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Clínica MédicaEndocrinologia

Osteoporose e metabolismo ósseo

A fratura pode fechar o diagnóstico sem densitometria; o risco — e não apenas o T-escore — escolhe entre prevenção, antirreabsortivo e terapia osteoanabólica.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Sobre a deficiência de vitamina D no idoso, qual é a principal consequência musculoesquelética a ser considerada?

02

Como esse tema cai

Este capítulo cobre osteoporose primária e secundária no adulto, com a régua brasileira do PCDT vigente, a leitura da densitometria, o FRAX Brasil, a investigação mínima de causas reversíveis, o tratamento no SUS e o seguimento. O alvo é a decisão de prova: quem rastrear, quem já tem diagnóstico, quem precisa tratar e qual terapia não pode ser interrompida sem plano de transição.

Ficam fora do recorte o distúrbio mineral e ósseo da doença renal crônica estágios 4 e 5, já tratado em Nefrologia; raquitismo e osteomalácia como doenças autônomas; e o manejo ortopédico da fratura aguda. Esses temas aparecem apenas quando mudam a interpretação da baixa massa óssea.

A atualização normativa é material: o PCDT aprovado pela Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 22/2025 e atualizado na página da Conitec em janeiro de 2026 ampliou o acesso ao romosozumabe para mulheres adultas com osteoporose grave e falha terapêutica e retirou a teriparatida do protocolo. Em junho de 2026, a Conitec não incorporou romosozumabe nem teriparatida para homens com osteoporose grave e falha terapêutica.

03

O que muda decisão

Fratura por fragilidade vale mais que um T-escore isolado

Osteoporose é perda de resistência óssea: quantidade e microarquitetura se deterioram até que um trauma incapaz de fraturar osso normal produza fratura. Na prática, uma fratura maior de baixo impacto — quadril, vértebra, úmero proximal ou rádio distal após queda da própria altura — estabelece osteoporose clínica e indica tratamento, independentemente da densidade mineral óssea. Pedir densitometria antes de tratar uma fratura típica de quadril é transformar um exame de estratificação em barreira diagnóstica.

Na mulher após a menopausa e no homem com 50 anos ou mais, a densitometria por dupla emissão de raios X usa o T-escore: osteoporose quando ≤ -2,5 desvios-padrão em coluna lombar, colo femoral, quadril total ou terço do rádio; baixa massa óssea entre -1,0 e -2,49. Em pessoas mais jovens e mulheres antes da menopausa, o Z-escore compara com idade e sexo; Z ≤ -2,0 significa abaixo do esperado para a idade, mas não autoriza automaticamente rotular osteoporose sem fratura ou causa secundária.

O rastreamento densitométrico dirigido é indicado pelo PCDT para mulheres com 65 anos ou mais, homens com 70 anos ou mais e adultos mais jovens com fatores de risco: baixo peso, fratura prévia, glicocorticoide, hipogonadismo, menopausa precoce, artrite reumatoide, doença celíaca, hiperparatireoidismo, tabagismo, álcool, quedas ou medicamentos que aceleram perda óssea. Rastreamento aleatório de toda a população não é recomendado.

FRAX estima o risco absoluto; a densitometria mede apenas uma parte

O FRAX Brasil calcula, entre 40 e 90 anos, a probabilidade em dez anos de fratura osteoporótica maior e de quadril. Idade, sexo, IMC, fratura prévia, fratura de quadril parental, tabagismo, glicocorticoide, artrite reumatoide, álcool e osteoporose secundária entram no cálculo; a densidade do colo femoral é opcional. O número só é válido no modelo brasileiro e não deve ser usado para acompanhar resposta ao tratamento.

O PCDT organiza três patamares. Risco baixo a moderado exige T-escore > -2,5, FRAX baixo e ausência de fratura. Alto risco existe com qualquer um: T-escore ≤ -2,5, baixa massa óssea com FRAX acima do limiar de intervenção ou fratura prévia. Muito alto risco aparece com fratura nos últimos 12 meses, múltiplas fraturas, fratura durante tratamento, fratura em uso de medicamento que altera metabolismo ósseo, T-escore < -3,0, FRAX muito alto ou risco de queda aumentado.

A categoria muito alto risco não é um adjetivo: ela muda a sequência. Nessa pessoa, sobretudo após fratura recente, perder meses em uma escada terapêutica pouco potente mantém aberto o período de risco iminente. A prova pode oferecer o mesmo T-escore em duas pacientes; a que fraturou recentemente ou repetidamente pertence a outra estratégia.

Antes do remédio, procure a causa que torna o tratamento ineficaz

A história deve quantificar fraturas, quedas, perda de altura, dieta, atividade física, tabagismo, álcool, menopausa, função gonadal e exposição a glicocorticoides, inibidor de aromatase, privação androgênica, anticonvulsivantes e excesso de hormônio tireoidiano. Dor dorsal aguda, cifose ou perda de altura maior que 4 cm pede radiografia lateral de coluna ou avaliação vertebral por densitometria, porque muitas fraturas vertebrais são silenciosas.

O painel inicial razoável inclui hemograma, cálcio corrigido por albumina, fósforo, creatinina/TFG, fosfatase alcalina, 25-hidroxivitamina D, PTH e TSH; o PCDT ainda lista VHS, T4 livre e cálcio urinário de 24 horas. A clínica direciona eletroforese de proteínas, sorologia para doença celíaca, testosterona matinal, cortisol ou outros exames. Fosfatase alcalina elevada, hipofosfatemia e vitamina D muito baixa levantam osteomalácia; anemia, hipercalcemia e insuficiência renal fazem pensar em mieloma.

Corrigir hipocalcemia e deficiência de vitamina D é requisito de segurança antes de antirreabsortivos potentes. Em doença renal crônica estágios 4 e 5, baixa densidade pode representar doença óssea renal de alto ou baixo remodelamento; o PCDT de osteoporose não preconiza tratamento medicamentoso padronizado e o caso deve ser individualizado com Nefrologia.

Medidas não medicamentosas tratam osso e queda ao mesmo tempo

Exercício resistido e com sustentação de peso preserva força e equilíbrio; treino de equilíbrio, revisão de psicotrópicos e anti-hipertensivos, correção visual, calçado adequado e adaptação do domicílio reduzem quedas. Repouso para proteger osso frágil faz o oposto: acelera sarcopenia, perda óssea e dependência. Proteína suficiente e cessação do tabagismo completam o núcleo.

A ingestão de cálcio deve vir preferencialmente da dieta. Quando insuficiente, suplementa-se apenas o necessário; o PCDT limita cálcio elementar a menos de 1.400 mg/dia, fracionado em doses de até 500 mg. Colecalciferol costuma ser 800 a 1.000 UI/dia ou 7.000 UI/semana; idosos podem necessitar até 2.000 UI/dia. Doses maiores são correção de deficiência, não manutenção indefinida. Cálcio e vitamina D isolados não substituem fármaco em paciente de alto risco.

Alto risco começa, em geral, com bisfosfonato

Alendronato 70 mg uma vez por semana ou risedronato 35 mg uma vez por semana são primeiras escolhas no SUS. Devem ser ingeridos em jejum, apenas com água, antes de alimento ou outro medicamento, e a pessoa permanece sentada ou em pé por 30 a 60 minutos. Hipocalcemia, gestação, incapacidade de permanecer ereta, doença esofágica que atrasa esvaziamento e depuração de creatinina abaixo de 30 mL/min contraindicam o esquema oral no PCDT.

Ácido zoledrônico 5 mg IV anual é alternativa quando há intolerância, disfagia, acalasia, estenose, refluxo importante ou absorção comprometida. Antes da infusão, verificar cálcio, vitamina D, função renal e hidratação; reação de fase aguda é comum após a primeira dose. Osteonecrose de mandíbula e fratura femoral atípica são raras, mas o risco cresce com exposição prolongada: dor nova em coxa exige imagem, e procedimento odontológico invasivo deve ser planejado sem transformar cuidado odontológico rotineiro em motivo para negar tratamento.

A reavaliação após cerca de cinco anos de bisfosfonato oral ou três anos de zoledronato decide continuidade ou pausa. Férias terapêuticas cabem apenas quando o risco caiu; fratura recente, T-escore muito baixo ou risco persistente pedem continuidade ou troca. A pausa não é abandono: quedas, novas fraturas e densidade continuam monitorados.

Muito alto risco exige pensar em sequência, não em uma droga isolada

Romosozumabe inibe esclerostina, aumenta formação e reduz reabsorção. No PCDT vigente, a indicação operacional no SUS é para mulheres adultas com osteoporose grave e falha terapêutica que preencham os critérios do protocolo. A dose é 210 mg por via subcutânea uma vez ao mês por 12 meses. Hipocalcemia deve ser corrigida; evento cardiovascular recente impede seu uso, e o risco cardiovascular global precisa ser ponderado.

O ganho produzido pelo osteoanabólico se perde se nada vier depois. Ao concluir 12 meses de romosozumabe, inicia-se antirreabsortivo sem intervalo desnecessário. O mesmo princípio vale fora do SUS para outras terapias anabólicas: construir e depois consolidar. Denosumabe também exige plano de saída, porque sua interrupção sem bisfosfonato de transição pode causar rebote de remodelamento e múltiplas fraturas vertebrais.

Em junho de 2026, romosozumabe e teriparatida não foram incorporados para homens com osteoporose grave e falha terapêutica. Em prova do SUS, essa distinção de sexo e de protocolo importa; em prova de diretriz internacional, a estratégia osteoanabólica pode aparecer mais ampla. O enunciado costuma revelar o recorte pelo termo PCDT, componente especializado ou disponibilidade no sistema público.

Coluna lombar com fratura vertebral por compressão, fêmur proximal com fratura do colo e comparação entre trabeculado normal e osteoporótico.
O T-escore mede quantidade; a imagem mostra a consequência clínica: perda de conectividade trabecular, colapso vertebral e fratura do colo femoral. Fratura por fragilidade fecha o diagnóstico mesmo sem densitometria.

Monitorar é procurar fratura, adesão e causa corrigível

A resposta não se julga por melhora da dor. Em cada retorno, verificar adesão e técnica, quedas, nova fratura, exposição a glicocorticoide, ingestão de cálcio, vitamina D e segurança renal. Densitometria no mesmo aparelho, em intervalo suficiente para superar o erro de precisão — em geral um a dois anos após iniciar ou mudar terapia — acompanha tendência, não prova isolada de eficácia.

Falha terapêutica não é qualquer oscilação de densidade. Exige adesão e técnica confirmadas, tempo adequado, exclusão de causa secundária e, conforme o protocolo, fraturas incidentes ou perda significativa persistente. Uma fratura precoce pode refletir o risco basal ainda alto; múltiplas fraturas apesar de terapia correta mudam a categoria para muito alto risco e exigem escalonamento.

04

Do diagnóstico à sequência terapêutica

A decisão começa pela fratura, passa pelo risco absoluto e termina com um plano de continuidade. A densitometria nunca deve atrasar o tratamento de uma fratura maior por fragilidade.

  1. 1HOUVE FRATURA MAIOR POR BAIXO IMPACTO? Se sim, osteoporose clínica: trate e use a densitometria para linha de base, não para autorizar o diagnóstico.
  2. 2SEM FRATURA: mulher ≥65 anos, homem ≥70 anos ou fator de risco relevante faz densitometria. T-escore ≤ -2,5 em sítio válido fecha osteoporose.
  3. 3T-ESCORE ENTRE -1 E -2,49: calcule FRAX Brasil. Acima do limiar de intervenção, o paciente entra em tratamento apesar de não alcançar -2,5.
  4. 4CLASSIFIQUE O RISCO: alto risco recebe antirreabsortivo; muito alto risco exige avaliar estratégia osteoanabólica e consolidação subsequente.
  5. 5ANTES DE PRESCREVER: cálcio, 25OHD, função renal, causas secundárias, saúde bucal quando pertinente e capacidade de usar corretamente o fármaco.
  6. 6REAVALIE: adesão, técnica, queda, fratura incidente e DMO seriada; nunca interrompa denosumabe ou finalize osteoanabólico sem terapia de transição.

Diagnóstico clínico

Fratura maior de baixo impacto: trata independentemente do T-escore.

Alto risco

T-escore ≤ -2,5, fratura prévia ou osteopenia com FRAX acima do limiar.

Muito alto risco

Fratura recente/múltipla/em tratamento, T-escore < -3,0, FRAX muito alto ou risco de queda aumentado.

Escolha inicial e pontos de segurança

CenárioEstratégiaCuidado decisivo
Alto risco, via oral possívelAlendronato 70 mg/semana ou risedronato 35 mg/semanaJejum, água, permanecer ereto; corrigir hipocalcemia e avaliar rim
Alto risco, via oral inviávelÁcido zoledrônico 5 mg IV anualFunção renal, cálcio, vitamina D, hidratação e reação de fase aguda
Muito alto risco no recorte do PCDTRomosozumabe 210 mg SC mensal por 12 mesesNão usar após evento cardiovascular recente; consolidar com antirreabsortivo
DRC estágios 4–5Não aplicar automaticamente o PCDT de osteoporoseDistinguir doença óssea renal e individualizar com Nefrologia

T-escore não é usado da mesma forma em adultos jovens; prefira Z-escore e procure causa secundária.

FRAX estima risco antes do tratamento e não serve para medir resposta.

A ausência de dor não exclui fratura vertebral.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Disponibilidade de osteoanabólico no SUS e em diretrizes internacionais

PCDT brasileiro vigente

Romosozumabe ampliado para mulheres adultas com osteoporose grave e falha terapêutica; teriparatida excluída.

Ministério da Saúde/Conitec, PCDT da Osteoporose, Portaria Conjunta nº 22/2025, atualização 29/01/2026.

Diretrizes internacionais

Estratégia osteoanabólica inicial pode ser indicada em muito alto risco, com antirreabsortivo subsequente.

Guidelines de sociedades de osteoporose e endocrinologia, conforme população e disponibilidade.

Na prova

Se a questão explicita SUS/PCDT, use o protocolo vigente: romosozumabe para mulheres adultas com osteoporose grave e falha terapêutica nos critérios definidos; teriparatida fora do protocolo e ausência de incorporação para homens em 2026. Se o enunciado cita diretriz internacional ou prática suplementar, opções anabólicas podem ser mais amplas. Em ambos os recortes, muito alto risco favorece começar por agente formador e consolidar depois.

06

Caso resolvido

Mulher de 72 anos cai da própria altura e apresenta fratura de quadril. Há dois anos teve fratura vertebral. Densitometria mostra T-escore -3,3 em coluna e -2,9 em colo femoral. Cálcio corrigido normal, 25OHD 18 ng/mL, TFG 62 mL/min/1,73 m². Usou alendronato corretamente por três anos antes da nova fratura e não teve infarto ou AVC.
diagnóstico
A fratura de quadril por baixo impacto já confirma osteoporose; densitometria não era necessária para autorizar o diagnóstico.
risco
Muito alto: fratura recente, múltiplas fraturas, fratura durante tratamento e T-escore < -3,0.
preparo
Corrigir deficiência de vitamina D, assegurar cálcio, reabilitar a fratura e reduzir quedas; revisar adesão e causas secundárias.
tratamento
No recorte do PCDT, avaliar romosozumabe 210 mg SC mensal por 12 meses, pois é mulher adulta com osteoporose grave e falha terapêutica, sem evento cardiovascular recente. Ao final, iniciar antirreabsortivo para consolidar o ganho.
07

Agora feche você

Homem de 58 anos, sem fraturas, usa prednisona 10 mg/dia há quatro meses por vasculite. T-escore -2,1 em coluna, FRAX acima do limiar de intervenção, cálcio normal e TFG 78 mL/min/1,73 m².
achado
Glicocorticoide >5 mg de prednisona por ≥3 meses, T-escore ≤ -2,0 e FRAX elevado configuram alto risco apesar de o T-escore não chegar a -2,5.
conduta
Iniciar medidas de queda, cálcio/vitamina D conforme necessidade e bisfosfonato, após excluir contraindicações; usar a menor dose eficaz de glicocorticoide e reavaliar risco e DMO.
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Onde a banca derruba

  1. 1Exigir densitometria após fratura de quadril por queda da própria altura A fratura maior por fragilidade já estabelece osteoporose clínica. A densitometria ajuda a estratificar e acompanhar, mas não deve atrasar tratamento.
  2. 2Chamar todo T-escore entre -1 e -2,49 de caso sem tratamento Osteopenia com FRAX acima do limiar de intervenção entra no grupo de alto risco e tem indicação farmacológica.
  3. 3Prescrever bisfosfonato oral sem checar a forma de tomar Tomar com café, deitar-se depois ou ter acalasia transforma um fármaco eficaz em baixa absorção e lesão esofágica.
  4. 4Dar apenas cálcio e vitamina D a quem já fraturou Suplementação corrige substrato, mas não substitui antirreabsortivo ou osteoanabólico no alto risco.
  5. 5Encerrar romosozumabe ou denosumabe sem transição O ganho ósseo precisa ser consolidado; no denosumabe, interrupção sem plano pode causar rebote e múltiplas fraturas vertebrais.
  6. 6Aplicar o algoritmo comum na DRC estágio 5 Baixa densidade pode ser doença óssea renal e os medicamentos do PCDT podem ser inadequados. O caso exige leitura conjunta de rim e metabolismo ósseo.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

A deficiência de vitamina D cursa com fraqueza proximal, maior risco de quedas e comprometimento da mineralização óssea, podendo evoluir para osteomalácia nas formas graves, o que justifica a reposição em pacientes deficientes. Esperar hipercalcemia engana quem inverte a fisiopatologia — a deficiência tende a cursar com cálcio normal ou baixo e hiperparatireoidismo secundário compensatório.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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