Outras EspecialidadesEpidemiologia e bioestatística

Viés, confundimento e validade

Vieses, confundimento e validade em estudos epidemiológicos

Acaso, viés, confundimento, causalidade e validade

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Em um estudo de coorte sobre tabagismo e câncer de pulmão, os pesquisadores acompanham fumantes e não fumantes por 10 anos. Ao analisar os dados, percebem que os fumantes também consomem mais álcool, o que está associado tanto ao tabagismo quanto ao desfecho. Que tipo de viés/fenômeno os pesquisadores devem controlar na análise?

02

Como esse tema cai

Este tema não cobra definição decorada: cobra triagem. A vinheta descreve um estudo que encontrou uma associação e pergunta, de um jeito ou de outro, se dá para acreditar nela. Existem cinco explicações possíveis para qualquer associação observada, e o artigo de metodologia do Jornal Brasileiro de Pneumologia as enumera: a exposição realmente causa o desfecho; a associação é real mas anda ao contrário, e é o desfecho que produz a exposição; foi o acaso; foi erro sistemático, isto é, viés; ou foi uma terceira variável misturando as coisas, que é o confundimento. Saber essa lista de cinco e a ordem em que se descartam resolve a maioria das questões.

A divisão que organiza tudo é entre erro aleatório e erro sistemático. Erro aleatório encolhe quando a amostra cresce; erro sistemático não encolhe nunca — amostra maior só entrega o número errado com mais casas decimais. Daí sai a distinção seguinte, entre precisão e validade: um estudo pode ser preciso e inválido, e a banca adora a alternativa que oferece o tamanho da amostra como resposta para um problema de método.

Dentro do erro sistemático, o capítulo separa três coisas que a prova mistura de propósito. Viés de seleção entra pela porta, no momento em que se decide quem participa e quem sai, e nenhum ajuste estatístico o desfaz. Viés de informação entra na medida, quando exposição ou desfecho são registrados errado, e tem uma direção previsível quando o erro atinge igualmente os dois grupos. Confundimento é diferente dos dois: é o único que a análise ainda pode consertar, desde que a variável tenha sido medida. E há a armadilha final do tema, que é chamar de confundimento aquilo que é modificação de efeito — porque o primeiro se ajusta para fora e o segundo, se for ajustado para fora, apaga justamente o achado.

Fecha o capítulo o vocabulário de validade. Validade interna é a resposta estar certa para as pessoas que foram estudadas; validade externa é ela valer para quem não foi. O Ministério da Saúde escreve as duas coisas em documento próprio: a tradução brasileira do STROBE manda discutir 'a generalização (validade externa) dos resultados', e o sistema grade trata a mesma preocupação sob o nome de evidência indireta. Não existe generalizar um resultado que já estava errado dentro do próprio estudo.

03

O que muda decisão

Cinco explicações para uma associação, e a ordem em que se descartam

Um estudo encontrou associação entre uma exposição e um desfecho. Antes de aceitar que a exposição causa o desfecho, cinco explicações disputam o mesmo achado, e o artigo de educação continuada do Jornal Brasileiro de Pneumologia sobre fatores de confusão as lista de forma que dá para usar como roteiro. A primeira é que a associação é real e a exposição é mesmo causa. A segunda é que a associação é real mas a seta aponta ao contrário: o desfecho é que produziu a exposição — em pneumologia, o paciente com pior mecânica pulmonar é justamente o que recebe uma ventilação diferente. A terceira é o acaso. A quarta é o erro sistemático, isto é, o viés, que nasce de como o estudo foi feito. A quinta é o confundimento, quando uma outra variável, associada à exposição e causa do desfecho, se mistura à comparação.

As três últimas são as que a prova cobra, e elas não são intercambiáveis. O acaso é erro aleatório: um desvio que ora empurra a estimativa para cima, ora para baixo, sem preferência de lado, e cujo tamanho esperado diminui à medida que a amostra cresce. O viés e o confundimento são erros sistemáticos: empurram sempre para o mesmo lado, e o tamanho da amostra não tem nada a ver com eles. Um estudo com quarenta mil participantes e um instrumento torto entrega um número errado com intervalo de confiança estreito — o que é pior do que entregar um número errado com intervalo largo, porque parece confiável.

Daí a distinção entre precisão e validade, que é o par de palavras mais rentável do capítulo. Precisão é o quanto a estimativa varia se o estudo fosse repetido; validade é o quanto ela corresponde ao valor verdadeiro. São independentes uma da outra. O desenho do alvo resolve: tiros espalhados em torno do centro são imprecisos e válidos, e mais munição resolve; tiros agrupados fora do centro são precisos e inválidos, e mais munição não resolve nada. A frase que a banca quer ouvir é que aumentar o tamanho da amostra reduz o erro aleatório e não toca no erro sistemático.

Sobre o acaso, um cuidado de leitura que a prova cobra pelo avesso. Um valor de p de 0,013 diz o seguinte: se a hipótese nula fosse verdadeira, um resultado ao menos tão extremo quanto o observado apareceria em 1,3% das repetições do estudo. Ele não diz que há 1,3% de chance de a associação ser obra do acaso, nem 98,7% de chance de a associação ser real — essa inversão é uma das trocas mais comuns em texto de metodologia, e a alternativa que a oferece está errada mesmo quando o resto do enunciado está impecável. O que o valor de p e o intervalo de confiança governam é o erro aleatório, e apenas ele; contra viés e confundimento eles são cegos.

A ordem prática de descarte é esta. Primeiro pergunte se o achado pode ser acaso, olhando a precisão — o intervalo de confiança. Depois pergunte se pode ser viés, olhando quem entrou no estudo e como as variáveis foram medidas. Depois pergunte se pode ser confundimento, procurando a terceira variável. Depois pergunte se a seta pode estar invertida, olhando a temporalidade que o desenho garante ou não garante. Só quando nenhuma das quatro se sustenta a leitura causal entra na mesa. As medidas de associação e o intervalo de confiança, que são a ferramenta do primeiro passo, estão no capítulo de medidas de associação e de impacto desta mesma apostila; o que decide se o desenho garante temporalidade está no capítulo de tipos de estudo epidemiológico.

Dois alvos: no primeiro os tiros estão espalhados mas em torno do centro; no segundo estão agrupados, porém longe do centro.
Espalhado em volta do centro é erro aleatório: a média acerta, e mais amostra fecha a nuvem. Agrupado fora do centro é erro sistemático: a média erra, e mais amostra só aperta o grupo no lugar errado.

Viés de seleção: o erro que entra pela porta

Viés de seleção acontece quando a associação medida na amostra difere da associação que existe na população de origem por causa de como as pessoas entraram no estudo, ou de como saíram dele. O ponto que decide tudo é que a distorção já está dentro dos dados coletados: não há coluna faltando para ajustar, não há modelo que a desfaça. Por isso a única defesa contra viés de seleção é o desenho, e é por isso que a prova gosta tanto dele — a alternativa errada quase sempre oferece um ajuste estatístico como solução.

O checklist de avaliação de qualidade que o Ministério da Saúde publicou nas diretrizes metodológicas de estudos observacionais transforma isso em duas perguntas diretas: os grupos comparados foram recrutados da mesma população, e foram recrutados no mesmo período? Um caso-controle cujos controles vieram de outra população, ou de outro tempo, já respondeu não a uma delas. É a mesma exigência que o guia de investigação de surtos coloca em campo, e que o capítulo de tipos de estudo desta apostila enuncia como a regra do controle que teria sido caso.

As formas com nome próprio caem quase sempre descritas, e não nomeadas. Controle recrutado na enfermaria errada: num estudo sobre tabaco, buscar controles internados por pneumopatia infla a exposição do grupo de comparação e empurra a medida na direção do nulo. Efeito do trabalhador sadio: quem se mantém empregado numa atividade pesada tende a ser mais saudável que a população geral, de modo que comparar trabalhadores expostos com a população geral pode fazer uma exposição nociva parecer inofensiva, ou até protetora. Viés de admissão hospitalar: quando duas condições aumentam, cada uma por si, a chance de internação, elas aparecem associadas entre os internados mesmo sem qualquer relação na comunidade. Viés do voluntário: quem responde ao convite difere de quem não responde, e costuma diferir justamente naquilo que se está medindo.

Há uma família de viés de seleção que nasce da saída, e não da entrada. Perda de seguimento que atinge igualmente os dois braços custa poder estatístico; perda diferencial — o grupo exposto abandonou mais, e abandonou por motivo ligado ao desfecho — distorce a estimativa e não se conserta. E há a versão que a fotografia produz: o estudo transversal encontra preferencialmente os casos de longa duração, porque quem morreu rápido ou curou rápido não estava lá no dia da entrevista. O capítulo de tipos de estudo trata essa forma pelo nome de viés de prevalência-incidência, e ela é, no fundo, seleção por sobrevivência.

Repare no efeito prático dessa família inteira. Ela não tem direção fixa: dependendo de quem sobrou na amostra, o mesmo mecanismo pode inventar uma associação que não existe ou apagar uma que existe. Essa é a diferença mais útil entre viés de seleção e a forma mais comum de viés de informação, que tem direção previsível — e é o assunto da seção seguinte.

Viés de informação: o erro que entra na medida

Viés de informação, também chamado de viés de aferição ou de classificação, é o erro que entra quando a exposição, o desfecho ou uma covariável são registrados de forma incorreta. Um artigo clássico dos Cadernos de Saúde Pública, da Escola Nacional de Saúde Pública, define erro de classificação como toda categorização incorreta de um indivíduo segundo a medida da característica — um fumante anotado como não fumante por falha do entrevistador, alguém que veio a adoecer registrado como sadio por limitação do exame. As fontes são a memória do participante, o entrevistador, o instrumento e o prontuário de onde o dado foi copiado.

A pergunta que decide a leitura é se o erro atinge igualmente os dois grupos comparados. Erro não diferencial é o que acontece na mesma proporção entre expostos e não expostos, ou entre casos e controles: o instrumento é ruim, mas é igualmente ruim dos dois lados. Erro diferencial é o que atinge um grupo mais que o outro — o exemplo canônico é o viés de memória, em que quem adoeceu revisita a própria história atrás de explicação e lembra melhor das exposições do que quem está bem; outro é o entrevistador que sabe quem é caso e aprofunda a pergunta só ali.

O erro não diferencial tem direção previsível, e essa previsibilidade é o achado mais rentável desta seção. O artigo dos Cadernos de Saúde Pública demonstra algebricamente, para característica classificada em duas categorias e com erros constantes entre os grupos, que o risco relativo aparente fica menor que o verdadeiro quando o verdadeiro é maior que 1, e maior que o verdadeiro quando o verdadeiro é menor que 1. A conclusão dos autores é literal: a tendência do risco relativo aparente é estar mais próximo de 1 do que o verdadeiro, o que torna sempre menor a força de associação aparente, tanto para um fator de risco como para um de proteção. O mesmo desenvolvimento vale para a razão de produtos cruzados. No limite, quando a classificação é puramente aleatória, a medida aparente vai a 1 e o estudo conclui que não há associação nenhuma.

Duas consequências práticas saem daí, e a segunda é sutil. A primeira: estudo negativo feito com instrumento ruim aplicado igualmente aos dois grupos não inocenta a exposição — a ausência de associação pode ser inteiramente produto da diluição, e a resposta correta é que o estudo é inconclusivo, não tranquilizador. A segunda: se o estudo, apesar do instrumento ruim, ainda assim encontrou uma associação forte, ela é mais crível do que seria com instrumento bom, porque o erro estava trabalhando contra o achado. Esse raciocínio tem um nome dentro do sistema grade, e reaparece na última seção deste capítulo.

Vale marcar o limite do enunciado, porque a banca às vezes o estica. A regra acima está demonstrada para exposição classificada em duas categorias e para erros constantes entre os grupos. Erro diferencial não tem direção garantida: pode inflar, pode reduzir, pode inverter o sinal, e por isso é o mais perigoso dos dois. Quando o enunciado descreve entrevista aplicada de modo desigual, ou avaliador que sabe a que grupo o participante pertence, a resposta não é 'subestimou' — é que a direção do erro não pode ser antecipada. A defesa contra o erro diferencial é procedimental: instrumento padronizado, entrevistador treinado, avaliador de desfecho cegado, e exposição documentada em registro feito antes de qualquer um adoecer.

Confundimento: a terceira variável e os três critérios

Confundir vem do latim confundere, misturar, e é exatamente isso que acontece: o efeito da exposição vem misturado com o efeito de outra coisa. A definição clássica, na formulação do artigo brasileiro sobre o assunto, exige três condições simultâneas da variável candidata. Ela precisa estar associada à exposição de interesse. Ela precisa ser causa do desfecho de interesse. E ela não pode estar na via causal entre a exposição e o desfecho. Falhando qualquer uma das três, a variável não é confundidora — e é justamente aí que a prova arma a alternativa.

O exemplo com que o artigo abre é útil porque contrasta duas variáveis do mesmo estudo. Investigadores examinaram a associação entre ventilação protetora e sobrevida na covid-19 grave. A complacência pulmonar foi tratada como potencial fator de confusão: complacência baixa é causa de morte e, ao mesmo tempo, dificulta aplicar ventilação protetora — está associada à exposição e é causa do desfecho. Já a gravidade da doença na admissão não foi tratada como confundidora, apesar de estar fortemente associada ao óbito, porque não tem relação causal com o preditor de interesse. Associação com o desfecho, sozinha, não faz confundidor; é preciso a ponte com a exposição também.

O terceiro critério — não estar na via causal — é o que separa confundidor de mediador, e o artigo desenha os dois lado a lado. Obesidade na relação entre asma e função pulmonar é confundidora: a obesidade pode piorar a asma e pode, por conta própria, reduzir a função pulmonar, e o ajuste por ela é aconselhável. Já a pressão alta na relação entre apneia obstrutiva do sono e doença cardiovascular é mediadora: a apneia leva à doença cardiovascular tanto diretamente quanto por meio da hipertensão que ela mesma provoca. Ajustar pela pressão arterial nesse caso não é apropriado — o ajuste retira do resultado justamente o caminho pelo qual a exposição age, e o efeito real aparece encolhido ou some.

Como o confundimento se manifesta nos números: a estimativa se move quando se ajusta. Compare a medida bruta com a medida ajustada; se elas são praticamente iguais, aquela variável não estava confundindo nada. Se são diferentes, a bruta estava misturada e a ajustada é a que responde à pergunta. A tradução brasileira do STROBE transforma isso em obrigação de relato: apresentar as medidas de associação não ajustadas e, quando aplicável, as ajustadas por variáveis confundidoras, deixando claro quais confundidores entraram no ajuste e por quê. Enunciado que entrega bruta e ajustada lado a lado está pedindo essa comparação.

Uma variedade merece nome porque cai muito e já aparece em outro capítulo do acervo: o confundimento por indicação. Ele aparece quando o tratamento é escolhido em função da gravidade — os operados são os mais graves, os monitorados são os de maior risco — e a comparação bruta faz o tratamento parecer nocivo. O capítulo de dissecção aórtica aguda usa esse nome para explicar por que a mortalidade dos operados é maior sem que a cirurgia seja a causa. Aqui interessa a mecânica: gravidade basal está associada à exposição (por escolha clínica) e é causa do desfecho, e não está na via causal entre tratamento e óbito. Confundidor de manual.

Como se controla o confundimento — e o preço de cada controle

Há dois momentos para agir, e eles não são equivalentes. No desenho, três ferramentas: randomização, restrição e pareamento. Na análise, outras três: estratificação, modelo multivariado e escore de propensão. A diferença estrutural entre os dois momentos é o que a prova cobra — e ela é simples de enunciar. Ferramenta de análise só funciona sobre variável que foi medida. Ferramenta de desenho, no caso da randomização, funciona também sobre o que ninguém mediu.

A randomização é a única que lida com o confundidor desconhecido. Sorteando a alocação, ela distribui entre os grupos tanto os fatores conhecidos quanto os que nunca ocorreram a ninguém medir — e essa propriedade, e não o tamanho da amostra, é o que coloca o ensaio no topo da hierarquia de desenhos. Vale a ressalva: randomizar não garante grupos idênticos em qualquer amostra particular; garante que o desbalanço que sobrar é obra do acaso, e não da indicação clínica. Em amostra pequena o desbalanço pode ser grande, e por isso ensaios pequenos ainda ajustam por fatores prognósticos previstos de antemão.

A restrição é excluir do estudo quem tem a característica confundidora — para estudar queda de função pulmonar na asma, deixar as pessoas com obesidade de fora. Funciona e é barata. O preço está escrito no próprio artigo: o resultado passa a valer só para asmáticos não obesos. O pareamento seleciona o mesmo número de participantes com e sem a característica em cada grupo de comparação; também funciona, também custa generalização, e num caso-controle traz uma exigência adicional que a prova cobra — o pareamento precisa ser levado em conta na análise, porque parear é uma forma de seleção e a análise tem de respeitar os pares que foram criados.

Na análise, a estratificação separa a amostra pelos níveis do confundidor, calcula a medida dentro de cada estrato e combina os estratos numa estimativa única — é a lógica do procedimento de Mantel-Haenszel, usado como referência no estudo brasileiro que o capítulo de tipos de estudo desta apostila cita. Ela é transparente e mostra o que está acontecendo, mas fica sem fôlego quando há muitos confundidores ao mesmo tempo, porque os estratos ficam vazios. Daí o modelo multivariado, que a fonte descreve como a estratégia mais usada, justamente por tratar vários preditores de uma vez. O escore de propensão resume, num único número, a probabilidade de cada pessoa receber a exposição dadas as suas características, e depois compara pessoas com propensão parecida.

Duas advertências fecham a seção, e as duas viram alternativa errada com frequência. A primeira: não se escolhe confundidor por teste estatístico. A recomendação do artigo é explícita — a identificação vem do conhecimento clínico prévio, da fisiopatologia e de modelos causais, e não de rodar valores de p atrás de variáveis que 'deram significativo'. Jogar tudo dentro do modelo é como se acerta em cheio num mediador e se destrói o resultado. A segunda: por melhor que seja o ajuste, sobra confundimento residual — o confundidor medido com erro continua confundindo um pouco, e o confundidor nunca medido continua inteiro. É por isso que, no sistema grade, o corpo de evidências que vem de estudos observacionais começa em um patamar de certeza mais baixo que o dos ensaios randomizados, e nenhum ajuste sofisticado o promove por si só.

Confundimento não é modificação de efeito

Esta é a distinção que separa quem entendeu o tema de quem decorou. Confundimento é distorção: o número bruto está errado, e a função do ajuste é fazê-lo desaparecer, entregando uma estimativa única e corrigida. Modificação de efeito — também chamada de interação — não é distorção nenhuma: é um fato do mundo. O efeito da exposição realmente é diferente conforme o nível de uma terceira variável, e a resposta certa é relatar os efeitos separados, não fabricar uma média que não descreve ninguém.

A tradução brasileira do STROBE trata as duas como categorias distintas na mesma frase, ao mandar definir claramente todos os desfechos, exposições, preditores, confundidores em potencial e modificadores de efeito. Elas não são o mesmo objeto com nomes diferentes: uma é para ajustar para fora, a outra é para exibir.

O critério prático para decidir qual das duas está na sua frente lê os estratos e compara três números. Calcule a medida bruta e as medidas dentro de cada estrato da terceira variável. Se as medidas dos estratos se parecem entre si mas diferem da bruta, é confundimento: a terceira variável estava misturando, o ajuste conserta, e o número a publicar é o ajustado. Se as medidas dos estratos diferem entre si, é modificação de efeito: não há um número único que sirva, e a bruta é apenas uma média ponderada que esconde a diferença. Repare que os dois padrões podem coexistir no mesmo estudo, e que o segundo tem prioridade — havendo modificação de efeito, relatar só o valor ajustado é ocultar o achado principal.

Um exemplo torna a leitura automática. Suponha que uma intervenção mostre risco relativo bruto de 0,86. Estratificando por idade, o risco relativo é 0,55 abaixo de 75 anos e 1,05 a partir de 75. Os estratos não concordam entre si: a intervenção funciona bem nos mais jovens e não funciona nos mais velhos. Relatar 0,86 como resultado do estudo seria dizer que a intervenção tem um efeito modesto em todo mundo, quando na verdade ela tem efeito grande em metade e nenhum efeito na outra metade. Agora o outro padrão: risco relativo bruto de 1,70, e risco relativo de 0,80 nos dois estratos de gravidade basal. Aqui os estratos concordam entre si e discordam da bruta — é confundimento, o 1,70 é artefato e o número que responde à pergunta é 0,80.

Cuidado com o vocabulário estatístico que a banca usa para o mesmo fenômeno. Análise de subgrupo é o instrumento com que se procura modificação de efeito; termo de interação no modelo é como ela é testada formalmente. E há a exigência que separa achado de pescaria: subgrupo previsto antes de o estudo começar, com hipótese biológica declarada, é evidência; subgrupo descoberto depois de olhar os dados é hipótese, e a tradução brasileira do STROBE pede que qualquer análise não planejada no início seja claramente indicada como tal.

Validade interna e validade externa

Validade interna é o grau em que o resultado do estudo está correto para as pessoas que efetivamente participaram dele. As três ameaças à validade interna são exatamente as três primeiras seções deste capítulo: acaso, viés e confundimento. Validade externa é outra coisa: é o grau em que aquele resultado, já suposto correto lá dentro, vale para pessoas que não participaram — outra faixa etária, outro serviço, outro nível de atenção, outro país.

A ordem entre as duas não é negociável, e é uma frase de prova: sem validade interna, não existe validade externa. Não se generaliza um resultado que já estava errado dentro do próprio estudo. Por isso a avaliação de qualquer estudo começa pelo desenho e pela condução, e só depois pergunta a quem aquilo se aplica.

O Ministério da Saúde nomeia as duas em documento próprio. A tradução brasileira do STROBE, no anexo das diretrizes metodológicas de estudos observacionais, manda 'discutir a generalização (validade externa) dos resultados' — a equivalência entre generalização e validade externa está escrita ali, com essas palavras. E o checklist de avaliação de qualidade do mesmo documento organiza as perguntas em domínios cujos nomes valem como sumário do capítulo: Relato, Validade Externa, Viés, Variável de confusão e Poder. As três perguntas do domínio de validade externa são concretas: quem foi convidado representa a população de onde veio; quem de fato entrou representa quem foi convidado; e o serviço, a equipe e as instalações onde a exposição aconteceu representam o que a maioria da população recebe.

Essa terceira pergunta é a mais esquecida e a mais brasileira. Um resultado obtido em centro de referência quaternário, com equipe dedicada e volume alto de procedimentos, pode ser internamente impecável e ainda assim não descrever o que aconteceria no hospital geral do município — não porque o estudo esteja errado, mas porque a estrutura que produziu aquele resultado não é a estrutura disponível. Alternativa que transporta um resultado de centro especializado para a rede básica sem ressalva está errando no domínio da validade externa.

O sistema grade trata a mesma preocupação sob outro nome, e conhecer os dois vocabulários evita perder questão. O domínio chama-se evidência indireta, e ele rebaixa a certeza quando o corpo de evidências desvia substancialmente da pergunta que se quer responder. São quatro as fontes de desvio: diferenças na população, na intervenção, no comparador e no desfecho. O exemplo do manual brasileiro é limpo — uma diretriz que precisa recomendar broncodilatador para adultos e crianças pode não achar ensaio em população pediátrica, decidir usar a evidência dos adultos e, por isso, rebaixar a certeza por evidência indireta naquela população. Desfecho substituto entra na mesma conta: medir marcador laboratorial quando a pergunta era sobre desfecho clínico é desvio na letra do desfecho.

Fecha com a tensão que o capítulo já anunciou. Restrição e pareamento compram validade interna vendendo validade externa: excluindo as pessoas com obesidade, o confundimento pela obesidade some e o resultado passa a valer só para quem não tem obesidade. Critério de elegibilidade estreito num ensaio faz a mesma troca. Não existe desenho que maximize as duas ao mesmo tempo, e a pergunta correta diante de um estudo não é qual das duas ele tem, mas qual das duas ele sacrificou e se o sacrifício importa para o paciente à sua frente.

O que o sistema GRADE faz com tudo isso

O manual brasileiro do sistema grade, publicado pelo Ministério da Saúde, é onde este capítulo inteiro reaparece organizado para decisão. São cinco domínios que podem reduzir a certeza do corpo de evidências e três que podem elevá-la, e o mapeamento com o vocabulário clássico é quase termo a termo. Risco de viés corresponde à validade interna. Evidência indireta corresponde à validade externa. Imprecisão corresponde ao erro aleatório. Inconsistência é a heterogeneidade não explicada entre os estudos. E viés de publicação é um viés de seleção que opera um nível acima: não seleciona participante, seleciona qual estudo chega a existir na literatura.

Duas precisões do manual sobre risco de viés valem como resposta de prova. A primeira: limitação do estudo e risco de viés não são sinônimos — limitação é um fator que pode afetar a validade dos resultados independentemente de haver viés, e risco de viés é a probabilidade de que os resultados estejam enviesados. A segunda: a avaliação é feita em duas camadas, a do estudo individual, com ferramenta específica para cada delineamento, e a do corpo de evidências, que é o julgamento do domínio no grade. E o manual é expresso ao dizer que o julgamento do corpo de evidências não sai de uma média simples das avaliações individuais, e precisa vir acompanhado da razão explícita da penalização. Cada delineamento tem sua ferramenta: RoB 2.0 para ensaio randomizado, ROBINS-I para estudo não randomizado de intervenção, escala de Newcastle-Ottawa e checklists do JBI para coorte, caso-controle e transversal.

Sobre viés de publicação, o manual descreve o mecanismo em vez de só nomeá-lo. Estudo com resultado estatisticamente significativo tem mais chance de ser publicado; ensaio com resultado nulo ou negativo leva, em média, cerca de um ano a mais para aparecer, o que faz revisões sistemáticas precoces superestimarem o efeito. Estudo negativo feito em país de língua não inglesa tende a ir para periódico local e escapar da estratégia de busca, ou parar na literatura cinzenta — teses, capítulos, resumos. A suspeita se levanta quando o conjunto é formado por estudos pequenos, quase todos positivos, especialmente com patrocínio da indústria ou conflito de interesse relevante. O gráfico de funil sugere, mas o manual pede cautela na leitura.

Os três domínios que elevam a certeza são raros e valem quase só para estudo observacional. O primeiro é a grande magnitude de efeito, com limiares numéricos que a próxima seção deste capítulo discute porque o próprio documento os escreve de duas maneiras. O segundo é o gradiente dose-resposta — e aqui o manual traz a advertência que interessa a este capítulo: gradiente não é prova, porque o confundidor também pode ter gradiente. O exemplo é histórico e perfeito: os estudos dos anos 1980 sobre consumo diário de café e risco de câncer de pâncreas mostravam dose-resposta, e tinham o tabagismo como confundidor — tabagismo que, por sua vez, tem gradiente dose-resposta com o mesmo desfecho.

O terceiro domínio de elevação é o mais elegante do sistema, e é a mesma ideia que apareceu na seção sobre erro não diferencial: quando todos os vieses plausíveis estariam trabalhando contra o achado, o achado sobrevivente é mais crível. O manual chama isso de fatores de confusão residuais em direção oposta e dá dois formatos. No primeiro, os fatores residuais subestimariam o efeito e mesmo assim uma associação importante foi encontrada. No segundo, os fatores residuais superestimariam o efeito e nenhuma associação foi encontrada — o exemplo é a metformina e a acidose láctica: como a fenformina, da mesma classe, causava acidose láctica, os médicos tendiam a monitorar e relatar acidose láctica associada à metformina mais que a outros medicamentos, o que é viés de aferição a favor de encontrar o dano; estudos observacionais rigorosos não encontraram associação com doses terapêuticas, e o fato de o viés não ter produzido associação reforça a conclusão de que o dano não existe naquelas doses.

Uma trava final que o manual coloca e a prova costuma testar: não se eleva a certeza de uma evidência que já foi rebaixada por limitação metodológica, porque isso seria promover uma estimativa incerta pela força de uma associação que pode ser artefato; e não se eleva por magnitude quando a medida é imprecisa, com intervalo de confiança largo. Elevar exige que o resto esteja em ordem.

04

Do achado ao veredito — que erro é esse, e a análise ainda conserta?

A vinheta descreve o problema sem nomeá-lo. O roteiro abaixo lê o enunciado na ordem em que os erros entram num estudo — quem participou, como foi medido, que terceira variável está no meio — e termina na pergunta que decide a alternativa: isso se conserta na análise ou já está perdido?

  1. 1Olhe primeiro a precisão: intervalo de confiança largo, poucos eventos, amostra pequena. Se o problema é esse, é erro aleatório, e mais amostra resolve.
  2. 2Pergunte quem entrou e quem saiu do estudo: origem dos controles, período de recrutamento, perdas de seguimento, quem aceitou participar. Problema aqui é viés de seleção, e nenhum ajuste o desfaz.
  3. 3Pergunte como exposição e desfecho foram medidos, e se foram medidos do mesmo jeito nos dois grupos. Problema aqui é viés de informação — e o próximo passo é decidir se ele é diferencial.
  4. 4Sendo o erro de medida igual nos dois grupos e a exposição classificada em duas categorias, a estimativa aparente tende ao valor 1: associação subestimada. Sendo desigual, a direção não pode ser antecipada.
  5. 5Procure a terceira variável e teste os três critérios: está associada à exposição, é causa do desfecho e está fora da via causal entre as duas? As três juntas, é confundidor; falhando a terceira, é mediador e não se ajusta.
  6. 6Compare bruta com estratificada. Estratos parecidos entre si e diferentes da bruta indicam confundimento, e o número a usar é o ajustado. Estratos diferentes entre si indicam modificação de efeito, e o número a usar são os dois, separados.
  7. 7Só depois pergunte a quem o resultado se aplica: população, serviço e desfecho do estudo são os do paciente à sua frente? Essa é a pergunta de validade externa, e ela vem depois — não antes — da validade interna.

Erro aleatório — impreciso, mas válido

Os desvios não têm lado preferido e a média acerta o alvo. É o que o intervalo de confiança mede, e é o único dos quatro que o tamanho da amostra resolve.

Erro sistemático — preciso, mas inválido

Os desvios apontam todos para o mesmo lado. Amostra maior aperta o grupo sem trazê-lo para o centro: é viés, e o número fica errado com mais casas decimais.

Confundidor — o triângulo

Aponta para a exposição e para o desfecho, e fica fora da linha entre os dois. Cumpridos os três critérios, ajusta-se por ele — e a estimativa se move.

Mediador — a corrente

Está dentro da linha entre exposição e desfecho: é por ele que o efeito passa. Ajustar por um mediador não corrige nada — apaga o caminho que se queria medir.

Como o enunciado descreveNome do problemaOnde o erro entraA análise conserta?
Intervalo de confiança largo, poucos eventos, resultado 'não significativo' em estudo pequenoErro aleatório (imprecisão)No sorteio da amostraNão se conserta: se resolve com mais amostra ou mais eventos
Controles internados por outra doença; trabalhadores comparados à população geral; quem respondeu ao conviteViés de seleçãoNa entrada do participante no estudoNão. Só o desenho evita
Perda de 30% do seguimento concentrada no grupo expostoViés de seleção por perda diferencialNa saída do participante do estudoNão
Questionário mal aplicado, igual nos dois grupos; exame pouco sensível para todo mundoErro de classificação não diferencialNa medida, por igualNão, mas a direção é conhecida: aproxima a estimativa de 1
Doentes lembram melhor da exposição; avaliador sabe a que grupo o participante pertenceErro de classificação diferencialNa medida, desigual entre os gruposNão, e a direção não pode ser antecipada
Terceira variável associada à exposição, causa do desfecho e fora da via causalConfundimentoNa comparação entre os gruposSim — se a variável tiver sido medida
Terceira variável na via causal entre exposição e desfechoMediaçãoNão é erro: é o mecanismoNão se ajusta. Ajustar apaga o efeito
O efeito é diferente conforme o nível de outra variávelModificação de efeito (interação)Não é erro: é achadoNão se ajusta. Relatam-se os estratos
Estudo em centro de referência aplicado à rede básica; ensaio de adulto aplicado a criançaFalta de validade externa (evidência indireta, no GRADE)Na transposição do resultadoNão. Exige estudo na população certa

Confundidor ou modificador de efeito? Leia os estratos

O que os números mostramInterpretaçãoO que se relata
Bruto 1,70; estrato A 0,80; estrato B 0,80Confundimento — estratos concordam entre si e discordam do brutoA estimativa ajustada, 0,80, com a bruta ao lado para mostrar o deslocamento
Bruto 0,86; estrato A 0,55; estrato B 1,05Modificação de efeito — estratos discordam entre siOs dois estratos separados. A média de 0,86 não descreve nenhum dos dois grupos
Bruto 2,10; estrato A 2,05; estrato B 2,15Nem uma coisa nem outra — a variável não estava confundindo nadaA estimativa bruta serve; o ajuste por essa variável é dispensável

Os domínios do sistema GRADE e o nome clássico de cada um

Domínio no GRADEEfeito na certezaO mesmo problema, no vocabulário clássico
Risco de viésReduzAmeaça à validade interna: seleção, aferição e confundimento dentro de cada estudo
InconsistênciaReduzHeterogeneidade não explicada entre os estudos
Evidência indiretaReduzFalta de validade externa: população, intervenção, comparador ou desfecho fora da pergunta
ImprecisãoReduzErro aleatório: intervalo de confiança largo, poucos eventos
Viés de publicaçãoReduzViés de seleção no nível da literatura: o estudo negativo não chega a ser publicado
Grande magnitude de efeitoElevaEfeito grande demais para ser explicado inteiramente por viés
Gradiente dose-respostaElevaUm dos critérios clássicos de causalidade — mas o confundidor também pode ter gradiente
Fatores de confusão residuais em direção opostaElevaTodos os vieses plausíveis trabalhavam contra o achado, e ele apareceu assim mesmo

Confundimento é o único dos três erros sistemáticos que a análise ainda pode consertar — e só consegue sobre variável que foi medida. Viés de seleção e viés de aferição já entraram nos dados; contra eles, só desenho.

O manual brasileiro do sistema GRADE escreve o limiar de efeito grande de duas maneiras. No texto corrido da seção sobre magnitude, efeito grande é RR maior que 2 (ou menor que 0,5) e efeito muito grande é RR maior que 5 (ou menor que 0,2). No quadro da página seguinte, a primeira faixa aparece como RR maior ou igual a 2 e menor ou igual a 5. Um risco relativo de exatamente 2,00 fica sem faixa no texto corrido e dentro da primeira faixa no quadro. A faixa do quadro é a que se usa em prova, por ser a régua operacional; a divergência com a formulação original está no bloco de divergências.

Randomizar não produz grupos idênticos. Produz grupos cujas diferenças são obra do acaso, e não da indicação clínica — o que é uma garantia sobre a ORIGEM do desbalanço, não sobre o tamanho dele. Em ensaio pequeno o desbalanço pode ser grande, e por isso ainda se ajusta por fatores prognósticos definidos de antemão.

Viés de publicação não seleciona participante: seleciona qual estudo existe para ser encontrado. Por isso ele não aparece na avaliação de um estudo isolado, só na avaliação de um corpo de evidências — e é o último dos cinco domínios de rebaixamento do GRADE.

As três ilusões do rastreamento — antecipação diagnóstica, viés de duração e sobrediagnóstico — são casos particulares desta matéria aplicados a programas de detecção precoce, e estão tratados no capítulo de níveis de prevenção e rastreamento da apostila de SUS, políticas de saúde, APS e vigilância.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Confundimento é uma espécie de viés ou uma categoria à parte?

Guarda-chuva amplo — confundimento dentro do domínio de viés

No checklist de avaliação de qualidade traduzido pelo Ministério da Saúde, a variável de confusão não forma domínio autônomo separado dos vieses: o domínio é rotulado como variável de confusão com a expressão viés de seleção ao lado, e suas perguntas iniciais são de amostragem — se os grupos comparados foram recrutados da mesma população e no mesmo período. Nessa organização, confundimento e viés de seleção são faces do mesmo problema de comparabilidade entre os grupos.

Brasil. Ministério da Saúde. Diretrizes metodológicas: elaboração de revisão sistemática e metanálise de estudos observacionais comparativos sobre fatores de risco e prognóstico. Brasília, 2014 — anexo com o checklist de Downs and Black adaptado, domínio de variável de confusão.

Categorias separadas — viés é erro sistemático, confundimento é mistura de efeitos

Na enumeração das explicações possíveis para uma associação observada, erro sistemático decorrente de aspectos metodológicos do estudo e confundimento pelo efeito de outras variáveis aparecem como itens distintos da mesma lista. A separação tem consequência prática: o texto recomenda estratégias estatísticas para controlar ou ajustar a análise pelos fatores de confusão, tratamento que não se oferece ao erro sistemático de método.

Fumo-dos-Santos C, Ferreira JC. Lidando com fatores de confusão em estudos observacionais. J Bras Pneumol. 2023;49(4):e20230281 — seção sobre inferência causal em estudos observacionais, itens 4 e 5.

Na prova

O vocabulário do enunciado entrega a régua que ele quer. Questão que fala em 'tipos de viés' e lista seleção, aferição e confundimento como três itens da mesma lista está usando o guarda-chuva amplo — e ali confundimento é uma espécie de viés. Questão que pergunta 'qual das alternativas descreve um erro que a análise ainda pode corrigir' está usando a régua estreita, em que confundimento se separa do viés justamente por essa propriedade. A distinção que nunca muda, e que resolve as duas leituras, é a operacional: viés de seleção e de aferição já entraram nos dados coletados e só o desenho os evita; confundimento pode ser controlado na análise, desde que a variável tenha sido medida. Quando a alternativa depender de saber se confundimento 'é viés', responda pela consequência prática, não pelo rótulo.

A partir de que risco relativo o sistema GRADE considera o efeito grande

Faixa fechada do manual brasileiro — de 2 a 5 eleva um nível

O quadro sobre consequências da magnitude do efeito fixa duas faixas: risco relativo maior ou igual a 2 e menor ou igual a 5 (ou entre 0,2 e 0,5) é magnitude de efeito grande e eleva a certeza em um nível; risco relativo maior que 5 (ou menor que 0,2) é magnitude muito grande e eleva em dois níveis. Por essa leitura, um risco relativo de exatamente 5,00 eleva um nível, e um de exatamente 2,00 já entra na faixa de efeito grande. O texto corrido da mesma seção, porém, escreve os limiares como maior que 2 e maior que 5, o que deixaria o valor 2,00 sem faixa.

Brasil. Ministério da Saúde. Diretrizes metodológicas: Sistema GRADE, 2ª edição revista, ampliada e atualizada — seção sobre grande magnitude de efeito e o quadro que a acompanha.

Formulação original — 'ao menos' o dobro e 'ao menos' o quíntuplo

O trabalho que o manual brasileiro indica como origem do quadro enuncia os limiares com a expressão 'ao menos': elevar um nível quando estudos observacionais metodologicamente rigorosos mostram ao menos o dobro de redução ou aumento de risco, e elevar dois níveis quando mostram ao menos o quíntuplo. Por essa formulação, um risco relativo de exatamente 5,00 já satisfaz o critério do quíntuplo e elevaria dois níveis — não um, como resulta da faixa fechada do quadro brasileiro.

Guyatt GH, Oxman AD, Sultan S, Glasziou P, Akl EA, Alonso-Coello P, et al. GRADE guidelines: 9. Rating up the quality of evidence. J Clin Epidemiol. 2011 (PMID 21802902) — resumo estruturado.

Na prova

Questão que cobra o limiar quase sempre entrega um risco relativo bem dentro de uma das faixas — 3,5, 7, 0,3 — e nesse caso as duas leituras coincidem e não há problema. O cuidado é com o valor exatamente no limite. Diante de risco relativo de 2,00 ou de 5,00, use a faixa do quadro do manual brasileiro, que é a régua operacional publicada em português: de 2 a 5 eleva um nível, acima de 5 eleva dois. E guarde a trava que o manual coloca em seguida, porque ela cai mais que o número: não se eleva a certeza de evidência que já foi rebaixada por limitação metodológica, nem se eleva por magnitude quando o intervalo de confiança é largo.

06

Caso resolvido

Uma operadora de saúde divulga o resultado do seu programa de telemonitoramento de insuficiência cardíaca. Foram 2.000 pacientes acompanhados por um ano: 1.000 entraram no programa e 1.000 não entraram. Morreram 136 pacientes entre os monitorados e 80 entre os não monitorados. A imprensa noticia que o programa aumentou a mortalidade em 70%. A diretoria clínica pede que você leia os dados antes de suspender o programa. A operadora fornece a mesma tabela separada por classe de risco na entrada, definida pelo escore usado na admissão do paciente ao plano: entre os 1.000 monitorados, 800 eram de alto risco e 200 de baixo risco; entre os 1.000 não monitorados, 200 eram de alto risco e 800 de baixo risco. Os óbitos foram: alto risco, 128 entre os 800 monitorados e 40 entre os 200 não monitorados; baixo risco, 8 entre os 200 monitorados e 40 entre os 800 não monitorados.
medida bruta
Mortalidade nos monitorados: 136 dividido por 1.000, ou 13,6%. Nos não monitorados: 80 dividido por 1.000, ou 8,0%. Risco relativo bruto igual a 13,6 dividido por 8,0, ou seja, 1,70 — os 70% de excesso da manchete. A soma confere: 136 mais 80 dá 216 óbitos no total.
candidata a confundidora
A classe de risco na entrada cumpre os três critérios. Está associada à exposição, e fortemente: 80% dos monitorados eram de alto risco contra 20% dos não monitorados — o programa foi oferecido a quem tinha mais risco, que é o que qualquer serviço faria. É causa do desfecho: entre os não monitorados, morreram 40 de 200 no alto risco (20,0%) contra 40 de 800 no baixo risco (5,0%), quatro vezes mais. E não está na via causal entre o programa e o óbito, porque foi medida na admissão, antes de qualquer decisão sobre monitorar.
medida dentro de cada estrato
Alto risco: 128 de 800 monitorados morreram, 16,0%; 40 de 200 não monitorados, 20,0%. Risco relativo igual a 16,0 dividido por 20,0, ou 0,80. Baixo risco: 8 de 200 monitorados, 4,0%; 40 de 800 não monitorados, 5,0%. Risco relativo igual a 4,0 dividido por 5,0, ou 0,80. Os dois estratos entregam exatamente o mesmo número.
leitura do padrão
Os estratos concordam entre si (0,80 e 0,80) e discordam do bruto (1,70). Esse é o padrão do confundimento, e não o da modificação de efeito — se fosse modificação, os estratos discordariam entre si. A estimativa bruta é artefato da distribuição desigual da classe de risco entre os grupos, e o número que responde à pergunta é 0,80.
estimativa combinada
Combinando os estratos pela ponderação de Mantel-Haenszel, o numerador soma 128 vezes 200 dividido por 1.000, igual a 25,6, com 8 vezes 800 dividido por 1.000, igual a 6,4 — total 32,0. O denominador soma 40 vezes 800 dividido por 1.000, igual a 32,0, com 40 vezes 200 dividido por 1.000, igual a 8,0 — total 40,0. O risco relativo ajustado é 32,0 dividido por 40,0, ou seja, 0,80, o mesmo dos dois estratos, como tinha de ser.
nome do fenômeno
Confundimento por indicação: o programa foi indicado por causa da gravidade, e a comparação bruta atribuiu ao programa a mortalidade que pertencia à gravidade. A inversão completa de direção entre a medida bruta e as medidas de todos os estratos é o que se costuma chamar de paradoxo de Simpson — que não é paradoxo nenhum, e sim confundimento forte o bastante para trocar o sinal.
conduta
Não suspender o programa com base na manchete e devolver à diretoria a leitura estratificada, deixando registrado o que estes dados ainda não resolvem. Este é um estudo observacional, e a classe de risco na admissão é apenas o confundidor que foi medido: sobra confundimento residual por tudo o que o escore não captura — suporte familiar, adesão prévia, comorbidade não pontuada. A recomendação metodológica é pedir a comparação ajustada por mais covariáveis e, para decisão de expansão, um desenho com alocação sorteada por unidade, que é o único que lida com o confundidor que ninguém mediu.
07

Agora feche você

Um município avaliou um programa de prevenção de quedas em idosos cadastrados na atenção primária, com alocação sorteada por unidade de saúde. Foram 2.000 participantes, 1.000 no programa e 1.000 no cuidado habitual, com a mesma distribuição etária nos dois braços: 500 pessoas abaixo de 75 anos e 500 a partir de 75 anos em cada braço. No ano de seguimento, caíram 223 pessoas no braço do programa e 260 no cuidado habitual. Abaixo de 75 anos, caíram 55 das 500 do programa e 100 das 500 do cuidado habitual. A partir de 75 anos, caíram 168 das 500 do programa e 160 das 500 do cuidado habitual. A coordenação de atenção primária quer saber que número colocar no relatório.
achado
Risco relativo bruto de 0,86 (22,3% contra 26,0%). Abaixo de 75 anos, risco relativo de 0,55 (11,0% contra 20,0%). A partir de 75 anos, risco relativo de 1,05 (33,6% contra 32,0%). A idade está igualmente distribuída entre os dois braços, porque a alocação foi sorteada.
leitura e o que relatar
08

Onde a banca derruba

  1. 1Responder ao viés com tamanho de amostra A alternativa diz que o achado é robusto porque o estudo tem dezenas de milhares de participantes, ou que a limitação metodológica 'se dilui' no tamanho. Amostra grande reduz erro aleatório e não toca em erro sistemático: entrega o número errado com intervalo de confiança estreito, que é pior do que entregá-lo com intervalo largo, porque agora parece confiável.
  2. 2Ajustar por uma variável que está na via causal Parece rigor colocar no modelo tudo o que se mediu. Se a variável é mediadora — a pressão alta entre a apneia obstrutiva do sono e a doença cardiovascular —, ajustar por ela retira do resultado exatamente o caminho pelo qual a exposição age, e o efeito real aparece encolhido ou desaparece. O terceiro critério da definição de confundidor existe justamente para barrar isso.
  3. 3Escolher confundidor pelo valor de p Rodar as variáveis, ver quais 'deram significativas' e colocar essas no modelo é a prática que a fonte brasileira desaconselha por escrito: confundidor se identifica por conhecimento clínico prévio, fisiopatologia e modelo causal. A seleção por significância entra em mediadores por acidente e deixa de fora confundidores fracos que, somados, importam.
  4. 4Ler o valor de p como probabilidade de o achado ser acaso Um p de 0,013 não significa 1,3% de chance de a associação ser obra do acaso, nem 98,7% de chance de ela ser real. Significa que, se a hipótese nula fosse verdadeira, resultado ao menos tão extremo apareceria em 1,3% das repetições. A inversão é frequente até em texto de metodologia, e a alternativa que a oferece está errada mesmo quando o resto do enunciado está correto.
  5. 5Tratar estudo negativo com instrumento ruim como prova de segurança Se o erro de medida atingiu igualmente os dois grupos e a exposição foi classificada em duas categorias, a estimativa aparente tende a se aproximar de 1 — associação subestimada por construção. Um resultado nulo obtido assim é inconclusivo, não tranquilizador. O raciocínio se inverte quando o estudo, apesar do instrumento ruim, ainda encontrou associação forte: aí o achado é mais crível, porque o erro trabalhava contra ele.
  6. 6Ajustar a interação para fora e relatar uma média Quando os estratos discordam entre si — a intervenção com risco relativo de 0,55 abaixo de 75 anos e 1,05 a partir de 75 —, a estimativa ajustada única de 0,86 não descreve nenhum dos dois grupos. Isso é modificação de efeito, não confundimento, e o achado principal do estudo é justamente a diferença entre os estratos. Só se ajusta para fora aquilo que distorce; o que é real se exibe.
  7. 7Transportar para a rede básica um resultado de centro de referência O estudo pode ser internamente impecável e ainda assim não descrever o que aconteceria no hospital geral do município, porque a equipe, o volume e as instalações que produziram aquele resultado não são as disponíveis. O checklist de qualidade publicado pelo Ministério da Saúde pergunta isso explicitamente no domínio de validade externa, e o sistema GRADE rebaixa a certeza por evidência indireta no mesmo cenário.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Uma variável associada à exposição e independentemente ao desfecho, sem estar na cadeia causal, é um confundidor, controlado por estratificação, análise multivariada ou pareamento (correta). Viés de memória ocorre em estudos retrospectivos por lembrança diferencial. Viés de aferição vem de erro na medida. Viés de perda de seguimento ocorre por saídas diferenciais da coorte. Modificação de efeito descreve efeito que varia entre estratos, fenômeno biológico distinto do confundimento, que é distorção a ser corrigida.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

Sorteando as questões…

Quer treinar mais nesse tema? Estas questões vêm do nosso banco — lá tem milhares, com simulado, maratona e estatística de acerto por área.

Criar conta grátis e continuar →
10

Plano de revisão

em 7 dias

Sem olhar, recite as cinco explicações possíveis para uma associação e diga qual delas o tamanho da amostra resolve. Depois diga os três critérios do confundidor e o que acontece quando falha o terceiro. Feche com a leitura dos estratos: estratos que concordam entre si e discordam do bruto são confundimento, e o número a usar é o ajustado; estratos que discordam entre si são modificação de efeito, e o número a usar são os dois.

em 30 dias

Pegue o exemplo do telemonitoramento e refaça as contas do zero: as duas mortalidades brutas, as quatro mortalidades por estrato, os dois riscos relativos estratificados e a combinação de Mantel-Haenszel. Depois mude só um número — troque a distribuição de risco entre os grupos para 50% e 50% — e veja o bruto colar no ajustado, o que prova que o confundimento vinha da distribuição desigual. Em seguida, escreva de memória os cinco domínios de rebaixamento e os três de elevação do sistema GRADE, dizendo ao lado de cada um o nome clássico do mesmo problema. Termine listando três formas de viés de seleção que nenhum ajuste conserta e explicando por que não conserta.

11

Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Uma paciente de 62 anos, hipertensa e em uso regular de medicação, chega à consulta de rotina na UBS com a impressão de um texto de internet que ela leu no fim de semana. O texto cita um estudo mostrando que quem toma o remédio que ela usa morre mais, e ela já suspendeu a medicação por conta própria há quatro dias. Conduza a consulta, avalie o que a suspensão provocou e explique a ela, sem jargão, por que um estudo pode mostrar mais mortes no grupo tratado sem que o tratamento seja a causa. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Vieses, confundimento e validade em estudos epidemiológicos – Viés, confundimento e validade — Preparatório para provas | OsceLabs