Outras EspecialidadesEpidemiologia e bioestatística

Transição demográfica e epidemiológica

Envelhecimento, carga de doença e dupla transição

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Um município apresenta os seguintes dados de mortalidade por causas em determinado ano: doenças cardiovasculares (35%), neoplasias (20%), causas externas (15%), doenças respiratórias (10%) e demais causas (20%). Esse perfil, com predomínio de doenças crônicas não transmissíveis somado à carga de causas externas e persistência de algumas infecções, caracteriza qual fenômeno epidemiológico?

02

Como esse tema cai

Transição demográfica e transição epidemiológica são dois processos distintos que a prova quase sempre cobra juntos, e por um motivo: o primeiro explica o segundo. Quando a fecundidade despenca e a sobrevivência aumenta, a população envelhece; quando a população envelhece, o perfil de adoecimento e de morte muda de lugar. O enunciado típico entrega uma pirâmide etária, uma série de taxas ou uma tabela de causas de óbito e pede três coisas: em que fase da transição aquela população está, que nome tem o padrão brasileiro e o que esse padrão exige do serviço de saúde.

A segunda camada é numérica e brasileira. O Censo Demográfico 2022, as Tábuas de Mortalidade 2024 e as Projeções de População 2024 do IBGE, somados ao Plano de Ações Estratégicas para o Enfrentamento das Doenças Crônicas e Agravos Não Transmissíveis 2021-2030 do Ministério da Saúde, dão a régua atual: quantos filhos por mulher, quantos anos de vida esperados, que fração da população tem menos de 15 e mais de 60 anos, e de que os brasileiros morrem em cada faixa etária. Esses números são o que separa a resposta decorada da resposta que sustenta um argumento.

Fica de fora o que já tem endereço próprio. Como se calcula cada coeficiente, com numerador, denominador e multiplicador, e a diferença entre incidência, prevalência, mortalidade proporcional e risco, está no capítulo de medidas de frequência e indicadores de saúde. De onde vem cada dado, com sim, Sinasc, Sinan, prazos e correções, está no capítulo de sistemas de informação em saúde e indicadores de mortalidade. E o modelo em camadas que explica por que renda, escolaridade e território produzem adoecimento diferente está no capítulo de determinantes sociais da saúde. Aqui o assunto é o processo: o que muda, em que ordem, em quanto tempo e com que consequência.

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O que muda decisão

Duas curvas que descem em tempos diferentes

A teoria da transição demográfica foi formulada nas primeiras décadas do século XX, a partir da observação de países europeus, e descreve a passagem de uma sociedade rural e tradicional, com natalidade e mortalidade altas, para uma sociedade urbana e moderna, com natalidade e mortalidade baixas. O ponto central da teoria não é que as duas taxas caem: é que elas caem em momentos diferentes, e o descompasso entre elas é o que produz tudo o mais.

Antes da transição, natalidade alta e mortalidade alta e flutuante se anulam: o crescimento vegetativo é baixo e a estrutura etária é jovem. Na primeira fase, a mortalidade cai e a natalidade permanece alta, o crescimento populacional acelera e a estrutura fica ainda mais jovem, porque quem passou a sobreviver foram sobretudo as crianças. Na segunda fase, a natalidade começa a cair e a mortalidade continua caindo: o ritmo de crescimento desacelera e a estrutura etária inicia a grande transformação, com aumento expressivo da população em idade ativa, reflexo dos nascimentos abundantes do passado. Na fase final, as duas taxas se aproximam em patamares baixos, o crescimento estagna e o envelhecimento se torna a marca da estrutura.

Vale fixar a inversão de intuição que a banca gosta de cobrar: a explosão populacional de um país em transição não vem de as pessoas passarem a ter mais filhos. Vem de as pessoas pararem de morrer cedo enquanto ainda têm o mesmo número de filhos de antes. O crescimento é máximo exatamente no meio do caminho, e não no início nem no fim.

Duas advertências herdadas do próprio debate teórico. A primeira: o desenvolvimento econômico não é condição necessária para a queda das taxas, tese levantada em meados do século XX e rejeitada pela experiência dos países que transitaram sem industrializar-se antes. A segunda: o tempo de travessia entre os dois equilíbrios varia de mais de um século a poucas décadas, e fases diferentes da transição podem coexistir dentro de uma mesma sociedade. É por isso que a pergunta sobre em que fase o Brasil está só tem resposta honesta quando se declara de que Brasil se fala.

Gráfico com duas curvas descendentes: a de mortalidade começa a cair antes da de natalidade, e a área entre as duas, destacada, representa o crescimento populacional acelerado da fase intermediária.
A população cresce no vão entre as duas curvas. Quem desce primeiro é a mortalidade; a natalidade só a acompanha uma ou duas gerações depois.

O Brasil de 1940 a 2070, em números

A travessia brasileira é recente e foi rápida. Nas décadas de 1950 e 1960 o país combinava queda da mortalidade com natalidade acima de 40 nascimentos por mil habitantes e mais de seis filhos por mulher, e registrou as maiores taxas de crescimento de sua história: 3,1% ao ano nos anos 1950 e 2,9% nos anos 1960. A taxa de fecundidade total era de 6,28 filhos por mulher em 1960. Em 1970 ainda estava em 5,8; caiu a 4,4 em 1980, a 2,9 em 1991 e cruzou o nível de reposição de 2,1 filhos por mulher antes de 2010. O Censo 2022 mediu 1,55 filho por mulher, o menor valor já registrado no país.

A mortalidade percorreu o caminho equivalente. A esperança de vida ao nascer era de 45,5 anos em 1940, chegou a 62,5 em 1980, a 71,1 em 2000 e a 76,6 anos em 2024. A taxa de mortalidade infantil saiu de 146,6 óbitos por mil nascidos vivos em 1940 para 69,1 em 1980, 28,1 em 2000 e 12,3 por mil em 2024. Em números redondos: o país acrescentou 31,1 anos de vida esperada e cortou nove em cada dez mortes de menores de um ano em pouco mais de oito décadas.

A pandemia deixou marca visível nessa série e é material de enunciado. A esperança de vida ao nascer recuou de 76,2 anos em 2019 para 74,8 em 2020 e 72,8 em 2021, três anos e meio devolvidos de uma vez; voltou a 75,4 em 2022, a 76,4 em 2023 e a 76,6 em 2024. Foram cinco anos para reaver o que se perdeu em dois. O indicador é uma síntese das taxas de mortalidade de todas as idades naquele ano, e por isso reage a um choque de mortalidade adulta com uma velocidade que a intuição não espera.

O horizonte já está projetado. Segundo as Projeções de População 2024 do IBGE, as primeiras a incorporar o Censo 2022, a população brasileira para de crescer em 2041, quando atinge 220.425.299 habitantes, e recua para 199.228.708 em 2070. A fecundidade continua caindo até o mínimo de 1,44 filho por mulher em 2041 e depois sobe de leve, a 1,50 em 2070. O número de nascimentos por ano passou de 3.572.865 em 2000 para 2.574.542 em 2022 e deve chegar a 1.488.161 em 2070. A proporção de pessoas com 60 anos ou mais, que era de 8,7% em 2000 e de 15,6% em 2023, chega a 37,8% em 2070.

A velocidade é o que distingue o caso brasileiro do europeu, e é o argumento que a prova cobra em forma de comparação: a França levou 115 anos para dobrar a proporção de idosos em sua população, de 7,0% para 14,0%; o Brasil fez a mesma passagem proporcional em cerca de 40 anos, de 5,1% para 10,8%. Envelhecer devagar permite construir aposentadoria, serviço geriátrico e cuidado de longa duração ao longo de gerações. Envelhecer em quatro décadas obriga a fazer tudo isso ao mesmo tempo, e sem ter terminado de resolver a agenda anterior.

A estrutura etária de 2022, e os dois índices que se parecem

O Censo Demográfico 2022 contou 203.080.756 residentes. A distribuição por grandes grupos etários, somada a partir da tabela de população por idade, dá 40.129.261 pessoas com menos de 15 anos (19,8%), 130.838.005 entre 15 e 59 anos (64,4%) e 32.113.490 com 60 anos ou mais (15,8%). Recortando pelo limiar internacional, são 22.169.101 pessoas com 65 anos ou mais, ou 10,9% da população. A comparação com os censos anteriores dá a dimensão do movimento: as crianças de até 14 anos eram 38,2% da população em 1980 e 24,1% em 2010, ou seja, um em cada quatro brasileiros, e são 19,8% em 2022, um em cada cinco. As pessoas de 65 anos ou mais eram 4,0% em 1980, 7,4% em 2010 e 10,9% em 2022.

A mediana da estrutura etária resume o deslocamento em um número só: ela divide a população em duas metades de igual tamanho. No Brasil, a idade mediana passou de 29 anos em 2010 para 35 anos em 2022, e o movimento aparece em todas as regiões, do Norte (de 24 para 29 anos) ao Sudeste (de 31 para 37). Somando as faixas quinquenais do Censo 2022 da mais jovem para a mais velha, o acumulado de fato cruza a metade da população dentro do grupo de 35 a 39 anos. A idade média da população, indicador diferente e também publicado pelo IBGE, era de 28,3 anos em 2000, de 35,5 em 2023 e deve alcançar 48,4 anos em 2070.

Dois indicadores resumem esse quadro e são cobrados aos pares. O índice de envelhecimento é o número de idosos para cada 100 crianças e adolescentes; a razão de dependência é o número de dependentes para cada 100 pessoas em idade potencialmente produtiva. São perguntas diferentes: o primeiro compara os dois extremos da pirâmide entre si, o segundo compara os extremos com o meio.

No Censo 2022, com o corte de 65 anos, o índice de envelhecimento é de 55,2 idosos para cada 100 pessoas de 0 a 14 anos; em 2010, com os mesmos 7,4% e 24,1%, era de 30,7. Com o corte de 60 anos adotado nos indicadores brasileiros de saúde, o mesmo índice sobe para 80,0 em 2022, contra 44,8 em 2010. E a razão de dependência calculada na definição brasileira, somando menores de 15 e pessoas de 60 anos ou mais sobre a população de 15 a 59 anos, dá 55,2 dependentes por 100 pessoas em idade ativa. Os dois indicadores caem sobre o mesmo 55,2 arredondado, 55,24 e 55,22 antes do arredondamento, e não têm nada em comum além da coincidência. Quem memoriza o número sem o denominador erra a questão que pede o outro.

Duas pirâmides etárias lado a lado: a de 1970, triangular e de base larga, e a de 2022, com base estreita, meio abaulado e topo mais espesso.
A mesma população, meio século depois. A base estreita não é perda de crianças: é a chegada de coortes menores, nascidas de uma fecundidade que caiu de 5,8 para 1,55 filho por mulher.

Bônus demográfico: a janela que já virou

Entre a queda da fecundidade e a chegada do envelhecimento existe um intervalo em que a razão de dependência é mínima: já nasceram poucas crianças, mas os idosos ainda são poucos, e a população em idade ativa é proporcionalmente a maior que aquele país terá. É o bônus demográfico, também chamado de janela de oportunidade. Não é uma política, é uma aritmética: acontece uma vez na história de cada sociedade e depois se fecha.

No Brasil a razão de dependência atingiu o máximo em 1960, com 90,0 dependentes por 100 pessoas de 15 a 59 anos, e o peso era quase todo juvenil, 81,0 dos 90,0. De lá em diante caiu de forma contínua: 79,5 em 1980, 72,5 em 1991 e 53,6 em 2010, o piso da série. Nesse ponto o componente juvenil já havia desabado para 37,0 e o componente idoso subido para 16,6.

O Censo 2022 mostra a curva virando. Aplicando a mesma definição aos dados de 2022, o componente juvenil cai mais 6,3 pontos, para 30,7, mas o componente idoso sobe 7,9 pontos, para 24,5, e a razão de dependência total volta a subir, de 53,6 para 55,2. A conta fecha exatamente: a alta de 1,6 ponto é a diferença entre os dois movimentos. O bônus demográfico brasileiro passou do ponto de inflexão em algum momento entre os dois censos; o que se ganha agora com menos crianças já é menor do que o que se gasta com mais idosos.

A leitura clínica dessa virada é direta. O sistema de saúde que se organizou para atender pré-natal, puericultura e doença aguda de criança passa a receber, no mesmo território e com o mesmo financiamento, multimorbidade, polifarmácia, reabilitação e cuidado de longa duração. E o faz num país que ainda registra 12,3 óbitos infantis por mil nascidos vivos, mais que o dobro do que se projeta para 2070, e que ainda não zerou a agenda das doenças infecciosas.

Omran: as três eras, e a quarta que veio depois

Em 1971, Abdel Omran deu nome ao processo que descreve a mudança dos padrões de saúde e doença que acompanha a transição demográfica: transição epidemiológica. A formulação organiza a história em três eras sucessivas. A Era da Fome e das Pestilências, do início dos tempos históricos ao fim da Idade Média, com natalidade alta, mortalidade alta por doenças infecciosas endêmicas e epidemias de caráter pandêmico, esperança de vida em torno de 20 anos e crescimento demográfico lento. A Era do Declínio das Pandemias, da Renascença ao início da Revolução Industrial, com desaparecimento progressivo das grandes pandemias, esperança de vida chegando aos 40 anos e mortalidade caindo a patamares de 30 por mil enquanto a natalidade seguia acima de 40 por mil, o que abriu o longo período de crescimento populacional. E a Era das Doenças Degenerativas e das Produzidas pelo Homem, da Revolução Industrial em diante, com declínio das infecciosas que começou décadas antes das sulfas e dos antibióticos, esperança de vida alcançando os 70 anos e as doenças cardiovasculares e as neoplasias malignas assumindo o topo das causas de morte.

Em 1986, Olshansky e Ault propuseram uma quarta era a partir da observação dos Estados Unidos: a Era do Retardamento das Doenças Degenerativas. Nela, a mortalidade cai nas idades mais avançadas porque as mesmas doenças crônicas passam a matar mais tarde, a esperança de vida ultrapassa os 80 anos e o desafio se desloca para a seguridade social e para o cuidado de quem vive muitos anos com doença controlada.

Duas proposições da teoria original importam para a prova além da lista de eras. A primeira: durante a transição, as mudanças mais profundas nos padrões de saúde e doença ocorrem nas crianças e nas mulheres jovens. São elas que deixam de morrer primeiro, e é por isso que a mortalidade infantil e a mortalidade materna são os indicadores que mais se movem no começo do processo. A segunda: a própria teoria previa modelos diferentes de transição, e não um caminho único. Omran distinguiu o modelo clássico ou ocidental, o modelo acelerado e o modelo contemporâneo ou prolongado. O Brasil não é uma exceção à teoria; é um dos modelos que ela já antecipava.

O modelo brasileiro: polarização prolongada

Vinte anos depois de Omran, Frenk e colaboradores descreveram para a América Latina um modelo próprio, o polarizado prolongado, definido por quatro traços simultâneos. Superposição de etapas: incidência alta e concomitante de doenças das duas fases, pré e pós-transicional, em vez de substituição de uma pela outra. Contra-transição: ressurgimento de doenças infecciosas que já haviam sido controladas. Transição prolongada: processo inconcluso, com o país estacionado num estado de morbidade mista, sem chegar ao equilíbrio final. E polarização epidemiológica: níveis diferentes de transição convivendo entre regiões e entre grupos sociais de um mesmo país.

A descrição do Brasil dos anos 1990 tornou os quatro traços visíveis de uma vez. A mortalidade proporcional por doenças infecciosas e parasitárias havia caído de 45,7% em 1930 para 7,97% em 1986, e as doenças do aparelho circulatório já respondiam por 33,5% dos óbitos, o que, isolado, sugeriria a terceira era de Omran cumprida. Ao mesmo tempo, persistiam altas prevalências de doença de Chagas e esquistossomose, a malária se concentrava na Amazônia com 95,0% dos 533.360 casos confirmados em 1990 e 1991, a cólera foi reintroduzida em 1991, a hanseníase crescia e a aids, cujo primeiro caso ocorrera em 1980, acumulava 25.000 casos registrados em 1992. Não era uma era substituindo a outra: eram as duas ao mesmo tempo.

A polarização geográfica e social é a parte mais cobrada, porque é a que muda a conduta. Em 1980, a taxa de mortalidade infantil era de 48,9 por mil nascidos vivos na região Sul e de 122,5 por mil no Nordeste. As causas mal definidas, que medem falta de assistência médica antes de medirem qualquer doença, respondiam por 45,5% dos óbitos no Nordeste e por 8,9% no Sudeste. Regiões de um mesmo país exibiam, no mesmo ano, indicadores de países desenvolvidos e indicadores dos países mais pobres do hemisfério sul.

Essa desigualdade não é história encerrada. As transições de fecundidade e de mortalidade avançaram em todas as regiões, mas em ritmos distintos. Em 1970, Norte e Nordeste ainda estavam em pré-transição, com 8,15 e 7,53 filhos por mulher, enquanto Sudeste, Sul e Centro-Oeste já haviam iniciado a queda; ao fim daquela década, Sudeste e Sul estavam em torno de 3,5 filhos por mulher e as outras duas regiões ainda acima de 6. Em 2023 a fecundidade ia de 1,83 no Norte a 1,48 no Sudeste, e de 2,26 em Roraima a 1,39 no Rio de Janeiro. O mesmo desencontro aparece na estrutura etária de 2022: a idade mediana é de 29 anos no Norte e de 37 no Sudeste, e a proporção de crianças de até 14 anos vai de 25,2% no Norte a 18,0% no Sudeste. O país inteiro atravessou, mas não chegou junto, e é essa defasagem, e não uma média nacional, que descreve o que cada equipe encontra no próprio território.

De que o Brasil morre hoje, e por que a idade muda a resposta

O Plano de Ações Estratégicas para o Enfrentamento das Doenças Crônicas e Agravos Não Transmissíveis 2021-2030 fixa o retrato atual: em 2019, 54,7% dos óbitos registrados no Brasil foram causados por doenças crônicas não transmissíveis e 11,5% por agravos, isto é, violências e acidentes. Somados, os dois grupos respondem por 66,2% de tudo o que mata no país, dois terços dos óbitos numa única linha de argumento.

O ranking das causas básicas por capítulo da CID-10, no Sistema de Informações sobre Mortalidade de 2019, tem no total as doenças do aparelho circulatório em primeiro lugar, com 364.132 óbitos, seguidas das neoplasias (235.301), das doenças do aparelho respiratório (162.005), das causas externas (142.800), das doenças endócrinas (83.483) e das causas mal definidas (74.972). Esse é o ranking geral, e é a leitura que a banca usa para armar a pegadinha.

Porque, quebrado por faixa etária, o mesmo dado conta outra história. As causas externas são a primeira causa de morte dos 10 aos 49 anos, em três faixas consecutivas: 13.384 óbitos entre 10 e 19 anos, 32.100 entre 20 e 29 e 43.961 entre 30 e 49. Só a partir dos 50 anos as doenças do aparelho circulatório assumem o topo e não o largam mais. Nos menores de 10 anos, quem lidera são as afecções do período perinatal, com 20.269 óbitos, seguidas das malformações. Um perfil epidemiológico nacional é a soma de perfis etários muito diferentes, e responder aparelho circulatório para uma pergunta sobre adulto jovem é errar por ignorar o recorte de idade.

A mortalidade prematura por doenças crônicas, definida na faixa de 30 a 69 anos, é o indicador que o Ministério da Saúde monitora, e a meta pactuada é reduzi-la em um terço até 2030. O ritmo observado não acompanha: a taxa bruta de mortalidade prematura por essas doenças foi de 315,5 por 100 mil habitantes em 2010, 305,0 em 2015 e 300,8 em 2019, uma queda de 14,7 pontos em nove anos, cerca de 1,63 ponto por ano, ou 4,7% do valor inicial em todo o período. Reduzir um terço em uma década exige um ritmo várias vezes maior que esse.

A transição nutricional é o motor mais visível dessa carga. Entre a Pesquisa de Orçamentos Familiares de 2002 e 2003 e a Pesquisa Nacional de Saúde de 2019, a obesidade entre pessoas de 20 anos ou mais passou de 12,2% para 26,8%, e o excesso de peso, de 43,3% para 61,7%. Em 2019, considerando a população de 18 anos ou mais, 25,9% estavam obesas, o que corresponde a 41,2 milhões de pessoas, e 60,3% tinham excesso de peso. O contraste com o Brasil das endemias rurais e da desnutrição, dentro da mesma vida de um adulto, é a tradução clínica da superposição de etapas: o país trocou parte de uma carga por outra sem ter fechado a primeira.

04

Situar uma população na transição a partir da pirâmide e de dois indicadores

O caminho abaixo transforma uma pirâmide etária, ou uma tabela de população por grupos de idade, em juízo sobre a fase da transição demográfica e sobre o que aquele território exige do serviço. Ele começa pela forma, confirma com dois indicadores e só então cruza com o perfil de causas de morte, que é o que liga a transição demográfica à epidemiológica.

  1. 1Olhe primeiro a base da pirâmide, não o topo: base larga com lados retos indica fecundidade ainda alta; base mais estreita que a barra acima dela indica que a fecundidade caiu na última década.
  2. 2Some a população em três blocos, menores de 15, de 15 a 59 e 60 anos ou mais, e calcule as três proporções. Menos de 20% de menores de 15 anos e mais de 15% de idosos descrevem uma população que já saiu da fase de crescimento acelerado.
  3. 3Calcule o índice de envelhecimento, idosos sobre menores de 15, e declare qual corte de idade está usando. Acima de 100 há mais idosos que crianças naquele território.
  4. 4Calcule a razão de dependência e decomponha-a em juvenil e idosa. Razão baixa com componente juvenil maior indica bônus demográfico em curso; razão que volta a subir com componente idoso maior indica janela encerrada.
  5. 5Cruze com o perfil de causas de morte por faixa etária, e não só com o ranking geral, porque o ranking geral é dominado pelas faixas em que há mais óbitos.
  6. 6Verifique se doenças infecciosas, causas externas e doenças crônicas coexistem em patamares altos e se os indicadores variam muito entre bairros ou distritos: superposição e desigualdade interna são a assinatura da polarização prolongada.

Base larga, topo fino

Triângulo de lados retos e base muito ampla. Natalidade alta com mortalidade caindo: fase 1, crescimento acelerado, dependência alta e quase toda juvenil. O Brasil de 1950 a 1970.

Base já mordida

A primeira barra é menor que a segunda: a fecundidade caiu há pouco. Fase 2 iniciada, população em idade ativa engrossando, dependência em queda. Começa o bônus demográfico.

Perfil retangular

Base estreita, meio abaulado e topo já espesso. Bônus demográfico no fim ou recém-encerrado, dependência no piso e voltando a subir pelo componente idoso. O Brasil de 2022.

Topo mais largo que a base

As barras mais numerosas estão acima do meio. Fase final: crescimento nulo ou negativo, dependência alta de novo e agora predominantemente idosa. O Brasil projetado para depois de 2041.

As fases da transição demográfica e o que cada uma faz com a estrutura etária

FaseNatalidadeMortalidadeRitmo de crescimentoEstrutura etáriaRazão de dependência
Pré-transiçãoAlta e quase estávelAlta e flutuanteBaixoMuito jovemAlta, quase toda juvenil
Fase 1Alta, ainda sem quedaEm quedaMáximo da históriaFica ainda mais jovemMáxima. No Brasil, 90,0 em 1960, sendo 81,0 juvenil
Fase 2Começa a cairContinua caindoDesaceleraComeça a envelhecer; população em idade ativa cresceEm queda. Bônus demográfico. No Brasil, 53,6 em 2010
Fase finalBaixaBaixaEstagnado e depois negativoEnvelhecidaVolta a subir, agora pelo componente idoso. No Brasil, 55,2 em 2022

Índice de envelhecimento e razão de dependência: quatro números para a mesma população brasileira de 2022

IndicadorNumeradorDenominadorCenso 2022Onde esse corte é usado
Índice de envelhecimento (60+)População de 60 anos ou maisPopulação de menos de 15 anos80,0 por 100Indicadores brasileiros de saúde e Estatuto da Pessoa Idosa
Índice de envelhecimento (65+)População de 65 anos ou maisPopulação de 0 a 14 anos55,2 por 100Divulgação do Censo 2022 pelo IBGE e comparações internacionais
Razão de dependência (corte de 60)Menores de 15 mais os de 60 anos ou maisPopulação de 15 a 59 anos55,2 por 100Indicadores brasileiros de saúde
Razão de dependência (corte de 65)População de 0 a 14 mais a de 65 anos ou maisPopulação de 15 a 64 anos44,3 por 100Comparações internacionais

Idoso, no Brasil, tem duas fronteiras legítimas. Os indicadores brasileiros de saúde e o Estatuto da Pessoa Idosa usam 60 anos; o IBGE, nas divulgações do Censo e nas comparações internacionais, também publica o corte de 65 anos. O número muda muito: no Censo 2022 o índice de envelhecimento é 80,0 pelo primeiro corte e 55,2 pelo segundo.

Base estreita na pirâmide não significa que morreram crianças. Significa que nasceram menos. Mortalidade infantil alta encurta a barra seguinte, não a primeira, porque a pirâmide conta quem está vivo em cada idade.

Mortalidade proporcional alta por doenças crônicas pode ser efeito de estrutura etária envelhecida, e não de mais doença crônica. Duas populações com a mesma incidência de infarto exibem fatias diferentes se uma delas tem o dobro de idosos.

Proporção alta de causas mal definidas contamina toda a leitura do perfil: ela mede falta de assistência e de investigação do óbito antes de medir qualquer doença, e o que sobra de causas conhecidas fica distribuído sobre um total menor.

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Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Onde começa a velhice na conta do indicador: 60 ou 65 anos

60 anos, corte dos indicadores brasileiros de saúde

O estudo de referência sobre a transição demográfica brasileira publicado pelo Ministério da Saúde define índice de envelhecimento como o número de pessoas de 60 anos ou mais para cada 100 menores de 15 anos, e razão de dependência como a razão entre o segmento economicamente dependente, menores de 15 e pessoas de 60 anos ou mais, e o segmento potencialmente produtivo de 15 a 59 anos. Nesse desenho, o índice de envelhecimento brasileiro era de 44,8 em 2010; aplicado ao Censo 2022, dá 80,0, com razão de dependência de 55,2.

Vasconcelos AMN, Gomes MMF. Transição demográfica: a experiência brasileira. Epidemiologia e Serviços de Saúde (Ministério da Saúde), 2012;21(4):539-548 — seção Métodos, definição dos indicadores, e Tabela 1.

65 anos, corte das comparações internacionais

O IBGE apresenta a estrutura etária do Censo 2022 nos grupos de 0 a 14 e de 65 anos ou mais, que são os do padrão internacional: 19,8% e 10,9% em 2022, contra 24,1% e 7,4% em 2010. Desses percentuais sai um índice de envelhecimento de 55,2 em 2022 e de 30,7 em 2010. É também esse o corte que permite comparar o Brasil com séries de outros países, em que a idade ativa vai de 15 a 64 anos; sobre os mesmos dados de 2022, a razão de dependência nesse desenho cai para 44,3.

IBGE. Censo Demográfico 2022 — população residente por sexo e idade (Sidra, tabela 9514) e IBGE Educa, Conheça o Brasil / População / Pirâmide etária (resultados do Censo 2022).

Na prova

O enunciado quase sempre entrega o corte junto, e é ele que decide a resposta: quando aparece a expressão pessoa idosa em contexto de política brasileira, Estatuto ou indicador do SUS, a fronteira é 60 anos; quando o enunciado compara o Brasil com outros países ou cita população em idade ativa de 15 a 64 anos, a fronteira é 65. Se a questão dá a tabela por faixas quinquenais e pede o cálculo, o corte a usar é o que estiver escrito no comando, não o mais familiar.

Quanto as doenças crônicas pesam nos óbitos brasileiros: 73,9% ou 54,7%

73,9% em 2010, pela definição ampla de doença crônica não transmissível

O editorial do número especial da revista do Ministério da Saúde dedicado à transição registra que, em 2010, as doenças crônicas não transmissíveis responderam por 73,9% dos óbitos no Brasil, e que 80,1% desses óbitos se deveram a doença cardiovascular, câncer, doença respiratória crônica ou diabetes. A definição ampla inclui toda causa crônica não transmissível, e não apenas os quatro grupos prioritários.

Duarte EC, Barreto SM. Transição demográfica e epidemiológica: a Epidemiologia e Serviços de Saúde revisita e atualiza o tema. Epidemiologia e Serviços de Saúde, 2012;21(4):529-532.

54,7% em 2019, pelos quatro grupos prioritários

O Plano de Ações Estratégicas para o Enfrentamento das Doenças Crônicas e Agravos Não Transmissíveis 2021-2030 informa que, em 2019, 54,7% dos óbitos registrados no Brasil foram causados por doenças crônicas não transmissíveis e 11,5% por agravos. O plano declara os códigos que usa: C00-C97, E10-E14, I00-I99 e J30-J98 exceto J36, isto é, neoplasias, diabetes, doenças do aparelho circulatório e doenças respiratórias crônicas.

Ministério da Saúde, Secretaria de Vigilância em Saúde. Plano de Ações Estratégicas para o Enfrentamento das Doenças Crônicas e Agravos Não Transmissíveis no Brasil, 2021-2030 — Apresentação e nota metodológica das figuras 10 a 12.

Na prova

As duas cifras não descrevem uma queda de 19 pontos em nove anos: descrevem populações de causas diferentes. Aplicando ao dado de 2010 a própria decomposição do editorial, 73,9% multiplicados por 80,1% dão 59,2% dos óbitos nos quatro grupos prioritários, valor que se compara com os 54,7% de 2019 e mostra queda modesta e coerente. Na prova, o que decide é o comando: enunciado que fala em doenças crônicas em sentido amplo admite a casa dos 70%; enunciado que nomeia os quatro grupos, ou que cita o Plano de Dant, trabalha na casa dos 55%.

O mesmo ano com dois valores: séries revistas depois do Censo 2022

Valor publicado na época

As Tábuas de Mortalidade divulgadas em cada ano registraram esperança de vida ao nascer de 76,6 anos em 2019 e de 75,5 anos em 2022. Na mesma linha, o estudo do Ministério da Saúde sobre a transição demográfica registra, para 2010, esperança de vida de 73,5 anos, taxa de mortalidade infantil de 16,2 por mil e fecundidade de 1,9 filho por mulher, todos apurados a partir do Censo 2010.

IBGE. Tábuas Completas de Mortalidade, divulgações anuais — chamadas das edições de 2019 e de 2022; e Vasconcelos AMN, Gomes MMF, Epidemiologia e Serviços de Saúde, 2012;21(4):539-548, tabela 1.

Valor da série revista, recalculada sobre o Censo 2022

A tábua de 2024, construída sobre a projeção da população 2000-2070 que já incorpora o Censo 2022, refaz toda a série: 74,4 anos em 2010, 76,2 em 2019 e 75,4 em 2022. As Projeções de População 2024 refazem também a fecundidade, com 1,75 filho por mulher em 2010 e 1,57 em 2023, e a mortalidade infantil, com 15,0 por mil em 2010.

IBGE. Tábuas Completas de Mortalidade 2024, tabela de esperança de vida ao nascer 1940-2024; e IBGE, Projeções da População do Brasil 2024 (revisão 2000-2070).

Na prova

A diferença é de método, e não de discordância técnica: recenseamento novo muda o denominador de toda a série retrospectiva. O aviso prático é não comparar um número tirado de um documento de 2012 com outro tirado de um documento de 2025 e concluir que houve mudança real. Na prova, o valor esperado é o da fonte que o enunciado cita; quando o enunciado não cita fonte, vale a série vigente do IBGE, que hoje é a revista sobre o Censo 2022.

06

Caso resolvido

Um município do interior tem 24.000 habitantes. A equipe de saúde da família levanta a estrutura etária no diagnóstico de território: 3.600 pessoas com menos de 15 anos, 14.400 de 15 a 59 anos e 6.000 com 60 anos ou mais, das quais 4.200 têm 65 anos ou mais. O secretário municipal quer saber se o município é jovem ou envelhecido e o que isso muda no planejamento.
as três proporções
Menores de 15 anos: 3.600 em 24.000, ou 15,0%. De 15 a 59 anos: 14.400, ou 60,0%. De 60 anos ou mais: 6.000, ou 25,0%. O Brasil de 2022 tem 19,8%, 64,4% e 15,8%. O município tem menos crianças e bem mais idosos que a média nacional.
índice de envelhecimento, nos dois cortes
Com o corte de 60 anos: 6.000 divididos por 3.600, vezes 100, dão 166,7 idosos para cada 100 menores de 15 anos. Com o corte de 65 anos: 4.200 sobre 3.600 dão 116,7. Os dois números passam de 100, o que já responde a pergunta do secretário: há mais idosos que crianças no município, em qualquer das duas definições. No Brasil de 2022 esses índices são 80,0 e 55,2.
razão de dependência e sua decomposição
Dependentes: 3.600 mais 6.000, igual a 9.600. Sobre os 14.400 de 15 a 59 anos, vezes 100, dão 66,7 dependentes por 100 pessoas em idade ativa. Decompondo: componente juvenil de 25,0 (3.600 sobre 14.400) e componente idoso de 41,7 (6.000 sobre 14.400), que somam os mesmos 66,7. No Brasil de 2022 a razão é 55,2, com 30,7 juvenil e 24,5 idoso.
em que fase o município está
Razão de dependência acima da nacional, componente idoso maior que o juvenil e índice de envelhecimento acima de 100 descrevem uma população na fase final da transição, com o bônus demográfico já encerrado. É o oposto do Brasil de 1960, quando a razão de dependência era 90,0 com 81,0 de componente juvenil.
o que isso muda no serviço
A demanda esperada desloca-se de puericultura e doença aguda infantil para multimorbidade, hipertensão e diabetes, polifarmácia, avaliação de quedas, saúde mental do idoso e cuidado domiciliar de longa duração. Não é previsão: é a estrutura etária que a equipe já tem cadastrada.
07

Agora feche você

Um distrito sanitário com 200.000 habitantes registrou 1.200 óbitos no ano. Por grupo de causa: doenças do aparelho circulatório 384, neoplasias 240, causas externas 180, doenças do aparelho respiratório 156, causas mal definidas 144 e doenças infecciosas e parasitárias 96. A gestão pede uma leitura do perfil epidemiológico do distrito.
mortalidade proporcional por grupo de causas
Sobre o total de 1.200 óbitos: circulatório 32,0%, neoplasias 20,0%, causas externas 15,0%, respiratório 13,0%, mal definidas 12,0% e infecciosas e parasitárias 8,0%. As seis fatias somam 100,0%.
o que a fatia das infecciosas indica
8,0% de óbitos por doenças infecciosas e parasitárias é alto para um país que registrava 4,3% em 2010. Somado a um patamar de doença crônica já dominante, é a assinatura da superposição de etapas descrita no modelo polarizado prolongado: as duas agendas ativas ao mesmo tempo, e não uma substituindo a outra.
o que as causas mal definidas fazem com a leitura
coeficiente geral de mortalidade
1.200 óbitos em 200.000 habitantes dão 6,0 óbitos por mil habitantes no ano. É indicador de risco, e não de proporção, e por isso responde a uma pergunta diferente da que as fatias respondem.
08

Onde a banca derruba

  1. 1Ler esperança de vida ao nascer como a idade em que as pessoas morrem A esperança de vida ao nascer é uma síntese das taxas de mortalidade de todas as idades naquele ano, aplicada a um recém-nascido hipotético. Ela é puxada para baixo por toda morte precoce. Em 2024 ela foi de 76,6 anos no Brasil, mas quem chegou aos 60 tinha, em média, mais 22,6 anos pela frente, ou seja, expectativa de alcançar os 82,6. Os dois números convivem sem contradição, e o enunciado que os coloca lado a lado está testando exatamente isso.
  2. 2Achar que transição epidemiológica significa substituição No modelo clássico as doenças crônicas ocupam o lugar das infecciosas depois que estas são controladas. No modelo polarizado prolongado, descrito para a América Latina, as duas agendas coexistem, doenças já controladas ressurgem e o processo não se conclui. Marcar que o Brasil substituiu a doença infecciosa pela crônica é o erro mais frequente do tema, e é o que a expressão superposição de etapas foi criada para negar.
  3. 3Confundir índice de envelhecimento com razão de dependência No Censo 2022 os dois indicadores dão 55,2 depois do arredondamento, e um enunciado descuidado ou mal-intencionado pode usar isso. São contas diferentes: o índice de envelhecimento divide idosos por crianças e adolescentes, e a razão de dependência divide os dois extremos pela população em idade ativa. A coincidência é do ano e do arredondamento; muda o corte de idade e um número anda enquanto o outro fica.
  4. 4Trocar idade média por idade mediana As duas medem coisas diferentes e são publicadas em documentos diferentes. A idade mediana divide a população em duas metades de igual tamanho e passou de 29 anos em 2010 para 35 em 2022, segundo os censos; a idade média é a soma das idades dividida pelo número de pessoas e vale 28,3 anos em 2000, 35,5 em 2023 e 48,4 na projeção para 2070. Elas estão próximas no Brasil de hoje, o que torna a troca fácil de cometer e difícil de perceber, mas o enunciado que pede uma e recebe a outra continua errado.
  5. 5Comparar números de duas séries do mesmo indicador Depois do Censo 2022 o IBGE recalculou séries retrospectivas inteiras. A esperança de vida de 2019 vale 76,6 anos na tábua daquele ano e 76,2 anos na série revista de 2024; a fecundidade de 2010 vale 1,9 filho por mulher no Censo daquele ano e 1,75 nas Projeções de 2024. A própria população do Censo 2022 foi divulgada como 203.062.512 e depois retificada para 203.080.756. Antes de concluir que um indicador subiu ou caiu, confira se os dois valores vieram do mesmo documento.
  6. 6Concluir que causas externas são problema menor porque estão em quarto lugar No total de óbitos do Brasil em 2019 as causas externas aparecem em quarto lugar, com 142.800 mortes. Estratificando por idade, elas são a primeira causa dos 10 aos 49 anos, em três faixas seguidas. Ranking geral é dominado pelas faixas em que morre mais gente, que são as mais velhas; a pergunta sobre adulto jovem exige o ranking daquela faixa.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Correta (transição epidemiológica polarizada/prolongada): o Brasil vive uma transição epidemiológica com sobreposição de padrões — predomínio de doenças crônicas não transmissíveis e causas externas, mas ainda com persistência de doenças infecciosas e reemergentes, configurando um modelo polarizado e prolongado. Transição demográfica descreve mudança de natalidade/mortalidade, não perfil de causas. Estágio pré-transicional teria predomínio de infecciosas. 'Regressão epidemiológica' não é conceito consagrado. Pirâmide etária é estrutura populacional, não perfil de mortalidade.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Escreva de memória as quatro fases da transição demográfica dizendo, em cada uma, o que acontece com natalidade, mortalidade, ritmo de crescimento e razão de dependência. Depois liste as três eras de Omran com a esperança de vida aproximada de cada uma, acrescente a quarta era de Olshansky e Ault e termine nomeando os quatro traços do modelo polarizado prolongado.

em 30 dias

Abra o painel de população do IBGE ou os dados do Censo 2022 do seu município, monte a tabela por grandes grupos etários e calcule o índice de envelhecimento e a razão de dependência nos dois cortes de idade. Compare com os valores nacionais de 2022 e escreva em três linhas o que a estrutura etária do seu território prevê sobre a demanda da unidade em que você atende.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Você é o médico de uma unidade de saúde da família em um município que perdeu população nos últimos dez anos. Na reunião de planejamento, o gestor apresenta a estrutura etária do território e propõe fechar o consultório odontológico infantil para abrir grupos de hipertensão e diabetes, argumentando que o município está envelhecendo. A enfermeira discorda: diz que ainda nascem crianças e que a mortalidade infantil local está acima da média estadual. Conduza a discussão usando os indicadores demográficos e explique o que a transição prevê e o que ela não autoriza a concluir. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Transição demográfica e epidemiológica — Preparatório para provas | OsceLabs