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Pré-diabetes: o corte decide quem tem, e o remédio só começa dez acima
Interpretar as diferentes faixas diagnósticas, estratificar risco e decidir entre mudança intensiva de estilo de vida, seguimento e metformina.
Responda antes de ler
Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.
Homem de 44 anos, assintomático, é rastreado na atenção primária. Glicemia plasmática de jejum 92 mg/dL e hemoglobina glicada 5,4%. Tem obesidade grau I, hipertensão em tratamento, dislipidemia e pai com diabetes tipo 2, somando quatro fatores de risco. Segundo a diretriz brasileira em vigor, qual é a conduta recomendada?
Como esse tema cai
O recorte é o adulto sem diagnóstico de diabetes cuja glicemia de jejum, hemoglobina glicada ou teste de tolerância à glicose cai na faixa intermediária — nem normal, nem doença. A pergunta deste capítulo não é o nome dessa faixa. É o que a faixa obriga a fazer: repetir qual exame, em quem, com que intervalo, e a partir de que número entra medicamento.
Três documentos brasileiros governam o tema e não concordam onde a faixa começa. O Caderno de Atenção Básica número trinta e seis, do Ministério da Saúde, abre a alteração em cento e dez miligramas por decilitro, citando a Organização Mundial da Saúde. O Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do diabete melito tipo dois, na versão em vigor, abre em cem — e, algumas páginas antes da própria tabela, escreve cento e um. A diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes abre em cem para nomear e exige cento e dez para prescrever. Nenhuma dessas diferenças é erro de leitura: as quatro estão escritas.
Fica de fora o que já tem dono nesta coleção. O tratamento do diabete melito tipo dois, com metas, escalonamento e o que o Sistema Único de Saúde entrega, é o primeiro capítulo desta apostila. A síndrome metabólica e as três tabelas que se confundem entre si estão no capítulo de obesidade. O diabete gestacional tem régua própria, com sobrecarga e cortes que não são estes, na apostila de pré-natal. O estadiamento do diabete tipo um por autoanticorpos é outro assunto, e mora no capítulo de insulinoterapia. Aqui fica a faixa intermediária do adulto: como ela é definida, por quem, e o que se faz com ela.
O que muda decisão
Três documentos brasileiros, três pisos para a mesma faixa
Comece pelo que está escrito, e não pelo que se decorou. O Caderno de Atenção Básica número trinta e seis, do Ministério da Saúde, define a alteração assim: pessoas com glicemia de jejum alterada, entre cento e dez e cento e vinte e cinco miligramas por decilitro, por apresentarem alta probabilidade de ter diabetes, podem requerer segunda avaliação com sobrecarga de glicose. A frase cita nominalmente a Organização Mundial da Saúde. O fluxograma do mesmo caderno é ainda mais explícito: quem tem glicemia abaixo de cento e dez sai para consulta de enfermagem e orientação de estilo de vida; quem fica entre cento e dez e cento e vinte e seis recebe pedido de sobrecarga ou de hemoglobina glicada.
O Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do diabete melito tipo dois, na versão que está em vigor, escreve outra coisa. Seu quadro de critérios diagnósticos põe a faixa entre cem e cento e vinte e cinco, com normal abaixo de cem e doença a partir de cento e vinte e seis. É a régua americana, a mesma que a Sociedade Brasileira de Diabetes usa, e a mesma que a maior parte do material de estudo repete sem dizer de onde veio.
A distância entre as duas réguas é de dez miligramas por decilitro, e não é uma sutileza de laboratório. A pessoa cuja glicemia de jejum volta em cento e cinco é normal pelo caderno do Ministério e tem pré-diabetes pelo protocolo do mesmo Ministério. Recebe orientação de enfermagem e vai embora num documento; recebe rótulo, reavaliação anual e entra numa estatística de risco no outro. Os dois documentos são federais, os dois estão publicados, e nenhum revogou o outro — protocolo revoga protocolo, e não caderno de atenção básica.
O que o estudante precisa carregar daqui não é a escolha de um dos números. É a percepção de que o piso é uma decisão de documento, e que reconhecer qual documento está em uso é anterior a qualquer conta. Quando o cenário fala em unidade básica, atenção primária e o caderno do Ministério, cento e dez é a leitura coerente. Quando fala em protocolo clínico, diretriz de sociedade ou critério diagnóstico laboratorial, cem é a leitura coerente. Trocar as duas leituras é o erro que mais custa ponto neste tema, e ele não se corrige decorando mais números: corrige-se lendo o cenário antes de olhar o resultado.
Os pontos de corte mudam a classificação
Há uma medida brasileira do tamanho desse efeito, e ela é limpa porque usa a mesma amostra de sangue duas vezes. Um estudo da Pesquisa Nacional de Saúde, com coleta entre dois mil e catorze e dois mil e quinze, dosou hemoglobina glicada em oito mil quinhentas e quarenta e uma pessoas e analisou sete mil quinhentas e quarenta e oito. Sobre esses mesmos exames, aplicou duas réguas diferentes.
Pelo critério americano, que chama de pré-diabetes a hemoglobina glicada de cinco vírgula sete a seis vírgula quatro por cento, a prevalência foi de dezoito vírgula cinco por cento. Pelo critério da Organização Mundial da Saúde, que só considera intermediária a faixa de seis a seis vírgula quatro, a prevalência foi de sete vírgula cinco por cento. Os intervalos de confiança não se tocam nem de longe. O artigo escreve a conclusão sem rodeio: o critério da Organização é mais restritivo, e a prevalência cai a menos da metade quando se troca a régua.
Ninguém adoeceu nem sarou entre uma conta e outra. Nenhuma glicemia mudou. O que mudou foi onde alguém, num comitê, decidiu pôr a linha — e mais de dez pontos percentuais da população brasileira adulta atravessaram a fronteira do diagnóstico por causa dessa decisão. Em números absolutos de país, isso é a diferença entre dezenas de milhões de pessoas rotuladas e não rotuladas, com o que vem junto: consulta de retorno, exame anual, e a percepção de estar doente.
Esse é o raciocínio que serve para a vida inteira, muito além deste tema. Quando a doença é definida por um ponto numa distribuição contínua, o corte não mede a população: ele a constrói. A pergunta clinicamente útil deixa de ser se a pessoa tem pré-diabetes e passa a ser quanto risco aquela glicemia carrega e o que se faz com esse risco. É a mesma pergunta, feita sem depender de qual comitê escreveu o documento que está sobre a mesa.
Valores limítrofes dentro do mesmo protocolo
A divergência mais fina do tema não está entre dois documentos: está dentro de um. O protocolo federal em vigor traz, na seção de rastreamento, a instrução de que aqueles com pré-diabetes — e aqui o texto escreve, com todas as letras, glicemia de jejum entre cento e um e cento e vinte e cinco miligramas por decilitro — devem receber orientação sobre mudanças nos modos de vida e ser reavaliados anualmente. Poucas páginas adiante, o quadro de critérios diagnósticos do mesmo documento põe a faixa em cem a cento e vinte e cinco, e o normal abaixo de cem.
É uma casa decimal, e ela tem dono. A pessoa cuja glicemia de jejum volta exatamente em cem é pré-diabética pelo quadro e normal pelo parágrafo. Pelo quadro, ela entra em reavaliação anual; pelo parágrafo, cai na regra do normal, que é rastreamento a cada três anos. Dois anos de diferença no relógio de retorno, decididos por uma unidade de miligrama por decilitro que o documento escreve de dois jeitos.
Vale dizer com precisão o que isso é e o que não é. Não é discordância científica: é inconsistência de redação dentro de um mesmo texto normativo, do tipo que aparece quando a seção de rastreamento e a seção de diagnóstico são escritas por mãos diferentes e não são conferidas uma contra a outra. E não é irrelevante, porque protocolo clínico é documento que se aplica ao pé da letra em auditoria e em regulação de acesso — o valor exato muda o que o sistema autoriza.
A conduta prudente diante do valor exato de cem é a que resolve nas duas leituras: tratar como faixa intermediária, orientar mudança de vida e reavaliar em um ano. Nenhuma das duas redações é violada por isso, e o paciente não perde a chance de intervenção precoce por causa de uma casa decimal. Guarde também o hábito de leitura, que serve para qualquer norma: quando um número aparece duas vezes no mesmo documento com valores diferentes, o quadro costuma valer sobre o texto corrido — é ele que a prática e a auditoria consultam.
Três exames, três populações que não coincidem
A faixa intermediária não é definida por um exame, e sim por quatro, cada um com sua própria fronteira. Glicemia de jejum, hemoglobina glicada, glicemia de duas horas após sobrecarga e, agora, glicemia de uma hora após sobrecarga. Todos têm faixa intermediária escrita na mesma tabela, e cada um encontra um conjunto diferente de pessoas.
Isso não é defeito dos testes: é consequência de medirem coisas distintas. O jejum mede a produção hepática de glicose durante a noite. A sobrecarga mede a capacidade de dar conta de uma carga oral, que depende de secreção rápida de insulina e de sensibilidade periférica. A hemoglobina glicada mede a média de meses e é a única das três que carrega os erros de quem tem anemia, hemoglobinopatia ou renovação acelerada de hemácias — situações que o próprio protocolo federal lista num quadro à parte, justamente porque quebram a correspondência entre o valor medido e a glicemia real.
A consequência prática é que um exame normal não exclui alteração em outro. É por isso que a diretriz brasileira, depois de rotular alguém como pré-diabético por jejum e hemoglobina glicada, ainda recomenda acrescentar a sobrecarga de uma hora — e não para confirmar o rótulo que já existe, mas para procurar diabetes ainda não detectado e para estratificar o risco de quem continuará sem doença.
E há a regra de confirmação, que a pressa costuma atropelar. Se apenas um exame veio alterado, ele precisa ser repetido antes de fechar diagnóstico de diabetes. Se dois exames diferentes vieram alterados na mesma amostra de sangue — jejum acima do corte e hemoglobina glicada acima do corte —, o diagnóstico está fechado sem nova coleta. Essa segunda regra é a mais esquecida, porque o candidato treinado a repetir tudo pede uma coleta que o documento dispensa, e atrasa por meses o início do tratamento de alguém que já tem doença.

Teste oral de tolerância: duas horas após a carga de glicose
Durante décadas a sobrecarga oral teve um único ponto de leitura útil: a glicemia de duas horas. A escolha vem do fim dos anos setenta, quando um grupo americano avaliou os pontos da curva e ficou com o de duas horas por reprodutibilidade e sensibilidade para diagnosticar diabetes. O detalhe que a diretriz brasileira faz questão de registrar é que essa decisão não olhou para a predição de quem viraria diabético. Os outros pontos da curva foram abandonados por outra razão que não a prognóstica.
A régua atual reabre o ponto de uma hora e lhe dá dois números: a partir de duzentos e nove miligramas por decilitro, diabetes; entre cento e cinquenta e cinco e duzentos e oito, faixa intermediária. O primeiro número veio de uma metanálise de quinze estudos, com mais de trinta e cinco mil pessoas de várias etnias, que mostrou equivalência entre duzentos e nove na primeira hora e duzentos na segunda para o diagnóstico de diabetes.
O segundo número é o interessante para este capítulo. Em coortes que acompanharam por anos, quem tinha jejum normal e sobrecarga de duas horas normal, mas cruzava cento e cinquenta e cinco na primeira hora, teve risco anual de virar diabético várias vezes maior que o de quem ficava abaixo — a ordem de grandeza medida no estudo de San Antonio foi de mais de dois por cento ao ano contra menos de meio por cento. São pessoas que a régua antiga chamava de normais e devolvia para casa sem plano nenhum.
Há ainda o argumento de tempo. A maioria dos pacientes atinge o ponto de corte primeiro na leitura de uma hora, e a antecipação medida foi de cerca de um ano para o diagnóstico de diabetes e de mais de um ano e meio para a detecção da faixa intermediária. A hora ganhou lugar por antecipar, não por substituir — e a diretriz brasileira a recomenda preferencialmente quando a sobrecarga estiver indicada, por ser mais prática e mais informativa que a leitura de duas horas.
Valor normal: quando repetir e quando ampliar a investigação
Aqui está a pergunta de conduta que mais separa quem leu de quem decorou. Duas pessoas chegam à unidade com glicemia de jejum abaixo de cem e hemoglobina glicada abaixo de cinco vírgula sete. Exames normais, os dois. A diretriz brasileira manda fazer coisas opostas com elas.
Se a pessoa tem três ou mais fatores de risco, ou escore finlandês de risco alto ou muito alto, está recomendado acrescentar a sobrecarga de uma hora para completar a investigação de diabetes e da faixa intermediária. Se a pessoa tem menos de três fatores e escore baixo a moderado, não está recomendado nenhum teste adicional — e essa recomendação vem com classe três, que é a classe do que não se deve fazer.
Repare no que decide. Não é a glicemia, que é a mesma nos dois. É a contagem de fatores de risco e o escore. A mesma folha de exames, com os mesmos números, abre um teste caro num paciente e o fecha no outro. É o oposto do reflexo mais comum na prática, que é olhar o número, ver que está normal, e encerrar a consulta ali.
Vale um cuidado de leitura que eu mesmo precisei corrigir. Lidas fora de contexto, essas duas recomendações parecem uma ordem e a sua negação sobre o mesmo paciente — uma mandando investigar e a seguinte mandando não investigar. Elas não se contradizem: a cláusula que as separa é exatamente a contagem de fatores. Sempre que duas recomendações vizinhas parecerem opostas, procure a cláusula condicional antes de chamar de contradição — em geral ela está lá, e é ela que carrega a decisão clínica.
Pré-diabetes não é indicação automática de metformina
A diretriz brasileira nomeia a faixa a partir de cem miligramas por decilitro. Quando chega a hora de falar em fármaco, o mesmo corpo de recomendações usa outro número. A metformina, associada a mudanças no estilo de vida, deve ser considerada na prevenção do diabete tipo dois em seis situações: idade abaixo de sessenta anos, obesidade com índice de massa corporal acima de trinta e cinco, história de diabete gestacional, presença de síndrome metabólica, hipertensão, ou glicemia de jejum maior que cento e dez miligramas por decilitro.
Guarde a arquitetura disso, porque ela se repete em muitos temas. O nome e a receita não usam o mesmo número. Entre cem e cento e dez existe uma faixa que é pré-diabetes pelo nome e que, isolada, não abre medicamento — abre orientação, e abre relógio de retorno.
E não é contradição. É desenho deliberado, e o motivo está no ensaio de onde a recomendação saiu: a análise de subgrupo mostrou que quem mais se beneficiou do fármaco foi justamente quem tinha índice de massa corporal acima de trinta e cinco, glicemia de jejum na faixa alta, idade abaixo de sessenta anos e síndrome metabólica. A lista das seis situações não é arbitrária: é a lista de quem respondeu. Fora dela, o ganho do comprimido encolhe até deixar de compensar o que ele custa.
Repare também no peso da recomendação, que se cobra com frequência. Mudança de estilo de vida vem como recomendada, para todas as pessoas da faixa. A metformina vem como algo que deve ser considerado, com classe dois-a e nível bê — verbo mais fraco, classe mais fraca, e uma lista de portas de entrada. O verbo, aqui, é informação clínica: ele diz que existe julgamento no meio, e não automatismo.
O que muda o desfecho não sai da farmácia
O ensaio que sustenta essa recomendação inteira comparou três braços em mais de três mil pessoas com sobrepeso e glicemia na faixa intermediária: placebo, metformina em dose plena dividida em duas tomadas, e um programa intensivo de mudança de estilo de vida. Depois de quase três anos de seguimento médio, a incidência de diabetes foi de onze casos por cem pessoas-ano no placebo, sete vírgula oito com metformina e quatro vírgula oito com o programa de estilo de vida.
Em redução relativa, isso deu cinquenta e oito por cento para o estilo de vida e trinta e um por cento para a metformina, ambos contra placebo. Traduzido para o número que importa na consulta: para evitar um caso de diabetes em três anos, foi preciso pôr cerca de sete pessoas no programa de estilo de vida, contra cerca de catorze pessoas em uso de metformina. O programa é duas vezes mais eficiente por pessoa tratada.
O seguimento observacional dessas mesmas pessoas por quinze anos temperou o quadro sem invertê-lo. A redução caiu para vinte e sete por cento no braço de estilo de vida e dezoito por cento no de metformina, ambas ainda significativas contra placebo — e a diferença entre os dois braços deixou de ser significativa. A leitura honesta é dupla: os dois funcionam a longo prazo, e a vantagem inicial do estilo de vida se estreita com o tempo.
A lição clínica é a que menos se decora e mais se cobra. A intervenção mais forte deste tema não é prescritível em receituário. Ela é feita de alimentação, atividade física e acompanhamento, exige estrutura de serviço e tempo de equipe, e é a primeira coisa que desaparece quando a consulta encurta. Trocar essa conversa pelo comprimido é trocar o que funciona melhor pelo que é mais rápido de escrever.
O PCDT federal prioriza mudança de estilo de vida
Feita a recomendação pela sociedade, resta a pergunta que decide o caso concreto na rede pública: o protocolo federal manda dar metformina para quem está na faixa intermediária? Não manda — e não porque proíba, mas porque não trata do assunto. Varrido inteiro, o protocolo em vigor não traz nenhuma passagem que ligue a metformina à prevenção do diabetes ou à faixa intermediária. O fármaco aparece no documento como primeira linha do tratamento de quem já tem a doença.
O que o protocolo escreve para essa faixa é outra coisa: orientação sobre mudanças nos modos de vida e reavaliação anual. Nenhuma linha de prescrição, nenhum limiar de glicemia que abra fármaco, nenhuma menção a prevenção medicamentosa. Não é omissão de descuido: é o escopo que o documento escolheu para si, que é o tratamento da doença estabelecida.
Essa é a mesma arquitetura que aparece em vários temas desta apostila, e vale ter o nome dela na ponta da língua. Uma coisa é o que existe como recomendação de sociedade no Brasil; outra é o que o sistema incorporou e entrega. Não são posições rivais sobre eficácia — são decisões de natureza diferente. A sociedade responde se funciona e em quem; o protocolo responde o que o sistema compra, dispensa e audita para aquela indicação.
Do lado prático, isso significa que o médico que atende na rede e decide considerar metformina para prevenção está fora da indicação escrita no protocolo, ainda que dentro de uma recomendação de diretriz brasileira. É uma decisão defensável, e que precisa ser registrada como tal, com o motivo clínico anotado em prontuário. E, do lado do estudante, significa que a resposta muda com o cenário: unidade básica com linguagem de protocolo federal pede estilo de vida e reavaliação; ambulatório de especialidade com linguagem de diretriz abre a discussão do fármaco nas situações listadas.
Risco anual e meta de perda de peso
Quando o protocolo federal escreve a meta de peso, ele usa uma faixa que costuma surpreender quem decorou o número clássico. A redução de três a sete por cento do peso inicial já melhora a glicemia e outros fatores de risco cardiovascular. Não é cinco a sete, nem sete a dez: o piso escrito é três.
O documento não para aí. Ele registra que uma redução maior que dez por cento, mantida ao longo do tempo, pode levar a benefícios mais expressivos. Ou seja: há um piso baixo, que já vale a pena e é alcançável por quase todo mundo, e um alvo alto, que muda a natureza do ganho.
Essa arquitetura de dois números é clinicamente melhor do que um alvo único, e vale explicar isso ao paciente. Um piso baixo protege a adesão: quem sai da consulta com a meta de perder três por cento — algo como dois ou três quilos para muita gente — tem uma tarefa que consegue cumprir e voltar para contar. Um alvo único e alto costuma produzir o contrário, que é a desistência silenciosa entre uma consulta e a seguinte, e o paciente que não retorna porque não cumpriu.
E há a leitura de cenário, que é direta: quando o enunciado se ancora no protocolo federal e pergunta a meta de perda de peso da faixa intermediária, o número escrito lá é a faixa de três a sete por cento. Ler o piso como cinco é o erro mais fácil de cometer neste ponto, porque cinco é o número que circula na maior parte do material de estudo e é, de fato, o piso de outras réguas. Aqui, não é o que o documento diz.
O relógio: quem volta em um ano e quem volta em três
Fechado o rótulo, sobra o item que a consulta esquece e a prova cobra: quando este paciente volta. O protocolo federal separa dois relógios. Quem tem glicemia de jejum dentro da normalidade é rastreado a cada três anos. Quem está na faixa intermediária recebe orientação de mudança de vida e é reavaliado anualmente. A diretriz brasileira diz o mesmo para a faixa intermediária, com reavaliação após doze meses.
O relógio, portanto, é a consequência prática mais concreta do rótulo — e é por ele que a briga do corte importa. Volte ao piso da primeira seção: a pessoa com glicemia de jejum de cento e cinco volta em um ano pela régua do protocolo e em três anos pela régua do caderno de atenção básica. Dois anos de diferença numa faixa em que parte das pessoas converte para diabetes a cada ano que passa.
Há um terceiro relógio, mais curto e menos lembrado, para quem tem exames normais mas carrega risco. Pessoas com exames laboratoriais normais e três ou mais fatores de risco, ou escore finlandês alto, não seguem o intervalo de três anos: são reavaliadas em prazo mais curto, e podem ainda receber a sobrecarga de uma hora antes disso. Quem tem exames normais e menos de três fatores, com escore baixo a moderado, é quem legitimamente segue o intervalo longo.
Junte tudo numa frase para levar ao plantão: o número diz o rótulo, mas quem escolhe o intervalo é a contagem de fatores. Duas pessoas com a mesma glicemia podem sair da mesma consulta com datas de retorno diferentes, e isso não é inconsistência — é a régua funcionando como deve, porque o que se está medindo não é a glicemia de hoje, e sim a velocidade com que ela vai subir.
Da glicemia ao retorno: qual régua, qual exame, qual intervalo
A questão deste tema quase nunca pede o nome da faixa. Ela entrega um valor de glicemia de jejum ou de hemoglobina glicada, um cenário (unidade básica ou ambulatório), uma contagem de fatores de risco, e cobra a conduta. Estas tabelas põem lado a lado as réguas que discordam e o que cada uma manda fazer.
- 1Identifique a régua antes da conta. Cenário de atenção primária com linguagem do caderno do Ministério trabalha com piso de 110 mg/dL; cenário de protocolo clínico ou de diretriz de sociedade trabalha com 100 mg/dL. O mesmo valor de 105 mg/dL muda de rótulo entre os dois.
- 2Aplique a regra de confirmação. Um único exame alterado exige repetição antes de fechar DM2. Dois exames alterados na mesma amostra (por exemplo, jejum ≥ 126 e HbA1c ≥ 6,5%) fecham o diagnóstico sem nova coleta.
- 3Se caiu na faixa intermediária por jejum ou HbA1c, considere acrescentar o TTGO-1h: ≥ 209 mg/dL fecha DM2 não detectado; entre 155 e 208 mg/dL estratifica risco futuro.
- 4Se os exames vieram normais, conte fatores de risco antes de dispensar. Três ou mais (ou Findrisc alto/muito alto) abre o TTGO-1h; menos de três com Findrisc baixo a moderado não abre teste adicional — é classe III.
- 5Prescreva a intervenção que tem o melhor número: mudança de estilo de vida para todos, com meta de perda de 3% a 7% do peso inicial (o PCDT registra ganho maior acima de 10%).
- 6Só então discuta metformina, e apenas nas situações listadas — entre elas glicemia de jejum > 110 mg/dL. Lembre que o PCDT do SUS não escreve essa indicação, e que quem usa metformina precisa de vigilância da vitamina B12.
- 7Marque o retorno antes de o paciente sair: 12 meses para a faixa intermediária, até 3 anos para o normal de baixo risco, e prazo encurtado para o normal com 3 ou mais fatores.
O piso muda de documento
Glicemia de jejum: o Caderno de Atenção Básica n. 36 (MS, 2013) abre a alteração em 110 mg/dL, citando a OMS/2006. O PCDT do DM2 em vigor (Portaria SCTIE/MS nº 13, de 21/02/2026) abre em 100 mg/dL no Quadro 4 — e escreve 101 mg/dL no texto de rastreamento. A SBD abre em 100. Teto igual nos três: 125 mg/dL.
Quatro exames, quatro fronteiras
Na tabela em vigor: jejum 100–125; glicemia de 1 hora no TTGO 155–208; glicemia de 2 horas no TTGO 140–199; HbA1c 5,7–6,4%. Acima disso é DM2 (126, 209, 200 e 6,5%). Um exame normal não exclui alteração em outro — eles medem coisas diferentes e encontram pessoas diferentes.
Nomear em 100, prescrever em 110
A SBD chama de pré-diabetes a partir de 100 mg/dL, mas só considera metformina a partir de 110 mg/dL (ou nas outras cinco situações: idade < 60 anos, IMC > 35, DMG prévio, síndrome metabólica, hipertensão). Classe IIa, nível B. A faixa de 100 a 110, sozinha, é rótulo sem fármaco.
O relógio sai da contagem, não do número
Glicemia normal e menos de 3 fatores de risco (Findrisc baixo/moderado): intervalo longo, sem teste adicional — classe III. Glicemia normal e 3 ou mais fatores (ou Findrisc alto/muito alto): acrescentar TTGO-1h e encurtar o retorno. Faixa intermediária: reavaliação em 12 meses.
O mesmo paciente sob as três réguas brasileiras (glicemia de jejum, mg/dL)
| Documento | Normal | Faixa intermediária | DM2 |
|---|---|---|---|
| Caderno de Atenção Básica n. 36 (MS, 2013) — cita OMS/2006 | < 110 | 110 a 125 ("glicemia de jejum alterada") | ≥ 126 |
| PCDT do DM2 — Quadro 4 (Portaria SCTIE/MS nº 13, de 21/02/2026) | < 100 | 100 a 125 ("pré-diabetes") | ≥ 126 |
| PCDT do DM2 — texto da seção de rastreamento (mesmo documento) | (implícito < 101) | 101 a 125 | — |
| Diretriz da SBD, ed. 2026 — Tabela 1 | < 100 | 100 a 125 | ≥ 126 |
Os quatro exames e suas fronteiras na régua em vigor
| Exame | Normal | Faixa intermediária | DM2 |
|---|---|---|---|
| Glicemia plasmática de jejum (mg/dL) | < 100 | 100 a 125 | ≥ 126 |
| Glicemia de 1 hora no TTGO 75 g (mg/dL) | < 155 | 155 a 208 | ≥ 209 |
| Glicemia de 2 horas no TTGO 75 g (mg/dL) | < 140 | 140 a 199 | ≥ 200 |
| Hemoglobina glicada (%) | < 5,7 | 5,7 a 6,4 | ≥ 6,5 |
| Glicemia ao acaso + sintomas (mg/dL) | — | — | ≥ 200 |
Prevenção: o que o ensaio mostrou e o que cada documento manda fazer
| Item | Estilo de vida | Metformina |
|---|---|---|
| Incidência de DM2 no ensaio (casos/100 pessoas-ano; placebo = 11,0) | 4,8 | 7,8 |
| Redução relativa em ~2,8 anos | 58% (IC 95% 48–66) | 31% (IC 95% 17–43) |
| Número necessário para tratar em 3 anos | 6,9 | 13,9 |
| Redução aos 15 anos (seguimento observacional) | 27% | 18% (diferença entre os braços p = 0,10) |
| Recomendação da SBD | RECOMENDADA para todos com pré-DM | DEVE SER CONSIDERADA em 6 situações — classe IIa, nível B |
| No PCDT do DM2 em vigor | Orientação de mudança nos modos de vida | Não há indicação escrita para prevenção |
O termo muda de documento e isso aparece no enunciado. "Glicemia de jejum alterada" e "hiperglicemia intermediária" são o vocabulário do caderno do Ministério e da OMS; "pré-diabetes" é o vocabulário da ADA e da SBD; a edição de 2024 do PCDT ainda escrevia "pré-DM2". Reconhecer o vocabulário costuma dizer qual régua está em uso antes de qualquer número.
A hemoglobina glicada é a única das réguas que se desloca por motivo hematológico. O próprio PCDT traz um quadro de situações que quebram a correspondência entre o valor e a glicemia real — anemias agudas, hemoglobinopatias e variantes de hemoglobina entre elas. Nesses casos, decidir pela glicada é decidir por um número que não está medindo o que se pensa.
A rota importa. Em 2026, o caminho do Conitec para o "PCDT DM2" servia a versão de 2024, já revogada pela Portaria SCTIE/MS nº 13; o caminho do gov.br/saude servia a versão em vigor. Ao citar um protocolo, confira o número e a data da portaria dentro do arquivo, não a URL.
As recomendações R1 e R5 da diretriz de diagnóstico aparecem com nível B no corpo do texto e nível C na tabela-resumo do mesmo documento. Não muda a conduta — as duas são classe I —, mas é bom saber que o nível citado depende de onde no documento a pessoa leu.
Onde as fontes divergem
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.
"Pessoas com glicemia de jejum alterada, entre 110 mg/dL e 125 mg/dL, por apresentarem alta probabilidade de ter diabetes, podem requerer segunda avaliação por TTG-75 g (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2006)." O fluxograma do mesmo caderno encaminha quem tem glicemia abaixo de 110 mg/dL para consulta de enfermagem e orientação de estilo de vida.
Ministério da Saúde. Cadernos de Atenção Básica n. 36 — Estratégias para o cuidado da pessoa com doença crônica: diabetes mellitus, 2013.
Quadro 4, "Critérios diagnósticos para diabete melito tipo 2 em indivíduos com idade igual ou maior a 18 anos": glicemia plasmática de jejum, normal < 100, pré-diabetes 100 a 125, DM2 ≥ 126 mg/dL.
Ministério da Saúde. PCDT do Diabete Melito Tipo 2, anexo da Portaria SCTIE/MS nº 13, de 21 de fevereiro de 2026.
Na prova
O vocabulário denuncia a régua antes do número. Enunciado que escreve "glicemia de jejum alterada" ou "hiperglicemia intermediária", e que se passa em unidade básica com fluxo de enfermagem, está trabalhando com o caderno do Ministério e com o piso de 110. Enunciado que escreve "pré-diabetes", cita critério diagnóstico laboratorial ou nomeia protocolo clínico está no piso de 100. O valor de 105 mg/dL só é ambíguo para quem não leu o cenário.
Seção de rastreamento: "aqueles com prédiabetes – glicemia de jejum entre 101 mg/dL e 125 mg/dL – devem receber orientação sobre mudanças nos modos de vida e ser reavaliados anualmente".
PCDT do Diabete Melito Tipo 2 (Portaria SCTIE/MS nº 13, de 21/02/2026), item de rastreamento, deslocamento 11.962 do texto extraído com PyMuPDF 1.28.0.
Quadro 4 do mesmo documento: normal < 100; pré-diabetes 100 a 125; DM2 ≥ 126 mg/dL.
PCDT do Diabete Melito Tipo 2 (Portaria SCTIE/MS nº 13, de 21/02/2026), Quadro 4, deslocamento 17.789 do mesmo texto extraído.
Na prova
Não é divergência entre escolas: é inconsistência de redação dentro de um texto normativo, e o único paciente que ela alcança é o que tem glicemia de jejum exatamente igual a 100 mg/dL. Enunciado que entrega esse valor exato está cobrando o quadro, que é a parte do documento que a prática e a auditoria leem. A conduta que satisfaz as duas redações — orientar e reavaliar em 12 meses — é a segura.
"R2 – O uso da metformina, associado a medidas de estilo de vida, DEVE SER CONSIDERADO na prevenção do DM2 em adultos com pré-DM nas seguintes situações: idade menor que 60 anos, obesos com IMC acima de 35 kg/m², história de diabetes gestacional, na presença de síndrome metabólica, com hipertensão ou quando a glicemia de jejum for maior que 110 mg/dL." Classe IIa, nível B.
Sociedade Brasileira de Diabetes. Tratamento farmacológico do pré-diabetes, Diretriz da SBD, ed. 2025.
Para a faixa intermediária, o documento escreve orientação sobre mudanças nos modos de vida e reavaliação anual. Varredura do texto integral não encontra nenhuma passagem ligando metformina à prevenção do DM2 ou ao pré-diabetes: o fármaco aparece como primeira linha do tratamento de quem já tem a doença.
PCDT do Diabete Melito Tipo 2 (Portaria SCTIE/MS nº 13, de 21/02/2026).
Na prova
Não é discordância sobre eficácia — é diferença entre recomendar e incorporar. O cenário do enunciado decide qual das duas responder: unidade básica com linguagem de protocolo federal cobra estilo de vida e reavaliação; ambulatório com linguagem de diretriz de sociedade abre a discussão do fármaco, e sempre nas situações listadas, nunca em toda a faixa.
No corpo do texto, R5 ("No TTGO-1h, É RECOMENDADO utilizar, como ponto de corte para diagnóstico de DM2, a glicemia maior ou igual a 209 mg/dl; e, para detecção de pré-diabetes, glicemia maior ou igual a 155 mg/dl") vem marcada como Classe I, Nível B. R1 traz a mesma marcação.
Diretriz da SBD, ed. 2026, capítulo de diagnóstico — corpo do texto (octeto 140.894 do HTML servido).
Na tabela-resumo do mesmo capítulo, lida por índice de célula, as linhas de R1 e de R5 trazem I na coluna CLASSE e C na coluna NÍVEL.
Diretriz da SBD, ed. 2026, capítulo de diagnóstico — tabela-resumo de recomendações, linhas 1 e 5.
Na prova
A classe é a mesma nos dois lugares, e é a classe que governa a conduta: fazer. O nível diverge, e serve de aviso de método — quando um enunciado cobrar "nível de evidência", o valor depende de onde no documento a resposta foi copiada, e a discussão não muda o que se faz com o paciente.
Caso resolvido
- escolha a régua antes da conta
- Passo um. O valor de 105 mg/dL cai dentro da faixa intermediária pela régua do PCDT em vigor e pela Tabela 1 da SBD, que abrem em 100 mg/dL — e ficaria abaixo do piso de 110 mg/dL do Caderno de Atenção Básica n. 36. A hemoglobina glicada, porém, resolve a ambiguidade: 5,9% está dentro de 5,7 a 6,4% em todas as réguas em discussão. Este paciente tem faixa intermediária por qualquer leitura.
- não peça repetição por reflexo
- Passo dois. A regra de repetir vale para exame único alterado quando se vai fechar diagnóstico de diabetes. Aqui há dois exames alterados e nenhum deles atinge o corte de DM2 (126 mg/dL e 6,5%). Não se está fechando diabetes: está-se rotulando a faixa intermediária, e ela não exige nova coleta para ser reconhecida.
- considere acrescentar a hora
- Passo três. Para adulto já classificado como pré-diabético por jejum e HbA1c, a diretriz recomenda acrescentar o TTGO-1h, com dois objetivos: encontrar DM2 ainda não detectado (≥ 209 mg/dL) e estratificar risco futuro (155 a 208 mg/dL). Não é para confirmar o rótulo que já existe — é para saber se há doença escondida e quão rápido este paciente está caminhando.
- prescreva o que tem o melhor número
- Passo quatro. Mudança de estilo de vida para todos, sem exceção: é a única recomendação com verbo forte neste tema, e o ensaio lhe dá 58% de redução contra 31% da metformina, com número necessário para tratar de 6,9 contra 13,9 em 3 anos. Meta de peso: 3% a 7% do peso inicial pelo PCDT — para os 94 kg deste paciente, algo entre 3 e 6,6 kg.
- decida sobre o fármaco pela lista, não pela faixa
- Passo cinco. Ele tem menos de 60 anos e tem hipertensão não tratada: duas das seis situações que abrem a consideração de metformina, classe IIa, nível B. A glicemia de 105 mg/dL, sozinha, não abriria — o corte do fármaco é 110. Se a metformina entrar, entra somada ao estilo de vida e com vigilância periódica de vitamina B12. E vale registrar em prontuário que o PCDT do SUS não escreve essa indicação: a decisão é de diretriz de sociedade.
- marque o retorno antes de ele sair
- Passo seis. Faixa intermediária tem reavaliação anual, tanto no PCDT quanto na diretriz. Independentemente disso, a hipertensão de 142x88 mmHg pede seu próprio seguimento, que corre em paralelo e não substitui o relógio glicêmico.
Agora feche você
- classifique os exames
- Diga, com os números das três réguas do capítulo, em que categoria esta glicemia e esta hemoglobina glicada caem — e se alguma das réguas discordaria das outras neste caso.
- conte antes de pedir
- Liste os fatores de risco desta paciente. Diga quantos são e para que lado a contagem a leva: acrescentar sobrecarga de 1 hora ou não pedir teste adicional. Nomeie a classe de recomendação que sustenta a sua escolha.
- escreva o intervalo
- Determine em quanto tempo ela deve repetir o rastreamento, e diga qual documento fornece esse intervalo. Explique, em uma frase, por que esse prazo não seria o mesmo se ela tivesse três fatores de risco com os mesmos exames de hoje.
- decida sobre o fármaco
- Diga se há indicação de metformina e por quê, percorrendo as seis situações da recomendação uma a uma. Deixe claro qual delas depende de um valor de glicemia e qual é o valor.
- troque um dado e refaça
- Agora suponha que a mesma paciente tivesse trazido glicemia de jejum de 107 mg/dL, mantendo todo o resto. Refaça a classificação nas três réguas, diga o que muda no intervalo de retorno e se alguma das seis situações do fármaco passa a estar preenchida.
Onde a banca derruba
- 1Tratar 100 e 110 mg/dL como se fossem a mesma régua São dois documentos federais vigentes com pisos diferentes, e a diferença de 10 mg/dL decide rótulo e intervalo de retorno. Quem decora um número só erra metade dos enunciados. O que resolve é ler o cenário e o vocabulário: "glicemia de jejum alterada" em unidade básica é a régua de 110; "pré-diabetes" em critério laboratorial é a de 100.
- 2Repetir o exame quando dois já vieram alterados na mesma coleta A regra de confirmação vale para exame único alterado. Jejum ≥ 126 mg/dL junto com HbA1c ≥ 6,5% na mesma amostra de sangue fecha o diagnóstico de DM2 sem nova coleta. Pedir repetição aqui atrasa o tratamento e é a resposta errada mais escolhida por quem estudou pela metade.
- 3Dispensar o paciente porque "os exames vieram normais" Jejum abaixo de 100 e HbA1c abaixo de 5,7% não encerram a investigação em quem tem 3 ou mais fatores de risco ou Findrisc alto: nesses, está recomendado acrescentar o TTGO-1h. Quem decide o próximo passo é a contagem de fatores, não o número normal.
- 4Pedir TTGO-1h para todo mundo com exames normais É o erro simétrico do anterior, e a diretriz o marca com classe III — a classe do que não se deve fazer. Em quem tem exames normais, menos de 3 fatores de risco e Findrisc baixo a moderado, nenhum teste adicional está indicado.
- 5Prescrever metformina para toda a faixa intermediária A recomendação é classe IIa e vem com lista fechada: idade < 60 anos, IMC > 35 kg/m², DMG prévio, síndrome metabólica, hipertensão ou glicemia de jejum > 110 mg/dL. Fora dessas situações, o fármaco não está recomendado — e em nenhuma delas ele substitui a mudança de estilo de vida, que é a recomendação de classe mais forte do tema.
- 6Anotar 5% como piso da meta de perda de peso quando a fonte é o PCDT O protocolo federal em vigor escreve 3% a 7% do peso inicial como a faixa que já melhora a glicemia, e registra ganho mais expressivo acima de 10%. O número 5 circula muito no material de estudo e é o piso de outras réguas — não é o que este documento diz.
- 7Confundir o corte de 155 com o de 140 mg/dL São horas diferentes do mesmo teste. Na glicemia de 1 hora, a faixa intermediária vai de 155 a 208 mg/dL e o DM2 começa em 209. Na de 2 horas, a faixa vai de 140 a 199 e o DM2 começa em 200. Ler o número certo na hora errada troca o rótulo do paciente.
- 8Esquecer a vitamina B12 de quem usa metformina A própria diretriz que recomenda considerar o fármaco na prevenção registra, em nota, que o uso aumenta o risco de deficiência de vitamina B12 e que as dosagens devem ser avaliadas periodicamente. Prescrever prevenção e não vigiar o efeito adverso é trocar um risco por outro.
Exames normais não encerram a investigação em quem carrega alto risco. A recomendação brasileira determina que, diante de glicemia de jejum abaixo de 100 mg/dL e hemoglobina glicada abaixo de 5,7% em pessoa com três ou mais fatores de risco ou com escore de risco alto a muito alto, seja acrescentada a sobrecarga oral com leitura de 1 hora, que detecta diabetes ainda não identificado a partir de 209 mg/dL e estratifica risco futuro entre 155 e 208 mg/dL. Encerrar a investigação é a conduta recomendada apenas para quem tem menos de três fatores e escore baixo a moderado. A prevenção farmacológica não se decide por contagem de fatores isolada e exige uma das situações listadas na recomendação específica. Dosagem de insulina e índices de resistência não fazem parte do rastreamento recomendado, e repetir só o jejum em prazo curto não corresponde a nenhuma das duas regras.
Recuperação
Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.
Mulher de 61 anos, com pré-diabetes e índice de massa corporal de 36 kg/m², está em uso de metformina há 2 anos por indicação de prevenção, associada a mudanças de estilo de vida. Retorna com queixa de parestesias em pés e sensação de marcha instável. Que investigação a própria diretriz que recomenda o fármaco orienta considerar nesse contexto?
A diretriz que recomenda considerar metformina na prevenção acompanha a recomendação de nota explícita: pacientes em uso do fármaco apresentam risco aumentado de deficiência de vitamina B12, e suas dosagens devem ser avaliadas periodicamente e tratadas quando necessário. Parestesias distais e instabilidade de marcha em usuária crônica são exatamente o quadro que motiva essa vigilância. Atribuir a queixa a neuropatia diabética não se sustenta, porque a paciente não tem diabetes — está na faixa intermediária. A disfunção tireoidiana pode causar sintomas neurológicos, mas não é o efeito adverso que a própria diretriz vincula ao fármaco. Acidose láctica cursa com quadro agudo e grave, não com parestesias crônicas, e suspender o medicamento sem investigar deixa a causa provável sem diagnóstico e sem tratamento.
Ao estudar o rastreamento de diabetes tipo 2, um residente observa que o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas em vigor descreve a faixa de pré-diabetes como "glicemia de jejum entre 101 mg/dL e 125 mg/dL" na seção de rastreamento, enquanto o quadro de critérios diagnósticos do mesmo documento registra 100 a 125 mg/dL. Diante de um paciente com glicemia de jejum de exatamente 100 mg/dL, qual conduta é a mais adequada?
A divergência é de redação dentro de um mesmo documento, e alcança exatamente um valor: 100 mg/dL. A conduta prudente é a que satisfaz as duas leituras — orientar mudança de estilo de vida e reavaliar em 12 meses —, porque nenhuma das redações é violada por isso e o paciente não perde a janela de intervenção precoce. Como regra geral, o quadro de critérios diagnósticos tende a prevalecer sobre o texto corrido, por ser a parte do documento efetivamente aplicada na prática e em auditoria; nada indica que a seção de rastreamento seja mais recente, já que ambas pertencem à mesma edição. A discrepância de uma unidade não impede classificar nem justifica sobrecarga imediata, encaminhamento a especialista ou repetição do exame com escolha do menor valor, conduta que não consta de documento algum.
Um estudo de base populacional brasileira aplicou duas definições diferentes de alteração glicêmica sobre as mesmas dosagens de hemoglobina glicada de 7.548 adultos. Pelo critério que usa a faixa de 5,7% a 6,4%, a prevalência foi de 18,5%; pelo critério que usa a faixa de 6,0% a 6,4%, foi de 7,5%. Qual é a leitura correta desse achado?
Trata-se das mesmas pessoas e das mesmas dosagens, analisadas uma única vez e reclassificadas por duas réguas. Nada mudou no sangue: mudou onde a linha do diagnóstico foi colocada, e a prevalência caiu a menos da metade. É a demonstração empírica de que, em condições definidas por um ponto de corte sobre uma distribuição contínua, o corte não descreve a população, e sim a constrói. Não há erro de aferição, já que a dosagem foi única, e a hemoglobina glicada segue sendo instrumento válido para inquéritos — o achado é sobre a definição, não sobre o exame. As duas prevalências vieram da mesma amostra, o que elimina a hipótese de populações distintas, e não existe fundamento para tomar a média entre dois critérios como estimativa da prevalência verdadeira.
Durante o rastreamento de diabetes tipo 2, um paciente realiza teste de tolerância à glicose oral com 75 g e apresenta glicemia de 178 mg/dL na primeira hora. A glicemia de jejum era de 98 mg/dL e a hemoglobina glicada, de 5,6%. Como esse resultado deve ser interpretado segundo a régua em vigor?
A leitura de 1 hora da sobrecarga tem cortes próprios, e confundi-los com os de 2 horas é a armadilha central desta questão. Na primeira hora, a faixa intermediária vai de 155 a 208 mg/dL e o diagnóstico de diabetes começa em 209 mg/dL; na segunda hora, a faixa vai de 140 a 199 mg/dL e o diabetes começa em 200 mg/dL. O valor de 178 mg/dL na primeira hora, portanto, cai na faixa intermediária, e não fecha diabetes. Aplicar a faixa de 140 a 199 a esse tempo é usar o número certo na hora errada. O caso também ilustra por que o teste foi acrescentado: jejum e hemoglobina glicada normais não excluem alteração detectável na sobrecarga, e é por isso que a leitura não é inconclusiva nem dispensável.
Homem de 55 anos, com pré-diabetes definido por glicemia de jejum de 116 mg/dL, índice de massa corporal de 37 kg/m² e hipertensão, retorna após 6 meses de orientação dietética, tendo perdido 1 kg. Considerando a diretriz brasileira de tratamento farmacológico do pré-diabetes, qual conduta se ajusta à recomendação?
A recomendação brasileira registra que o uso de metformina, associado a medidas de estilo de vida, deve ser considerado na prevenção do diabetes tipo 2 em adultos com pré-diabetes em seis situações: idade abaixo de 60 anos, índice de massa corporal acima de 35 kg/m², história de diabetes gestacional, síndrome metabólica, hipertensão, ou glicemia de jejum maior que 110 mg/dL. Este paciente preenche quatro delas. A palavra-chave é "associado": o fármaco soma-se à mudança de estilo de vida e não a substitui, já que a intervenção comportamental tem a recomendação mais forte do tema e o melhor número necessário para tratar. Adiar por mais um semestre desperdiça a janela num paciente que já preenche a indicação. O inibidor de SGLT2 não é a droga desta recomendação, e o valor de 126 mg/dL é o corte de diabetes, não o de prevenção.
No ensaio clínico que sustenta as recomendações de prevenção do diabetes tipo 2 em adultos com pré-diabetes, comparando programa intensivo de mudança de estilo de vida, metformina e placebo, qual foi o resultado observado em cerca de 2,8 anos de seguimento?
No ensaio, a incidência de diabetes foi de 11,0 casos por 100 pessoas-ano no placebo, 7,8 com metformina e 4,8 com o programa de estilo de vida, o que corresponde a reduções de 58% (IC 95% 48 a 66) para o estilo de vida e de 31% (IC 95% 17 a 43) para a metformina. O número necessário para tratar em 3 anos foi de 6,9 pessoas no programa comportamental contra 13,9 em uso do fármaco — a intervenção não medicamentosa é cerca de duas vezes mais eficiente por pessoa tratada. Inverter os percentuais entre os braços é o erro mais comum do tema. A equivalência entre as duas estratégias só aparece no seguimento observacional de 15 anos, quando as reduções caíram para 27% e 18% e a diferença entre os braços deixou de ser significativa — mas ambos permaneceram superiores ao placebo, de modo que não houve ausência de benefício nem benefício exclusivo do fármaco.
Homem de 49 anos recebe o rótulo de pré-diabetes após glicemia de jejum de 114 mg/dL. Considerando o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do diabete melito tipo 2 do Ministério da Saúde em vigor, qual é a orientação de seguimento e de meta de peso escrita nesse documento?
O protocolo federal escreve, para quem está na faixa intermediária, orientação sobre mudanças nos modos de vida e reavaliação anual, reservando o intervalo de 3 anos para quem tem glicemia de jejum dentro da normalidade. A faixa de perda de peso registrada no documento é de 3% a 7% do peso inicial como já capaz de melhorar a glicemia e outros fatores de risco cardiovascular, com o registro adicional de que perdas acima de 10% mantidas ao longo do tempo trazem benefícios mais expressivos. O piso de 5% é o número que circula na maior parte do material de estudo e pertence a outras réguas, não a esta. O mesmo protocolo não traz indicação de metformina para prevenção, e o encaminhamento a especialista não é o que ele determina para esta situação, que é de manejo na atenção primária.
Homem de 52 anos comparece à unidade básica de saúde para consulta de rotina, assintomático. Refere sedentarismo. Peso 88 kg, altura 1,72 m, PA 136x84 mmHg. Traz glicemia plasmática de jejum de 105 mg/dL, colhida com 10 horas de jejum. O médico consulta o Caderno de Atenção Básica n. 36, do Ministério da Saúde, e a enfermeira consulta o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do diabete melito tipo 2. Qual afirmação descreve corretamente o que cada documento diz sobre este valor?
Os dois documentos são federais e estão vigentes, e põem o piso da faixa intermediária em lugares diferentes. O Caderno de Atenção Básica n. 36 define glicemia de jejum alterada entre 110 e 125 mg/dL, citando a Organização Mundial da Saúde de 2006, e seu fluxograma encaminha quem tem valor abaixo de 110 mg/dL para orientação de estilo de vida. O PCDT do DM2 em vigor põe a faixa entre 100 e 125 mg/dL no seu quadro de critérios diagnósticos. O valor de 105 mg/dL cai justamente entre os dois pisos: é normal por uma régua e pré-diabetes pela outra. Nenhum dos dois considera 105 mg/dL diagnóstico de diabetes, que exige 126 mg/dL em ambos, e a inversão dos pisos entre os documentos também não corresponde ao que está escrito.
Mulher de 33 anos, eutrófica, sem comorbidades, sem história familiar de diabetes e com escore de risco calculado como baixo, traz glicemia plasmática de jejum de 89 mg/dL e hemoglobina glicada de 5,2%. Solicita ao médico que peça "a curva glicêmica, para ter certeza". Qual é a orientação correta?
Em pessoa com glicemia de jejum abaixo de 100 mg/dL, hemoglobina glicada abaixo de 5,7%, menos de três fatores de risco e escore de risco baixo a moderado, a diretriz brasileira registra que não se devem realizar testes adicionais para detecção de diabetes ou da faixa intermediária, e o faz com classe de recomendação três, que é a classe do que não deve ser feito. A conduta correta é explicar isso e manter o intervalo habitual de rastreamento. Atender ao pedido por não haver risco ignora que a recomendação é explicitamente contrária, e acrescentar peptídeo C ou automonitorização domiciliar amplia custo sem qualquer indicação neste perfil. Repetir a hemoglobina glicada em prazo curto também não corresponde ao que o documento recomenda para exames normais de baixo risco.
Homem de 63 anos, assintomático, tem glicemia plasmática de jejum de 104 mg/dL confirmada em segunda coleta e hemoglobina glicada de 5,8%. Índice de massa corporal de 27 kg/m², pressão arterial de 122x76 mmHg, sem dislipidemia e sem critérios de síndrome metabólica. Considerando a diretriz brasileira, qual é a conduta quanto ao tratamento farmacológico?
O nome e a receita não usam o mesmo número: a faixa intermediária começa em 100 mg/dL, mas o fármaco entra a partir de glicemia de jejum maior que 110 mg/dL, ou diante de idade abaixo de 60 anos, índice de massa corporal acima de 35, história de diabetes gestacional, síndrome metabólica ou hipertensão. Este paciente não preenche nenhuma dessas portas, então a conduta é mudança de estilo de vida com reavaliação em 12 meses. A hemoglobina glicada na faixa intermediária e o índice de massa corporal acima de 25 sustentam o rótulo, não a prescrição. E devolver ao intervalo de três anos é o relógio de quem tem exames normais, o que não é o caso.
Mulher de 44 anos, IMC 29 kg/m2, assintomatica, com glicemia de jejum de 113 mg/dL confirmada e HbA1c 5,9%. Sem diabetes gestacional previo. Alem da mudanca intensiva de estilo de vida, qual a conduta farmacologica mais adequada?
No pre-diabetes o corte de 100 mg/dL define quem TEM a condicao, mas a indicacao de metformina se concentra no subgrupo de maior risco - glicemia de jejum a partir de 110 mg/dL, HbA1c a partir de 6,0%, IMC alto, idade abaixo de 60 anos ou diabetes gestacional previo. Dizer que nenhum farmaco tem papel engana porque a mudanca de estilo de vida realmente supera a metformina na media dos estudos, mas nao anula o beneficio dela nesse recorte de risco. Sulfonilureia, inibidor de SGLT2 e insulina nao tem indicacao formal para pre-diabetes e expoem o paciente a hipoglicemia ou custo sem desfecho comprovado.
Mulher de 50 anos com sindrome metabolica apresenta HbA1c de 6,1% e glicemia de jejum de 116 mg/dL. Qual a classificacao e a conduta?
Glicemia de jejum entre 100 e 125 mg/dL e HbA1c entre 5,7% e 6,4% definem pre-diabetes, e a intervencao com maior beneficio e a mudanca estruturada de estilo de vida, com meta de perda de 7% do peso - o Diabetes Prevention Program mostrou reducao de cerca de 58% na progressao para diabetes. Chamar de diabetes engana quem confunde os cortes: seria preciso glicemia de jejum a partir de 126 mg/dL ou HbA1c a partir de 6,5%. Nao intervir ate 6,5% desperdica exatamente a janela em que a prevencao funciona.
Homem de 47 anos, índice de massa corporal de 36 kg/m², assintomático, apresenta glicemia de jejum de 114 mg/dL confirmada em segunda dosagem e hemoglobina glicada de 6,1%. Qual a classificação e a conduta?
Glicemia de jejum entre cem e cento e vinte e cinco, ou glicada entre cinco vírgula sete e seis vírgula quatro por cento, define pré-diabetes, condição em que a mudança de estilo de vida é a intervenção com melhor evidência de prevenção da progressão. A metformina entra como adjuvante em perfis de maior risco, como obesidade acentuada, idade mais jovem e glicada próxima ao limite superior, exatamente o caso descrito. Interpretar esses valores como diabetes estabelecido é o erro que leva a tratamento farmacológico completo sem indicação.
Mulher de 48 anos, com IMC de 31 kg/m2 e pre-diabetes (glicemia de jejum de 112 mg/dL, HbA1c de 6,1%). A intervencao com maior reducao comprovada na incidencia de diabetes tipo 2 e:
Os grandes estudos de prevencao mostraram que o programa intensivo de estilo de vida, com meta de perda modesta de peso e 150 minutos semanais de atividade, reduz a incidencia de diabetes mais que a metformina isolada. A metformina engana por ser eficaz e barata — e tem papel, sobretudo em pessoas mais jovens, com IMC mais alto ou glicada mais elevada —, mas nao supera a mudanca de estilo de vida no conjunto. Suplementos nao tem eficacia demonstrada nesse desfecho.
Homem de 44 anos, IMC 31 kg/m², sedentário, com pai diabético, realiza exames na Unidade Básica de Saúde: glicemia de jejum 112 mg/dL e hemoglobina glicada 6,0%. Assintomático, sem poliúria ou perda de peso. PA 130x84 mmHg. Nunca fez tratamento. Deseja saber se tem diabetes e o que fazer. Qual é a interpretação e a conduta corretas?
Glicemia de jejum entre 100 e 125 mg/dL e hemoglobina glicada entre 5,7% e 6,4% definem pré-diabetes, cuja intervenção de maior impacto é a mudança de estilo de vida estruturada, com reavaliação periódica. Os valores estão abaixo dos pontos de corte diagnósticos de diabetes, o que afasta a confirmação da doença. Considerar normais ignora o risco aumentado de progressão. O teste de tolerância pode complementar a estratificação, mas não se destina a excluir diabetes tipo 1, cuja apresentação clínica é distinta.
Homem de 46 anos, com índice de massa corporal de 31 kg/m² e circunferência abdominal de 106 cm, comparece à Unidade Básica de Saúde para consulta de rotina. É sedentário e tem pai com diabetes tipo 2. Está assintomático, sem poliúria, polidipsia ou perda ponderal. Ao exame, pressão arterial de 136 x 86 mmHg, acantose nigricans cervical discreta e restante sem alterações. Glicemia de jejum de 112 mg/dL em duas ocasiões e hemoglobina glicada de 6,0%. A conduta mais adequada é:
Glicemia de jejum entre 100 e 125 mg/dL e hemoglobina glicada entre 5,7% e 6,4% definem pré-diabetes, condição em que a intervenção com maior evidência é o programa estruturado de mudança de estilo de vida, com perda de peso e atividade física regular, capaz de reduzir de forma significativa a progressão para diabetes; a metformina é opção em subgrupos de maior risco. Insulina não tem indicação nessa fase. Não intervir desperdiça a janela de prevenção. Repetir exames anualmente sem orientação alguma não modifica o risco.
Mulher, 52 anos, assintomática, comparece à UBS para avaliação de rotina. Sedentária, IMC 31 kg/m². Não fuma. PA 128/80 mmHg. Traz exames: glicemia de jejum 118 mg/dL (VR < 100) colhida há duas semanas e, hoje, nova glicemia de jejum de 121 mg/dL (VR < 100). Hemoglobina glicada 6,3% (VR < 5,7). Qual a conclusão diagnóstica correta?
Os valores de 118 e 121 mg/dL situam-se na faixa de 100 a 125 mg/dL, que define glicemia de jejum alterada, e a glicada de 6,3% está entre 5,7% e 6,4%, também faixa de pré-diabetes; nenhum dos dois atinge os cortes diagnósticos de diabetes. Afirmar diabetes por duas glicemias de jejum alteradas confunde repetição do exame com o corte, que é de 126 mg/dL ou mais, não atingido em nenhuma das coletas. Exigir teste oral de tolerância à glicose para confirmar pré-diabetes inverte a lógica: o teste é opcional para estratificar risco, e o diagnóstico de pré-diabetes já está feito. Usar 6,0% como corte de diabetes cria um valor inexistente nas diretrizes, que fixam 6,5%. Considerar o quadro normal ignora que a glicemia de jejum acima de 100 mg/dL já é alteração metabólica e indica intervenção em estilo de vida com reavaliação anual.
Mulher, 47 anos, assintomática, com história familiar de diabetes tipo 2 em ambos os pais. Sedentária. IMC 31 kg/m², circunferência abdominal 96 cm. PA 132x84 mmHg, FC 76 bpm. Exames em duas ocasiões: glicemia de jejum 112 e 116 mg/dL (VR < 100); HbA1c 6,1% (VR < 5,7); teste oral de tolerância com glicemia de 2 horas de 158 mg/dL (VR < 140). Perfil lipídico e função renal normais. Assinale a conduta.
O quadro é de pré-diabetes, com glicemia de jejum alterada, HbA1c de 6,1% e tolerância diminuída à glicose, e a recomendação é mudança de estilo de vida associada a metformina, indicada sobretudo em pessoas com menos de 60 anos e IMC igual ou superior a 35, ou com múltiplos fatores de risco como os apresentados. A insulina basal não tem indicação na prevenção e expõe a hipoglicemia e ganho de peso. A glibenclamida também não é usada em pré-diabetes, pelo mesmo motivo. Restringir a conduta a reavaliação anual desperdiça a janela de prevenção em paciente de alto risco. A acarbose tem evidência menos robusta e pior tolerância, não sendo primeira escolha.
Qual exame está sujeito à renovação das hemácias?

A vida média eritrocitária influencia hemoglobina glicada.
Qual intervenção é coerente com prevenção, sem depender só de medicamento?

Mudanças de estilo de vida e fatores de risco integram prevenção individualizada.
A glicemia de jejum está em qual faixa pela classificação ADA?

Na classificação ADA, 100 a 125 mg/dL corresponde a glicemia de jejum alterada.
Como interpretar o conjunto sem superestimar a HbA1c?

Interferentes hematológicos e critérios glicêmicos precisam ser integrados.
Se um teste posterior atingir faixa diagnóstica em pessoa assintomática, qual princípio é necessário?

Na ausência de hiperglicemia inequívoca, confirmação laboratorial adequada evita classificação errada.
Um adulto desenvolve ganho ponderal e glicemias na faixa de pré-diabetes após mudança de tratamento psiquiátrico. Qual grupo de medicamentos merece revisão conjunta com a equipe assistente por poder contribuir para esse risco metabólico?
A revisão não significa interromper abruptamente um tratamento eficaz. Deve integrar indicação, alternativas, risco metabólico e monitorização. Referências: NIDDK/NIH. Insulin resistance and prediabetes. Consultado em 23/09/2026 — https://www.niddk.nih.gov/health-information/diabetes/overview/what-is-diabetes/prediabetes-insulin-resistance
Ao explicar a evolução para pré-diabetes, o médico descreve que músculo, fígado e tecido adiposo respondem menos à insulina. Inicialmente, a glicemia pode permanecer normal. Qual resposta fisiológica ajuda a explicar essa fase?
A disglucemia aparece quando a compensação deixa de sustentar a homeostase; resistência e falência secretória não são fenômenos idênticos. Referências: NIDDK/NIH. Insulin resistance and prediabetes. Consultado em 23/09/2026 — https://www.niddk.nih.gov/health-information/diabetes/overview/what-is-diabetes/prediabetes-insulin-resistance
Uma UBS pretende implementar intervenção inspirada no DPP. Já oferece uma folha com metas de peso e exercício em consulta única. Qual componente deve ser acrescentado para se aproximar do modelo comportamental estudado?
Conhecer a meta não equivale a receber ajuda para alcançá-la. A organização do acompanhamento é parte ativa da intervenção preventiva. Referências: NIDDK/NIH. Diabetes Prevention Program: desenho da intervenção e seguimento. Consultado em 23/09/2026 — https://www.niddk.nih.gov/about-niddk/research-areas/diabetes/diabetes-prevention-program-dpp
Um adulto fará teste oral de tolerância à glicose com 75 g para investigar disglucemia. Decide restringir fortemente carboidratos nos três dias anteriores para melhorar o resultado. Qual orientação de preparo está correta, segundo o NIDDK?
O objetivo do teste é obter uma medida interpretável, não baixar artificialmente o resultado. Dieta e jejum devem seguir instruções padronizadas. Referências: NIDDK/NIH. Diabetes and prediabetes tests: orientação para profissionais. Consultado em 23/09/2026 — https://www.niddk.nih.gov/health-information/professionals/clinical-tools-patient-management/diabetes/diabetes-prediabetes
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em 7 dias
Recite, sem consultar, a tabela dos quatro exames com as três colunas: jejum, glicemia de 1 hora, glicemia de 2 horas e hemoglobina glicada, cada um com normal, faixa intermediária e DM2. Depois diga, em uma frase, onde o Caderno de Atenção Básica n. 36 põe o piso do jejum e por que ele difere do PCDT. Por fim, liste as seis situações em que a metformina deve ser considerada na prevenção — e diga qual delas é um número de glicemia.
em 30 dias
Refaça de memória as três decisões que dependem da contagem de fatores de risco e não do valor da glicemia: quem, com exames normais, recebe TTGO-1h; quem, com exames normais, não recebe teste nenhum; e como isso muda o intervalo de retorno. Em seguida, reconstrua o quadro do ensaio de prevenção — incidência nos três braços, redução relativa e número necessário para tratar em 3 anos — e explique, em duas frases, por que a intervenção com o melhor número é a que não se escreve em receituário.
Agora atenda
Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.
Numa manhã de unidade básica, treine a sequência que este capítulo desenha e que a consulta curta atropela. Diante de um resultado de glicemia de jejum na faixa de 100 a 125 mg/dL, faça na ordem: identifique qual documento o cenário está usando antes de rotular; verifique se há um segundo exame alterado na mesma coleta, que dispensaria repetição; conte os fatores de risco em voz alta, porque é a contagem, e não a glicemia, que decide se entra sobrecarga e qual é o intervalo de retorno; prescreva a mudança de estilo de vida com meta numérica de peso antes de discutir qualquer comprimido; e só então avalie as seis situações que abrem a metformina. Termine escrevendo no prontuário a data do próximo exame — se ela não estiver escrita, a conduta não terminou. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.
