar útero e ovários. Genitália interna feminina com 17-OH-progesterona muito elevada aponta menina virilizada.
  9. 9Repondo: glicocorticoide de curta ação por via oral em três tomadas para todo caso clássico, e mineralocorticoide mais sal para o perdedor de sal.
  10. 10Entregue o cartão de estresse antes da alta, com nome, doses, peso e o que fazer em febre, vômito e cirurgia. Ele é parte do tratamento, não uma cortesia.

As duas tabelas brasileiras de corte da 17-OH-progesterona em papel-filtro (ng/mL), lado a lado

Peso ao nascerMinistério da Saúde — percentil 99, coleta do 3º ao 5º dia (normal / elevada / muito elevada)Universidade de São Paulo — percentil 99,8, coleta antes de 72 hUniversidade de São Paulo — percentil 99,8, coleta depois de 72 h
Menos de 1.500 gAbaixo de 110 / de 110 a menos de 220 / a partir de 220Abaixo de 120 / de 120 a 240 / acima de 240Abaixo de 173 / de 173 a 346 / acima de 346
De 1.501 a 1.999 g (tabela nacional) — de 1.500 a 2.000 g (tabela da universidade)Abaixo de 43 / de 43 a menos de 86 / a partir de 86Abaixo de 71 / de 71 a 142 / acima de 142Abaixo de 90 / de 90 a 180 / acima de 180
De 2.000 a 2.499 g (nacional) — de 2.001 a 2.500 g (universidade)Abaixo de 28 / de 28 a menos de 56 / a partir de 56Abaixo de 39 / de 39 a 78 / acima de 78Abaixo de 66 / de 66 a 132 / acima de 132
A partir de 2.501 g (nacional) — acima de 2.500 g (universidade)Abaixo de 15 / de 15 a menos de 30 / a partir de 30Abaixo de 20 / de 20 a 40 / acima de 40Abaixo de 25 / de 25 a 50 / acima de 50
Conduta em cada colunaNada a fazer / repetir papel-filtro / convocação de emergência para soroNada a fazer / repetir papel-filtro / convocação de emergência para soroNada a fazer / repetir papel-filtro / convocação de emergência para soro

As três formas da deficiência de 21-hidroxilase: quem aparece como, e quando

FormaAtividade enzimática residualComo se apresenta no 46,XXComo se apresenta no 46,XYFrequência
Clássica perdedora de salMenos de 2%Virilização da genitália ao nascer, da clitoromegalia isolada à aparência masculina sem gônadas palpáveis, mais crise de perda de salGenitália normal; crise de perda de sal entre o 8º e o 15º dia, com hiponatremia, hipercalemia, hipoglicemia e choque60% das formas clássicas pelo protocolo de 2010; 70-75% pelo manual de 2016 e pela Sociedade Brasileira de Pediatria
Clássica virilizante simplesDe 3% a 7%Virilização da genitália ao nascer, sem criseGenitália normal; diagnóstico tardio por pubarca precoce, velocidade de crescimento aumentada e maturação óssea aceleradaO restante das formas clássicas
Não clássica, de início tardioParcialPubarca precoce, clitoromegalia discreta, ciclos irregulares, hirsutismo, infertilidadeEm geral assintomático; alguns com aumento testicular por tecido adrenal ectópico e oligospermiaCerca de 15 vezes mais frequente que a forma clássica — em torno de 1:700 pela incidência paulista

O que cada régua brasileira manda repor, e onde elas divergem

ItemProtocolo do Ministério, 2010Sociedade Brasileira de Pediatria, 2019Sociedade de triagem neonatal, 2022
Hidrocortisona de manutenção12 a 18 mg/m²/dia na prosa; 10 a 18 na tabela; vias registradas: apenas intramuscular e endovenosa10 a 15 mg/m²/dia, três tomadas, comprimido por via oral10 a 15 mg/m²/dia, três tomadas, comprimido por via oral; solução oral vetada
Produção fisiológica de cortisol, para escala7 a 9 mg/m²/dia no neonato; 6 a 7 mg/m²/dia em crianças e adolescentesNão informadaNão informada
Fludrocortisona0,1 mg/dia, variando de 0,05 a 0,3 mg/dia100 a 200 mcg/dia no período neonatal; quadro de manutenção de 50 a 200 mcg/diaCerca de 100 mcg/dia iniciais, em duas tomadas, subindo até 300 mcg/dia, com atenção à insuficiência cardíaca de alto débito
Cloreto de sódio suplementar1 a 3 g/dia em menores de 6 meses1 a 2 g/dia, equivalentes a 17 a 34 mEq/dia1 g ou 4 mEq/kg/dia, com média declarada de 1 a 2 g/dia
Dose de estresse e de crise60 a 100 mg/m²/dia de hidrocortisona em crianças; 200 a 300 mg/dia em adultosAtaque de 25 mg em lactentes e pré-escolares, 50 mg em escolares, 100 mg em adolescentes; depois metade a um quarto a cada 6 h; manutenção de 30 a 50 mg/m²/dia no estresse moderado e de 50 a 100 no grave50 a 100 mg/m² em bolus endovenoso, com manutenção a cada 6 horas
Alvo da 17-OH-progesterona no seguimentoEntre 4 e 12 ng/mLNão normalizar; abaixo de 10 observar a velocidade de crescimento; abaixo de 5 reduzir a doseEvitar excesso e subdose, sem faixa numérica
Estatura final esperada com tratamentoCerca de 1,5 desvio-padrão, ou 10 cm, abaixo da prevista — o manual técnico de 2016 do mesmo Ministério afirma que o tratamento adequado pode normalizar o crescimento na maior parte dos casosPreservação do potencial de altura final como objetivo do tratamentoNão quantificada

A coluna do percentil 99 do estudo paulista de 2011 traz 110,4 para menos de 1.500 g; 43 para 1.501 a 2.000 g; 28,2 para 2.001 a 2.500 g; e 15,1 para acima de 2.500 g. São, arredondados, os quatro números do quadro nacional. A coluna do percentil 99,8 do mesmo estudo traz 160,2; 55,2; 40,6; e 20 — e esses números não são os do quadro atribuído à universidade no guia de 2019, que separa a coleta por tempo de vida e cita fontes posteriores.

As faixas de peso do quadro nacional deixam de fora dois valores exatos: 1.500 g e 2.500 g. A tabela da universidade é contígua e não tem esse buraco; o estudo de origem, por sua vez, coloca 2.000 g em dois grupos ao mesmo tempo.

O estudo paulista analisou 67.640 recém-nascidos e excluiu 5.787 por coleta após o 7º dia, o que soma 73.427; a linha de incidência do artigo usa 73.247 e chega a 1:10.460. Com o total somado, os mesmos sete casos dariam 1:10.490. A diferença é irrelevante para a clínica e útil para lembrar que denominador se confere.

Transfusão de hemoderivados é causa de falso-negativo: a amostra deve ser colhida antes da transfusão ou pelo menos 5 dias depois. Corticoide materno no periparto ou dado ao recém-nascido também derruba a 17-OH-progesterona, e o uso precisa ser registrado no formulário de pedido.

De 7% a 17% dos falso-positivos do papel-filtro não normalizam a 17-OH-progesterona já na dosagem sérica confirmatória, e alguns levam de 6 a 12 meses para normalizar — o que mantém a criança em seguimento e a família em suspense, sem doença nenhuma.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Que fração da forma clássica é perdedora de sal

60% dos casos

A forma clássica perdedora de sal constitui a forma mais comum de hiperplasia adrenal congênita clássica, com 60% dos casos. É o número do documento que tem força normativa e rege a dispensação do medicamento no Sistema Único de Saúde.

Brasil. Ministério da Saúde. Portaria SAS/MS nº 16, de 15 de janeiro de 2010, Anexo, item 2, seção 'Forma clássica perdedora de sal'.

70% a 75% dos casos

A forma clássica perdedora de sal constitui de 70% a 75% dos casos de forma clássica, com mutações que comprometem total ou quase totalmente a atividade enzimática, abaixo de 2%. É o número do manual técnico do mesmo Ministério, seis anos posterior, e é também o adotado pela Sociedade Brasileira de Pediatria.

Brasil. Ministério da Saúde. Triagem Neonatal Biológica: Manual Técnico, 2016, página 62; e Sociedade Brasileira de Pediatria, Guia Prático de Atualização nº 07, outubro de 2019, página 3.

Na prova

A vinheta raramente pede a fração de cabeça; ela pede a consequência. Quando o enunciado descreve um recém-nascido do sexo masculino com genitália normal que adoece na segunda semana, o recorte do avaliador é a forma perdedora de sal, e a discussão do percentual é irrelevante. Se o enunciado citar um número, olhe a fonte que ele mesmo indica: banca que cita o protocolo de 2010 espera 60%, banca que cita o manual de triagem ou a sociedade espera 70-75%. Nunca conte com o percentual como discriminador entre alternativas.

Em que percentil deve ficar o corte da triagem neonatal

Percentil 99, ajustado por peso ao nascer

É o corte recomendado pelo Ministério da Saúde e usado na maior parte dos estados brasileiros. Para o recém-nascido acima de 2.501 g colhido do 3º ao 5º dia, o corte é 15 ng/mL, com convocação de emergência a partir de 30 ng/mL. Prioriza não perder caso, ao custo de convocar, por construção, cerca de 1 em cada 100 recém-nascidos.

Sociedade Brasileira de Pediatria, Guia Prático de Atualização nº 07, outubro de 2019, Quadro 2, apresentado como recomendação do Ministério da Saúde.

Percentil 99,8, ajustado por peso e por tempo de vida

É o corte proposto a partir do estudo paulista de 67.640 recém-nascidos e adotado pelo serviço de referência de São Paulo. Elevou o valor preditivo positivo para 2% e reduziu falso-positivos em todas as faixas de peso, sem produzir falso-negativos naquela coorte. Os próprios autores escrevem que as taxas dos percentis 97,5 e 99 ainda são inadequadas para um programa público.

Hayashi G et al., Arquivos Brasileiros de Endocrinologia & Metabologia, 2011;55(8):632-637, Tabelas 1 e 3 e seção de discussão; reproduzido no Quadro 3 do Guia Prático de Atualização nº 07 da Sociedade Brasileira de Pediatria.

Na prova

Identifique se o enunciado está pedindo interpretação de um valor concreto ou opinião sobre política de rastreamento. Se der peso, dia de coleta e um número, aplique a régua nacional — é a que rege o programa e a que a maioria das bancas brasileiras usa. Se a alternativa disser que um único ponto de corte serve para todos os pesos, ela está errada em qualquer das duas réguas. E desconfie de alternativa que trate a triagem como diagnóstico: nas duas réguas, o resultado do papel-filtro só gera repetição ou convocação, nunca diagnóstico.

Se o tratamento adequado normaliza a estatura final

Não normaliza: cerca de 10 cm abaixo do previsto

O tratamento melhora o padrão de crescimento sem, entretanto, normalizá-lo; pacientes adequadamente tratados atingem altura final cerca de 1,5 desvio-padrão, aproximadamente 10 cm, abaixo da altura prevista.

Brasil. Ministério da Saúde. Portaria SAS/MS nº 16, de 15 de janeiro de 2010, Anexo, item 9.4, 'Benefícios esperados'.

Pode normalizar na maior parte dos casos

O diagnóstico precoce e o tratamento adequado melhoram o padrão de crescimento, podendo normalizá-lo na maior parte dos casos.

Brasil. Ministério da Saúde. Triagem Neonatal Biológica: Manual Técnico, 2016, página 64.

Na prova

As duas frases são do mesmo Ministério e nenhuma cita a outra. O que não varia entre elas, e é o que a banca cobra, é o mecanismo: o androgênio não controlado acelera a maturação óssea e fecha as epífises antes da hora, e o excesso de glicocorticoide freia o crescimento — as duas pontas custam estatura, e é por isso que o alvo laboratorial não é normalizar a 17-OH-progesterona. Alternativa que atribua a baixa estatura final apenas ao subtratamento perde metade do raciocínio.

Se o mineralocorticoide entra no tratamento imediato da crise adrenal

Não na fase aguda: a hidrocortisona em dose alta basta

A conduta imediata é expansão volêmica com soro fisiológico, correção da hipoglicemia e hidrocortisona parenteral em dose de estresse. A fludrocortisona só existe por via oral, tem ação lenta e não é tratamento da crise; e a própria dose alta de hidrocortisona carrega efeito mineralocorticoide. A dose do mineralocorticoide não precisa ser aumentada em situações de estresse.

Sociedade Brasileira de Pediatria, Guia Prático de Atualização nº 07, outubro de 2019, Quadros 5 e 6; e Sociedade Brasileira de Triagem Neonatal e Erros Inatos do Metabolismo, Documento Científico, maio de 2022, seção de tratamento da crise adrenal.

Sim, glicocorticoide e mineralocorticoide compõem o tratamento da forma perdedora de sal

O tratamento da forma perdedora de sal inclui, além da reposição de glicocorticoide, a reposição de mineralocorticoide, com o objetivo de normalizar a volemia e corrigir os distúrbios de sódio e potássio; o tratamento com fludrocortisona salva vidas nesses pacientes. O protocolo descreve as duas reposições juntas, sem separar a fase aguda da manutenção.

Brasil. Ministério da Saúde. Portaria SAS/MS nº 16, de 15 de janeiro de 2010, Anexo, itens 9.2.2 e 9.4.

Na prova

A divergência é de recorte temporal, não de farmacologia: ninguém discute que o perdedor de sal precisa de fludrocortisona para viver, e ninguém defende dar comprimido a uma criança em choque que vomita. Na vinheta de crise, o discriminador é a via e o tempo — o que se administra na primeira hora é volume, glicose e hidrocortisona parenteral. Alternativa que ofereça fludrocortisona como conduta imediata do choque está errada pela via; alternativa que negue o mineralocorticoide no tratamento crônico da forma perdedora de sal está errada pelo desfecho. Registre também que o acervo de questões desta plataforma carrega as duas leituras em comentários diferentes, e que a leitura correta depende de o enunciado pedir 'conduta imediata' ou 'tratamento da forma'.

Qual é o teto da fludrocortisona no lactente

200 microgramas por dia

A dose é de 100 a 200 microgramas por dia no período neonatal, com dose média inicial até o sexto mês em torno de 200 microgramas por dia; o quadro de manutenção da própria sociedade fixa a faixa em 50 a 200 microgramas por dia, em uma ou duas tomadas.

Sociedade Brasileira de Pediatria, Guia Prático de Atualização nº 07, outubro de 2019, texto de tratamento e Quadro 4.

300 microgramas por dia

A dose inicial para recém-nascidos é de aproximadamente 100 microgramas por via oral, divididos em duas tomadas, podendo ser aumentada até 300 microgramas por dia, com atenção ao risco de insuficiência cardíaca congestiva de alto débito; antes de aumentar, deve-se conferir se o sal de cozinha está sendo oferecido corretamente. O protocolo do Ministério escreve o mesmo teto em outra unidade, 0,3 mg/dia.

Sociedade Brasileira de Triagem Neonatal e Erros Inatos do Metabolismo, Documento Científico, maio de 2022, seção de tratamento; e Brasil, Ministério da Saúde, Portaria SAS/MS nº 16, de 15 de janeiro de 2010, item 9.2.2.

Na prova

O que a banca cobra não é o teto, e sim três fatos estáveis: a fludrocortisona é oral e de uso contínuo; a necessidade é maior nos primeiros meses por menor sensibilidade renal ao mineralocorticoide e cai depois; e o ajuste se faz por pressão arterial, sódio, potássio e renina, não por peso. Repare também na troca de unidade entre documentos — 0,3 mg e 300 mcg são o mesmo número, e comparar 0,3 com 200 sem converter faz o teto parecer menor do que é.

06

Caso resolvido

Recém-nascida a termo, 2.950 g, sem intercorrências no parto. Recebeu alta com 48 horas de vida; o exame da sala de parto foi registrado como normal. A amostra do papel-filtro foi colhida com 46 horas, antes da alta, e o resultado chega ao serviço quatro dias depois: 17-OH-progesterona de 31 ng/mL. No prontuário não há registro de corticoide materno nem de transfusão. A criança está em casa, mamando, com sete dias de vida.
1. Em que faixa de peso essa criança cai, e qual corte se aplica
Dois mil novecentos e cinquenta gramas caem na faixa mais alta de qualquer das tabelas brasileiras — a partir de 2.501 g pela nacional, acima de 2.500 g pela da universidade. É a faixa com os cortes mais baixos, porque o recém-nascido a termo e de peso adequado tem o córtex adrenal maduro e não sustenta precursor alto sem doença. Repare que ela escapa por 450 gramas do buraco da tabela nacional, que não cobre o peso exato de 2.500 g.
2. Aplique a régua nacional
Percentil 99, faixa acima de 2.501 g: normal abaixo de 15, elevado de 15 a menos de 30, muito elevado a partir de 30. Trinta e um é maior que 30. A conduta é convocação de emergência para dosagem sérica de 17-OH-progesterona, cortisol, androstenediona, testosterona, sódio e potássio — não é repetir o papel-filtro.
3. Aplique a régua da universidade e compare
Percentil 99,8, faixa acima de 2.500 g, coluna de coleta antes de 72 horas, porque a amostra foi de 46 horas: normal abaixo de 20, elevado de 20 a 40, muito elevado acima de 40. Trinta e um cai na faixa do meio, e a conduta seria repetir a dosagem em papel-filtro. A mesma criança, o mesmo número, o mesmo dia: emergência por uma tabela, segunda via por outra.
4. Ponha o relógio ao lado do número
A crise perdedora de sal aparece, pela Sociedade Brasileira de Pediatria, entre o 8º e o 15º dia de vida. A criança está com sete dias. Uma segunda coleta em papel-filtro consome nova convocação, novo envio e nova leitura. É por isso que, na dúvida entre duas réguas, quem decide não é a estatística e sim o calendário da doença: o que custa pouco e chega rápido é sódio e potássio séricos.
5. Examine a genitália outra vez, mesmo com o registro de normalidade
O registro da sala de parto não encerra a questão. Na série paulista, das duas meninas afetadas, em uma delas a ambiguidade genital só foi reconhecida depois que o resultado da triagem chegou. Toda criança convocada por 17-OH-progesterona elevada merece reexame dirigido: clitoromegalia, grau de fusão labioescrotal, e a pergunta que resolve — há gônadas palpáveis no períneo ou na região inguinal? Genitália de aparência masculina sem gônadas palpáveis é, até prova em contrário, uma menina virilizada.
6. Feche a conduta
Convocação imediata, exame clínico completo com peso, comprimento, pressão arterial e inspeção genital, coleta de 17-OH-progesterona sérica com cortisol, androstenediona, testosterona, sódio, potássio e glicemia, e ultrassonografia pélvica à procura de útero e ovários. Se houver qualquer sinal de desidratação, vômito ou hipotensão, não se espera resultado nenhum: expande com soro fisiológico a 0,9% em 20 mL/kg, corrige a glicemia e administra hidrocortisona parenteral. Esta criança, na série de origem, tinha a forma perdedora de sal.
07

Agora feche você

Menino de 6 anos, 20 kg e 110 cm, em acompanhamento desde o período neonatal por hiperplasia adrenal congênita forma clássica perdedora de sal. Usa hidrocortisona manipulada em três tomadas e fludrocortisona diária, e a mãe oferece sal na comida conforme orientado. Chega ao pronto-atendimento com febre de 39,2 ºC há um dia, vômitos desde a manhã, sem aceitar líquidos. Está desidratado, taquicárdico, com pressão arterial no limite inferior. A mãe traz o cartão do ambulatório, mas não sabe se já deu a dose da manhã. Não há dosagem de eletrólitos ainda.
1. Classifique o estresse antes de escolher a dose
Olhe a lista do cartão: febre acima de 38,5 ºC, desidratação e recusa alimentar aparecem juntas em qual categoria? E qual é a diferença de conduta entre a categoria em que a ingestão oral está preservada e aquela em que não está? Repare que este paciente já respondeu à segunda pergunta ao vomitar.
2. Descubra a armadilha do rótulo etário
O cartão da sociedade dá o ataque por faixa: 25 mg para lactentes e pré-escolares, 50 mg para escolares. Uma criança de 6 anos é escolar. Calcule a superfície corporal desses 20 kg e 110 cm e converta as duas opções, 25 mg e 50 mg, em miligramas por metro quadrado. Depois compare com o piso de 60 mg/m²/dia que o protocolo nacional fixa para a crise. Qual das duas leituras fica abaixo do piso nacional?
3. Decida a via e o que vai junto
A criança vomita. Isso elimina uma via e um fármaco inteiro — quais? E o que entra com o corticoide na mesma passagem, considerando que ainda não há eletrólitos e que a hipoglicemia da insuficiência adrenal não avisa?
4. Resolva a dúvida da dose esquecida
A mãe não sabe se deu a dose da manhã. Os documentos brasileiros trazem uma orientação explícita para esquecimento de dose na manutenção — qual é ela, e por que ela não muda nada na decisão de hoje?
5. Diga o que a mãe leva para casa
Resolvido o episódio, o que precisa estar escrito no cartão para que ela não volte na mesma situação? Cite os quatro campos do cartão da sociedade e as três faixas de estresse que ele descreve, com a conduta de cada uma.
08

Onde a banca derruba

  1. 1Trocar a hiperplasia adrenal pela estenose de piloro É a troca mais frequente, e a vinheta é montada para ela: recém-nascido de duas semanas, vômitos, recusa alimentar, perda de peso e desidratação. As duas doenças ocupam a mesma janela de idade e o mesmo relato materno. O que separa é o eletrólito, e ele é inverso: a hiperplasia adrenal dá hiponatremia com hipercalemia, e o piloro dá alcalose metabólica hipoclorêmica com hipocalemia. O erro que o aluno marca é indicar piloromiotomia ou pedir ultrassonografia de piloro num paciente com sódio de 122 e potássio de 6,8.
  2. 2Achar que menino não tem a doença porque a genitália é normal A vinheta descreve fenótipo masculino com testículos palpáveis e sem ambiguidade, e o aluno descarta a hipótese. É exatamente o contrário: no 46,XY não há nada para virilizar, a genitália se diferencia normalmente, e por isso o menino depende inteiramente da triagem neonatal para ser diagnosticado antes da crise. Quando o enunciado acrescenta hiperpigmentação de mamilos e bolsa escrotal, ou um irmão morto na terceira semana por desidratação de causa não esclarecida, ele está entregando o diagnóstico. O erro é marcar sepse neonatal tardia e tratar só com antibiótico.
  3. 3Esperar a 17-OH-progesterona para começar o corticoide A alternativa é sedutora porque parece rigor diagnóstico: colher a 17-OH-progesterona e reavaliar. Diante de hiponatremia, hipercalemia, hipoglicemia e hipotensão, a espera é o próprio dano. Colhe-se a amostra e trata-se na mesma passagem — volume, glicose e hidrocortisona parenteral. O erro é escolher a alternativa que posterga a corticoterapia até a confirmação laboratorial, e ele costuma vir redigido com palavras de prudência.
  4. 4Escolher dexametasona ou fludrocortisona na crise As duas alternativas erradas mais bem construídas do tema mudam o fármaco em vez de mudar a conduta. A dexametasona tem retenção salina zero pela tabela do próprio protocolo nacional: é corticoide potente e não corrige a perda de sal. A fludrocortisona é comprimido, de ação lenta, e a criança em choque está vomitando. O erro é marcar qualquer uma delas onde a resposta é hidrocortisona parenteral em dose de estresse.
  5. 5Repor potássio ou restringir sódio porque o quadro parece desidratação comum A vinheta traz vômito e desidratação, e um pacote de alternativas oferece reposição de potássio, furosemida, bicarbonato em bolus ou restrição hídrica. O paciente está com potássio de 7, e a hipercalemia responde ao próprio corticoide, à volemia e ao aporte de sódio e glicose. O erro é somar potássio a quem já tem excesso, ou restringir sódio e água livre em quem está hiponatrêmico e hipovolêmico — a alternativa costuma justificar a restrição pela hiponatremia, invertendo a fisiologia.
  6. 6Ler o valor do papel-filtro sem olhar o peso ao nascer A vinheta dá 17-OH-progesterona de 60 ng/mL e pergunta a conduta. Sem o peso, o número não decide nada: para um prematuro de 1.400 g esse valor está abaixo do corte nacional de 110, e para um bebê de 3.200 g ele está acima do dobro do corte de 15 e manda convocar em emergência. O erro é aplicar um corte único a todos os pesos — que era, aliás, a prática que o estudo paulista veio corrigir, com 28% de falso-positivos entre os menores de 1.500 g.
  7. 7Confundir a régua da forma não clássica com a da forma clássica A vinheta muda de sala: mulher jovem com hirsutismo e ciclos irregulares, 17-OH-progesterona basal de 4,5 ng/mL colhida pela manhã na fase folicular. O aluno treinado no recém-nascido procura os 100 ng/mL e descarta. O valor intermediário é justamente a indicação do teste de estímulo com 250 microgramas de hormônio adrenocorticotrófico, com 17-OH-progesterona estimulada acima de 10 ng/mL fechando o diagnóstico. Dois erros clássicos acompanham: colher na fase lútea, quando o corpo lúteo eleva fisiologicamente o precursor, e usar o corte de criança, que é 0,8 ng/mL, na mulher adulta, cujo corte é 2.
  8. 8Apressar a cirurgia da genitália na fase aguda A vinheta descreve a menina virilizada em crise, e uma alternativa oferece correção cirúrgica precoce da genitália, às vezes junto de testosterona. Nada disso pertence à fase aguda. A genitoplastia feminizante é eletiva, indicada antes dos 2 anos de idade, com equipe multidisciplinar, avaliação psicológica e consentimento dos pais; no diagnóstico tardio, ela só se indica após a definição da identidade de gênero. O erro é escolher a alternativa que resolve o problema visível enquanto o problema letal é o sódio.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Recém-nascida com virilização (clitoromegalia, fusão labial), crise perdedora de sal na 2ª semana (hiponatremia, hipercalemia, hipoglicemia) e hiperpigmentação é o quadro clássico de hiperplasia adrenal congênita por deficiência de 21-hidroxilase, a forma clássica perdedora de sal. A estenose de piloro dá alcalose hipoclorêmica e não altera genitália nem eletrólitos desse padrão. Sepse pode causar instabilidade, mas não a genitália ambígua nem o padrão específico Na baixo/K alto por hipoaldosteronismo. Hipotireoidismo congênito não causa distúrbio eletrolítico nem virilização. Erro inato com hiperamonemia cursa com encefalopatia/alcalose respiratória, sem virilização.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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10

Plano de revisão

em 7 dias

Sete dias depois, recupere de memória seis coisas. O padrão eletrolítico da crise, e por que ele é o inverso do da estenose de piloro. A janela em que a crise aparece e o que ela significa para uma criança que teve alta em 48 horas. As quatro faixas de peso do quadro nacional, com os quatro cortes do percentil 99 e o que muda ao dobrar cada um. Os três patamares séricos de 17-OH-progesterona no neonato, e qual deles é critério de dispensação do medicamento. Os dois cortes da forma não clássica, o de criança e o de mulher adulta, e o que confirma depois do estímulo. E a escada de dose de estresse por faixa etária, com o que ela dá em miligramas por metro quadrado para uma criança de 20 kg.

em 30 dias

Trinta dias depois, resolva cinco cenários antes de conferir. Recém-nascido de 1.400 g com 17-OH-progesterona de 60 ng/mL no 4º dia — diga a conduta e o corte que usou. Recém-nascido de 3.200 g com o mesmo valor de 60 — diga a conduta e explique por que mudou. Menina de 12 dias com clitoromegalia, sódio 122, potássio 6,8 e glicemia 46 — escreva a primeira hora inteira, em fármacos, doses e vias, sem esperar exame. Menino de 6 anos e 20 kg com febre de 39 ºC e vômitos — escreva a dose de ataque em miligramas e converta para miligramas por metro quadrado. Mulher de 27 anos com hirsutismo e 17-OH-progesterona basal de 4,5 ng/mL na fase folicular — diga o próximo exame, a dose do estímulo e o valor que confirma.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Na maternidade e no pronto-atendimento, três gestos transformam este capítulo em conduta. O primeiro é com as mãos: em todo recém-nascido cuja genitália não seja inequívoca, procure as gônadas no períneo e na região inguinal antes de escrever qualquer coisa no prontuário — genitália de aparência masculina sem gônadas palpáveis é uma menina virilizada até prova em contrário, e essa pergunta não espera cariótipo. O segundo é com o papel: ao ler uma 17-OH-progesterona de triagem, procure o peso ao nascer e o dia da coleta antes de olhar o número, porque sem eles o número não quer dizer nada. E o terceiro é com o tempo: diante de um lactente de duas semanas com vômito, desidratação e hipotensão, peça sódio, potássio e glicemia na mesma punção em que colhe a 17-OH-progesterona, e trate na mesma passagem, com volume, glicose e hidrocortisona parenteral. Se a família de uma criança já diagnosticada sair do seu ambulatório sem um cartão dizendo a dose, o peso e o que fazer na febre, o tratamento está pela metade. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Hiperplasia adrenal congênita e ambiguidade genital — Preparatório para provas | OsceLabs