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Doença celíaca na criança: o país compra o teste do lactente e manda todo mundo para a biópsia

Doença celíaca na infância

Um corte de vinte e cinco linfócitos no texto e de quarenta na legenda da figura ao lado, a prevalência da criança e a do adulto trocadas entre dois documentos federais que citam a mesma fonte, e a sigla do exame recém-incorporado escrita errada mais vezes do que certo no protocolo que o incorporou

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Mulher de 30 anos apresenta diarreia crônica, distensão abdominal e perda de peso. Relata melhora dos sintomas ao retirar pão e massas da dieta. A sorologia mostra anticorpo antitransglutaminase tecidual (anti-tTG) IgA fortemente positivo. Qual é o exame considerado padrão-ouro para confirmar o diagnóstico de doença celíaca?

02

Como esse tema cai

O recorte é a doença celíaca da criança e do adolescente: quem rastrear, com que par de exames, o que muda abaixo dos dois anos, quando a biópsia é obrigatória, o que a histologia precisa mostrar, e o que se acompanha depois da dieta. É a enteropatia autoimune desencadeada pelo glúten em quem tem predisposição genética, e não a reação alimentar mediada por imunoglobulina E.

Ficam de fora a alergia à proteína do leite de vaca, que tem capítulo próprio nesta apostila, e a diarreia aguda com desidratação, que tem outro. Ficam de fora, por decisão do próprio protocolo federal, a alergia ao trigo e a sensibilidade ao glúten não celíaca — dois quadros que melhoram sem glúten e não são esta doença. E fica de fora a apresentação do adulto, que é servida pelo capítulo de síndrome do intestino irritável da clínica médica.

A unidade de trabalho é a questão de prova. Cada seção termina onde uma alternativa se decide, e as contas que aparecem foram refeitas a partir dos números publicados nos documentos, não copiadas dos resumos deles.

03

O que muda decisão

Quando suspeitar de doença celíaca

Como usar este capítulo: mantenha glúten na dieta durante a investigação, selecione sorologia inicial conforme idade e disponibilidade, confirme deficiência de IgA e decida sobre biópsia pela diretriz que a questão está utilizando. O diagnóstico vem antes da dieta.

Esta apostila tinha quatro capítulos: diarreia aguda, refluxo do lactente, alergia à proteína do leite de vaca e constipação funcional. Das duas enteropatias por proteína alimentar da infância, tem a não autoimune e não tem a autoimune — e o capítulo da proteína do leite tem 5.780 palavras e nenhuma menção a glúten, doença celíaca ou transglutaminase.

Varrendo o acervo inteiro — 917 capítulos, dos quais 472 pendurados numa especialidade e 445 nas grandes áreas do ciclo básico, que somem de qualquer varredura feita por junção —, zero trazem celíaca ou glúten no tema ou no título. Vinte e três mencionam o assunto no corpo.

Dois fluxos comparativos: enteropatia por proteína do leite de vaca com retirada e recuperação das vilosidades, e doença celíaca com investigação diagnóstica e seguimento contínuo.
A resposta à retirada da proteína e a recuperação clínica sustentam o diagnóstico das formas não IgE-mediadas relacionadas ao leite. Na doença celíaca, a exposição ao glúten desencadeia doença crônica, cuja confirmação e acompanhamento seguem critérios próprios.

Há mais que ausência: há uma remissão quebrada. O capítulo de baixa estatura, desta mesma área e nível, escreve que o segundo exame da triagem é a sorologia celíaca e acrescenta que "a doença em si tem capítulo próprio na apostila de gastroenterologia". Esse capítulo não existe: o texto manda o aluno para um endereço vazio.

O outro vizinho é adulto: o capítulo de síndrome do intestino irritável e diarreia crônica menciona o assunto 54 vezes e ensina bem a sorologia do adulto — mas escreve criança duas vezes em 9.483 palavras, pediátrico uma, e lactente e adolescente zero, e não traz a via de dispensa de biópsia, que só existe na criança.

A demanda mede em duas camadas. Nas quatro trilhas de prova, que somam 11.290 questões ativas, o assunto aparece em 18 enunciados e é o conteúdo da alternativa correta em 17, com união de 31 portantes. Outras 38 o carregam só nas opções — parar no enunciado perderia metade do que existe. E 21 questões trazem o rótulo de tema exato deste capítulo, hoje um dos 76 temas órfãos do banco.

Formas clássica, não clássica e assintomática

O protocolo federal reconhece três apresentações: intestinal, ou clássica; extraintestinal, ou não clássica; e assintomática. As duas primeiras não se excluem.

A intestinal reúne dor abdominal sem causa aparente, flatulência, vômitos, constipação e diarreia crônica, com distensão, perda de apetite e de peso, atrofia da musculatura glútea, irritabilidade ou apatia e anemia. Repare que constipação está na lista da forma clássica: a doença que a memória associa a diarreia também prende o intestino.

A extraintestinal é mono ou oligossintomática: dermatite herpetiforme, baixa estatura, osteoporose, anemia ferropriva, artrite, cefaleia, fadiga, alterações hepáticas, ciclo irregular, esterilidade, defeitos de esmalte, atraso puberal, ataxia, epilepsia e neuropatia periférica.

A série turca de 180 crianças põe número nisso. Entre as 79 que preenchiam o critério sorológico estrito, o sintoma de apresentação mais frequente foi déficit de crescimento, 26 crianças ou 32,9%; depois dor abdominal, 18 ou 22,8%; depois constipação, 7 ou 8,9%; só então diarreia, 6 ou 7,6%. Anemia refratária em 5, e 14 chegaram por rastreamento, sem queixa. Vale reconciliar antes de acusar: esses percentuais são sobre as 79 do resultado, não sobre as 180 do resumo — sete deles fecham exatamente sobre 79 e nenhum sobre 180.

Existe uma quarta apresentação, rara e pediátrica por definição: a crise celíaca. O protocolo escreve que é frequentemente desencadeada por infecção, que ocorre quando há retardo do diagnóstico e que acontece particularmente entre o primeiro e o segundo ano de vida. É diarreia com desidratação hipotônica grave, distensão por hipopotassemia, desnutrição grave, hemorragia e tetania, com disfunção neurológica e renal, acidose e hipoalbuminemia. É potencialmente fatal e pede internação, hidratação venosa, eletrólitos e, às vezes, corticoide.

Sorologia inicial: anti-transglutaminase IgA e IgA total

O teste de escolha é o anticorpo antitransglutaminase tecidual da classe imunoglobulina A, com sensibilidade de 92% a 100% e especificidade de 91% a 100%. Em assintomáticos rastreados cai para 71% e 93%, e o protocolo registra que não há estudo mostrando efeito do rastreamento populacional sobre morbidade, mortalidade ou qualidade de vida.

O marcador é da classe imunoglobulina A, e por isso nunca se pede sozinho. A deficiência seletiva dessa classe produz falso-negativo, e a doença aparece então com o nome de celíaca soronegativa. O teste inicial é a dosagem simultânea do anticorpo e da imunoglobulina A total. Quem pede só o anticorpo compra o direito de errar justamente no subgrupo de risco.

O parâmetro que o relatório de incorporação usou para essa deficiência na população brasileira é 5,23%, uma em cada dezenove pessoas. Não é raridade de prova: é fração grande o bastante para ter consequência em qualquer ambulatório.

A segunda trava é temporal e é a mais cobrada: o rastreamento e o diagnóstico devem ser feitos em vigência de dieta com glúten. Quem retirou o glúten por conta própria negativa a sorologia e cicatriza a mucosa. O caminho é reintroduzir e só então testar — no consultório pediátrico, pedir a uma família que devolva à criança o alimento que ela acredita ter sido o problema.

E há uma via em que a sorologia negativa não encerra nada: o protocolo lista oito situações em que a biópsia é indicada mesmo assim, entre elas diarreia crônica não sanguinolenta, anemia ferropriva sem outra causa, dermatite herpetiforme comprovada por biópsia de pele e baixa estatura em crianças.

O PCDT brasileiro de 2025 e o teste disponível no SUS

A novidade brasileira é pediátrica e estreita: em crianças com até dois anos e suspeita da doença, recomenda-se o rastreamento pelo anticorpo antigliadina deaminada da classe imunoglobulina G. O motivo é biológico — nessa faixa a resposta da classe imunoglobulina A ainda é imatura e a sorologia clássica falha mais.

A comissão federal aprovou o exame por portaria de 17 de abril de 2023. O protocolo que o incorpora ao fluxo é de 23 de junho de 2025: vinte e seis meses entre a decisão de comprar e a instrução de usar, e nesse intervalo o exame existia no sistema sem estar em nenhum fluxograma nacional.

A mesma decisão trouxe uma recusa que quase ninguém lê. A comissão avaliou o exame também para deficientes de imunoglobulina A e considerou a acurácia apenas moderada e o impacto clínico incerto. Foi incorporado para o lactente e não para o grupo em que a sorologia clássica falha por falta de anticorpo — e o protocolo imprime as duas frases coladas.

A sigla desse exame forkou entre edições, e dá para contar. Na consulta pública de 2022 aparece 17 vezes na grafia correta e nenhuma na trocada. No relatório final de 2023, 25 corretas e 6 transpostas. No protocolo de 2025, 2 corretas e 4 transpostas — a grafia errada virou maioria no documento que manda no país e contaminou a legenda do fluxograma, que é onde o leitor apressado procura.

O fluxo resultante tem um degrau que só existe abaixo dos dois anos. Criança menor de dois anos com antitransglutaminase negativo, seja com imunoglobulina A normal, seja com deficiência total dela, é testada para antigliadina deaminada; se positivo, segue para biópsia; se negativo, fica em vigilância. Criança maior de dois anos com antitransglutaminase negativo não tem indicação do segundo exame. A idade não muda o diagnóstico: muda quantas portas de entrada existem.

Criança menor de 2 anos: como interpretar a sorologia

Os dois anos são a linha divisória nas duas edições do protocolo brasileiro. O que essa linha autoriza inverteu de uma para a outra.

A edição de 2015 conta os critérios internacionais antigos: biópsia diagnóstica, dois anos de dieta, biópsia de controle e, se normal, reintrodução do glúten e terceira biópsia. Em 1990 a mesma sociedade dispensou a provocação e a terceira biópsia na maioria — mantendo-as quando o diagnóstico fosse estabelecido antes dos dois anos. Ali, ser menor de dois era motivo para exigir mais prova. Na edição de 2025, ser menor de dois é o que libera um exame a mais e permite fechar a suspeita sem repetir a agressão.

Três painéis comparam o papel do corte etário de dois anos no protocolo anterior, no protocolo atual e nas crianças com dois anos ou mais.
O limite de dois anos não deve ser decorado isoladamente: seu significado depende da edição do protocolo e do algoritmo aplicado. Em prova, é indispensável identificar qual documento e qual faixa etária o enunciado está usando.

A prova cobra a leitura de 2025 e o distrator vem da de 1990, que sobreviveu em livro-texto antigo. Guarde a inversão: abaixo de dois anos, hoje ganha-se um exame; antes, ganhava-se uma biópsia.

Há uma segunda inversão no mesmo par, sobre o nome do exame. Em 2015 o protocolo avaliava o anticorpo antigliadina e o descartava: a especificidade da classe imunoglobulina G era de 50%, uma moeda ao ar, com sensibilidade extremamente variável. Em 2025 o antigliadina deaminada da mesma classe é o recomendado para o lactente. O nome sobreviveu quase igual; a molécula testada, não. Quem responde pela lembrança do nome antigo descarta o exame certo.

Quando a biópsia é obrigatória e quando pode ser dispensada

Aqui o documento faz três coisas incompatíveis em pouco mais de uma página, e a prova brasileira vive dessa incompatibilidade.

Primeiro escreve que os marcadores não substituem o exame histopatológico e que o diagnóstico deve ser sempre confirmado por biópsia de duodeno. Segundo, na frase imediatamente seguinte, registra que parentes de primeiro grau sintomáticos e geneticamente susceptíveis podem ser dispensados da biópsia se tiverem antitransglutaminase dez vezes acima do limite superior da normalidade e endomísio positivo, desde que por método imunoenzimático — e não por quimioluminescência. Terceiro, o fluxograma da página ao lado manda todo mundo para a endoscopia.

A via de dispensa está trancada por dentro por duas travas que o próprio protocolo instala. O endomísio é descrito com sensibilidade de 87% a 89% em adultos e 88% a 100% em crianças maiores de dois anos, e especificidade de 91% a 100% — e na frase seguinte o documento diz que, por ser técnica trabalhosa e onerosa, não é recomendada. E a genotipagem dos antígenos de histocompatibilidade, que a redação brasileira exige para dispensar, não foi incorporada ao sistema, por portaria de 27 de abril de 2023, por não fornecer diagnóstico conclusivo e ter elevado impacto orçamentário.

Somando: dispensar a biópsia no Brasil exigiria um exame que o protocolo desaconselha e outro que o país recusou comprar. A porta existe no texto e não no serviço. O Brasil não adota o diagnóstico sem biópsia, e o motivo não é clínico.

A divergência com a fonte internacional é maior do que parece. A diretriz europeia de 2020, segundo dois relatos independentes que a descrevem, removeu a exigência de genotipagem, por ela não melhorar a sensibilidade do conjunto, e não exige que o paciente seja sintomático nem parente de primeiro grau; exige o endomísio positivo em segunda amostra. A redação brasileira reintroduz duas condições que a diretriz abandonou e cala a que ela manteve. E o levantamento polonês, feito por dentro do grupo de interesse da própria sociedade que a publicou, também imprime a versão com genotipagem — três documentos, três versões da mesma regra.

Número de fragmentos e locais de biópsia

A histologia do duodeno é o padrão de referência, e o número que a define aparece duas vezes no protocolo de 2025, com valores diferentes, a poucos centímetros um do outro. O texto explica a origem: o limite de 40 linfócitos intraepiteliais por 100 enterócitos valia para o jejuno e ficou ultrapassado pelo de 25 para o duodeno. E conclui que o diagnóstico histológico é atrofia vilositária com contagem superior a 25 por 100 enterócitos.

A legenda da figura da mesma página usa 40 quatro vezes seguidas: tipo zero como normal com até 40, e tipos um, dois e três com mais de 40. Uma biópsia duodenal com 30 linfócitos por 100 enterócitos é diagnóstica pelo texto e normal pela legenda do mesmo protocolo, que explica por que o 40 está obsoleto e depois o imprime como se fosse a régua.

Cadeia da classificação histológica de Marsh de zero a três C, com o grau três C tracejado e separado para evidenciar diferenças de escopo entre classificações.
A nomenclatura histológica pode aparecer em diferentes níveis de detalhamento. O estudante deve reconhecer o contínuo das alterações e conferir o escopo adotado pelo protocolo, evitando misturar subdivisões de classificações distintas.

A mesma página traz um segundo desencontro. O texto reconstrói a classificação — proposta em 1992, modificada em 1999 com a subdivisão do tipo três, contestada em 2015, quando a microscopia eletrônica mostrou que os três degraus têm o mesmo grau de atrofia — e conclui que a histologia se classifica em tipos zero a três, sem subdivisão. A figura logo abaixo imprime três a, três b e três c, e a legenda define os três.

O detalhe que fecha o quadro é ortográfico e mensurável: o sobrenome do autor da classificação alternativa aparece quatro vezes com a grafia errada, de erre dobrado, e duas com a correta, de zê dobrado — e a errada é a que está no título da figura. Enquanto isso a série turca relata seus 78 casos exatamente pela subdivisão que o protocolo declarou abolida: 13 no primeiro degrau, 49 no segundo, 16 no terceiro. A régua que o Brasil aposentou é a que o resto do mundo usa para descrever a peça.

O material colhido também mudou. Em 2015 bastavam quatro fragmentos, sem dizer quantos de cada sítio; em 2025 são ao menos seis, sendo dois do bulbo e quatro da segunda porção, em frascos separados — porque a doença não acomete o duodeno de maneira uniforme, e por isso uma biópsia única e negativa não exclui nada. A série turca, sem relação com o sistema brasileiro, descreve o seu próprio protocolo como quatro fragmentos do duodeno e dois do bulbo: duas fontes que não se citam chegaram ao mesmo seis e à mesma partição.

E divergem no subgrupo, que é o que torna a conjunção útil. O serviço turco biopsia todos ao diagnóstico, inclusive quem preencheria o critério de dispensa — e foi por isso que encontrou, entre os que teriam pulado o exame, gastrite por helicobácter em sete e esofagite eosinofílica em dois. O achado que decide não é o da doença celíaca: é o da doença que a dispensa teria deixado passar.

Rotulagem de alimentos e definição de sem glúten

O tratamento é a dieta isenta de glúten por toda a vida, e o glúten do protocolo é a fração proteica do trigo, do centeio e da cevada. A aveia não entra na definição.

A lei de 1992 pensava diferente: exigia advertência em rótulo de alimento industrializado que contivesse glúten e nomeava os cereais — trigo, aveia, cevada, malte e centeio. A lei de 2003 trocou a advertência pelo par obrigatório contém ou não contém glúten e apagou a lista. O termo encolheu: a aveia desapareceu do texto legal e não voltou.

O protocolo de 2025 é a única das cinco peças que a menciona, duas vezes: manda evitar aveia por contaminação na cadeia produtiva, mas diz que a não contaminada é segura após o processamento final — salvo para uma pequena porcentagem sensível ao próprio cereal. Nos relatórios e no folheto a palavra dá zero.

Há um erro impresso na finalidade, atravessando as duas leis. A ementa de 1992 diz que a advertência existe a fim de evitar a doença celíaca, e a de 2003 chama o rótulo de medida preventiva. Rótulo nenhum previne doença celíaca, que é autoimune e depende de predisposição genética: o rótulo protege quem já a tem. E a ementa de 2003 fala em produtos alimentícios comercializados enquanto o artigo primeiro da mesma lei alcança só os alimentos industrializados — a ementa é mais larga que o artigo que a executa.

O que nenhuma das duas imprime é um número. Não contém glúten é inscrição obrigatória sem limiar legal: o valor de vinte partes por milhão, que define alimento isento no acordo alimentar internacional, aparece zero vezes nos cinco documentos brasileiros examinados — a família lê um rótulo binário cuja fronteira nenhum documento que a orienta escreve.

O protocolo publica dois percentuais sobre esse rótulo e não publica o inverso. O contato cruzado por glúten foi estimado em 13,2% em produtos industriais e 41,5% em não industriais, e a conclusão impressa é que o industrial rotulado tem menos contaminação. Refazendo a conta que o documento não faz: um em cada 7,6 industriais rotulados como isentos está contaminado, contra um em cada 2,4 não industriais — a vantagem do rótulo é real, de 3,14 vezes, e ainda assim erra num de cada oito.

Prevalência, grupos de risco e limites dos dados

O protocolo de 2025 escreve, citando uma revisão sistemática, que a prevalência é de 0,9% em crianças e 0,5% em adultos. O relatório de incorporação, do mesmo ministério, citando a mesma referência, usa como parâmetro de cálculo 0,50% em crianças e 0,90% em adultos. Os dois números estão trocados entre dois documentos federais que apontam para a mesma fonte, e são os do relatório que dimensionaram a população elegível e o impacto orçamentário do exame pediátrico.

O mesmo quadro traz uma terceira prevalência infantil, brasileira e maior: 2,3% em crianças de 12 a 36 meses. Três números para crianças no mesmo par de documentos, quase cinco vezes de amplitude — e o menor é o que entrou no modelo.

A tabela de população tem um degrau que o rótulo não anuncia. A linha crianças de zero a dois anos vale 8.680.817 no primeiro ano e 2.843.515 no seguinte — cai a um terço, sem nota. E o próprio relatório, três tabelas antes, projeta essa faixa em 7.284.528 no mesmo ano: a base usada é 19,2% maior que a projeção impressa. Que a base seja essa confirma-se por dois percentuais independentes — 8.680.817 por 10,6% devolve exatos 920.167, e 920.167 por 25,9% devolve exatos 238.323. O denominador muda dentro da tabela; os fatores, não.

A aritmética das tabelas econômicas também não fecha, e o erro é recuperável. No quadro dos deficientes de imunoglobulina A a diferença de efetividade impressa é 0,248 e a subtração das colunas dá 0,249 — a coluna não subtrai. Na linha seguinte, dividir a diferença de custo impressa, 33,65, pela de efetividade impressa, 0,016, devolve 2.103,12, e o relatório imprime 2.063,16: quase quarenta reais, 1,9%. O divisor que produz o valor impresso é 0,01631 — uma casa que a tabela não mostra.

No quadro das crianças menores de dois anos o desencontro é estrutural. A coluna de diferença de custo é medida sempre contra a primeira estratégia e as quatro linhas conferem ao centavo; mas a de efetividade, nas duas últimas linhas, é medida contra a estratégia anterior. A razão da última linha, impressa como 8.306,11, não sai das colunas: 60,51 dividido por 0,007 dá 8.644,29. Numerador e denominador da mesma célula vêm de comparações diferentes, e nada avisa.

Por fim, o preço. A tabela oficial paga 48,16 pela endoscopia e 40,78 pelo anatomopatológico, somando os 88,94 reais impressos; o exame novo custa 28,43, 3,13 vezes menos — razão que o relatório não escreve. E a razão de custo-efetividade principal é de 108,17 reais por biópsia evitada: paga-se 19,23 reais a mais do que custa o exame que se evita, prêmio de 21,6% que nenhuma página põe lado a lado. A economia anunciada, 30.671.133,25 reais, equivale a 344.852 pares de endoscopia com biópsia.

Sorologia ou histologia discordante: como prosseguir

O acompanhamento é claro: médico e nutricionista a cada três a seis meses no primeiro ano, anual depois; ao diagnóstico, glicemia de jejum, hemograma, ferritina, vitamina B12, provas de tireoide, transaminases, densitometria óssea, cálcio e fósforo. A deficiência transitória de dissacaridases produz intolerância temporária a lactose e sacarose, que reverte em cerca de dois meses com a mucosa normalizada — armadilha de vinheta, porque parece falha do tratamento.

O painel tem um buraco nomeado. A seção de complicações lista deficiência de ferro, folato, vitamina B12, vitamina D, cálcio, zinco e cobre; o painel de monitoramento inclui ferritina, B12, cálcio e fósforo — e não inclui vitamina D, embora o mesmo documento peça densitometria óssea e cite osteoporose seis vezes. Nomeia a deficiência e não a mede.

O segundo buraco é mais sério. O protocolo lista hipoesplenismo ou asplenia funcional entre as indicações de rastreamento — isto é, reconhece a associação com a perda de função do baço. Em 22 páginas, vacina aparece zero vezes e pneumococo zero. A condição que muda o calendário vacinal da criança está nomeada, e a conduta que ela exige não está.

Há também dois relógios para a mesma pergunta, em frases consecutivas: uma diz que a antitransglutaminase deve ser repetida seis meses após o início da dieta, e a seguinte que a sorologia pode ser feita ao diagnóstico, aos três meses, aos seis e ao ano. Com a biópsia de controle acontece o mesmo: o texto a aconselha de um a dois anos após o início da dieta e, três linhas abaixo, escreve que ela seria necessária somente em quem tem sorologia negativa.

Duas exclusões fecham o recorte e costumam virar distrator: o protocolo não contempla alergia ao trigo nem sensibilidade ao glúten não celíaca. São os dois imitadores, ambos melhoram sem glúten, e nenhum é doença celíaca — a diferença é que na celíaca retirar o glúten sem diagnóstico fechado destrói a possibilidade de diagnosticar.

Sobre patrocínio, o resultado é um mapa. Patrocínio, sigilo e confidencialidade dão zero nos cinco documentos. Conflito de interesse dá zero nos dois protocolos — as peças que obrigam o país inteiro — e cinco em cada relatório técnico, nas páginas 9, 10, 78, 113 e 130 de um e 7, 8, 47, 81 e 98 do outro, sempre na fórmula de que os autores declaram não possuir conflitos com a matéria. Quando todos declaram igual, a declaração vira campo de gabarito. E dá zero nas seis páginas do folheto que os serviços fotocopiam: a posição da declaração é o achado, e ela some onde mais gente lê.

04

Da suspeita à confirmação, sem pular degrau

A decisão treinada aqui tem cinco degraus e nenhum deles é escolher a dieta. Primeiro reconheça que a apresentação pode não ser digestiva. Depois peça o par sorológico certo, na dieta certa. Depois use a idade para saber se existe um segundo exame. Depois decida a biópsia, que no Brasil não se dispensa. Só então trate, e monitore o que a dieta cobra.

  1. 1Reconheça a suspeita pelas três portas: sintoma intestinal, sintoma extraintestinal isolado — baixa estatura, anemia ferropriva sem outra causa, dermatite herpetiforme, defeito de esmalte, atraso puberal — ou pertencer a grupo de risco: parente de primeiro grau, diabete tipo 1, tireoidite autoimune, deficiência de imunoglobulina A, síndrome de Down, de Turner ou de Williams.
  2. 2Peça anticorpo antitransglutaminase tecidual da classe imunoglobulina A e imunoglobulina A total, sempre juntos e sempre com a criança comendo glúten. Se a família já retirou o glúten, reintroduza antes de testar; sorologia colhida em dieta isenta não significa nada.
  3. 3Some a idade. Abaixo de dois anos, se a antitransglutaminase vier negativa — com imunoglobulina A normal ou com deficiência dela —, peça antigliadina deaminada da classe imunoglobulina G. Acima de dois anos esse segundo exame não tem indicação.
  4. 4Encaminhe para endoscopia com biópsia de duodeno: sorologia positiva, ou forte suspeita clínica mesmo com sorologia negativa. No Brasil não existe caminho de dispensa aplicável, porque ele exigiria endomísio, que o protocolo desaconselha, e genotipagem, que o país não incorporou.
  5. 5Confirmado o diagnóstico, prescreva dieta isenta de glúten por toda a vida, com nutricionista, e monte o acompanhamento: reavaliação a cada três a seis meses no primeiro ano, sorologia de controle e correção das carências. Sintoma que persiste é, na esmagadora maioria, glúten que continua entrando.

A apresentação sobe de dentro para fora

A criança clássica com diarreia e distensão é minoria nas séries recentes. Déficit de crescimento vem primeiro, dor abdominal em segundo, constipação em terceiro e diarreia só em quarto. Baixa estatura isolada e anemia ferropriva refratária ao ferro oral são portas de entrada legítimas, e a prova gosta delas justamente por não parecerem digestivas.

O par que nunca se separa

O marcador de escolha é da classe imunoglobulina A, e a deficiência dessa classe é a causa mais comum de falso-negativo. Pedir o anticorpo sem a dosagem total é comprar o erro justamente em quem tem mais risco. Uma única requisição, dois exames, e a leitura do primeiro só existe à luz do segundo.

A idade abre porta, não fecha diagnóstico

Abaixo de dois anos existe um exame a mais depois da sorologia negativa; acima, não existe. Isso não torna o diagnóstico mais fácil nem mais provável na criança pequena: apenas reconhece que a resposta de uma classe de anticorpo ainda é imatura. A biópsia continua sendo o degrau final nas duas faixas.

Qual sorologia pedir, por idade e por resultado

SituaçãoExameO que decide
Qualquer idade, primeira abordagemAntitransglutaminase da classe imunoglobulina A mais imunoglobulina A totalOs dois juntos: o marcador é da classe que pode faltar
Menor de 2 anos, antitransglutaminase negativaAntigliadina deaminada da classe imunoglobulina GSe positiva, segue para biópsia; se negativa, vigilância
Maior de 2 anos, antitransglutaminase negativaNenhum exame adicional de rotinaVigilância; biópsia se a suspeita clínica for forte
Endomísio e genotipagemNão recomendado e não incorporadoSó apareceriam na via de dispensa de biópsia, que aqui não se aplica

As duas réguas histológicas que o mesmo protocolo imprime

Onde está escritoCorte de linfócitos por 100 enterócitosConsequência
No texto da seção de diagnósticoSuperior a 25Contagem de 30 é diagnóstica
Na legenda da figura da mesma páginaMais de 40Contagem de 30 seria classificada como normal
Origem do 40Era o limite do jejunoO documento explica que está ultrapassado e depois o imprime

A sorologia e a biópsia devem ser feitas com a criança comendo glúten. Retirar o glúten antes de investigar negativa o exame e cicatriza a mucosa, e reconstruir o diagnóstico depois exige reintroduzir o alimento — conversa difícil, porque a família costuma já ter visto melhora.

Uma biópsia duodenal negativa não exclui a doença quando a suspeita é forte: o acometimento é em mosaico. O protocolo manda revisar a lâmina e repetir a biópsia antes de considerar a doença improvável.

Os números deste capítulo vêm de cinco documentos federais e de duas séries estrangeiras. Onde eles se contradizem, o capítulo mostra os dois lados em vez de escolher um em silêncio.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Quantos linfócitos intraepiteliais definem a biópsia alterada

Mais de 25 por 100 enterócitos

O texto do protocolo federal vigente escreve que o diagnóstico pelo exame histológico consiste em atrofia vilositária associada a contagem superior a 25 linfócitos intraepiteliais para cada 100 enterócitos, e explica que esse é o limite superior de normalidade da biópsia de duodeno.

Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Doença Celíaca de 2025, seção de endoscopia e biópsia de duodeno.

Mais de 40 por 100 enterócitos

A legenda da figura de classificação histológica, na mesma página do mesmo documento, define o tipo zero como normal com até 40 linfócitos por 100 células epiteliais e usa mais de 40 para os tipos um, dois e três. Uma contagem de 30 é diagnóstica pelo texto e normal pela legenda.

Mesmo protocolo, legenda da figura de comparação entre as classificações histológicas.

Na prova

A banca cobra o corte de 25, que é o do texto e o do duodeno. A divergência importa porque mostra que o 40 não é erro aleatório: era o limite do jejuno, onde a biópsia era feita antes, e sobreviveu numa legenda que o próprio documento contradiz duas colunas acima. Diante de um laudo com contagem entre 25 e 40, a leitura correta é a do texto.

O que a via de dispensa de biópsia exige

Anticorpo alto, endomísio positivo e genotipagem

O protocolo brasileiro descreve a dispensa como aplicável a parentes de primeiro grau sintomáticos e geneticamente susceptíveis, com antitransglutaminase dez vezes acima do limite superior da normalidade e endomísio positivo, e só por método imunoenzimático. O levantamento polonês, conduzido dentro do grupo de interesse da sociedade europeia, imprime a mesma versão com genotipagem.

Protocolo brasileiro de 2025, seção de rastreamento; e levantamento polonês publicado em periódico de acesso aberto.

Anticorpo alto e endomísio em segunda amostra, sem genotipagem

A diretriz europeia de 2020, segundo dois relatos independentes que a descrevem, removeu a exigência de genotipagem, por ela não acrescentar sensibilidade, e não exige que o paciente seja sintomático nem parente de primeiro grau. O que exige é o endomísio positivo numa segunda amostra de sangue.

Série turca sobre aplicabilidade dos critérios sem biópsia, que descreve a mudança de 2012 para 2020.

Na prova

No Brasil a resposta é uma só: a biópsia não se dispensa. A pergunta capciosa apresenta uma criança com anticorpo vinte vezes acima do limite e sugere iniciar a dieta sem endoscopia — e a alternativa correta continua sendo confirmar por histologia. O motivo não é clínico: é que a via de dispensa exige um exame que o protocolo desaconselha e outro que o país não incorporou.

Qual a prevalência da doença na criança comparada à do adulto

Mais comum na criança

O protocolo de 2025 escreve, citando uma revisão sistemática, prevalência de 0,9% em crianças e 0,5% em adultos, e acrescenta que a confirmada por biópsia é cerca de duas vezes mais comum na criança.

Protocolo de 2025, seção de introdução, citando revisão sistemática com metanálise.

Mais comum no adulto

O relatório de incorporação do exame pediátrico, do mesmo ministério e citando a mesma referência, usa como parâmetro de cálculo 0,50% em crianças e 0,90% em adultos. Foram esses valores que dimensionaram a população elegível e o impacto orçamentário do exame destinado a menores de dois anos.

Relatório de recomendação de 2023, quadro de parâmetros utilizados para cálculo da população.

Na prova

A prova segue o protocolo: mais comum na criança. A divergência não muda a resposta, mas explica um comportamento do sistema — o exame pediátrico foi dimensionado com a prevalência que o outro documento atribui ao adulto, e o mesmo quadro ainda traz uma terceira prevalência infantil brasileira, de 2,3% na faixa de 12 a 36 meses, quase cinco vezes maior que a usada no cálculo.

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Caso resolvido

Menino de 20 meses é levado à unidade básica por parada de ganho de peso desde os 11 meses, quando a família introduziu pão e mingau de trigo. A mãe descreve fezes volumosas, claras e com odor forte, três a quatro vezes ao dia, e um abdome que "vive inchado". Está mais irritado e recusa alimento. Nasceu a termo, com peso adequado, e vinha bem até o segundo semestre. Ao exame: descorado, abdome globoso e timpânico, nádegas com pregas frouxas, sem visceromegalias, sem edema. Peso e comprimento cruzaram duas faixas para baixo na caderneta. Exames: hemoglobina 9,1 g/dL com microcitose, anticorpo antitransglutaminase tecidual da classe imunoglobulina A não reagente, imunoglobulina A total normal para a idade. A criança segue comendo glúten.
Passo 1
Confirme que a suspeita se sustenta antes de olhar o exame. Parada de ganho ponderal iniciada semanas depois da introdução do trigo, esteatorreia, distensão, atrofia glútea e anemia ferropriva compõem a forma intestinal clássica. A sorologia negativa não desmancha esse conjunto: ela é um dado a interpretar, não um veredito.
Passo 2
Verifique as duas condições que invalidariam a sorologia. A imunoglobulina A total veio normal, então não há deficiência de classe explicando o falso-negativo. E a criança segue comendo glúten, então o exame não foi colhido em dieta isenta. As duas travas habituais estão descartadas.
Passo 3
Use a idade. Com 20 meses, este paciente está na única faixa em que o protocolo federal oferece um segundo exame: a dosagem de antigliadina deaminada da classe imunoglobulina G. Ela foi incorporada em 2023 exatamente porque, abaixo dos dois anos, a resposta da classe imunoglobulina A ainda é imatura e a sorologia clássica falha mais. Acima de dois anos esse passo não existiria.
Passo 4
Programe o desfecho dos dois resultados possíveis. Se a antigliadina deaminada vier positiva, o caminho é endoscopia com biópsia de duodeno, com ao menos seis fragmentos, dois do bulbo e quatro da segunda porção, em frascos separados. Se vier negativa, o paciente fica em vigilância — mas, com quadro tão característico, a biópsia continua indicada por forte suspeita clínica, que é uma das oito situações em que o protocolo a exige mesmo com sorologia negativa.
Passo 5
Não inicie dieta isenta de glúten agora. Retirar o glúten antes da confirmação apaga o alvo: a sorologia negativa e a mucosa cicatriza, e reconstruir o diagnóstico depois exigiria devolver o trigo à criança e esperar. Trate a anemia ferropriva e mantenha a dieta com glúten até a biópsia.
Fecho
A conduta é solicitar antigliadina deaminada da classe imunoglobulina G e encaminhar para endoscopia com biópsia de duodeno, mantendo o glúten na dieta. O que decidiu o caso não foi o resultado do exame: foi a idade do paciente, que é o único elemento da vinheta capaz de abrir uma porta a mais.
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Agora feche você

Adolescente de 13 anos é encaminhada pelo ambulatório de puericultura por baixa estatura. Está no percentil 3 de altura desde os 9 anos, com velocidade de crescimento reduzida, e ainda não menstruou. Nega dor abdominal, diarreia ou perda de peso; o apetite é bom. Tem história de anemia tratada com ferro oral três vezes nos últimos quatro anos, sempre com resposta parcial e recaída. A mãe tem tireoidite de Hashimoto. Exame físico sem visceromegalias, com esmalte dentário irregular nos incisivos e mama em estágio inicial. Hemoglobina 10,2 g/dL com microcitose e hipocromia, ferritina baixa, função tireoidiana normal, função renal e hepática normais, provas inflamatórias normais, radiografia de mãos com idade óssea atrasada em dois anos.
Passo 1
Explique por que a ausência de diarreia e de dor abdominal não afasta a hipótese principal, e nomeie a forma de apresentação a que este quadro pertence.
Passo 2
Liste os três elementos desta vinheta que, isoladamente, já indicariam rastreamento pelo protocolo federal — e diga qual deles indicaria a biópsia mesmo que a sorologia viesse negativa.
Passo 3
Nomeie o par de exames que se solicita primeiro, diga por que os dois vão na mesma requisição, e explique o que aconteceria com o resultado se a família tivesse retirado o glúten por conta própria nas semanas anteriores.
Passo 4
Diga se esta paciente, por ter 13 anos, tem indicação da dosagem de antigliadina deaminada da classe imunoglobulina G caso a primeira sorologia venha negativa, e justifique pela regra etária do protocolo.
Passo 5
Descreva o que a endoscopia precisa colher para que o exame histológico seja interpretável, e diga qual contagem de linfócitos intraepiteliais por 100 enterócitos o texto do protocolo considera alterada.
Passo 6
Explique o que você diria à mãe que pergunta se pode começar a dieta sem glúten já, enquanto a filha aguarda a endoscopia — e por que a resposta é diferente da que se daria depois da biópsia.
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Onde a banca derruba

  1. 1Pedir a sorologia sem a imunoglobulina A total É o erro mais barato de evitar e o mais cobrado. O marcador de escolha é da classe imunoglobulina A, e a deficiência seletiva dessa classe — cujo parâmetro brasileiro é de 5,23% — produz falso-negativo. A alternativa que oferece o anticorpo sozinho está sempre errada, e a que oferece o par sempre é a candidata.
  2. 2Investigar quem já tirou o glúten Sorologia e biópsia colhidas em dieta isenta não significam nada: o anticorpo cai e a mucosa cicatriza. A vinheta que diz que a mãe suspendeu o pão há dois meses e a criança melhorou está testando exatamente isso, e a conduta correta é reintroduzir o glúten antes de investigar, não confirmar o diagnóstico pela resposta à dieta.
  3. 3Achar que anticorpo muito alto dispensa a biópsia no Brasil A via de dispensa aparece descrita no protocolo e não é adotada por ele. Ela exigiria endomísio, que o próprio documento diz não recomendar por ser trabalhoso e oneroso, e genotipagem, que não foi incorporada ao sistema. O fluxograma manda todos para a endoscopia, e a resposta esperada acompanha o fluxograma.
  4. 4Excluir a doença por uma biópsia negativa O acometimento do duodeno é em mosaico. Com quadro característico, sorologia positiva e imunoglobulina A normal, uma histologia normal manda revisar a lâmina e repetir a biópsia com material suficiente — ao menos seis fragmentos, dois do bulbo e quatro da segunda porção. Só depois de uma segunda biópsia sem alteração a doença é considerada improvável.
  5. 5Culpar a dieta quando o sintoma volta em dois meses A lesão da mucosa reduz a produção de dissacaridases, e a intolerância temporária a lactose e a sacarose reverte em cerca de dois meses, à medida que a vilosidade se recupera. Distensão e diarreia nesse intervalo não indicam falha do tratamento nem diagnóstico errado. Persistência além disso, sim, e a causa mais comum continua sendo glúten que segue entrando.
  6. 6Descartar antigliadina porque o livro antigo a reprovou O anticorpo antigliadina clássico foi descartado no protocolo de 2015 por especificidade de 50% na classe imunoglobulina G. O que existe hoje é o antigliadina deaminada da mesma classe, molécula diferente, incorporada em 2023 e recomendada em 2025 para o menor de dois anos. O nome quase não mudou; o exame mudou.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

A biópsia de duodeno obtida por endoscopia digestiva alta, demonstrando atrofia vilositária, é o padrão-ouro para confirmação da doença celíaca (idealmente com o paciente ainda em dieta contendo glúten). A colonoscopia avalia o cólon/íleo, não a mucosa duodenal alvo. O HLA-DQ2/DQ8 tem alto valor preditivo negativo, mas sua presença não confirma a doença (comum na população geral). O antigliadina IgG tem baixa acurácia frente ao anti-tTG. O trânsito contrastado não avalia a histologia da mucosa.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Sorologia de doença celíaca é sempre um par: antitransglutaminase da classe imunoglobulina A mais imunoglobulina A total, e sempre em vigência de glúten. Abaixo de dois anos, sorologia negativa ainda pede antigliadina deaminada da classe imunoglobulina G; acima, não pede. A biópsia de duodeno não se dispensa no Brasil, precisa de ao menos seis fragmentos, dois do bulbo e quatro da segunda porção, e uma negativa isolada não exclui, porque a lesão é em mosaico. O corte histológico é mais de 25 linfócitos por 100 enterócitos. Baixa estatura, anemia ferropriva refratária e dermatite herpetiforme são portas de entrada. Crise celíaca é entre o primeiro e o segundo ano de vida.

em 30 dias

A chave que os documentos não escrevem: quase todo número deste tema tem duas versões, e a diferença entre elas é a finalidade de quem escreveu. O corte de linfócitos é 25 no texto e 40 na legenda da figura ao lado, porque o 40 era do jejuno e sobreviveu na arte. A régua dos dois anos exigia mais prova numa edição do protocolo e libera um exame a mais na seguinte. A prevalência infantil é 0,9% no protocolo e 0,50% no relatório que dimensionou o exame das crianças, com a mesma fonte citada nos dois. E a via de dispensa de biópsia existe no texto e não no serviço, porque depende de dois exames que o país desaconselhou e não comprou. Quando duas fontes discordam aqui, pergunte primeiro para que servia o número em cada uma.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Criança com parada de crescimento e alteração do hábito intestinal depois da introdução do trigo. Colha a história alimentar e familiar, reconheça as apresentações que não são digestivas, peça o par sorológico correto em vigência de glúten e explique à família por que a dieta não começa antes da confirmação. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Doença celíaca na infância – Doença celíaca na criança: o país compra o teste do lactente e manda todo mundo para a biópsia — Preparatório para provas | OsceLabs