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Alergia à proteína do leite de vaca

Separar alergia de intolerância, separar IgE de não-IgE e saber qual fórmula o SUS entrega, para quem e até quando. É nessas três divisões que a questão se decide.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Lactente de 3 meses, em uso de fórmula à base de leite de vaca, apresenta há 3 semanas fezes com raias de sangue e muco, cólicas e irritabilidade, mantendo bom estado geral e ganho de peso adequado. Sem febre. Exame físico sem alterações relevantes: PA 82/48 mmHg, FC 135 bpm, T 36,7 °C. Qual a conduta terapêutica mais apropriada?

02

Como esse tema cai

Alergia à proteína do leite de vaca é reação imunológica reprodutível às proteínas do leite — caseínas e proteínas do soro, a beta-lactoglobulina e a alfa-lactoalbumina. É a alergia alimentar mais comum até os 24 meses e é rara depois disso, porque a tolerância oral se instala com a idade. Não é intolerância à lactose: uma é resposta do sistema imune a uma proteína, a outra é falta de enzima para um açúcar. A questão que troca as duas costuma se entregar na conduta, prescrevendo fórmula sem lactose para quem precisava de fórmula sem a proteína.

A prova cobra três divisões. A primeira é essa, alergia contra intolerância. A segunda é o mecanismo: mediada por IgE, com reação em menos de duas horas, contra não mediada por IgE, com reação de duas horas a sete dias — e é o mecanismo que muda a fórmula que o SUS entrega. A terceira é o diagnóstico: ele se faz com dieta de exclusão e teste de provocação oral, não com IgE específica nem com teste cutâneo, que apenas mostram sensibilização.

O Brasil tem norma própria e ela é examinável por número e por data. As fórmulas foram incorporadas ao SUS pela Portaria SCTIE/MS nº 67, de 2018, com um algoritmo de escolha que não é o das sociedades; o teste de provocação oral entrou pela Portaria SCTIE/MS nº 32, de 2022; e a fórmula à base de arroz foi expressamente não incorporada, pela Portaria SCTIE/MS nº 40, de 2018. Enunciado ambientado na rede pública cobra essa régua.

Fica de fora deste capítulo o manejo da diarreia aguda e da desidratação, que tem capítulo próprio, e o tratamento da anafilaxia, que é o mesmo de qualquer alérgeno e está no capítulo de anafilaxia.

03

O que muda decisão

Alergia é imunológica; intolerância é enzimática

Reação adversa a alimento é o guarda-chuva. Dentro dele, intolerância é o que decorre de componente tóxico, químico ou de deficiência enzimática do próprio organismo — a intolerância à lactose por falta de lactase é o exemplo clássico. Alergia alimentar é reação imunológica, envolvendo IgE, linfócitos T ou os dois, contra um antígeno alimentar geralmente proteico. As duas coisas podem dar diarreia e distensão no mesmo lactente, mas só uma delas melhora com a retirada da proteína.

Confundir as duas tem consequência prática imediata: a fórmula polimérica sem lactose continua tendo proteína íntegra do leite de vaca e, portanto, não trata alergia nenhuma. Ela é útil apenas quando existe intolerância secundária à lactose associada — situação real na enteropatia, em que a atrofia das vilosidades derruba a lactase da borda em escova. Nesse caso a fórmula certa é a extensamente hidrolisada sem lactose, que resolve os dois problemas de uma vez.

A prevalência ajuda a calibrar a suspeita. Estudos internacionais mostram suspeita clínica em algo entre 1% e 17% das crianças, mas, depois da investigação, a prevalência confirmada fica entre 0,3% e 7,5% até os dois anos. No Brasil não há inquérito nacional; o levantamento que o Ministério da Saúde fez em municípios de médio e grande porte, em 2012, encontrou média de 0,4% de crianças acompanhadas por alergia à proteína do leite de vaca nos serviços estruturados de atenção nutricional, com variação de 0,2% a 0,7%. A distância entre o suspeitado e o confirmado é justamente o que o teste de provocação oral existe para fechar.

O relógio separa IgE de não-IgE

Na forma mediada por IgE a reação é imediata: aparece em menos de duas horas depois da ingestão e, com frequência, em poucos minutos. O quadro é de urticária, angioedema, vômito imediato, sibilância e, no extremo, anafilaxia. É a forma que dá teste cutâneo e IgE específica positivos, e é a que mais assusta a família — mas não é a mais comum no lactente pequeno.

Na forma não mediada por IgE a reação demora de duas horas a sete dias, é digestiva e não tem nenhum exame de sangue que a confirme. O sintoma se instala devagar, some devagar com a exclusão — a resposta à dieta pode levar de 1 a 30 dias — e volta devagar na reintrodução. É por isso que o diagnóstico dessa forma depende de tempo e de disciplina de dieta, e não de laboratório.

Existem ainda quadros mistos, que combinam sintomas imediatos com exacerbação de dermatite atópica. A separação importa porque ela decide dois pontos que a prova adora: qual fórmula entra primeiro na régua brasileira e onde a reintrodução pode ser feita — em casa ou sob supervisão médica.

As três caras da alergia não mediada por IgE

A proctocolite alérgica é a mais frequente e a mais benigna. O lactente tem enterorragia — raias de sangue ou muco sanguinolento nas fezes — com estado geral bom e ganho de peso preservado. Cerca de metade dos casos acontece em aleitamento materno exclusivo, e isso não significa alergia ao leite materno: a proteína do leite de vaca ingerida pela mãe chega ao lactente pelo leite. A conduta é excluir leite e derivados da dieta da nutriz, não desmamar.

A enteropatia induzida por proteína alimentar dá diarreia sem sangue, má-absorção e déficit de ganho ponderal, em geral no primeiro semestre e depois da introdução de fórmula com leite de vaca ou soja. A biópsia de delgado, quando é feita — raramente é necessária —, mostra atrofia vilositária sem infiltração eosinofílica. É a forma que gera intolerância secundária à lactose e justifica a fórmula extensamente hidrolisada sem lactose no início do tratamento.

A síndrome da enterocolite induzida por proteína alimentar, a FPIES, é a que engana. Além dos sintomas digestivos, ela dá repercussão sistêmica: vômitos repetidos entre 1 e 4 horas depois da ingestão, apatia, palidez, acidose, cianose e choque — e muitos desses lactentes recebem inicialmente o diagnóstico de sepse. Abaixo dos seis meses os desencadeantes mais frequentes são o leite de vaca e a soja, com reação cruzada entre os dois em 30% a 40% dos casos; acima dos nove meses entram os sólidos, como cereais, frutas e peixes. FPIES não tem IgE positiva de rotina e não se reintroduz em casa.

Corte da mucosa do intestino delgado de um lactente em duas metades: à esquerda, vilosidades altas e íntegras; à direita, vilosidades achatadas com criptas alongadas e infiltrado inflamatório na lâmina própria.
Enteropatia induzida pela proteína do leite de vaca: a atrofia vilositária explica a má-absorção, o déficit de ganho de peso e a intolerância secundária à lactose que aparece no início do tratamento.

O diagnóstico não sai do laboratório

Não existe exame complementar isolado que feche o diagnóstico. A sequência é história clínica sugestiva, desaparecimento dos sintomas com a dieta de exclusão — de 1 a 30 dias — e reaparecimento dos sintomas na reexposição feita pelo teste de provocação oral. É o teste de provocação oral que transforma suspeita em diagnóstico, e é ele também que dá alta, mostrando que a tolerância chegou.

IgE específica e teste cutâneo de leitura imediata medem sensibilização, não doença. Podem apoiar a avaliação de gravidade e o diagnóstico diferencial na forma mediada por IgE, mas criança sensibilizada que come leite sem sintoma não tem alergia, e criança com proctocolite ou FPIES costuma ter os dois exames negativos. Endoscopia e biópsia são exceção, indicadas por especialista.

Dois exames aparecem em enunciado como distratores de seguimento e não servem para isso. A pesquisa de sangue oculto ou de hemoglobina humana nas fezes, negativa, não descarta alergia como causa do sangramento e não deve ser usada para acompanhar a resolução da proctocolite — a prática não foi validada e produz excesso de diagnóstico. A calprotectina fecal tem resultados discordantes como marcador de alergia alimentar.

O teste de provocação oral foi incorporado ao SUS pela Portaria SCTIE/MS nº 32, de 31 de março de 2022, para diagnóstico e monitoramento de pacientes até 24 meses. A justificativa registrada no relatório da Conitec é dupla: ele é o padrão-ouro e é dominante do ponto de vista econômico, ou seja, entrega mais benefício por menos custo do que a pesquisa de IgE e o teste cutâneo — a economia estimada por paciente foi de R$ 1.272 na comparação com a pesquisa de IgE e de R$ 526 na comparação com o teste cutâneo.

Leite materno primeiro: quem faz dieta é a mãe

O tratamento é a exclusão da proteína. Em lactente amamentado, isso significa retirar leite de vaca e derivados da dieta da nutriz e manter o aleitamento — nunca o contrário. A maioria desses lactentes é alérgica apenas ao leite de vaca e melhora só com essa retirada; ampliar a restrição materna para soja, ovo, trigo, peixes e castanhas é excepcional e deve ter motivo. Quando o aleitamento já foi interrompido, a relactação deve ser considerada antes de se resignar à fórmula.

A fórmula infantil especial entra apenas quando manter o aleitamento, exclusivo ou complementado, é impossível. E ela tem duas exigências simultâneas: ser hipoalergênica ou não alergênica e cobrir as necessidades de macro e micronutrientes da criança. Dieta de exclusão mal conduzida em lactente cobra caro — deficiência nutricional, distúrbio alimentar, alteração de preferências gustativas e prejuízo de crescimento.

Depois dos seis meses, a alimentação complementar da criança com alergia à proteína do leite de vaca segue os mesmos princípios do Guia Alimentar para Crianças Brasileiras Menores de Dois Anos — o que muda é a exclusão do alérgeno, não a estrutura da introdução alimentar. Para as crianças maiores que ainda não toleram o leite e não recebem fórmula, entra a suplementação de cálcio elementar e vitamina D durante a exclusão, com dose de cálcio que varia de 500 mg por dia na infância a 1.000 mg por dia ou mais na adolescência.

O que não substitui o leite de vaca

Leite de outros mamíferos não serve. Cabra e ovelha têm reação cruzada com o leite de vaca acima de 90% — trocar um pelo outro é trocar o alérgeno de nome. Leite de égua e de jumenta têm menor homologia proteica e podem ser tolerados por alguns, mas não são nutricionalmente adaptados ao lactente. O leite modificado com caseína A2 não é hipoalergênico e não é alternativa.

Fórmula parcialmente hidrolisada não trata. Ela é feita de oligopeptídeos com peso molecular abaixo de 5.000 Da e continua tendo alergenicidade suficiente para desencadear reação; a hidrólise parcial nasceu com proposta de prevenção, e mesmo essa proposta caiu — as diretrizes atuais não sustentam o uso de nenhuma fórmula infantil para prevenir alergia alimentar. Fórmula polimérica isenta de lactose também não trata, porque a proteína continua inteira.

As chamadas bebidas vegetais — soja, aveia, castanhas — não são fórmulas infantis e não substituem o leite para lactente. Podem entrar em receitas e no consumo de crianças maiores, com ajuste nutricional, porque ficam abaixo do leite em proteína, calorias e cálcio. Bebida à base de arroz é desaconselhada abaixo de quatro anos e meio pelo teor de arsênico — e não se confunde com a fórmula infantil de arroz extensamente hidrolisado, que é outro produto.

Quanto tempo excluir, quando reintroduzir, quando dar alta

O tempo de exclusão muda com a forma clínica. Na alergia não mediada por IgE, a dieta terapêutica é mantida por pelo menos seis meses ou até os nove a doze meses de idade, o que vier primeiro. Na proctocolite leve, em lactente sob aleitamento materno exclusivo e com boa evolução, pode-se considerar liberar a proteína do leite para a nutriz após três meses de exclusão — e um estudo brasileiro mostrou que 80% dos bebês com suspeita de proctocolite já toleravam o leite de vaca por volta dos 6,3 meses de idade média. Na enteropatia com desnutrição a recuperação é mais lenta, chegando a um ou dois anos. Na FPIES o tempo mínimo é de 12 a 18 meses após a última reação.

A reintrodução é orientada pelo teste de provocação oral. Onde ele é feito depende do risco: alergia mediada por IgE, FPIES e formas graves não mediadas por IgE exigem ambiente com suporte médico; formas leves e tardias podem ser reavaliadas em domicílio sob orientação. Liberar dieta sem provocação é o erro que devolve o paciente ao pronto-socorro.

O prognóstico é bom e vale ser dito à família com número. A alergia ao leite de vaca é das que se resolvem cedo: cerca de 50% se resolvem até os cinco anos e 70% a 80% até os 16 anos. Entre 69% e 83% toleram o leite em preparações assadas, e tolerar o assado sugere fenótipo mais leve e transitório. Nas formas não mediadas por IgE a tolerância costuma vir ainda mais cedo, embora 30% persistam alérgicos depois dos dois anos.

No SUS há um marco administrativo além do clínico. O fornecimento das fórmulas cessa quando a criança apresenta melhora completa dos sinais e sintomas, quando o teste de provocação oral negativa, quando ela não comparece ao teste de monitoramento previsto — ou quando completa 24 meses de idade, o que ocorrer primeiro.

04

A escada proteica e a régua do SUS

As fórmulas se ordenam por um critério só: o tamanho do peptídeo que sobra depois da hidrólise. Quanto menor o fragmento, menor a alergenicidade residual — e essa escada é o que separa a fórmula que trata da fórmula que só parece tratar. Em cima dela, a portaria brasileira monta um algoritmo de escolha que começa pelo mecanismo da alergia e pela idade, e não pela gravidade isolada.

  1. 1Confirme que o aleitamento materno não pode ser mantido — se pode, a conduta é dieta de exclusão para a nutriz, e nenhuma fórmula entra.
  2. 2Classifique o mecanismo: mediado por IgE (reação em menos de 2 horas) ou não mediado por IgE (2 horas a 7 dias).
  3. 3Não mediado por IgE, em qualquer idade até 24 meses: fórmula extensamente hidrolisada, com ou sem lactose, como primeira opção.
  4. 4Mediado por IgE, dos 6 aos 24 meses: fórmula à base de proteína isolada de soja como primeira opção.
  5. 5Abaixo de 6 meses a fórmula de soja não é indicada — a criança fica com a fórmula extensamente hidrolisada.
  6. 6Sintomas graves em qualquer idade — desnutrição moderada ou grave com descompensação metabólica, sangramento intestinal intenso com anemia grave, dermatite atópica grave e generalizada com hipoproteinemia e comprometimento do crescimento: fórmula de aminoácidos já de entrada, com transição para a hidrolisada (ou para a soja) após a estabilização.
  7. 7Mantenha a fórmula escolhida por cerca de 15 dias antes de concluir que falhou: a remissão dos sintomas leva de uma a três semanas.
  8. 8Se os sintomas persistem ou pioram, suba a escada na ordem: soja para hidrolisada, hidrolisada para aminoácidos.
  9. 9Fórmula de aminoácidos por cerca de 15 dias sem resposta: reconsidere o diagnóstico, suspenda a fórmula e encaminhe ao gastroenterologista.

Proteína íntegra — fórmula de partida e leite de vaca

Caseína e proteínas do soro inteiras. É o alérgeno. Inclui a fórmula polimérica isenta de lactose, que retira o açúcar e mantém a proteína — por isso não trata alergia.

Parcialmente hidrolisada — oligopeptídeos abaixo de 5.000 Da

Hidrólise incompleta: os fragmentos ainda são grandes e alergênicos. Não é indicada para tratar alergia à proteína do leite de vaca, e as diretrizes atuais também não sustentam seu uso para prevenir.

Extensamente hidrolisada — peptídeos abaixo de 3.000 Da

Hipoalergênica: sobra alergenicidade residual, mas é tolerada por 90% dos lactentes com menos de 6 meses e por 95% dos maiores. É a versão com e sem lactose — a sem lactose é a de escolha quando há enteropatia.

Aminoácidos livres — sem peptídeo

Não alergênica. Reservada a quem não tolera a extensamente hidrolisada — só 10% dos menores de 6 meses e 5% dos maiores — e a quem abre o quadro com sintomas graves.

Fórmula incorporada ao SUSPrimeira opção para quemO que a portaria não cobre
Extensamente hidrolisada, com ou sem lactoseToda criança até 24 meses com alergia não mediada por IgE; e a criança com menos de 6 meses, qualquer que seja o mecanismoNão é a primeira opção na forma mediada por IgE dos 6 aos 24 meses, faixa em que a régua brasileira começa pela soja
Proteína isolada de sojaCriança de 6 a 24 meses com alergia mediada por IgENão indicada abaixo de 6 meses; não é primeira opção na forma não mediada por IgE
AminoácidosQuem não responde à extensamente hidrolisada e quem abre o quadro com sintomas graves, em qualquer idadeNão é dieta de eliminação diagnóstica de rotina; se 15 dias de uso não resolvem, o diagnóstico é que deve ser revisto

As três formas não mediadas por IgE — e quanto tempo cada uma exclui

FormaQuadro que a identificaQuando apareceTempo de exclusão
Proctocolite alérgicaEnterorragia com estado geral bom e ganho de peso preservado; metade dos casos em aleitamento materno exclusivoPrimeiros meses de vidaAo menos 6 meses ou até 9-12 meses de idade; na forma leve em aleitamento exclusivo, pode-se considerar liberar a nutriz após 3 meses
Enteropatia induzida por proteína alimentarDiarreia sem sangue, má-absorção e déficit de ganho ponderal; atrofia vilositária sem eosinófilos na biópsiaPrimeiro semestre, após fórmula com leite de vaca ou sojaMais longo quando há desnutrição: recuperação até 1 a 2 anos de idade
FPIES (enterocolite induzida por proteína alimentar)Vômitos repetidos 1 a 4 horas após a ingestão, apatia, palidez, acidose, cianose e choque — confundida com sepseAbaixo de 6 meses com leite de vaca e soja; acima de 9 meses com sólidosMínimo de 12 a 18 meses após a última reação; reintrodução sempre supervisionada

A fórmula à base de arroz não foi incorporada ao SUS: a CONITEC deliberou por não recomendá-la na 69ª reunião ordinária, em 01/08/2018, e a decisão saiu na Portaria SCTIE/MS nº 40, de 11 de setembro de 2018.

O teste de provocação oral foi incorporado ao SUS pela Portaria SCTIE/MS nº 32, de 31 de março de 2022, para diagnóstico e monitoramento de crianças até 24 meses.

A alta do fornecimento no SUS ocorre com a melhora completa dos sintomas, com teste de provocação oral negativo, com o não comparecimento ao teste de monitoramento previsto ou aos 24 meses de idade — o que vier primeiro.

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Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Qual fórmula abre o tratamento na alergia mediada por IgE dos 6 aos 24 meses

Fórmula de soja como primeira opção nessa faixa

A régua incorporada ao SUS parte da soja para a criança de 6 a 24 meses com alergia mediada por IgE, reservando a extensamente hidrolisada para quem não responde. Abaixo dos 6 meses a soja não entra, pelo risco de efeitos adversos, e a criança começa pela hidrolisada. A escolha é declaradamente de exequibilidade — a demanda nasceu da judicialização contra estados e municípios e o impacto orçamentário calculado foi de R$ 79,6 milhões no primeiro ano e R$ 659,2 milhões em cinco anos, com preços que a própria comissão considerou passíveis de nova rodada de negociação.

CONITEC, Relatório de Recomendação nº 345 (novembro/2018); Portaria SCTIE/MS nº 67, de 23/11/2018

Fórmula extensamente hidrolisada como primeira escolha para todo lactente não amamentado

As sociedades brasileiras colocam a extensamente hidrolisada como primeira escolha no tratamento de qualquer lactente não amamentado com alergia à proteína do leite de vaca, com a soja entrando quando outras dietas de eliminação não são possíveis por razões econômicas, culturais ou de palatabilidade — posição que espelha o consenso da ESPGHAN e que se apoia em dado próprio: a sensibilização à soja cai com a idade (36,8% no primeiro ano, 16,4% no segundo, 13,7% no terceiro), o que torna a soja mais defensável depois dos 6 meses e sobretudo na forma mediada por IgE. O mesmo documento acrescenta que quem já está bem com fórmula de soja não precisa ser trocado.

ASBAI e SBP, Atualização em Alergia Alimentar 2025 (Arq Asma Alerg Imunol. 2025;9(1):5-96)

Na prova

A causa da diferença é econômica e de disponibilidade, não de evidência: a soja é a alternativa barata e palatável, e a portaria de 2018 tinha de caber num orçamento. O recorte se lê no cenário. Enunciado que fala em unidade básica, em dispensação pelo município, em 'conforme o protocolo do Ministério da Saúde' ou que cita a portaria trabalha com a régua da incorporação. Enunciado que menciona a Sociedade Brasileira de Pediatria, a ASBAI ou a ESPGHAN, ou que usa a expressão 'primeira escolha para o lactente não amamentado', trabalha com a régua das sociedades. As alternativas também denunciam: se 'fórmula de soja' aparece como opção plausível ao lado da hidrolisada, e o enunciado dá idade acima de 6 meses e reação imediata, a questão está construída sobre a régua brasileira de incorporação. Prova oficial do MEC tende a conduta SUS; outras bancas dependem do que as alternativas revelam.

Lugar da fórmula à base de arroz extensamente hidrolisado

Fora do SUS

A fórmula nutricional à base de proteína de arroz extensamente hidrolisada foi avaliada em processo próprio e não foi incorporada. A comissão deliberou por unanimidade contra a incorporação, com base em evidência considerada insuficiente à época, e a decisão foi publicada em portaria específica, que deixa aberta a reavaliação caso surjam fatos novos.

CONITEC, Relatório de Recomendação nº 378 (setembro/2018); Portaria SCTIE/MS nº 40, de 11/09/2018

Alternativa aceitável para a dieta de eliminação diagnóstica

As sociedades brasileiras registram que as fórmulas de arroz hidrolisado, embora menos estudadas que as extensamente hidrolisadas derivadas do leite de vaca, podem ser consideradas como alternativa para a dieta de eliminação diagnóstica. O mesmo documento observa que o papel dessas fórmulas na prevenção da alergia à proteína do leite de vaca não foi estudado.

ASBAI e SBP, Atualização em Alergia Alimentar 2025 (Arq Asma Alerg Imunol. 2025;9(1):5-96)

Na prova

A causa aqui é de data e de endereço da política: a avaliação brasileira é de 2018 e a literatura que sustenta a fórmula de arroz cresceu depois. O sinal no enunciado é a palavra 'disponível no SUS' ou 'fornecida pelo município' — nesse recorte a fórmula de arroz não é uma das opções ofertadas. Sem esse ancoramento, e com o enunciado tratando de alternativas terapêuticas em geral, o arroz volta ao tabuleiro. Vale separar dois produtos que os distratores misturam: a fórmula infantil de arroz extensamente hidrolisado e a bebida vegetal de arroz, que é desaconselhada abaixo de quatro anos e meio pelo teor de arsênico.

Até que idade a criança segue coberta

Teto de 24 meses no fornecimento público

A incorporação vale para crianças de 0 a 24 meses, e o próprio critério de alta inclui completar 24 meses de idade, ao lado da melhora completa dos sintomas e do teste de provocação oral negativo. O corte acompanha o argumento clínico de que o diagnóstico é muito raro acima dessa idade, porque a tolerância oral se instala progressivamente.

CONITEC, Relatório de Recomendação nº 345 (novembro/2018)

Produtos e história natural que passam dos 24 meses

O elenco de fórmulas disponíveis no país descrito pelas sociedades vai além desse teto — extensamente hidrolisadas para 0 a 36 meses, fórmula de aminoácidos para 0 a 36 meses e outra para 1 a 10 anos, fórmula de soja para 1 a 3 anos —, e a história natural acompanha: 30% das formas não mediadas por IgE persistem depois dos dois anos, e apenas cerca de metade das alergias ao leite se resolvem até os cinco anos.

ASBAI e SBP, Atualização em Alergia Alimentar 2025 (Arq Asma Alerg Imunol. 2025;9(1):5-96)

Na prova

É divergência de endereço de política contra história natural: o teto de 24 meses delimita quem o programa financia, não quem ainda tem a doença. Enunciado que pergunta 'até quando o SUS fornece' ou 'quando cessa o fornecimento' pede o teto administrativo; enunciado que pergunta 'quando esperar tolerância' ou 'até quando manter a exclusão' pede a história natural. Quando os dois números aparecem juntos entre as alternativas, é sinal de que a questão está testando exatamente a diferença entre financiar e tratar.

06

Caso resolvido

Lactente de 3 meses, em aleitamento materno exclusivo, trazido à unidade básica porque há duas semanas apresenta raias de sangue vivo e muco nas fezes. Mama bem, dorme bem, não vomita e não tem febre. Ganhou 850 g no último mês e está no percentil 50 de peso. Ao exame, corado, hidratado, abdome flácido e indolor, sem massas; região perianal sem fissuras. A mãe conta que toma três copos de leite por dia desde o parto e pergunta se precisa parar de amamentar.
achado
Enterorragia em lactente jovem com estado geral bom, sem febre, sem vômito e com ganho ponderal preservado. Esse conjunto — sangue nas fezes de uma criança que parece saudável — é o retrato da proctocolite alérgica induzida por proteína alimentar.
raciocínio
É alergia não mediada por IgE: o quadro é digestivo, tardio e sem nenhuma manifestação imediata. Cerca de metade dos casos de proctocolite ocorre justamente em aleitamento materno exclusivo — o alérgeno é a proteína do leite de vaca que a mãe ingere e que chega ao lactente pelo leite materno. Não é alergia ao leite materno.
o que não pedir
Nada de IgE específica nem de teste cutâneo: nessa forma eles são tipicamente negativos e não mudariam a conduta. Pesquisa de sangue oculto ou de hemoglobina humana nas fezes também não entra — negativa, ela não descarta alergia como causa do sangramento, e não serve para acompanhar a resolução. Colonoscopia não tem indicação nesse quadro.
conduta
Manter o aleitamento materno e excluir leite de vaca e derivados da dieta da nutriz, com orientação de leitura de rótulo. Não trocar por fórmula, não desmamar, não prescrever fórmula sem lactose. A resposta clínica pode levar de 1 a 30 dias; a mãe precisa saber disso para não abandonar a dieta na primeira semana.
seguimento
Reavaliar em duas a quatro semanas. Como é proctocolite leve em aleitamento exclusivo com boa evolução, pode-se considerar liberar a proteína do leite para a nutriz após três meses de exclusão, com reintrodução orientada. Se o sangramento voltar, a exclusão retorna e o caso é reavaliado.
07

Agora feche você

Menino de 8 meses, desmamado aos 4 meses e em uso de fórmula infantil de partida. Há dois meses, cerca de vinte minutos após cada mamadeira, apresenta placas urticariformes no tronco e vômito único; os episódios se repetem de forma previsível e cedem sozinhos em uma hora. Nunca teve dificuldade respiratória nem hipotensão. Está eutrófico, com peso e estatura no percentil 50, e já recebe alimentação complementar sem leite. Atendimento em unidade básica de saúde, com dispensação de fórmulas pelo município conforme o protocolo do Ministério da Saúde.
achado
Reação cutânea e digestiva que aparece em menos de duas horas — aqui, em vinte minutos —, reprodutível a cada exposição e autolimitada. É o padrão da alergia mediada por IgE, sem critério de anafilaxia.
classificação
Criança de 8 meses, portanto acima dos 6 meses; alergia mediada por IgE; sem sinais de gravidade — nada de desnutrição com descompensação metabólica, sangramento intestinal intenso com anemia grave ou dermatite atópica grave e generalizada. Não está mais em aleitamento materno e a relactação não foi obtida, então a fórmula entra.
conduta
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Onde a banca derruba

  1. 1Prescrever fórmula sem lactose para tratar a alergia A troca soa lógica porque os sintomas digestivos se parecem, e o rótulo 'sem lactose' passa a sensação de fórmula especial. Mas a fórmula polimérica isenta de lactose mantém a proteína do leite de vaca inteira — o alérgeno continua ali. Retirar lactose só faz sentido quando existe intolerância secundária associada, e mesmo aí a fórmula certa é a extensamente hidrolisada sem lactose.
  2. 2Trocar o leite de vaca por leite de cabra ou de ovelha A troca parece uma solução caseira elegante e chega até a ser sugerida por familiares. A reação cruzada entre o leite de vaca e o de cabra ou ovelha passa de 90%: é o mesmo alérgeno com outro nome. O leite modificado com caseína A2 também não é hipoalergênico.
  3. 3Suspender o aleitamento materno Quando o lactente amamentado tem sintomas, o reflexo é atribuir a culpa ao leite materno e desmamar. O alérgeno é a proteína do leite de vaca ingerida pela mãe, e não o leite materno. A conduta é dieta de exclusão para a nutriz com manutenção do aleitamento — e, se o desmame já ocorreu, considerar relactação antes de recorrer à fórmula.
  4. 4Usar fórmula parcialmente hidrolisada O nome tem a palavra 'hidrolisada' e as embalagens costumam trazer apelo de hipoalergenicidade, o que confunde. Ela é feita de oligopeptídeos abaixo de 5.000 Da, ainda alergênicos, e não trata a alergia. A hidrólise parcial nasceu com proposta de prevenção e nem essa se sustenta hoje.
  5. 5Fechar o diagnóstico pela IgE específica ou pelo teste cutâneo São exames rápidos, disponíveis e dão um número — tudo o que um diagnóstico difícil parece pedir. Mas eles medem sensibilização: criança sensibilizada que come leite sem sintoma não é alérgica, e a maioria das formas não mediadas por IgE cursa com os dois negativos. Quem confirma é o teste de provocação oral.
  6. 6Trocar de fórmula porque não melhorou em três dias A família cobra resposta e a piora aparente empurra para subir a escada. A remissão dos sintomas leva de uma a três semanas, e a orientação é manter a fórmula por cerca de 15 dias antes de concluir que falhou — cólica, sangramento ou dermatite que persistem após três dias de fórmula extensamente hidrolisada não justificam trocar para a de aminoácidos.
  7. 7Achar que soja é sempre proibida — ou sempre liberada As duas simplificações erram. A régua brasileira coloca a fórmula de soja como primeira opção justamente na criança de 6 a 24 meses com alergia mediada por IgE; o que ela veda é a soja abaixo dos 6 meses e a soja como primeira opção na forma não mediada por IgE. E bebida vegetal de soja de supermercado não é fórmula infantil, em nenhuma idade.
  8. 8Liberar a dieta sem teste de provocação oral Passado o prazo de exclusão e com a criança bem, a tentação é mandar reintroduzir em casa. Alergia mediada por IgE, FPIES e formas graves não mediadas por IgE exigem provocação em ambiente com suporte médico — e é a provocação, não o calendário, que documenta a tolerância e dá alta.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Sangue e muco nas fezes de lactente em bom estado geral e com bom ganho ponderal caracteriza a proctocolite alérgica (APLV) — o tratamento de escolha em lactente em fórmula é a fórmula extensamente hidrolisada. Antibiótico não se indica sem quadro infeccioso/toxemia. IBP não trata alergia alimentar. Fórmula de soja não é primeira escolha por reatividade cruzada e por indicação restrita nessa faixa. Dieta elementar/aminoácidos só se reserva à falha da hidrolisada, não como início.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

Sorteando as questões…

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Plano de revisão

em 7 dias

Alergia é imunológica, intolerância é enzimática — fórmula sem lactose não trata alergia. Mediada por IgE reage em menos de 2 horas; não mediada por IgE, de 2 horas a 7 dias. Diagnóstico: história + exclusão (resposta em 1 a 30 dias) + teste de provocação oral, que é o padrão-ouro e está no SUS desde 2022. Amamentado com sintoma: dieta de exclusão para a mãe, sem desmamar. Fórmula só quando o aleitamento é impossível — não mediada por IgE começa na extensamente hidrolisada; mediada por IgE dos 6 aos 24 meses começa na soja; abaixo de 6 meses, soja não entra.

em 30 dias

Escada proteica: proteína íntegra → parcialmente hidrolisada (<5.000 Da, não trata) → extensamente hidrolisada (<3.000 Da, tolerada por 90% abaixo de 6 meses e 95% acima) → aminoácidos (10% e 5% que não toleram, mais os casos graves de entrada). Manter 15 dias antes de trocar. Proctocolite: enterorragia com criança bem, metade em aleitamento exclusivo. Enteropatia: má-absorção com atrofia vilositária. FPIES: vômitos em 1 a 4 horas com apatia e choque, confundida com sepse, exclusão de 12 a 18 meses. Não substituem o leite: cabra e ovelha (>90% de reação cruzada), A2, parcialmente hidrolisada, polimérica sem lactose e bebidas vegetais. Prognóstico: ~50% resolvem até 5 anos, 70-80% até 16 anos; 69-83% toleram o leite assado. No SUS, fornecimento até 24 meses.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Lactente de 5 meses, desmamado no terceiro mês e em uso de fórmula de partida, é levado à unidade básica com diarreia sem sangue há seis semanas, distensão abdominal, assaduras persistentes e queda de dois canais na curva de peso. Está pálido e hipoativo, mas hidratado e afebril. A mãe já tentou por conta própria uma fórmula 'sem lactose' comprada na farmácia, sem melhora. Conduza a consulta: investigue a história alimentar desde o nascimento, defina o mecanismo provável, decida qual fórmula prescrever e explique à mãe o prazo em que ela deve esperar resposta. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Alergia à proteína do leite de vaca — Preparatório para provas | OsceLabs