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Constipação intestinal funcional na infância

Um menino de 20 quilos, seis réguas de dose e uma conta que vai de 4 a 30 gramas por dia — mais o enema que trocou de unidade entre a tabela de origem e o texto nacional

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Questão de abertura

Menino de 5 anos apresenta constipação há 1 ano, com evacuações a cada 4-5 dias, fezes calibrosas e endurecidas que entopem o vaso, dor à evacuação e episódios de escape fecal involuntário (roupa íntima manchada) que a mãe interpreta como diarreia. Ao toque retal, ampola retal repleta de fezes endurecidas. Não há sinais de alarme para causa orgânica. Além das medidas comportamentais e dietéticas, qual a etapa terapêutica farmacológica inicial correta?

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Como esse tema cai

Este capítulo trata da criança que evacua pouco, com dor, e cujo intestino não tem doença nenhuma. É o diagnóstico de nove em cada dez crianças constipadas fora do período neonatal, e é onde a prova cobra três decisões: se aquilo é constipação, se há fecaloma, e qual dose se prescreve depois de responder às duas primeiras.

Ficam de fora, com capítulo próprio: a doença de Hirschsprung, que é o diferencial e não o tema; a enurese e a disfunção miccional, onde a constipação entra como condição a tratar antes; e a alergia à proteína do leite de vaca, que aparece aqui só como teste terapêutico na criança que não responde. O que este capítulo faz é o que os vizinhos deixaram de fazer: eles mandam desimpactar e manter laxante osmótico por meses, e nenhum deles diz quanto.

As quatorze questões vivas deste tema no acervo desenham o mesmo paciente: pré-escolar ou escolar, evacuações a cada quatro ou cinco dias, fezes que entopem o vaso, escape na roupa íntima que a mãe chama de diarreia, e ampola cheia ao toque. Duas delas, e só duas, chegam a escrever uma dose. O capítulo mora exatamente nesse vão.

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O que muda decisão

Duas evacuações por semana: o número que quase nunca é o que fecha o diagnóstico

Como usar este capítulo: confirme os critérios clínicos, procure sinais de alarme e identifique fecaloma antes de prescrever. O tratamento tem três fases — desimpactação, manutenção e retirada lenta — acompanhadas de educação, rotina evacuatória e reavaliação.

O hábito intestinal normal encolhe com a idade. O guia brasileiro de 2024 abre com a média: cerca de quatro evacuações por dia no lactente, duas por dia até os dois anos, uma por dia depois dos quatro. Contra esse pano de fundo, a criança de cinco anos que evacua duas vezes por semana está em um sétimo do esperado para a idade — e é justamente esse contraste que faz o número parecer o critério mais importante do tema.

Ele não é. Na série de Burgers reproduzida pela diretriz conjunta europeia e norte-americana, 336 crianças com distúrbio da evacuação foram medidas item a item pelos seis critérios de Roma: a frequência de duas ou menos evacuações por semana apareceu em 39%; a incontinência fecal, em 75%; a postura de retenção, em 75%; a dor à evacuação, em 60%; as fezes de grande calibre, em 49%; e a massa fecal palpável, em 49%. O critério que o enunciado escreve primeiro é o menos frequente dos seis, por larga margem.

A revisão brasileira de Maffei e Morais mostra por que a impressão engana: a frequência baixa é um artefato de onde a criança é vista. Menos de três evacuações semanais aparecem em 43,1% a 65,8% das crianças constipadas em serviço terciário, em 17,3% a 27,0% nas unidades de atenção primária e em estudos de comunidade, e em apenas 4,0% a 5,8% dos lactentes constipados. Em uma coorte de nascimento, menos de três evacuações por semana ocorreram em 2,5% aos 24 meses e em 5,5% aos 48 meses.

A consequência prática cai em prova como pegadinha silenciosa: a criança que evacua todo dia pode estar constipada. Se evacua diariamente fezes endurecidas, com dor, e faz postura de retenção, ela preenche dois critérios sem tocar no da frequência.

Na série brasileira de Criciúma, com 67 crianças de 1 a 16 anos, o intervalo evacuatório mais comum foi de 4 a 10 dias (49,3%), mas 23,9% das crianças diagnosticadas evacuavam a cada 1 a 3 dias. Quase um quarto da casuística não tinha nada de anormal na contagem de dias.

Roma IV, Roma III e o mês que separa uma régua da outra

A Tabela 1 do guia brasileiro de 2024 reproduz Roma IV em duas colunas. Abaixo de quatro anos: dois ou mais critérios por pelo menos um mês, com dois itens adicionais para quem já tem controle esfincteriano. Dos quatro anos à adolescência: dois ou mais dos seis critérios, presentes ao menos uma vez por semana, por pelo menos um mês.

A diretriz que dita o tratamento trabalha com a régua anterior. Publicada em 2014, ela adota Roma III explicitamente, e Roma III exigia, para o maior de quatro anos, dois critérios por pelo menos dois meses. Roma IV, de 2016, cortou essa duração pela metade.

O vão é estreito e é real. Uma menina de cinco anos com seis semanas de fezes endurecidas e dor à evacuação preenche Roma IV — dois critérios, mais de um mês — e não preenche Roma III, porque faltam duas semanas. Quem lê o guia brasileiro trata hoje. Quem lê a diretriz internacional de 2014 pela letra do critério ainda não tem o diagnóstico que autoriza o algoritmo terapêutico daquela mesma diretriz.

Uma segunda régua discorda das duas. Os critérios de Boston exigem um item, não dois. Aplicados aos mesmos 303 lactentes de três centros comunitários, diagnosticaram constipação funcional em 22,2% deles; Roma III teria diagnosticado 2,6%. São 67 lactentes contra 8 na mesma população, no mesmo dia — uma diferença de 59 crianças, ou 8,5 vezes.

Os autores brasileiros que citam esse número propõem adotar um item só na atenção primária, e indicam qual: fezes dolorosas ou endurecidas, o achado que a mãe observa sem exame. O guia brasileiro de 2024 cita esse mesmo artigo e mantém a exigência de dois critérios.

Um detalhe fecha a seção e desmonta metade das vinhetas: dor abdominal é sintoma associado frequente, e não é critério de Roma para constipação funcional em nenhuma das faixas. Na série de Criciúma, a dor abdominal foi a manifestação mais comum de todas, em 77,6% das crianças. O sintoma que mais aparece é o que a régua não conta.

Barras horizontais com a frequência de cada critério de Roma em 336 crianças com distúrbio da evacuação: incontinência fecal 75%, postura de retenção 75%, dor à evacuação 60%, fezes de grande calibre 49%, massa fecal palpável 49% e duas ou menos evacuações por semana 39%, a menor de todas. Em bloco separado, uma barra hachurada de dor abdominal com 77,6%, medida em outra série de 67 crianças e marcada como não sendo critério de Roma.
O critério de frequência é o menos frequente dos seis de Roma, e o sintoma mais comum da criança constipada, a dor abdominal, não é critério nenhum: contar dias sem evacuar reconhece mal o quadro.

A conta do polietilenoglicol: 4 gramas ou 30 gramas para o mesmo menino

Tome um menino de cinco anos e 20 quilos com constipação funcional. A pergunta “qual a dose de polietilenoglicol” tem, na literatura que o Brasil usa, cinco respostas diferentes, e todas estão certas em algum lugar do texto.

A Tabela 6 da diretriz conjunta de 2014 traz o polietilenoglicol 3350 na manutenção de 0,2 a 0,8 g/kg/dia. Para 20 quilos, isso é de 4 a 16 gramas por dia. A recomendação número 33 do mesmo documento diz outra coisa: dose inicial de 0,4 g/kg/dia, ajustada conforme a resposta — 8 gramas por dia, o dobro do piso que a tabela imprime a três páginas de distância. O guia brasileiro de 2024 adota a faixa da tabela, de 0,2 a 0,8, e não menciona a dose inicial da recomendação.

A desimpactação é outro patamar. Os dois documentos concordam: 1 a 1,5 g/kg/dia, o que dá de 20 a 30 gramas por dia para o mesmo menino. Entre o piso da manutenção e o teto da desimpactação há um fator de 7,5 vezes — 4 gramas contra 30 — e o que decide qual dos dois se prescreve não é a gravidade da constipação nem o número de dias sem evacuar. É uma pergunta binária: existe fecaloma?

Daí a arquitetura do tratamento, que a prova cobra em quase toda vinheta: esvaziar primeiro, manter depois. Sem a desimpactação, a manutenção falha e o escape continua, porque o escape é transbordamento em torno do bolo fecal retido, não diarreia. O guia brasileiro é explícito ao apontar a causa mais comum de fracasso terapêutico: dose baixa administrada de forma não contínua, e falta de desimpactação plena na fase inicial.

Uma sexta faixa circula nos bancos de questões: manutenção de 0,4 a 0,8 g/kg/dia, creditada às duas sociedades internacionais e às diretrizes brasileiras. Nenhum dos três documentos imprime essa faixa — 0,4 é a dose inicial de uma recomendação, 0,8 é o teto de uma tabela, e o piso real, 0,2, desapareceu no caminho. Para o menino de 20 quilos, o piso citado manda 8 gramas onde as duas fontes autorizam começar com 4. E a dose é sempre em gramas do pó, não em mililitros do preparado: é a linha onde o erro doméstico mora.

Desimpactar: três dias, seis dias, ou até esvaziar

A frase brasileira é esta: a dose nesta primeira fase é de 1 a 1,5 g/kg/dia por três dias ou até que se perceba que houve esvaziamento das fezes retidas. O “ou” apaga o porteiro. Um prazo que termina em três dias vira um prazo que termina quando alguém julgar que terminou.

A tabela de onde o número veio tem o teto que o texto nacional perdeu: polietilenoglicol 4000 para desimpactação, de 1 a 1,5 g/kg/dia, com máximo de seis dias consecutivos. E a recomendação correspondente do mesmo documento diz “por 3 a 6 dias”. O intervalo existe na origem; o texto nacional guardou o piso e trocou o teto por um critério clínico.

O ensaio mais recente mostra por que o teto importa. Em 2025, cem crianças com constipação funcional e impactação foram randomizadas entre duas formulações, ambas a 1,5 g/kg/dia por até seis dias ou até a saída de fezes líquidas claras. O tempo médio até a desimpactação foi de 4,3 dias em um braço e 4,1 no outro — média que já passa dos três dias que o texto brasileiro escreve como número único. A dose cumulativa foi de 6,5 g/kg, cerca de 130 gramas para um menino de 20 quilos ao longo de toda a fase.

O mesmo ensaio dá o dado que nenhuma vinheta menciona e que a família precisa ouvir antes de começar: mais de três episódios de vômito ocorreram em 24% e 26% das crianças, e desconforto abdominal em 30% e 36%. Cerca de uma criança em cada quatro vomita mais de três vezes durante a desimpactação oral. Não houve desidratação em nenhum dos braços.

O desfecho primário do ensaio foi a proporção que desimpactou: 42 de 50 contra 43 de 50, ou 84% contra 86%, com p igual a 0,9. Traduzido em pacientes, a diferença é de uma criança em cinquenta. O detalhe honesto está nos métodos: a amostra foi calculada para enxergar uma diferença de 25 pontos percentuais, de modo que o p alto não demonstra equivalência — demonstra que o estudo não tinha tamanho para ver nada menor que isso.

Esse ensaio é mais novo que toda a régua nacional, e mexe em um ponto que a tabela de 2014 tratava como divisão de trabalho: nela, a desimpactação está escrita sob o polietilenoglicol 4000 e a manutenção sob o 3350, como se fossem ferramentas distintas. O ensaio de 2025 comparou as duas formulações na desimpactação e não separou os desfechos, com vantagem apenas de palatabilidade para o 4000 e sem diferença de adesão.

O enema que trocou de unidade entre a tabela e o texto

Quando a via oral não é possível, entra o enema. É aqui que o texto nacional de 2024 tem o defeito mais concreto do capítulo, e ele está impresso.

A tabela de origem separa duas coisas. Para o neonato, prescreve cloreto de sódio em mililitros absolutos: 5 mL se o peso for menor que 1 quilo, 10 mL se for maior. Só acima de um ano é que a unidade passa a ser por quilo: 6 mL/kg, uma ou duas vezes ao dia. O texto brasileiro reescreveu a linha assim: “enema com solução salina 0,9% (5 a 10 ml/Kg à noite) em menores de um ano e 6 ml/Kg em maiores de um ano)”.

Duas coisas se quebraram na travessia. A primeira é a unidade: o que era volume absoluto de neonato virou volume por quilo para todo lactente abaixo de um ano. Para um recém-nascido de 3 quilos, a tabela de origem manda 10 mL; o texto nacional, lido pela letra, manda de 15 a 30 mL — até três vezes o volume. A segunda é a faixa etária: a linha original fala de neonato, e a versão nacional a estendeu a todo o primeiro ano.

A terceira quebra é geométrica e denuncia a reescrita. O parêntese abre em “5 a 10 ml/Kg à noite”, fecha ali, e depois aparece um segundo fecha-parêntese solto após “maiores de um ano”. Pior que a pontuação é a aritmética: por quilo, os 6 mL/kg do maior de um ano ficam dentro dos 5 a 10 mL/kg do menor de um ano. Uma frase que se apresenta como escalonada por idade não escalona coisa nenhuma.

O enema de fosfato de sódio traz o segundo defeito, e ele cabe em um parágrafo só. O texto dá a dose — 2,5 mL/kg acima de um ano — e, quatro linhas adiante, escreve que, pelo risco de hiperfosfatemia, o enema de fosfato de sódio deve ser evitado. A mesma página prescreve e proíbe. E, na travessia, sumiu o teto que a tabela de origem impunha: máximo de 133 mL por dose. Um adolescente de 60 quilos, pela dose por quilo isolada, receberia 150 mL — acima do limite que a fonte estabelece exatamente para prevenir o distúrbio que o texto nacional invoca para vetar a droga.

Duas regras fecham o tema e caem em prova. Enema não é terapia de manutenção: a recomendação número 34 da diretriz conjunta diz que adicionar enemas ao uso crônico de polietilenoglicol não é recomendado. E a via oral é preferida — o guia brasileiro reconhece que as duas esvaziam igualmente bem, mas o enema é mais desconfortável e invasivo.

Sangue nas fezes: o sinal de alarme que aparece em quatro de cada dez

A lista brasileira de sinais de alarme é curta e memorizável: atraso na eliminação de mecônio por mais de 48 horas, início no primeiro mês de vida, sintomas extraintestinais (vômito bilioso, febre, queda do estado geral), baixo ganho de peso e estatura, alterações ao exame neurológico ou da coluna lombar, presença de sangue nas fezes, tufo de pelos na região sacral e fístula perineal.

Lido ao pé da letra, o item do sangue derruba o próprio algoritmo. Na série de Criciúma, hematoquezia esteve presente em 41,8% das 67 crianças com constipação funcional — 28 crianças. Se sangue nas fezes bastasse para encaminhar, quatro em cada dez crianças com o diagnóstico mais banal da gastroenterologia pediátrica iriam para investigação especializada.

O que resolve o vão não está na lista, e sim na inspeção perianal que o guia manda fazer em todo mundo: sangue vivo, em raias, recobrindo a superfície das fezes ou no papel, em criança com fissura visível na linha média posterior e história de fezes calibrosas e dolorosas, é a fissura do próprio ciclo de retenção. Sangue misturado às fezes, sangue com muco, sangue com febre, sangue com perda de peso, ou sangue sem fissura à inspeção, é outra conversa.

O ciclo importa porque é ele que sustenta o tratamento comportamental. A criança evacua com dor, a fissura sangra, ela passa a segurar, o reto se dilata e absorve água do bolo retido, a próxima evacuação dói mais, e a retenção se instala. A dor é o motor. Amolecer a fezes não é conforto: é a única forma de interromper a alimentação do ciclo.

Escape fecal em pequena quantidade, várias vezes ao dia, que a criança não percebe, em quem evacua volumosamente uma vez por semana, é incontinência fecal retentiva — transbordamento em torno do fecaloma. É o achado que a mãe traz com a palavra “diarreia”, e é o que faz um antidiarreico ser prescrito para quem está impactado.

Fibra e água: o que as réguas dizem, e a frase que todo mundo escreve

As recomendações 21 e 22 da diretriz conjunta de 2014 são as mais curtas do documento inteiro. A de número 21: ingestão normal de fibra é recomendada. A de número 22: ingestão normal de líquido é recomendada. Não é dieta rica em fibras, e não é aumento da ingesta hídrica.

O guia brasileiro de 2024 diz o mesmo com outras palavras e é mais explícito sobre a fronteira: dieta pobre em fibra é fator de risco para a constipação funcional, mas não há evidências para recomendar o uso de fibras adicionais no tratamento — a ingestão adequada deve ser recomendada, e a suplementação, não.

O número por trás dessa posição merece atenção. A meta-análise de Pijpers encontrou diferença média padronizada de 0,35 evacuação por semana a favor da fibra, com intervalo de confiança de 95% entre 0,04 e 0,74, e o texto da diretriz classifica o achado como nem estatisticamente significativo nem clinicamente relevante. O intervalo publicado não inclui o zero. Já a irrelevância clínica se checa por conta própria: a 0,35 evacuação por semana, a criança espera cerca de três semanas para ganhar uma evacuação a mais.

Há, porém, uma posição brasileira publicada em sentido contrário — e ela é a referência 15 do guia de 2024, citada exatamente na frase que rejeita a suplementação. Maffei e Morais escrevem que a suplementação não deve ser condenada a priori e pode ser recomendada quando a dieta não é aceita ou não é suficiente, e que farelo de trigo, fibra insolúvel barata e disponível, é preferível a anos de laxante. Registram que, em 6 de 7 estudos com suplemento de fibra insolúvel, o agente empregado foi o farelo de trigo.

Os mesmos autores oferecem o número que falta nas duas diretrizes: quanto é “normal”. Pela faixa da American Health Foundation, a ingestão diária de fibra alimentar deve ser de idade em anos mais 5 a 10 gramas. Para o menino de cinco anos, de 10 a 15 gramas por dia.

Uma observação de método fecha a seção e explica a assimetria: na avaliação da própria diretriz de 2014, a qualidade da evidência foi graduada como muito baixa tanto para a ingestão normal de fibra quanto para a desimpactação com polietilenoglicol e para o polietilenoglicol e a lactulose na manutenção. Mesmo grau, destinos diferentes: um recebeu uma tabela de doses; o outro, o adjetivo “normal”.

O que a diretriz manda dar e o que a farmácia do sistema entrega

O polietilenoglicol é o medicamento de primeira escolha, tanto para desimpactar quanto para manter, nos dois documentos. Ele não consta da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024, em nenhuma forma farmacêutica, nem no Componente Básico nem no Especializado.

O que consta é o resto do arsenal. No Componente Básico estão a lactulose 667 mg/mL xarope, o óleo mineral para uso oral e o glicerol em solução retal de 120 mg/mL e em supositório de 81 a 92 mg. O bisacodil não está. Ou seja: dos quatro agentes que o capítulo discute, o único ausente da lista nacional é o único que as duas diretrizes colocam em primeiro lugar.

O próprio guia de 2024 escreve isso sem rodeios: registra que o polietilenoglicol, considerado a primeira opção, em geral não é disponibilizado pela maior parte dos serviços de saúde, e propõe que a sociedade e os profissionais atuem junto às autoridades sanitárias para incluí-lo nas unidades de dispensação em todo o território nacional. Acrescenta ainda que o custo do tratamento nem sempre cabe no orçamento da família.

Há uma segunda fronteira, essa regulatória. O mesmo parágrafo do guia lembra que, nas bulas dos produtos comercializados no Brasil, a utilização é indicada a partir dos dois anos de idade — enquanto o texto que ele acompanha afirma que o polietilenoglicol é seguro para uso a longo prazo em qualquer faixa etária, e a diretriz internacional o recomenda como primeira linha inclusive para lactentes.

A saída oficial quando o polietilenoglicol não está disponível é a lactulose, e aqui a conversão vale a pena. O guia brasileiro dá 1 a 3 mL/kg/dia. Na concentração que a lista nacional carrega, 667 mg/mL, isso são 0,67 a 2,0 g/kg/dia. A tabela internacional de origem dá 1 a 2 g/kg, uma ou duas vezes ao dia, isto é, de 1 a 4 g/kg/dia. O piso nacional fica um terço abaixo do piso da fonte, e o teto nacional é metade do teto da fonte. Para o menino de 20 quilos: de 20 a 60 mL por dia pela régua brasileira.

O óleo mineral tem uso e tem veto etário. É lubrificante de segunda linha, deve ser evitado abaixo de dois anos e em quem tem distúrbio de deglutição, pelo risco de aspiração e pneumonia lipoídica, e nunca deve ser administrado à força.

Sobre probióticos, as duas réguas convergem no ceticismo, ainda que a literatura tenha um sinal positivo: a revisão internacional descreve um ensaio duplo-cego com 44 lactentes em fórmula, com Lactobacillus reuteri DSM 17938 por oito semanas e frequência evacuatória maior que a do placebo — e ainda assim conclui pela ausência de evidência que sustente o uso.

Toque retal, radiografia e os exames que o quadro típico dispensa

O diagnóstico é clínico. Isso é escrito de forma idêntica nos dois documentos, e é o que sustenta a maior parte das respostas corretas do acervo: quadro típico, sem sinais de alarme, com crescimento normal, se trata sem exame nenhum.

O toque retal é o ponto onde a régua se contradiz de forma mais visível, e a contradição está dentro do mesmo texto internacional. A seção de evidência conclui que os dados não sustentam o uso do toque retal para diagnosticar constipação funcional; o melhor discriminador, na série avaliada, foi “fezes presentes ao toque”, com razão de verossimilhança de apenas 1,6 (1,2 a 2,0), longe do 2 que a própria revisão adota como limiar de relevância. Três parágrafos adiante, a recomendação número 4 manda fazer o toque quando apenas um critério de Roma está presente e o diagnóstico é incerto, e a de número 5, diante de sinais de alarme ou de constipação intratável.

A versão brasileira reescreve isso e perde o primeiro gatilho: o guia de 2024 diz que não há evidências para recomendar o toque em todos os pacientes, especialmente acima de um ano e sem sinais de alarme, e que ele pode ser recomendado diante de suspeita de fecaloma, sinais de alarme ou suspeita de causa orgânica. A hipótese do critério único desapareceu; a suspeita de fecaloma entrou no lugar. E o texto nacional acrescenta um veto que vale carregar: o toque não deve ser realizado quando há suspeita de violência sexual, situação que exige avaliação multiprofissional.

A radiografia simples de abdome segue a mesma lógica em dois tempos. Não tem papel no diagnóstico de rotina, mas pode ser usada na criança em que se suspeita de impactação e cujo exame físico não é confiável — barriga tensa, criança que não colabora, obesidade que impede a palpação. É exceção com indicação nomeada, não etapa do fluxo.

Rastrear hipotireoidismo, doença celíaca e hipercalcemia não é recomendado na ausência de alarme, e passa a ser considerado nos casos que não respondem ao tratamento inicial. Teste de alergia de rotina para leite de vaca também não; o que as duas réguas admitem é um teste terapêutico de 2 a 4 semanas de exclusão da proteína do leite de vaca na criança refratária, com desencadeamento oral aberto depois.

Manometria anorretal, enema opaco e biópsia retal têm endereço próprio: a suspeita de doença de Hirschsprung e a constipação refratária. A biópsia é o padrão-ouro, e o que separa clinicamente as duas doenças cabe em uma linha: no Hirschsprung o reto é estreito e quase sempre vazio, esforço intenso e incontinência fecal são raros, e a história começa no berço.

Manutenção, recaída e a alta que a pressa transforma em recidiva

O objetivo da manutenção é aritmético e a família precisa sabê-lo: manter fezes pastosas, diárias ou a cada dois dias. Não é “melhorar”. É uma consistência e uma frequência, e a dose se ajusta por elas, para cima ou para baixo, dentro da faixa de 0,2 a 0,8 g/kg/dia.

O prazo mínimo também é escrito. A manutenção medicamentosa deve durar pelo menos dois meses, e todos os sintomas de constipação precisam estar ausentes por pelo menos um mês antes de se considerar a redução gradual da dose. Redução gradual, não suspensão. E há uma regra de contexto que a diretriz internacional acrescenta e que muda a data de alta de muita criança pequena: durante o treinamento esfincteriano, a medicação só deve ser interrompida depois que o treinamento estiver concluído.

O ensaio de 2025 mostra o que os serviços fazem na prática: as crianças receberam alta da desimpactação com a mesma formulação, na dose de 0,8 g/kg/dia por três meses — o teto da faixa de manutenção, e um prazo 50% maior que o mínimo brasileiro.

A parte não farmacológica tem números próprios. Sentar no vaso em horários regulares, depois das refeições, para aproveitar o reflexo gastrocólico, por 5 a 10 minutos por tentativa, com apoio para os pés. Diário de evacuações e de medicação, elogio pelo acerto e nenhuma punição — a família precisa entender que o escape não é preguiça.

Constipação refratária tem definição datada: em 2014, as duas sociedades definiram como intratável o paciente que não responde ao tratamento ótimo no período de três meses. Antes de aceitar esse rótulo, o guia brasileiro manda checar o que quase sempre é o problema real: adesão, dose baixa administrada de forma não contínua, e desimpactação incompleta na fase inicial. As moléculas novas discutidas em adultos — lubiprostona, linaclotida, prucaloprida — ainda não devem ser usadas em crianças e adolescentes.

Fica um número de saúde pública que dá o tamanho do problema: em estudo com escolares, apenas 17% daqueles com constipação funcional por Roma IV haviam recebido algum tratamento nos dois meses anteriores. E, na série de Criciúma, a idade média na consulta especializada foi de 7,75 anos contra 4,49 anos no início dos sintomas — cerca de três anos e quatro meses de intervalo. O diagnóstico não é difícil; ele é tardio.

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Quadros de decisão

Três quadros resolvem a maioria dos enunciados: os critérios de Roma IV nas duas faixas etárias, a tabela de doses com a fonte de cada número, e o que a lista nacional de medicamentos entrega diante do que a diretriz recomenda.

  1. 11. A queixa é constipação? Confira contra a média da idade: cerca de 4 evacuações por dia no lactente, 2 por dia até 2 anos, 1 por dia após os 4 anos. Lactente em aleitamento materno exclusivo com intervalo longo, fezes amolecidas e sem dor é pseudoconstipação e não trata. Lactente abaixo de 9 meses com 10 minutos ou mais de esforço e choro antes de evacuar, sem outra doença, é disquesia e não trata.
  2. 22. Preenche Roma IV? Abaixo de 4 anos: 2 ou mais dos 6 critérios por pelo menos 1 mês. De 4 anos à adolescência: 2 ou mais dos 6 critérios, ao menos 1 vez por semana, por pelo menos 1 mês. Lembre que dor abdominal não é critério, e que o critério de frequência é o menos comum dos seis.
  3. 33. Há sinal de alarme? Mecônio depois de 48 horas, início no primeiro mês de vida, vômito bilioso, febre, queda do estado geral, baixo ganho pôndero-estatural, alteração neurológica ou da coluna lombar, sangue nas fezes, tufo de pelos sacral, fístula perineal. Havendo alarme, investiga-se de forma dirigida e encaminha-se. Sangue vivo em raias com fissura visível à inspeção, em quadro típico, é a fissura do ciclo de retenção.
  4. 44. Há impactação fecal? Massa fecal palpável no abdome ou ampola cheia de fezes endurecidas. É a única pergunta que muda a dose por um fator de até 7,5 vezes. Se o exame físico não for confiável, a radiografia simples é aceita para essa resposta específica — e só para ela.
  5. 55. Havendo impactação, esvazie: polietilenoglicol oral 1 a 1,5 g/kg/dia. O guia brasileiro escreve 3 dias ou até o esvaziamento; a tabela de origem impõe teto de 6 dias consecutivos. Enema fica para quem não tolera a via oral. Avise a família de vômitos e desconforto abdominal, que ocorreram em cerca de um quarto e um terço das crianças no ensaio de 2025.
  6. 66. Mantenha: polietilenoglicol 0,2 a 0,8 g/kg/dia (dose inicial de 0,4 g/kg/dia pela recomendação internacional), ajustando pela consistência, com o alvo de fezes pastosas diárias ou a cada dois dias. Sem polietilenoglicol, lactulose 1 a 3 mL/kg/dia. Não acrescente enema ao uso crônico do laxante osmótico.
  7. 77. Some o comportamental desde o primeiro dia: toalete após as refeições, 5 a 10 minutos, apoio para os pés, diário, elogio, sem punição. Ingestão de fibra e de líquido adequada à idade — a régua da American Health Foundation é idade em anos mais 5 a 10 gramas de fibra por dia. Suplementação de fibra não é recomendada pelas duas diretrizes.
  8. 88. Retire devagar: pelo menos 2 meses de manutenção e pelo menos 1 mês sem qualquer sintoma antes de começar a reduzir. Em criança no treinamento esfincteriano, só depois de o treino estar concluído. Sem resposta ao tratamento ótimo em 3 meses, chame de refratária — depois de checar adesão, dose e desimpactação incompleta.

Roma IV: os critérios nas duas faixas etárias (Tabela 1 do guia brasileiro de 2024)

CritérioMenores de 4 anosDe 4 anos à adolescência
Quantos itens e por quanto tempo2 ou mais, por pelo menos 1 mês2 ou mais, ao menos 1 vez por semana, por pelo menos 1 mês
Frequência evacuatóriaDuas ou menos evacuações por semanaDuas ou menos evacuações no banheiro por semana
RetençãoRetenção excessiva de fezesHistória de comportamento de retenção ou retenção voluntária excessiva
DorHistória de dor ou dificuldade nas evacuaçõesHistória de dor ou dificuldade para evacuar
CalibreFezes com grande calibreHistória de fezes de grande diâmetro que podem obstruir o vaso
Massa fecalMassa fecal no retoGrande massa fecal no reto
Incontinência fecalCritério adicional para quem já tem controle esfincteriano: ao menos 1 episódio por semanaPelo menos 1 episódio de incontinência fecal por semana
Em todas as faixasSintomas não plenamente explicados por outra condição médicaAcima de 4 anos, critérios insuficientes para síndrome do intestino irritável

Doses: o número, a fonte que o imprime, e o que dá para um menino de 20 kg

Fase / agenteDoseOnde está escritoPara 20 kg
Desimpactação, polietilenoglicol oral1 a 1,5 g/kg/diaGuia brasileiro 2024 (3 dias ou até esvaziar) e diretriz de 2014, recomendação 31 (3 a 6 dias); tabela de 2014 imprime a linha sob polietilenoglicol 4000, com teto de 6 dias consecutivos20 a 30 g/dia
Manutenção, polietilenoglicol oral0,2 a 0,8 g/kg/diaTabela 6 da diretriz de 2014 (sob polietilenoglicol 3350) e guia brasileiro 20244 a 16 g/dia
Manutenção, dose inicial0,4 g/kg/diaRecomendação 33 da diretriz de 2014, ajustar pela resposta clínica8 g/dia
Manutenção, lactulose (2ª opção)1 a 3 mL/kg/diaGuia brasileiro 2024; na concentração da lista nacional, 667 mg/mL, equivale a 0,67 a 2,0 g/kg/dia20 a 60 mL/dia
Manutenção, lactulose na tabela de origem1 a 2 g/kg, 1 ou 2 vezes ao diaTabela 6 da diretriz de 2014, isto é, 1 a 4 g/kg/dia20 a 80 g/dia
Enema de cloreto de sódio, neonato5 mL se menos de 1 kg; 10 mL se mais de 1 kgTabela 6 da diretriz de 2014, em mililitros absolutosnão se aplica
Enema de cloreto de sódio, acima de 1 ano6 mL/kg, 1 ou 2 vezes ao diaTabela 6 da diretriz de 2014120 mL
Enema de fosfato de sódio, 1 a 18 anos2,5 mL/kg, máximo de 133 mL por doseTabela 6 da diretriz de 2014; o guia brasileiro copia a dose por quilo, omite o teto e recomenda evitar a droga50 mL
Óleo mineral oral, 1 a 18 anos1 a 3 mL/kg/dia, máximo de 90 mL/diaTabela 6 da diretriz de 2014; segunda linha, evitar abaixo de 2 anos e em distúrbio de deglutição20 a 60 mL/dia

O que a diretriz recomenda e o que a Rename 2024 carrega

AgentePosição na diretrizNa Rename 2024
Polietilenoglicol (macrogol)Primeira escolha na desimpactação e na manutenção, nos dois documentosAusente, em qualquer forma farmacêutica
LactulosePrimeira linha de manutenção quando o polietilenoglicol não está disponívelComponente Básico, xarope 667 mg/mL, código A06AD11
Óleo mineralAdicional ou segunda linha; evitar abaixo de 2 anos e em distúrbio de deglutiçãoComponente Básico, óleo para uso oral, código A06AA01
Glicerol retalNão figura entre as primeiras escolhas do guia brasileiroComponente Básico, solução retal 120 mg/mL e supositório de 81 a 92 mg, código A06AG04
BisacodilEstimulante, adicional ou segunda linhaAusente

O binário que muda a dose por um fator de 7,5 é a impactação fecal, e ele se responde com a mão no abdome e, quando indicado, com o toque retal. Nenhum número de dias sem evacuar substitui essa resposta.

Dor abdominal é o sintoma mais frequente da casuística brasileira e não é critério de Roma. Enunciado que oferece dor abdominal como se fosse critério está testando exatamente isso.

A frequência de duas ou menos evacuações por semana é o critério mais raro dos seis na casuística internacional, e sua prevalência muda conforme o nível de atenção: 43,1% a 65,8% em serviço terciário contra 17,3% a 27,0% na atenção primária.

Quem escreve a dose deve dizer a fase. A mesma droga, na mesma criança, no mesmo dia, tem duas doses separadas por um fator de até cinco entre manutenção e desimpactação.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Quanto tempo de sintomas é preciso para diagnosticar constipação funcional no maior de 4 anos

Um mês (Roma IV, 2016)

Dois ou mais dos seis critérios, presentes ao menos uma vez por semana, por pelo menos um mês. É a régua reproduzida na Tabela 1 do documento nacional vigente e a que o pediatra brasileiro aplica hoje na consulta.

Sociedade Brasileira de Pediatria, Guia Prático de Orientação nº 144, 04 de abril de 2024, Tabela 1, reproduzindo os critérios de Roma IV publicados em 2016.

Dois meses (Roma III, 2006)

Dois ou mais critérios, ao menos uma vez por semana, por pelo menos dois meses, e com idade de desenvolvimento de ao menos quatro anos. É a régua que a diretriz internacional de 2014 adota explicitamente em sua recomendação número 1 — a mesma diretriz de onde vêm todas as doses que o documento brasileiro usa.

Tabbers MM et al., ESPGHAN/NASPGHAN, Journal of Pediatric Gastroenterology and Nutrition, 2014;58(2):258-274, recomendação 1 e tabela dos critérios de Roma III.

Um critério, sem exigir dois (critérios de Boston, defendidos por autores brasileiros)

Um único sinal ou sintoma deve bastar para o diagnóstico precoce na atenção primária, preferencialmente fezes dolorosas ou endurecidas, porque exigir dois itens atrasa o diagnóstico. Aplicados aos mesmos 303 lactentes de três centros comunitários, os critérios de um item diagnosticaram 22,2% contra 2,6% pelos critérios de Roma III.

Maffei HVL, Morais MB. Arquivos de Gastroenterologia, 2018;55(Supl 1):56-60 — artigo que figura como referência 15 do próprio guia brasileiro de 2024.

Na prova

O enunciado que quer testar a régua diz a duração dos sintomas com precisão suspeita: seis semanas, sete semanas, um mês e meio. Quando a duração está entre um e dois meses em criança maior de quatro anos, o avaliador está escolhendo entre Roma IV e Roma III, e a banca brasileira trabalha com a versão que o documento nacional vigente reproduz. Quando a duração é confortável — três meses, seis meses, um ano —, a duração não é o eixo da questão e o que se cobra está em outro lugar: a presença de impactação, a leitura do escape ou a escolha da dose.

Qual é o piso da dose de manutenção do polietilenoglicol

0,2 g/kg/dia — piso da tabela de doses

A tabela de doses da diretriz internacional imprime, para o polietilenoglicol 3350 em manutenção, a faixa de 0,2 a 0,8 g/kg/dia. O documento brasileiro de 2024 adota essa mesma faixa e acrescenta que a dose pode ser aumentada ou reduzida conforme a consistência das fezes.

Tabela 6 de Tabbers MM et al., 2014; e Sociedade Brasileira de Pediatria, Guia Prático de Orientação nº 144, 04 de abril de 2024.

0,4 g/kg/dia — dose inicial da recomendação

A recomendação numerada do mesmo documento internacional prescreve começar com 0,4 g/kg/dia e ajustar conforme a resposta clínica. É o dobro do piso que a tabela do mesmo texto imprime, e o registro da votação anota que dois membros com conflito de interesse declarado com a indústria fabricante do polietilenoglicol não participaram da discussão nem votaram.

Tabbers MM et al., 2014, recomendação número 33 e respectivo registro de votação.

Na prova

Não é divergência sobre o que fazer, e sim sobre onde começar. Alternativa que ofereça 0,4 g/kg/dia como dose inicial de manutenção está dentro das duas leituras e sobrevive; alternativa que ofereça 0,2 ou 0,8 também está dentro da faixa publicada. O que separa certo de errado, nessas questões, quase nunca é o valor dentro da faixa: é a fase. Se a vinheta descreve massa fecal palpável ou ampola repleta, qualquer dose de manutenção está errada como conduta inicial, porque falta desimpactar antes.

Suplementar fibra no tratamento da constipação funcional da criança

Contra a suplementação: ingestão normal basta

A recomendação internacional é de ingestão normal de fibra e de líquido, e o documento brasileiro acrescenta que a ingestão adequada deve ser recomendada, mas não a suplementação. A meta-análise citada encontrou diferença média padronizada de 0,35 evacuação por semana a favor da fibra, com intervalo de confiança de 95% de 0,04 a 0,74, classificada no texto como sem relevância clínica.

Tabbers MM et al., 2014, recomendações 21 e 22 e revisão da meta-análise de Pijpers; Sociedade Brasileira de Pediatria, Guia Prático de Orientação nº 144, 04 de abril de 2024.

A favor quando a dieta não basta: farelo de trigo

A suplementação não deve ser condenada a priori e pode ser recomendada quando a dieta rica em fibra não é aceita ou não é suficiente, e para populações economicamente desfavorecidas, para as quais o produto integral custa mais que o refinado. Em 6 de 7 estudos com suplemento de fibra insolúvel, o agente empregado foi o farelo de trigo, barato e disponível no Brasil.

Maffei HVL, Morais MB. Arquivos de Gastroenterologia, 2018;55(Supl 1):56-60 — artigo citado como referência 15 na própria frase do guia brasileiro que rejeita a suplementação.

Na prova

A resposta esperada nas bancas brasileiras acompanha o documento nacional vigente: orientação alimentar adequada à idade, sem suplemento de fibra e sem prometer que fibra resolve. O sinal de que a questão está no eixo da fibra é a alternativa que oferece dieta rica em fibras e aumento de líquidos como conduta isolada em criança com massa fecal palpável — essa é errada por outro motivo, mais forte, que é não desimpactar. Alternativa que descreva a fibra como coadjuvante junto do laxante osmótico não é o que a diretriz recusa.

Fazer ou não o toque retal na criança com quadro típico e sem sinais de alarme

A evidência não sustenta o exame

A revisão de evidência conclui que os dados não sustentam o uso do toque retal para diagnosticar constipação funcional; o melhor discriminador encontrado foi a presença de fezes ao toque, com razão de verossimilhança de 1,6, abaixo do limiar de relevância que a própria revisão adota. O documento brasileiro reforça que não há evidências para recomendá-lo em todos os pacientes, especialmente acima de um ano e sem sinais de alarme.

Tabbers MM et al., 2014, seção de evidência sobre exame digital do anorreto, com os dados de Beckman; Sociedade Brasileira de Pediatria, Guia Prático de Orientação nº 144, 04 de abril de 2024.

As recomendações mandam fazê-lo em situações nomeadas

O mesmo documento internacional recomenda o exame digital do anorreto quando apenas um critério de Roma está presente e o diagnóstico é incerto, e diante de sinais de alarme ou de constipação intratável. O documento brasileiro mantém apenas o segundo grupo e substitui o gatilho do critério único pela suspeita de fecaloma, acrescentando um veto: o toque não deve ser realizado quando há suspeita de violência sexual.

Tabbers MM et al., 2014, recomendações 4 e 5; Sociedade Brasileira de Pediatria, Guia Prático de Orientação nº 144, 04 de abril de 2024, seção de abordagem diagnóstica.

Na prova

Se a vinheta já descreve massa fecal palpável, o toque não é o eixo — a impactação está estabelecida e a pergunta é o que se prescreve. Se a vinheta descreve quadro típico sem alarme e oferece o toque como etapa obrigatória antes de tratar, essa é a leitura que as duas réguas recusam. E se a vinheta menciona suspeita de violência, o toque sai de cena por regra, independentemente da constipação.

06

Caso resolvido

Menino de 5 anos, 20 kg, levado à unidade básica de saúde por escape de fezes na roupa íntima quase todos os dias há três meses, motivo de constrangimento na escola. A mãe conta que ele evacua no vaso uma vez por semana, com fezes muito calibrosas que já entupiram o vaso, e que a criança cruza as pernas, fica na ponta dos pés e se esconde atrás do sofá quando sente vontade. Refere evacuações dolorosas, com sangue vivo em raias ocasionalmente. Nasceu a termo, eliminou mecônio nas primeiras 12 horas, peso e estatura no percentil 50. Ao exame: massa fecal endurecida palpável em fossa ilíaca esquerda; fissura superficial na linha média posterior à inspeção; exame neurológico e da região lombossacra normais.
1. Preenche Roma IV?
Criança de 5 anos, faixa dos 4 anos à adolescência: são necessários dois ou mais critérios, ao menos uma vez por semana, por pelo menos um mês. Estão presentes cinco: uma evacuação por semana no vaso, incontinência fecal quase diária, comportamento de retenção descrito com precisão, história de evacuações dolorosas e fezes de grande diâmetro que obstruem o vaso. Há ainda a massa fecal. O diagnóstico é clínico e está fechado com folga.
2. Há sinal de alarme?
Mecônio nas primeiras 12 horas afasta o atraso; o início é tardio, não no primeiro mês; o crescimento está no percentil 50; o exame neurológico e da coluna lombossacra é normal; não há tufo de pelos nem fístula perineal. Resta o sangue, que a lista nacional inclui como alarme — mas ele é vivo, em raias, e há fissura superficial na linha média posterior à inspeção, em criança com fezes calibrosas e dolorosas. É a fissura do ciclo de retenção, não sangramento a investigar.
3. Há impactação?
Massa fecal endurecida palpável em fossa ilíaca esquerda responde a pergunta que decide a dose. O escape quase diário de pequeno volume é transbordamento em torno do bolo retido, e não diarreia. Radiografia de abdome não acrescenta: o exame físico foi conclusivo, e ela só se justificaria se a palpação fosse impossível ou não confiável.
4. Esvaziar antes de manter
Polietilenoglicol oral, 1 a 1,5 g/kg/dia: para 20 kg, de 20 a 30 gramas por dia. O guia brasileiro escreve três dias ou até o esvaziamento; a tabela internacional de origem impõe teto de seis dias consecutivos, e o ensaio de 2025 registrou média de 4,3 dias e dose cumulativa de 6,5 g/kg. Avise a família de que vômito e desconforto abdominal são comuns nessa fase, e que o escape pode piorar antes de melhorar. Enema fica reservado a quem não consegue a via oral.
5. Manter, orientar e marcar a data da alta
Depois do esvaziamento, polietilenoglicol 0,2 a 0,8 g/kg/dia — de 4 a 16 gramas para 20 kg, começando por volta de 0,4 g/kg/dia, isto é, 8 gramas — ajustado para fezes pastosas diárias ou a cada dois dias. Junto, desde o primeiro dia: toalete após as refeições, 5 a 10 minutos, apoio para os pés, diário de evacuações, elogio e nenhuma punição, e a conversa explícita com a família de que o escape não é sujeira nem preguiça. Manutenção por pelo menos dois meses, e pelo menos um mês sem sintoma antes de reduzir devagar. Sem polietilenoglicol na unidade, lactulose 1 a 3 mL/kg/dia — de 20 a 60 mL por dia.
07

Agora feche você

Menina de 5 anos é levada à unidade básica de saúde. A mãe conta que, há cerca de seis semanas, desde uma internação por pneumonia, a filha evacua a cada quatro ou cinco dias, com fezes endurecidas e dolorosas, e que fica de pé, imóvel, com as pernas cruzadas, quando sente vontade. Não há escape fecal. Nasceu a termo, eliminou mecônio nas primeiras 24 horas, peso e estatura no percentil 50, desenvolvimento normal. Ao exame: abdome flácido, indolor, sem massas palpáveis; inspeção perianal e região lombossacra sem alterações; força e reflexos preservados nos membros inferiores. A unidade não dispensa polietilenoglicol.
1. Conte os critérios e conte as semanas
Quantos critérios de Roma IV estão presentes, e por quanto tempo? A menina tem 5 anos, portanto vale a coluna dos 4 anos à adolescência: dois ou mais critérios, ao menos uma vez por semana, por pelo menos um mês. Seis semanas é mais que um mês — e é menos que os dois meses que a régua anterior exigia.
2. Decida se há impactação
Abdome flácido, indolor, sem massas, sem escape fecal. O que isso muda na dose que você vai prescrever? E qual é o fator entre a dose que se prescreve com fecaloma e a que se prescreve sem ele, para uma criança de 18 kg?
3. Decida se precisa de exame
Enema opaco, manometria, radiografia de abdome para quantificar carga fecal, dosagem de hormônio estimulante da tireoide, sorologia para doença celíaca: alguma dessas entra agora? Justifique pela ausência ou presença de sinais de alarme, e não pela intensidade da queixa.
4. Escreva a prescrição possível nesta unidade
A primeira escolha das duas diretrizes não está disponível. Qual é o agente de segunda linha que a lista nacional de medicamentos carrega para essa finalidade, em que concentração, e em que dose por quilo? Escreva a quantidade diária em mililitros para 18 kg.
5. Diga o que orientar e quando parar
Liste o que vai junto da receita: rotina de toalete, tempo por tentativa, apoio para os pés, diário, e o que fazer com a orientação alimentar. Depois defina o critério de alta: quanto tempo de manutenção, e quanto tempo sem sintoma antes de reduzir.
08

Onde a banca derruba

  1. 1Chamar de diarreia o que é transbordamento A vinheta abre com a mãe dizendo que a criança tem diarreia há dois meses e suja a roupa íntima várias vezes ao dia. Se você aceitar a palavra da mãe, marca antidiarreico ou coprocultura. O que denuncia a retenção está sempre na mesma frase seguinte: as evacuações volumosas acontecem a cada sete ou dez dias, e há massa palpável em fossa ilíaca esquerda. O erro que o aluno marca é loperamida — que agrava a impactação que produziu o escape.
  2. 2Iniciar a manutenção em quem está impactado É a pegadinha mais bem construída do tema, porque a alternativa é clinicamente correta fora de contexto: polietilenoglicol 0,4 g/kg/dia com orientação dietética e treinamento de toalete, reavaliando em quatro semanas. Diante de massa fecal palpável e ampola repleta, essa conduta perpetua o escape. A vinheta que descreve fecaloma exige desimpactação antes, com 1 a 1,5 g/kg/dia. O erro é confundir a dose certa com a fase certa.
  3. 3Tratar sangue nas fezes como sinal de alarme automático A lista nacional de alarme inclui sangue nas fezes, e a série brasileira mostra hematoquezia em 41,8% das crianças com constipação funcional. A vinheta que descreve sangue vivo em raias, com fissura superficial na linha média posterior e história de fezes calibrosas e dolorosas, está descrevendo a fissura do ciclo de retenção. O erro que o aluno marca é encaminhar para colonoscopia ou biópsia retal por causa do sangue.
  4. 4Deixar o critério de frequência decidir sozinho A criança evacua todo dia, e a alternativa que diz “não é constipação, pois a frequência é normal” parece segura. Mas o critério da frequência é o mais raro dos seis, presente em 39% de uma casuística internacional de 336 crianças. Fezes endurecidas com dor, postura de retenção e fezes que entopem o vaso fecham o diagnóstico sem tocar na contagem de dias. O erro é tratar um dos seis critérios como se fosse a definição.
  5. 5Pedir exame para confirmar o que é clínico Enema opaco, manometria anorretal, biópsia retal por sucção, radiografia para quantificar carga fecal, painel com hormônio estimulante da tireoide, sorologia para doença celíaca e cálcio: em quadro típico, sem alarme, com crescimento normal, nada disso entra. Duas exceções nomeadas existem: a radiografia simples quando o exame físico não é confiável e se suspeita de impactação, e a investigação dirigida quando há alarme ou falha terapêutica.
  6. 6Confundir a criança que retém com o lactente que não retém Duas situações do primeiro ano de vida são normais e não se tratam. Pseudoconstipação do amamentado: intervalo longo entre evacuações, com fezes amolecidas e sem dor, estimada em 5,1% no primeiro semestre. Disquesia do lactente: ao menos dez minutos de esforço e choro antes de evacuar, em criança abaixo de nove meses, sem outra doença, identificada em 3,9% dos lactentes em consultórios brasileiros. O erro é prescrever supositório ou laxante para quem não precisa.
  7. 7Prescrever óleo mineral no lactente e enema de fosfato como manutenção O óleo mineral é lubrificante de segunda linha, deve ser evitado abaixo dos dois anos e em quem tem distúrbio de deglutição, e nunca deve ser administrado à força, pelo risco de aspiração. O enema de fosfato de sódio tem uso pontual, não diário, e o próprio guia brasileiro manda evitá-lo por risco de hiperfosfatemia. E acrescentar enema ao uso crônico de laxante osmótico é recomendação expressa contra, na diretriz internacional.
  8. 8Parar o laxante quando a criança melhora A vinheta descreve criança em manutenção há seis semanas, evacuando bem há duas, e a alternativa oferece suspender a medicação. A régua é dupla: pelo menos dois meses de manutenção e pelo menos um mês sem qualquer sintoma antes de considerar a redução, que é gradual. Em criança no meio do treinamento esfincteriano, a medicação só sai depois do treino concluído. O erro é confundir melhora com alta.
  9. 9Levantar Hirschsprung na criança errada Escape fecal, ampola cheia, início após o desmame ou o desfralde, mecônio eliminado nas primeiras 24 ou 48 horas e crescimento normal apontam para o lado funcional. Hirschsprung começa no berço, tem ampola estreita e quase sempre vazia com esfíncter hipertônico, cursa com distensão e déficit pôndero-estatural, e raramente tem esforço intenso ou incontinência fecal. Encaminhar para biópsia retal a criança com escape e ampola cheia é o erro que a vinheta convida a cometer.
  10. 10Prescrever o que a farmácia da unidade não tem Em questão de atenção primária que peça a conduta possível na unidade, vale saber o que a lista nacional carrega: lactulose xarope, óleo mineral oral e glicerol retal estão no Componente Básico; o polietilenoglicol não está em lista nacional nenhuma. A primeira escolha da diretriz é justamente a que o serviço com frequência não dispensa, e o próprio guia de 2024 registra isso e pede a inclusão.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Trata-se de constipação funcional com impactação fecal e incontinência por transbordamento (o escape é overflow, não diarreia verdadeira). O manejo correto começa pela desimpactação (oral com PEG em altas doses ou por via retal) seguida da manutenção com polietilenoglicol e medidas comportamentais/dietéticas — sem esse passo, a manutenção falha. Apenas dieta é insuficiente diante de impactação. Loperamida agravaria a constipação. Hirschsprung é improvável (início após período neonatal, escape fecal e ampola cheia falam contra), não justificando biópsia imediata sem sinais de alarme.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

Sorteando as questões…

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Plano de revisão

em 7 dias

Sete dias depois, recupere de memória seis coisas. As duas colunas de Roma IV, com o número de critérios e a duração de cada faixa etária. Os seis critérios, e qual deles é o menos frequente na casuística. A lista de sinais de alarme, e o que fazer quando o único item presente é sangue vivo em raias com fissura visível. A dose de desimpactação e a de manutenção do polietilenoglicol, em gramas por quilo por dia, e o que cada uma dá para 20 kg. O prazo mínimo de manutenção e o prazo sem sintoma antes de reduzir. E os três agentes que a lista nacional carrega, contra o que a diretriz coloca em primeiro lugar.

em 30 dias

Trinta dias depois, resolva cinco cenários antes de conferir. Menino de 6 anos, 22 kg, evacua a cada seis dias, escape diário, massa palpável — escreva as duas prescrições em gramas por dia, na ordem certa. Menina de 3 anos com fezes endurecidas há cinco semanas, sem escape, sem massa — diga se preenche critério e qual coluna você usou. Lactente de 3 meses em aleitamento materno exclusivo, sete dias sem evacuar, fezes amolecidas, sem dor — diga o nome do quadro e a conduta. Escolar com constipação típica cuja unidade não tem polietilenoglicol — escreva o agente, a concentração e o volume diário para 25 kg. Criança de 4 anos em manutenção há seis semanas, sem sintoma há três — diga se pode reduzir e por quê.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

No ambulatório ou na unidade, três perguntas transformam este capítulo em consulta. A primeira, para a família: quantas vezes por semana ela evacua no vaso, como são as fezes, e há quanto tempo — e depois a pergunta que ninguém faz, se dói. A segunda, para a sua mão: existe massa fecal palpável neste abdome? É ela, e não o número de dias, que decide a dose que você vai escrever. E a terceira, para a receita: você escreveu a fase junto da dose, em gramas por quilo por dia, e disse por quantos dias e até quando? Se a família sair com um sachê e sem uma data, o escape volta antes do retorno. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Constipação intestinal funcional na infância — Preparatório para provas | OsceLabs