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Colestase crônica: o diagnóstico sem agulha e a falha aos doze meses

Colestase crônica sem obstrução no adulto: colangite biliar primária, diagnóstico sorológico e resposta ao ácido ursodesoxicólico

Fosfatase alcalina alta sem via biliar dilatada tem dono, tem anticorpo e tem uma régua de falha que muda de número conforme o documento.

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Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Mulher de 52 anos, assintomática, traz exames de rotina com fosfatase alcalina 386 U/L (valor de referência até 120 U/L), gama-GT 240 U/L (até 38 U/L), AST 41 U/L, ALT 47 U/L e bilirrubina total 0,7 mg/dL. Os mesmos achados estavam presentes em exames de sete meses antes. Ultrassonografia de abdome mostra fígado de dimensões normais e vias biliares intra e extra-hepáticas de calibre normal. Qual é a conduta mais adequada neste momento?

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Como esse tema cai

Fosfatase alcalina alta é um dos achados mais frequentes de um exame de rotina, e a maior parte das vezes o raciocínio para no ultrassom: se a via biliar está dilatada, o problema é mecânico e sai da clínica médica. Este capítulo trata do outro lado da bifurcação — a colestase que persiste com via biliar fina, na qual o diagnóstico se fecha com um anticorpo, o tratamento se escolhe pela balança e o sucesso se julga por um número colhido um ano depois.

Ficam de fora, com endereço: icterícia obstrutiva, coledocolitíase e tumores periampulares, que pertencem à apostila de Cirurgia do Aparelho Digestivo; colangite aguda, que é urgência e mora na apostila de Urgência e Emergência Cirúrgica; colestase intra-hepática da gestação, que tem capítulo próprio na apostila de pré-natal; atresia de vias biliares, que é cirurgia pediátrica. Dentro desta mesma apostila, a doença hepática gordurosa, as hepatites virais e a cirrose com suas complicações têm capítulo próprio, e aqui entram apenas como causa concorrente de enzima alterada.

O eixo deste capítulo é uma sequência de três decisões que quase sempre são cobradas juntas: reconhecer que a enzima alta é hepática e não óssea, fechar o diagnóstico sem biópsia quando os dois exames bastam, e reavaliar no prazo certo para saber se o tratamento funcionou. A terceira é a que separa quem estudou, porque a régua da falha existe em várias versões e elas não medem as mesmas coisas.

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O que muda decisão

Colestase é um padrão de exames, e ele começa com duas enzimas juntas

Colestase não é um diagnóstico: é a assinatura laboratorial de uma dificuldade no fluxo da bile, e essa assinatura tem duas enzimas. A fosfatase alcalina sobe porque é produzida no polo canalicular do hepatócito e no epitélio do ducto biliar, e a gama-glutamil transferase sobe pelo mesmo motivo. Quando as duas sobem juntas e as aminotransferases ficam modestas, o padrão é colestático, e o raciocínio segue por um trilho diferente do da hepatite aguda.

A armadilha está na fosfatase alcalina isolada. Ela não é uma enzima só do fígado: existe isoforma óssea, existe isoforma placentária e existe isoforma intestinal. Adolescente em estirão de crescimento, gestante no terceiro trimestre, doença de Paget e metástase óssea elevam a fosfatase alcalina com fígado íntegro. É por isso que o documento europeu fala em elevação de fosfatase alcalina de origem hepática, e não simplesmente em fosfatase alcalina alta: a origem precisa ser demonstrada, não presumida.

Quem demonstra é a gama-glutamil transferase. Ela não tem isoforma óssea, e sobe junto quando a origem é biliar. Fosfatase alcalina alta com gama-GT normal aponta para osso ou placenta; as duas altas juntas apontam para o fígado e para a via biliar. A recíproca, no entanto, não vale: gama-GT alta isolada é achado inespecífico, sensível a álcool e a indutores enzimáticos, e não autoriza sozinha o rótulo de colestase.

Falta ainda o tempo. O documento europeu exige que a elevação da fosfatase alcalina de origem hepática dure pelo menos seis meses antes de sustentar o diagnóstico de doença colestática crônica. Um valor isolado num exame de rotina, colhido em quem acabou de tomar antibiótico ou de sair de um quadro febril, não constitui colestase crônica — constitui um exame para repetir. A exigência de duração não é burocracia: elevações transitórias de fosfatase alcalina acompanham quadros infecciosos, uso recente de fármacos e a própria convalescença, e desaparecem sozinhas.

Na prática, três providências resolvem esta primeira etapa e devem sair na mesma receita: pedir gama-GT sempre que a fosfatase alcalina vier alta, datar a alteração procurando exames antigos no prontuário do próprio serviço, e repetir o par de enzimas antes de disparar qualquer investigação cara. Quem pula essas três acaba pedindo anticorpo e colangiorressonância para um paciente cuja fosfatase alcalina vinha do osso.

A primeira bifurcação é de imagem, e ela decide se o caso fica com você

Confirmado o padrão colestático hepático, a pergunta seguinte tem uma resposta só: a via biliar está dilatada? O documento europeu é direto ao indicar ultrassonografia abdominal em todo paciente com elevação de fosfatase alcalina e gama-GT, justamente para revelar dilatação de via biliar intra ou extra-hepática, ou lesão focal do fígado. O exame é barato, disponível e vem antes do anticorpo, não depois.

Se a via está dilatada, a colestase é extra-hepática e o problema é mecânico: cálculo no colédoco, tumor periampular, estenose. Esse paciente muda de rota e de equipe — investigação por colangiorressonância ou ecoendoscopia, drenagem quando indicada, e cirurgia do aparelho digestivo como serviço de destino. Se houver febre com dor e icterícia, o diagnóstico deixa de ser eletivo e vira colangite aguda, que é urgência.

Se a via não está dilatada, a colestase é intra-hepática, e é aqui que o caso fica. O ultrassom, nesse cenário, não mostra nada específico: o documento europeu registra que não há achado ultrassonográfico característico da colangite biliar primária, e que a árvore biliar tem aspecto normal. Ausência de achado, aqui, é informação — significa que o próximo exame é sorológico, não de imagem.

Vale dizer o que o ultrassom normal não afasta. Ele não afasta doença de ducto pequeno, não afasta as fases iniciais da colangite esclerosante e não afasta doença infiltrativa. Por isso o ultrassom encerra apenas uma pergunta — a da obstrução — e nenhuma outra. Quem lê o laudo normal como se fosse alta perde a doença que está exatamente atrás dele.

A conduta desta etapa cabe numa linha: peça a ultrassonografia antes do anticorpo, use o resultado só para decidir entre via dilatada e via fina, e, quando a via for fina, siga imediatamente para a sorologia sem gastar mais uma consulta em nova imagem.

Ultrassonografia abdominal B-mode em janela subcostal mostrando estruturas tubulares anecoicas ramificadas paralelas aos ramos portais e dilatação da via biliar proximal.
Na colestase, a ultrassonografia procura primeiro dilatação das vias biliares. Estruturas anecoicas ramificadas paralelas aos ramos portais favorecem obstrução mecânica e direcionam a investigação para a anatomia da via biliar.

O anticorpo que dispensa a agulha

A colangite biliar primária é a única hepatopatia crônica do adulto em que um anticorpo, somado a uma enzima, fecha o diagnóstico sem histologia. A recomendação europeia é literal: o diagnóstico pode ser feito com confiança no adulto com elevação de fosfatase alcalina sem outra explicação e presença de anticorpo antimitocôndria em título igual ou maior que um para quarenta, ou do subtipo específico desse mesmo anticorpo. E acrescenta que a biópsia hepática não é essencial nesses pacientes.

A biópsia continua tendo função, mas outra: ela permite avaliar atividade e estágio da doença. Isso muda o motivo de pedi-la. Não se pede biópsia para saber se o paciente tem a doença quando a enzima e o anticorpo já disseram que tem; pede-se quando a informação de estágio vai mudar alguma decisão, ou nas situações em que o documento a torna necessária. A distinção parece sutil e não é: ela decide se o paciente sai da consulta com uma receita ou com um encaminhamento para procedimento invasivo.

São duas essas situações. A primeira é a ausência do anticorpo específico: sem antimitocôndria, o diagnóstico exige histologia, e aí a agulha volta a ser obrigatória. A segunda é a desproporção — aminotransferases ou imunoglobulina G desproporcionalmente elevadas —, em que a biópsia deixa de ser confirmatória e passa a ser diferencial, porque o que está em jogo é a possibilidade de outra doença somada.

Há um terceiro personagem que precisa de nome próprio: a pessoa com antimitocôndria positivo e provas hepáticas inteiramente normais. Ela não tem a doença hoje, e o documento é explícito ao dizer que parte desses indivíduos assintomáticos pode eventualmente desenvolvê-la. A conduta recomendada não é tratar nem biopsiar, e sim seguir com reavaliação anual dos marcadores bioquímicos de colestase.

Traduzido para a consulta: diante de fosfatase alcalina persistentemente alta com gama-GT alta e via biliar fina, peça antimitocôndria. Se vier reagente, escreva o diagnóstico e comece o tratamento sem encaminhar para biópsia. Se vier não reagente, aí sim encaminhe para histologia. E se o anticorpo for reagente num paciente com enzimas normais, agende o retorno de um ano em vez de abrir tratamento.

Quem é essa paciente, e por que a doença mudou de nome

O relatório brasileiro descreve a doença em uma frase que vale decorar: hepatopatia autoimune colestática rara, mais frequente entre a quinta e a sexta décadas de vida, com razão de dez mulheres para cada homem, caracterizada por inflamação e destruição progressiva dos ductos biliares interlobulares de pequeno e médio calibre. Cada elemento dessa frase tem uso clínico: a faixa etária afasta o adulto jovem, o predomínio feminino orienta a suspeita, e o alvo ductal explica por que a colestase precede a lesão do hepatócito.

A ordem dos marcadores segue o mesmo raciocínio. O relatório registra que fosfatase alcalina e gama-GT são os marcadores bioquímicos precoces, enquanto a bilirrubina alta aparece em fases mais avançadas, e que a elevação de fosfatase alcalina e de bilirrubina se correlaciona com progressão, ao passo que valores mais baixos predizem maior sobrevida e menor necessidade de transplante. Bilirrubina alta nesta doença não é um detalhe do quadro: é um marcador de gravidade.

A sorologia tem dois números que se confundem com facilidade. O antimitocôndria é detectado em cerca de noventa e cinco por cento dos doentes; os anticorpos antinucleares com padrões característicos da doença aparecem em vinte e cinco a quarenta por cento. O primeiro é o exame que fecha; o segundo é achado de apoio, útil sobretudo em quem não tem antimitocôndria. A confusão entre os dois custa caro: pedir apenas o antinuclear numa suspeita de colestase autoimune deixa a maioria dos doentes sem o exame que fecharia o caso.

A apresentação engana. Cerca de metade dos pacientes está assintomática no momento do diagnóstico, e entre os que têm queixas as mais comuns são fadiga, prurido, sonolência diurna, perda de peso e xantelasma. Nenhuma dessas queixas é específica, e a fadiga em particular não acompanha a gravidade bioquímica. Esperar sintoma para tratar é esperar a doença passar da fase em que o tratamento muda o desfecho.

O nome mudou por essa mesma razão. A designação antiga, cirrose biliar primária, descrevia o estágio final de uma minoria e assustava a maioria, que nunca chegará lá; colangite biliar primária descreve o que a doença é desde o começo, uma colangite. Diante da paciente que chega com o rótulo antigo num laudo, a conduta inclui explicar que o nome mudou e que ele não significa cirrose.

O ursodesoxicólico é dose por peso, e a dose é o tratamento

O tratamento de escolha é o ácido ursodesoxicólico, e o documento europeu o prescreve por peso: treze a quinze miligramas por quilograma por dia. Não é uma faixa decorativa. A mesma diretriz observa que metanálises negativas incluíam estudos de duração curta e estudos que usaram dose ineficaz, abaixo de dez miligramas por quilograma por dia, e que, quando se olham as coortes tratadas com a dose padrão, o remédio prolonga a sobrevida livre de transplante.

A consequência prática é que a dose fixa por comprimido é um erro de execução com cara de detalhe administrativo. Uma mulher de cinquenta quilos e outra de noventa não recebem a mesma quantidade, e prescrever o mesmo número de comprimidos para as duas coloca uma delas na faixa que os estudos mostraram não funcionar. O erro é silencioso porque não produz reação adversa nenhuma: produz apenas uma fosfatase alcalina que não cai, e essa teimosia costuma ser lida como doença agressiva quando é apenas subdose. Calcule pela balança, escreva o cálculo na receita e recalcule quando o peso mudar de forma relevante.

O efeito esperado é anticolestático. O documento descreve o ursodesoxicólico como agente com ação anticolestática em vários distúrbios colestáticos, com mecanismos que variam conforme o tipo de lesão. Em quem responde bem e está em estágio inicial, o resultado publicado é uma sobrevida livre de transplante semelhante à de uma população controle saudável pareada por idade e sexo — o que transforma a adesão em questão de prognóstico, não de conforto.

No Brasil, o medicamento está incorporado ao sistema público. O relatório nacional termina com a portaria que determina incorporar o ácido ursodesoxicólico para colangite biliar mediante protocolo clínico e diretrizes terapêuticas do Ministério da Saúde e negociação de preço. Duas palavras dessa frase mudam a consulta: mediante protocolo significa que o acesso vem acompanhado de critérios de uso e de acompanhamento, e é isso que obriga o registro da resposta.

Feche esta etapa com três atos: calcule a dose por quilograma, oriente que o efeito não se mede por sintoma e agende desde já a reavaliação bioquímica de um ano. A terceira é a que costuma faltar, e sem ela o tratamento vira uma receita renovada indefinidamente sem que ninguém saiba se está funcionando.

A resposta se mede, e o relógio começa no dia da primeira receita

Uma parcela substancial dos pacientes não melhora com o ursodesoxicólico isolado, e essa parcela tem prognóstico pior. É por isso que existe o conceito de resposta bioquímica: um julgamento formal, feito num prazo definido, com exames definidos, que separa quem pode seguir só com o ursodesoxicólico de quem precisa de terapia adicional. Sem esse julgamento, o não respondedor segue anos em tratamento insuficiente sem que nada dispare.

Os exames do julgamento são poucos e baratos: fosfatase alcalina, aminotransferase, bilirrubina total e albumina. Nenhum deles é de acesso difícil, e todos costumam já estar sendo pedidos. O que falta, quase sempre, não é o exame — é a data. A régua só funciona se os exames forem colhidos no momento que a régua manda, e o momento é contado a partir do início do tratamento. Falta também, com a mesma frequência, o valor pré-tratamento da fosfatase alcalina, sem o qual as réguas que julgam variação percentual ficam impossíveis de aplicar um ano depois.

O prazo mais usado é de doze meses. A maior parte das definições binárias julga a resposta com um ano de tratamento, e é esse o intervalo que deve ser marcado no dia da primeira receita. Antes disso, a queda da fosfatase alcalina ainda está acontecendo e o julgamento é prematuro; muito depois, o paciente perde tempo em terapia que já se sabia insuficiente.

Nem todas as réguas usam o mesmo relógio, e essa é a primeira coisa a saber antes de escolher uma. Há definições julgadas aos seis meses, a maioria julga aos doze e há uma que só se pronuncia aos vinte e quatro. O mesmo paciente, com os mesmos exames, pode estar classificado como falha por uma régua e ainda nem ser avaliável por outra — não porque as réguas discordem do fato, mas porque perguntam em momentos diferentes.

A conduta que resolve isso é administrativa e cabe no prontuário: escolha uma régua, anote qual foi, marque a coleta para o prazo dela e registre os quatro exames na mesma linha. Trocar de régua entre uma consulta e outra produz a impressão de melhora ou de piora que não veio do paciente, e sim da mudança de instrumento.

As réguas de falha não medem as mesmas coisas

As definições de falha ao ursodesoxicólico costumam ser apresentadas em bloco, como se fossem variantes menores de uma mesma ideia. Não são. Elas diferem em três eixos independentes: quais variáveis entram na conta, qual o corte de cada variável e em que momento se mede. Entender os três eixos é mais útil do que decorar a lista, porque é dos eixos que saem as consequências clínicas.

Pelo eixo das variáveis, o contraste mais didático está entre a régua canadense e a francesa. A primeira julga apenas a fosfatase alcalina; a segunda julga fosfatase alcalina, aminotransferase e bilirrubina, e basta uma das três estourar para configurar falha. Um paciente com fosfatase alcalina em queda satisfatória, mas com bilirrubina se elevando, passa incólume por uma régua e é reprovado pela outra.

Pelo eixo do corte, o contraste se inverte. A régua que olha só a fosfatase alcalina é bem mais exigente nessa única variável do que a que olha três, cujo limite de fosfatase alcalina é generoso. Ou seja: uma é rigorosa em três variáveis e tolerante no número; a outra é tolerante por só olhar uma variável e rigorosa no número dela. Nenhuma é uniformemente mais dura, e é por isso que dizer que um paciente respondeu, sem dizer segundo qual régua, não informa nada.

Pelo eixo do momento, já visto, há réguas de seis, de doze e de vinte e quatro meses. Some-se um quarto detalhe que passa despercebido: a bilirrubina aparece em algumas definições como número absoluto em miligramas por decilitro e, em outra, como múltiplo do limite superior do laboratório. Como o limite superior habitual da bilirrubina total é levemente maior do que o valor absoluto usado, existe uma estreita faixa em que o laudo diz normal, uma régua diz normal e a outra diz falha.

O que fazer com isso é simples e precisa estar escrito. Escolha a régua que o seu serviço adota, registre-a no prontuário, colha os quatro exames no prazo dela e, quando o resultado configurar falha, encaminhe para o serviço que oferece terapia adicional em vez de apenas repetir a receita. A régua não existe para classificar o paciente: existe para disparar uma mudança de conduta.

O prurido não vem da bilirrubina, e o remédio dele tem hora marcada

O prurido colestático é a queixa que mais tira qualidade de vida nesta doença, e a primeira coisa a desfazer é a associação automática com icterícia. Ele aparece em paciente anictérico, não acompanha o nível de bilirrubina e pode ser intenso com bilirrubina normal. Tratar o prurido é uma decisão independente de tratar a doença de base, e o documento europeu registra que não há evidência de que o ursodesoxicólico alivie a coceira colestática — chega a mencionar relatos anedóticos de piora paradoxal com a introdução do fármaco, fora da colestase da gestação.

A primeira linha é a colestiramina, uma resina de troca aniônica administrada por via oral. O documento reconhece que a base de evidência é limitada, em boa medida porque o medicamento entrou em uso antes da era da medicina baseada em evidência, e registra que a má tolerância pelo sabor é um problema real, às vezes contornável misturando o pó a suco de fruta.

Há um detalhe de prescrição que decide se o tratamento funciona, e ele não é sobre dose: é sobre horário. Quando os dois medicamentos são usados juntos, o ursodesoxicólico e a colestiramina devem ser separados por um intervalo mínimo de quatro horas, para evitar que a resina se ligue ao ácido biliar e anule seu efeito. Prescrever os dois no mesmo horário é prescrever um deles no lixo, e o paciente atribuirá a falta de resposta à doença.

A segunda linha é a rifampicina, com base de evidência descrita como forte e eficácia mantida por até dois anos de tratamento. O preço é conhecido: descoloração de urina, lágrimas e outras secreções, e relatos de hepatite por droga e disfunção hepática significativa após dois a três meses de uso. Quem prescreve rifampicina para prurido assume o compromisso de reavaliar as enzimas nesse intervalo.

Depois vêm antagonistas de opioide e sertralina, com experiência clínica descrita como decepcionante por muitos clínicos, e o próprio documento enfatiza esgotar colestiramina e rifampicina antes de recorrer a eles. E há uma recusa explícita que costuma surpreender: anti-histamínicos, ondansetrona e fenobarbital não são recomendados — por falta de eficácia, eficácia limitada e perfil de efeitos adversos, respectivamente. Anti-histamínico para prurido colestático é gesto reflexo, não conduta.

A colestase crônica cobra do osso, e a cobrança é silenciosa

Doença colestática crônica é fator de risco para doença óssea metabólica, e a perda acontece sem sintoma até a fratura. O documento europeu trata isso como parte do cuidado de rotina, não como complicação a ser aguardada: recomenda avaliar clinicamente o risco de osteoporose em todos os pacientes colestáticos, com ênfase nos fatores reversíveis e na orientação de estilo de vida. O raciocínio é o mesmo da colestase em si — a bile que não escoa reduz a absorção intestinal de gordura, e com ela a das vitaminas lipossolúveis.

A medida objetiva é a densitometria óssea, e o momento de pedi-la é a apresentação, não o seguimento tardio. A recomendação é de avaliação por densitometria na doença hepática colestática crônica já na primeira avaliação, com rerrastreio que pode chegar a ser anual, conforme o grau de colestase e os demais fatores individuais de risco. Um intervalo mais longo, de até alguns anos, cabe apenas em quem tem risco basal baixo.

A suplementação vem em seguida, e o documento é honesto sobre sua base: recomenda considerar cálcio e vitamina D em todos os pacientes com doença hepática colestática, registrando explicitamente que a recomendação não é baseada em evidência forte. As faixas citadas são de mil a mil e duzentos miligramas de cálcio por dia e de quatrocentas a oitocentas unidades internacionais de vitamina D por dia.

O tratamento farmacológico da osteoporose entra por gatilho definido: bisfosfonato, com o alendronato como o mais respaldado, indicado quando o escore T da densitometria cai abaixo do limiar de osteoporose ou após fratura por fragilidade. Há dado favorável à reposição hormonal em mulheres na pós-menopausa; e há uma proibição específica — a testosterona deve ser evitada no homem, pelo risco de carcinoma hepatocelular.

O resumo operacional cabe num pedido de exames: na consulta em que você escreve o diagnóstico, escreva também a densitometria, o cálcio e a vitamina D, e defina o intervalo de rerrastreio pelo grau de colestase. Adiar a densitometria para quando o paciente tiver dor nas costas é chegar depois da fratura.

Quando a colestase não é colangite biliar primária

Com via biliar fina e antimitocôndria não reagente, o diagnóstico mais frequente passa a ser a colangite esclerosante primária, e o exame que a procura é a colangiorressonância. O documento europeu a descreve como método não invasivo hoje geralmente aceito como modalidade diagnóstica primária na suspeita da doença, com desempenho comparável ao da colangiografia endoscópica e superioridade para visualizar ductos acima de obstruções. O perfil do doente também muda: aqui o predomínio é masculino e a idade, mais jovem.

Há uma ressalva que vale mais do que o exame: casos com alterações leves e sem dilatação ductal podem passar despercebidos na colangiorressonância, e o próprio documento pede cautela para excluir doença precoce com base num exame normal. Existe ainda a forma de ducto pequeno, com quadro clínico, bioquímico e histológico compatível e colangiografia normal — aqui a agulha volta, porque nenhuma imagem fecha o caso.

Quem recebe esse diagnóstico ganha um segundo exame obrigatório, e ele não é do fígado: colonoscopia com biópsias faz parte da avaliação de rotina, porque a colite associada costuma ser leve e às vezes assintomática. Feito o diagnóstico de colite, a recomendação é vigilância com colonoscopia anual com biópsias desde o diagnóstico da doença biliar, porque o risco de displasia e de câncer de cólon é maior do que o da colite isolada.

A colite dessa associação tem fenótipo próprio, e reconhecê-lo evita erro de rótulo: comparada à colite sem doença biliar, ela é mais frequentemente extensa, com envolvimento do íleo terminal e com poupança do reto — o oposto do padrão que se costuma decorar. O risco de neoplasia hepatobiliar, sobretudo colangiocarcinoma, é dramaticamente maior que o da população geral, o que faz do encaminhamento a serviço especializado parte do tratamento.

Faltam dois diferenciais para fechar. Um é a sobreposição com hepatite autoimune, definida por conjuntos de critérios em que ao menos dois de três precisam estar presentes de cada lado, e em que a hepatite de interface na histologia é obrigatória — ou seja, sobreposição sem biópsia não se diagnostica. O outro é a colestase por medicamento, que se investiga pela cronologia da prescrição e se trata retirando o agente. Diante de colestase sem obstrução e sem anticorpo, peça colangiorressonância, revise a lista de medicamentos e encaminhe.

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Esquemas e tabelas

As quatro decisões que o capítulo cobra na ordem em que aparecem na consulta: separar enzima hepática de enzima óssea, decidir se a via está dilatada, fechar o diagnóstico com o par enzima mais anticorpo, e julgar a resposta no prazo certo com a régua declarada.

Origem da fosfatase alcalina: a gama-GT é quem decide

FA alta + GGT alta = origem hepatobiliar; siga o fluxo da colestase. FA alta + GGT normal = origem óssea, placentária ou intestinal (estirão, gestação, Paget, metástase óssea) e o fígado sai da conta. GGT alta isolada não fecha colestase: é inespecífica, sensível a álcool e a indutores enzimáticos. Exigência de tempo: a elevação de FA de origem hepática deve durar ≥ 6 meses para caracterizar doença colestática crônica (EASL 2009).

Via dilatada ou via fina: a bifurcação que decide o serviço

Ultrassonografia abdominal está indicada em todo paciente com FA e GGT elevadas (EASL 2009). Via dilatada = colestase extra-hepática: colangiorressonância ou ecoendoscopia, drenagem quando indicada, e destino em cirurgia do aparelho digestivo; com febre, dor e icterícia, colangite aguda e urgência. Via fina = colestase intra-hepática: o caso fica na clínica e o próximo exame é sorológico. Não há achado ultrassonográfico específico de CBP — a árvore biliar tem aspecto normal.

Fechar sem agulha: quando dois exames bastam

Diagnóstico de CBP com confiança no adulto: FA elevada sem outra explicação + AMA ≥ 1:40 e/ou AMA tipo M2. A biópsia hepática não é essencial nesses pacientes (permite avaliar atividade e estágio). Biópsia necessária quando não há anticorpo específico; útil quando aminotransferases ou IgG estão desproporcionalmente elevadas. AMA positivo com provas hepáticas normais: não trata, não biopsia — reavaliação anual dos marcadores de colestase. AMA presente em ~95% dos doentes; ANA específicos em 25% a 40%; ~50% assintomáticos ao diagnóstico (Conitec 392/2018).

As sete réguas de falha: variável, corte e relógio

Tabela de avaliação de resposta ao AUDC reproduzida no relatório Conitec nº 392/2018, atribuída a EASL 2017, coluna de falha ao tratamento — Rochester (6 meses): ALP ≥ 2x LSN ou score Mayo ≥ 4,5. Barcelona (12): redução ≥ 40% na ALP e ALP ≥ 1x LSN. Paris I (12): ALP ≥ 3x LSN ou AST ≥ 2x LSN ou bilirrubina > 1 mg/dL. Roterdã (12): bilirrubina ≥ 1x LSN e/ou albumina < 1x LSN. Toronto (24): ALP > 1,67x LSN. Paris II (12): ALP ≥ 1,5x LSN ou AST ≥ 1,5x LSN ou bilirrubina > 1 mg/dL. Ehime (6): redução na GGT ≤ 70% e GGT ≥ 1x LSN. Escores contínuos: UK-CBP e GLOBE, ambos aos 12 meses.

Dose do ácido ursodesoxicólico: 13 a 15 mg/kg/dia (EASL 2009). Doses abaixo de 10 mg/kg/dia foram descritas como ineficazes e contaminaram metanálises negativas.

Prurido: colestiramina de primeira linha, com intervalo mínimo de 4 horas em relação ao AUDC; rifampicina de segunda linha, com hepatite por droga descrita após 2 a 3 meses; anti-histamínicos, ondansetrona e fenobarbital não são recomendados.

Osso: densitometria na apresentação e rerrastreio até anual conforme o grau de colestase; cálcio 1000 a 1200 mg/dia e vitamina D 400 a 800 UI/dia; bisfosfonato (alendronato) com T-score abaixo do limiar de osteoporose ou após fratura; testosterona evitada no homem.

Colangite esclerosante primária: colangiorressonância como modalidade primária, mas exame normal não exclui doença precoce; colonoscopia com biópsias na rotina; vigilância anual desde o diagnóstico; pancolite 87% x 54%, íleite de refluxo 51% x 7%, poupança retal 52% x 6%; neoplasia hepatobiliar em 13,3% de coorte sueca de 604 doentes, risco 161x o da população geral.

Sobreposição com hepatite autoimune (critérios de Chazouilleres): CBP — FA > 2x LSN ou GGT > 5x LSN; AMA ≥ 1:40; lesão ductal florida à biópsia. HAI — ALT > 5x LSN; IgG > 2x LSN ou antimúsculo liso positivo; hepatite de interface à biópsia. Exige-se ao menos 2 de 3 de cada lado, e a hepatite de interface moderada a grave é obrigatória.

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Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

O critério de Barcelona: queda de quarenta por cento é resposta ou é falha?

Define o critério como resposta, com texto literal: "a 'good biochemical response' to UDCA defined as a decrease in AP >40% of pretreatment levels or normalization at one year ('Barcelona criteria')". Ou seja: queda da fosfatase alcalina maior que 40% OU normalização, ao fim de um ano, é o que caracteriza boa resposta.

EASL, Management of cholestatic liver diseases, J Hepatol 2009;51:237-267, seção de tratamento da colangite biliar primária

Lista Barcelona sob a coluna de falha ao tratamento, aos 12 meses, com o enunciado "Redução ≥ 40% na ALP e ALP ≥ 1 x LSN". Transcrito assim, uma queda de 40% ou mais da fosfatase alcalina passa a integrar a definição de falha, e a conjunção deixa de ser alternativa para ser aditiva.

Conitec, relatório de recomendação nº 392, outubro de 2018, tabela de avaliação da resposta ao AUDC atribuída a EASL 2017

Na prova

A aritmética resolve sem precisar de terceiro documento: se uma queda de 40% ou mais contasse como falha, melhorar seria falhar, e o critério classificaria como fracasso justamente o paciente que respondeu. O sinal da desigualdade e a conjunção foram invertidos na transcrição — o critério original de Barcelona é de resposta e usa 'menor que 40%' para caracterizar a falha, com 'ou' e não 'e'. Na prova, o enunciado que traz Barcelona quase sempre oferece a queda percentual da fosfatase alcalina em um ano; leia o percentual como resposta e reserve a leitura de falha para as réguas que julgam níveis (Paris e Toronto), não variações. E, na consulta, registre a variação percentual da fosfatase alcalina em relação ao valor pré-tratamento, porque sem o valor de base nenhuma régua percentual pode ser aplicada depois.

A bilirrubina tem dois tipos de corte, e ambos moram dentro da faixa de referência

Usam número absoluto: bilirrubina > 1 mg/dL configura falha, aos 12 meses, tanto na versão I quanto na II. O corte não se refere ao limite do laboratório que emitiu o exame; é um valor fixo.

Critérios de Paris I e Paris II, conforme a tabela reproduzida no relatório Conitec nº 392/2018

Usa múltiplo do laboratório: bilirrubina ≥ 1 x LSN e/ou albumina < 1 x LSN configura falha, aos 12 meses. Aqui o corte é o próprio limite superior da normalidade do método usado, que para bilirrubina total costuma situar-se acima de 1,0 mg/dL.

Critério de Roterdã, conforme a mesma tabela

Na prova

Não é contradição de mérito: é diferença de tipo de corte, absoluto contra relativo. A consequência é real e estreita — entre o valor absoluto de 1,0 mg/dL e o limite superior impresso no laudo existe uma faixa em que o laboratório escreve 'normal', a régua de Roterdã concorda e a régua de Paris já classifica como falha. Duas réguas para a mesma variável, e as duas com o corte dentro do intervalo de referência. Na prova, procure se o enunciado dá o valor de referência do laboratório: quando dá, a questão está pedindo a régua relativa; quando dá só o valor absoluto em mg/dL, está pedindo Paris. Na consulta, transcreva sempre o valor com o intervalo de referência ao lado, para que a reavaliação futura possa aplicar qualquer das duas.

Uma régua é mais exigente em três variáveis, a outra é mais exigente na única que olha

Aos 12 meses, falha se ALP ≥ 3 x LSN ou AST ≥ 2 x LSN ou bilirrubina > 1 mg/dL. São três variáveis, com conjunção alternativa: basta uma estourar. O limite da fosfatase alcalina, porém, é largo — três vezes o limite superior.

Critério de Paris I, tabela do relatório Conitec nº 392/2018

Aos 24 meses, falha se ALP > 1,67 x LSN. Uma variável só, sem aminotransferase e sem bilirrubina, mas com um limite quase duas vezes mais apertado que o de Paris I para a mesma fosfatase alcalina — e com o dobro do tempo de espera.

Critério de Toronto, mesma tabela

Na prova

Nenhuma das duas é uniformemente mais dura, e é isso que faz a comparação valer: Paris I é mais exigente por cobrar três variáveis, Toronto é mais exigente no número da única variável que cobra, e ainda difere no relógio (24 meses contra 12). O paciente com fosfatase alcalina em duas vezes o limite superior, aminotransferase e bilirrubina normais, é respondedor por Paris I e é falha por Toronto — a mesma pessoa, os mesmos exames, veredictos opostos. Paris II, por sua vez, não contradiz Paris I: aperta os cortes de fosfatase alcalina e de aminotransferase mantendo o mesmo relógio e a mesma bilirrubina, porque foi derivado para doença em estágio inicial. Diferença de população, não de mérito. Na consulta, declare a régua escolhida no prontuário e não a troque entre consultas.

O resumo e o corpo do relatório brasileiro contam histórias diferentes sobre a incorporação

Registra: "Deliberação final: Os membros da CONITEC presentes na 68ª reunião ordinária, no dia 04 de julho de 2018, deliberaram, por unanimidade, por recomendar a incorporação do AUDC... Foi assinado o Registro de Deliberação nº 355/2018." E adiante: "A Portaria nº 47, de 16 de outubro de 2017, tornou pública a decisão de incorporar o ácido ursodesoxicólico para colangite biliar".

Conitec, relatório nº 392/2018, caixa de resumo das páginas iniciais

Registra o contrário: na 68ª reunião ordinária, em 05 de julho de 2018, a recomendação preliminar foi de não incorporação, "entendendo que, faltam evidências robustas de eficácia e segurança"; seguiu-se a consulta pública nº 38, aberta em 04 de agosto e com contribuições até 23 de agosto de 2018, com 165 contribuições, das quais 157 (96,0%) discordaram totalmente; só então, na 71ª reunião ordinária, em 04 de outubro de 2018, o plenário recomendou a incorporação, por unanimidade, sob o Registro de Deliberação nº 379/2018; e a decisão saiu na "PORTARIA Nº 47, DE 16 DE OUTUBRO DE 2018".

Conitec, relatório nº 392/2018, seções 7 a 10 do corpo do documento

Na prova

A aritmética decide, e decide contra o resumo. Uma consulta pública que correu em agosto de 2018 não poderia ter sido convocada por uma deliberação final favorável tomada em julho do mesmo ano — consulta pública existe para submeter uma recomendação preliminar, e a preliminar aqui foi contrária. E uma portaria datada de outubro de 2017 não pode publicar uma deliberação de outubro de 2018. O corpo do documento é o que se sustenta: negativa preliminar, reversão após consulta pública e incorporação pela portaria de 2018. O que fica para a prática, e é o ponto que interessa ao paciente: o plenário mudou de posição depois de discutir a importância de critérios de uso e de acompanhamento da resposta ao tratamento, e a portaria incorpora o medicamento mediante protocolo clínico. Quem prescreve ácido ursodesoxicólico no sistema público prescreve, portanto, junto com a obrigação de registrar a resposta bioquímica no prazo.

06

Caso resolvido

Mulher de 54 anos, hipertensa, comparece à unidade básica com exames de rotina pedidos há três meses e repetidos há uma semana. Nas duas coletas: fosfatase alcalina 412 U/L (referência até 120), gama-GT 289 U/L (até 38), AST 44 U/L, ALT 51 U/L, bilirrubina total 0,9 mg/dL, albumina 4,1 g/dL, plaquetas 232.000/mm³. Refere cansaço e coceira difusa há cerca de um ano, sem icterícia. Nega álcool e uso de medicamentos além do anti-hipertensivo. Exame físico com escoriações de coçadura e xantelasma; fígado e baço não palpáveis. Ultrassonografia de abdome: fígado de dimensões normais, sem esteatose, vias biliares intra e extra-hepáticas não dilatadas, sem cálculos.
Passo 1 — Nomeie o padrão antes de nomear a doença
Fosfatase alcalina em quase 3,5 vezes o limite superior com gama-GT em mais de 7 vezes, e aminotransferases pouco alteradas: o padrão é colestático, e a gama-GT alta já resolve a origem — é hepatobiliar, não óssea. As duas coletas separadas por três meses cobrem parcialmente a exigência temporal de elevação por pelo menos seis meses; o cansaço e o prurido de um ano completam a cronologia. Não é achado agudo.
Passo 2 — Use o ultrassom só para a pergunta que ele responde
Vias não dilatadas afastam obstrução mecânica e mantêm o caso na clínica. O que o exame não faz é apontar a doença: não há achado ultrassonográfico específico da colangite biliar primária e a árvore biliar aparece normal. Ausência de dilatação, aqui, é o sinal verde para a sorologia — e não motivo para repetir imagem ou pedir tomografia.
Passo 3 — Peça o anticorpo e aceite fechar sem agulha
O exame seguinte é o anticorpo antimitocôndria. Em mulher de 54 anos com fosfatase alcalina persistentemente elevada sem outra explicação e AMA ≥ 1:40 (ou AMA M2), o diagnóstico se faz com confiança e a biópsia não é essencial — ela só acrescentaria atividade e estágio. O prurido, a fadiga e o xantelasma são coerentes, mas não fazem parte do critério: cerca de metade dos doentes é assintomática ao diagnóstico. Se o AMA viesse não reagente, a rota mudaria para biópsia e para colangiorressonância.
Passo 4 — Prescreva pela balança e marque a data do julgamento
Com 68 kg, a dose de ácido ursodesoxicólico fica entre 884 e 1.020 mg/dia (13 a 15 mg/kg/dia). Prescrever dose fixa sem calcular arrisca cair abaixo de 10 mg/kg/dia, faixa descrita como ineficaz. Junto com a receita saem três coisas: a data da reavaliação em 12 meses, o pedido de fosfatase alcalina, AST, bilirrubina total e albumina para aquela data, e o registro por escrito do valor pré-tratamento da fosfatase alcalina — sem ele, nenhuma régua percentual poderá ser aplicada depois.
Passo 5 — Trate o prurido como problema à parte, com horário
O ursodesoxicólico não alivia a coceira. A primeira linha é colestiramina, e a prescrição precisa separar os dois medicamentos por pelo menos 4 horas, sob pena de a resina ligar o ácido biliar e anular o tratamento da doença. Anti-histamínico não entra. Se a colestiramina falhar, a segunda linha é rifampicina, com reavaliação das enzimas em 2 a 3 meses pelo risco de hepatite por droga.
Passo 6 — Feche a consulta com o osso
Doença colestática crônica pede densitometria já na apresentação, com rerrastreio que pode chegar a anual conforme o grau de colestase. Saem na mesma receita cálcio 1000 a 1200 mg/dia e vitamina D 400 a 800 UI/dia. Se a densitometria mostrar osteoporose, ou se houver fratura por fragilidade, entra bisfosfonato. Adiar a densitometria para quando houver dor é chegar depois da fratura.
07

Agora feche você

Dois pacientes retornam no mesmo ambulatório, ambos com colangite biliar primária diagnosticada e em uso de ácido ursodesoxicólico há exatamente 12 meses, com boa adesão. O primeiro, mulher de 58 anos: fosfatase alcalina 232 U/L (referência até 120), AST 38 U/L (até 40), bilirrubina total 0,8 mg/dL (até 1,2), albumina 4,0 g/dL. O valor de fosfatase alcalina antes do tratamento era 640 U/L. O segundo, mulher de 61 anos: fosfatase alcalina 208 U/L, AST 46 U/L, bilirrubina total 1,1 mg/dL (referência até 1,2), albumina 3,9 g/dL; fosfatase alcalina pré-tratamento de 300 U/L.
Passo 1
Classifique a primeira paciente pelas réguas de Paris I e de Toronto, dizendo o resultado de cada uma com os números na mão, e explique por que os dois veredictos podem divergir sem que nenhuma das duas esteja errada.
Passo 2
Aplique à primeira paciente o critério que julga variação percentual da fosfatase alcalina, usando o valor pré-tratamento fornecido, e diga o que aconteceria com esse julgamento se o valor de base não tivesse sido registrado.
Passo 3
Na segunda paciente, diga o que a bilirrubina de 1,1 mg/dL significa para a régua que usa número absoluto e para a régua que usa múltiplo do limite do laboratório, e decida qual conduta você toma diante dessa discordância.
08

Onde a banca derruba

  1. 1Ler fosfatase alcalina alta como doença hepática sem pedir a gama-GT A fosfatase alcalina tem isoformas óssea, placentária e intestinal, e sobe no estirão do adolescente, na gestação avançada, na doença de Paget e na metástase óssea. A diretriz europeia fala em elevação de fosfatase alcalina de origem hepática, e quem demonstra a origem é a gama-GT, que não tem isoforma óssea. O caminho inverso não vale: gama-GT isolada é inespecífica e não caracteriza colestase.
  2. 2Pedir biópsia hepática para confirmar colangite biliar primária já confirmada Com fosfatase alcalina elevada sem outra explicação e AMA ≥ 1:40 (ou AMA M2), o diagnóstico se faz com confiança no adulto e a biópsia não é essencial — ela serve para avaliar atividade e estágio. A agulha volta a ser necessária em duas situações: ausência de anticorpo específico e desproporção (aminotransferases ou IgG desproporcionalmente elevadas). Pedir biópsia fora dessas duas atrasa o tratamento sem mudar o diagnóstico.
  3. 3Tratar o portador de AMA com provas hepáticas normais AMA positivo com fosfatase alcalina, gama-GT e bilirrubina normais não é doença: parte desses indivíduos assintomáticos pode desenvolvê-la, e a conduta recomendada é reavaliação anual dos marcadores bioquímicos de colestase. Iniciar ursodesoxicólico aqui é tratar um anticorpo, não uma pessoa doente — e perder o único marcador que sinalizaria o início real da doença.
  4. 4Prescrever ácido ursodesoxicólico em dose fixa por comprimido A dose é 13 a 15 mg/kg/dia. Doses abaixo de 10 mg/kg/dia foram descritas como ineficazes e explicam parte das metanálises negativas antigas. Uma paciente de 50 kg e outra de 90 kg com o mesmo número de comprimidos garantem que pelo menos uma delas está na faixa que não funciona. Recalcule quando o peso mudar de forma relevante e escreva o cálculo na receita.
  5. 5Prescrever colestiramina e ursodesoxicólico no mesmo horário A resina liga o ácido biliar no lúmen e anula o efeito. A diretriz determina intervalo mínimo de 4 horas entre os dois. O erro não aparece como reação adversa: aparece como fosfatase alcalina que não cai, e leva a trocar de terapia por uma falha que era de horário. Escreva os horários na receita, não apenas as doses.
  6. 6Dar anti-histamínico para prurido colestático É gesto reflexo e está explicitamente fora: anti-histamínicos, ondansetrona e fenobarbital não são recomendados, por falta de eficácia, eficácia limitada e perfil de efeitos adversos, respectivamente. A sequência é colestiramina, depois rifampicina (com reavaliação de enzimas em 2 a 3 meses, pelo risco de hepatite por droga), e só então antagonista de opioide ou sertralina. O ursodesoxicólico não alivia a coceira.
  7. 7Dizer que o paciente respondeu sem dizer segundo qual régua As definições diferem em variáveis (uma só a fosfatase alcalina; outras somam aminotransferase e bilirrubina), em cortes (1,67x contra 3x o limite superior para a mesma fosfatase alcalina) e em relógio (6, 12 ou 24 meses). O mesmo paciente pode ser respondedor por uma e falha por outra. Registre qual régua foi usada e mantenha-a entre as consultas: trocar de instrumento produz melhora e piora que não vieram do doente.
  8. 8Excluir colangite esclerosante primária por colangiorressonância normal Alterações leves sem dilatação ductal podem passar despercebidas, e a própria diretriz pede cautela para afastar doença precoce com base num exame normal. Existe ainda a forma de ducto pequeno, com clínica, bioquímica e histologia compatíveis e colangiografia normal, cujo diagnóstico depende de biópsia. E, feito o diagnóstico, a colonoscopia com biópsias não é opcional: a colite associada costuma ser leve ou assintomática, e a vigilância é anual desde o diagnóstico.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

O par fosfatase alcalina e gama-GT elevadas confirma origem hepatobiliar da enzima, e a persistência por mais de seis meses caracteriza doença colestática crônica. Com via biliar não dilatada, a colestase é intra-hepática e o exame seguinte é sorológico: o anticorpo antimitocôndria, que somado à fosfatase alcalina elevada sem outra explicação fecha o diagnóstico de colangite biliar primária no adulto sem necessidade de biópsia. Investigar obstrução por via endoscópica não se justifica com via fina; a histologia só é necessária na ausência do anticorpo específico; repetir apenas a enzima ignora que a alteração já é persistente; e tratar antes de nomear a doença dispensa o exame que definiria o diagnóstico.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

Sorteando as questões…

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Plano de revisão

em 7 dias

Sem consultar, percorra o fluxo inteiro em voz alta: diga o que a gama-GT resolve diante de uma fosfatase alcalina alta, quanto tempo de elevação a diretriz europeia exige para falar em doença colestática crônica, o que o ultrassom decide e o que ele não afasta, e qual par de exames fecha a colangite biliar primária sem biópsia. Depois enuncie as duas situações em que a biópsia volta a ser necessária, a conduta diante de AMA positivo com provas normais, a dose do ursodesoxicólico em mg/kg/dia e o intervalo mínimo entre ele e a colestiramina.

em 30 dias

Reconstrua a tabela de falha de memória, coluna por coluna: para Rochester, Barcelona, Paris I, Roterdã, Toronto, Paris II e Ehime, diga o relógio em meses, as variáveis que cada uma usa e o corte de cada variável. Em seguida, teste as três consequências: (1) mostre um paciente que é respondedor por Paris I e falha por Toronto, com números; (2) escreva um valor de bilirrubina que o laboratório chama de normal, Roterdã aceita e Paris classifica como falha; (3) explique por que uma queda de 40% na fosfatase alcalina não pode ser critério de falha, refazendo a conta a partir de um valor pré-tratamento à sua escolha.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Mulher de 49 anos chega ao ambulatório trazendo exames pedidos por outro serviço, com fosfatase alcalina e gama-GT elevadas e ultrassonografia sem dilatação de vias biliares. Está assustada porque leu no laudo antigo a palavra cirrose e acha que vai precisar de transplante. Queixa-se de coceira que piora à noite e de cansaço que atrapalha o trabalho. Colha o que falta para decidir se o diagnóstico se fecha sem biópsia, prescreva o tratamento calculando a dose pelo peso, explique por que a coceira precisa de remédio próprio e de horário separado, e diga a ela, sem jargão, o que será medido daqui a um ano e o que esse número vai mudar. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Colestase crônica sem obstrução no adulto – Colestase crônica: o diagnóstico sem agulha e a falha aos doze meses — Preparatório para provas | OsceLabs