Outras EspecialidadesEpidemiologia e bioestatística

Tipos de estudo epidemiológico

Reconhecer o desenho e escolher a medida possível

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Em epidemiologia, o desenho de estudo influencia a força da evidência. Um pesquisador acompanha, ao longo de dez anos, um grupo de tabagistas e um grupo de não tabagistas, inicialmente sem a doença, para verificar a incidência de câncer de pulmão em cada grupo. Qual é o desenho de estudo descrito?

02

Como esse tema cai

Este é um dos temas mais rentáveis de Medicina Preventiva porque a prova o cobra sempre do mesmo jeito. Ou o enunciado descreve um estudo em quatro linhas e pede o nome do desenho, ou dá o nome e pergunta qual medida de associação sai dali, ou — a versão mais frequente — descreve o estudo e coloca nas alternativas uma medida que aquele desenho é incapaz de produzir. Quem decora definições erra; quem sabe o ponto de partida de cada desenho acerta sem hesitar.

Quatro perguntas resolvem qualquer vinheta: quem decidiu a exposição, existe grupo de comparação, qual é a unidade de análise e para que lado aponta a seta do tempo. Elas separam experimental de observacional, analítico de descritivo, individual de agregado, e coorte de caso-controle de transversal. O resto do capítulo é o detalhe de cada um e o que cada um perde.

Há ainda dois pedaços brasileiros que caem com nome e sobrenome. O primeiro é a investigação de surto, em que o Ministério da Saúde diz por escrito quando usar coorte e quando usar caso-controle no campo, com taxa de ataque e odds ratio. O segundo é a régua ética do ensaio clínico, que mudou de patamar em 2024: a Lei nº 14.874 é lei federal e está acima, na hierarquia das normas, da Resolução CNS nº 466/2012, que até então governava sozinha o assunto — e as duas dizem coisas diferentes sobre o que acontece com o participante depois que o estudo acaba.

03

O que muda decisão

Quatro perguntas que classificam qualquer estudo

A primeira pergunta é quem decidiu a exposição. Se foi o investigador — ele sorteou quem recebe o medicamento, quem recebe o comparador, quem entra no programa —, o estudo é experimental ou de intervenção. Se a exposição foi decidida pela vida do participante (ele fuma, ele mora perto da fábrica, ele nasceu com aquele genótipo) e o pesquisador apenas observou e registrou, o estudo é observacional. Nenhuma outra característica muda essa classificação: ensaio comunitário sem cegamento continua experimental, e coorte com 40 anos de seguimento continua observacional.

A segunda pergunta é se existe grupo de comparação. Sem ele, o estudo é descritivo: relato de caso, série de casos, descrição de pessoa-tempo-lugar de um surto. Descritivo gera hipótese, descreve o quadro, alerta para o inesperado — e não mede associação, porque não há com o que comparar. Com grupo de comparação, o estudo é analítico e passa a produzir medida de associação.

A terceira pergunta é qual a unidade de análise. Se cada linha do banco de dados é uma pessoa, o estudo é individual. Se cada linha é um município, um estado, um ano ou uma escola, o estudo é ecológico (agregado) — e tudo o que ele mede vale para o grupo, nunca para o indivíduo.

A quarta pergunta é a direção da seta no tempo, e é ela que separa os três desenhos observacionais analíticos. A coorte parte da exposição e caminha para o desfecho: primeiro classifica em expostos e não expostos, depois conta quem adoeceu. O caso-controle parte do desfecho e volta para a exposição: primeiro recruta doentes e não doentes, depois pergunta quem se expôs. O transversal corta o tempo num instante só e mede exposição e desfecho na mesma entrevista, sem seta.

Guarde essa quarta pergunta com cuidado, porque nela mora o erro mais cobrado da matéria. O que define coorte não é o pesquisador estar olhando para a frente: é o estudo partir da exposição. Uma coorte histórica reconstruída a partir de prontuários de 2010 continua sendo coorte, mesmo que toda a coleta aconteça hoje.

Três faixas horizontais comparando a direção no tempo da coorte, do caso-controle e do estudo transversal.
A direção da seta é o que separa os três desenhos observacionais: a coorte anda da exposição para o desfecho, o caso-controle volta do desfecho para a exposição, e o transversal corta o tempo num instante só.

Transversal: a fotografia

No estudo transversal (seccional, ou de prevalência) exposição e desfecho são medidos ao mesmo tempo, numa amostra da população. É o desenho dos inquéritos: uma equipe visita domicílios sorteados, aplica o questionário e mede a pressão, tudo na mesma visita. É rápido, é barato, dispensa seguimento e serve para planejar serviço — quantos hipertensos existem no território, quantos sabem que são, quantos estão controlados. Os grandes inquéritos brasileiros de saúde, como a Pesquisa Nacional de Saúde e o Vigitel, são transversais repetidos: cada rodada é uma fotografia nova, não o seguimento das mesmas pessoas.

A medida natural do transversal é a prevalência, e a medida de associação é a razão de prevalências: prevalência do desfecho entre expostos dividida pela prevalência entre não expostos. Nada impede o cálculo de uma odds ratio a partir da mesma tabela 2x2, e é justamente aí que a leitura desanda. A odds ratio superestima a razão de prevalências, e o erro cresce com a frequência do desfecho. No estudo brasileiro que comparou os métodos, a odds ratio ficou cerca de 13% acima da razão de prevalências num desfecho com 5,1% de prevalência, cerca do dobro num desfecho com 37,8% e cerca de quatro vezes num desfecho com 53,8%.

Esses três números resolvem uma pergunta que costuma ficar em aberto: a partir de que frequência a odds ratio deixa de aproximar a medida de risco? A régua deste capítulo é 10% — abaixo disso a distorção é pequena o bastante para não mudar decisão, e mesmo assim ela já existe, como mostram os 13% de excesso numa prevalência de 5,1%. Acima de 10%, ler odds ratio como se fosse risco é erro de interpretação, não arredondamento. Para estimar razão de prevalências sem esse desvio, os autores concluíram que as regressões de Cox e de Poisson com variância robusta são melhores alternativas que a logística; a log-binomial, que estimaria a razão diretamente, falha em convergir justamente quando a prevalência é alta e há covariável contínua no modelo.

O calcanhar do transversal é a temporalidade. Como tudo é medido junto, o estudo não sabe o que veio antes. Se sedentários têm mais dor lombar, pode ser que o sedentarismo cause a dor ou que a dor tenha imposto o sedentarismo — causalidade reversa. Há ainda um segundo problema, mais sutil: a fotografia encontra preferencialmente os casos de longa duração. Doença que mata rápido ou que cura rápido tem menos chance de estar ali no dia da entrevista, e o retrato da doença fica enviesado para as formas arrastadas. É o viés de prevalência-incidência, também chamado de viés de Neyman.

Duas confusões clássicas fecham a seção. Transversal repetido não é coorte: são amostras novas a cada rodada, e a comparação é entre populações, não entre as mesmas pessoas. E um transversal, por maior que seja, jamais produz incidência — incidência exige acompanhar quem estava sadio ao longo do tempo.

Coorte: da exposição para o desfecho

A coorte parte de um grupo inicialmente sadio quanto ao desfecho, classifica cada pessoa segundo a exposição e acompanha para ver quem adoece. É o desenho observacional que mais se aproxima do experimento: como a exposição é medida antes do desfecho, a temporalidade fica estabelecida, e essa é a razão de ela ocupar o degrau mais alto entre os observacionais.

Ela é o único desenho observacional que entrega incidência: incidência acumulada (risco) quando o denominador é o número de pessoas seguidas, e densidade de incidência quando o denominador é pessoa-tempo. Daí saem risco relativo (razão entre a incidência nos expostos e nos não expostos), risco atribuível nos expostos (diferença entre as duas incidências, que é o que se evitaria removendo a exposição) e fração atribuível.

Coorte prospectiva ou concorrente: o pesquisador define a coorte hoje e espera o desfecho acontecer. Coorte histórica, retrospectiva ou não concorrente: a exposição já está registrada em prontuários, fichas de admissão, registros de trabalho, e o pesquisador reconstrói o seguimento até o presente. As duas partem da exposição, e as duas são coorte — o que muda é o custo, o tempo e a qualidade do dado de exposição, que na histórica é o que alguém anotou por outro motivo.

A coorte brilha quando a exposição é rara (é possível recrutar propositalmente os expostos — trabalhadores de uma indústria, moradores de uma área contaminada) e quando um mesmo fator pode causar vários desfechos, porque o seguimento captura todos de uma vez. E ela é péssima escolha quando a doença é rara ou tem latência longa: seriam necessárias dezenas de milhares de pessoas e anos de espera para juntar casos suficientes.

O viés característico é a perda de seguimento. Perda que acontece por igual nos dois grupos rouba poder; perda diferencial — quem estava passando mal abandonou mais no grupo exposto — distorce a medida e não se conserta na análise. Some-se a isso o viés de aferição quando quem mede o desfecho sabe a que grupo a pessoa pertence, motivo pelo qual boa coorte cega o avaliador do desfecho sempre que possível.

Caso-controle: do desfecho para a exposição

O caso-controle recruta pessoas que têm a doença (casos) e pessoas que não a têm (controles), e pergunta a ambos sobre exposições passadas. Cada grupo é então subdividido em expostos e não expostos, e a comparação é entre a proporção de expostos entre os casos e a proporção de expostos entre os controles. Parte-se do doente para chegar à exposição — a seta anda para trás.

Como o investigador escolheu quantos doentes e quantos sadios recrutar, a proporção de doentes na amostra é artificial. Consequência direta e muito cobrada: o caso-controle não permite calcular incidência nem prevalência da doença. A medida que ele entrega é a odds ratio, calculada da tabela 2x2 como a razão entre a chance de exposição dos casos e a chance de exposição dos controles. Odds ratio igual a 1 indica ausência de associação; maior que 1, associação com a doença, e quanto maior, mais forte; menor que 1, fator protetor. A leitura correta é em chance de exposição: os doentes tiveram 2,5 vezes mais chance de terem sido expostos à fonte suspeita do que os controles.

O desenho é a escolha certa para doença rara e para latência longa, porque começa pelos casos, que são exatamente o recurso escasso. Ele também aceita investigar muitas exposições ao mesmo tempo para um único desfecho — o inverso da coorte, que investiga uma exposição e muitos desfechos.

O ponto frágil é a seleção dos controles, e o critério do Ministério da Saúde para investigação de campo vale como regra geral: o controle não pode ter a doença, e tem de vir da mesma população, da mesma área de procedência e do mesmo período dos casos — em uma frase, tem de ter tido a mesma chance de ter sido caso. Vizinhos do caso e pacientes hospitalizados por outros motivos são as opções mais usadas. Controle escolhido em população diferente da que gerou os casos produz viés de seleção que nenhum ajuste estatístico desfaz.

O segundo ponto frágil é o viés de memória: quem adoeceu revisita a própria história atrás de explicação e lembra melhor das exposições do que quem está bem. É por isso que exposição documentada (prontuário, registro de dispensação, folha de ponto) vale mais que exposição relatada, e é por isso que o caso-controle aninhado numa coorte é tão superior — os controles saem da própria coorte, a base populacional é conhecida e a exposição foi registrada antes de qualquer um adoecer.

Sobre o número de controles: em surtos pequenos, de 2 a 4 controles por caso. Acima disso o esforço de campo cresce sem ganho relevante de poder estatístico.

Ecológico, relato e série de casos

No estudo ecológico a unidade de análise é o grupo: correlaciona-se a cobertura vacinal de cada município com a incidência da doença naquele município, ou o consumo médio de sal por país com a mortalidade por doença cerebrovascular. É barato, usa dados que já existem em sistemas de informação e serve para gerar hipótese quando o dado individual não está disponível.

O limite tem nome: falácia ecológica. Da associação entre médias de grupos não se conclui nada sobre indivíduos. Municípios com maior consumo médio de sal podem ter maior mortalidade sem que sejam as pessoas que consomem mais sal as que estão morrendo — a associação pode estar inteiramente explicada por outra característica do município. Sempre que a alternativa transforma um achado agregado em conselho para o paciente, a armadilha está posta.

Relato de caso e série de casos descrevem um ou poucos doentes sem grupo de comparação. São o primeiro sinal de um problema novo — foi assim que reações adversas raras e doenças emergentes apareceram na literatura — e não medem associação nem risco. Numa investigação de surto, a fase descritiva de pessoa, tempo e lugar cumpre exatamente esse papel: organiza os fatos e levanta as hipóteses que a fase analítica vai testar.

Ensaio clínico randomizado

No ensaio clínico o investigador aloca a intervenção, e a alocação é sorteada. A randomização é a única ferramenta metodológica que distribui entre os grupos tanto os confundidores conhecidos quanto os que ninguém mediu nem imaginou — nenhum ajuste estatístico em estudo observacional faz isso. É essa propriedade, e não o tamanho da amostra, que coloca o ensaio no topo da hierarquia de desenhos.

Duas proteções costumam ser confundidas. O sigilo de alocação impede que quem recruta saiba qual será o próximo grupo sorteado, e atua antes da entrada do participante — sem ele, o recrutador seleciona quem entra em cada braço e a randomização vira enfeite. O cegamento impede que participante, equipe assistente ou avaliador do desfecho saibam a alocação depois que ela ocorreu, e protege a aferição do desfecho e o manejo clínico. Estudo em que a intervenção é uma cirurgia pode ser impossível de cegar e ainda assim ter sigilo de alocação impecável.

A análise por intenção de tratar mantém cada participante no grupo em que foi sorteado, mesmo que ele tenha trocado de tratamento ou abandonado. É ela que preserva o que a randomização comprou. A análise por protocolo considera só quem cumpriu o tratamento como previsto e, ao excluir os desviantes, desfaz a comparabilidade dos grupos — quem abandona costuma abandonar por motivo ligado ao desfecho. Em ensaio de superioridade, a intenção de tratar puxa o resultado na direção da ausência de diferença e por isso é a análise conservadora. Em ensaio de não inferioridade essa mesma tendência trabalha a favor da conclusão desejada pelo patrocinador, e é por isso que se exigem as duas análises concordando.

As fases têm perguntas diferentes: a I investiga segurança e dose tolerada, tipicamente em voluntários sadios (em oncologia, em doentes, pela toxicidade dos produtos); a II procura efeito biológico e dose eficaz em doentes selecionados; a III compara com o tratamento existente ou com placebo, em muitos centros, no desfecho que importa clinicamente; a IV acompanha o produto depois do registro, quando a população que usa é grande e heterogênea o bastante para revelar eventos raros. Variações que a prova cita pelo nome: cruzado, em que o mesmo participante recebe as duas intervenções em sequência; fatorial, que testa duas intervenções e a combinação delas; e por conglomerados, em que a unidade sorteada é a UBS, a escola ou o município inteiro — nesse caso, a análise tem de respeitar o agrupamento, porque pessoas do mesmo conglomerado se parecem entre si.

A régua ética brasileira mudou de patamar em 2024 e cai em prova de preventiva e de bioética. A Lei nº 14.874/2024 define ensaio clínico como pesquisa clínica experimental em seres humanos para avaliar segurança, desempenho clínico ou eficácia de dispositivo médico, medicamento experimental ou terapia avançada, e define placebo como formulação sem efeito farmacológico ou procedimento simulado usado em grupo-controle. O art. 21 admite o uso exclusivo de placebo apenas quando inexistem métodos comprovados de profilaxia, diagnóstico ou tratamento e os riscos não superam os benefícios; o parágrafo único acrescenta que o participante não pode ser privado de receber o melhor tratamento disponível, ou o preconizado nos Protocolos Clínicos e Diretrizes Terapêuticas do Ministério da Saúde, e subsidiariamente o de protocolos de sociedades médicas da área.

A mesma lei fixa prazos que também caem: a análise ética não passa de 30 dias úteis, com triagem documental em até 10 dias úteis (art. 14), e cai para 15 dias úteis quando a pesquisa é de interesse estratégico para o SUS (art. 15). E ela cria o plano de acesso pós-estudo, submetido ao comitê antes de a pesquisa começar (art. 30), com fornecimento gratuito quando o produto for a melhor terapia para aquele participante (art. 31, § 2º) e hipóteses expressas de interrupção do fornecimento (art. 33) — entre elas a cura, a existência de alternativa terapêutica, a ausência de benefício, a reação adversa e a incorporação do produto na rede pública. A lei entrou em vigor 90 dias depois da publicação, de 29 de maio de 2024.

No campo: escolher o desenho numa investigação de surto

Esta é a aplicação mais brasileira do tema, e o Ministério da Saúde escreveu o critério em duas frases. Coorte quando o grupo é pequeno e a população, bem definida — festa, casamento, congresso, escola, enfermaria —, situação em que existe lista nominal de todos os envolvidos e as exposições são conhecidas, de modo que dá para perguntar quem consumiu o quê e quem adoeceu. Caso-controle quando a população não é bem definida, quando os casos estão dispersos, quando o número de envolvidos é grande demais para enumerar ou quando a doença é rara — situação em que a coorte simplesmente não é viável.

Na coorte de surto, o cálculo é a taxa de ataque, item a item do cardápio. Taxa de ataque nos expostos é o número de pessoas expostas ao fator que adoeceram dividido pelo total de expostos, vezes 100; nos não expostos, o mesmo com o denominador dos que não se expuseram. O risco relativo é a divisão da taxa de ataque dos expostos pela dos não expostos, e é a partir dele que se estabelece a fonte do surto. O alimento suspeito combina três sinais: taxa de ataque alta entre quem comeu, taxa baixa entre quem não comeu e risco relativo bem acima de 1.

No caso-controle de surto, a medida é a odds ratio, os controles vêm da mesma área e do mesmo período dos casos, e a proporção usual é de 2 a 4 controles por caso. Note a assimetria que a prova adora: como a proporção de doentes foi decidida por quem desenhou o estudo, não existe coeficiente de incidência nem taxa de ataque nesse desenho.

Vale registrar uma tensão dentro do próprio guia, porque ela aparece em questão. O documento afirma que o estudo mais utilizado em investigações de surtos de doenças transmissíveis é o caso-controle — o que descreve a realidade da vigilância, em que a maioria dos surtos chega com casos dispersos e sem lista de expostos — e, algumas páginas adiante, manda usar a coorte sempre que a população for enumerável. As duas coisas convivem: a frequência maior do caso-controle é uma consequência de como os surtos costumam chegar, não um critério de escolha. Quando o enunciado entrega a lista de convidados, o critério operacional vale, e o desenho é a coorte retrospectiva.

04

Do enunciado ao desenho, e do desenho à medida

A vinheta de prova sempre entrega os quatro sinais, mesmo quando não usa o nome do desenho. O roteiro abaixo lê a vinheta na ordem em que os sinais aparecem e termina na medida — que é onde a alternativa errada costuma estar.

  1. 1Pergunte quem decidiu a exposição: se foi o investigador que alocou, é experimental; se a exposição veio da vida do participante, é observacional.
  2. 2Procure o grupo de comparação. Sem grupo de comparação o estudo é descritivo e não mede associação nenhuma.
  3. 3Identifique a unidade de análise: se o dado é de município, estado, escola ou ano, é ecológico, e a conclusão vale para o grupo.
  4. 4Siga a seta do tempo: parte da exposição (coorte), parte da doença (caso-controle) ou mede tudo no mesmo momento (transversal).
  5. 5Confira a medida citada: prevalência aponta transversal; taxa de ataque, incidência e risco relativo apontam coorte; odds ratio sem denominador populacional aponta caso-controle.
  6. 6Só então leia as alternativas e elimine a que oferece uma medida que aquele desenho não produz, por mais correta que a frase pareça.

Degrau 1 — relato e série de casos

Sem grupo de comparação. Descrevem o inesperado e geram hipótese; não medem associação nem risco.

Degrau 2 — ecológico e transversal

Já comparam, mas não fixam a ordem entre causa e efeito. Entregam correlação de agregados e prevalência.

Degrau 3 — caso-controle e coorte

Observacionais analíticos. O caso-controle depende da memória e da escolha dos controles; a coorte sustenta a temporalidade e entrega incidência.

Degrau 4 — ensaio randomizado

Único em que o investigador aloca. Lida com o confundidor que ninguém mediu, e a revisão sistemática de ensaios fica logo acima dele.

DesenhoParte deDireção no tempoMedida que entregaO que ele não entrega
Transversal (seccional)Uma população num instanteSem seta — tudo medido juntoPrevalência e razão de prevalênciasIncidência; ordem entre exposição e desfecho
Coorte (prospectiva ou histórica)A exposiçãoDa exposição para o desfechoIncidência, risco relativo, risco atribuívelResposta rápida para doença rara ou de latência longa
Caso-controleO desfechoDo desfecho de volta para a exposiçãoOdds ratioIncidência e prevalência da doença
EcológicoGrupos, territórios ou períodosDepende da série usadaCorrelação entre indicadores agregadosQualquer conclusão sobre o indivíduo
Ensaio clínico randomizadoA intervenção alocada por sorteioDa intervenção para o desfechoRisco relativo, redução absoluta de risco, NNTEfeito em quem os critérios de elegibilidade excluíram
Relato e série de casosUm ou poucos doentesDescritivaDescrição clínica e hipóteseMedida de associação — falta o grupo de comparação

Quanto a odds ratio se afasta da razão de prevalências, conforme o desfecho fica frequente

Desfecho do estudoPrevalênciaDistância entre odds ratio e razão de prevalências
Demência em idosos5,1%Odds ratio cerca de 13% acima
Transtorno mental comum37,8%Odds ratio cerca do dobro
Autopercepção de saúde ruim53,8%Odds ratio cerca de quatro vezes

O viés que a banca descreve sem dar o nome

Como o enunciado descreveNome do viésDesenho onde ele mora
Os doentes lembram das exposições melhor que os controlesViés de memóriaCaso-controle
Controles recrutados na enfermaria de pneumologia, num estudo sobre tabacoViés de seleçãoCaso-controle
Perda de 30% do seguimento, concentrada no grupo expostoViés de atrito (perda diferencial)Coorte
Quem avalia o desfecho sabe a que grupo o participante pertenceViés de aferiçãoCoorte e ensaio clínico
Só quem sobreviveu tempo suficiente apareceu doente na fotografiaViés de prevalência-incidência (Neyman)Transversal
O paciente mudou o hábito depois de adoecerCausalidade reversaTransversal
Municípios que consomem mais têm mais óbitos, logo quem consome morre maisFalácia ecológicaEcológico

Fases do ensaio clínico

FasePergunta que respondeQuem participaOrdem de grandeza
IÉ seguro? Qual a dose tolerada?Voluntários sadios (em oncologia, doentes)Dezenas
IITem efeito biológico? Qual a dose eficaz?Doentes selecionadosDezenas a centenas
IIIÉ melhor que o comparador no desfecho que importa?Doentes, em vários centrosCentenas a milhares
IVO que aparece depois do registro?População que usa o produto no mercadoMilhares

Coorte histórica continua sendo coorte. O que define o desenho é o ponto de partida — a exposição —, não o momento em que o pesquisador chegou aos dados.

A escada ordena desenhos, não estudos: ensaio mal conduzido vale menos que coorte bem conduzida. Por isso a avaliação de qualidade vem depois de classificar o desenho, nunca no lugar dela.

Caso-controle aninhado numa coorte reúne o melhor dos dois: os controles saem da própria coorte, a base populacional é conhecida e a exposição foi registrada antes de qualquer participante adoecer.

A ordem de grandeza das fases é convenção de condução de ensaios, não número fixado em norma. O que a prova cobra é a pergunta de cada fase e quem participa dela.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

O que o participante recebe depois que o ensaio clínico termina

Resolução CNS nº 466/2012 — Conselho Nacional de Saúde

O item III.3.d obriga o patrocinador a assegurar a todos os participantes, ao final do estudo, acesso gratuito e por tempo indeterminado aos melhores métodos profiláticos, diagnósticos e terapêuticos que se demonstraram eficazes; o subitem d.1 estende a garantia ao intervalo entre o fim da participação individual e o fim do estudo, admitindo estudo de extensão para cumpri-la.

Resolução CNS nº 466, de 12/12/2012, itens III.3.d e d.1.

Lei nº 14.874/2024 — lei federal

Substitui a garantia aberta por um plano de acesso pós-estudo submetido ao comitê antes do início da pesquisa (art. 30), com fornecimento gratuito quando o produto for a melhor terapia para aquele participante (art. 31, § 2º) e hipóteses expressas de interrupção (art. 33): cura, existência de alternativa terapêutica, ausência de benefício, reação adversa, impossibilidade técnica e incorporação do produto à rede pública, entre outras.

Lei nº 14.874, de 28/5/2024, arts. 30, 31 e 33; vigência 90 dias após a publicação, em 29/5/2024 (art. 65).

Na prova

O vocabulário do enunciado entrega o corpo de regra que ele quer. 'Sistema CEP/Conep', 'acesso por tempo indeterminado' e numeração em itens romanos (III.3) vêm da resolução de 2012. 'Plano de acesso pós-estudo', 'instância nacional de ética', prazos em dias úteis e citação a Protocolos Clínicos e Diretrizes Terapêuticas vêm da lei de 2024. Questão de concurso escrita antes de 2024 costuma cobrar a resolução; questão que cita a lei nominalmente está pedindo o texto novo. A causa da mudança está no próprio texto do art. 33: a lei ancorou o fornecimento na disponibilidade do SUS e na existência de alternativa terapêutica, enquanto a resolução não colocava limite de tempo. Como referência de hierarquia, lei federal está acima de resolução de conselho.

Que medida de associação relatar num estudo transversal

Razão de prevalências por Poisson ou Cox com variância robusta — Revista de Saúde Pública, 2008

Em 2.072 idosos de São Paulo, a odds ratio ficou cerca de 13% acima da razão de prevalências num desfecho de 5,1%, cerca do dobro num de 37,8% e cerca de quatro vezes num de 53,8%. As estimativas de Cox e de Poisson com variância robusta ficaram próximas da referência de Mantel-Haenszel, e os autores concluem que essas são melhores alternativas que a regressão logística para estimar razão de prevalências.

Coutinho LMS, Scazufca M, Menezes PR. Rev Saúde Pública. 2008;42(6):992-8.

Odds ratio da regressão logística, padrão consolidado de relato

A regressão logística continua sendo o padrão de saída em software estatístico e o formato em que boa parte da literatura relata análise de transversal: converge com facilidade, aceita covariável contínua sem problema numérico e permite ajuste multivariado direto. A log-binomial, que estimaria a razão de prevalências sem intermediários, falha em convergir justamente quando a prevalência é alta e há covariável contínua no modelo — o cenário em que a diferença entre as duas medidas mais importa.

Coutinho LMS, Scazufca M, Menezes PR. Rev Saúde Pública. 2008;42(6):992-8 — o mesmo artigo documenta a falha de convergência da log-binomial e usa a logística como termo de comparação.

Na prova

Olhe a prevalência que o enunciado fornece. Com desfecho frequente, alternativa que traduz odds ratio em 'tantas vezes mais risco' está trocando as medidas — e o enunciado costuma denunciar o recorte ao dar a prevalência de bandeja, que só serve para isso. Inquérito populacional brasileiro (Pesquisa Nacional de Saúde, Vigitel, inquérito municipal) tende a trazer razão de prevalências; caso-controle traz odds ratio, e ali ela é a medida própria do desenho, não uma aproximação de risco. Alternativa que oferece incidência a partir de um transversal já se denunciou sozinha.

06

Caso resolvido

Casamento numa cidade do interior, 118 convidados. Entre 12 e 36 horas depois da festa, 41 pessoas procuram a UBS com diarreia aquosa, cólica e vômitos, sem febre alta. Os noivos têm a lista nominal dos convidados e o buffet guardou o cardápio.
população
A população é enumerável: existe lista de todos os presentes, expostos e não expostos, e as exposições possíveis (os pratos servidos) são conhecidas. É exatamente a condição que o Ministério da Saúde coloca para escolher a coorte no campo — grupo pequeno e população bem definida.
desenho
Coorte retrospectiva (histórica). O episódio já ocorreu, mas o estudo continua partindo da exposição — cada item do cardápio — em direção ao desfecho. Chamar isso de caso-controle é o erro clássico: caso-controle começaria pelos 41 doentes e descartaria a lista de convidados, que é justamente o ativo mais valioso da investigação.
cálculo
Para cada item, taxa de ataque nos expostos (quem comeu e adoeceu dividido pelo total de quem comeu, vezes 100) e taxa de ataque nos não expostos (quem não comeu e adoeceu dividido pelo total de quem não comeu, vezes 100).
leitura
Maionese caseira: 39 doentes entre os 63 que comeram (taxa de ataque 61,9%) e 2 doentes entre os 55 que não comeram (3,6%). Salada de folhas: 20 doentes entre 60 que comeram (33,3%) e 21 entre 58 que não comeram (36,2%).
medida
Risco relativo é a taxa de ataque dos expostos dividida pela dos não expostos. Maionese: 61,9 dividido por 3,6, risco relativo de cerca de 17. Salada: 33,3 dividido por 36,2, risco relativo de 0,92 — exposição comuníssima e sem associação nenhuma, que é o padrão de qualquer alimento inocente servido a quase todo mundo.
conduta
Notificar o surto à vigilância epidemiológica municipal, colher amostras clínicas e de alimento enquanto houver sobra, e agir sobre o processo que produziu o problema — preparo com ovo cru e conservação fora da temperatura adequada. A medida de controle não espera o resultado do laboratório.
07

Agora feche você

Em seis semanas, o hospital de referência de um município de 300 mil habitantes registra 9 casos de uma doença rara. Os pacientes moram em bairros diferentes, não se conhecem e não frequentaram os mesmos lugares. A vigilância suspeita de uma exposição ambiental comum, mas ninguém consegue montar a lista de quem se expôs: a população sob risco é a cidade inteira.
achado
Casos dispersos, doença rara, população sob risco não enumerável e exposições apenas suspeitas, ainda a levantar.
desenho e medida
08

Onde a banca derruba

  1. 1Chamar de caso-controle toda coorte que olha para trás A palavra 'retrospectivo' aparece nos dois, e o enunciado costuma dizer que os dados vieram de prontuários antigos. O que decide é o ponto de partida: se o estudo separou expostos e não expostos e foi contar quem adoeceu, é coorte, ainda que tudo tenha sido reconstruído de registros de dez anos atrás.
  2. 2Calcular prevalência ou incidência dentro de um caso-controle A alternativa parece inofensiva porque a tabela 2x2 está ali, com todos os números. Só que a proporção de doentes foi escolhida por quem desenhou o estudo — recrutar dois ou quatro controles por caso muda a 'prevalência' da amostra sem que nada tenha mudado na população.
  3. 3Ler a odds ratio de desfecho frequente como se fosse risco 'Duas vezes mais chance' vira 'duas vezes mais risco' sem que ninguém perceba. Num desfecho com prevalência acima de 10% essa tradução já erra de forma relevante, e num desfecho perto de 50% a odds ratio chega a ficar cerca de quatro vezes a razão de prevalências.
  4. 4Achar que 'randomizado e duplo-cego' resolve o problema da alocação Cegamento e sigilo de alocação protegem momentos diferentes: o sigilo age antes da entrada, impedindo que o recrutador saiba para onde vai o próximo participante; o cegamento age depois. Ensaio duplo-cego com envelope de alocação violável tem randomização apenas nominal.
  5. 5Aceitar a análise por protocolo num ensaio de não inferioridade Excluir quem não cumpriu o tratamento parece rigor metodológico. Em superioridade, a intenção de tratar é conservadora e a análise por protocolo infla a diferença; em não inferioridade, a intenção de tratar aproxima os grupos e facilita a conclusão de não inferioridade, e por isso as duas análises precisam concordar.
  6. 6Aconselhar o paciente com base em dado agregado O estudo mostrou que municípios com maior consumo médio têm maior mortalidade, e a alternativa transforma isso em recomendação individual. A unidade de análise era o município; nada no estudo diz que foram as pessoas de maior consumo as que morreram. É a falácia ecológica em forma de conselho.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Acompanhar grupos definidos pela exposição, livres da doença, ao longo do tempo, medindo incidência, caracteriza estudo de coorte. Caso-controle parte da doença (casos e controles) e olha retrospectivamente a exposição. Transversal mede exposição e desfecho num mesmo instante, sem seguimento. Ensaio clínico randomizado envolve intervenção alocada aleatoriamente pelo pesquisador, não observação de exposição natural. Série de casos apenas descreve pacientes doentes, sem grupo de comparação.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Sem olhar, diga o ponto de partida dos três desenhos observacionais e a medida de cada um. Depois diga, para cada desenho, uma medida que ele NÃO produz — é essa metade que a prova cobra. Feche recitando o critério do campo: lista de convidados chama coorte com taxa de ataque; casos dispersos chamam caso-controle com odds ratio e 2 a 4 controles por caso.

em 30 dias

Pegue três vinhetas de prova e classifique cada uma pelas quatro perguntas (quem alocou, existe comparação, qual a unidade, para onde aponta a seta) antes de olhar as alternativas. Monte um surto fictício com 100 convidados, calcule taxa de ataque e risco relativo de dois alimentos, e depois refaça o mesmo cenário sem a lista de convidados, decidindo o que muda no desenho e na medida. Termine lendo lado a lado o art. 21 da Lei nº 14.874/2024 e os itens III.3.b e III.3.d da Resolução CNS nº 466/2012.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Você está na UBS quando a vigilância municipal telefona: 23 pessoas que almoçaram no mesmo restaurante ontem passaram mal, e três chegaram agora à sala de observação com desidratação. Atenda o paciente à sua frente e, junto com a equipe, decida qual desenho de estudo cabe nesta investigação e que dados precisam ser coletados hoje. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Tipos de estudo epidemiológico — Preparatório para provas | OsceLabs